"Como a imprensa pode ser baixa ─ em especial a inglesa. São maldosos, dissimulados, petulantes e provincianos. Não têm aquela alegria pornográfica dos italianos. São apenas velhacos." FOTO: BERT STERN_1962
“Eu não me interessava por nada comum”
Os relatos íntimos de um grande ator anterior à era da celebridade instantânea
Richard Burton | Edição 84, Setembro 2013
Em telegrama a seu advogado, que lhe perguntara se estaria escrevendo uma autobiografia, o ator inglês RICHARD BURTON respondeu: “Meu diário é um bem exclusivamente pessoal e não é lido por ninguém salvo Elizabeth. Por razões óbvias, não é publicável, a não ser em versão emasculada daqui a uns 100 anos, quando estivermos todos mortos. Eu mesmo nunca o releio. É um mero exercício cotidiano para mitigar a frustração.”
Quando morreu, em 1984, Burton tinha 58 anos. Havia se casado cinco vezes – duas delas com Elizabeth Taylor – e deixara centenas de páginas que cobriam todo o seu histórico de galã de cinema e teatro e frequentador do jet set internacional. Contudo, não é do mundo glamouroso das celebridades que vem a surpresa maior de seus diários. Publicados em 2012 pela editora da Universidade Yale, eles revelam um homem inteligente e culto que trocaria todos os holofotes pelo sossego de sua biblioteca nas montanhas suíças, onde fixou residência para escapar do fisco de Sua Majestade. A mãe de Burton era garçonete e o pai trabalhava nas minas de carvão do País de Gales. Tiveram treze filhos. Richard, o décimo segundo, virou o “milionário beberrão” que, em luta constante com as potencialidades não realizadas de seu talento e de sua vida, tinha igual prazer em adquirir uma gramática húngara ou em comprar um avião para presentear a sua amada Elizabeth.
JANEIRO DE 1965
1º, SEXTA-FEIRA, GSTAAD_Recuperado da orgia. Li a Enciclopédia Britânica com E.[1] Ela é uma boa menininha. Ontem à noite fui buscar Sara [mãe de Elizabeth] no Palace Hotel, rodopiei com ela nos braços e fiz charme: “Eu odeio as Velhas!”
4, SEGUNDA-FEIRA_Ida ao Consulado em Berna para me registrar e também à polícia em Saanen para obter o permis de séjour. E sem condições de ir. De madrugada, ela deu de cara com a porta aberta do armário da cozinha. Olho roxo para ninguém botar defeito. Nunca vão acreditar que eu não dei um soco nela – é a reputação de que gozo –, então resolvemos dizer que ela levou um tombo esquiando.
MAIO DE 1965
6, QUINTA-FEIRA [letra de Elizabeth]_Marido, uma doçura comigo. E eu sei como ele odeia “gente doente” e evita todo e qualquer sinal de dor nas pessoas de que ele gosta e ama. Mas comigo tem sido maravilhoso. Não para de me mimar. Eu adoro! Talvez (foi o que disseram), depois de outra operação, eu possa lhe dar um filho. É o que eu quero mais que tudo no mundo. Por favor, faça com que ele saiba que nada vai acontecer comigo. Por favor, faça com que ele diga “Sim”. (Por favor, Deus.)
16, DOMINGO [letra de Elizabeth]_Tive que ir sozinha ver Adeus às Ilusões![2] Não é tão ruim quanto eu pensava. Para mim R está melhor do que nunca (ele é absurdamente bonito – e sexy) e diz as falas mais banais e vulgares de um jeito que elas se tornam profundamente comoventes e verdadeiras – ninguém mais no mundo poderia fazer o que ele faz. Me fez chorar. Também não me envergonho da minha atuação – mas só quando contraceno com ele. Richard nos faz parecer melhores do que somos, a todos nós.
17, SEGUNDA-FEIRA [letra de Elizabeth]_Era para eu ter feito mil coisas hoje – como comprar roupas (e outros trecos). Coisas que eu normalmente adoro, que sou viciada em fazer – comprar roupas e joias. […] Mas fizemos outro tipo de coisa. Uma coisa mais bonita que tudo no mundo. Meu Deus como foi bom! Depois jantamos tarde no Méditerrannée e falamos sobre tudo o que faremos na nossa lua de mel – agora já são quase cinco anos. Cada dia melhor!
18, TERÇA-FEIRA_Primeira noite de lua de mel (?) dirigindo o Rolls-Royce para sair de Paris. Seguidos durante um tempo por dois caras da imprensa. E está de franjinha. Ainda não decidi se gosto ou não. Está se comportando como se para ambos fosse realmente o primeiro casamento. Preciso tomar cuidado. Isso pode virar idolatria.
22, SÁBADO_Mau dia. Acordei de péssimo humor. Li o roteiro de [Quem Tem Medo de Virginia] Woolf ao sol e fui dar uma volta com os meninos e Liza[3] pelos arredores de Gstaad. Cansaço nas pernas. Fui ao Olden com E. Comecei a implicar com ela – em casa, jantar a seco – e aí desembestamos num arranca-rabo sem freio. Dormi sozinho! Idiotas!
MARÇO DE 1966
18, SEXTA-FEIRA, ROMA_Almoço em casa com Zeffirelli. […] Depois do almoço, coletiva de imprensa. As respostas cretinas de sempre às inevitáveis perguntas cretinas. Que gente chata. […] Preciso reler o roteiro e a versão original da Megera[4] antes de segunda-feira.
30, QUARTA-FEIRA_Agonia de Franco Z. quanto ao meu figurino inicial. Só espero que ele não comece a aporrinhar quando começar a filmagem. Vão trocar ou adaptar o traje escolhido. Bem que eu queria ter o apreço de Larry [Olivier] e John [Gielgud] – na verdade, da maioria dos atores – pelas provas de figurinos – aquele enjoo dos ajustes, o frisson do põe e tira e todos os fricotes associados.
ABRIL DE 1966
12, TERÇA-FEIRA_Atrasado hoje, serei breve. Telegráfico. E dá entrada amanhã no hospital para curetagem. Veio almoçar comigo, ficou enjoada e meio tonta. Já em casa, sangramento. Coitadinha da minha menina. Gritei com ela e zanguei por ela estar “fora de forma” por falta de disciplina, por beber demais. Acho que eu estava falando de mim mesmo – à parte o medo por ela. Deus queira que amanhã passe rápido.
SETEMBRO DE 1966
24, SÁBADO_Coisas que aconteceram enquanto estas páginas continuavam em branco: Monty Clift[5], talvez o melhor amigo de E e com quem ela estrelaria O Pecado de Todos Nós dentro de um mês, morreu de um ataque cardíaco fulminante em Nova York. Morreu dormindo. O companheiro, enfermeiro e mordomo de Monty, muito gentil, mandou para E um lenço que Monty adorava, recém-comprado em Paris, um delicado branco sobre branco. E para mim… o sabonete favorito de Monty! Devo eu usá-lo ou preservá-lo?
OUTUBRO DE 1966
11, TERÇA-FEIRA_Soube que a família Churchill quer que eu retrate Winston C. no cinema. E De Laurentiis e John Huston querem que eu interprete Napoleão. Já encarnei Alexandre, o Grande, Marco Antônio e santo Tomás à la Beckett. Vou começar a ter delírios de grandeza por procuração.
20, QUINTA-FEIRA, POSITANO_Depois do almoço, E foi provar os figurinos para O Pecado de Todos Nós. O filme se passa em 1948 e as roupas da época são medonhas. Huston é um simplório. Mas se considera um gênio. Um pavão mentiroso. Astuto como ele só.
NOVEMBRO DE 1966
2, QUARTA-FEIRA, ROMA_Passei os dois últimos dias mais ou menos bêbado. Não sei por que, mas isso me deu um prazer imenso. Não cheguei a causar grandes estragos, a não ser pelo fato de que fui grosseiro com Bob Wilson[6] na segunda e ontem ele passou o dia de cara amarrada. Também dei uma cantada leve em Karen, a babá da nossa Maria,[7] mas me desculpei no ato e fui direto contar a E, que achou engraçado, mas provavelmente ofensivo a K. Pedi desculpas de novo no dia seguinte, na frente de E. […] Também ataquei Marlon[8] por obrigar [o produtor] Ray Stark a tirar as botas para provar que o coitado usa salto postiço. Acusei Marlon de fazer a mesma coisa e eu próprio usei na Megera para parecer mais alto.
