Michelle com o pai, o general da Força Aérea Alberto Bachelet, que morreu na prisão durante a ditadura de Pinochet. "Meus pais não eram de muito agarramento, mas tínhamos muita vida em comum. Muito passeio, muita natureza, muita barraca", contou a ex e futura presidente FOTO: GILLES BASSIGNAC_GETTY IMAGES
O caminho de Santiago
Os traumas e a trajetória de Michelle Bachelet
Patricio Fernández | Edição 89, Fevereiro 2014
“Sabe, o que eu mais gosto é de dançar. Fico relaxada e me esqueço de tudo”, disse a presidente Michelle Bachelet, enquanto se mexia discretamente, sem grandes saracoteios, acompanhando o ritmo de uma orquestra de salsa. Pablo Dittborn, então gerente da editora Random House Mondadori, tinha conseguido que me convidassem para uma recepção em homenagem a ela, em Havana, onde em fevereiro de 2009, último ano de seu primeiro governo, Bachelet fazia uma visita oficial. A presidente estava de pé, cumprimentando os convidados da minha mesa, quando o conjunto começou a tocar; talvez porque eu fosse o mais moço do grupo (e, portanto, o menos comprometedor), ela me tirou para dançar. Foram apenas duas músicas.
Antes disso tínhamos nos visto só uma vez, quando ela começava a despontar como possível candidata presidencial. Na ocasião, ela me surpreendeu com perguntas íntimas sobre minha mulher e meus filhos, e eu, esquecendo-me de que era ela o motivo de minhas investigações, respondi uma por uma. Agora, enquanto rodopiávamos, ela voltou a me interrogar – com tamanha riqueza de detalhes que eu diria que se lembrava dos nomes de meus filhos, mas suponho que seria exagero meu. Acrescentei que acabara de me separar, logo antes da viagem. Durante nossa breve coreografia ela disse uma ou duas frases muito sentidas a respeito, e o resto do tempo foi como se se limitasse a oferecer sua companhia.
A festa foi boa. Já de madrugada a presidente apanhou um violão e cantou, com a cabeça inclinada, concentrando-se em apertar bem as posições e conseguir que os acordes coincidissem com sua voz. Entoou alguma coisa do cubano Silvio Rodríguez, se bem me lembro. Bebemos rum. De repente chegou um sujeito com as fotografias que naquela tarde haviam tirado de Bachelet e Fidel Castro. Ela comentou que o encontro tinha sido amigável e cordial, e perguntou aos presentes que foto recomendávamos entregar à imprensa. Notava-se que estava contente.
Para qualquer socialista latino-americano, Fidel é uma figura incontornável. “El Caballo” – como o chamam na gíria da malandragem, no interior da ilha, e que por motivos de saúde viu-se obrigado a entregar o trono ao irmão Raúl, sem por isso perder sua autoridade – naquela noite corcoveou. Num momento difícil de precisar, correu a notícia de que ele havia escrito uma coluna para o Granma do dia seguinte, criticando a política externa da presidente. O ex-ditador determinava que o Chile devia dar à Bolívia uma saída para o mar, assunto que naquele exato momento enregelava o diálogo entre os dois países. A festa terminou de repente. Tratava-se da primeira visita de um chefe de Estado chileno a Cuba desde a ida de Salvador Allende, em 1972. A direita e parte da própria coligação de Bachelet haviam questionado a viagem, e Fidel não se esquivou de repreender a presidente como se ela fosse uma garotinha. Em terras chilenas, seus críticos fizeram uma festança.
A infância de Verónica Michelle Bachelet Jeria se passou em quartéis de província, onde seu pai, Alberto Bachelet, membro da Força Aérea do Chile, servia. “Tive uma infância maravilhosa. Meus pais foram muito carinhosos e próximos, mas não eram de muito agarramento. Não andávamos nos abraçando, mas tínhamos muita vida em comum. Muito passeio, muita natureza, muita barraca”, ela me contou cinco anos depois, no final de 2013, quando concluía sua segunda campanha à Presidência. Sabia que ganharia e notava-se que estava tranquila.
A crítica mais persistente que Bachelet recebeu durante a corrida eleitoral – concluída em 15 de dezembro com sua vitória, com 62% dos votos no segundo turno – foi a de sua escassa disposição para falar com a imprensa e participar de debates. Expôs-se pouco, certamente calculando que os outros oito candidatos que participaram do primeiro turno das eleições só teriam a ganhar se a atacassem, pois segundo todas as pesquisas era a candidata que disparava. Durante a entrevista usava uma blusa folgada, tipo bata oriental. Parecia mais relaxada do que ao começar a campanha. Mas já não era a mulher alternativa, a cinquentona divorciada, festeira e divertida de dez anos atrás, quando começava a carreira política. Desta vez não foi exclusivamente seu encanto que lhe deu o triunfo. Aos 62 anos, Bachelet agora carrega o peso das instituições. Ela se preocupa com o grau de expectativas que percebeu na população. Tem rugas novas ao redor da boca. “Estou cheia de manchas roxas”, ela conta, porque nos atos públicos as pessoas fazem o impossível para tocá-la.
