A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    Afonso Dhlakama, líder da Renamo, tenta controlar províncias no centro e no norte de Moçambique. O grupo de oposição se queixa do sistema eleitoral e de fraudes em votações, que favoreceriam a Frelimo, no poder desde a independência GIANLUIGI GUERCIA_AFP

carta da África

A estrada para o Maláui

Moçambique volta a ser palco de conflitos armados depois de vinte anos de paz

Gisele Lobato | Edição 120, Setembro 2016

A+ A- A

O ônibus já velho e com rachaduras no para-brisa deixou a rodoviária de Maputo ainda de madrugada. Levava na lataria o nome da empresa: “Maning Nice”, uma expressão local derivada do inglês que em português se traduz por algo como “muito bom”. Se tudo desse certo, faria nos próximos dois dias o percurso de 2 220 quilômetros entre a capital de Moçambique, no extremo sul do país, e Nacala, no norte.

Não fosse por seu péssimo estado de conservação, o veículo pintado de verde brilhante poderia ser confundido com qualquer ônibus intermunicipal brasileiro. Ao sair da capital, quase metade das poltronas ainda estava vazia. Os poucos passageiros eram em geral moçambicanos negros, que se dividiam em dois grupos principais, mas não excludentes: os que iam ou voltavam de visitas a parentes, e os que levavam enormes volumes de carga adquiridos na capital para serem revendidos na província.

“A viagem vai ser longa”, anunciou uma comerciante gordinha e sorridente, na casa dos 40 anos, que se acomodara num dos assentos junto ao corredor, deixando vazia a poltrona da janela. [1] Ia ao encontro do marido, que a esperava em Nampula, cidade bem ao norte, localizada 200 quilômetros antes do destino final da linha Maputo–Nacala. Uma oferta de emprego no outro extremo do país separara os dois, mas de tempos em tempos eles se reencontravam, cumprindo o longo percurso de ônibus. Ao contrário de boa parte dos passageiros, a comerciante dizia não ter medo de fazer aquele trajeto. “Basta ter fé em Deus”, explicou.

 

Os extremos da rota da Maning Nice ajudam a entender por que Moçambique se tornou um polo de atração de investimentos internacionais nos últimos anos. De um lado fica a capital, com suas ruas coloridas pelas acácias, cafés com vista para o oceano Índico e pequenas lojas gourmet abastecidas com produtos europeus e sul-africanos. Ao longo de suas largas avenidas arborizadas, moçambicanos e estrangeiros fazem cooper. Dividem as calçadas com banquinhas de frutas e verduras, dispostas de maneira bem organizada e administradas por vendedoras simpáticas, envoltas, as comerciantes, em capulanas coloridas. Com menos de 2 milhões de habitantes, a maior cidade moçambicana nunca chegou a ser duramente atingida pela guerra, conservando seus grandes sobrados e prédios coloniais.

Muitas vezes apresentado como caso de sucesso pelo FMI, o Fundo Monetário Internacional, Moçambique não vê uma taxa anual de crescimento do Produto Interno Bruto menor do que 6% desde 2000. É verdade que tal “explosão” econômica partiu de uma base ínfima – segundo o Banco Mundial, o PIB per capita ali era de 270 dólares em 2001. Em 2014, havia mais que dobrado, chegando a 620 dólares ao ano, o que ainda deixava Moçambique entre os países mais pobres do mundo. O crescimento constante, o aumento – por algum tempo – do preço das commodities e as perspectivas otimistas, de toda forma, atiçaram o interesse estrangeiro.

A promessa de boom econômico deu a Maputo um aeroporto novo e moderno, financiado pela China, um pouco mais de movimento nas horas do rush e alguns arranha-céus em seu horizonte. As favelas da periferia e os meios de transporte improvisados e superlotados não deixam esquecer que se está em um país antes de tudo pobre – mas nem de longe Maputo lembra outras capitais africanas. Não há ali o caos de Luanda, com seus guardas armados de fuzis, grades por todos os lados e montanhas de lixo pelas ruas. Quem acaba de chegar se surpreende com uma cidade agradável e aparentemente pacata.

 

Na outra ponta está Nacala, símbolo de uma década de otimismo. Nos últimos anos, a cidade viu suas zonas francas industriais atraírem o interesse de investidores, enquanto cadeias hoteleiras anunciavam projetos milionários. O porto local está passando por uma reabilitação total, bancada pelo Japão, que visa triplicar sua capacidade. É ali que termina uma ferrovia recém-inaugurada, construída pela Vale. A companhia brasileira utiliza o caminho de ferro para transportar o carvão que, desde 2011, extrai das minas de Moatize, no centro do país. No total, a empresa já investiu 7,6 bilhões de dólares na extração do carvão e na logística de exportação – algo como 25 bilhões de reais, montante comparável aos cerca de 30 bilhões de reais despendidos por empreiteiras e empresas de energia, no Brasil, para construir a usina de Belo Monte.

A exemplo de Maputo, Nacala ganhou recentemente um moderno aeroporto internacional. Foi construído pela Odebrecht, com financiamento de 125 milhões de dólares do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – em 2014, o banco de fomento brasileiro também emprestou 320 milhões de dólares para a Andrade Gutierrez levantar uma barragem no sul de Moçambique, ainda não inaugurada.

O aeroporto de Nacala tem capacidade para atender 500 mil passageiros por ano, aproximadamente o dobro da população atual da cidade. Desde a inauguração, anda praticamente às moscas, mas ainda se espera que por ali passem técnicos e homens de negócios quando afinal começar a exploração das reservas de gás natural – as maiores desse tipo na África – descobertas em 2012, na fronteira com a Tanzânia. Além de companhias brasileiras, chinesas e japonesas, também americanos, indianos e europeus fizeram investimentos no país nos últimos anos. Por algum tempo pareceu que Moçambique caminhava, como que por avenidas arborizadas, em direção a um futuro mais próspero.

 

 

O ônibus da Maning Nice já havia percorrido mais de 700 quilômetros, deixando para trás os coqueirais da província de Inhambane – terra de praias de mar cristalino e resorts acostumados a acomodar celebridades internacionais. Afastava-se do litoral e preparava-se para cruzar a savana. O motorista pisava no acelerador de forma imprudente. Com a velocidade, os pneus por vezes escapavam do asfalto na estreita Estrada Nacional Número 1, indo parar no acostamento de terra batida. Com apenas uma pista em cada direção, a EN-1 é a principal do país, atravessando-o de ponta a ponta – uma espécie de “BR-101” moçambicana. A pressa do motorista era inexplicável: ele sabia que mais ao norte, ao alcançar o rio Save, que cruza o país no sentido oeste–leste, vindo do Zimbábue e desaguando no Índico, o veículo seria obrigado a parar. Dali em diante, carros, ônibus e caminhões só poderiam seguir viagem na companhia da coluna militar, a última daquele dia.

Da estrada, o que se vê da cidade de Save, que leva o mesmo nome do rio, é uma meia dúzia de estabelecimentos comerciais, um punhado de restaurantes e alguns serviços mecânicos. Moradores anunciavam refrigerantes e biscoitos nas janelas dos veículos parados que se enfileiravam nos acostamentos da EN-1.

Militares circulavam entre os carros, ônibus e caminhões. Estavam armados de fuzis, mas mantinham um ar descontraído, conversando com os passageiros que saíam de seus meios de transporte para bisbilhotar o que havia para comprar entre os ambulantes. A comerciante que viajava com a Maning Nice para ver o marido também havia descido, mas voltou ao ônibus com cara de poucos amigos. Reclamava do vendedor de crédito para celular. “Está a pedir 15 meticais pelo cartão de 10. Quer tirar vantagem da situação.”

