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    Em 2004, Trump escreveu: “Aprendi a confiar nos meus instintos e a não pensar demais.” Assim que fizer o juramento como presidente, ele terá a seu lado um militar portando uma maleta com o “manual para a condução da guerra nuclear” ILUSTRAÇÃO: ©STEVE BELL 2016_WWW.BELLTOONS.CO.UK

carta de Washington II

O primeiro mandato de Donald Trump

A campanha do candidato nos diz muito sobre o tipo de presidente que ele será

Evan Osnos | Edição 123, Dezembro 2016

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Na manhã de 20 de janeiro de 2017, o presidente eleito visitará Barack Obama na Casa Branca para um café antes de compartilharem uma mesma limusine – Obama, sentado do lado direito, seu sucessor, do lado esquerdo – rumo ao Capitólio, onde, no terraço da fachada oeste, ao meio-dia, terá lugar a posse do novo presidente dos Estados Unidos.

Donald Trump estará a cinco meses de completar 71 anos. Será o presidente mais idoso a iniciar um primeiro mandato, sete meses mais velho que Ronald Reagan ao prestar juramento. Reagan recorreu ao humor para desviar a atenção de sua idade – em 1984, prometeu não “explorar politicamente a juventude e a inexperiência de meu oponente” – que era Walter Mondale, então com 56 anos de idade. Trump preferiu outra estratégia: durante meses, seus assessores promoveram a teoria de que a oponente democrata de 69 anos, Hillary Clinton, seria portadora de uma misteriosa doença cerebral e, em consequência disso, não poderia subir uma escada ou sentar ereta sem ajuda; em seus discursos, chegou a perguntar se a ex-senadora possuía “energia mental e física” suficiente para exercer a Presidência.

O espetáculo completo da campanha de Trump – as hostilidades e os insultos compulsivos, a indiferença aos fatos estabelecidos – chamou tanto a atenção que foi fácil não atentar a um processo de consequências mais duradouras: a marcha de seus burocratas em direção ao poder real. Em 1o de agosto, membros da equipe de transição do candidato se mudaram para o número 1717 da avenida Pensilvânia, instalando-se num prédio comercial de treze andares a um quarteirão da Casa Branca. A equipe era chefiada pelo governador de Nova Jersey, Chris Christie,[1] e foi integrada por vários confidentes políticos deste último, como William Palatucci, ex-sócio do escritório de advocacia do governador. A partir de agosto, de acordo com um programa federal concebido para acelerar transições presidenciais, franqueou-se à equipe de Trump acesso a informações confidenciais, a fim de poder receber relatórios secretos já no dia seguinte ao das eleições. O time deu início ao processo de seleção de nomes para o gabinete, ao mapeamento de políticas a adotar e às reuniões com a equipe atual da Casa Branca, com o intuito de planejar a passagem do poder nos departamentos de Defesa, de Estado, da Segurança Interna e em outras agências governamentais.

 

Os consultores de Trump estavam organizando o que republicanos próximos à campanha chamaram de “Projeto Primeiro Dia”. “Trump passará horas assinando documentos – e apagando a Presidência de Obama”, declarou Stephen Moore, assessor oficial ligado à Fundação Heritage. E explicou: “Queremos identificar talvez 25 decretos presidenciais que Trump poderia assinar em seu primeiro dia de governo.” A ideia foi inspirada na primeira semana de Reagan na Casa Branca, quando ele tomou medidas para desregular o setor energético, conforme prometera durante a campanha. A equipe de transição de Trump tem buscado identificar decretos presidenciais de Obama que possam ser revogados. “Esse é um problema dos decretos presidenciais que penso que a esquerda realmente não entendeu”, afirmou Moore. “Se você governa por meio de decretos presidenciais, o presidente seguinte pode assumir e revogá-los.”

Em parte, há aí algum exagero: invalidar uma determinação que está além da esfera “regulatória” é coisa que pode levar um ano ou mais. Mas assinar decretos presidenciais dá início ao processo, e os assessores de Trump estão ponderando diversas opções em seu Projeto Primeiro Dia. O presidente pode renunciar ao Acordo de Paris sobre emissões de gases de efeito estufa da mesma forma que Bush, em 2002, retirou o apoio americano ao Tribunal Penal Internacional. Ele pode retomar a construção do oleoduto Keystone, suspender o programa para refugiados sírios e instruir o Departamento de Comércio a contestar práticas comerciais chinesas. Ou, para afrouxar restrições à compra de armas, ele pode relaxar a verificação de antecedentes.

Essas, contudo, são questões secundárias. Independentemente do que mais poderá fazer em 20 de janeiro, Trump começará por uma medida (“em minha primeira hora na Presidência”) que contemple sua principal promessa de campanha: mudar radicalmente as regras para imigração nos Estados Unidos. “Quem quer que tenha entrado ilegalmente no país está sujeito a deportação”, disse ele em agosto a uma multidão em Phoenix.

 

Depois de mais de um ano de candidatura do republicano, os americanos praticamente perderam a sensibilidade para cada nova falta exumada de seu passado – negócios fracassados, crueldades mesquinhas, discriminação e misoginia –, assim como para as indecências cotidianas do presente: a maldade diante de uma mãe enlutada, o ocultamento de sua situação fiscal, a ficção sobre Obama não ter nascido nos Estados Unidos e outras mentiras. Mas, em tudo isso, onde se falou do futuro? Sua vitória não foi uma ficção de seus fãs mais ardorosos. É justo, portanto, perguntar: como ele será de fato como presidente?

 

Nos meses que antecederam a eleição, entrevistei dezenas de pessoas a fim de saber o que os Estados Unidos poderiam esperar de um primeiro mandato de Donald Trump. Assessores de campanha compartilharam os planos do candidato comigo, pessoas ligadas a ele me relataram conversas, e consultei veteranos de cinco governos republicanos, além de economistas, especialistas em simulações de guerra, historiadores, autoridades jurídicas e políticos europeus, asiáticos e latino-americanos.

Em sua maioria, as pessoas não engajadas na campanha me disseram acreditar que Trump iria perder. Mas acreditavam também que seu impacto seria duradouro e identificaram amostras de como ele já havia alterado a química política americana para além dos domínios da campanha presidencial. Depois de setenta anos de esforços dos Estados Unidos para interromper a disseminação de armas nucleares, Trump sugeriu que desenvolvê-las seria uma atitude sábia da parte da Coreia do Sul e do Japão. De volta de uma visita recente a Seul, Scott Sagan, professor de ciências políticas em Stanford e especialista em armas nucleares, contou-me que declarações desse tipo estariam surtindo efeito. “Certo número de líderes políticos, em geral das alas mais conservadoras dos partidos, estão clamando abertamente por armas nucleares.”