A primeira lembrança que ela tem da infância são os verões em Cahuil, perto de umas salinas a pouco mais de 200 quilômetros ao sul de Santiago, onde o avô materno Máximo Jeria Johnson, anarquista, comprou umas terras com o amigo Manuel Rojas, Prêmio Nacional de Literatura. Aniceto Hevia, protagonista de Hijo de Ladrón, o romance mais importante de Rojas, seria inspirado no avô de Bachelet, nos anos que passaram juntos vagabundeando na Argentina. “Em Cahuil fiz meus primeiros e últimos nus públicos”, confessa Bachelet, enquanto mostra uns retratos de verão em que perambula sem roupa pelo campo, quando tinha 4 ou 5 anos. “Papai adorava fazer fotografias”, diz.
Em 1964, Bachelet ingressa no Liceu 1 para cursar o secundário. Comum intervalo de dois anos, durante o qual viveu nos Estados Unidos enquanto seu pai servia como adido militar em Washington, foi ali, na escola pública para moças mais destacada do país, que terminou seus estudos. “Ela era caxias. Tinha ótimas notas. Em todas as matérias. Se eu soubesse que ia ser presidente, teria prestado mais atenção nela”, reconhece Ximena Larrea, uma ex-colega de classe e também ex-membro do conjunto musical Las Clap-Clap, no qual Bachelet, fanática pelos Beatles – tinha até uma foto do Ringo colada no caderno –, cantava e tocava violão.
A banda, se não foi um sucesso, tampouco foi uma simples brincadeira de garotas. “Interpretávamos Joan Baez, alguma coisa de country e canções de vários artistas latino-americanos do momento”, conta a amiga Ximena. Bachelet preferia roupas folgadas e usava bolsas artesanais, como as hippies da época. Tinha o cabelo liso e comprido.
À mesma turma de amigas pertencia Lucía Vergara Valenzuela, a Piti, que foi cravejada de balas na primavera de 1983, na famosa e macabra operação da rua Fuenteovejuna, em que agentes da polícia política do regime de Augusto Pinochet liquidaram três militantes do Movimento de Esquerda Revolucionária, o MIR, em vingança pelo atentado ao general Carol Urzúa, prefeito de Santiago nos tempos da ditadura. “Jogaram fora seu corpo nu, não sei onde”, disse Ximena, que só voltou a ver Bachelet muitos anos depois, quando, em dezembro de 2005, ela e outras colegas de escola foram a uma imensa festa organizada na Estação Mapocho para celebrar o triunfo no primeiro turno das eleições. Nessa ocasião, quando viram Bachelet passar, gritaram, do meio da multidão, o nome do antigo conjunto musical. A presidente recém-eleita deteve-se no mesmo instante, abandonou seu percurso e, morrendo de rir, como uma secundarista excitada, se aproximou para abraçá-las. “Todas nós do grupo tivemos a vida interrompida depois do golpe”, conclui Ximena Larrea. “Éramos jovens revolucionárias. No início nos surpreendeu ver Michelle metida de novo na política. O país viveu um processo psicanalítico. Depois da ditadura precisávamos de uma mãe de riso fácil, que não mandasse tanto na gente, e essa responsabilidade recaiu sobre ela, que a tomou como missão.”
Em 1970, quando Salvador Allende e a Unidade Popular chegaram ao poder, Michelle Bachelet começou a estudar medicina na Universidade do Chile. Iniciou aí sua militância no Partido Socialista. Não demorou a se aproximar do grupo de Carlos Lorca, secretário-geral da Juventude do partido e um de seus líderes mais admirados. Aluna destacada, teve um namoro com Ennio Vivaldi, amigo de Lorca, um sujeito com fama de inteligente que, segundo as palavras de um velho conhecido dele, “quando a coisa ficou feia tirou o seu da reta”. Vivaldi, hoje prestigioso especialista em transtornos do sono, afastou-se do partido depois do golpe de Estado. Atualmente é vice-decano da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile, e seu nome figura entre os candidatos a reitor.