Às 14 horas, apareceram os veículos que viajavam na direção contrária, acompanhados da escolta militar. “Agora é a nossa vez. Se aqueles passaram, nós também vamos passar”, disse outro passageiro da Maning Nice. Quando o ônibus enfim começou a se mover, o mesmo homem de meia-idade, que vestia uma camisa branca e um chapéu de cowboy, tentou manter o bom humor. “Estávamos em Moçambique, agora vamos para a outra República”, anunciou, como se tivessem acabado de cruzar uma fronteira. A brincadeira só podia parecer enigmática para quem não fosse moçambicano e fez rir a comerciante.

O veículo deixava para trás os 810 metros da ponte suspensa sobre o Save, porta de entrada para a província de Sofala. Dali até a cidade de Muxúnguè seriam 106 quilômetros em uma estrada bem asfaltada, ladeada pela savana e por aldeias desertas. No ônibus, o clima era de vida que segue. Uma menina brincava com o pai. De vez em quando, alguém fazia uma piada. Um jovem de 20 e poucos anos dormia atravessado entre duas poltronas, com as pernas bloqueando o caminho no corredor. A coluna militar consistia em um blindado da polícia à frente dos carros civis, outro atrás e um veículo de carroceria aberta que às vezes dava passagem para o conjunto de veículos, às vezes os ultrapassava, percorrendo toda a fila de carros, de uma ponta à outra. De tempos de tempos, militares mandavam parar o comboio, enquanto faziam batidas nos trechos mais fechados de mata. A descontração dos passageiros da Maning Nice durou os primeiros dois terços do trajeto. Já os 30 quilômetros finais foram percorridos em silêncio.

Dois meses antes, aquele trecho da estrada havia sido palco de uma série de ataques. No dia 11 de fevereiro, entre as 5h30 e as 7 horas, cinco veículos civis foram alvejados na EN-1, a 12 quilômetros do Centro de Muxúnguè. Ninguém morreu, mas três pessoas ficaram feridas com estilhaços de vidros. O incidente fez com que o governo moçambicano determinasse a retomada da escolta obrigatória entre Save e Muxúnguè, que já havia funcionado entre 2013 e 2014. A instalação da coluna militar, contudo, não garantiu a segurança. Em 23 de fevereiro, por volta das 10 horas, o comboio regular recém-montado foi recebido a tiros na mesma região, deixando um ferido em estado grave. Os ataques na estrada foram atribuídos ao braço armado da Renamo, a Resistência Nacional Moçambicana – histórica oponente da Frelimo, a Frente de Libertação de Moçambique, partido que governa o país de forma ininterrupta desde sua independência, em 1975.

 

A Frelimo foi fundada em 1962 para combater o domínio colonial português. Estava sediada em Dar es Salaam, na Tanzânia, e foi a partir do país vizinho que se infiltrou no norte de Moçambique. Ali contava com a ajuda dos macondes, etnia de tradição guerreira e resistência histórica à sua conquista por outros povos. A ofensiva contra Portugal começou em 1964. Com apoio da União Soviética e da China, a Frelimo protagonizou a luta pela independência, suprimindo ou absorvendo todo e qualquer outro movimento de libertação que surgisse em Moçambique. Reinava absoluta em 1975, quando o país deixou de ser colônia.

A opção da Frelimo pelo marxismo-leninismo, contudo, inquietou os regimes racistas de países com que Moçambique fazia fronteira, aliados dos Estados Unidos na Guerra Fria: a Rodésia do Sul – atual Zimbábue – e a África do Sul, então nos tempos do apartheid. Temendo a influência de um regime considerado inimigo em seus territórios e populações, os governos vizinhos patrocinaram o surgimento de uma guerrilha que fizesse frente à hegemonia da Frelimo. Surgia a Renamo. Logo em seguida viria o conflito armado.

Entre 1977 e 1992, Frelimo e Renamo travaram uma guerra que matou 1 milhão de pessoas.

Para entender o conflito é preciso recuar ao final do século XIX Até essa época, o principal polo econômico de Moçambique ficava na parte norte do território, onde se encontra a Ilha de Moçambique, então capital da colônia. Séculos antes da chegada de Vasco da Gama, em 1498, os árabes já haviam transformado a região num importante entreposto de comércio entre a África e as nações às margens do Índico. Os portugueses iniciaram a penetração colonial no início do século XVI, fazendo da ilha um posto estratégico da rota para as Índias.

Segundo o historiador francês Michel Cahen, do centro de pesquisa Les Afriques dans le Monde, ligado ao Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux, quando se deu a nova corrida europeia para a África, no final do século XIX, Portugal achou por bem ligar a economia moçambicana, que estava em declínio, ao capitalismo em ascensão na África do Sul e na Rodésia. Para isso, decidiu mudar a capital da Ilha de Moçambique para o extremo sul, onde hoje fica Maputo – na época, Lourenço Marques, como a cidade era chamada durante o período colonial. A transferência marginalizou as populações do norte e as elites mestiças que haviam surgido ali.

“Esses desequilíbrios do país foram criados pelo colonizador, mas depois foram mantidos pela Frelimo, quando tomou o poder”, explicou Cahen. Em sua fase marxista-leninista, o partido adotou um projeto de modernização autoritário e, tendo em mãos um território fragmentado entre mais de vinte grupos etnolinguísticos, buscou criar uma nação a partir do zero. Condenava o “tribalismo”, advogando o surgimento de um “homem novo”, afastado de suas raízes. Os camponeses viram-se obrigados a sair da terra de seus antepassados e a deixar para trás sua organização tradicional, passando a ser concentrados em aldeias comunais – pequenas cidades planejadas rurais.

“Os locais de culto eram proibidos. Para sair de uma região para outra era preciso ter autorização do secretário do bairro. As pessoas eram totalmente controladas, inclusive o cidadão comum. As mulheres desempregadas eram chamadas prostitutas, e levadas para campos de reeducação. Os homens que eventualmente não pudessem trabalhar ou faziam negócios informais eram chamados de candongueiros e também eram enviados para lá”, lembrou Daviz Simango, prefeito da Beira, a segunda maior cidade do país, e presidente do MDM, o Movimento Democrático de Moçambique, partido fundado em 2009 que é hoje a terceira força política local.

Em vez de unificar o povo moçambicano, a tentativa de homogeneização acabou por dividi-lo. De acordo com Cahen, as populações do norte passaram a ver que, apesar do discurso de igualdade, a Frelimo privilegiava a capital e seu entorno. Com o abandono da ideologia marxista-leninista e a abertura da economia, no início dos anos 90, também foi o sul que concentrou a maioria dos investimentos externos, aumentando ainda mais os desequilíbrios econômicos regionais. “Hoje ainda se vive muito melhor em Maputo do que no norte do país.”

Embora tenha surgido por iniciativa dos regimes vizinhos, a Renamo acabou por se beneficiar do sentimento de exclusão das populações do centro e do norte, transformando o fracasso da política da Frelimo em base social – a guerrilha representava uma proteção contra o autoritarismo do regime.

O conflito entre os dois grupos terminou formalmente em 1992, sem vencedores no campo militar, com a assinatura do Acordo Geral de Paz. Entre outras concessões, o documento garantia à Renamo participação na vida política. Durante as duas décadas seguintes, os dois antigos inimigos trocaram os campos de batalha por debates no Parlamento. Moçambique tornava-se um “caso de sucesso” para as entidades internacionais, exemplo de país que havia conseguido deixar para trás seu passado bélico.

Nas primeiras eleições legislativas após o acordo de paz, em 1994, a Renamo conquistou 38% dos votos, contra 44% da Frelimo.

