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    ILUSTRAÇÃO: MIND IN PICTURES_SCIENTIFIC AMERICAN_2012

anais da neurociência

Um cérebro sem lembranças

A disputa pelo legado de HM, o paciente que revolucionou a ciência da memória

Luke Dittrich | Edição 121, Outubro 2016

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“Você sabe quem é o atual presidente dos Estados Unidos?”

Um homem e uma mulher conversavam num consultório do Centro de Pesquisa Clínica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Era 1986, e o homem, Henry Molaison, estava prestes a completar 60 anos. Usava calça de abrigo, camisa xadrez, óculos de lentes grossas e exibia farta cabeleira. Por um momento, ele refletiu sobre a pergunta.

“Não”, disse, “não sei.”

 

A mulher, Jenni Ogden, era uma assistente de pesquisa visitante, pós-doutoranda da Universidade de Auckland, Nova Zelândia. Um dos grandes atrativos de sua temporada no MIT consistia na possibilidade daquelas entrevistas com Henry. Na área de estudos de Ogden – a neuropsicologia –, ele era uma figura lendária, situada em algum ponto entre um astro de rock e um santo.

“Qual o último presidente de que você se lembra?”

“Eu não…” Ele fez uma pausa; procurava a resposta. Tinha a voz suave, hesitante, com um simpático sotaque da Nova Inglaterra.

 

“Ike”, respondeu finalmente.

Ike, ou Dwight D. Eisenhower, tomara posse como presidente dos Estados Unidos em 1953. Desde então, nosso mundo já dera mais de trinta voltas em torno do Sol, mas não o de Henry, que, parado, congelara-se em sua órbita. E isso porque, no ano de 1953, ele se submetera a uma operação experimental que destruiu boa parte das estruturas mais profundas de seu cérebro, incluindo o hipocampo, a amígdala e o córtex entorrinal. A cirurgia, efetuada nos dois lados do cérebro para tratar uma epilepsia, acarretaria amnésia profunda – desde então, Henry Molaison era incapaz de reter o momento presente por mais de trinta segundos. Se para o paciente esse resultado foi terrível, para a ciência representou uma bênção. Pode-se afirmar que, por volta de 1986, o paciente HM – como ele foi chamado em incontáveis artigos e livros de medicina – se tornara o mais importante objeto humano de pesquisa de todos os tempos, tendo revolucionado nosso entendimento de como a memória funciona.

Henry, é claro, nunca soube disso. Por mais que os cientistas lhe dissessem que era famoso, ele sempre se esquecia. (De todo modo, era um tipo curioso de celebridade: seu nome era desconhecido fora do mundo da ciência, só tendo sido revelado quando apareceu em destaque no obituário de primeira página do New York Times.) Assim, naquele dia, no consultório do MIT, Henry tampouco sabia por que estava sentado numa cadeira de rodas: não se lembrava da grave torção no tornozelo que sofrera algumas semanas antes.

 

Tinha orelhas grandes, mãos grandes e um sorriso largo. Mais cedo, Ogden lhe pedira para identificar o sotaque dela. Primeiro ele disse que era britânico; depois, canadense e, por fim, sueco. Ela então lhe apresentou uma pequena lista de alternativas, e assim ele acabou por chegar à Nova Zelândia. Em seguida, a pesquisadora perguntou se ele sabia alguma coisa sobre o país. Henry impressionou-a ao comentar, corretamente, que a Nova Zelândia compunha-se de duas ilhas. Ele gostava de fazer palavras cruzadas e possuía um conhecimento razoável de geografia. E essa era uma das coisas que fascinavam os cientistas: a amnésia de Henry muitas vezes parecia ser “amnésia pura”, na terminologia empregada pela ciência. Havia um abismo em seu cérebro no qual desapareciam todos os acontecimentos transitórios em sua vida; na superfície, porém, passava por uma pessoa quase normal.

“Olhe só”, Ogden prosseguiu, “se eu disser a você que o atual presidente da República foi artista de cinema, isso ajuda? Ele não era muito bom, mas trabalhou como ator muito tempo atrás. Acho que costumava fazer filmes de faroeste. E hoje é presidente dos Estados Unidos. Rea…?”

A sílaba ativou um circuito em Henry. “Reagan”, ele completou.

“Reagan, muito bem! Você se lembra dele como ator?”

“Lembro, sim.”

E conversaram um pouco mais sobre outros astros de que ele se lembrava: Gary Cooper, Myrna Loy, James Stewart.

“E Frank Sinatra?”, Ogden perguntou. Henry pensou.

“Bom, esse cantou bastante”, disse, “e também fez filmes, teatro, rádio e discos.”

“Você acha que Sinatra ainda está vivo?”

Henry fez uma pausa. “Isso eu não sei.”

Os cientistas lhe faziam esse tipo de pergunta sem cessar – perguntas sobre quem estava vivo e quem já havia morrido. Queriam saber se pelo menos os acontecimentos mais drásticos ficavam gravados em sua memória, e nada na vida é mais drástico que a morte. Em determinado momento, Henry disse a Ogden que morava com a mãe em East Hartford, mas não tinha certeza quanto ao pai: tinha a sensação de que seu pai já havia morrido. Na verdade, quando não estava no Centro de Pesquisa Clínica do MIT, ele morava numa clínica de repouso, e seus pais tinham morrido fazia muito tempo.

Quando ficava sabendo da morte de alguém, ele lamentava a seu modo, calado, mas, se não o relembrassem continuamente da perda em questão, a pessoa logo voltava à vida em sua mente. Esse ciclo de morte e ressurreição deve ter sido doloroso para ele. Por algum tempo, habituou-se a carregar consigo um pedacinho de papel cuja função era lembrá-lo de que seu pai estava morto.

A seguir, Ogden perguntou-lhe sobre uma pessoa que ainda estava viva, alguém que não era uma celebridade nem um parente, mas cuja presença em sua vida era notável.

“Quem ou o que é Sue Corkin?”, ela perguntou.