Era uma época em que abundavam as bravatas revolucionárias, e a direção nacional do Partido Socialista, nas mãos de Carlos Altamirano, conclamava: “Avançar sem negociar”, enquanto seguidores de Lorca pediam calma. Altamirano alardeava a ideia de que se houvesse golpe de Estado a população responderia com força: “O golpe não se combate com diálogos. O golpe se esmaga com a força dos trabalhadores, com a força do povo, com a organização da classe operária…” Disse isso num discurso no dia 9 de setembro de 1973. Dois dias depois, o general Gustavo Leigh, amigo íntimo de Alberto Bachelet, mandou dois caças bombardearem o Palácio de La Moneda, a sede da Presidência da República, onde se encontrava o presidente, Salvador Allende. Naquela manhã, ele havia feito seu derradeiro discurso, transmitido pelo rádio, e afirmou que não renunciaria. Diante da resistência de Allende, o cerco militar se fechou, e ele acabou por determinar que seu pessoal abandonasse o Palácio. Durante a evacuação do palácio, ouviram-se dois tiros. A versão oficial é de que Allende se suicidou. Uma centena de pessoas, quando muito, tentou resistir com armas, e na própria tarde do dia 11 de setembro o país se achava sob o controle absoluto e espantoso dos militares. O corpo do presidente foi enterrado numa vala comum e somente em 1990, após a queda de Pinochet, ele teve um funeral com honras de Estado.
Fazia duas noites que Bachelet dormia na Faculdade de Medicina, com seus companheiros do Partido Socialista, já conscientes da ameaça golpista. Seu pai, o general Bachelet, foi preso em sua sala no Ministério da Defesa no dia do golpe. Salvador Allende o nomeara para um dos postos mais controvertidos de seu governo: a Direção Nacional de Abastecimento e Comercialização, a Dinac, nascida para lutar contra o mercado negro de alimentos e os monopólios, dois grandes adversários àquela altura do governo da Unidade Popular. Alberto Bachelet, embora simpatizasse com o governo, tentara renunciar por divergências com as diretrizes gerais. O próprio Allende, porém, lhe pediu que ficasse.
“Acusaram papai de estar executando um plano econômico macabro destinado a matar de fome os chilenos”, explica Bachelet, “e também de ter se reunido em sigilo com uns cubanos”, o que lhe custou o rótulo de traidor da pátria. “Encontrei-me com colegas da Força Aérea, que conhecia há vinte anos, alunos meus que me trataram como um delinquente ou como um cachorro”, ele escreveu da prisão a Alberto, seu filho mais velho e único irmão de Michelle Bachelet, então radicado na Austrália.
Uma longa amizade unia o pai de Bachelet tanto ao general Gustavo Leigh, que deu a ordem de bombardear o Palácio de la Moneda, quanto ao general Fernando Matthei, que anos mais tarde se incorporou à Junta Militar. “Eram seus dois melhores amigos” – conta a viúva Ángela Jeria. Mas nenhum o ajudou – Leigh foi quem ordenou sua prisão –, e, embora Ángela sustente que Matthei não teve responsabilidade na morte do marido, há quem duvide de que ele não soubesse o que acontecia na Academia de Guerra Aérea, sob sua autoridade. Ali dentro torturaram Alberto Bachelet. “Para mim ele era o tio Fernando”, disse Michelle Bachelet. Embora não pareça totalmente convencida de sua inocência, ela e a mãe resolveram assumir o mesmo discurso contemporizador.
Alberto Bachelet era um militar atípico. No livro de Nancy Castillo, Hijas de General, Ángela conta que o marido “participava de todas as tarefas do lar: cozinhava, limpava, cuidava das crianças”. Gostava da natureza, de música, de esportes e de literatura. Também foi maçom. “Meu avô Jeria impôs-lhe como condição entrar na Ordem se quisesse se casar com mamãe”, conta Bachelet. Mas, a exemplo de seus companheiros de armas, a maçonaria também lhe deu as costas depois do golpe. Foi dispensado compulsoriamente “por ausência e falta de pagamento” durante o período em que permaneceu preso. “O senhor, venerável mestre”, ele escreveu da prisão ao líder maçom da época, “esqueceu os princípios que nos são tão caros, como a fraternidade e a solidariedade com os irmãos necessitados, esquecendo além do mais o que jurou quando foi elevado a mestre. Isso se chama traição.”
O pai morreu de um ataque cardíaco no dia 12 de março de 1974. “Não creio que quisessem matá-lo”, ressalva Bachelet. Como ele tinha problemas cardíacos, a filha supõe que “deixaram acontecer”. Nas ocasiões importantes, ela sempre evoca o nome e o exemplo do pai. Fez isso na comemoração de suas duas vitórias presidenciais. Ele representa para ela o valor de ser uma pessoa consequente. E a faz se lembrar dos perigos da deslealdade.