Até a realização desse pleito, a Frelimo governava em esquema de partido único. Mesmo com a democratização, muito da lógica de poder do período anterior continuou a valer. Estar filiado ao partido do governo é, até hoje, praticamente um pré-requisito para conseguir um emprego público, uma bolsa de estudos ou mesmo um empréstimo bancário. A pequena elite econômica do país é, assim, extremamente dependente das estruturas estatais – para se tornar rico ou permanecer rico em Moçambique é preciso ter ligações diretas com a cúpula do poder. Segundo o antropólogo Paulo Granjo, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, as elites moçambicanas começaram a ganhar sua forma atual com as privatizações realizadas no início dos anos 90. “Elas privatizaram para si próprias.” Feita a partilha das empresas estatais, segundo Granjo, a elite local aliada à Frelimo continuou a garantir ganhos econômicos, amealhando contratos com o governo e desviando dinheiro público.

A relação direta entre governar e ganhar dinheiro é uma das razões pelas quais, para as elites políticas moçambicanas, é muito difícil pensar em partilhar o poder. E o sistema político que garante a manutenção dessas elites no governo passou a ser, cada vez mais, questionado pela Renamo.

O partido da oposição queixa-se de recorrentes fraudes eleitorais, que beneficiariam os candidatos da Frelimo. Questiona também o sistema eleitoral moçambicano, que não permite que a força da Renamo nas urnas, em particular nas províncias do centro e do norte, se traduza numa fatia maior do poder. Nas onze províncias do país – grosso modo análogas aos estados, no Brasil –, apesar de a população eleger representantes para os poderes legislativos locais, a escolha dos governadores fica a cargo do presidente da República. O partido no poder também indica, indiretamente, a maioria dos responsáveis pela administração local, nas cidades. Ou seja, na prática, onde não há eleição direta, mesmo se a maioria quiser a Renamo, quem leva é a Frelimo.

 

Além dos questionamentos quanto ao sistema eleitoral, a partir de 2005 ganhou força uma outra fonte de desavenças entre integrantes dos dois principais grupos partidários de Moçambique. Naquele ano, Armando Guebuza, um dos líderes históricos da Frelimo – e responsável, nos anos 90, por negociar a paz com a Renamo –, se tornaria presidente. Os antigos combatentes da oposição passaram a cobrar de Guebuza, então, uma participação maior nas Forças Armadas do país, como previa o acordo de 1992. Queixavam-se, ainda, de não ter acesso às pensões para ex-combatentes, pagas aos integrantes da Frelimo.

A insatisfação dos seus antigos subordinados militares pressionava o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, a abandonar uma duradoura estratégia de acomodação. Dhlakama, hoje com 63 anos, fora um dos fundadores da Renamo, além de ser seu dirigente mais longevo: lidera o grupo desde o final da década de 70.

Foi em meio a esse clima de insatisfação que, em 17 de outubro de 2012, Dhlakama anunciou a reativação de uma base militar em Satungira, na serra da Gorongosa, bem no centro do país, onde voltaria a treinar combatentes. O local havia sido a primeira base fixa da guerrilha da Renamo na Guerra Civil Moçambicana. A localização era simbólica. Com a instalação da base, Dhlakama dava uma demonstração de força. Funcionou. Em dezembro daquele ano, começaram as negociações com o governo.

A reabertura da base não significou um reinício imediato dos conflitos. Foi em abril de 2013, em Muxúnguè, a cerca de 200 quilômetros dali, que os tiros voltaram a ser ouvidos. No dia 3 daquele mês, a polícia invadiu a sede da Renamo, prendendo alguns de seus militantes. O revide veio já no dia seguinte, com um ataque à delegacia local que resultou na morte de quatro policiais e um guerrilheiro.

O braço armado da oposição tinha montado um acampamento na região e, dois dias depois do incidente no posto da polícia, a violência chegou aos civis, com o primeiro ataque a um ônibus de passageiros na EN-1, a cerca de 30 quilômetros de Muxúnguè. O veículo não parou numa barreira montada pela guerrilha e foi alvejado. Uma pessoa ficou ferida. No mesmo dia, um caminhão de transporte de combustíveis também foi atacado na região, recebendo tiros nos pneus e no tanque. O motorista e um de seus ajudantes morreram na hora. Foi a deixa para a instalação da coluna militar entre Save e Muxúnguè. Daí para a frente, o clima só piorou.

 

O ônibus da Maning Nice parou para deixar passageiros em Muxúnguè, ponto final da escolta militar. Ao me ver levantar, a comerciante que seguiria para Nampula recomendou que eu provasse os abacaxis da região. “São muito bons.” A fama do produto cultivado em pequenas hortas familiares foi transportada pelo país por quem viajava pela EN-1 e parava ali para se abastecer com a fruta doce e amarela.

Nunca faltam abacaxis na casa do padre mexicano José Luiz González, pároco de Muxúnguè há oito anos. Chegou ali antes do conflito e instalou-se numa agradável moradia térrea com jardim central, que os moradores da cidade conhecem como “a casa dos padres”. A residência fica às margens da EN-1, a cerca de 1 quilômetro da igreja. O religioso faz o caminho até lá algumas vezes por dia, quase sempre no seu carro 4×4 branco.

A igreja é um galpão de alvenaria com paredes cinzentas, quase sem decoração. No início da noite, mulheres vestidas de panos coloridos já esperavam pelo padre González. A missa foi curta e alegre, rezada em um português carregado de sotaque espanhol. Os cânticos religiosos ganharam versões em dialeto local e com ritmo africano. A audiência ouvia a música balançando o corpo e batendo palmas. O sermão não enveredou pelas disputas políticas, mas naquela noite de abril, em Muxúnguè, se rezou pedindo paz.

Foi com o passar dos anos que González viu a situação da vila se deteriorar. Quando os confrontos recomeçaram, em 2013, disse que passou a ouvir o tiroteio “de pertinho”, quase todas as manhãs. “Primeiro o povo começou a ter medo. Era o fantasma da guerra que ainda estava presente nos mais velhos. Nas primeiras semanas, todos fugiram. Não estavam mais acostumados a ver muita polícia, muito Exército e tanques blindados. Mas depois, pouco a pouco, começaram a se habituar.”

Os efeitos sobre as populações do campo logo se fizeram sentir. Naquele ano, boa parte da safra de abacaxi estragou. “Muitos dos que tinham produto para vender aqui na cidade não vinham; não porque tivessem medo dos homens da Renamo, tinham medo da polícia”, contou o padre. O receio dos agricultores era de que, no caminho para a cidade, fossem confundidos com guerrilheiros pela UIR, a Unidade de Intervenção Rápida, polícia de elite moçambicana – comparável ao Bope, mas com muito mais poder –, que instalou uma base na cidade depois do início dos ataques. Seus homens são considerados os mais bem preparados das forças de segurança e são mais temidos do que os do Exército, que também estão na região. Às margens da EN-1, essa presença hoje é discreta, mas constante.

Já era noite quando González voltou da missa. No caminho para casa, um grupo de militares vigiava a estrada. O padre reduziu a velocidade, acendeu a luz interna do veículo e acenou para os homens armados. “Eles me conhecem.”

 

Nos meses seguintes aos primeiros confrontos em Muxúnguè, representantes da Renamo e da Frelimo encontraram-se todas as semanas para negociar. Dhlakama, no entanto, seguia na Gorongosa. O velho líder da oposição dizia que só sairia dali se as forças de segurança deixassem a região. “Os militares que cercam a minha base não vieram para festejar comigo. Querem eliminar-me fisicamente”, afirmou em setembro de 2013. Um mês depois, poucos dias após completar um ano, a base da Renamo na serra da Gorongosa foi atacada e ocupada pelas tropas governamentais. Dhlakama fugiu para as matas.