“Bem, era uma… era uma espécie de senadora.”

“Uma senadora?”

“É.”

 

A relação de Suzanne Corkin com Henry Molaison parece ter sido predestinada. Corkin nasceu em Connecticut, no hospital de Hartford, o mesmo em que Henry sofreu a cirurgia. Cresceu numa casa que ficava em frente à do médico que o operou. Era amiga íntima da filha do cirurgião – das janelas de seus quartos, as duas costumavam conversar até tarde por telefones de lata.

As duas acabaram indo estudar na Faculdade Smith. Corkin formou-se em psicologia e depois fez mestrado e doutorado na Universidade McGill, em Montreal. Foi orientada por Brenda Milner, neuropsicóloga brilhante que, em 1957, havia escrito – em parceria com o antigo vizinho de Corkin, o neurocirurgião – o primeiro e revolucionário artigo sobre o paciente HM. A neuropsicóloga passou a se dedicar a outros interesses, enquanto Corkin se debruçou sobre o assunto, tanto que, por volta da década de 70, já era a mais importante pesquisadora do caso. Sua carreira subsequente foi construída com base no acesso privilegiado a Henry, de quem era a um só tempo a guardiã – interceptando pedidos de outros cientistas desejosos de conhecê-lo – e principal pesquisadora.

Predestinado ou não, o relacionamento de Henry com Corkin era incomum, porque quase inteiramente unilateral. Ela o conheceu na intimidade, passou décadas reunindo cada detalhe sobre seus pontos fortes e suas deficiências. Ele, encoberto pela névoa da amnésia, nada sabia sobre ela. Para ele, cada uma das centenas de vezes em que se encontraram era a primeira, ainda que, ao longo dos anos, fragmentos de sentimentos e associações pareçam ter se acumulado. Daí que o nome “Corkin” acabasse por suscitar na mente de Henry a figura de um senador, dada sua dominância em sua vida.

A história da ciência do cérebro é rica nesse tipo de relacionamento unilateral. Muito do que sabemos sobre o funcionamento do cérebro decorreu do exame intenso e minucioso de indivíduos cujo cérebro não funcionava corretamente. Um acidente fez com que uma barra de ferro atravessasse o lobo frontal esquerdo de um pacato ferroviário chamado Phineas Gage e o transformasse numa pessoa irascível, permitindo a pesquisadores que começassem a desvendar as funções daquele considerável alforje que temos atrás da testa e dos olhos. Outro homem, portador de uma lesão no giro temporal superior esquerdo, revelou-se incapaz de entender o que lhe diziam, levando o neurologista Carl Wernicke a concluir que essa área do cérebro devia ser essencial à compreensão da linguagem. Outro ainda, este com uma lesão no giro frontal inferior, entendia o que lhe diziam, mas era incapaz de articular uma única palavra que não fosse o monossílabo tan, o que possibilitou ao cirurgião francês Paul Broca vislumbrar a sede da produção da linguagem.

Nesse panteão de homens e mulheres portadores de deficiências esclarecedoras, Henry ocupa posição de destaque, tamanho o impacto que teve em nosso entendimento de nós mesmos. Antes daquele primeiro artigo sobre Henry que Brenda Milner escreveu em colaboração com o neurocirurgião, a teoria predominante acerca da memória sustentava que suas funções não podiam ser localizadas numa única região cortical, que na verdade o aprendizado se distribuía por todo o cérebro. De acordo com essa teoria – construída com base em lesões experimentais produzidas no cérebro de ratos –, a memória de uma pessoa seria afetada proporcionalmente à retirada de tecido cerebral, não importava a estrutura da qual o tecido havia sido removido. Aquele primeiro artigo de Milner sobre Henry, assim como seus trabalhos anteriores, invalidou essa postulação. Com elegância e rigor, ela demonstrou que se tratava de uma amnésia profunda – talvez a mais catastrófica que ela já vira –, resultando provavelmente apenas das pequenas lesões bilaterais específicas que a cirurgia provocara no hipocampo e em outras estruturas do lobo temporal medial do paciente. Foi uma descoberta espantosa, e não foi a última.

Cinco anos depois daquele primeiro artigo, Milner publicou outro, quase tão revelador como o anterior. Dessa vez, documentava o progresso gradual de Henry, ao longo de três dias, na execução de uma difícil tarefa que demandava coordenação entre mão e olho. Esse progresso se verificou, a despeito da incapacidade do paciente de se lembrar de suas tentativas anteriores, o que indicava a existência de pelo menos dois sistemas distintos de memória no cérebro – um responsável por nossas memórias conscientes e episódicas, outro pela memória procedimental, relacionada a tarefas e habilidades. Tal resultado indicava também que esses dois sistemas pareciam se basear em partes distintas do cérebro. Estava dado outro passo fundamental na compreensão de como a memória funciona. Juntas, essas duas descobertas vinculadas ao caso de Henry podem ser vistas como as pedras fundamentais da moderna ciência da memória.

Depois que Corkin assumiu a pesquisa, outras conquistas se sucederam, ainda que de menor monta. Ela e sua equipe acrescentaram detalhes significativos relativos ao problema de Henry, preencheram lacunas, mas, comparada aos feitos monumentais de Milner, a importância de seu trabalho poderia parecer discreta. Por exemplo, ao fixarem no peito de Henry um dolorímetro – um aparelho que causa e mede a dor –, constataram que ele não se queixava nem mesmo quando a pele, já avermelhada, ardia. Descobriram que, após uma refeição, se oferecessem a Henry uma outra, ele não a rejeitava, pois não tinha lembrança de já ter comido. E, ao que tudo indicava, Henry era assexuado, não havia sequer indício de que se masturbasse. Corkin ficou a par das variações no temperamento de Henry, da frequência de seus acessos de raiva e do padrão de suas raras queixas. Notou também as extraordinárias exceções em seu quadro de amnésia, como o fato de, de tanto assistir ao seriado de tevê Tudo em Família, ele enfim ter aprendido que o genro de Archie Bunker se chamava Meathead (Cabeça de Bagre). A cientista catalogou seus tiques verbais, malapropismos e suas frases feitas.