“Não me deram choque elétrico. Fiquei vendada, fui amarrada, fui espancada, mas não muito. Queriam nomes, e eu dei nomes de vários socialistas mortos. Da nossa cela ouvíamos os gritos dos que eram torturados com choques elétricos. Como eu era médica, atendia às moças que voltavam da tortura. Muitas tinham sido entregues por seus companheiros.” Assim Michelle Bachelet recorda sua passagem por Villa Grimaldi, o principal centro de tortura do regime militar. Foi presa junto com a mãe, no dia 10 de janeiro de 1975. No exato momento em que os agentes da polícia política de Pinochet entravam no apartamento para levar as duas, Bachelet recebeu um telefonema de Jaime López, seu namorado. Por meio de códigos que usavam, ela lhe informou o que estava acontecendo. Quando chegaram ao centro de detenção, mãe e filha foram separadas. Ángela Jeria sofreu terrivelmente. Espancaram-na muito, foi bolinada – enquanto a chamavam de “avó” – e mantida por uma semana dentro de uma espécie de compartimento estreito, sem acesso a instalações higiênicas, e que os torturadores denominavam “Casas Corvi”, como certas habitações populares que havia no Chile. Ficaram em Villa Grimaldi mais de duas semanas, antes de serem transferidas para Cuatro Alamos, outro lugar de reclusão com características semelhantes. Ali permaneceram mais cinco dias. Ao saírem, ela e a mãe voltaram a se reunir no aeroporto de Pudahuel para embarcar para a Austrália, onde as esperava seu irmão mais velho, Alberto, ou Betingo.
A história de Jaime López é tão terrível como misteriosa. “Praticamente vivia em casa. Mamãe o adorava”, falou a presidente. Juan Carvajal, chefe da assessoria de imprensa do La Moneda no primeiro governo de Bachelet, diz que ele “era considerado um cara brilhante, mas era totalmente alcóolatra”. Filho de ferroviário, embora só dois anos mais velho que Bachelet, López era um dos homens mais próximos de Exequiel Ponce e Carlos Lorca, na época os dirigentes máximos do Partido Socialista na clandestinidade. Era encarregado das relações entre a direção interna e a que funcionava no exílio. Levava mensagens, documentos e “viajava com dinheiro dentro de umas bonecas”, lembra Bachelet. Os dois se reuniram em Berlim Oriental, poucos meses depois que ela foi expatriada, ao sair da prisão. Em junho de 1975, Ponce e Lorca foram assassinados, e Jaime López assumiu como secretário-geral do partido. Logo depois não se teve mais rastro dele.
“Eu caí por causa de Jaime López”, disse Carvajal. Seus companheiros demoraram a concluir que fora ele quem entregara os membros da direção do Partido Socialista. “Para mim essa história foi tão dolorosa que eu preferi matá-lo. Tinham assassinado meu pai, e me custou aceitar que ele tivesse cedido”, disse-me Bachelet em dezembro, quando conversamos em uma sala do seu comitê de campanha. Ela impôs a si mesma a tese de que López não havia resistido às torturas. “Desculpe, mas ele tinha 23 anos. Como pedir a alguém de sua idade, responsável por uma instituição, que suportasse tudo isso?”, perguntou, em tom maternal.
Alguns, como Carvajal, desconfiam que López era infiltrado no partido há muito tempo, talvez até mesmo antes do golpe. Gladys Cuevas, amiga e correligionária de Bachelet, que também esteve presa em Villa Grimaldi, afirma que, “quando mentíamos ou eles (os torturadores) queriam comprovar algo, diziam ‘vamos chamar o computador’, e o computador era Jaime López”. Bachelet o defende: “Tenho certeza de que não tinha nada a ver com isso. Jogaram em cima dele a culpa de coisas pelas quais não era responsável. Jaime frequentava pessoas da direção que não caíram. Ou seja, acho que entregou, mas protegeu.”
A incógnita nunca foi esclarecida: quem era, afinal, esse homem que ela amou? Um homem suscetível, como qualquer um, ou uma mentira do começo ao fim? A presidente admite que gostou muito dele: “Foi um amor importante, se bem que, claro, todos os amores são importantes.” Até hoje ninguém conhece o paradeiro de Jaime López. Bachelet supõe que o eliminaram quando deixou de ser útil. Ele pode ser um preso a mais desaparecido. Ou ter refeito a vida em algum canto remoto.
Durante o exílio na Alemanha Oriental, Michelle Bachelet se instalou em Potsdam, não muito longe da capital, onde continuou os estudos de medicina sem manter relações com os altos dirigentes socialistas chilenos, que haviam feito de Berlim sua sede informal no exterior. Sua mãe, Ángela, trabalhava como comentarista política na Rádio Berlim Internacional, a “voz da República Democrática Alemã”, onde tinha um espaço no programa Chile al Día.
Michelle Bachelet casou-se na Alemanha com o chileno Jorge Dávalos, um arquiteto socialista, também exilado, e com ele teve dois filhos: Sebastián, nascido em junho de 1978, e Francisca, que nasceu já na volta do exílio, em 1984, um ano antes da separação dos pais.