3, QUINTA-FEIRA_A imoralidade de Marlon, sua atitude daí decorrente, é clara e honesta. Desconfio que seja genuinamente um bom homem e ele é inteligente. Tem profundidade. Não por acaso é um ator tão arrebatador. Está sempre representando, claro, e finge ser mais distraído do que é de fato. Já notei que muito pouca coisa lhe escapa.
17, QUINTA-FEIRA_Acabo de ler Tread Soflty for You Tread on My Jokes, título pavoroso de Malcolm Muggeridge. Há o argumento de que a pornografia pode transformar um homem num maníaco sexual ou num pervertido. Bem, até onde sei eu sou um homem sexualmente potente, mas ela não fez de mim um viciado em sexo, um assassino sexual, um sádico ou um masoquista, e eu leio esse troço há anos – no mínimo vinte. Muggeridge cita Kingsmill[9] para dizer que o ato de fazer amor é burlesco e repulsivo. Fale por si, Kingsmill. Eu amo essa nojeira e essa comicidade.
JANEIRO DE 1967
10, TERÇA-FEIRA, COTONOU, REPÚBLICA DE BENIM, EX-DAOMÉ[10]_Ontem fomos ao palácio para sermos recebidos pelo presidente, que todos chamam de Mon General. É muito preto (casado, porém, com uma branca; tem sete filhos), 1,90 metro de altura, pernas ligeiramente arqueadas, corpulento. Usava roupas mal cortadas, ao contrário dos membros de seu gabinete, vestidos impecavelmente. Pelo que sei, coup d’état é a regra por aqui, como na maioria dos novos estados africanos, de modo que ele não será o chefão por muito tempo. Há algo como uma ditadura no país – quando perguntei quantas cadeiras havia no Congresso, ele respondeu: Aucune. Ooops! Ando loucamente apaixonado por E, o que é diferente de amá-la como sempre, e minha vontade é fazer amor com ela de cinco em cinco minutos.
MARÇO DE 1967
31, SEXTA-FEIRA, CANNES/CAP FERRAT_Segunda-feira tomamos um drinque no Palácio de Mônaco e fomos depois ao Hotel de Paris para um banquete em prol do Hospital Anglo-Americano, no qual éramos os convidados de honra. Passamos umas três semanas em Paris antes de vir para cá. Ficamos no Plaza Athénée, de longe o melhor hotel que conhecemos em Paris, com um esplêndido restaurante. Coisas a destacar: nós dois fomos indicados ao Oscar por Virginia Woolf. O filme recebeu treze indicações. […] Jantamos com o duque e a duquesa de Windsor, que mais tarde vieram ao nosso apartamento no Plaza. O duque e eu entoamos o hino nacional de Gales em atroz harmonia. Com muita deslealdade, referi-me à rainha como “sua atarracada majestade” e aparentemente nem o duque nem a duquesa se incomodaram.
MAIO DE 1967
21, DOMINGO, A BORDO DO ODISSEIA, PORTOFINO_Chegamos hoje de manhã da Córsega, onde ficamos quase uma semana. […] Vamos comprar este iate. Vai nos custar 220 mil dólares, além de 40 ou 50 mil em reformas.
24, QUARTA-FEIRA, BAÍA DE PORTOFINO_(E ansiosa para que eu escreva sobre ela, então aí vai: Ela é uma simpática gordinha que adora mosquitos e odeia galeses com acne pustulenta, detesta barcos e adora aviões, tem olhinhos cor de groselha e seios diminutos e nenhum senso de humor. É puritana, pedante e dolorosamente preocupada consigo mesma […])
JUNHO DE 1967
1O, QUINTA-FEIRA, BAÍA DE PORTOFINO_ Na terça vieram todos a bordo. Rachel tomou outro porre monumental e se tornou absolutamente incontrolável. Insultou Rex,[11] sexual, moral e fisicamente, e de todas as maneiras possíveis. Deitou no chão do bar e latiu feito um cachorro. Uma hora começou a masturbar o seu bassê, um velho, sujo e dócil animal chamado Omar. E lhe deu uns conselhos, eu dei, Rex deu. Nada surtiu efeito. […] Cristo.
JULHO DE 1967
20, QUINTA-FEIRA, GSTAAD_Dia 5 de julho fomos buscar os meninos no colégio. Dia horrível: Michael foi definitivamente expulso e Chris é o queridinho da escola, ganhando dois prêmios, um deles em artes. Parece que o iate passou na inspeção e agora é nosso e se chamará oficialmente KALIZMA: Kate Liza Maria (Elizabeth incluída em Liza).
SETEMBRO DE 1967
30, SÁBADO, PARIS/CAPO CACCIA_Ao meio-dia mais ou menos fiz algo ainda mais ultrajante. Comprei o Elizabeth, o jato que nos trouxe a Paris ontem. Custou, novo em folha, 960 mil dólares. Milady não desgostou. Mas, voltando à estreia de gala da Megera ontem à noite: sucesso retumbante e com enorme cobertura da imprensa. […] E usou um diadema criado especialmente para ela, que custou 1,2 milhão de dólares. Com as outras joias que usava, total aproximado de 1,5 milhão.
OUTUBRO DE 1967
20, SEXTA, CAPO CACCIA, SARDENHA_Na sexta passada voamos até Oxford. No sábado fomos entrevistados num programa de televisão. Correu bem com os acadêmicos, mas os jornalistas foram tolos e mesquinhos. Nevill Coghill,[12] respondendo a uma pergunta, disse que Elizabeth teria dado uma excelente acadêmica, pois estava “entre as criaturas mais inteligentes que ele já conhecera” e que era paradoxalmente “uma intelectual instintiva”.
No domingo de manhã li poemas no Union[13] com Wystan Auden,[14] que leu uma boa amostra de sua própria obra, mas naquele modo peculiar à maioria dos poetas, um cantarolar sem modulação e sem cor. Lembro-me de Yeats, Eliot e MacLeish, que liam seus poemas mais expressivos com uma tal monotonia que causava pane no cérebro. O único que sabia ler suas coisas era Dylan.[15] Auden tem um rosto notável e uma inteligência igualmente notável, mas imagino que faça de si um conceito monumental – ainda que haja uma abrangência e uma severidade universais em sua poesia, como em toda poesia verdadeira. A ovação (em pé) que recebi com O orgulho do soldado Dai Greatcoat rasgou um sorriso lívido no rosto dele. Não é um sujeito simpático. Os únicos poetas simpáticos que conheci eram maus poetas e um mau poeta não é absolutamente poeta – logo, jamais conheci um poeta simpático.
JULHO DE 1968
23, TERÇA, LONDRES, HOSPITAL FITZROY NUFFIELD_Acabo de passar os dois dias mais terríveis da minha vida adulta. Não houve nada antes, que eu me lembre, nenhuma humilhação infligida ou recebida, nenhuma injustiça feita a mim ou por mim, nenhum desapontamento profissional ou pessoal que eu não tivesse sido capaz de tirar da cabeça em um quarto de hora. Mas esta foi a primeira vez que vi um ser amado gritar em agonia ao longo de dois dias, presa de alucinações causadas por medicamentos, ora sabendo quem eu era, ora não, uma megera num minuto, um anjo no minuto seguinte e se sentindo em completo desamparo. […] Elizabeth extraiu o útero no domingo de manhã.
23, TERÇA-FEIRA, LONDRES_A imprensa nos persegue dia e noite e hoje amanhecemos em todos os jornais. Como podem ser baixos – em especial os ingleses. São maldosos, dissimulados, petulantes e provincianos. Não são honestamente escandalosos, com aquela tremenda alegria lamacenta e pornográfica dos italianos. São apenas velhacos.
OUTUBRO DE 1968
18, SEXTA-FEIRA_A sexta-feira começou com os jornais ingleses anunciando em manchete que Jackie Kennedy vai se casar com Aristóteles Onassis. Todo mundo está intrigado. Ele está com 69, diz que tem 62 e ela tem 39. A jovem Rainha dos Estados Unidos e o velho bandido grego. À noite num jantar, sentei-me ao lado de Maria Callas, que enfrentou valentemente o evento e a imprensa, exibindo uma expressão radiante, embora um tanto forçada. Eu lhe dei um abraço quando a vi e lhe disse ao ouvido que Ari era um filho da puta.