 

Muitas das posições do Trump candidato em relação a eventuais políticas de governo se mostraram fluidas. Ele defendeu e abandonou (e, aqui e ali, tornou a defender) a ideia de armar professores do ensino fundamental, acabar com a emissão de vistos para trabalhadores estrangeiros qualificados e impor uma proibição temporária, mas total e completa, à “entrada de muçulmanos nos Estados Unidos”. Declarou também que “tudo é negociável”, o que, para alguns, sugere que ele seria “normalizado” pela política e teria sua ação restringida pelas salvaguardas constitucionais inerentes ao exercício da Presidência. Randall Schweller, cientista político da Universidade Estadual de Ohio, disse, um pouco antes da eleição: “Penso que estamos num ponto de nossa história política no qual ele é provavelmente a pessoa certa para o cargo. Não é perfeito, mas precisamos de alguém diferente, porque a calcificação em Washington é muito grande. Juntos, os americanos são inteligentes, e se votarem em Trump, eu não ficaria preocupado.”

Muitos no Partido Republicano afirmaram não acreditar que, se eleito, Trump iria cumprir algumas de suas promessas mais frequentes. Uma pesquisa de opinião publicada em junho, doze meses depois de ele ter se comprometido a construir “um muro grande, bonito e poderoso” na fronteira sul do país, mostrou que apenas 42% dos republicanos acreditavam que ele conseguiria erigi-lo.

Campanhas, no entanto, nos oferecem uma prévia surpreendentemente acertada de como serão os governos. Em 1984, o cientista político Michael Krukones compilou as promessas de campanha de todos os presidentes norte-americanos, de Woodrow Wilson a Jimmy Carter, e descobriu que eles cumpriram 73% do que prometeram. Mais recentemente, o PolitiFact, um site apartidário dedicado à verificação de fatos, avaliou mais de 500 promessas de campanha de Barack Obama e concluiu, para desgosto de seus oponentes, que ele realizou 70% delas, ou pelo menos implantou uma versão negociada do prometido.

Para transformar intenções em políticas de fato, equipes de transição anteriores produziram guias confidenciais, conhecidos como “livros de promessas” – a partir das palavras do candidato, tais manuais estabelecem as prioridades a serem seguidas pelos integrantes do governo. Durante a campanha de 2008, o time de transição de Obama distribuiu um memorando para membros da equipe sobre “o que considerar promessa”. O documento explicava: “Palavras como ‘vou’ ou ‘gostaria de’ associadas aos verbos ‘criar’, ‘garantir’, ‘aumentar’ e ‘eliminar’ são bons indicadores do comprometimento com políticas específicas.”

Quando Trump afirmava que iria criar ou eliminar alguma coisa, ele nunca se afastava muito de três princípios básicos: em sua opinião, os Estados Unidos estariam se empenhando demais para resolver os problemas do mundo; os acordos comerciais estariam prejudicando o país; e imigrantes eram igualmente danosos. Ele divagou, se esquivou, voltou atrás, mas sempre governado por um forte instinto de autopreservação e nunca afastado de suas posições centrais. Roger Stone, assessor de longa data do então candidato, me disse que seria um erro imaginar que ele não pretendesse pôr em prática suas ideias mais radicais. “No fim, talvez os tribunais não lhe permitam implementar a proibição aos muçulmanos”, argumentou. “Mas tudo bem. Ele pode, então, vetar a entrada de egípcios, sírios e sauditas. É um pragmático ao estilo de Reagan.”

 

William Antholis, cientista político à testa do Centro Miller da Universidade de Virgínia, salientou que o presidente Trump vai dispor da “maior empresa do mundo, com 2,8 milhões de funcionários civis e 1,5 milhão de militares”. Ele terá a oportunidade de alterar a composição da Suprema Corte, com uma vaga a ser preenchida de imediato e outras a caminho. Quatro dos atuais juízes estão ou com 70 e poucos anos ou às vésperas de completar 80.

Quanto a suas empresas, a Trump Organization, ele pode, por lei, seguir comandando-as como proprietário, porque, no tocante a conflitos de interesses, presidentes não estão sujeitos ao mesmo estatuto que afeta membros do gabinete e funcionários da Casa Branca. Decisões presidenciais, sobretudo na área de política externa, poderiam fortalecer ou enfraquecer os negócios da família, que incluem transações na Turquia, na Coreia do Sul, no Azerbaijão e em outros lugares. Trump provavelmente sofrerá pressão para adotar uma acomodação semelhante àquela de Michael Bloomberg, que, ao se tornar prefeito de Nova York, afastou-se da maioria das decisões empresariais tomadas por sua companhia. Até o momento, porém, o presidente eleito disse apenas que planeja transferir o controle cotidiano da Trump Organization para três de seus filhos adultos: Donald Jr., Ivanka e Eric.

Como presidente, Donald Trump terá o poder de nomear cerca de 4 mil pessoas, mas enfrentará um problema singular: mais de uma centena de veteranos do Partido Republicano juraram jamais apoiá-lo, o que forçou republicanos mais jovens a decidir se também eles pretendem se manter distantes ou se vão fazer parte do governo com o intuito de tentar moderar o mandatário. Em setembro, a campanha avaliava 400 nomes, alguns deles convidados a integrar a equipe de transição. Circulava uma analogia por toda a parte: seria Trump um tiranozinho menor e administrável, à semelhança de Silvio Berlusconi? Ou estaria mais para Mussolini? O Mussolini de 1933 ou o de 1941?

Michael Chertoff trabalhou para os dois Bush – como procurador federal no governo de George H. W. Bush (o pai) e como secretário da Segurança Interna de George W. Bush (o filho). Foi uma das cinquenta autoridades republicanas em segurança nacional que assinaram uma carta afirmando que Trump seria “o presidente mais temerário da história americana”. Chertoff me disse ter sido abordado por republicanos mais jovens em busca de conselho: juntar-se a Trump, uma vez eleito, poderia ser considerada uma atitude patriótica, em vez de política? “Acredito que qualquer um que pense integrar o governo precisará fazer um rigoroso exame de consciência para se certificar de que não está apenas enganando a si próprio”, ele afirmou.