O que veio a seguir foi uma sucessão de notícias de ataques nas estradas e confrontos nas zonas rurais, dos quais nunca se divulgou um balanço oficial de mortos e feridos. O acesso de jornalistas, acadêmicos e ONGs às regiões de conflito mais intenso – pequenas aldeias isoladas e distribuídas por toda a região central do país – é quase inexistente. Por esse motivo, qualquer tentativa de se fazer uma estimativa de vítimas é considerada por especialistas mera especulação. O que acendeu o alerta internacional foi o registro da presença cada vez maior de refugiados moçambicanos no Maláui, país vizinho e primeiro ponto de fuga durante a Guerra Civil, décadas antes. Milhares de moçambicanos voltaram a fugir para lá, desde 2013.

Em 2014, um novo – e provisório – acordo de paz foi celebrado. O entendimento previa o desarmamento da Renamo em troca da integração de parte de seus militares nas forças de segurança, além da criação de um fundo para a inserção social dos demais. Também dava anistia aos membros do partido.

A assinatura do acordo tinha como objetivo permitir a realização das eleições gerais que estavam marcadas para outubro daquele ano. O líder da oposição estava otimista. O anúncio de sua candidatura havia sido feito quando Dhlakama ainda estava no mato, por teleconferência – em um país de ambiguidades, os dois principais partidos se enfrentavam militarmente sem, no entanto, interromper o convívio institucional. Desde 1994, o líder da Renamo participou – sem sucesso – de todas as disputas presidenciais. A calorosa recepção que teve em Maputo em 2014, quando chegou para firmar o entendimento de paz com o presidente Guebuza, indicava que desta vez a história poderia ser outra.

Dhlakama havia sido membro da Frelimo antes de se juntar à Renamo, e tinha apenas 26 anos de idade quando alcançou a liderança do grupo. É muito bom orador. Na campanha eleitoral de 2014, seus comícios no centro do país atraíram multidões, que o aclamavam como “o salvador”, aquele que poderia acabar com a dinastia da Frelimo. Embora candidato, nunca deixava de ser líder militar: ao visitar uma cidade, posicionava dezenas de seus homens por todo um quarteirão, com armas na mão, a fim de garantir sua segurança – e isso apenas porque resolvera jantar fora.

O resultado do pleito, no entanto, foi um balde de água fria para suas ambições. Com 57% dos votos, a Presidência continuava com a Frelimo, que havia indicado Filipe Nyusi para a sucessão de Armando Guebuza. Enquanto Dhlakama era um velho conhecido dos moçambicanos, o candidato da Frelimo era uma tentativa de renovação de um partido desgastado por quase quarenta anos de poder. Nyusi era o primeiro líder do partido, e do país, que jamais pegara em armas contra os portugueses: é filho de um ex-combatente. Sua indicação também servia para quebrar a hegemonia de políticos do sul, sendo essa escolha um tributo ao histórico apoio dos macondes, grupo étnico ao qual pertence.

Dhlakama não aceitou o resultado da eleição e, na primeira metade de 2015, os confrontos recomeçaram. Após acusar o governo de fazer mais duas tentativas de assassiná-lo, em setembro e outubro, o líder da Renamo voltou ao lugar que a imprensa moçambicana identifica apenas como “parte incerta” – seu esconderijo, provavelmente localizado na serra da Gorongosa. Dali, no início deste ano, anunciou que assumiria o controle de seis das onze províncias do país, todas no centro e no norte de Moçambique, onde Dhlakama reivindica a vitória do seu partido nas eleições: Manica, Nampula, Niassa, Sofala, Tete e Zambézia. Delimitava, assim, aquilo que na Maning Nice o passageiro com chapéu de cowboy havia apelidado de “a outra República”.

 

Após cruzar com a barreira policial, e pouco antes de chegar a seu portão, o padre González apontou para uma casa de classe média de alvenaria, vizinha à sua. “Era ali que ele morava.” Falava de Jossias Fernando, moçambicano de pouco mais de 30 anos que trabalhava com comércio e logística de distribuição de produtos para missões católicas. Fernando havia estudado numa dessas missões, em Mangunde, localidade próxima a Muxúnguè conhecida por ser o berço da família Dhlakama. No último dia 2 de março, depois de deixar o trabalho, parou para beber uma cerveja num bar chamado Dragão, perto de onde vivia. Estava acompanhado de um amigo, professor primário que lecionava numa escola próxima à base da Renamo, a 12 quilômetros do Centro de Muxúnguè. A noite acabava de cair quando um carro parou, agarrou os dois e partiu. Até hoje não há pistas sobre o paradeiro deles.

Sobre política, a população de Muxúnguè fala aos sussurros e apenas quando ganha alguma confiança no interlocutor. O rapto no bar Dragão é sempre citado para justificar a cautela. Moradores da cidade dizem que, dias depois do sequestro, a viúva de Fernando recebeu uma mensagem anônima no celular: o marido estava morto, diziam. O corpo supostamente se encontraria próximo à base da UIR, a polícia de elite. Ninguém tentou confirmar o boato.

Com o rapto, alguns habitantes de Muxúnguè passaram a suspeitar que Fernando e o professor eram simpatizantes da Renamo, e ajudavam o grupo de oposição passando informações sobre a circulação das colunas militares do governo. A suspeita tem por base o que parece ser apenas uma coincidência: assim que os dois sumiram, os ataques no trecho da EN-1 próximo à cidade cessaram. O medo de sequestros como esse, no entanto, não escolhe lado no conflito. “Muitos funcionários que trabalham para o Estado, no posto administrativo, me dizem que não dormem mais em suas casas”, relatou o pároco mexicano, que utiliza uma expressão familiar a latino-americanos como ele para explicar o que faz as conversas na cidade serem sussurradas: esquadrões da morte.

Depois do episódio do bar Dragão, pelo menos outros dois raptos foram registrados na vila e, em julho, o régulo local, Macotore José Mafudze, foi assassinado a tiros, dentro de casa. Tinha 75 anos de idade. Um régulo é um chefe tradicional, que em geral funciona como representante de populações do campo perante as instituições formais de poder. O atentado é atribuído pelo governo à Renamo. Notícias de raptos e assassinatos políticos como esses são a face da guerra em Muxúnguè hoje, que tem sido poupada dos tiroteios na nova fase da escalada de violência. Desde a retomada das armas, em 2015, os embates diretos entre a Renamo e a Frelimo estão concentrados em regiões algumas centenas de quilômetros mais para o norte.

“Graças a Deus, agora o conflito não está mais aqui”, disse-me o padre González, depois de estacionar o carro. Precisava entrar logo, pois naquela noite acolhia um grupo de agentes humanitários que partiria no dia seguinte bem cedo para a Beira, a 280 quilômetros de Muxúnguè. Mal acabou de pronunciar a frase, o religioso já se mostrava arrependido. Fez uma pausa e tratou de corrigir a afirmação. “Quando digo ‘graças a Deus’ não quero dizer ‘que bom que está lá’”, emendou.

 

Os visitantes do padre González deixaram Muxúnguè às 7 horas. Trabalhavam para uma ONG europeia e, naquele dia, tinham de estar no aeroporto da Beira à tarde: uma agente pegaria um voo de volta para Maputo. Tomaram a EN-1 sentido norte e percorreram os primeiros 150 quilômetros sem dificuldades. Não tiveram tempo para almoçar e venciam as curvas suaves da estrada mordiscando castanhas de caju, barras de cereais e um pacote de M&Ms. Tinham pressa porque, vencida essa primeira metade do trajeto, pegariam uma outra estrada nacional, a EN-6, que estava em obras por quase todo o caminho até a Beira.