29, TERÇA-FEIRA_Recebi ontem uma carta de Francis Warner[16] perguntando se eu poderia ou gostaria de dar um curso no St. Peter’s em Oxford num futuro próximo. Ele propôs nos ceder seus alojamentos e eu lhes ofereceria em troca o iate e as nossas várias casas. Diz ele que está precisando de um ano sabático. Vai ser bem divertido lecionar em Oxford sem ter diploma! Sempre tive esse desejo de mulher grávida, espúrio provavelmente, de ter vida acadêmica, e um semestre de lições suspeitas e preleções espinhosas deve ter um efeito curativo certeiro. Me agradaria trabalhar com poetas medievais ingleses, franceses, italianos e alemães e talvez com alguns celtas – galeses e irlandeses, por exemplo. A língua inglesa me provoca como uma linda mulher ou como um sonho cheio de frescor e fundo como a morte.[17] Deus, vou dar lição nos meninos até eles soltarem pentâmetros iâmbicos pelas ventas. Ofereceram-me 1 milhão de dólares por um mês deste diário. Alguém está louco. E não sou eu.
NOVEMBRO DE 1968
7, QUINTA-FEIRA_Estou lendo dois livros ao mesmo tempo: uma biografia política de De Gaulle e outra de Pierre Laval.[18] Até agora pouca diferença entre os dois exceto a altura. Monstros intrigantes, coniventes, desleais e monomaníacos, ambos protestando amor pela belle France.
19, TERÇA-FEIRA, PARIS_Tenho tido uma sorte fora do comum a vida toda, mas a sorte grande foi Elizabeth. Ela me transformou num homem moral, mas não puritano, é uma amante-amada selvagem e excitante, é tímida e espirituosa, não tem nada de boba, é uma atriz brilhante, bonita além dos sonhos pornográficos, pode ser arrogante e voluntariosa, é autocomplacente e carinhosa. Dulcis Imperatrix, criatura cheia de graça, tolera minhas impossibilidades e minhas bebedeiras, é uma dor de estômago quando está longe de mim e ela me ama! […] E eu a amarei até morrer.
MARÇO DE 1969
30, DOMINGO_Torramos ao sol o dia inteiro e lemos. E está lendo O Complexo de Portnoy[19] e eu leio um livro traduzido do espanhol, O Labirinto da Solidão, escrito por um poeta mexicano chamado Octavio Paz. Estou achando pedregoso. É um desses livros assertivos que me dão vontade de contestar frase por frase. Como a maioria dos livros de filosofia envergonhada, não tem um pingo de humor. Eu gosto de filósofos divertidos. Não dá para entender como alguém pode discutir a sério o México e os mexicanos, como se eles todos formassem uma unidade. O mexicano é impassível, é tão orgulhoso que não se revelará nem mesmo ao seu amigo mais íntimo. Paz é igualmente generalizante com os americanos. […] É como a fábula do frio-reservado-empertigado-e-empedernido inglês. Ora, basta ler os livros e os poemas que esse inglês escreve para descobrir que ele é crivado de ideias emboladas e sentimentais e banhado por um caldo esnobe e pegajoso de autopiedade.
MAIO DE 1969
29, QUINTA-FEIRA, HOTEL DORCHESTER, LONDRES_A personalidade de Marlon e de E, para não falar na beleza física, é tão vasta que eles fazem o que bem entendem e escapam impunes, mas Elizabeth – à diferença de Marlon – adquiriu quase por proximidade com a câmera, por osmose, uma técnica poderosa. Marlon ainda precisa aprender a falar. Deus sabe quantas vezes não vi Marlon arruinar uma atuação por articular mal as palavras. Devia ter nascido duas gerações antes e trabalhado no cinema mudo. A pior coisa que poderia ter lhe acontecido foi Gadge Kazan,[20] o Actors Studio e uma fantástica hiperexposição quando ainda não passava de um moleque. Eu amo o cara (embora lamentavelmente a recíproca não seja verdadeira) e minha vontade era socar entusiasmo pela goela dele. Mas no fundo das suas desesperadas entranhas ele sabe, como Elizabeth e eu sabemos, que é tudo uma farsa. Nós três, cada um à sua maneira, sabemos que somos anedotas cósmicas. E nós três sabemos que “dedicação” em matéria de arte dramática é uma invenção de jornalistas invejosos. Penso essencialmente que, se uma coisa vem fácil demais para você, você a descarta como um acidente. Marlon cometeu esse erro. E não. Eu amo Elizabeth.
JUNHO DE 1969
15, DOMINGO_Hoje acordei por volta das sete. Fiquei olhando Elizabeth por um longo tempo. Estou preocupado com ela, com sua bundinha e sua hemorragia. Peguei a sua mão e beijei delicadamente. Talvez nenhuma mulher durma com tanta beleza infantil como a minha adorável, difícil, irritada e intolerante mulher. “Quando estiver triste”, disse T. H. White,[21] “aprenda alguma coisa nova.” Decidi examinar minha reação aos homens de talento que conheci e ver qual deles preferiria ter como companhia. […] Churchill? Não! Um monologuista. Picasso? Não! Um egomaníaco. Emlyn?[22] Não. Mente afiada como uma navalha e língua mais ainda. Dylan? Não! Brilhante mas desagradável. W. S. Maugham?[23] Não! Só queria saber de jogar bridge com perdedores. […] Camus? Possivelmente, mas cometeu a infernal impertinência de morrer jovem. John Osborne? Não! Nenhum vestígio de humour. Gielgud? Forte candidato no placar Burton, mas tenho a sensação de que no caso sou eu o desagradável. Edward Albee?[24] Não! Uma semana com ele seria uma eternidade e ele sentiria o mesmo comigo. Era o caso de continuar? Acabei me restringindo a duas pessoas: Nöel Coward[25] e Mike Nichols.[26] Ambos têm o poder de mudar o mundo quando entram numa sala. São espirituosos instintivamente, sem esforço e sem malícia. São ambos de uma infinita gentileza, brilham como os diamantes e jamais usam a língua viperina para falar. Nöel é velho e acho que planeja morrer em breve. Mike planeja sobreviver a Matusalém. O que eles têm e que eu invejo é uma segurança absoluta. Tanto eu quanto Elizabeth temos uma notável capacidade de inculcar a ideia de medo nas pessoas. Já vi gente tremer ao atravessar a sala para ser apresentada a E. Por que diabos? Quem fez isso conosco? Eu sei que somos ambos pessoas perigosas, mas somos fundamentalmente muito simpáticos. Com isso quero dizer que só ferimos um ao outro.
AGOSTO DE 1969
1O, SEXTA-FEIRA, HOTEL DORCHESTER_Suponho que no fundo, embora odeie admitir, eu seja propriamente um ator e os papéis que interpreto me afetem pouco. Há sempre uma parte de mim que observa e eu tenho consciência de que me tornei autoritário. Ninguém está autorizado a comprar nada, exceto eu. Devo fornecer as bebidas. Devo pagar os almoços. Meu carro, ou um deles, levará você em casa. Veja, eu sempre fui assim, mas interpretar um rei, sobretudo um rei demoníaco como Henrique VIII, acentuou em mim uma natural convicção quanto à superioridade dos meus dotes.
28, QUINTA-FEIRA, DORCHESTER_Preciso arranjar um professor para refinar o meu francês ao longo do próximo ano – e o italiano também. Vai me custar umas poucas libras por aula e me ajudará em Oxford em 71, quando eu estiver cara a cara com aqueles cus de ferro.
NOVEMBRO DE 1969
17, SEGUNDA-FEIRA, A BORDO DO IATE KALIZMA_O príncipe Rainier, Grace [Kelly] e a irmã de Grace com um amigo vêm hoje para almoçar e Rainier está trazendo um tigre ou uma pantera de presente para E. Era o que me faltava. […] Que diabos vamos fazer com uma PANTERA ou um TIGRE? Significa que nunca mais poderemos trabalhar na Inglaterra de novo. Dá para imaginar um tigre ou uma pantera em quarentena ou num iate no Tâmisa? Vários marinheiros seriam comidos diariamente, diversos veterinários seriam mastigados à guisa de almoço. Cães e gatos mortos em Gstaad, e Johann Sebastian Bach, nosso caseiro, será abatido ao tentar regar as flores. As duas únicas pessoas que sobreviverão serão Elizabeth Taylor Burton e Liza Todd Burton. Liza o selará e sairá cavalgando por aí. Elizabeth insistirá que ele durma no banheiro, o que significa que ela dormiu comigo pela última vez – aquele é o meu abrigo antiatômico! “Fica de que tamanho?”, perguntei a Rainier no almoço de ontem. “Mais ou menos assim”, ele disse, com um gesto de amplidão cósmica. […] Eu adoro o príncipe, adoro sua mulher e adoro Mônaco, mas, se for para ganhar um leão toda vez que viermos aqui, prefiro escrever maus livros em casa.