Meses antes haviam começado as primeiras manifestações públicas contra a ditadura militar. Além das grandes concentrações, formavam-se piquetes nas esquinas do Centro de Santiago. Ao ritmo do grito “E vai cair”, convocavam os pedestres a aderir aos protestos, até que chegavam as forças especiais dos carabineiros e dispersavam todos a cacetadas, gás lacrimogêneo e jatos d’água. Moradores das favelas das periferias montavam barricadas, e não raro os enfrentamentos terminavam com mortos. Houve noites em que se escutava o bate-bate das panelas por toda a cidade, embora com menos força nos bairros mais ricos. Durante essas mobilizações, frequentemente grupos de ultraesquerda atacavam torres de alta tensão e a capital ficava às escuras.
Em 1985, já instalada no Chile, Michelle Bachelet começou a namorar Alex Vojkovic, um dos porta-vozes da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, organização paramilitar vinculada ao Partido Comunista, criada em 1983, que teve como primeira ação justamente um apagão nacional. Em 1986, a Frente organizou o único atentado terrorista que Pinochet sofreu durante seu mandato. A emboscada terminou com cinco homens da escolta mortos, o ditador ileso, prisões arbitrárias, assassinatos em represália e, segundo o próprio Pinochet, uma imagem da Virgem no para-brisa blindado de seu automóvel desenhada pelos tiros de fuzil.
Nessa época, a proximidade de Bachelet com o Partido Comunista também tinha outra razão: sua amizade com Estela Ortiz, neta de Manuel Rojas – o romancista com quem seu avô Jeria havia comprado aqueles terrenos em Cahuil onde ela veraneava quando criança – e mulher de José Manuel Parada, militante comunista que foi sequestrado na porta do colégio de sua filha pela polícia política em março de 1985 e posteriormente degolado. Nos dias da morte de Parada, Bachelet se manteve muito perto de Estela, que além do mais carregava o peso de um pai e um irmão assassinados.
“Michelle acreditou, como muitos de nós, na via armada. Mas essa nossa ideia perdeu, e foi melhor assim”, me disse outra amiga da presidente na juventude, também comunista, que preferiu não ter o nome citado. Quando a maioria dos chilenos se pronunciou contra a permanência de Pinochet no poder por mais oito anos, no plebiscito de 1988 convocado pelo próprio governo, Bachelet também votou, mas “não acreditava que a ditadura fosse entregar o poder pelo caminho institucional”. “E não se viu tentada pelas armas?”, perguntei-lhe. “Disso vou falar melhor quando completar 90 anos”, respondeu com um riso travesso, no mesmo instante em que se levantou para dar a entrevista por encerrada.
A terceira filha de Bachelet, Sofía, hoje com 21 anos, nasceu de uma relação com o epidemiologista Aníbal Henríquez, um homem com convicções à direita com quem ela não se casou, mas não por falta de vontade. “Ele me deixou por uma mais jovem”, confessa Bachelet. “É mulherengo, tem problemas com compromisso. Uma vez me propôs casamento, mas eu ri. Respondi que ele fazia isso para receber um faqueiro de presente.”
“Seus homens foram todos uns chatos”, soltou uma das amigas próximas de Bachelet. “Eu me meti com caras que eu no fundo sabia que eram uma fria, mas não levei a sério minhas intuições. Vai ver que ‘o amor é mais forte’, como dizia o papa”, brincou Bachelet, em alusão a uma frase de João Paulo II em visita ao Chile, em 1987, que se tornou um símbolo da reconciliação no país. Agnóstica, a presidente concede imensa importância ao que chama de sexto sentido. “Os homens não entendem isso direito”, ela se queixa, “acham que é besteira.”
Nos anos 90, Bachelet trabalhou como pediatra de um centro de reabilitação e apoio para crianças vítimas da violência – crianças que, por exemplo, tinham visto os pais serem assassinados – e também num serviço do Ministério da Saúde.
O Partido Socialista, do qual Bachelet era uma militante de base, propôs seu nome para a pasta da Saúde no governo de Ricardo Lagos, que ela viria a suceder na Presidência. Havia uma preocupação em indicar mulheres para a equipe ministerial. Em 2000, ninguém desconfiava que a desconhecida doutora Bachelet poderia se transformar na líder política a quem caberia dar um novo impulso à Concertação,[1] burocratizada depois de dez anos no poder. Para Lagos, porém, isso já parecia claro quando, dois anos mais tarde, em 2002, a nomeou ministra da Defesa.
Nunca uma mulher tinha chegado a esse posto na América Latina. Muito menos no Chile, onde os militares marcham a passo de ganso e com capacetes prussianos. Como se fosse pouco, Bachelet era filha de um general assassinado por seus companheiros. Mas nada disso teria sido um grande problema para os militares. “O que inquieta o Exército, ministra, é a senhora pertencer ao mundo da esquerda”, disse-lhe o general Roberto Arancibia, conforme consta no livro Bachelet, dos jornalistas Andrea Insunza e Javier Ortega.
