Uma propaganda da Coca-Cola mostrou imagens da crise e imaginou sua superação mágica por meio do caráter passional e solidário dos espanhóis, unidos em torno da seleção ILUSTRAÇÃO: MIGUEL BRIEVA
Tudo que é ar desmancha no sólido
Eurocopa 2012, quixotismos e crise espanhola
Germán Labrador Méndez | Edição 71, Agosto 2012
Este artigo, ou crônica, começa com a chegada do autor a Madri no fatídico dia em que se divulgava a notícia de que o governo espanhol, com o agravamento da situação da banca nacional, pedira formalmente ao Eurogrupo o chamado resgate econômico, poucas horas antes de a seleção de futebol campeã da Europa e do mundo disputar a primeira partida de uma Eurocopa em que deveria revalidar o título conquistado em 2008. E, como se essa premeditada coincidência já não fosse bastante significativa, o primeiro-ministro Mariano Rajoy fez questão de ressaltá-la comparecendo como espectador ao primeiro jogo da seleção, um Espanha–Itália que se repetiria na final, como num estranho loop. Naquela primeira partida, Rajoy apareceu com expressão impostada e taciturna, como um pater familias de vida dupla que volta acovardado para casa e só faz fingir. Esse ato sinalizava que o futebol funcionaria como pano de fundo fantástico de todo o teatro encenado pelo governo da nação em junho e julho de 2012, o teatro da venda do Estado e da entrega oficial da soberania ao capital global.
Trata-se de um pano de fundo fantástico, mas, é bom que se diga, também quixotesco, pois o futebol guarda forte correlação com as fantasias e mecanismos que definem a Espanha deste início de milênio. As vitórias da seleção nos últimos anos, depois de décadas de mediocridade e frustração, foram interpretadas como o reconhecimento simbólico da pujança econômica e geopolítica de uma “marca Espanha” que, em 2008, ainda se imaginava como “a oitava economia do mundo” e, pouco antes, se vinculava ao “milagre espanhol”. No início de junho de 2012, segundo essa lógica, enquanto se tentava encobrir a truculenta sequência do resgate, negado e confirmado várias vezes, buscava-se reconhecer sinais interpretativos do destino nacional em cada passo da seleção na Eurocopa, como numa leitura de auspícios. Assim, além da tentativa de oferecer espetáculo em vez de crise, anunciava-se a possibilidade de entender a crise por meio do espetáculo. O que começara como analogia (na realidade assim como no futebol), depois de três semanas de competição, acabaria se realizando como fábula: no futebol o que nos é negado na realidade.
Num texto espirituoso sobre a Eurocopa, o escritor Juan Villoro analisava o esporte como “versão incruenta da guerra e refutação simbólica da economia”. O caso espanhol parece ser mais complicado. Na Espanha da crise, é a economia que hoje se apresenta como uma versão incruenta da guerra, enquanto o esporte funciona como uma refutação econômica do simbólico. Não há nada que expresse melhor a configuração infraestrutural dos anos do boom espanhol do que a organização do futebol, e talvez só sua complexidade possa, por seu turno, gerar um jogo como o da seleção ou do Barcelona: fluido, prodigioso. O futebol, fábrica de paixões nacionais, expressou, em ritmo acelerado, a estrutura dominante da economia e a arquitetura fantástica da nação. Assim, por exemplo, a requalificação dos terrenos da Cidade Esportiva do Real Madrid permitiu, em 2004, a construção dos arranha-céus da Cuatro Torres Business Area, skyline da capital neoliberal, na qual estiveram envolvidos bancos e fundos de investimento, agentes políticos e arquitetos estrelados, tramas corruptas e incorporadoras que hoje nem existem mais.
Na figura do presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, confluem o poder político, o mundo do futebol e do marketing, as redes de televisão, as grandes empresas de infraestrutura e as incorporadoras. Homens como ele se alimentam diariamente de um coquetel explosivo que pôs a economia espanhola na zona de risco crítico em que se encontra. São anos resolvendo uma mesma equação com lucros permanentes: partilha privada da mais-valia dos terrenos urbanos, especulação financeiro-imobiliária e dívida pública. Para entender a confluência total de fluxos de capital e futebol, basta dizer que a antiga “primeira divisão” da liga espanhola hoje tem nome de banco: Liga BBVA.
O coração monetário do mundo espanhol dos anos 2000 está unido por fortes laços de sangue a esses times de sonho, de craques prodigiosos e jogo visionário, que se cristalizam mitopoeticamente numa seleção nacional versátil e sofisticada, de jogadores com tino comercial para a própria imagem e uma aura que mescla o perfil garoto de bairro, movimentos de videogame e ícone cosmopolita. Enquanto a estrutura do mundo dos anos 2000, que fez nascer times e jogadores como esses, se desmanchava no ar, restava entre nós sua seleção intacta, como um enigma, como uma máquina de devaneios póstumos, ou como um frango que corre sem cabeça.