MARÇO DE 1970
24, TERÇA-FEIRA, PUERTO VALLARTA, MÉXICO_Faz um bom tempo que não escrevo nesse troço. Caí em tentação na casa de Sinatra.[27] É preciso admitir que ele é um homem muito infeliz – à parte o humor sombrio de fundo, anda assolado por intimações de Nova Jersey etc., a propósito de cumplicidade com gângsteres locais. A casa é uma espécie de supermotel na forma e no conceito, com uma série de suítes de decoração elaboradíssima. É um sujeito agradável em doses pequenas, mas uma aporrinhação no dia a dia, imagino, ainda mais agora que o vigor se foi e ele está obviamente concentrado na saúde. Sua biblioteca é bem ampla, mas o “príncipe” Mike Romanoff [28] me disse que Frank lhe pediu que escolhesse os livros. E passou o tempo todo fazendo olhar de peixe morto para cima dele. Foi a primeira vez que a vi agir assim e, à parte me deixar com ciúme – sentimento que eu desprezo –, fiquei furioso porque ele não correspondeu!
Esta será uma entrada longa e presumo que terá continuação amanhã. Fui ao Hospital Presbiteriano de Hollywood para um check-up completo. Rex Kennamer, o médico, só pelo exame clínico garantiu que eu tinha o fígado dilatado como resultado de trinta anos de excesso de bebida. No dia seguinte ele veio me ver e disse que eu simplesmente tinha que parar de beber por três meses no mínimo. Por quê?, perguntei. Porque com a minha taxa atual de embriaguez, dentro de uns cinco anos eu teria cirrose hepática e pioraria progressivamente. Bebendo ou não (digo, depois dos cinco anos). Muito bem, eu disse, vou cortar tudo. Já havia feito isso em outras ocasiões, por uma semana e até mais. Esta seria a duração mais prolongada da sina. Estou agora no décimo dia sem uma gota de álcool e confesso que me sinto infinitamente mais saudável.
ABRIL DE 1970
2, QUINTA-FEIRA_Não fiz nada o dia inteiro a não ser olhar o mar e decorar uns verbos irregulares do espanhol. […] Outra preocupação é que perdi temporariamente todo o apetite sexual, o que é muito frustrante para E. Presumo que a terrível mudança no meu corpo como resultado da abstinência total (agora por quase três semanas), depois de trinta anos de namoro firme e às vezes infiel com a bebida, signifique que ele também está dando um tempo para se repensar.
8, QUARTA-FEIRA_ John Wayne ganhou o Oscar,[29] como previsto. Fomos à festa depois e nos sentamos com George Cukor, os Peck[30] e os Chandler (donos do Los Angeles Times), mas fomos cercados por centenas de fotógrafos que, para meu deleite, não tomaram o menor conhecimento dos outros convidados, inclusive os vencedores. Barbra Streisand, que se imagina uma grande estrela, foi completamente eclipsada. E uma fila interminável, literalmente centenas de pessoas, passou pela nossa mesa para ver Elizabeth e me dizer que eu tinha sido roubado, e com tanta gente protestando nós começamos a nos perguntar quem será que tinha votado em Wayne. De todo modo, perdi de novo e sou agora o astro principal mais indicado e jamais premiado da história da Academia. Ou seja: cavei meu nicho no verbete sobre o Oscar no Almanaque Anual do Críquete.
JUNHO DE 1970
4, QUINTA-FEIRA, PALM SPRINGS_Ontem Elizabeth começou a sangrar pelo ânus, grandes gotas de sangue assustadoras de se ver. Eu as limpei periodicamente – uma hora o chão do banheiro ficou encharcado – e agradeci a Deus por não estar bebendo e não me dar náusea. Depois de mais telefonemas decidiram transferi-la do hospital de Palm Springs para um de Los Angeles. Resolveram dopá-la e ver se havia hemorragia, então a levaram para o teatro de operações e descobriram que um dos pontos havia arrebentado, refizeram a sutura e dali a trinta minutos ela não tinha mais nada. Envelheci dez anos. Ela estava aterrorizada e quando a levavam pelo corredor ficou repetindo como uma criança: “Eu te amo, Richard.” “Também te amo, baby!” E ela era um bebê, e eu era um pai.
16, TERÇA-FEIRA _“Pretende voltar em algum momento ao seu primeiro amor, o teatro?” Ouço essa pergunta o tempo todo. “Não é o meu primeiro amor”, esbravejo. […] Não tenho a menor vontade de competir com Olivier, Gielgud, Scofield, Redgrave[31] etc., pois são “atuantes” demais para o meu gosto. À parte algumas raras interpretações, não acredito em uma palavra do que dizem. Larry é o velho mestre do artificialismo profissional. Um poço de afetações. […] Todos eles têm uma presença maravilhosa, dão duro e amam de verdade sua profissão. As duas últimas qualidades eu não possuo. Nem quero.
22, SEGUNDA-FEIRA, MALIBU_Dustin Hoffman a meu ver ou é muito medroso ou muito presunçoso quando diz que não consegue se decidir se aceita ou não ser o Sancho Pança porque receia que eu como Quixote roube todas as cenas. Reação engraçada para um ator tão bom. Obviamente o que ele quer é um one-man show, em que não sobra para mais ninguém. Por esse raciocínio, ele recusaria Otelo e/ou Iago. Devo ser de uma suprema autoconfiança visto que tais considerações jamais me passaram pela cabeça.
JULHO DE 1970
13, SEGUNDA-FEIRA, SAN FELIPE, BAJA CALIFÓRNIA_Elizabeth tomou sol sem problema ontem. Ela tem um notável poder de recuperação e deixou os médicos espantados. Seu apetite sexual está ávido como sempre e o meu também, embora a meu ver nenhum de nós atribua a isso a importância premente de antes. Eu tinha medo de que a abstinência total de álcool diminuísse o meu desejo sexual e por um tempo isso deve ter acontecido mesmo. Agora que meu organismo está praticamente livre do veneno – disseram-me que a completa eliminação leva seis meses –, voltei a pensar com clareza. Perdi o medo do desastre iminente e da morte precoce causado pelo pesadelo das ressacas, e me sinto mais equilibrado.
JULHO DE 1971
31, SÁBADO, A CAMINHO DE PULA, IUGOSLÁVIA_Uma multidão de fotógrafos, jornalistas e pessoal de tevê à nossa espera no aeroporto. Perguntas habituais – “Como se sente representando um grande homem?” “O que sabe sobre Tito?”[32]
AGOSTO DE 1971
1O, DOMINGO, BRIONI_Dia longo mas agradável com Tito […] Demos ao presidente e esposa o nosso presente da Van Cleef & Arpels[33] – um grande naco de marcassita com um relógio incrustado. […] Depois do almoço o presidente e eu conversamos longamente sobre a guerra e em especial sobre a batalha de Sutjeska. Perguntei-lhe se gostava de Stálin. Ele levou um bom tempo para responder e por fim disse: “Eu gostava dele, ou melhor, eu o admirava como político, mas desgostava como pessoa.”
SETEMBRO DE 1971
13, SEGUNDA-FEIRA, KALIZMA_Ontem recebi uma longa e incoerente carta de Larry Olivier sobre o National Theatre.[34] Ele devia estar muito bêbado nas últimas vezes em que nos falamos, pois ninguém jamais recusou um emprego com tanta veemência. Disse também que não autorizaram a verba para o musical Guys and Dolls. Muito bem, que tipo de teatro nacional é esse? Eu adoro Larry. Verdade seja dita: é um sujeitinho superficial dotado de inteligência medíocre, mas um esplêndido vendedor. E uma coisa é certa: quando ele não se engaja numa produção, o National perde todo o glamour.
Desde o início, minha carreira sempre foi confrontada com a de Paul Scofield. Éramos os herdeiros naturais de Gielgud e Olivier, Paul sendo Gielgud e eu sendo Larry. “Mas Burton não dá conta etc.” O que as pessoas aparentemente não percebem é que Paul tentou feito louco ser um astro de cinema. Eu me lembro dele fazendo um teste após o outro e ouvindo não como resposta em grande parte porque ninguém sabia como fotografar aquele rosto magnífico. Era a época dos meninos bonitos: Rock Hudson, Jimmy Dean,[35] Paul Newman e até Marlon e eu mesmo. Mas, em grande parte por uma espécie de obrigação com minha formação e por achar que ser um grande ator clássico era uma dívida que eu tinha com Phil Burton, eu sabotava continuamente minha carreira cinematográfica indo e voltando para o teatro inúmeras vezes. E fiz isso contra todas as probabilidades. Até os 30 e poucos, eu continuava a ser “Scofield e Burton”. Mas aí as coisas mudaram. Fui morar em Genebra, ganhei rapidamente 1 milhão de dólares, fiz de tudo para encerrar o contrato com a Fox, inclusive dois filmes medonhos chamados Espinhos na Carne e O Gigante de Gelo, e por fim me vi livre para fazer o que bem entendesse ou, mais importante, para não fazer nada que não quisesse. Passei um verão inteiro em Céligny me tostando ao sol e recusando filme após filme. Lembro que recusei uma oferta de 350 mil dólares para fazer o Cristo num filme chamado O Rei dos Reis. Recusei e não me arrependo.