Os planos de Trump para a Presidência não foram moldados por nenhuma ideologia. Entre 1999 e 2012, ele mudou de partido cinco vezes e, no início da campanha, fez elogios parciais à Planned Parenthood (mas é contra o aborto), prometeu proteção aos benefícios sociais e apoiou os direitos dos gays (mas é contra o casamento de pessoas de mesmo sexo). Acima de tudo, guia-se por sua fé no poder superior de uma transação – um realismo largo e perverso que é menos uma preferência por privilegiar interesses em detrimento de valores do que uma crença de que, em se tratando de interesses, não há lugar para valores.

Quando candidato, fiou-se em grande medida nas ideias de experimentados combatentes. Newt Gingrich, que, como presidente da Câmara nos anos 90, foi pioneiro em muitas das táticas que acabaram por definir a atual guerra partidária, é hoje seu assessor e um forte candidato a uma posição de destaque em seu governo. Gingrich me contou ter insistido para que Trump privilegiasse uma questão conservadora pouco divulgada, mas polêmica: o fim da estabilidade vitalícia para servidores federais. Um ponto que estimularia os republicanos e ajudaria a superar os rachas no partido decorrentes de um amargo combate eleitoral.

“Conseguir permissão para demitir funcionários corruptos, incompetentes e desonestos – esse é o enfrentamento definitivo”, afirmou Gingrich. Ele supõe que os sindicatos de servidores federais resistiriam, produzindo o que chamou de “guerra continuada”, parecida com o conflito que consumiu a capital do estado de Wisconsin, Madison, em 2011, quando o governador Scott Walker quis limitar os direitos de negociação coletiva dos empregados do setor público. Depois de cinco meses de protestos e de um esforço malogrado para destituir tanto o governador como membros do Senado estadual, prevaleceu em grande medida a vontade de Walker. Gingrich previu ser possível levar essa dinâmica caótica a Washington. “É preciso acabar com o emprego vitalício para servidores públicos”, disse. “Basta dar início a essa mudança, e os sindicatos de funcionários públicos vão se desmanchar.”

 

O que, de fato, pode fazer um presidente? Para prevenir a ascensão daquilo que os chamados documentos antifederalistas caracterizaram, em 1787, como “um César, um Calígula, um Nero ou um Domiciano na América”, os fundadores dos Estados Unidos deram ao Congresso o poder de fazer leis, e à Suprema Corte a palavra final sobre a Constituição. Na década de 1930, no entanto, o Congresso foi incapaz de responder à ascensão da Alemanha nazista, e, durante a Guerra Fria, a perspectiva de um ataque nuclear súbito consolidou ainda mais a autoridade da Casa Branca.

“Esses controles não desapareceram por completo, mas estão bem mais débeis do que, imagino, a maioria das pessoas supõe”, disse-me Eric Posner, professor de direito da Universidade de Chicago. “O Congresso delegou um bocado de poder ao presidente; presidentes já exigiram poder com base na Constituição, e o Congresso aceitou.” Os tribunais são lentos, acrescentou ele: “Se você tem um presidente que age com rapidez, não há muito que o Judiciário possa fazer. Um exemplo recente disso foi a guerra contra o terror. O Judiciário acabou por impor restrições ao presidente Bush, mas levou muito tempo.”

Algumas das promessas de Trump não poderão ser cumpridas sem o consentimento do Congresso ou dos tribunais – por exemplo, acabar com o Obamacare, cortar impostos ou afrouxar “nossas leis sobre difamação”, que protegem os jornalistas, para que “nós possamos processá-los e ganhar montanhas de dinheiro”. (Na realidade, a difamação não é contemplada por lei federal.) Mesmo com o controle do Congresso nas mãos dos republicanos, é improvável que consigam os sessenta votos necessários no Senado para derrubar uma manobra obstrucionista por parte dos democratas.

Trump, contudo, poderá alcançar muitos de seus objetivos por conta própria. Um presidente dispõe de autoridade suficiente para renegociar um acordo nuclear com o Irã, determinar uma interdição a muçulmanos e instruir o Departamento de Justiça a priorizar certos delitos, com vistas a atingir alvos específicos. Durante a campanha, o candidato acusou a Amazon “de não ser punida por evasão de impostos” e jurou que, se ganhasse, “ah, aí sim eles vão ter problemas”.

Todas essas ações podem ser contestadas nos tribunais. A União Americana para as Liberdades Civis (ACLU) analisou as promessas de Trump e concluiu – nas palavras de seu diretor executivo, Anthony Romero – que elas violavam as “primeira, quarta, quinta e oitava emendas à Constituição”. Romero afirmou que a ACLU “vai contestar e impedir a implementação de suas propostas”, mas essa estratégia acentua aquela que é a vantagem fundamental do presidente: a de dar o primeiro passo. “Os demais poderes se veriam, então, diante de um fato consumado”, de acordo com um artigo de 1999 de autoria dos cientistas políticos Terry M. Moe e William G. Howell. Depois dos ataques de 11 de Setembro, por exemplo, Bush assinou um decreto presidencial que autorizou a Agência de Segurança Nacional a vigiar cidadãos americanos sem precisar de mandado judicial nenhum. Embora legisladores tenham manifestado preocupação e processos tenham sido instaurados, o programa continuou em funcionamento até 2015, quando o Congresso pôs fim à coleta massiva de metadados telefônicos. Da mesma forma, Obama fez uso de seus poderes para elevar os padrões de economia de combustível e, por um tempo, proibir a exploração de petróleo em partes do Alasca e do oceano Ártico.

Aqui e ali, presidentes já tiveram sua atuação restringida por atos isolados de desobediência civil por parte de funcionários governamentais. Para enfrentar o terrorismo, Trump declarou, “você precisa apartar os terroristas de suas famílias”, trabalhar para “limitar em parte a internet” e usar táticas que são “francamente impensáveis” e “muito, mas muito piores que afogamentos simulados”. Na opinião do general Michael Hayden, ex-chefe da Agência Central de Inteligência (CIA) e da Agência de Segurança Nacional (NSA), autoridades graduadas vão se recusar a pôr em prática semelhantes propostas. “Não se pode obedecer a uma ordem que é ilegal”, disse.

 

Donald Trump será o primeiro comandante em chefe dos Estados Unidos sem nenhuma experiência anterior em cargo público ou em altos escalões militares. Como candidato, afirmou que não confiaria em funcionários da inteligência americana (“as pessoas que têm feito isso por nosso país”) e declarou: “Eu sei mais sobre o Estado Islâmico que os generais.” Tão logo nomeado candidato, ele recebeu o primeiro lote de informações altamente secretas. Durante um briefing sobre inteligência nacional em seus escritórios em Nova York, Trump foi acompanhado por seu assessor Michael Flynn, tenente-general reformado que, conta-se, interrompeu inúmeras vezes a fala com perguntas e comentários, até que o chefe da campanha, Chris Christie, lhe pedisse calma. (O escritório da campanha nega essa versão.) Mais tarde, o então candidato disse em entrevista à televisão que a “linguagem corporal” dos responsáveis pelo encontro revelava que eles não estariam “satisfeitos” com Obama.