Há algo de misterioso na experiência estética da crise espanhola: ela não se relaciona por enquanto com um imaginário da escassez e da pobreza, condições existentes mas ainda invisibilizadas, e sim com os símbolos de abundância e riqueza que vêm do período de crescimento anterior. Em Tetuán (um bairro madrilenho popular típico), em 2008, em frente à minha casa, já havia idosas que catavam comida no lixo porque sua pensão não era suficiente. Era um fato invisível porque traumático para uma Espanha cuja imaginação democrática se apoia em duas ideias: ser um país coeso de classe média urbana e igual a qualquer outro país europeu. Prova disso é a enorme dificuldade que eu tinha em fazer alguém acreditar nessa história: a velha devia estar louca, me diziam.
A pobreza, na Espanha contemporânea, foi e é insimbolizável. Por isso, o modo de explicar a temporalidade da crise consiste em enumerar a desmedida acumulação material de bens da última década, bens que ainda duram. Prefeituras, bancos e incorporadoras se endividaram irresponsavelmente, mas aí estão todas as coisas compradas nos anos de bonança com as quais agora não se sabe o que fazer. No caso do Bankia, a grande entidade que desabou, a soberania nacional é vendida para evitar que os acionistas majoritários percam seu dinheiro, mas todos os conjuntos de casas que serviram de ativos falsos continuam lá e agora são propriedade do Estado, que também não sabe o que fazer com eles. As casas continuam onde estavam, assim como os trens de alta velocidade, as rodovias privadas com pedágio, os aeroportos sem aviões, como em Ciudad Real, o Porto Desportivo de Valência, as Cidades da Cultura, osestádios de futebol de Hal Foster, os arranha-céus, os parques temáticos… Elefantes brancos dos quais nem a manutenção é possível pagar. Aquelas entidades físicas, espaços, coisas, que foram usadas para expressar relações de valor, sonhos ilimitados de progresso, marcas da presença de fluxos do capital global no país, agora, que já não valem nada, continuam lá, desprovidas de valor de troca e plenas de valor de uso. Por isso mesmo, enigmáticas. Condenadas à ruína quando ainda esperam ser inauguradas. Seria a seleção espanhola uma dessas coisas? Em que sentido ela seria capaz de expressar a mudança de temporalidade por que passamos?
“Vamos mostrar à Europa do que somos capazes quando estamos unidos.” Esse era o slogan de uma propaganda da Coca-Cola no final de maio, de sintaxe bipolar. Nela se intercalavam imagens da crise: prédios residenciais inacabados, manchetes alertando que o número de desempregados superara os 5 milhões, anúncios da alta da taxa de risco para mais de 500 pontos, notícias da perda de confiança internacional na economia espanhola, vídeos da greve geral de 29 de março… A segunda parte da propaganda era um repentino canto à esperança: os torcedores da seleção rasgavam os jornais com más notícias e, em meio a gritos, informava-se que a Espanha é líder mundial em generosidade (doação de órgãos e sangue) e que eles fazem parte de uma ativa sociedade solidária, formada por voluntários e organizações não governamentais. O triunfo do imaterial sobre o material, da moral sobre a economia, pressagiava a imperiosa vitória da seleção. A magia de La Roja (nome jornalístico da seleção espanhola) e a magia da Coca-Colas e fundiriam então, expressando, perante a Europa do capital e dos mercados, a superioridade emocional natural da nação e de seu ethos passional, idealista, que faria desaparecer magicamente os problemas ligados à estrutura econômica do mundo e ao lugar que o país ocupa nele.
Assim se estimulava todo tipo de leituras geopolíticas, com os torcedores desejando, de todo jeito, que a final fosse entre a Alemanha e um país resgatado. De certo modo parecia ativar-se no simbólico o velho conflito entre a “antiga nação espiritual” e as “modernas nações materiais”, mito construído pelos publicistas espanhóis, em 1898, para enfrentar a expansão dos Estados Unidos sobre os últimos restos do império: Cuba, Porto Rico e Filipinas. “Desejo que vocês ganhem, porque nós, espanhóis, precisamos de alguma alegria nesta hora tão complicada. A vitória da seleção daria uma levantada na moral da Espanha inteira.” Com essas palavras, Mariano Rajoy se despediu da “esquadra espanhola”, como um general absurdo que envia estranhos soldados a uma guerra mais estranha ainda.