O fato é que eu ocupava uma posição invejável. Embora apanhasse da imprensa – em especial da imprensa inglesa – por ser um milionário beberrão e um traidor da pátria, que desertara de um Império Britânico onde o Sol finalmente se punha, eu era mais cortejado do que talvez qualquer ator no mundo. Sabia muitíssimo bem que não era considerado bom de bilheteria depois de Espinhos na Carne, O Gigante de Gelo e Paixão Proibida, mas também sabia que todos os papéis que Brando recusava eram automaticamente oferecidos a mim e, é claro, qualquer peça importante vinha para mim em primeiro lugar. Eu tinha uma filhinha adorável, amava minha mulher, era milionário e tinha uma bela propriedade em Céligny. Eu tinha um soberbo Cadillac conversível (ainda um dos meus carros favoritos), uma vasta biblioteca, uma sede insaciável de conhecimento e os meios para satisfazê-la, a possibilidade de interpretar o que eu quisesse e eu me sentia muito infeliz.
Será, no fundo, que eu me arrependia de ter abandonado a Inglaterra e todas as coisas que viriam automaticamente com uma carreira estável no teatro e no cinema? O inevitável título de sir, talvez. O que havia, fosse o que fosse, não era desespero, nada tão dramático. Era um vácuo estranho. Eu não me interessava por nada comum. Isso quer dizer que não estava interessado em representar, digamos, Ricardo III, mas teria feito Ricardo II, papel para o qual eu seria absolutamente inadequado.
NOVEMBRO DE 1971
4, QUINTA-FEIRA, GRAND HOTEL, ROMA_Tive uma noite descontínua e acordei de hora em hora, mas deve ter sido um sono feliz porque E me disse que eu ri muito enquanto sonhava. Acordei com o despertador – um novo e caríssimo presente de Frank Sinatra no último Natal. Faz um barulho ululante estranho, não muito agradável e ainda por cima desafinado. Eu me pergunto por que de repente Sinatra resolveu nos dar esse relógio caro. Que motivo o induziu ao presente? O que terá passado pela cabeça do pobre homem da Máfia? Terá ele enfim percebido que o quadro que lhe demos – esqueci qual foi – custou uma fortuna e concluiu então que não nos cumulara de agradecimentos suficientes? Seja o que for, terá sido uma razão vulgar.
5, SEXTA-FEIRA_E me disse ontem à noite que eu sou muito esnobe com Sinatra e que ele é realmente simpático e tem boa intenção. […] Um grupo de italianos quer que eu seja Mussolini! […] Afora a leitura dos meus autores modernos preferidos – Waugh, Greene, Powell, Huxley e Snow[36] –, minha leitura de romances costuma se limitar a reler livros que li anos atrás. Mas agora de repente quero ler de novo certos livros que não me agradaram, mas que todos consideram obras-primas. Quero e vou ler Dostoiévski, Tolstói e Proust, e quero e vou ler Balzac, Dumas e Stendhal no original. […] Minha grande alegria no momento é ler Baudelaire. É uma coisa magnífica descobrir a poesia na meia-idade. A maioria das pessoas esgota sua cota de versos antes dos 25 anos e se arranja com isso pelo resto da vida – isto é, as que têm alguma sensibilidade. […] É um belo susto encontrar um novo mundo literário, descobrindo-o, quero dizer, com entusiasmo de estudante, na maturidade dos 46 anos completados semana que vem.
20, SÁBADO, ROMA_Estou lendo pela primeira vez em vinte anos ou mais À la Recherche du Temps Perdu. Em inglês. Preciso arrumar em Paris uma brochura no original e ler cotejando.
DEZEMBRO DE 1971
2, QUINTA-FEIRA, RITZ, PARIS_Deixamos o chalé [em Gstaad] à uma da tarde e estávamos em Paris às 2h45. […] As rádios e as tevês nos informaram – digo, informaram aos parisienses – que Le Grand Bal, O Baile do Século, seria agraciado com uma opulência acima de toda e qualquer explicação, que haveria 500 guardas na área e que a rainha, elle-même, Elizabeth Taylor, estaria portando 3 milhões de dólares do pescoço para cima.
Houve inúmeras conversações telefônicas entre E e Marie-Hélène [Rothschild] e E e Grace, que disse que Rainier está indo caçar e não vai ao baile no Château Ferrières,[37] e que ela se sente muito constrangida de ir sozinha e então será que Elizabeth, perguntou Marie-Hélène, poderia ligar para Grace e chamá-la para ir conosco, e nós ainda não sabíamos se Rainier não queria mesmo ir e Grace queria mas não sem ele ou se Grace estava insegura quanto ao protocolo relativo às majestades em tais circunstâncias. […] Assistimos a uma partida entre o Inter de Milão e um time alemão pelas quartas de final da Copa Europeia. Partidinha vagabunda e nervosa. Futebol me parece um espetáculo muito maçante, a menos que haja um gênio em campo ou que você torça desesperadamente para um dos lados. […] Para meu alívio, acabo de saber que Grace vai mesmo, e vai conosco. Como dizem nos quadrinhos: Ufa!
3, SEXTA-FEIRA – 4, SÁBADO, FERRIÈRES_Então aconteceu o Baile. Durou até sete da manhã, quando a música finalmente parou e os últimos recalcitrantes rastejaram até seus carros e foram se arrastando com o tráfego matinal até Paris.
Apanhamos Grace na avenue Foch, 32. Um Rainier bastante amigável a acompanhou até o portão carregando as duas pequenas valises da esposa – uma considerável diferença em relação a sua alteza ETB, não obstante o fato de que Grace não passaria a noite. Grace e E tagarelaram no banco de trás do carro e eu fui na frente com o motorista. Grace estava simpática e relaxada, e depois daquele embaraço inicial que eu sempre sinto com pessoas como Grace, que estão de algum modo numa posição falsa e sabem disso, a conversa fluiu livremente. Ela fez uma descrição lance por lance da famosa ou infamante festa oferecida pelo xá do Irã.[38] Defendeu a extravagância com uma extraordinária obtusidade, ainda que nem eu nem E tivéssemos falado nada. A festa significava um tributo ao povo da Pérsia, ela disse, e era uma propaganda do magnífico governo do xá, que estava levando as letras aos iletrados, higiene à ralé sem asseio e cultura aos brutos. Grace descreveu o xá como um homem maravilhoso e uma hora o chamou de “grande homem”, o que passou um tiquinho da conta. Era monstruoso, ela disse, que a imprensa ocidental tivesse tratado o evento com um cinismo tão vulgar. […] E foi delicada e disse sim, quer dizer, Tito e os húngaros e outros países comunistas estavam lá e ninguém pareceu particularmente chocado com o óbvio “capitalismo” da coisa toda.
O presidente Pompidou foi empregado de Guy de Rothschild antes e depois de ser primeiro-ministro e o novo primeiro-ministro também era para ter vindo ontem à noite, mas não pôde. […] Então não admira que Guy possa requisitar toda a força policial de Paris se assim desejar. Seguimos direto para os nossos aposentos, tendo certa dificuldade em descobrir onde estavam eles e quem estava em qual. Ficou decidido que ocuparíamos o Quarto Rosa e que Grace usaria os Quartos do Balcão para se trocar e arrumar o cabelo. Para nossa surpresa, ouvíamos tudo nos dois quartos adjacentes, daí se seguindo que todos podiam nos ouvir.
Sentei por ali e esperei minhas garotas se aprontarem – a duquesa de Windsor e Grace entre elas, ao lado, é claro, da minha própria e genuína “garota”. Tínhamos sido informados de que era para descer rigorosamente às 9h10 e sentar à mesa às 9h30. Descemos às 10h30 e sentamos às 11. Levei quinze minutos desde a porta até a minha mesa – eu marquei – e, depois de pisotear caudas infindáveis e bater na lateral de alguns penteados caríssimos, virtualmente escalando uma meia dúzia de pessoas alcancei a mesa número 11, com madame de Montesquieu à minha esquerda e a ex-senhora Louis Malle[39] à minha direita, as quais, graças a Deus, eu conhecia. E aí, uma hora ou mais de absoluta agonia. Os garçons simplesmente não tinham como circular por entre as mesas, então a maioria das mesas, inclusive a nossa, elegeu uma pessoa para receber todos os serviços e passá-los de mão em mão. A comida estava divina, ou a fome era tanta que a fez parecer melhor do que era.