“Estou tendo uma discussão comigo mesmo”, ele costumava repetir a todo momento.

À medida que se acumulavam experimentos e dados, Henry se tornou uma dádiva não apenas para a ciência, mas para a carreira de Corkin, que abriu seu próprio laboratório no MIT. Ainda que ela e os colegas conduzissem pesquisas em diversas áreas, os artigos que mais despertavam a atenção eram aqueles sobre Henry.

Quando ambos se conheceram, Corkin era uma jovem pós-graduanda de 20 e poucos anos. Com o tempo, tornou-se uma renomada professora de neurociências numa das maiores universidades do mundo. Henry envelheceu, naturalmente, embora jamais tenha tido verdadeira consciência disso. Em seus últimos anos, viviam lhe perguntando que idade ele achava que tinha, e ele procurava adivinhar. Estava na casa dos 30, dos 40, dos 50? Tinha apenas uma noção bastante vaga da passagem do tempo. Então, alguém lhe dava um espelho. “Já não sou nenhum menino”, ele dizia, ao se contemplar.

Henry morreu numa tarde de inverno de 2008. Na manhã seguinte, através da janela da sala de autópsia do Hospital Geral de Massachusetts, Corkin espiava dois homens removerem a tampa do crânio de seu velho amigo. Durante 46 anos ela mantivera seus encontros unilaterais com Henry, apresentando-se a cada vez. Agora era o último. Os homens retiraram o cérebro com cuidado, e Corkin o fitou diretamente, admirando aquilo que examinara por vias indiretas ao longo de toda a carreira. Mais tarde, refletindo sobre aquele momento, só lhe ocorreu uma única palavra que pudesse descrever seus sentimentos: sentia-se “extasiada”, escreveu.

Seria razoável supor que o estranho relacionamento dos dois houvesse terminado naquele dia. Mas seria equivocado: muita água ainda iria rolar.

 

No final do outono passado, peguei um elevador para o 5º andar do edifício do Departamento de Ciências Cognitivas e do Cérebro do MIT e caminhei por um comprido saguão vermelho até chegar à sala de Suzanne Corkin. Eu a conhecia desde meus tempos de criança. Aquela amiga de infância, com a qual ela conversava pelo telefone de lata, era minha mãe. O cirurgião que fez a operação experimental em Henry, meu avô. Até minha adolescência, Corkin era presença constante nos jantares lá em casa. Já havíamos nos encontrado em muitas ocasiões.

Agora, porém, nosso encontro seria diferente. Eu estava terminando de escrever um livro sobre Henry, e Corkin era figura central. Até aquele momento, no entanto, ela quase não me dera acesso a sua pessoa. Se alguma vez eu nutrira a esperança de que nossa ligação pessoal pudesse me oferecer acesso privilegiado a ela, eu já a abandonara havia muito tempo. Da primeira vez que pensei em escrever sobre Henry, ele ainda estava vivo. Desisti da ideia depois que Corkin me apresentou um acordo de confidencialidade que estipulava que o MIT só me permitiria acesso ao “projeto de pesquisa intitulado ‘O paciente de amnésia HM’” se a universidade tivesse controle editorial sobre o que quer que fosse publicado. Depois da morte de Henry, quando me decidi mais uma vez a contar sua história, Corkin recusou diversas solicitações de entrevista, alegando que ela própria estava às voltas com um livro sobre ele e que sua agente literária a aconselhara a não conversar comigo.

Dessa vez, porém, não desisti. Passei anos entre arquivos empoeirados e laboratórios de ponta, falando com outros pesquisadores que haviam estudado Henry e com neurocirurgiões que tinham trabalhado com meu avô. Segui o rastro de Henry Molaison por toda sorte de caminhos inesperados e fiz descobertas ora fascinantes, ora perturbadoras, envolvendo inclusive acontecimentos anteriores ao dia em que meu avô abriu dois buracos na cabeça dele, arrancou-lhe os lobos frontais e sugou algumas das estruturas mais profundas e misteriosas de seu cérebro. A ética duvidosa da cirurgia – borrando catastroficamente a linha que separa a pesquisa da prática médica – logo ficou patente, mas minha investigação acabou por questionar também o tratamento dispensado a Henry depois que ele deixou a sala de operação e ao longo das décadas que viveu como objeto de pesquisa, assim como durante os oito anos decorridos de sua morte até hoje.

Corkin recebeu-me em sua sala e sentou-se de frente para mim. Aos 78 anos, havia se aposentado das atividades de pesquisadora em tempo integral e professora. Tinha cabelos curtos avermelhados e usava óculos de aro vermelho. Sempre fora pequena, mas agora estava também muito magra em razão da batalha que travava contra uma doença grave. Ofereceu-me chocolate francês de uma bonbonnière de vidro. Eu estava agradecido pelo fato de ela ter concordado com a entrevista, mas desde o início era evidente que aquilo não seria fácil. Ela em geral era sucinta em suas respostas, dando-me informações telegráficas, e de um modo clínico, impassível, mesmo quando eu mencionava seus feitos.

Pouco depois de começarmos, perguntei-lhe se poderia me descrever seu primeiro encontro com Henry, o homem que definiria a obra de toda a sua vida. Sua resposta foi: “Não, não posso, mas isso não é nenhuma surpresa. Porque sua pergunta diz respeito a uma memória episódica, e memórias episódicas não duram muito, qualquer que seja a situação. Certamente existem exceções, como quando, digamos, uma pessoa é estuprada e se lembra de cada detalhe do que aconteceu. Mas o que ocorre em casos assim, bastante emocionais, é que os eventos são repetidos muitas vezes a posteriori. Eles são revividos mentalmente e se semantizam. Portanto, não, não me recordo de como foi apertar a mão de Henry pela primeira vez, mas, ainda que me lembrasse, seria provavelmente mais ficção do que fato.”