Profissionais de inteligência criticaram Trump por ele ter politizado e discutido publicamente uma reunião sigilosa. Diversos funcionários da segurança nacional me disseram que, não importava quem fosse o presidente, o fator determinante a se considerar era sua reação a um choque – por exemplo, um corte no fornecimento de energia que poderia ou não ser um ato de terrorismo. “Sua reação será impetuosa?” Jim Woolsey, um assessor de Trump que foi diretor da CIA de 1993 a 1995, observou: “Uma coisa de que você pode ter certeza é que a primeira informação é quase sempre equivocada, ao menos em parte. Quando o presidente diz: ‘Acabo de receber um relatório – as forças militares dos Estados Unidos estão sendo atacadas’ – é muito difícil, para qualquer um, se opor a isso.”

Em Trump: Como Ficar Rico (2004), Donald Trump escreveu que as pessoas “sempre ficam surpresas com a rapidez com que tomo decisões importantes, mas aprendi a confiar em meus instintos e a não pensar demais”. E acrescentou: “A descoberta de que a superficialidade pode ser inteligente foi para mim uma experiência profunda.” Ele se orgulha de ser vingativo e desconfiado. “Se você não reage à altura, então não passa de um idiota!”, escreveu em 2007. “Seja paranoico”, aconselhou em 2000.

Durante muitos anos, Trump demonstrou curiosidade sobre armas nucleares. Em 1984, aos 30 e poucos anos, declarou ao Washington Post que queria negociar acordos nucleares com os soviéticos. “Levaria uma hora e meia para aprender tudo sobre mísseis”, declarou. “E, de todo modo, acho que já sei quase tudo.” Segundo Bruce G. Blair, pesquisador do Programa de Ciência e Segurança Global da Universidade Princeton, Trump, numa recepção em 1990, encontrou um negociador americano de armas nucleares e lhe ofereceu conselhos sobre como fazer um acordo “genial” com seu equivalente soviético. Aconselhou-o a chegar atrasado, encarar o interlocutor, enfiar-lhe o dedo no peito e dizer: “Fuck you!” Há pouco tempo, um ex-funcionário republicano da Casa Branca a quem Trump recorre para seus insights me disse: “Honestamente, o problema com Donald Trump é que ele não sabe o que não sabe.”

Pouco depois do juramento como presidente, Trump terá a seu lado um assistente militar encarregado de portar a maleta de couro e alumínio de 20 quilos com um “manual para a condução da guerra nuclear”. Quem disse isso foi Dan Zak, autor de obra recente sobre armas nucleares: Almighty: Courage, Resistance, and Existential Peril in the Nuclear Age. A maleta, conhecida na Casa Branca como a “bola de futebol”, encerra um cardápio de alvos estrangeiros: cidades, arsenais, infraestrutura crítica. Para dar início a um ataque, Trump teria de, em primeiro lugar, comprovar sua identidade para um comandante na sala de guerra do Pentágono, confirmação que é feita mediante códigos inseridos numa carteira de identidade única conhecida como “biscoito”. (De acordo com Zak, “conta-se que Jimmy Carter certa vez, por acidente, enviou o ‘biscoito’ para a lavanderia. Bill Clinton o teria perdido e durante meses não contou para ninguém”.)

 

Em algumas raras ocasiões, as ordens nucleares de um presidente soaram demasiado perturbadoras para que sua equipe obedecesse ao comando. Em outubro de 1969, Richard Nixon ordenou a seu secretário da Defesa, Melvin R. Laird, que pusesse as forças nucleares americanas em alerta máximo. Segundo Sagan, o especialista em armas nucleares de Stanford, Nixon esperava que os soviéticos suspeitassem que ele estaria disposto a atacar o Vietnã do Norte. Laird ficou horrorizado e tentou desconversar: o alerta conflitaria com um exercício militar já agendado. Sagan lembra: “Ele compreendeu que Richard Nixon acreditava na chamada ‘teoria do lunático’”, ou seja, em dissuadir toda e qualquer agressão fazendo com que os rivais o tomassem por uma pessoa irracional. “Mas Mel julgava uma loucura aquela teoria, e também achava que ameaçar com armas nucleares um país como o Vietnã seria uma atitude ineficaz, além de, na verdade, perigosa. Ele tentou postergar o cumprimento da ordem do presidente, na esperança de que Nixon se acalmasse. Aquilo acontecia com frequência: Nixon fazia um comentário raivoso e, se você o ignorasse, ele não voltava ao assunto.” Nesse caso, porém, o presidente não se esqueceu da ordem dada, e Laird acabou obedecendo. A operação, organizada às pressas, foi um fiasco: dezoito bombardeiros B-52 decolaram rumo à União Soviética carregados de bombas nucleares. Alguns deles se aproximaram perigosamente de outras aeronaves, um incidente que um relatório posterior definiu como “arriscado”.

Mais tarde, outro assessor de Nixon procurou impedir que ele continuasse a ter controle sobre as armas nucleares. Durante as semanas finais do escândalo de Watergate, em 1974, alguns dos assessores do presidente o viam como uma pessoa instável. James R. Schlesinger, o secretário da Defesa à época, emitiu uma diretiva ao chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, solicitando que “qualquer ordem de emergência proveniente do presidente” passasse por ele, Schlesinger, antes que se desse curso a qualquer tipo de ação – assim relata James Carroll em House of War, uma história do Pentágono. A diretiva pode ter sido ilegal, mas prevaleceu. Como muitos republicanos boicotaram a campanha de Trump, aqueles dispostos a aderir correm o risco de serem vistos como parte de “uma equipe repleta de Olivers North”, nas palavras de um ex-secretário de gabinete. (Em 1987, ao depor no Congresso sobre seu papel no escândalo Irã–Contras, Oliver L. North, então assessor da Casa Branca, declarou: “Se o comandante em chefe ordena a este tenente-coronel que vá plantar bananeira na esquina, eu o farei.”)