Minha atenção contudo fora capturada desde o início por um homem sentado em frente a mim. Parecia um cadáver quando parado e um fiasco da cirurgia plástica quando se mexia, o que era raro. Carecia de sobrancelhas e cílios e era encimado por uma atroz cabeleira postiça ou tingida, com cabelo cor de neve na frente e no topo da cabeça e cabelo de um pardo não classificável, parecido com o meu talvez, na parte de trás. Seu rosto estava maquiado com um emplastro horripilante e dele saltavam caroços aqui e ali, um rosto feito de massinha plástica por uma criança inepta. Eu acabara de perguntar ao ouvido de Mme. Malle quem era aquela coisa extraordinária diante de nós quando esta se inclinou para a frente e disse: “Onde está a minha Elizabeth?” Ah, eu disse, bem, ela está, ahn, vejamos, na extremidade oposta a esta, ahn, sentada e, ahn, na verdade comendo na, ahn, mesa correspondente a esta, mas do outro lado, se é que você me entende. “Eu queria que ela estivesse aqui”, ele disse, inferindo-se daí que ele a preferia a mim. Superada a pergunta proferida de modo tão singular por Andy Warhol, pois o cavalheiro de filme de terror era ele, todos nos entregamos à batalha pela comida.
JANEIRO DE 1972
28, SEXTA-FEIRA, PHOENIX, ARIZONA_Ontem fomos almoçar na casa de Sara pela última vez, graças a Deus. […] À noite tive uma experiência única – para mim, digo. Fui jantar com os Voldengs no country club mais pedante da cidade, ou o mais rico, ou ambos. Contudo, a singularidade foi que eu descobri já quase no fim do jantar que o clube era restrito aos gentios. JUDEUS NÃO SÃO ADMITIDOS. Foi Mary Frances, a cunhada de Sara, quem me contou. Eles, o clube, disseram que eles, os judeus, eram muito numerosos e logo tomariam conta do lugar. “Então por que não fundam um clube só de vocês?” Fiquei absolutamente perplexo. “E você sabe, Richard, que os judeus passaram por dificuldades financeiras e tiveram que pedir socorro a nós, os gentios? Que tal?” Eu fui em cima: “Que estranho ouvir isso. Os nossos incontáveis não costumam incorrer nesse tipo de dificuldade.” Ela recebeu o golpe com ar de quem não sabia se era ou não uma piadinha britânica. Voltei à carga: “Elizabeth, como você obviamente não sabe, se converteu ao judaísmo,[40] e nossa filha é judia, é claro, e meu avô era judeu.” Ela ficou sem ação. Balbuciou um “Sim” acrescido de inúmeras vogais, não passível de reprodução por escrito.
29, SÁBADO, HOTEL BEVERLY HILLS_A certa altura Paul Newman apareceu. […] Perguntei o que fazia em Hollywood e ele disse que tinha um encontro com John Huston. […] Paul é o que chamo de um ator de verdade. Simpático, de aparência extraordinariamente jovem, com uma tez tão aveludada que a princípio achei que fosse maquiagem. Cada movimento dele é como alguém ensaiando – já sem necessidade de olhar – na frente do espelho. Não digo isso com maldade. Ele nem se dá conta do que faz. É obcecado por manter a forma e – meu Deus – são notáveis os resultados. Deve ter pelo menos a minha idade e, ainda assim, com uma pequena intervenção na área dos olhos e uma tintura no cabelo passaria por 24, por aí. Eu odiaria ter essa aparência dele. Já odiava antes que a acne remapeasse o meu rosto. Abomino a mera beleza.
FEVEREIRO DE 1972
6, DOMINGO_Fui ontem à livraria Lion e comprei mais uma pilha de livros para as dez semanas que vamos passar em Budapeste. Os diários de Cadogan,[41] os dois volumes de A. L. Rowse sobre a família Churchill, O Primeiro Círculo de Solzhenitsyn, Chosen Words de Ivor Brown. Duas edições bilíngues da Penguin: Mallarmé e poesia francesa do século XIX. Um livro de Auberon (filho de Evelyn) Waugh. A China Vermelha, a Rússia e os Estados Unidos (acho que é esse o título) de Isaac Deutscher. Uma gramática húngara. E um monte de thrillers. Ou seja, teremos mais do que o suficiente para atravessar dez semanas.
7, SEGUNDA-FEIRA_Quanto aos húngaros, os únicos que me lembro de ter conhecido foram dois exilados bem-sucedidos: George Tabori[42] e aquele outro que me deu sua palavra e um contrato de 100 libras por semana quando eu ainda engatinhava no teatro – o incomparável Alex Korda.[43] Um dia, do nada, fui convidado para almoçar com ele na Picadilly 146, no que acabou virando não um almoço, mas café e charutos, quando ele me disse rosnando no seu inglês rúngarro: “Gostaria de trabalhar para mim?” Eu gaguejei algo como “Sim, mas eu tenho, é claro que…”. “Não haverá inconveniente para a sua carreira nos palcos. Na verdade, insisto em que o teatro venha em primeiro lugar. Vou lhe dar 100 libras por semana durante cinco anos. Nunca vi você atuar, mas soube por um ou dois amigos que você será um ator importante. Meu amigo e colega Laurence Olivier me disse que você é um aristocrata nato e agora que estou diante de você vejo que ele tem razão. Investirei portanto 5 mil libras confiando em que Olivier e eu estejamos certos. Então, aprenda tudo o que puder no teatro. Tente não entrar em temporadas longas, faça o maior número de peças que puder. Vá para Stratford. Compre um carro, dê um casaco de peles à sua mulher. Divirta-se.” Entrei em êxtase. Eu tinha 24 anos – nem isso, 23 –, e 12 libras por semana era o máximo que havia recebido até então. “Assine isso”, ele disse, mostrando uma folha de papel preenchida de um lado só. Comecei a ler. “Ótimo”, ele disse, “nunca assine nada que não tenha lido ou compreendido.” Estava escrito ali, em linhas gerais, que eu estaria à disposição de sir Alexander Korda no máximo doze semanas por ano segundo a minha conveniência, por cinco anos no máximo, período durante o qual – se eu filmasse para alguma outra companhia – receberia as minhas 5 mil libras acordadas e mais a metade do valor que a outra companhia estivesse disposta a me pagar. A outra metade iria para a companhia de Korda, chamada London Films. Saí dançando pela Picadilly. Era um salto extraordinário. […] eu estava sob contrato com sir Alexander Korda e seus outros atores contratados eram Olivier, Vivien Leigh, Ralph Richardson[44] e mais um bando de gigantes.
No fim das contas, nunca fiz um filme para Alex. Ele me emprestou para Emlyn Williams e Tolly de Grunwald[45] e depois para a Fox, para um filme chamado Eu Te Matarei, Querida,[46] com Olivia de Havilland no papel de minha parceira sedutora.[47] Eu ainda não tinha empresário (a menos que se considerasse Korda como tal) e a Fox me ofereceu 50 mil dólares. Eu havia dito à família que lutaria por 7 mil libras. Quando o representante da Fox me propôs praticamente o dobro do que minha impiedosa determinação pretendia exigir, aceitei na hora. […] Pondo a cereja no bolo, Korda disse que não ficaria com a parte dele, mas que eu devia sair e comprar um Rolls-Royce imediatamente. Comprei um Jaguar Mark VIII.
8, TERÇA-FEIRA, BUDAPESTE_Mas voltando a Korda. Como resultado do enorme sucesso do filme com Olivia e do seguinte – uma monstruosidade chamada O Manto Sagrado –, a Fox me ofereceu 1 milhão de dólares por sete filmes em sete anos. Só mais tarde descobri que, além de me pagar 1 milhão, eles foram obrigados a pagar – porque eu continuava sob contrato – meio milhão a Korda. Uns anos depois, já ciente disso, fui jantar com Alex na mansão para onde ele se mudara com a nova mulher. O irmão dele havia descoberto um Canaletto[48] e quando elogiei o quadro Alex me disse: “Aproveite, meu rapaz, foi você que o pagou.”
10, QUINTA-FEIRA, BUDAPESTE_Hoje tenho que ir trabalhar. Não há a menor dúvida de que sou o ator mais preguiçoso do mundo, com a possível exceção de Marlon.