A experiência estética da crise
Agora, enquanto escrevo este texto, já começaram a chover, em rajadas, as medidas nas quais se traduz o chamado resgate: privatização e desmantelamento dos restos do Estado de bem-estar ainda não consumidos nos quatro últimos anos de temporalidade de crise. Mas passear por Madri naqueles dias de junho era estranho. Porque nunca se sabe o que é a História. Diante da história, assim como diante do amor, ou diante da morte, você nunca sabe exatamente como se espera que se deva sentir. O que eu sentia que devia sentir diante do resgate era algo dramático, como na queda do muro de Berlim, ou no crash de 1929. Ou coisa até pior, algo como a ideia de um misterioso “eles”apertando botões que acionam mecanismos a distância, como drones ou máquinas de aniquilação total, e de estar vivendo de graça nesse meio-tempo entre o relâmpago e a tempestade, entretempo em que transcorreu a Eurocopa. Aquele dia foi como um dia de mudança em que nada muda. Toda aquela estranheza, a anormalidade de uma normalidade obscena onde tudo seguia seu curso natural em meio à indiferença coletiva, me lembrou das páginas em que muitos contemporâneos descreveram a partida das tropas para a guerra cubana de 1898.
Para um emigrante, para um professor nos Estados Unidos, para quem não volta faz algum tempo, digamos uns seis meses, mas que acompanha dia a dia virtualmente o que acontece em seu país, passear por Madri em meados de junho permite ver os avanços físicos de um processo de evaporação, em que os sinais que caracterizaram o período anterior de expansão e triunfo se desmancham no sólido, deixando nada, deixando o nada, em seu lugar. As lojas vazias, esvaziadas, em todos os bairros, e também no Centro, chamavam a atenção. Uma imagem insólita. Vitrines que anunciam que já não há mais nada dentro. Entre elas se destacam as agências bancárias fechadas de repente. Pensando em Žižek, me pareceram uma poderosa metáfora do que aconteceu: mantêm suas logomarcas, sua aparência de bancos, seus símbolos continuam existindo, mas é possível ver perfeitamente através dos vidros que dentro não resta nada, que tudo o que estava lá foi levado para outro lugar e, principalmente, que lá dentro não há dinheiro.
Essas agências bancárias têm uma relação direta com a intervenção financeira. Os bancos não só fecham suas agências, mas fecham também os prédios que possuem. O movimento 15 de Maio, ou 15-M, resumiu a questão num lema: “Espanha, um país de casas sem gente e de gente sem casa.” E, de fato, as cidades estão povoadas de centenas de milhares de casas sem ninguém dentro, enquanto continua crescendo o número de hipotecas não pagas e, com ele, o de despejos. Geralmente, depois que os donos são expulsos, a porta é lacrada com tijolos. Outra imagem dialética, a dessas casas vazias, em que não se pode mais entrar, que arruinaram, cada uma, uma família, e todas elas um país inteiro, mas onde ninguém pode morar e já não servem para nada. Casas vazias cujo interior não pode ser visto, que se relacionam poderosamente com agências bancárias esvaziadas cujo interior se mostra oco.
Os súbitos vazios falam de uma súbita nova experiência estética da cidade, com os símbolos do boom transformados em sinais da crise: continuam sendo a mesma coisa, mas já não significam a mesma coisa. A multinacional sueca IKEA foi um dos pássaros que mais afoitamente vieram se alimentar no lombo do rinoceronte espanhol nos anos de expansão: eram necessárias centenas de milhares de poltronas Poäng, mesas Bjursta e camas Malm para mobiliar as centenas de milhares de apartamentos que eram comprados e vendidos no mesmo ritmo acelerado com que eram inauguradas suas dez filiais peninsulares. Na época, 2007, a IKEA garantia que, com seus móveis, era “sua casa, seu reino” e que com eles você fundaria a “república independente da sua casa”. Agora, em julho de 2012, a IKEA anuncia seus acessórios baratos com o slogan “sua revolução começa em casa”, e suas filiais foram transformadas, à sua revelia, em refeitórios populares, por causa do baixo custo de seus restaurantes, onde uma família pode comer almôndegas por 1 euro. Hoje, em Madri ou em qualquer pequena capital de província, como Pontevedra, a única coisa que se inaugura são casas de penhor, anunciadas com cartazes amarelos e homens-sanduíche que gritam “compro ouro”, convidando o transeunte a vender uma última peça de valor, a aliança de casamento, as medalhinhas da mãe, as riquezas mais íntimas, que encontram seu contraponto público nos pesados cortes em saúde e educação.