Observando a campanha de Trump, Timothy Naftali, ex-diretor da Biblioteca e Museu Presidencial Richard Nixon, afirmou: “Trump escreve no Twitter o que Nixon sabia silenciar quando fora de seu círculo mais íntimo, e nós nos inteiramos do que ele dizia pelas fitas gravadas. Nixon projetava nas situações as conspirações que ele próprio conceberia, caso estivesse na mesma posição. Estava convencido de que os democratas o espionavam e, por isso, pôs-se a espioná-los. Para si próprio, racionalizava seus atos dizendo: ‘Faço contra meus inimigos só o que eles estão fazendo contra mim.’”

 

Nada na campanha presidencial apresentou a Trump maior gama de informação nova do que a esfera das relações exteriores. Quando lhe perguntaram sobre a Força Quds, uma unidade paramilitar iraniana, ele respondeu expressando o que pensava sobre “os curdos”, um grupo étnico. Durante um debate em dezembro de 2015, um moderador pediu sua opinião sobre a “tríade nuclear”, pedra angular da estratégia nuclear norte-americana – bombardeiros, mísseis em terra e mísseis lançados de submarinos –, e ficou claro que Trump não tinha ideia do que se tratava. Sua resposta foi: “Penso que, para mim, nuclear é apenas o poder; a devastação é muito importante para mim.”

Em abril, a pedido da direção da campanha, Richard Burt, ex-funcionário graduado do Departamento de Estado no governo Reagan, forneceu elementos para o primeiro grande discurso do candidato sobre política externa. Embaixador americano na Alemanha entre 1985 e 1989, Burt fora atraído pelas declarações de Trump em favor de uma visão mais contida e “realista” do poder americano. “Fomos uma superpotência singular. Isso mudou. Não desfrutamos mais da situação única de vivermos num mundo unipolar. De todo modo, melhor assim, provavelmente. Erramos feio, e não foi só no Iraque. Andamos nos preocupando demais com nossas ambições relativas à construção de nações, à mudança de regimes e à promoção da democracia. Aprendemos que essas são coisas bem mais difíceis do que achávamos que eram,” ele disse.

Embora Burt tenha contribuído com suas ideias, ele não apoiou Trump ativamente. Em abril, o candidato fez o discurso sobre política externa, mas Pratik Chougule, um assessor de campanha, sentiu o desconforto de Trump ao tratar do assunto. “Você pode ver por sua expressão ao ler o discurso que ele parecia se sentir desconfortável”, disse Chougule, que deixou a campanha antes do final e hoje é editor da revista The National Interest. “Estávamos lidando com um candidato que já tinha feito seus próprios juízos, fossem eles corretos ou não. Uma abordagem tradicional das políticas não ia funcionar.” Em março, quando perguntaram a Trump quem ele mais consultava sobre política externa, a resposta foi: “Em primeiro lugar, falo comigo mesmo, porque tenho um cérebro muito bom e já disse uma série de coisas.” Ele lutava para atrair assessores republicanos bem conhecidos, dificuldade explicável em parte pelo fato de seu slogan, “Os Estados Unidos em primeiro lugar”, ir além do isolacionismo, rumo a uma concepção voraz do poder americano. “Quero de volta tudo que demos ao mundo”, declarou em abril de 2015.

Seu retrato da nação como sobrevivente num mundo anárquico levou outros países a reexaminar sua postura diante dos Estados Unidos. “Soa quase como se a gente tivesse de pagar aluguel pelas tropas americanas”, me disse um diplomata europeu em Washington. Mesmo atribuindo parte da retórica ao calor da campanha, prosseguiu o diplomata, o sucesso de Trump deve ser entendido como uma medida da mudança nas atitudes americanas e das próprias intenções dele. “É provável que esse desejo de dividir o fardo esteja entranhado. Tem algo errado aí, ele deve pensar, os Estados Unidos estão sendo roubados.”

Em alguns casos, a linguagem de Trump surtiu efeito contrário ao pretendido. Ele defende linha-dura com a China (“Não podemos permitir que a China estupre nosso país”, declarou em maio), mas, na China, a política de “Estados Unidos em primeiro lugar” é entendida como o lamento de uma América permissiva e exaurida. Um artigo recente no Guancha, um site nacionalista de notícias, intitulava-se: “Trump: Os Estados Unidos vão parar de falar em direitos humanos e não vão mais proteger a OTAN incondicionalmente.”

Antes do resultado das eleições, Shen Dingli, influente estudioso de política externa da Universidade Fudan, em Xangai, disse que as autoridades chinesas ficariam preocupadas com a imprevisibilidade de Trump, mas, acredita ele, concluiriam que, em última instância, trata-se de um novato que faz ameaças vazias e com o qual seria fácil lidar. Preocupadas mesmo, elas ficariam com as políticas de Hillary Clinton, que, como secretária de Estado, esteve à frente do chamado “pivô”[2] para a Ásia de Obama, como uma contraposição à expansão chinesa. “Ela é mais previsível e, provavelmente, mais dura”, Shen observou. “Direitos humanos, pivô – a China detesta as duas coisas.”

O isolacionismo de Trump não é homogêneo; ele também possui ideias de outra natureza, algumas das quais produziram efeitos fora de seu controle. Quando chamou Obama de “fundador do EI”, o grupo militante libanês Hezbollah exultou. Seu líder, Hassan Nasrallah, aliado do sírio Bashar al-Assad (contrário ao EI), declarou que os Estados Unidos haviam criado grupos extremistas com o objetivo de semear o caos no Oriente Médio. Era como se Trump confirmasse a suspeita. “Quem disse isso foi um candidato presidencial norte-americano”, afirmou Nasrallah na televisão. “E falou em nome do Partido Republicano. Ele possui dados e documentos.”

Outras organizações militantes, incluindo o Estado Islâmico, deram destaque às palavras e à imagem de Trump em seus materiais de recrutamento. Um vídeo de janeiro do Al Shabaab, o grupo militante do leste da África aliado da Al Qaeda, mostrava Trump exigindo a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, e avisava: “Amanhã, será um país de discriminação religiosa e de campos de concentração.”

Uma das promessas mais constantes de Donald Trump foi “renegociar” o acordo nuclear com o Irã. Walid Phares, assessor de política externa, disse que “ele não vai implementar o acordo do jeito que está”. Há críticas razoáveis aos termos do acordo, mas uma recusa a implementá-lo seria, na verdade, “um presente para o Irã”, segundo Karim Sadjadpour, especialista em Irã da Fundação Carnegie pela Paz Internacional. “A linha-dura iraniana está procurando uma maneira de se desvencilhar do acordo, e não seria a culpada por isso”, afirma. “É a solução ideal. Os iranianos diriam: ‘Vocês roeram a corda, então vamos reiniciar nosso programa nuclear.’”