Os agentes humanitários, ocupados em oferecer serviços de saúde à população moçambicana na área central do país, onde ocorre parte dos combates, faziam questão de frisar que não se envolviam em questões políticas. Para atuar na região, precisavam de autorização tanto do governo quanto da Renamo. Agências internacionais e ONGs, ciosas de terem o seu trabalho dificultado por qualquer uma das partes em disputa, pedem anonimato ou recusam entrevistas.

Enquanto a EN-1 faz a ligação norte–sul, a EN-6 corta Moçambique ao meio no sentido transversal, ligando o Zimbábue ao porto da Beira. É o principal acesso ao mar para o país vizinho, o que faz com que a via tenha intenso movimento, sobretudo de caminhões. As obras de manutenção ocupavam longos trechos, nos quais só passava um carro por vez. “Vai dar tempo?”, perguntou a agente que tomaria o avião para Maputo. “Vamos chegar em cima da hora”, respondeu o motorista.

A Beira, cidade de 500 mil habitantes, é administrada pela terceira força política do país, o MDM. Apesar de ter chegado ao poder pelo voto, vencendo a Frelimo, o prefeito Daviz Simango fez questão de dizer que “as eleições moçambicanas nunca foram livres e justas”.

Conversávamos, num fim de tarde, em um pequeno condomínio residencial vazio, ainda em fase de finalização, nas cercanias da cidade. Protegido por muros altos, o local agrupava algumas casas de classe média, de arquitetura padronizada, com quintais sem cercas. O empreendimento é um investimento privado de Simango, engenheiro civil de formação e político por tradição familiar – seu pai, Uria Simango, foi uma figura histórica da Frelimo. O prefeito toca a obra de noite, depois que deixa o gabinete do poder executivo local. A Renamo, ele disse, tem sido vítima de constantes fraudes eleitorais desde 1994, mas tampouco buscou se adaptar aos tempos de paz. “A Renamo nunca se organizou como partido político. Manteve a sua estrutura militar, manteve o seu princípio vertical de comunicação, e isso a prejudicou.”

Simango preferia conversar no condomínio inacabado, na periferia da cidade que ele próprio administra, para evitar ser seguido e espionado por agentes do serviço secreto do país, o Sise, Serviço de Informação e Segurança do Estado, sucessor da instituição de vigilância interna que fora criada logo após a independência, aos moldes da KGB. “O trabalho do Sise é vigiar a própria população moçambicana. Há agentes do Sise em toda parte. Aquele serviço de segurança é de assustar, porque o orçamento dele é maior do que o orçamento do Ministério da Agricultura, que deveria ser o maior orçamento naquele país de camponeses”, disse Michel Cahen, o pesquisador francês.

Uma das iniciativas do MDM para tentar resolver o impasse no país, disse Simango, foi propor uma reforma política que levasse à eleição direta dos governadores provinciais, em vez da nomeação pela Presidência. A mudança da legislação poderia beneficiar a Renamo em futuras eleições, dada a sua vantagem eleitoral no norte no país, mas o grupo de Dhlakama preferiu reivindicar o controle imediato das províncias. “Isso não se faz de um dia para o outro”, reclamou Simango, levantando a voz.

 

No final de junho, a Frelimo indicou que aceitaria a mediação internacional e da Igreja Católica para novas negociações de paz, atendendo a uma exigência da Renamo. O principal ponto de discussão é justamente a possibilidade de partilha do poder nas províncias reivindicadas pela oposição. Até o final de agosto, contudo, nenhum acordo havia sido alcançado – nem mesmo um cessar-fogo.

Embora o catolicismo seja praticado por pouco menos de um terço da população moçambicana, a Igreja possui grande peso político e, sem a sua intervenção, dificilmente a guerra civil teria chegado ao fim, no início dos anos 90. O então arcebispo da Beira, dom Jaime Pedro Gonçalves, ajudou a conduzir o processo e tornou-se protagonista da frágil arquitetura de paz das últimas décadas no país.

Foi dom Jaime quem tomou a iniciativa, há 25 anos, de convencer a Renamo e a Frelimo a dialogarem. Embarcou numa avioneta sem saber qual era o seu destino exato, indo ao encontro de Dhlakama. Depois de confirmar a disposição do líder da Renamo para negociar, o religioso apelou ao Vaticano e ao governo italiano. Queria obter o apoio dos Estados Unidos para pressionar o então presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, a se sentar à mesa de negociações. O plano deu certo. Em 4 de outubro de 1992, o entendimento foi assinado em Roma.

Após o fim da guerra, dom Jaime se manteve na vida pública. Acumulou desafetos tanto na Frelimo, que o acusava de favorecer a Renamo, como na própria oposição, que ficou enciumada com sua aproximação do MDM, depois da criação do partido, em 2009. Nos últimos anos, já idoso, o arcebispo emérito havia decidido sair dos holofotes. Mantinha até recentemente uma rotina simples, da qual fazia parte, todas as sextas-feiras, um almoço com o coordenador da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese da Beira, Fidel Salazar, também ele mexicano, como o pároco de Muxúnguè. “As tardes de sexta-feira dele eram para mim”, disse o padre Salazar recentemente, demonstrando orgulho pelo que considerava um privilégio.

No início deste ano, após anos de silêncio, dom Jaime achou que era hora de voltar a falar. Numa sexta-feira de fevereiro, mandou avisar ao padre Salazar que não se encontrariam para o almoço. Na semana seguinte, o amigo descobriu que o compromisso do bispo emérito naquela tarde havia sido com um repórter da agência Lusa. Na entrevista, divulgada em seguida, dom Jaime apontava o dedo para a Frelimo. Acusava especificamente o ex-presidente Guebuza de descumprir o acordo de paz ao perseguir militares da Renamo que haviam sido incorporados às Forças Armadas, levando os guerrilheiros de volta às matas. Também dizia que o político havia tentado assassinar Dhlakama.

Guebuza respondeu com silêncio às palavras de dom Jaime, mas quadros do segundo escalão da Frelimo partiram para o ataque nos jornais.

“Ele já estava consciente de que o fim estava próximo, e de que aquela era a última maneira de falar, a última vez em que poderia se fazer ouvir”, disse o padre Salazar. Dom Jaime, aos 79 anos, era diabético e sofria de insuficiência renal. Morreria pouco tempo depois, às vésperas da Semana Santa.

No funeral, os membros do partido no poder não pouparam homenagens a dom Jaime. Isso apesar das críticas recentes do líder religioso à Frelimo. Para o padre Salazar, o que realmente surpreendeu foram as palavras do atual presidente, Nyusi, que se comprometeu em público a seguir o legado de dom Jaime.

Horas depois, no entanto, no mesmo dia do enterro, um dirigente da Renamo seria assassinado na Beira. A vítima, José Manuel, representava o partido de oposição no Conselho Nacional de Defesa e Segurança, e foi atingido por tiros de desconhecidos depois de chegar à cidade, quando saía do aeroporto. Duas pessoas que o acompanhavam também foram baleadas e morreram. Desde o reinício do confronto, várias figuras públicas, tanto da Frelimo como da Renamo, foram alvos de atentados.

“Tinham que dizer coisas boas sobre dom Jaime”, comentou padre Salazar, “mas acreditavam realmente no que ele deixou? Eu não sei.”

 

A Beira respira política. Basta puxar conversa em um café ou com qualquer taxista para os enfrentamentos entre Renamo e Frelimo logo virarem assunto. A tensão política que domina a cidade é fruto também de sua localização, que a deixa muito mais perto do conflito e de suas consequências do que Maputo. É para ali que são transportados alguns dos feridos mais graves dos confrontos, e a cidade tem registrado aumento da criminalidade, do comércio informal e de construções irregulares em decorrência do silencioso fluxo de deslocados internos que deixam o campo em busca de mais segurança.