Isso é só o começo do processo. Uma nova figura, quixotesca, surgiu nesta terceira semana de julho: um homem que pede esmola e trabalho vestindo uma camisa polo da Lacoste. O jacaré da marca já foi o emblema de certa classe média proprietária, que se imaginava vitoriosa nas escaramuças da pequena especulação imobiliária (peço um empréstimo, compro um apartamento, vendo no ano que vem pelo dobro do preço, repito a transação no ano seguinte, ou o alugo e com o aluguel vou pagando a prestação etc.), mas esse símbolo hoje é exposto na via pública como uma vanitas, metonímia da queda em desgraça, das voltas da Fortuna, queda que deve incitar à piedade e à caridade cristã, e não ao escárnio ou ao riso…
Mas há também outra linguagem. Nas principais avenidas de Madri, em meio à nova indigência e aos novos lugares do vazio, a cidade é ocupada por outros fantasmas: os do aniversário do movimento 15-M, as revoltas cívicas que, em maio de 2011, ocuparam maciçamente os espaços públicos de todas as cidades espanholas, instalando acampamentos, assembleias, oficinas, tribunas, exigindo pacificamente dos poderes públicos uma reforma estrutural das instituições democráticas. A racionalidade de suas propostas (inabilitação de políticos suspeitos de corrupção, articulação de mecanismos de controle democrático das instituições, transparência do gasto público, luta contra a fraude fiscal, nacionalização dos bancos – em contraposição à socialização dos prejuízos –, programas de racionalização do estoque de moradias etc.) contrasta com a total insensibilidade dos representantes políticos. Não só lhes viraram as costas como fizeram exatamente o contrário do que pediam. De lá para cá, a repressão policial aumentou fortemente. Em 31 de dezembro de 2011, licitou-se a compra de 1 milhão de euros em bombas de gás lacrimogêneo. Desde 2009, seis pessoas perderam um olho e uma morreu este ano em consequência do impacto de balas de borracha. Restringem-se os direitos de reunião e manifestação. Multiplicam-se as denúncias de espancamentos e agressões nas delegacias de polícia, que mal são investigadas.
As lojas vazias estão cobertas de cartazes e anúncios variados. Os fantasmas do 15-M estão em suas vitrines. Tentam fazer com que vejamos algo além de um interior vazio. Outras linguagens. Cartazes, adesivos, panfletos sobrepostos, meio arrancados, ainda presentes. Também há pichações e fantasmas de pichações nos muros: “Cadê minha bolsa de estudos?”, “Ladrões”, “Madri = Mordor”, “O fogo anda comigo”. Sinto inquietação diante dessas pichações desbotadas, fantasmagóricas.
O rio da linguagem 15-M, com sua descrição alternativa da realidade, com sua capacidade de imaginar utopicamente outro mundo e pragmaticamente outra crise, outra saída da crise, surge e ressurge pontualmente nas ruas, mas é um rio virtual, que continua nas redes sociais, blogs e páginas web – outros leitos da opinião pública. A figura de Rodrigo Rato (ministro da Economia de Manuel Aznar nos anos do boom, diretor do FMI nos anos da crise financeira mundial, presidente do Bankia de sua concepção até sua quebra programada…) transformou-se numa metonímia da trajetória que ele percorreu. Jovens ativistas, recorrendo a microdoações anônimas e informação confidencial de funcionários do Bankia, abriram um processo contra ele, acusando-o de falsidade e fraude. Em 24 horas, conseguiram milhares de euros e de assinaturas. Muitos dos que tentaram contribuir não conseguiram: o servidor estava sobrecarregado.
Se alguma coisa mudou, definitivamente são as conversas. Nas calçadas e nos cafés, nas ruas, as pessoas falam de coisas que as preocupam. A política voltou à esfera pública plebeia. Apesar da crise, as mesas nas calçadas parecem continuar igualmente cheias de gente.
Essa experiência estética da cidade em crise, fantasmagórica, torna irreal a Madri festiva com a qual ela convive, a Madri das lojas para turistas cheias de camisetas e bandeiras da seleção, a Madri das bancas de revistas abarrotadas de capas aurirrubras. É essa outra cidade que promove marcas esportivas com anúncios de mais de 10 metros na Porta do Sol e em Bilbao, cartazes no metrô ou vídeos em telas enormes na sede dos principais bancos na Gran Vía. A estátua Herói de Cascorro, soldado da guerra de Cuba, também está enrolada na bandeira. Nas fachadas multiplicam-se os pendões aurirrubros, janela a janela com letreiros de “Vende-se”.
Mas não era a mesma magia. Essa Madrid festiva pouco tinha a ver com a cidade da Copa de 2010, infantil, compulsiva, eufórica. Agora havia um vazio. Uma coisa muito triste no ambiente. Durante as duas primeiras semanas, só turistas, garçons, ambulantes e pedintes usavam camisas de La Roja, todos unidos numa mesma estratégia de mercado, num mesmo circuito cromático que organizava a geografia das mesas nas calçadas.
Alguém pichou um muro com tinta roxa, a cor que, combinada com o vermelho e o amarelo, formava a bandeira constitucional da Segunda República espanhola, hoje símbolo de uma democracia desejada. Essa pichação roxa dizia: “Não a La Roja.”
A culpa mesocrática
Logo se viu que a seleção de futebol não era estranha à temporalidade da crise. Passada certa dúvida inicial, o fato foi confirmado de vez por uma partida horrorosa contra a Croácia, ainda na fase de classificação. Porque não se tratava de ganhar, e sim de jogar bem, e essa mais-valia estética era a única coisa que podia reerguer a miragem da compensação moral simbólica do material político. “Somos os únicos que não nos abraçamos ao passar para as quartas de final”, queixou-se o técnico amargamente. Invocando o fantasma da desunião nacional, esse homem que prefere ser chamado Del Bosque queixava-se das críticas recebidas pelo jogo conservador da Espanha, estilo mesquinho, jogo austero, como as próprias medidas do governo. E na se-quência sublinhou: “Passamos de pobres a ricos muito rápido e não damos valor ao que temos.”