 

Em julho, Trump fez sua incursão mais dramática pelos domínios da política externa, declarando que, se os países bálticos da OTAN fossem atacados, ele decidiria se iria defendê-los ou não, examinado se “cumpriram suas obrigações para conosco”. Perguntei ao então presidente da Estônia, Toomas Hendrik Ilves, o que ele pensava disso. Ilves rechaçou a sugestão de que seu país não fez a sua parte na OTAN. “A Estônia não ficou à toa, esperando que aliados cuidassem de sua segurança”, disse. “Na verdade, proporcionalmente a nosso tamanho, fomos um dos países que mais contribuíram para a missão no Afeganistão.” Sem mencionar o nome de Trump, Ilves desaconselhou o improviso, em se tratando de questões de política externa envolvendo o presidente da Rússia, Vladimir Putin: “A agressão russa à Ucrânia – e o impacto que as políticas e ações russas nos países vizinhos teve na Europa como um todo – marca uma mudança de paradigma: o fim da confiança na ordem pós-Guerra Fria.”

Depois de Trump mostrar hesitação quanto ao compromisso dos Estados Unidos com a OTAN, visitei o escritório em Arlington, no estado da Virgínia, da RAND Corporation, um instituto apartidário de pesquisa. Durante a Guerra Fria, a RAND desenvolveu simulações político-militares de guerra a partir de cenários reais – quatro colaboradores e analistas da instituição receberam prêmios Nobel por seus trabalhos no âmbito da teoria dos jogos. “Uma simulação é uma espécie de prévia do que vem por aí”, explicou David Shlapak, codiretor do Centro de Simulação Militar da RAND.

De acordo com Shlapak, na primavera de 2014, depois de a Rússia tomar a Crimeia, “veio à tona a questão: o que a Rússia poderia fazer contra a OTAN, caso seja essa sua inclinação?”. Para testar essa proposição, a RAND organizou uma série de simulações de guerra com o patrocínio do Pentágono, envolvendo militares, estrategistas e outros no exame do que aconteceria se ela atacasse as três nações mais vulneráveis da OTAN, ou seja, os países bálticos: Estônia, Lituânia e Letônia.

Para sua surpresa, as forças russas simuladas alcançaram os arredores das capitais da Estônia e da Letônia em 36 horas. O choque maior foi verificar o grau de destruição. As forças americanas, provenientes da Alemanha, da Itália e de outras partes, não se apresentam fortemente blindadas. “Em doze horas, haveria mais baixas entre os americanos que as sofridas no Iraque e no Afeganistão em dezesseis anos”, disse Shlapak. “Em doze horas, a Força Aérea americana perderia mais aviões do que perdeu na soma de todos os conflitos desde o Vietnã”, prosseguiu ele: “Em nossa simulação, os russos entram no conflito com 450 tanques; a OTAN com nenhum. Ou seja, vira uma guerra de aço contra carne humana.” (Baseada em suas simulações, a RAND recomendou que a OTAN destinasse aos países bálticos três brigadas fortemente blindadas.)

Shlapak, que tem um cavanhaque grisalho e usa óculos de aro de tartaruga, está na RAND há 34 anos. Perguntei-lhe se a sugestão de Trump de negar apoio à OTAN teria algum impacto fora do contexto da campanha presidencial. A RAND não toma posição nas eleições americanas. Sua resposta foi: “Dissuasão é coisa inerentemente psicológica. É um estado mental que você cria num potencial adversário e que se baseia em dois ou três critérios fundamentais. Um deles é a credibilidade – a certeza de seu adversário de que, se ele fizer o que você o está proibindo de fazer, aquilo de que você busca dissuadi-lo, vai sofrer as consequências de que você o está ameaçando.”

Cogitar relaxar a defesa americana da OTAN sugere que, para parte dos americanos, o antigo comprometimento dos Estados Unidos com a segurança da Europa é, em uma palavra, negociável. “Tivemos setenta anos de paz entre as grandes potências, o mais longo período da história pós-Vestefália”, Shlapak observou. “Acho que um dos motivos pelos quais não pensamos nisso, ou não entendemos o valor dessa paz, é que faz muito tempo que não nos defrontamos com a possibilidade de um conflito desse tipo.”

 

Num cenário mais próximo, as críticas de Trump ao México impulsionaram a ascensão de um candidato presidencial que alguns mexicanos consideram seu próprio Donald Trump: Andrés Manuel López Obrador, um esquerdista feroz que propôs cortar a cooperação de seu país com a inteligência americana. Pesquisas recentes o colocam à frente de vários candidatos. Jorge Guajardo, ex-diplomata mexicano que serviu nos Estados Unidos e na China, advertiu antes das eleições que a intensificação da hostilidade dos políticos americanos vai enfraquecer o compromisso do México na esfera do contraterrorismo. “Depois do 11 de Setembro, essa cooperação disparou”, disse. “Houve casos de terroristas barrados no México. O filho de Muammar Kadafi queria morar no México, mas foi impedido de fazê-lo. Agora, as pessoas estão dizendo: ‘Se os Estados Unidos elegerem Trump, que se danem.’”

Trump sempre se sentiu mais confortável na esfera doméstica, em sua política interna, erigida ao redor da promessa central de construir “um muro impenetrável, físico, alto, poderoso e belo na fronteira sul”. A rigor, não se trata de uma fantasia. Chertoff, que supervisionou a construção de cercas fronteiriças enquanto chefiava o Departamento de Segurança Interna, afirmou que “vai levar muito mais tempo do que ele diz, mas, do ponto de vista logístico, não é impossível”.

A sorte política de Trump se entrelaçou de tal forma à construção desse muro que seus assessores acreditam que não lhe resta outra escolha senão tentar construí-lo. “Ele precisa construir um muro ou uma cerca. E vai ter de fazer isso quase de imediato”, disse Gingrich.

O republicano imaginou uma estrutura de aço e de painéis pré-moldados de concreto de uma altura entre 10 e 15 metros (“Não existe escada que supere isso”), com uma fundação profunda o bastante para prevenir a construção de túneis, um comprimento de 1 600 quilômetros – metade da extensão total da fronteira, porque barreiras físicas vedam o restante – e um custo de, no mínimo, 25 bilhões de dólares. Para o muro ficar pronto, seriam necessários pelo menos quatro anos.