Da Beira, é preciso fazer os 130 quilômetros de volta, na direção oeste, pela EN-6, a estrada que liga o Zimbábue ao porto, a fim de retomar a viagem pela EN-1 rumo ao norte. No caminho, ao fundo, lentamente surge a serra da Gorongosa, onde originalmente as tropas da Renamo se instalaram.

Na chegada à pequena concentração urbana que leva o nome da serra, ônibus e lotações passavam, em meados deste ano, pelos destroços de uma casa queimada, à margem da estrada. O morador dali havia fugido dois meses antes. Em fevereiro, hospedara um grupo de amigos. À noite, acompanhou seus visitantes ao bar que ficava em frente a sua casa. O espaço estava localizado ao lado de um posto de controle da polícia. Forasteiros e policiais compartilharam a mesa naquela noite, pagaram rodadas de cerveja uns para os outros, construíram a efêmera amizade que os brindes proporcionam e foram embora: os fardados para o serviço, os outros para a casa em frente. Os visitantes, porém, não dormiram: no início da madrugada, pegaram suas armas, voltaram à estrada e atacaram os policiais, com quem haviam bebido horas antes. Houve reação, e disparos partiram também do posto policial. A troca de tiros resultou em um morto para cada lado. O anfitrião dos guerrilheiros da Renamo nunca mais foi visto na cidade. No início de abril, sua casa amanheceu incendiada.

Como em Muxúnguè, atentados e denúncias de esquadrões da morte são as duas facetas do conflito que podem ser sentidas na vila da Gorongosa, onde funciona um toque de recolher informal: ninguém anda à noite. Pouco se sabe, porém, sobre o que se passa nas zonas rurais. Em sete localidades, até os padres haviam parado de rezar missa. Os serviços de saúde ainda chegam às aldeias, mas o que se diz por ali é que, antes de oferecerem seus serviços à população, precisam avisar a Renamo.

Da Gorongosa até a cidade de Nhamapadza, de onde parte uma nova coluna militar rumo ao norte, são 130 quilômetros, que precisam ser vencidos antes das nove da manhã. Perder a hora significa ter de pernoitar na cidade, à espera de nova escolta, no dia seguinte.

Após passar uma noite no hospital da Gorongosa, uma ambulância preparava-se para pegar a estrada em direção a Nhamapadza às 6 horas. Voltava ao interior do país depois de levar um paciente para tratamento no hospital da Beira. O sol ainda nascia, e o veículo do serviço de saúde começava a vencer as curvas da EN-1. Era bonita a vista para o lado das montanhas, apesar do céu nublado e da garoa fina que caía desde a madrugada. Não fazia muito calor, e o ar da manhã era gostoso de respirar. Como não dependia dos horários rígidos da coluna militar, pois sairia antes dela da EN-1, o motorista da ambulância achou por bem interromper a viagem por alguns minutos quando avistou um grupo de vendedores de hortaliças. Foi conferir a oferta de batatas, enquanto seu ajudante negociava uma sacola de tomate. “O preço subiu muito”, disse o motorista ao voltar para o veículo, carregando um pacote do tubérculo após longos minutos de pechincha.

O aumento das taxas de inflação sentido hoje por todo o país é resultado de uma infeliz combinação de fatores. Por um lado há o conflito armado em boa parte do território, que dificulta a circulação de bens e de alimentos e eleva os gastos militares. Por outro, também aumentou o endividamento do governo central nos últimos anos sem que houvesse correspondente incremento das receitas – a arrecadação de impostos foi prejudicada pela retração da economia, com a redução nos preços das matérias-primas no mercado mundial. O desequilíbrio fiscal ajuda a manter desvalorizada a moeda de um país que importa quase tudo o que consome, jogando ainda mais água no moinho do aumento de preços. Junta-se a tudo isso o fato de a África Austral ter passado na última estação por uma das mais graves secas de sua história, em virtude do El Niño. Em Moçambique, a estiagem deixou 1,5 milhão de pessoas em situação de insegurança alimentar nas províncias do centro e do sul. O agravamento da fome é esperado para este segundo semestre, atingindo o seu ápice no final do ano.

Até alcançar Nhamapadza, a ambulância cruzaria ainda escassos povoados e plantações secas. Ao passar pelo rio Muare, ainda de manhã cedo, tudo parecia tranquilo. Não havia nenhuma movimentação militar, nada que lembrasse que ali era o epicentro do conflito. No mesmo dia em que o veículo do serviço de saúde saiu da Gorongosa, contudo, camponeses relataram terem descoberto, perto dali, uma vala comum com 120 corpos. Nenhum órgão de imprensa chegou a confirmar o local de despojo dos cadáveres, mas um total de vinte corpos viria a ser encontrado naquelas imediações nas semanas seguintes, reforçando a denúncia dos camponeses – um desses lugares era justamente sob a ponte da EN-1 que cruza o rio Muare. Não se sabe quem eram aqueles homens e mulheres, jovens e seminus, sem fardamento. Estavam em diferentes estados de decomposição e nenhuma investigação apontou os responsáveis por suas mortes. Ainda assim, o governo não gostou da divulgação da descoberta dos corpos e procurou, a princípio, negar sua existência.

Demorou cerca de uma semana, após a insistência da imprensa, para que pelo menos parte dos cadáveres encontrados sob a ponte fosse oficialmente reconhecida. Realizou-se um enterro coletivo, sem autópsia ou identificação, e os esforços governamentais nos dias que se seguiram foram centrados em tentar desacreditar os jornalistas que publicaram notícias sobre a vala comum com mais de uma centena de corpos.

O episódio fez com que o governo em Maputo, que usa eufemismos para se referir ao conflito no país e não reconhece oficialmente as zonas do território parcialmente ocupadas e controladas pela Renamo, criticasse até mesmo a atuação da mídia estrangeira. Até então, tinha-se a impressão de que a coação se dava exclusivamente sobre os jornalistas moçambicanos, que frequentemente narram histórias de intimidação por parte do governo – quase sempre pedindo sigilo.

O mesmo tipo de pressão é relatado por acadêmicos, que também dizem receber ameaças. Alguns chegaram a ser vítimas de atentados em circunstâncias não esclarecidas. Em 3 de março de 2015, o professor Gilles Cistac, um moçambicano de origem francesa, docente de direito na Universidade Eduardo Mondlane, foi morto a tiros por desconhecidos quando saía de um café em Maputo. Pouco antes de morrer, havia declarado que a exigência da Renamo de criação de regiões autônomas poderia ter cobertura constitucional. No último dia 23 de maio, o professor universitário e comentarista político José Jaime Macuane foi raptado nas proximidades de sua residência, também na capital moçambicana, e recebeu tiros de aviso nas duas pernas. Macuane havia dito, na véspera, que era “insuportável” a tensão militar em Moçambique, além de condenar a tentativa do governo de coibir protestos no país. O cientista político teve alta em junho, após duas cirurgias.

 

Viajando sem pressa, a ambulância que partira da Gorongosa alcançou Nhamapadza às 8h55, quando os carros, ônibus e caminhões concentrados à beira da estrada já religavam os motores a fim de acompanhar a única coluna militar do dia até Caia, num percurso de aproximadamente 100 quilômetros entre as duas cidades.

Entre os veículos que aguardavam havia um grande caminhão branco articulado, de baú fechado atrás, que levava produtos de Maputo para um supermercado de Nampula. O motorista que o conduzia, mulato e fã de rock pesado, era um poço de reclamação. “Está muito atrasado isso aqui. Já são 9h25. A gente vem a correr para nada. Uma vez cheguei aqui às 9 horas, certinho, e eles já tinham saído às 8h30. Não tem horário fixo, é tudo desorganizado.” Antes do início dos confrontos, disse o motorista, ele levava dois dias para vencer os 2 mil quilômetros que cruza pelo menos duas vezes por mês para cada lado. Agora, como não consegue coordenar a velocidade do seu caminhão com os horários das colunas, o tempo de percurso dobrou.