Era uma lição de economia moral para as massas. Diante da segurança patriótica de quem acredita merecer tudo, que acredita estar aqui como uma emanação natural de todo o bem do mundo (foi esse o espírito que norteou o horizonte de gastos da nação na última década), Del Bosque nos trazia a memória da escassez, do subdesenvolvimento, a memória de um passado diferente, quando a seleção nacional – e a nação – plantava misérias e colhia fracassos. O discurso da modernização pendente, por fim realizada, teve um papel-chave na construção imaginária da Espanha democrática, e frequentemente se destaca que a Espanha contemporânea executou numerosos cortes identitários (cortes de memória), e entre eles um dos mais fundamentais foi o esquecimento de sua história da pobreza, da história popular, subalterna, da dignidade e da sobrevivência.
Para entender um pouco da crise espanhola, deve-se frisar que a expectativa de um colapso nacional, de uma volta à pobreza, estava completamente fora do horizonte coletivo no começo deste século. Para um espanhol (e um europeu) médio, a pobreza, a crise social, a instabilidade política são coisas que acontecem com os outros, com países africanos ou latino-americanos, mas inconcebíveis entre nós. A ideia de que temos outro passado, uma história diferente, que deveria nos fazer pensar de outro modo, não foi muito popular na cultura hegemônica da democracia. Alguns escritores, como Rafael Chirbes, fizeram disso, justamente, a linha de força de suas obras. É um traço compartilhado nos países do Mediterrâneo, como apontaram o ensaísta Jorge Valadas, sobre Portugal, ou o romancista Petros Márkaris, na Grécia. Em tempos de recuo, as artes performáticas interiorizam esse gesto, como mostra Del Bosque: numa época de contenção e cortes, o estilo será mesquinho, tacanho, sem brilho. Tudo o que cabe exigir do técnico da seleção, assim como do primeiro-ministro, é que apresente resultados, dados, um placar. Não é de sua alçada fazer as pessoas felizes nem satisfazer seu desejo de viver num mundo belo, mesmo durante o tempo ritual de uma partida de futebol.
Mas então, para que jogar um jogo, seja de futebol ou das finanças – o jogo do capitalismo avançado –, se ele nem sequer promete felicidade ou beleza? De um mesmo motivo, lembre-se de sua pobreza passada, se depreendem valorações opostas. O jogo dos últimos meses, o que se está jogando agora, o que joga Del Bosque, é o da moralização da crise, das derrotas. Tenta-se estabelecer os parâmetros do que está certo e do que se fez de errado, que equivale a estabelecer rotas de entrada e saída. Isso porque o slogan “Passamos de pobres a ricos muito rápido” é afim a outros, parecidos mas não idênticos, que vão constituindo o fermento do “senso comum” sobre a crise. Entre eles, o mais conhecido e popular é o dictum segundo o qual “vivemos acima de nossas possibilidades”, que aponta à existência de uma culpa coletiva. Segundo esse bordão, indivíduos e instituições, uns mais, outros menos, teriam consumido aquilo que não tinham, feito o que não deviam e esperado o que sabiam não merecer, e já estava na hora de serem castigados por isso. Um foi de férias para o Caribe; outro comprou um apartamento que não podia pagar pensando em revendê-lo; esse aí, uma Mercedes; aquele tinha três cartões de crédito… Todos culpados de soberba, cobiça, avareza e egoísmo. Como a umidade, esse discurso da culpa coletiva vai-se infiltrando, oferecendo uma economia moral de evidente matriz católica: todos culpados, em maior ou menor medida, talvez, mas dá na mesma, porque o que nos iguala moralmente é a compartilhada condição de pecadores. A saída da crise passa pelo arrependimento, por aceitarmos a penitência que nos impuserem unilateralmente, e assim obter o perdão. Nessa economia moral, o governo encarnaria o papel da Santa Madre Igreja, e os mercados financeiros, a União Europeia e o FMI, o da Santíssima Trindade.
Nos últimos dias, o aumento de impostos para enterros, cinemas e salões de beleza deu o mote para uma série de frases semelhantes nos telejornais. Transcrevo aqui uma especialmente feliz: “A dívida é de todos nós e deve ser paga por todos”, dizia uma mulher de uns 40 anos num salão de beleza no centro de Madri. É óbvio observar que esses chavões, que se infiltram como umidade e se espalham como bolor, mascaram a desigualdade estrutural na distribuição da dívida e no impacto da política de cortes do governo. Quando mais de dois terços da dívida privada correspondem a incorporadoras e grandes empresas cotadas na bolsa pelo índice Ibex 35, chama a atenção que se fale que a dívida “deve ser paga por todos”, mas não de modo proporcional.