Algumas de minhas questões mais prementes referiam-se a um episódio mais recente. Eu queria lhe perguntar sobre a batalha que ela acabara de travar em segredo pela custódia do cérebro de Henry. Era um embate do qual pouquíssimas pessoas tomaram conhecimento, e ela vencera. Além disso, acarretava sérias implicações não apenas para o futuro, mas também para o passado da ciência da memória.

Quando toquei nesse tema, Corkin franziu os lábios.

“Não vou discutir esse assunto com você, de jeito nenhum”, disse.

“De jeito nenhum?”, insisti. “Porque eu gostaria de…”

Ela me cortou: “Ah, sim, você e o resto do mundo.”

 

A história da guerra pelo cérebro de Henry não começou numa elegante sala de reuniões da Quinta Avenida em Manhattan, mas seria ali que uma de suas batalhas decisivas seria travada. Foi em março de 2013, na presença de mais de uma dúzia de participantes ilustres, entre cientistas e administradores ligados a quatro grandes instituições – o MIT, o Hospital Geral de Massachusetts e a Universidade da Califórnia, tanto em Davis como em San Diego – e a duas importantes agências de fomento, a Fundação Christopher e Dana Reeve, e a Fundação Simons. As duas figuras essenciais, no entanto – os antagonistas principais –, eram Suzanne Corkin e um homem chamado Jacopo Annese.

Annese é um neuroanatomista italiano. Carismático, bonito, dirigia um Porsche 1986. Tinha então 47 anos e trabalhara como cozinheiro antes de embarcar na profissão que agora exercia. Gostava de empregar analogias culinárias para explicar as várias componentes de seu trabalho. Neuro-histologia, por exemplo – que pode envolver a montagem de lâminas e a aplicação de corante sobre delicados fragmentos de tecido neural –, seria como o preparo de um assado, porque ambos exigem temperaturas e tempos finamente calibrados e ajustados com precisão, com pouca margem para improviso. Annese morava nos Estados Unidos havia quase duas décadas, tendo galgado os degraus de uma carreira acadêmica que o conduzira da Universidade de Roma a Dartmouth, à Universidade da Califórnia em Los Angeles e a um posto na Universidade da Califórnia em San Diego, onde fundou seu próprio laboratório: o Observatório do Cérebro.

O centro tinha um objetivo simples, mas ambicioso: reunir uma coleção de cérebros que fizesse a diferença. A excelência almejada jamais decorreria do tamanho da coleção – existiam bancos de cérebros com os quais era impossível competir –, mas sim da curadoria e dos métodos ali empregados. Annese queria adquirir cérebros excepcionais e preservá-los por meio de um processo extraordinário que ele e seus colegas haviam desenvolvido. Corkin ficou impressionada ao conhecê-lo e, mais tarde, escolheu-o como receptor do objeto que se tornaria a pedra fundamental de sua coleção. Não muito tempo depois de observar o cérebro de Henry sendo removido do crânio em 2008, ela o acomodou numa pequena caixa térmica e o levou até um portão do aeroporto Logan, em Boston. Entregou-o a Annese, que comprara duas passagens: uma para si, outra para Henry.

De volta a San Diego, o italiano deu início ao que chamou “Projeto HM”, para o qual preparou um evento publicitário que foi provavelmente o mais bem-sucedido na história das neurociências. Por volta do primeiro aniversário da morte de Henry, ele transmitiu ao vivo, pela internet, o procedimento que possibilitaria todo o trabalho subsequente: a subdivisão do cérebro de Henry em 2 401 fatias de 70 mícrons, um processo que durou 53 horas. A transmissão, sem som, teve 400 mil visualizações, atraindo como um ímã jornalistas e escritores de divulgação científica. Durante o seu desenrolar, o neuroanatomista exibia bilhetinhos escritos em post-it com o intuito de dar aos espectadores uma ideia do clima no laboratório. Um deles dizia: “Tocando o Álbum Branco dos Beatles.”

Terminado o espetáculo, Annese e sua equipe se dedicaram ao processo minucioso, lento e nada glamouroso de montar as finas fatias do cérebro em lâminas de vidro. Começaram também a utilizar imagens block-face (instantâneos de alta resolução feitos durante a dissecção, quando uma câmera sobreposta ao equipamento tira fotografias antes de cada passagem da lâmina), a fim de criar um modelo tridimensional do cérebro de Henry – um modelo que se pudesse girar e ver mais de perto ou de longe mediante o uso de zoom. Ao longo desses estágios iniciais do Projeto HM, Annese mantinha Corkin a par de tudo, escrevendo-lhe e-mails encabeçados por “Cara Sue”, e recebendo respostas com carinhas sorridentes.

Alguns meses após a dissecção, porém, Corkin pediu de volta o cérebro de Henry. De início, ela e seus colegas solicitaram apenas partes do cérebro e do material produzido por Annese – imagens em alta resolução e amostras de tecidos para um exame neuropatológico. O italiano ficou receoso de repassar o material antes que se estabelecesse um acordo de como seu trabalho seria creditado. Enviou-lhes parte do que queriam, mas não tudo. Ainda não havia concluído seu trabalho e, tendo investido tanto, esperava maior clareza a respeito do assunto. Quanto mais Annese demorava, mais insistentes faziam-se as exigências de Corkin. Por fim, ele escreveu um artigo baseado em sua análise do cérebro de Henry e pediu a colaboração dela. Mas o diálogo entre os dois estava se deteriorando. Pouco depois de Annese submeter seu artigo, sem a colaboração de Corkin, à Nature Communications, a reunião em Nova York foi convocada.

As partes sentaram-se à mesa, presidida por Gerald Fischbach, então diretor da Fundação Simons para a área de ciências da vida. Os participantes se apresentaram. Annese falou de seu trabalho com o cérebro de Henry, e Fischbach pediu sua opinião sobre a custódia do cérebro. Duas semanas antes, o MIT enviara à Universidade da Califórnia em San Diego uma carta formal solicitando a entrega das 2 401 fatias do cérebro a um cientista designado pelo próprio MIT.