“Isto é uma vergonha”, continuou. “O que esta coluna está a proteger? O que estes gajos estão a fazer? Estão só a gastar combustível do governo. Moçambique não precisa de guerra. Por que esse egoísmo todo? Moçambique é grande. Se o povo está a votar no Dhlakama, qual o problema? Vou levar três horas só neste troço. Tem tanto buraco na estrada. Aquele Guebuza fez muita brincadeira. Uma estrada importante, que liga províncias… e ele com aqueles bilhões de dólares.”

Os “bilhões de dólares” que estão na boca do povo não são força de expressão, nem completamente infundados. A cifra deriva de um dos maiores escândalos financeiros da história de Moçambique. Em 2013, o governo considerou que fazia sentido econômico o país começar a pescar atum em grande escala. Com esse objetivo foi criada, ainda durante o governo Guebuza, uma companhia que reunia capitais públicos e privados e um nome autoexplicativo: Ematum, a Empresa Moçambicana de Atum.

O próximo passo foi constituir uma frota pesqueira. A nova companhia procurou, então, o banco suíço Credit Suisse e o banco russo Vnesh Torg Bank. Voltou para casa com 850 milhões de dólares, a serem pagos nos anos seguintes. O avalista era o próprio governo. Pelas leis de Moçambique, compete à Assembleia da República não apenas fiscalizar os empréstimos feitos diretamente pelo governo, mas também os avais financeiros concedidos, determinando um limite máximo para eles. Em 2013, esse limite era de 183,5 milhões de meticais – o equivalente em câmbio da época a pouco mais de 6 milhões de dólares. Ou seja, além de não ter avisado ninguém que estava assumindo o compromisso em prol da Ematum, o governo desrespeitou em mais de 100 vezes o limite imposto pelo Parlamento para esse tipo de operação. Acresce que apenas parte do dinheiro foi efetivamente usada na compra de barcos pesqueiros – mais da metade serviu para a aquisição de equipamento militar. De resto, todas as projeções feitas sobre os futuros lucros da Ematum tinham sido excessivamente otimistas. Resultado: mal havia sido criada, e a empresa já anunciava não ter condições de pagar as parcelas de sua dívida. Caberia ao governo assumir o compromisso.

O caso Ematum arrastou-se por meses. Como depende de ajuda externa, Moçambique se viu na obrigação de tentar recuperar alguma credibilidade diante de seus doadores internacionais, com os quais assinou acordos que contêm exigências de transparência orçamentária. Áustria, Banco Africano de Desenvolvimento, Banco Mundial, Canadá, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça e União Europeia formam um grupo conhecido como G14, que faz doações regulares para combater a pobreza e promover o crescimento de Moçambique. Para 2016, o G14 planejava desembolsar 312 milhões de dólares em apoio direto ao Orçamento do Estado e mais 162 milhões de dólares em apoios setoriais – valores que, somados, representam cerca de um quarto de todo o orçamento do país.

Maputo mal havia conseguido acalmar os ânimos de seus doadores quando, em abril, surgiu um novo problema financeiro: não era só a Ematum que fizera empréstimos em segredo com garantias do governo. A mesma iniciativa havia sido tomada, em 2013 e 2014, por outras duas empresas, num total de mais de 1 bilhão de dólares. O governo admitiu ainda que, além de ser fiador dos empréstimos, fizera ele próprio uma outra dívida, não declarada à Assembleia, no valor de 221,1 milhões de dólares, a fim de reforçar a segurança pública.

A comunidade internacional não gostou da surpresa, e o G14 suspendeu a parcela da ajuda que ia diretamente para o orçamento. Sem essas doações internacionais, Moçambique corre o risco de ficar, num futuro próximo, sem dinheiro nem para pagar seus servidores, quanto mais os empréstimos milionários. O FMI, que deveria liberar em junho a segunda parcela de um empréstimo acordado no final de 2015, também cancelou o desembolso.

O impacto dos escândalos financeiros sobre o conflito de Moçambique divide opiniões. Há quem acredite que, com a pressão internacional, a Frelimo será obrigada a negociar com a Renamo e a ceder, pondo fim à escalada de violência. Outros, porém, veem a possibilidade de um agravamento da crise militar. “Se o governo deixar de pagar salários, isso pode inflamar o conflito”, disse uma fonte da comunidade internacional que pediu anonimato. Sua análise é a de que, em vez de ficar restrito ao interior, o caos poderá chegar às cidades, onde as populações da periferia já demonstram descontentamento por causa da inflação.

 

O caminhoneiro que seguia para Nampula continuava reclamando – e não havia ainda nem saído de Nhamapadza – quando a coluna foi autorizada a partir em direção a Caia. Inquieto, não escondia sua simpatia pelos guerrilheiros da Renamo, com quem disse já ter cruzado na EN-1. “Eles só procuram saber como está a ir a viagem e se tem polícia aqui dentro. Às vezes, pedem um cigarro. Se você não tem, dá um dinheirinho para eles, que mandam você seguir. Se você não parar, aí vai ter problema. Vai levar tiro e vão queimar o seu carro, porque é falta de respeito. O que eles querem é respeito. Eles querem governar, e quem quer governar quer respeito.”

Localizada às margens do rio Zambeze, Caia é uma cidade de fronteira no final da província de Sofala. Seguindo dali para o nordeste, entra-se na província da Zambézia. A noroeste fica a província de Tete, onde a Vale explora o seu carvão. A multinacional costuma utilizar uma linha que corta o país de lá até a cidade da Beira para exportar a produção, mas a circulação foi suspensa em meados deste ano, depois que alguns de seus trens foram atacados, supostamente pela Renamo.

Procurada pela piauí, a empresa se recusou a comentar o conflito em Moçambique. Deu apenas informações sobre os ataques a seus trens. Confirmou que o primeiro deles aconteceu na manhã do dia 6 de junho, quando uma composição que ia das minas de carvão no noroeste do país em direção ao porto da Beira foi alvejada por tiros ao cruzar a serra da Gorongosa. Dois dias depois, por volta das 20 horas, na mesma região, outro trem foi atingido. No primeiro ataque, o maquinista e seu assistente se feriram com estilhaços de vidros da janela. No segundo, outro assistente se feriu, pela mesma razão.

Após os ataques, a empresa suspendeu temporariamente o transporte de carvão pela linha que corta a serra da Gorongosa até o porto da Beira, mantendo apenas o escoamento pelo corredor de Nacala, mais ao norte do país. Mal havia retomado a circulação de trens pela ferrovia palco dos ataques e, no dia 25 de julho, a mineradora brasileira voltou a ser alvo de tiros. Mais um de seus trens que seguiam para a Beira foi alvejado, na mesma região dos primeiros incidentes. O maquinista foi baleado nas costas, e um funcionário de uma empresa de segurança contratada pela multinacional ficou com ferimentos leves em virtude dos estilhaços. As atividades na linha voltaram a ser suspensas. Os ataques aos trens são a mais nova dor de cabeça da companhia em Moçambique, onde suas operações vêm acumulando perdas em virtude da queda no preço do carvão.

 

Em Caia, vencido o esburacado trecho de escolta militar, o caminhoneiro parou para almoçar. O pequeno restaurante era aberto para a estrada e, dele, era possível avistar, do outro lado da via, um motorista ocupado com o motor de um ônibus – o radiador havia superaquecido. Repleto de passageiros, o veículo também cruzava o país pela EN-1, do extremo sul ao norte.