A filha de Alberto Bachelet não era uma novata nas questões militares. Além de ter crescido entre eles, em vilas de aviadores, no ano de 1996 cursou a Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos, onde doze de seus dezesseis professores eram oficiais reformados, fiéis a Pinochet. Quando uma prima de Bachelet manifestou estranheza diante de sua decisão de se enfiar lá dentro, ela respondeu: “É a única maneira que tenho de entender o que fizeram com papai.”
Choveu muito no inverno de 2002, quando Bachelet foi nomeada ministra da Defesa. Houve inúmeras inundações em bairros da capital e as ruas começaram a entrar em colapso. O Exército foi chamado para prestar ajuda. No dia 3 de junho, uma segunda-feira, a ministra subiu num tanque anfíbio, com meio corpo para fora, cercada de soldados em uniforme de campanha, para percorrer os bairros pobres da periferia. Vestia uma parca que lhe arrumaram no Ministério e um boné azul com a inscrição “Regimiento Buin”, que lhe emprestou um militar em serviço. Essa imagem, captada pela imprensa, fez disparar de vez sua popularidade. Dois meses depois, Bachelet já era a candidata insuperável à Presidência da ala progressista da Concertação. “Nunca pretendi ser presidente da República. A vida foi me pondo em posições destacadas. Acho que as pessoas se dão conta disso, e de que há um esforço autêntico da minha parte”, ela disse, quando lhe perguntei como explicava sua permanência como líder mais de uma década depois.
No dia 15 de janeiro de 2006, aos 54 anos, Michelle Bachelet foi eleita presidente do Chile, com 53,2% dos votos. Naquele momento foram muitas as mulheres comuns que copiaram seu penteado curto e reto, sem maiores artifícios. Foram então chamadas de as bachimelenas. “Terminou a pátria e começa a mátria”, gritou a atriz Malucha Pinto no palco instalado em La Alameda, a principal avenida de Santiago, na noite em que Bachelet se elegeu pela primeira vez. Milhares de mulheres festejaram como se a vitória fosse delas. Muitas se pareciam com ela – uma mulher solteira, com três filhos e uma mãe viúva ao lado. Nada mais distante da imagem católica e patriarcal da política chilena.
Bachelet pertencia à ala da Concertação inconformada com os avanços tímidos dos governos da coalizão e crítica dos acordos feitos com a direita. No final do governo de Lagos, o terceiro consecutivo dos concertacionistas depois de Pinochet, o brilho da coalizão já estava embaçado. Parecia que uma elite tinha se enquistado no processo de tomada de decisões. É verdade que as mudanças desde o final da ditadura até então tinham sido imensas. A pobreza baixara de 40% para 14% e a renda per capita aumentou de 4,5 mil para 9,7 mil dólares entre 1990 e o ano 2000 (chegando a 15 mil doláres em 2006, ao fim do governo Lagos). A censura no cinema foi revogada, aprovou-se a lei do divórcio e pela primeira vez temas como os direitos da mulher e casos de abuso sexual entraram em debate. Os homossexuais começaram a passear de mãos dadas (até 1999 a sodomia era criminalizada) e o consumo de drogas aumentou. A centro-esquerda governava, mas o país não abandonara o protótipo neoliberal. A riqueza prosseguiu seu caminho de concentração em pouquíssimas mãos, ao mesmo tempo que os programas de seguridade social permaneciam ausentes. Esse mal-estar, gestado de maneira mais ou menos imperceptível ao longo de vários anos, veio à tona quando Bachelet irrompeu como candidata.
A primeira Bachelet não representou uma mudança na linha econômica, tampouco uma reforma importante nas instituições políticas, ainda muito impregnadas pelo autoritarismo da Constituição herdada da ditadura. Ela criou um pilar solidário no sistema de aposentadorias que deu uma base aos que não recebiam nada, mas não tocou nas privatizações que Pinochet promovera nas áreas da saúde, educação e previdência social.
“Ela não tinha nenhum poder quando entrou como ministra no governo de Ricardo Lagos, e ao fim de cinco anos o poder era todo dela. Ela não era Lagos, que fez a carreira completa, que galgou um degrau depois do outro. Na Presidência, deparou-se de repente com uma mistura de duas coisas: de um lado, a obrigação do exercício do poder; de outro, um mundo de infinitas restrições”, explica Ricardo Solari, ex-ministro de Lagos e chefe da campanha de Bachelet naquela primeira eleição. “Ali vivia a deslealdade”, conta uma amiga da presidente. “Entre nós, as mais próximas, comentávamos que se ela tivesse um marido ao lado não a teriam tratado assim. Ela chegava a um acordo com as bancadas parlamentares e logo em seguida elas estavam fazendo outra coisa. Por isso não confia nos partidos.”