 

“Eu nunca me senti dono do cérebro”, disse Annese, que ainda afirmou não se importar com o paradeiro definitivo do órgão. Queria, sim, a garantia de que, acontecesse o que acontecesse, ele e seus colegas de laboratório receberiam os devidos créditos e o reconhecimento por todo o tempo, trabalho e dinheiro investidos. Tudo indicava que a questão da guarda seria resolvida facilmente – ou seja, se o cérebro permaneceria em San Diego, com Annese, ou se seria transferido ao local designado pelo MIT.

“E como o senhor gostaria de encerrar a questão”, perguntou Fischbach, “se de fato não importa o destino do material? Gostaria de resolver isso agora ou prefere que a comissão decida?”

Corkin atalhou: “A decisão não concerne à comissão! Ela cabe aos proprietários do cérebro, que são o Hospital Geral de Massachusetts e o MIT. E nós gostaríamos que ele fosse transferido para o laboratório de David.” “David” era David Amaral, que dirigia as pesquisas no Instituto Mind da Universidade da Califórnia em Davis. O MIT e o hospital estavam propondo transferir o cérebro de Henry para aquele instituto, sem, no entanto, abrir mão da propriedade.

“Em que sentido os senhores são os ‘proprietários’?”, Fischbach perguntou.

“Temos um formulário de doação”, respondeu Corkin, que repassou à mesa uma pilha de fotocópias de um documento antigo. O documento parecia mostrar que, dezesseis anos antes de sua morte, Henry e seu parente mais próximo ainda em vida haviam concordado em doar o cérebro para o MIT e para o Hospital Geral de Massachusetts.

Embora o formulário de doação parecesse ter resolvido a questão da propriedade, o clima da reunião foi se tornando cada vez mais hostil. Um dos itens em pauta era a discussão do artigo para a Nature Communications, que Corkin não queria ver publicado. Annese fez, então, um gesto que, assim ele esperava, seria entendido como conciliatório: comunicou a Corkin que os editores da revista haviam concordado em acrescentar o nome dela como coautora.

Acrescentar nomes “não torna o artigo publicável”, disse Corkin, e acrescentou: “Ele precisa ser reescrito como um documento científico sério.”

“E não é um documento científico sério?”, Annese rebateu.

“Não tem a sofisticação de um artigo científico”, disse Corkin.

“Não foi essa a opinião dos três pareceristas.”

Fischbach interveio: “Alguém leu o artigo e emitiu um parecer”, disse a Corkin.

Em seguida, um dos colegas dela atalhou: “Talvez o problema resida no fato de ele não ser definitivo em termos de anatomia.”

“Claro que não é”, Corkin acrescentou. “É evidente que não é.”

Fischbach continuou: “Não me sinto à vontade para criticar uma publicação de que não participei. Se o senhor [Annese], em seu juízo científico, entende que o artigo merece ser publicado, e se os pareceristas o aceitaram… Talvez não seja o artigo definitivo. Este caberá a você, Sue, a você e a seus colegas, ou a Jacopo, escrever.”

“É puro melodrama”, disse Corkin, ainda se referindo ao artigo de Annese.

“Os pareceristas entenderam que se trata de um artigo sólido, do ponto de vista científico”, disse Annese. “Por favor, Sue, me envie seus comentários.”

“Você o chama de Henry”, Corkin continuou. “Quero dizer, é tão banal! ‘Durante a cirurgia, Henry…’”

“Um dos pareceristas diz que a qualidade dos dados apresentados é excelente”, Annese retrucou.

E a briga foi adiante até o final da reunião, meia hora mais tarde. Num memorando posterior, enviado a todos os participantes, representantes da Fundação Dana resumiram as principais decisões tomadas no encontro. Escreveram que o nome de Corkin seria acrescentado ao artigo de Annese, como coautora, e que o “paradeiro definitivo” do cérebro de Henry seria o Instituto Mind, aos cuidados de David Amaral. Caberia, no entanto, a Annese e a Amaral determinar o que seria transferido e quando.

Corkin se apressou em revisar o memorando, riscando a linha que tratava do momento e dos detalhes da transferência. Em seu lugar, escreveu que a Universidade da Califórnia em San Diego iria simplesmente “transferir a totalidade do cérebro de HM, incluindo-se aí o tecido já montado em lâminas”, para o cientista escolhido pelo MIT. Nessa ocasião, o MIT e o Hospital Geral de Massachusetts (HGM) redigiriam um acordo visando “permitir à Universidade da Califórnia em Davis certos direitos de uso e distribuição do tecido de propriedade do MIT e do HGM”. Do ponto de vista de Corkin, ela e seus colegas eram os proprietários do cérebro de Henry, e ponto final. Annese não tinha autoridade nenhuma no assunto.

 

Apesar da questão ainda pendente acerca do destino do cérebro de Henry, a reunião em Nova York teve sucesso pelo menos em um ponto: agora que Corkin passara a ser coautora do artigo para a Nature Communications, ela e Annese precisariam efetuar a revisão final do texto, quebrando, assim, o silêncio gélido entre os dois. O que a nova correspondência revelou foi que, para Corkin, e a despeito do que ela dissera na reunião, o problema principal do artigo – a questão na qual ela insistiu com mais veemência – não era a banalidade do estilo de Annese. Na verdade, ela estava preocupada com algo que ele havia descoberto no cérebro de Henry.

A análise efetuada por Annese revelara a existência de uma lesão no lobo frontal que jamais havia sido mencionada. Localizada no hemisfério esquerdo, parecia ter sido causada por um objeto humano. Em seu artigo, Annese aventava a possibilidade de a lesão ter sido criada por meu avô, ao erguer os lobos frontais para ter acesso aos temporais mediais. Era uma descoberta importante. Como apontara um dos pareceristas anônimos, “boa parte da literatura neuropsicológica acerca de HM assegura que a chamada função frontal estava intacta”. Em outras palavras: ao longo das seis décadas anteriores, neuropsicólogos como Corkin haviam interpretado os resultados de suas experiências com Henry partindo da premissa de que as lesões no cérebro dele restringiam-se àquelas nos lobos temporais mediais. A descoberta da nova lesão poderia pôr em dúvida as conclusões acerca das funções desses lobos e demandar, assim, um reexame de todo o material antigo.