MARÇO DE 1972
15, QUARTA-FEIRA, BUDAPESTE_Nosso oitavo aniversário de casamento. Por certos padrões, não significa nada. Por outros, é uma conquista monumental. Durante esse tempo tivemos também a rara distinção – no nosso ramo – de sermos fiéis um ao outro mesmo nos três anos anteriores. Portanto, não oficialmente, são onze anos. E que lugar escolhemos para celebrar hoje à noite? Um pequeno café? Tête-à-tête, olhos marejados de recordações, nossas músicas favoritas tocadas por um violino cigano, dançando de rosto colado, só nós dois em meio à multidão? Ah, não. Temos algo muito melhor a fazer. Vamos a uma maldita recepção de gala na embaixada inglesa oferecida por suas chatíssimas excelências. Erro cretino que não se repetirá.
[comentário]
Burton interrompeu o diário no final de março de 1972, depois da morte de seu irmão mais velho, Ivor [1906-68]. Ao que parece, entrou em depressão profunda, voltando a beber e desrespeitando o casamento com Elizabeth. Em julho de 73, os dois anunciaram a separação. Em novembro, quando filmava Viagem Proibida (com Sophia Loren), ele voa para a Califórnia para ficar com Elizabeth, que fora hospitalizada. Cinco meses depois, em abril de 74, interna-se num hospital californiano para “ficar limpo”. Sua desintegração física já se tornava um espetáculo público e havia rumores persistentes sobre ligações com mulheres mais jovens. No início de 75, depois de um brevíssimo noivado com a princesa Elizabeth da Iugoslávia, Burton, acompanhado de Jean Bell, atriz afro-americana e ex-capa da Playboy, voltou para Céligny e retomou o diário. O segundo casamento com Elizabeth Taylor, naquele mesmo ano, terminaria no ano seguinte.
ABRIL DE 1975
11, SEXTA-FEIRA, CÉLIGNY_Taylors de volta de Leningrado. […] E está com disenteria e talvez tenha que ir para a Inglaterra.[49] Carreira soa em perigo se ausência se prolonga. Filmagem caótica, diz ela.
27, DOMINGO_Tomei um martíni. O primeiro em semanas. Detestei, embora Jean saiba preparar bem. Banho de sol, leitura e bicicleta o dia inteiro. […] Falei com E no hospital: parece muito enjoada.
JULHO DE 1975
31, QUINTA-FEIRA_Liza e Maria vão hoje para Leningrado. Trinta e três dias sem beber. Mais queimado do que isso impossível, então ontem não me expus ao sol.
SETEMBRO DE 1975
29, SEGUNDA-FEIRA, PARQUE NACIONAL DE CHOBE, BOTSUANA_Pousamos numa pista de grama. Bastante esburacada. Vimos elefantes, macacos, búfalos. […] Casei-me com Elizabeth à moda zulu.
OUTUBRO DE 1975
4, SÁBADO, JOANESBURGO_A hora mais agonizante da minha vida terminou aproximadamente à uma hora da tarde. De ontem, digo. Passei as horas anteriores desde as quatro da tarde de quinta-feira em estado de pavor absoluto, temendo pela vida de Elizabeth e pela minha. Dormir não serviu de paliativo. Ainda estou sofrendo os efeitos retardados do choque e continuarei a sofrer, creio, de uma forma atenuada, pelo resto da vida. E foi incomparavelmente corajosa. Eu a amo absurda e desesperadamente.[50]
6, SEGUNDA-FEIRA _E em esplêndida forma e um tantinho de porre, mas muito meiga, de modo que saímos tarde (muito tarde!) para almoçar. Então E entrou em aparente conluio com Adele (relações-públicas do hotel) e me foi dito que E e eu deveríamos nos casar em Chobe esta semana. Achei que estavam brincando e disse isso. Mas E falava sério. Resultado, uma sucessão de invectivas de E, ½ brincando, ½ cáusticas. Eu disse a ela que estava com medo! Literalmente com medo, no momento, de que esse casamento terminasse horripilantemente em divórcio. Vamos nos casar de novo, é claro, se E assim desejar, mas até eu me recuperar do meu medo e visto que estou, no mínimo, delirantemente feliz no momento, por que estragar tudo?[51]
[comentário]
Depois dos registros de novembro de 1975, Burton retomaria os diários somente em 1980 (junho–outubro) e em 1983 (fevereiro–abril). Em agosto de 1976 ele se casa pela terceira vez, com Susan Hunt, em Arlington, na Virgínia. Elizabeth se casa em dezembro do mesmo ano com o senador republicano John Warner. Era o sétimo casamento dela (e haveria um oitavo, em 91). Em 1980, de volta ao teatro, Burton faz novamente o papel do rei Arthur em Camelot, musical que no início dos anos 60 alcançara enorme sucesso na Broadway.
JUNHO DE 1980
29, DOMINGO, NOVA YORK_Hoje, como um homem morrendo de sede eu me saciei e me esbaldei no New York Times. Não tinha lido jornal desde que viemos de Genebra para cá – quase dois meses! A única intromissão do mundo exterior, afora o mundo de Camelot, o musical, e do rei Artur em particular, tem sido um ou outro filme na sessão da madrugada.
AGOSTO DE 1980
12, TERÇA-FEIRA _Muita coisa para um só dia. O musical está sendo um sucesso estrondoso. Particularmente, ao que parece, por minha causa, o que é gratificante, mas surpreendente, já que só agora, seis semanas depois da estreia, estou começando a ter pleno domínio da peça. Quebramos recordes semana após semana. […] O espetáculo ainda está sendo prazeroso. Tomara que continue assim. Receio a hora em que tiver esgotado todas as possibilidades do papel e passe para o automático.
19, TERÇA-FEIRA_“Somente o nosso conceito nos possibilita falar do Dia do Juízo Final por esse nome. Ele na realidade é uma corte sumária em sessão perpétua.” Essa passagem é de uma carta de Kafka. Ela me assombra. O juiz supremo nessa severa investigação da alma somos nós. Sou eu que ajo, sou eu que cometo o ato ou tenho o pensamento e somente eu posso julgar o ato ou o pensamento. Sou o promotor e o advogado de defesa, Satã e Santo. Sou inteiramente responsável por todos os meus pecados e pelas minhas bondades. E eu estou só.
SETEMBRO DE 1980
23, TERÇA-FEIRA, CHICAGO_Soube por acaso que O’Toole[52] tinha levado uma tremenda surra – surra de primeira página – dos críticos ingleses pelo desempenho em Macbeth. À noite liguei para Peter assim que deu a hora, para pegá-lo antes que saísse do Old Vic. Contei como tinha ficado sabendo. “Sim.” “Como está a bilheteria?”, perguntei. “Lotação esgotada.” “Então se lembre disso, meu rapaz (ele é quatro anos mais novo do que eu), você é o ator mais original que surgiu na Inglaterra desde a guerra, então que se fodam os críticos.” […] “Obrigado.” “Boa noite, Peter. Não se renda e eu te amo.” “Não, e é recíproco. Boa noite, Richard. Obrigado.”
[comentário]
Sem condições de corresponder ao esforço físico exigido por Camelot, em março de 1981 Burton se retirou da produção. Submeteu-se a uma cirurgia de coluna em abril e se recuperou a tempo de fazer a narração televisiva do casamento do príncipe de Gales e Diana, no final de julho. Estava bebendo de novo. Em fevereiro de 82, o casamento de quase seis anos com Susan foi desfeito. Nesse mesmo mês, Burton se engaja num projeto de fôlego – o épico Wagner –, durante o qual inicia um relacionamento com a assistente de produção Sally Hay. Com a saúde debilitada, passava um bom tempo no hospital. Em junho, ele e Sally vão a Londres ver Elizabeth em As Pequenas Raposas. Em setembro é anunciado que Burton e Taylor atuariam juntos em Private Lives,[53]de Nöel Coward, com estreia prevista para a primavera de 1983 na Broadway.
MARÇO DE 1983
1O, TERÇA-FEIRA_Comemorei meu divórcio e o dia de são Davi[54] – me empanturrando de comida. Há uma coisa autodefensiva ou interesseira no meu cérebro que elimina tudo aquilo em que eu não quero pensar ou que considero um estorvo. Todos têm essa qualidade, mas a minha parece ser mais amplamente desenvolvida do que a maioria. Traço não recomendável.