Mas quem foi que viveu acima de suas possibilidades? A experiência coletiva do boom – assim como a da seleção, como a da crise – atravessa o corpo social organizando-o conjuntamente, o que dificulta muito colocar-se fora dele. “Não era possível que até os idiotas estivessem fazendo dinheiro”, disse uma jovem basca, baby-sitter diletante na Filadélfia, na discoteca Pachade Nova York. Para as elites sociais da Espanha, a prova irrefutável de que a conjuntura atual é uma crise moral coletiva, fruto de um pecado social nefando, reside no fato de que até os mais idiotas podiam dar-se ao luxo de fazer viagens ou ter carros que, até então, só os mais espertos podiam pagar. A economia política da crise funciona como uma dessas brincadeiras de criança em que os mais fracos perdem: batata quente, cabra-cega, dança das cadeiras… todos brincam da mesma coisa, mas no fim há sempre um, o burro, que fica sem cadeira. E dá rigorosamente na mesma se o perdedor tentou ou não se sentar numa.
“Não vamos pagar sua crise!” A tevê não mostra os saltos, encontros autônomos de indignados no espaço público, em praças, em frente à sede de partidos políticos ou de instituições do governo, gritando essa e outras frases. Mas a realidade é que eles também já começaram a pagá-la.
No country for Nobel Prizes
Sempre resta um horizonte para a redenção futura. Neste caso, as mensagens de penitência são acompanhadas de suaves cânticos de salvação, projetados num futuro distante, muito distante, no espaço-tempo. “Nós podemos” era o lema obamaniano da seleção na Copa de 2010, e essa ideia continua a circular como um mantra, afirmando hoje que a base para futuras (e muitas vezes imateriais) vitórias reside na unidade e na vontade comum – além do bom comportamento. A solução volta a cair na órbita teológica: somente a graça pode nos salvar de nossos próprios atos. E essa está relacionada com uma imaginação particular do nacional: o quixotismo.
Uma das partidas mais nefastas da Eurocopa confrontou duas versões da mesma crise europeia: Espanha e Portugal. Lá reapareceram todos os fantasmas do jogo ruim. A política de austeridade esportiva resultou em paralisia: não havia boa movimentação em campo, o que dificultava o entrosamento dos jogadores, a criação de oportunidades, trocas, economia. A falta de posse de bola, ou seja, de crédito, ameaçava levar o sistema tático espanhol ao colapso. Por fim, a eliminação de uma das duas economias deficitárias da zona do euro foi decidida nos pênaltis, e a atuação resoluta dos espanhóis decidiu o encontro a seu favor. Na semana que se seguiu, circulou intensamente na internet e nas redes sociais um vídeo com as reações de certo jornalista esportivo, Tomás Roncero, conhecido por sua espontaneidade na gestão das emoções e pelas constantes alusões à genitália masculina como sede mitológica da “espanholidade”. Palavras dele:
Nós somos a seleção espanhola, recuperando o orgulho perdido, como país, porque estávamos ganhando a Eurocopa sem emoção. […] A Espanha, por sua genética, é pura emoção. […] Essa é a história da nossa Espanha, que vibra, e não é dizendo “somos todos cientistas”. Não somos um povo ganhador de prêmios Nobel. Não servimos para essas coisas. Não temos vontade nem capacidade de passar o dia inteiro quebrando a cabeça. Não somos tão frios. Sempre nos deixamos levar pela emoção, pelo coração. […] Por isso estamos na final de Kiev. E contra um grande rival. E agora os alemães estão com medo de nós. Porque a verdadeira Espanha agora acordou.
Vemos aí reativado todo o programa ideológico residual do nacionalismo espanhol, com uma densidade preciosista já quase esquecida. O que para Roncero é o DNA da nação é, na realidade, um dispositivo cultural característico da modernidade espanhola, que, ao se confrontar com uma situação materialmente exigente, típica das fortes mudanças de ciclo do capitalismo, responde propondo uma implementação simbólica, uma hipercorreção imaginária. Trata-se da quixotização: uma fantasia coletiva que inaugura a leitura do presente em chave identitária, apresentando a Espanha como um país da paixão e os espanhóis como líderes mundiais do coração. Que importa a densidade do sólido ante os impérios do ar? Que importam a “perda” de Cuba, o aumento da taxa de risco, a corrupção política e a queda na expectativa de vida quando se é dono de um império cultural de vastos horizontes, criador de uma das línguas mais faladas do mundo? Trata-se de mitos nacionalistas muito arraigados, os que argumentam em favor de uma “Espanha de verdade”, cujas façanhas podem ser lidas em sua “história”, baseada na superioridade simbólica, no capital mágico, imaterial. E num repúdio aristocrático da modernidade capitalista.