Nas correções que Corkin enviou a Annese, ela eliminou todas as referências à lesão frontal recém-descoberta. Em nota para o colega italiano, explicou que “a lesão no lobo frontal não aparece nem nas ressonâncias feitas in situ [as ressonâncias magnéticas feitas quando o cérebro ainda estava dentro do crânio de Henry] nem nas fotos novas do cérebro”, e que, portanto, “levá-la em consideração significaria induzir ao erro”. Depois, em outro e-mail, declarou que os colegas dela no MIT e no HGM “acreditam que é grande a possibilidade de a suposta lesão orbitofrontal ter sido provocada pelo manejo”, isto é, de a lesão ter sido causada após a morte, por ocasião da extração e posterior manejo do cérebro. Concluiu dizendo não haver “nenhuma intenção minha ou do grupo [do HGM] de ocultar quaisquer provas”.

Annese lhe enviou uma série de imagens da ressonância magnética in situ que, ao contrário do que ela afirmava, demonstravam com clareza que a lesão não poderia ter resultado do manejo do cérebro depois da morte. Ele também lhe mandou imagens de algumas das lâminas relativas àquela porção dos lobos frontais de Henry, imagens que pareciam corroborar a ideia de que a lesão havia decorrido do emprego de um objeto humano, como a “espátula cerebral plana” utilizada por meu avô durante a cirurgia. A lesão, Annese escreveu a Corkin, “jamais foi mencionada (certificamo-nos de que ela já estava presente inclusive nas ressonâncias magnéticas de 1992–93) e, juntamente com outros dados, constitui elemento novo pertinente ao caso”. E acrescentou: “Eu realmente não compreendo essa relutância. Trata-se de um fato real, em carne e osso. Há uma lesão exterior [aos lobos temporais mediais], ela chama a atenção e deveria ser apontada. Lembre-se de que o objetivo desse artigo e do arquivo é o de suscitar novas investigações e debates, como este que estamos tendo.”

A discussão sobre a lesão e sobre outros aspectos do artigo logo se tornou áspera. Um terceiro foi chamado a mediar uma teleconferência e, por fim, chegou-se a um acordo. A lesão frontal seria mencionada, mas não com o destaque que versões anteriores do artigo lhe haviam dado.

Logo depois, a Universidade da Califórnia em San Diego concordou em desistir da custódia do cérebro. Para ser honesto consigo mesmo, Annese tinha de admitir que parte dele queria, sim, ficar com o material, ou pelo menos com porções dele. Seu ego lhe dizia que tinha direito a tanto, além de lhe incutir o sentimento de revolta. Uma vez entregue o cérebro, ele renunciou a seu posto em San Diego. “Lamentavelmente, acredito que esse é o único modo de dar uma narrativa justificável (e digna) às mudanças que estão ocorrendo no Projeto HM”, escreveu.

 

Na sala de Corkin, no MIT, insisti para ela me contar sua versão dos fatos, expor seu ponto de vista na briga pelo cérebro de Henry.

“Não quero falar sobre isso”, ela disse. “Nós temos um formulário de doação, certo? Isso já diz tudo.”

“Estou curiosa. Que tipo de papel…”

Mais uma vez, ela me cortou.

“Não posso falar sobre a papelada”, afirmou.

A papelada – o documento que ela repassou aos demais na reunião em Nova York – consistia em uma única página, e duas frases resumiam o ponto crucial: “Eu, Thomas F. Mooney, sou o tutor de Henry G. Molaison designado pela Justiça. Neste momento, sou também seu parente mais próximo em vida e, como tal, tenho direito aos restos de Henry G. Molaison após sua morte.” O documento concluía com assinatura e data: 19 de dezembro de 1992. Naquele mesmo ano, meses antes, Corkin fizera com que Mooney se candidatasse a ser o curador de Henry. O juiz da Vara da Família e Sucessões, supondo ser ele de fato o parente mais próximo, deferira a solicitação. Um dos primeiros atos de Mooney como curador foi doar o cérebro de Henry a Corkin e a seus colegas. E, com a concordância de Henry, ele também consentiu no prosseguimento das experiências que Corkin desejava conduzir com Henry enquanto ele vivesse. O problema era que, na verdade, Mooney não era seu parente mais próximo.

Perguntei se Corkin podia me explicar que grau específico de parentesco havia entre Henry e Mooney. Ela não soube dizer. Eu também precisei de muito tempo para encontrar uma resposta a essa mesma pergunta. Dei inúmeros telefonemas e cheguei a bater na porta da casa de Mooney. Ele sempre arranjava algum pretexto para não se encontrar comigo. Li documentos jurídicos que descreviam Mooney ora como primo de Henry, ora como sobrinho, mas, mesmo depois de montar a árvore genealógica de três gerações da família, não consegui encontrar nenhum laço de parentesco entre os dois. No fim, por telefone, Mooney me contou que ele e Henry eram primos em terceiro grau, ou seja, parentes bem distantes.

Perguntei se Corkin sabia que, à época em que Mooney se tornara curador de Henry, Frank Molaison – primo em primeiro grau e, portanto, o verdadeiro parente mais próximo – morava nas proximidades e nunca foi consultado. Observei ainda que o sobrenome teria permitido que o encontrassem com facilidade.

“Não sabia da existência dele”, ela respondeu.

Perguntei se ela chegara a fazer alguma pesquisa genealógica relativa ao homem a quem estudara por quase meio século.

“Não.”

“Portanto”, prossegui, “a senhora desconhecia o fato de que o senhor Mooney não era o parente mais próximo.”

“Isso mesmo”, ela confirmou.