Outros detalhes do plano são mera ilusão. Para forçar o México a pagar pelo muro, Trump pretende confiscar o dinheiro que imigrantes sem documentos enviam para casa e aumentar taxas e tarifas alfandegárias. Contudo, os obstáculos legais e práticos à implantação dessas medidas são imensos, e as autoridades mexicanas prometem não cooperar. (“Não vou pagar por essa merda de muro”, declarou no ano passado o ex-presidente Vicente Fox.) Portanto, Trump necessitaria do Congresso para poder se apropriar do dinheiro, mas acredita-se que os líderes republicanos considerem impensável essa possibilidade. Ainda assim, Gingrich afirmou que tentaria usar o calendário eleitoral para extorquir o apoio de candidatos cuja reeleição estivesse periclitante. “Lembre-se de quantas cadeiras democratas estarão em jogo no Senado nas eleições de 2018”, diz ele. Vinte e cinco. “Você quer mesmo voltar para casa como o sujeito que impediu a construção do muro? Então, faça-me o favor, nós vamos construí-lo, sim, em 2019.”

O cenário mais provável é que, após as negociações, o muro acabe se transformando numa pequena e simbólica extensão da cerca já existente na fronteira, financiada pelo governo federal. Sua construção foi aprovada pelo Senado em 2006, com o apoio de 26 democratas, entre eles a então senadora pelo estado de Nova York, Hillary Clinton.

Desde o princípio, a promessa mais ambiciosa de Trump foi a de que ele expulsaria do país 11,3 milhões de imigrantes sem documentos, fosse mediante deportações em massa ou pressionando-os a ir embora por conta própria. “Eles têm de ir”, disse ele, e previu que conseguiria removê-los em dois anos. Tal medida aumentaria em vinte vezes o número de detenções, que alcançaria, grosso modo, a marca de 15 mil por dia. O então candidato explicou sua ideia endossando um programa de deportação da era Eisenhower que “transferiu toda essa gente bem para o sul, e as pessoas nunca mais voltaram”, conforme afirmou num debate em novembro do ano passado. “Dwight Eisenhower. Mais legal, mais simpático que ele, impossível”, disse ele.

O programa de Eisenhower, a Operação Wetback, teve início em junho de 1954. Chefiado pelo general reformado Joseph M. Swing, ele se valeu de aviões de reconhecimento para localizar pessoas cruzando a fronteira e enviar jipes para interceptá-las. De acordo com Impossible Subjects, um estudo sobre a história da imigração ilegal de autoria de Mae M. Ngai, nos primeiros três meses o programa deteve 170 mil pessoas, algumas das quais foram enviadas de volta para o México em navios de carga. Depois de uma briga numa dessas viagens, uma investigação por parte do Congresso descreveu as condições reinantes nos navios como “as de um navio negreiro do século XVIII” e as de um “inferno penal”. Rotas por terra eram angustiantes; durante uma dessas ações, sob um calor de 49 graus, 88 trabalhadores morreram. E muitos cidadãos americanos foram deportados por engano.

Julie Myers Wood, chefe do Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE) durante o governo George W. Bush, disse-me que ficou horrorizada com certas partes do plano de Trump referente à imigração e alertou críticos a não imaginar que sua implantação seria impossível. Como presidente, Trump poderá autorizar o ICE a ter acesso aos arquivos da Receita Federal, e estes contêm endereços. (Imigrantes sem documentos que pagam impostos em geral informam seu domicílio real, a fim de poder receber o cheque da restituição.) Ele poderá invocar o dispositivo 287(g) da Lei de Imigração e Nacionalidade, a fim de destinar milhares de agentes municipais e estaduais, assim como policiais, ao esforço de deportação. “As pessoas seriam postas em trens”, disse ela. “Repito, não estou recomendando que se faça isso. Nem que fosse num navio de cruzeiros.”

O American Action Forum, um think tank conservador de Washington, traçou projeções orçamentárias para o plano de Trump: batidas em fazendas, restaurantes, fábricas e canteiros de obras demandariam mais de 90 mil “agentes” – número seis vezes maior que o de agentes especiais à disposição do FBI. O número de leitos necessários para os detidos – homens, mulheres e crianças – alcançaria 348 831, quase o triplo do espaço destinado ao confinamento de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Milhares de ônibus (54 lugares em média) e aviões (135 passageiros) alugados levariam os deportados até a fronteira ou a seu país natal. O relatório estimou um custo total de 600 bilhões de dólares, que julgou financeiramente imprudente.

Em agosto, depois de cair nas pesquisas, Trump falou em “suavizar” seu plano para a imigração, mas seus apoiadores não aceitaram e, num discurso no último dia do mês, ele abandonou a falsa moderação e prometeu criar uma “força-tarefa de deportação” para ir além de Eisenhower. “Você não pode entrar ilegalmente no país, sentar e esperar que sua situação seja legalizada”, afirmou. “Isso acabou.” Considerando-se os grupos identificados como prioritários para deportação, seriam no mínimo 5 milhões de pessoas, de acordo com o Washington Post.

Trump também remodelou sua proibição a muçulmanos. Em julho, Khizr Khan, pai de um soldado morto no Iraque, criticou a proposta do candidato, e Trump respondeu zombando da mulher de Khan, Ghazala: “Ela estava apenas parada lá, não tinha nada a dizer. Ela talvez não tivesse permissão para dizer coisa nenhuma.” (Ghazala posteriormente se manifestou com eloquência.) Debaixo de muitas críticas, o candidato propôs, então, “triar aqueles que manifestam atitudes hostis a nosso país ou a nossos princípios  – ou os que acreditam que a Sharia deveria substituir as leis americanas”.

Gingrich solicitou a recriação da Comissão da Câmara para Atividades Não Americanas, estabelecida em 1938 com o propósito de investigar acusações de subversão e deslealdade aos Estados Unidos. “Vamos ter de tomar medidas semelhantes hoje”, afirmou ele à Fox News. “Precisaremos declarar guerra aos que defendem a supremacia islâmica e vamos dizer a eles: ‘Se você jura aliança ao EI, então é um traidor e vai perder sua cidadania.’” A referida comissão não costuma ser elogiada; antes de ser abolida, em 1975, lançou as bases para o confinamento dos nipo-americanos e investigou supostos simpatizantes do comunismo, promovendo uma caça às bruxas. Em 1959, o ex-presidente Harry S. Truman caracterizou-a como “a coisa mais antiamericana que temos no país hoje em dia”.