Segundo esses ideólogos, a Espanha não é uma nação de cientistas. Sem querer, Roncero mostrou outra via de análise da crise espanhola, a que questiona o modelo produtivo da última década, que simplesmente acelerou as condições do “longo ciclo” de que falam os economistas do Observatório Metropolitano de Madri, em livros como Fin de Ciclo ou La Crise que Viene (ambos publicados pela editora Traficantes de Sueños e disponíveis para download gratuito). A “necessidade de mudar o sistema produtivo” é mais um dos fantasmas que vagam pelos ermos espanhóis cheios de condomínios, conjuntos habitacionais e cidades-dormitório inacabadas, com a consciência de que existe um capital humano de cientistas, especialistas, profissionais que emigraram para outras latitudes, pondo sua formação a serviço de outras empresas e países, e que, sem esses conhecimentos e esses profissionais, não é possível ser mais do que um gigantesco posto de serviços, uma área de descanso situada ao sul da Europa.
Na perspectiva de Roncero, a saída quixotesca da crise passaria por assumir o que somos: um país dedicado aos tijolos, à especulação, ao turismo, e morrer sendo isso, mas vibrando, muito emocionados. O problema é que a citação anterior não é um simples trending topic, e algumas das medidas econômicas adotadas pelo atual governo mostram que Roncero é apenas sintoma de uma fantasia compartilhada, que estimula a urbanização dos últimos trechos de litoral virgem, os fortes cortes no orçamento para pesquisa e universidades, a aposta num modelo cultural de signo mercantil, a privatização das loterias públicas (verdadeira fábrica de sonhos nacional-quixotescos)… Mas de todas essas fantasias, há uma especialmente inquietante e provável, a construção da EuroVegas, um macrocomplexo de arranha-céus com cassinos, em Madri, que seria um paraíso fiscal legalizado, financiado com verbas públicas e presenteado ao magnata do jogo Sheldon Adelson, uma ilha com leis diferentes no coração da península. Uma zona franca capaz de simbolizar explicitamente as relações entre neoliberalismo, Estado e nação na Espanha atual, onde a metáfora e o referente são a mesma coisa, pois, neste país, Las Vegas não há de ser construída no meio do deserto, mas em sua própria capital. Naqueles dias de Eurocopa, uma delegação de Adelson visitou em segredo possíveis terrenos.
Roncero estava chorando ao gritar aquelas palavras, aos soluços, como se com elas apelasse ao que há de mais íntimo e sagrado.
Os internautas que retuitaram o vídeo morriam de rir.
O mito quixotesco é tragicômico.
A final não é o final
No dia da final, a fantasia aurirrubra da Madri festiva foi acionada de improviso e, do meu ponto de vista, com sucesso. As bandeiras da Espanha se multiplicaram, amarradas no pescoço ou, nas mulheres, como um pareô. A moda masculina da celebração propunha polos vermelhas ou, para os rapazes, uniforme esportivo. Para as garotas, festival escarlate em tons contínuos e complementos amarelos, do tipo vestido longo carmim com cinto açafrão, e a infalível bandeirinha pintada no rosto. O consumo de batom disparou entre domingo e segunda-feira. Eros comemorativo: batom Spanish Red nos lábios era outro modo de encarnar a bandeira nacional. A tomada da cidade durou dois dias, o segundo com colapso do trânsito e metrô lotado, apesar do novo aumento das passagens, aproveitando a distração geral. A elegância da partida final, em que foi reativada a magia estética da seleção, acabou rendendo a população resistente diante do retorno quixotesco de sua equipe campeã do mundo. Assim ficou cristalizado nas manchetes de jornais e revistas: “A seleção espanhola faz história” (Marca), “A imprensa mundial se rende a La Roja” (Sport), “Uma exibição para a eternidade” (El País), “Mito eterno” (El Mundo). Uma reportagem de primeira hora feita pelos jornalistas do programa La Tuerca, da emissora autônoma Tele K, de Vallecas, fechada há poucas semanas pelo governo de Madri, dava a medida da penetração da matriz quixotesca: “Não podiam ter negociado o resgate com a Alemanha?” “Não, porque os alemães são superiores a nós em matéria de economia, portanto é melhor ganharmos a Eurocopa, que os deixa mais putos da vida, e eles não têm o que fazer.”
O ensaísta espanhol Sánchez Ferlosio afirma que não existe momento de maior plenitude para um povo que o da vitória. Mas desta vez a satisfação foi efêmera. Dois dias depois, os letreiros de “imóvel à venda” e as bandeiras da Espanha continuam lado a lado nas sacadas, lembrando que era isso o que nos restava. Nas duas primeiras semanas de julho, os telejornais tentaram insistentemente acionar novos remakes da vitória, jogos da seleção Sub-19, treinos do time olímpico… Mas não parece que haja muito mais combustível para nos fornecer as maciças doses de nacionalismo unitário necessárias para manter o descontentamento e a indignação social sob controle.