Muitos dirigentes da Concertação concordam que o forte de Bachelet não foi a articulação política, nem a liderança sobre a coligação que a apoiou. Na verdade, divisões no interior das forças aliadas fizeram com que ela fosse perdendo a maioria parlamentar com que havia iniciado o primeiro mandato. “Ninguém falava bem dela nos círculos do poder”, lembra-se Pablo Halpern, que foi seu assessor de Comunicação. As pretensões renovadoras com que começou o governo – caras novas, paridade de gênero – foram cedendo lugar à experiência das velhas raposas.
Seja como for, Bachelet terminou seu governo com uma aprovação perto de 80%. Não conseguiu, porém, transferir essa popularidade para o seu candidato à sucessão, o democrata cristão Eduardo Frei, uma velha figura da Concertação. Em 2010 a direita ganhou com o empresário Sebastián Piñera.
Uma mulher que foi despedir-se dela na calçada do La Moneda lhe disse: “Volte, mas não se meta em política.”
Com Sofía, a filha caçula, Michelle Bachelet vive numa casa do bairro de La Reina, que comprou ao terminar seu governo. É uma zona ao pé dos Andes, de classe média alta, na parte alta de Santiago. Seu chalé, num condomínio do qual se vê toda a cidade, tem menos de 200 metros quadrados. Quando convida os amigos, Bachelet costuma servir azeitonas e frutas secas de aperitivo. Em 2010 descobriu no supermercado uns petiscos de queijo que são aquecidos no micro-ondas. Na ocasião em que estive lá jantando com pessoas próximas da presidente, ela preparou comida indiana.
Bachelet retornou a Santiago em abril de 2013, depois de três anos vivendo em Nova York à frente da recém-criada ONU Mulheres, onde era diretora executiva das Nações Unidas. Estava mais formal, menos espontânea, mais assustada que antes de partir, ao terminar seu mandato anterior. Disse-me que não queria ser presidente de novo, que sua vida em Manhattan era agradável e interessante, e que voltar a ser candidata lhe acarretava imensos custos pessoais e familiares, mas que nela primava o sentido do dever. “Eu disse a várias pessoas que passaram por lá, em jantares, em discussões: ‘Acho que é hora de substituição.’ Mas isso não aconteceu, e por isso estou aqui.” Argumentei que ela poderia ter negado a tarefa. “Se tivesse nascido diferente, provavelmente. Parece que o leite de minha mãe estava impregnado das palavras dever e responsabilidade”, respondeu.
Enquanto esteve longe, especulou-se sobre seus amores (“Não namorei ninguém em Nova York”), seu estado de espírito, suas novas influências ideológicas, seus hábitos alimentares. Nos Estados Unidos, salvo raras exceções, quase ninguém a reconhecia. “Podia ir ao supermercado”, diz ela, nostálgica. Lá, escolheu viver em Roosevelt Island, um lugar discreto e tranquilo de classe média, na outra margem do East River.
Bachelet é de temperamento alegre – muitas vezes era a última a sair das festas –, se bem que agora isso não se perceba como antes. Conta menos piadas, embora ainda ria até das mais picantes. “Não foi fácil tirar as Nações Unidas de cima de mim”, comentou, no começo de 2013, poucos dias depois de sua volta de Nova York. Seu penteado estava diferente. O cabelo liso, estilo capacete de sapê, tinha sido substituído por um corte mais aerodinâmico, mais repicado, exigindo fixador. Mudou também o modo de vestir, agora muito mais formal e caprichado.
Os anos em que Michelle Bachelet esteve fora do país foram sem dúvida os de maior agitação social desde a queda de Pinochet. Em 2011, centenas de milhares de pessoas fizeram passeatas exigindo educação gratuita e de qualidade, respeito ao meio ambiente e às comunidades locais na implementação de projetos energéticos, casamento igualitário e maior autonomia para as unidades da federação. Em nenhuma dessas causas se notava saudade dos governos anteriores. Aquilo não representava apenas um mal-estar com o governo de Piñera, o primeiro de direita na democracia, mas uma queixa maior e mais difusa. Muitos dos protestos apontavam o dedo para a Concertação e suas políticas, caudatárias da herança liberal.
Bachelet não estava lá quando a coisa explodiu. No caso dos estudantes, porém, a semente das revoltas remontava a 2006, durante o seu governo, com o Pinguinazo, nome que alude à semelhança do uniforme dos estudantes secundaristas com pinguins. Cinco anos depois, renascia o movimento estudantil, com uma pauta muito semelhante, só que dessa vez encabeçado pelos universitários. Em nenhuma das muitas passeatas se viam os rostos manjados da Concertação nas ruas, muito menos bandeiras de seus partidos. Tinham receio de se expor diante da multidão. E Bachelet não foi poupada. Havia cartazes com inscrições que a atacavam.