Eu procurara os parentes próximos ainda vivos de Henry, conversara com eles e alguns tinham ficado surpresos e incomodados ao tomar conhecimento da briga ocorrida depois da morte dele, e sobretudo ao saber do tratamento que Corkin e seus colegas lhe infligiram quando ainda estava vivo.

Perguntei por que afinal Corkin induzira Mooney a reivindicar a curadoria de Henry. Sabia que, por mais de uma década antes da nomeação do curador, o próprio Henry havia assinado sozinho os formulários autorizando os experimentos.

“Eu só queria uma segurança adicional”, ela explicou, “outra pessoa que não sofresse de amnésia e que cuidasse com carinho dos interesses de Henry.”

O que ela queria dizer com “segurança”? Segurança para quê, ou para quem?

“Para Henry”, disse Corkin. “Para o MIT.”

E em que sentido o MIT estava vulnerável?

“Não sei”, ela respondeu. “Eu teria de perguntar a nossos advogados.”

 

Depois de entregues as lâminas de vidro e o tecido cerebral restante, representantes do MIT e da Universidade da Califórnia em San Diego continuaram a negociar um último ponto sobre o qual ainda havia discórdia: as imagens block-face em alta resolução que Annese e sua equipe haviam produzido durante o processo de dissecção do cérebro. San Diego acabou concordando com uma derradeira exigência: entregaria também os arquivos digitais. Na condição de alguém que passou anos pesquisando a história de Henry, eu sabia que aquilo não era necessariamente uma coisa ruim. Fosse qual fosse a interpretação que se desse ao conflito que culminou com a retirada do cérebro de San Diego, parecia razoável que, uma vez levada a cabo a transferência, se quisesse ver tudo reunido: o material todo, todos os dados. Isso tornaria mais fácil aos cientistas dar prosseguimento a suas análises e seguir explorando o cérebro de Henry em busca de eventuais novas revelações.

Pode-se imaginar, daqui a décadas, algum jovem pesquisador, ávido e brilhante, segurando contra a luz uma das lâminas feitas por Annese e apreciando-a como o objeto histórico espetacular e misterioso que ela jamais deixará de ser, sem se importar com quem há de ser o proprietário ou administrador do material. Pode-se imaginar uma pesquisadora vasculhando outras partes do arquivo, como as imagens em alta resolução, as outras lâminas ou o restante do tecido não processado. Talvez, apenas talvez, ela encontre alguma coisa, alguma anomalia que ninguém jamais notou, algo que enseje uma nova ideia, alguma descoberta sobre como funcionamos ou algum novo elemento que venha a desafiar velhas suposições. O ideal, é claro, é que esse pesquisador hipotético seja capaz de explorar não apenas o arquivo contido no cérebro de Henry, mas todos os dados coletados enquanto ele ainda estava vivo, todas as incontáveis informações derivadas dos experimentos ou da observação dos cientistas depois de ele ter deixado a sala de cirurgia de meu avô. A ideia por trás da preservação do cérebro de Henry, afinal, é possibilitar que se comparem e se relacionem seus dados neuroanatômicos com a imensa quantidade de dados clínicos e comportamentais disponíveis para o seu caso.

Suzanne Corkin estava, presume-se, de posse de grande parte desses dados sobre Henry. Assim, já quase ao final da entrevista, perguntei o que ela pretendia fazer com todos esses registros, com os dados que coletara ao longo de toda a sua carreira.

EU: A senhora pretende doar esse material para algum arquivo?

CORKIN: O material a respeito de Henry, não, mas vou doar algumas curiosidades para meu departamento, e elas ficarão expostas no 2º andar.

(As “curiosidades” compunham-se de pertences pessoais – a Bíblia, os óculos, o crucifixo de Henry –, todos em posse dela. Corkin também postulou para si o copyright de todas as fotos conhecidas de Henry e dos pais dele.)

EU: Certo. E o que vai acontecer com os registros em si?

(Pausa de vários segundos)

CORKIN: Vou picotar tudo.

EU: Picotar? Por que picotar todos os registros?

CORKIN: Ninguém vai consultá-los.

EU: É mesmo? Não posso imaginar os registros do mais importante objeto de pesquisa na história sendo picotados. Por que a senhora faria isso?

CORKIN: Bem, você não pode pegar um teste feito num determinado dia e tirar conclusões somente a partir dele. Seria muito perigoso.

EU: Sim, mas os registros da senhora com certeza são abrangentes. Devem abarcar décadas…

CORKIN: É, bem, os testes se foram. Os dados, quero dizer. As planilhas não existem mais. Porque aquilo já foi publicado. A maior parte já foi publicada. Ou um bocado já foi.

EU: Sim, mas não tudo.

CORKIN: Bem, o que não foi publicado, você sabe, são experimentos que simplesmente não… (outra pausa longa) deram certo. Não deram. Sabe como é, houve algum problema. Ele teve uma convulsão ou coisa desse tipo.

EU: Mas, a senhora sabe, mesmo o que já foi publicado… Quando a gente olha os artigos, em certo sentido cada um deles é apenas a ponta de um iceberg, de todo o trabalho que foi feito. E o trabalho feito, todos os dados que o embasam – penso que valeria a pena preservar boa parte deles. As pessoas podem, de fato, querer voltar aos dados e verificar…

CORKIN: Não tenho onde guardar.

EU: Não tem onde? Não pode ser no MIT? De que volume estamos falando? De um depósito do tamanho desta sala, cheio de caixas repletas de papel?

CORKIN: Não, não é tanto assim.

EU: A maior parte desse material está na casa da senhora hoje?

CORKIN: Uma parte estava. Não, hoje não. Não está, não.

EU: Então está armazenado em algum lugar?

CORKIN: A maior parte já se foi, está no lixo, foi picotada.

EU: A maior parte já foi picotada? Há pouco tempo?

CORKIN: Sim, quando me mudei.

EU: Quando a senhora se mudou, picotou os registros?