Seriam necessárias imensas reservas, pois ato contínuo disparou-se um novo ciclo de eventos, a partir das recentes decisões governamentais de executar uma série de medidas radicais em troca do resgate financeiro da banca espanhola, que a população não sabe se deseja. Quando o Parlamento anuncia as medidas (segunda redução do salário dos funcionários públicos, do seguro-desemprego, aumento de impostos sobre o consumo…), os deputados batem palmas. Ouve-se um grito no plenário: “Que se fodam.” Era Andrea Fabra, filha do ex-presidente da Assembleia de Castellón, Carlos Fabra, afastado por corrupção, e idealizador de um famoso aeroporto sem aviões, com todas as suas instalações preparadas, mas sem uso algum, onde por estes dias será inaugurada uma colossal estátua com sua efígie, de 24 metros de altura (dois terços do Cristo Redentor) e com um avião de aço saindo da testa.
Como em A Carta Roubada, de Poe, o inventário da decomposição está à vista de todos. É publicado nos jornais. Enquanto o número de suicidas aumenta e há pessoas que se imolam como bonzos e indigentes que morrem devorados por matilhas de vira-latas em Mataró, nos tribunais faltam até canetas e há listas de espera para conseguir tôner de impressoras. O governo aprova uma anistia fiscal para legalizar a lavagem do dinheiro ganho de modo escuso nos últimos anos, ao mesmo tempo que ex-dirigentes das regiões autônomas são acusados ou condenados por malversação de recursos. Eminentes membros dos principais partidos políticos veem-se envolvidos em imensas redes de corrupção. O presidente do Conselho Geral do Poder Judiciário tem de pedir demissão porque se descobre que gosta de passar as férias em Marbella à custa do dinheiro público. O rei desaparece depois de fraturar o quadril caçando elefantes em Botsuana, convidado por um misterioso xeque do petróleo. Um manuscrito único (o Códice Calixtino) aparece na casa do eletricista da Catedral de Santiago de Compostela, junto com 600 mil euros de que ninguém deu por falta numa catedral onde o dinheiro é movimentado, literalmente, em carrinhos de mão. Nessa espiral sem limites, voltam a ecoar as palavras do primeiro-ministro: “Nós, espanhóis, não podemos decidir. Não temos essa liberdade.” De todas as mutações da linguagem política do nacionalismo espanhol, essa é a que mais me espanta: a que propõe como tarefa patriótica a renúncia coletiva à soberania nacional. Enquanto o esporte funciona como uma refutação econômica do simbólico, a economia quer-se apresentar como uma versão incruenta da guerra.
A experiência da Grécia e de Portugal permite afirmar que a destruição das classes médias e de seus sistemas públicos de direitos é a consequência prevista das políticas atuais. O resgate logo exigirá um novo resgate. Produz-se, no espaço socioeconômico, o mesmo efeito de desertificação que a península sofre no plano ecológico, depois de anos de incêndios e gestão não sustentável. Como resultado do nosso crematório, essa espiral autodestrutiva na qual se consome a cobertura social lentamente aflora a rocha dura, desértica, do século XX, com sua história de violência de Estado e ordem pública.
Na quinta-feira, 12, quando mal se passara uma semana do desfile da seleção vitoriosa, uma marcha diferente teve lugar em Madri, sem patrocínio de bancos, governos ou empresas, sem carros abertos nem líderes políticos. As forças de segurança estavam confrontadas a eles, não os protegiam. Tampouco havia multidões para recebê-los como heróis. Em vez de acender luminosos, as autoridades apagaram todas as luzes do Centro de Madri. A Porta do Sol ficou às escuras.
Chegava à Porta do Sol uma marcha de mineiros. Estão há vários meses em greve, deflagrada quando souberam que os subsídios que o setor recebe iam ser extintos, significando o desaparecimento do modo de vida de seus vales e o futuro de sua comunidade. Entre as diferentes mobilizações que realizaram (incluindo o enclausuramento nas minas) está essa marcha a pé, das bacias mineiras até a capital. Quando entraram na praça, tudo estava às escuras, mas eles acenderam as lanternas de carbureto de seus capacetes. Como bem disse um fotógrafo com sua imagem, pareciam vagalumes.
Este texto está atravessado de e-mails e conversas de telefone ou bar com uma boa seleção de pessoas: Agustina Monasterio, David Vegue, Ángel Loureiro, Ana Fernández Cebrián, Miguel Mosta, Cristina Balbas, Elena Delgado, Eduardo Seco, Alicja Wencel, Antonio Labrador, Lidia Labrador, Lidia Méndez, Ignacio Méndez, María Fernández Salgado e Rafael SMP. Também devo a Pablo Jarauta, Miguel Méndez, Emilio García, Javier Méndez, Juan Gutiérrez e Sergio Pereira, junto com quem, além disso, assisti às partidas naqueles estranhos dias contados. Agradeço a Arcadio Díaz Quiñones por me pedir as crônicas transatlânticas que deram lugar a este texto. E a Pedro Meira, por sua curiosidade cúmplice e alcoviteira, mãe da criança.