O serviço mecânico, realizado com empenho pelo motorista do ônibus, demorou quase quatro horas para chegar ao fim. Enquanto isso os passageiros matavam o tempo num bar próximo ao restaurante onde o caminhoneiro almoçara. Já estava escurecendo quando o ônibus pegou de novo a estrada. Viajava com o corredor tomado por caixas de mercadorias. Lá dentro, o clima era de agitação. Um sujeito que bebera além da conta durante a espera pelo conserto brigava com uma outra passageira. Queria de volta o dinheiro da água e do refresco que havia oferecido à moça. Como justificativa, argumentava, revoltado, que a companheira de viagem havia se recusado a lhe dar o seu número de telefone.

O ônibus cruzou a ponte sobre o rio Zambeze, deixando a província de Sofala para trás, enquanto as vozes do “quase casal” subiam de tom. Parecia que iam continuar naquela discussão sem fim, até que o motorista perdeu a paciência, parou no acostamento, largou o volante e se levantou. “Vocês sabem onde é que estamos? Em Zero!”, disse em voz alta, posicionado no início do corredor, entre as duas fileiras de bancos, para poder encarar os passageiros. Fez uma pausa dramática para reforçar o nome da localidade, a mesma onde o caminhoneiro tivera o seu veículo inspecionado por combatentes do grupo de oposição. “Zeeeeero. Não sabem que aqui os homens da Renamo mandam parar o carro? Se ouvirem vocês gritando vão se assustar e atirar.” Os demais passageiros ouviam calados, e o motorista apontou para o sujeito que havia começado a confusão. “Você! Ou fica quieto ou direi para a Renamo que você é militar!” Pela janela já se via que era noite fechada. Afinal não houve checkpoint da Renamo em Zero naquele dia, mas no ônibus não se ouviu nem mais um pio.

Pouco mais de 100 quilômetros depois de Zero, em Nicoadala, o ônibus precisou parar para deixar cerca de dez passageiros. Todos transportavam imensos volumes de carga, que iriam revender. Em seu percurso pela estrada principal, dias depois de ter deixado Maputo, o veículo já se encontrava na Zambézia, província no nordeste de Moçambique que faz fronteira com o Maláui. O país, sem saída para o mar, se espreme entre a Zâmbia e a Tanzânia, e sua parte sul entra como uma cunha no território do país de língua portuguesa. Não à toa foi no Maláui que a maior parte dos moçambicanos que fugiam do conflito armado no país procurou abrigo. Para chegar até lá era preciso deixar, afinal, a Estrada Nacional Número 1.

 

A pequena cidade de Mwanza é o principal ponto de entrada no Maláui para quem foge de Moçambique. Em fevereiro, quando a tensão estava no auge na província de Tete, vizinha de Mwanza, o Maláui chegou a abrigar 10 mil moçambicanos. A maioria fez a viagem a pé, pelas montanhas, instalando-se na aldeia de Kapise, a 5 quilômetros da fronteira e separada do Centro de Mwanza por 20 quilômetros de uma estrada de terra em péssimo estado.

Não há grande variação de enredo nos dramas narrados pelas famílias de refugiados: todos dizem ter sido vítimas de ataques por parte das forças de segurança moçambicanas, que estariam a acusá-los de colaboração com a Renamo. “O que eles nos contam é que os homens do governo vão atrás das forças da Renamo e, quando voltam, são vistos atacando as vilas, interrogando as pessoas sobre o que elas sabem”, explicou-me a então coordenadora-chefe de emergência do Acnur, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, no Maláui, Fadela Novak-Irons. Os relatos mencionam agressões físicas, assassinatos, estupros e destruição de casas.

A chegada dos moçambicanos transformou a paisagem de Kapise. A aldeia rural – que antes tinha 160 famílias – foi vendo surgirem cabanas improvisadas de palha, lona e estacas de madeira. Em fevereiro, o campo ganhava uma média de 250 novos moradores por dia, e o espaço entre as moradias foi ficando cada vez menor. O crescimento tornou o acampamento perigoso. Passou a ser difícil garantir água potável e instalações sanitárias para todos, o que aumentava o risco de doenças. Também causava preocupação a possibilidade de incêndio no aglomerado improvisado de cabanas. Organizações e agências internacionais passaram, então, a pressionar o governo do Maláui para encontrar um local com melhores condições de acolhimento, a fim de transferir a população refugiada. O lugar escolhido para instalar o novo campo foi Luwani, localizado a 70 quilômetros de Kapise.

Numa manhã de maio, sem nuvens no céu, uma espécie de caminhão “pau de arara” transportava famílias moçambicanas entre as duas localidades. Ia entre eles Luigi Joia, um menininho de 5 anos de idade que se recusava a acompanhar as demais crianças do veículo na cantoria puxada pelo funcionário do Acnur. Em vez disso, aninhava-se à mãe a cada solavanco do caminhão de carroceria aberta, coberta por uma lona. Estava arredio, e a esburacada estrada também não o ajudava a se acalmar. “Desde que chegou aqui ele está malandro, não quer ir para a escola”, disse o pai, José Joia. “Se eu falo para ele ir para a escola, ele pega uma pedra e atira em mim. É que ele vê esses seguranças armados e acha que ainda estamos lá.”

“Lá” era Ndande, no distrito de Moatize, em Moçambique, de onde a família fugiu em fevereiro, só com a roupa do corpo. José Joia relata que a vila foi atacada pelas Forças Armadas moçambicanas e, escondido, viu sua casa arder. Durante três meses, os Joia vaguearam pela mata até um parente sugerir que fossem a seu encontro no Maláui. Assim fizeram.

Reaberto em março deste ano, Luwani foi um dos mais famosos campos do Maláui durante a Guerra Civil Moçambicana encerrada em 1992. O próprio José Joia já tinha passado pelo local. Como Luigi, chegou quando também tinha 5 anos, em 1989, e só partiu quando a paz voltou a Moçambique. Foi ali que teve sua única oportunidade de estudar, que lhe valeu um domínio rudimentar do português. Agora, aquele homem alto e de lábios finos, com uma magreza extrema que lhe ressalta as maçãs do rosto, assumia o papel que havia sido de seu pai.

Ao contrário da montanhosa vila de Kapise, que tem temperatura amena, Luwani é uma terra plana, quente e árida, o que faz com que muitos refugiados resistam à transferência. Ali, porém, são vistas já da estrada tendas brancas, alinhadas e bem espaçadas, além de uma escola de alvenaria e bandeiras de diversas ONGs internacionais. Foi acreditando nas promessas de melhores estruturas que José Joia colocou sua família naquele caminhão. Queria que Luigi voltasse a estudar. Esperava que em Luwani houvesse mais comida.

A poeira da estrada de terra lançada sobre a carroceria conferia um tom esbranquiçado aos moçambicanos que sacolejavam no caminho para a nova casa. Quando o caminhão começou a se aproximar do lugar onde cresceu, José Joia reconheceu os imensos baobás que cercavam Luwani. De diferente, notou a recém-inaugurada estrada de ferro. Um trem passou bem ao lado, sendo acompanhado com os olhos pelos refugiados que estavam na carroceria do caminhão. A composição pertencia à Vale, e carregava carvão mineral produzido em Moatize para o porto de Nacala. Há alguns anos, aquela estrada de ferro podia ser apresentada como parte de um futuro mais próspero ao alcance de Moçambique. Algo que José Joia – e não só ele – havia deixado para trás. “Eu não esperava voltar para aqui”, lamentou, carregando Luigi no colo para fora do caminhão.

[1] Alguns nomes foram omitidos nesta reportagem para garantir a segurança dos entrevistados.

 

Gisele Lobato
Gisele Lobato

Gisele Lobato é jornalista e africanista brasileira radicada em Lisboa.

  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30