Ao mesmo tempo, Bachelet crescia incompreensivelmente nas pesquisas. Foram estas, em última análise, que a trouxeram de volta. “Talvez daqui a alguns anos os analistas escrevam sobre isso e expliquem essa bizarra situação de uma pessoa que, ausente, está sempre presente na conversa, no discurso, no cotidiano; e olha que tentei ser prudente e deixar que todo mundo fizesse o que tinha de fazer aqui, procurei não interferir. Disseram que minha presença impedia o surgimento de novas lideranças; bem, fui para um lugar a dez horas de avião, e no entanto, curiosamente, parece que estive mais presente do que nunca”, ela disse.
A direita supunha que Bachelet era a carta escondida e silenciosa de um plano bem tramado entre ela e os partidos da Concertação. O fato é que até sua segunda campanha estar bem adiantada nem mesmo os quadros do Partido Socialista sabiam de seus planos. Até hoje não estão muito a par. O núcleo de confiança de Bachelet são a amiga Estela Ortiz, com quem veraneia há décadas no lago Caburgua, numas casinhas de madeira, e alguns profissionais jovens que morreriam mas não lhe dariam as costas, entre eles a jornalista Paula Walker e Rodrigo Peñailillo, engenheiro comercial, misto de economista e administrador de empresas, recém-nomeado ministro do Interior.
Bachelet toma as grandes decisões com eles, muito mais que com os dirigentes partidários. Deu por superada a Concertação e formou A Nova Maioria, uma aliança mais ampla, que vai da Democracia Cristã ao Partido Comunista. Criou laços com os principais líderes do movimento estudantil, vários dos quais chegaram ao Parlamento. (A comunista Camila Vallejo, seu rosto mais representativo, foi eleita deputada fazendo campanha junto com ela; meses antes, Camila não se constrangia em criticá-la abertamente.) “Se eu estivesse aqui em 2011, gostaria de ter ido protestar”, Bachelet comentou comigo.
De abril de 2013 às eleições passaram-se oito meses. A direita mudou três vezes de candidato. Um deles renunciou por depressão. Finalmente, decidiram-se por Evelyn Matthei, filha do general Fernando Matthei, o amigo de Alberto Bachelet e membro da Junta Militar de Governo na ditadura. Poderia ser a trama de um seriado de tevê, ou de um grande romance, ou das Vidas Paralelas, de Plutarco. Quando crianças, as duas estiveram na mesma época no quartel de Cerro Moreno; uma gostava de piano e a outra, de violão; uma estudou engenharia comercial e a outra, medicina. Depois veio o golpe, e uma interpretava os Noturnos de Chopin, enquanto a outra teve o violão quebrado pelos militares na própria cabeça. Evelyn: um rosto da ditadura. Bachelet: torturada, exilada e socialista.
Um destacado historiador chileno, Alfredo Jocelyn-Holt, acusou Bachelet de viva voz durante sua primeira campanha, num encontro que ela teve com um grupo de intelectuais, de ser “um produto de marketing midiático populista, uma carta escondida, ainda não reconhecida, da força militar”, isto é, insinuou que ela era um nome dos militares. A candidata ficou atônita, com os lábios trêmulos, e começou a chorar antes de lhe responder. “A intolerância, a arrogância, a desqualificação do outro nos levaram até esse ponto, e portanto me nego a esse nível de discussão”, ela disse, na ocasião. Embora isolado em sua tese, Jocelyn-Holt não dá o braço a torcer. Considera histérica a reação de Bachelet e diz continuar com suas suspeitas.
A uma longa lista de conhecidos da presidente reeleita, perguntei qual era seu maior defeito. Todos foram unânimes em responder que ela é desconfiada (houve quem a chamasse de paranoica). “Sua desconfiança”, me disse uma velha amiga dela, “vem principalmente do caso com Jaime López.” A própria Bachelet reconhece a importância que para ela teve essa história de amor. A história de seu pai, contudo, é igualmente decisiva. Razões para desconfiar certamente não lhe faltam. Ao saber o que os mais chegados diziam dela, a presidente eleita contra-argumentou: “Eu diria que sou realista e perceptiva.”
A partir do dia 11 de março próximo, Michelle Bachelet será presidente pela segunda vez, vitória que apenas um político chileno conseguiu em 100 anos de história pátria – Carlos Ibáñez del Campo, que primeiro foi presidente à força e, depois, elegeu-se. O país está pedindo mudanças profundas. Ela prometeu fazer da educação um direito garantido pelo Estado, uma significativa reforma tributária que permita isso e uma nova Constituição, dessa vez filha da democracia. Os tempos que se anunciam não serão serenos. Ela sabe. “As demandas são muitíssimas”, afirma. Sabe que suas promessas lhe serão cobradas, sem contemporização. Não hesita em se declarar de esquerda. A música está tocando alto. Será preciso ver como se move a presidente Bachelet, a mesma que uma noite em Havana confessou: “O que eu mais gosto é de dançar.”
[1] Coligação de centro-esquerda formada ao fim da ditadura por socialistas e democratas cristãos.