CORKIN: Ã-hã.

EU: E, aquilo que sobrou, a senhora está pretendendo picotar?

CORKIN: Provavelmente.

(Ela parecia estar alterando e ajustando em tempo real alguns elementos da história. Detalhes à parte, porém – o que ela já havia ou não picotado –, a ideia em si de querer picotar os dados acerca de Henry me parecia altamente inquietante.)

EU: Não quero parecer demasiado arrogante, mas penso que gerações futuras vão ficar decepcionadas ao saber que as fontes primárias do trabalho feito com o paciente HM foram destruídas.

CORKIN: Bom, existem outros casos famosos de amnésia, e os dados desses pacientes tampouco estão à disposição do público.

EU: Mas por que… O que me parece é que a questão central é a seguinte: Henry foi de fundamental importância para nossa compreensão de nós mesmos, e eu acho que os dados utilizados para se chegar a essa compreensão de nós mesmos são quase uma herança comum.

CORKIN: É, mas, para começar, não passaram por revisão de meus pares. Isso é importante. O que foi publicado é bom, foi submetido a revisão, você pode acreditar no que está ali. Agora, coisas que, você sabe, experimentos que talvez não fossem tão bons, talvez com grupos de controle inadequados… Há uma série de coisas que podem dar errado nesses experimentos. Nem todo experimento é publicável.

EU: Mas, ainda assim, eles podem ser reinterpretados por outras pessoas… Talvez, à medida que vamos entendendo mais sobre como o cérebro e a memória funcionam, parte desses dados sobre HM possa vir a ser vista sob nova luz, à luz de novas teorias, novas ideias. Parece um pecado destruir esse material. E parece também – numa interpretação mais sombria – que isso torna imutável a sua versão da história de HM.

CORKIN: A versão não é só minha. Ela é minha e de mais de uma centena de colegas.

EU: Sim, eu sei. Mas a questão é que a senhora é a principal pesquisadora do assunto há muitas décadas. Essa é a história, portanto. E quando a senhora destrói os registros, ela se torna inalterável, algo como a história inviolável do paciente HM. Além disso, se destruir os dados, posso imaginar que vai ter gente dizendo: “Ela certamente fez isso por alguma razão pessoal.”

CORKIN: Não creio que cientistas diriam coisa parecida.

EU: Está bem.

CORKIN: Acho que gente como você é que pode dizer esse tipo de coisa.

Ela estava enganada. Não era apenas gente como eu. Mais tarde, contei a alguns neurocientistas – inclusive pesquisadores de Stanford e da Universidade da Califórnia em Los Angeles – o que ela me relatara sobre picotar os registros, e quase todos ficaram estarrecidos com o que um deles descreveu como “destruição inconsiderada de dados”.

Mesmo não sendo cientista, não pude deixar de notar que alguns dos dados ainda inéditos com os quais me deparei ao escrever meu livro iam contra a narrativa estabelecida no tocante ao paciente HM. Trechos não publicados de uma avaliação psicológica de Henry, de três páginas, por exemplo, forneciam indícios de que a memória dele já estava seriamente comprometida antes mesmo da operação que transformou Henry Molaison no paciente amnésico HM.

As causas e o significado desses problemas de memória anteriores à cirurgia podem ser debatidos, mas sua existência enfatiza a importância de preservar os registros completos do mais destacado objeto de pesquisa da história da ciência da memória. Perguntei-me que outras surpresas poderiam ser encontradas numa revisão completa dos dados de Henry, ou pelo menos daqueles que ainda não haviam sido picotados por Corkin.

Não era preciso ser cientista para compreender o que aquela destruição significava. Meu avô abrira um buraco até a memória de Henry, e agora uma das muitas pessoas que haviam se beneficiado disso abria outro buraco irreparável, dessa vez em nossa memória de Henry.

 

Corkin e eu nos despedimos com um aperto de mão, desejando um ao outro um protocolar “tudo de bom”. Era a última vez que nos víamos. Ela morreu não muito tempo depois.

Ao sair da sala, notei na parede uma fotografia emoldurada do cérebro de Henry. Era uma foto profissional. Havia sido tirada no laboratório de Annese e expunha o cérebro em sua totalidade, depois que as várias membranas que o revestiam haviam sido retiradas. Mostrava-o em close e de perfil. Tinha uma coloração rosada, do tom de uma sapatilha de bailarina, embora uma complexa rede de veias escuras, arroxeadas, riscasse sua superfície. O cérebro era bonito a sua maneira, mesmo fora do contexto, desconhecendo-se a quem havia pertencido e o que nos havia ensinado. Mesmo que não se soubesse nada de sua história.

Havia algo de aquático nele, como uma criatura que se encontra ao mergulhar fundo demais numa caverna submersa. Ao observá-lo, lembrei-me de uma coisa que Annese certa vez me dissera. Ele reclamava da tendência predominante de retratar o cérebro, com suas miríades de redes neurais, como se ele fosse uma espécie de metrópole elétrica. Bastava bater os olhos numa banca de jornal, ele disse, e via-se uma capa com uma ilustração computadorizada do cérebro que mais parecia uma fantasia cintilante de fibra ótica, como se andássemos por aí com uma Times Square resplandecente na cabeça. Annese não gostava dessa metáfora elétrica. Via o cérebro mais orgânico, mais terrestre. Não como uma lâmpada, mas como uma ostra.

Isso, contudo, tampouco me pareceu correto.

Ele não é como uma central telefônica, um gravador ou os demais objetos com os quais as pessoas o têm comparado ao longo dos anos.

Talvez o cérebro humano esteja fora do alcance de qualquer metáfora, pela simples razão de que ele é o único objeto capaz de criar metáforas para descrever a si próprio. Na verdade, não existe nada como ele. O cérebro cria a mente humana, e esta busca entender o cérebro humano, não importa quanto tempo leve nem a que preço.

Olhei de novo para a fotografia e tentei gravar aquele momento na memória.

Luke Dittrich

Luke Dittrich é jornalista

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