13, DOMINGO, HOTEL LOMBARDY, NOVA YORK_Dia ensolarado. Falei com Kate, vem na segunda à noite. Trabalhando na Broadway. Peça irlandesa. Maria veio com o bebê. Fui com eles ver ET, que está usando o apartamento de Rock Hudson no Central Park West. Biblioteca mínima ou inexistente. Apartamento horrível. Rosto de E o.k., mas silhueta estourando! Bebendo também. E também ainda não leu a peça! Essa é a minha garota!
24, QUINTA-FEIRA_A mesma luta diária com ET, que aos poucos vai conseguindo dar uma forma meio frouxa ao papel. […] Por enquanto, só eu decorei a peça. Estou imensamente surpreso com a falta de preparo, mas ainda temos quatro semanas antes da Broadway.
27, DOMINGO_ET tremendamente melhor no primeiro ato – ainda dura no segundo e lendo o texto no terceiro. Pela primeira vez nessa peça, eu tive prazer em ensaiar. Espero que continue assim. […]
ABRIL DE 1983
1O, SEXTA-FEIRA _O sr. Katselas,[55] o diretor, cometeu o erro de insultar primeiro Katryn e em seguida ET, e aí eu estourei. Soltei os cachorros para cima dele. Theoni (a figurinista) me contou que o diretor era quase com certeza do alto escalão da cientologia. Sou tão ignorante que não sabia o que significava isso. Ainda não sei bem. De todo modo, o resultado final – por ora – foi que fizemos do nosso jeito e não do dele. Resultado: fluiu que foi uma beleza. Ele não abriu mais a boca pelo resto do dia, embora ET continuasse rabugenta.
2, SÁBADO_Hoje duas passadas de texto e a diferença no desempenho foi sensacional em comparação com apenas um dia e meio atrás. A peça e os atores começaram a inventar. J. Cullum agora no ponto. Fora dos eixos estou eu no momento. Suspeito que sou um perigo para uma peça de Nöel. Minha maldita voz tem uma riqueza excessiva ou algo assim. Bem, verei o que posso fazer.
[comentário]
Esse foi o último registro nos diários. Private Lives excursionou pela Filadélfia, Washington e Los Angeles. Não foi um sucesso. Em julho, Burton se casa com Sally Hay, em Las Vegas. Um ano depois, em agosto, em Céligny, o casal recebe John Hurt, o protagonista de 1984, filme baseado no romance de George Orwell, no qual Burton desempenhara o papel de O’Brien. Quando Hurt se despede na manhã seguinte, seu anfitrião lia poemas de William Blake. Em 5 de agosto, Burton não acordou. Havia sofrido um AVC. Morreu naquela tarde num hospital de Genebra e, conforme seu desejo, foi enterrado no cemitério protestante de Céligny. Burton deixou um espólio de cerca de 3,5 milhões de libras que foram divididas entre suas três filhas (Kate, Jessica e Maria) e Sally. Quantias menores foram destinadas aos membros da família Jenkins e a outras pessoas próximas, como Philip Burton, o professor de literatura inglesa que se tornaria o tutor legal do jovem Richard Jenkins e de quem ele adotaria o sobrenome.
[1] E, ET, ETB: iniciais de Elizabeth Taylor usadas nos diários.
[2] O terceiro filme em que Burton e Elizabeth Taylor atuaram juntos, rodado na Califórnia e em Paris. Direção de Vincente Minnelli.
[3] Os meninos: Michael e Christopher Wilding, filhos de Elizabeth Taylor e Michael Wilding, o segundo marido da atriz. Liza Todd: filha de Elizabeth e do produtor Mike Todd, seu terceiro marido.
[4] A Megera Domada [1967], direção de Franco Zeffirelli.
[5] Montgomery Clift [1922–66] foi substituído por Marlon Brando no filme, dirigido por John Huston [1906–87].
[6] Bob Wilson, assistente e camareiro de Burton.
[7] Filha adotiva de Richard e Elizabeth.
[8] Marlon Brando [1924–2004].
[9] Malcolm Muggeridge [1903–90], jornalista e humorista inglês, depois convertido ao catolicismo. Hugh Kingsmill [1889–1949], escritor e jornalista britânico.
[10] Burton e Elizabeth estavam no país para filmar Os Farsantes – o sétimo dos onze filmes que estrelaram juntos –, baseado em romance de Graham Greene e dirigido por Peter Glenville.
[11]Rex Harrison [1908–90], ator inglês de cinema e teatro. Rachel Roberts [1927–80], atriz inglesa, quarta esposa de Harrison.
[12] Nevill Coghill [1899–1980], escritor e professor de literatura inglesa em Oxford.
[13] Centro de debates de Oxford, um dos mais prestigiados do mundo, fundado em 1823.
[14] W. H. Auden [1907–73], poeta inglês radicado nos Estados Unidos.
[15] Dylan Thomas [1914–53], poeta e escritor britânico.
[16] Francis Warner, professor de literatura inglesa na Universidade de Oxford, amigo de Burton.
[17] Alusão a um verso de Rupert Brooke [1887–1915]: Green as a dream and deep as death.
[18] Pierre Laval [1883–1945], primeiro-ministro do gabinete colaboracionista durante a ocupação nazista da França.
[19]Romance de Philip Roth [1933–], escritor norte-americano.
[20] Elia Kazan [1909–2003], diretor de teatro e cinema ligado ao Actors Studio.
[21] T. H. White [1906–64], escritor britânico.
[22] Emlyn Williams [1905–87], ator e dramaturgo britânico.
[23] William Somerset Maugham [1874–1965], escritor inglês.
[24] Edward Albee [1928–], dramaturgo americano.
[25] Nöel Coward [1899–1973], escritor, teatrólogo, ator e compositor inglês.
[26] Mike Nichols [1931–], diretor e ator americano nascido em Berlim.
[27] Burton e Taylor haviam passado uns dias na casa de Frank Sinatra em Rancho Mirage, na Califórnia.
[28] Michael Romanoff [1890–1971], ex-ator e dono de restaurante em Hollywood.
[29] John Wayne ganhou o Oscar de melhor ator por Bravura Indômita, e Burton concorria com Ana dos Mil Dias.
[30] George Cukor [1899–1983], diretor de E o Vento Levou e My Fair Lady, entre outros filmes. Referência ao casal Veronique e Gregory Peck [1916–2003], ator americano.
[31] Laurence Olivier [1907–89], John Gielgud [1904–2000], Paul Scofield [1922–2008], Michael Redgrave [1908–85]. Atores britânicos de teatro e cinema.
[32] Marechal Josip Broz Tito [1892–1980], presidente da Iugoslávia e personagem central do filme A Batalha de Sutjeska (1973), interpretado por Burton.
[33] Van Cleef & Arpels, joalheria francesa fundada em 1906.
[34] Presidido durante anos por Laurence Olivier.
[35] James Dean [1931–55], ator americano.
[36] Evelyn Waugh [1903–66], Graham Greene [1904–91], Anthony Powell [1905–2000], Aldous Huxley [1894–1963], Charles Snow [1905–80].
[37] Ferrières, propriedade do casal Guy e Marie-Hélène de Rothschild.
[38] O xá do Irã Mohammad RezāPahlāvi [1919–80] deu uma festa suntuosa em outubro de 1971 em celebração aos 2 500 anos do Império Persa.
[39] Louis Malle [1932–95], diretor de cinema francês.
[40] Elizabeth Taylor se converteu ao judaísmo em 1959, aos 27 anos.
[41] Alexander George Montagu Cadogan [1884–1968], diplomata inglês.
[42] George Tabori [1914–2007], escritor e diretor de teatro.
[43] Alexander Korda [1893–1956], produtor inglês de origem húngara.
[44] Ralph Richardson [1902–83], ator britânico.
[45] Anatole Grunwald [1910–67], produtor e roteirista de cinema na Inglaterra e nos Estados Unidos.
[46] My Cousin Rachel, de 1952, foi a estreia de Burton no cinema americano.
[47] Olivia de Havilland [1916–], atriz americana de origem inglesa.
[48] Giovanni Antonio Canal [1697–1768], pintor italiano conhecido como Canaletto.
[49] Elizabeth filmava na Rússia O Pássaro Azule foi vítima de uma grave disenteria amebiana.
[50] Elizabeth sofreu um acidente durante uma caçada e houve depois suspeita de mancha no pulmão.
[51] Elizabeth e Richard se casaram pela segunda vez nesse mesmo dia.
[52] Peter O’Toole [1932–], ator irlandês.
[53] No Brasil, Private Lives recebeu o título de Pancada de Amor.
[54] São Davi, santo padroeiro do País de Gales.
[55]Milton Katselas [1933–2008], diretor que foi demitido antes da estreia da peça.
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