 

No final das contas, o argumento supremo que Trump apresentou para ser eleito foi o econômico: como presidente, ele se basearia em seu sucesso empresarial: “Vou me cercar dos melhores, das pessoas mais sérias” e conduzir os americanos a uma prosperidade maior. Alguns de seus consultores não contribuíram para emprestar credibilidade a essa promessa. Trump demitiu o coordenador de sua campanha, Corey Lewandowski, que maltratou uma jornalista; depois, forçou a saída de seu estrategista-chefe, Paul Manafort, enfraquecido por alegações de que atuava secretamente como lobista e havia recebido pagamentos em dinheiro de líderes ucranianos. (Manafort negou as acusações.)

Para entender em quem Trump confia para pôr suas políticas em prática, procurei Stephen Miller, seu diretor de política nacional da área e, também, orador inflamado que animava o público antes dos comícios. Miller, de 31 anos, trabalhou para Michele Bachmann (ex-deputada pelo estado de Minnesota e candidata à nomeação republicana em 2012) e, mais tarde, para o senador Jeff Sessions do Alabama, crítico proeminente dos acordos de livre-comércio e da imigração ilegal. O Politico descreveu Miller como “uma figura profundamente perturbadora, até mesmo para muitos de seus correligionários”, em parte por causa de seus escritos da época de colégio e faculdade. Na Universidade Duke, acusou a poeta negra Maya Angelou de “paranoia racial” e definiu certa organização estudantil como um “grupo hispânico radical que acredita em supremacia racial”. Miller recomendou que eu falasse com vários dos assessores de Trump para as áreas de economia e comércio.

Para assessoramento econômico, a campanha convocou Stephen Moore, economista da Fundação Heritage e cofundador do Club for Growth, um grupo lobista conservador. Aos 56 anos, Moore é simpático, despretensioso e, segundo sua própria descrição, “um tanto distraído”. (Durante a campanha de 2000, esqueceu de marcar na agenda um convite para conversar com o candidato George W. Bush, barrando assim seu próprio caminho rumo a um emprego na Casa Branca.) Em 2012, ajudou Herman Cain, ex-CEO da Godfather’s Pizza, a desenvolver o chamado plano “9-9-9”, que reduziria o sistema tributário americano a três categorias, todas com um teto de 9%.

Moore visitou Trump no avião do candidato e, durante uma série de reuniões, ele e outros criaram um plano econômico baseado na pedra angular da chamada economia da oferta (supply-side economics): corte de impostos para estimular as pessoas a trabalhar e os empresários a investir. “Esta é, basicamente, a teoria empregada”, disse Moore. “É a marca registrada dos conservadores desde a época em que Reagan assumiu a Presidência. E essa tem sido a batalha entre esquerda e direita. Os liberais dizem que as alíquotas de imposto não importam” para promover o crescimento. “Nós dizemos que elas importam, sim.”

A equipe de Trump se concentrou, acima de tudo, na redução da alíquota do imposto sobre os negócios. Moore disse ter “recomendado a ele” que esse fosse “seu estímulo à economia”: que fizesse isso “nos cem primeiros dias de governo”. As reações dos economistas variaram. Paul Krugman, de tendência progressista e detentor de um Nobel de Economia, afirmou que o argumento do supply-side era refutado por uma realidade básica: o crescimento do emprego foi maior nos governos de Bill Clinton e Barack Obama do que no de George W. Bush. Moore contra-argumentou que Reagan promoveu esse crescimento com cortes de impostos.

 

A outra metade do pensamento econômico de Trump esteve representada por sua posição de que “estamos nos suicidando com pactos comerciais que não são bons para nós”. Como presidente, ele terá autoridade legal para se retirar da Parceria Transpacífico (TPP),[3] do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), para impor tarifas a produtos chineses e – caso a Organização Mundial do Comércio tenha alguma objeção a suas medidas – para se retirar também da OMC, da mesma forma como Bush se retirou do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM) em 2002.

Contudo, entrevistas com assessores de Trump não deixaram dúvida de que tudo aquilo era uma espécie de teatro – um blefe que, acreditavam, lhes permitiria atingir seus objetivos sem recorrer a tarifas reais. Em 2006, Dan DiMicco, ex-diretor executivo da Nucor Corporation, a maior produtora de aço dos Estados Unidos (que enfrenta competição pesada da China), publicou por conta própria o livro Stealing America’s Future: A CEO’s Call to Arms. Muito antes de a maioria dos republicanos perceber a guinada política contra o livre-comércio, DiMicco escreveu: “Será uma vergonha para nossos governantes se eles se recusarem a nos oferecer um terreno nivelado e justo no qual competir.”

DiMicco, um nova-iorquino direto e de peito largo, se valeu de sua posição na Nucor para propagar seu argumento em entrevistas televisivas, e Trump o contratou. “Tivemos uma discussão sobre a China naquela época, sobre o comércio, as trapaças e todas essas coisas”, disse ele. Membro do conselho consultivo de economia de Trump, ele visitou o então candidato em Nova York e se orgulha de ter lhe oferecido conselhos não convencionais. Para lidar com a China, disse, os Estados Unidos deveriam agir como um paciente agressivo no consultório do dentista: “Como esse paciente lida com o dentista? Ele senta na cadeira, pega o dentista pelos testículos e diz: ‘Se você não me machucar, eu não machuco você.’”

Peter Navarro, assessor sênior de políticas relativas ao comércio e à China, é professor de administração da Universidade da Califórnia em Irvine. Ele não fala chinês nem concorda muito com uma porção de estudiosos tradicionais da China, mas dirigiu documentários, inclusive Death by China, e escreveu livros como The Coming China Wars. Durante uma pausa na Convenção Nacional Republicana, Navarro me disse que defende a necessidade de “equilibrar o déficit comercial”. De acordo com ele, “basta fazer isso, e põe-se em movimento um processo que vai estimular o crescimento, gerar mais emprego e, portanto, aumentar os salários reais, inundando assim os cofres governamentais com o dinheiro dos impostos. A partir daí, é possível pagar a infraestrutura, os benefícios sociais e os gastos com defesa que foram negligenciados”. E ainda acrescentou: “Se nos concentrarmos no déficit comercial, vão acontecer coisas boas. Essa é a filosofia de Donald Trump.”

Antes das eleições, a Economist Intelligence Unit, uma firma de análise econômica e geopolítica, classificou a perspectiva de uma vitória de Trump como um dos dez maiores riscos à economia global. Larry Summers, professor de Harvard e ex-secretário do Tesouro, previu que, juntas, as políticas econômicas e comerciais de Trump ajudariam a deflagrar em dezoito meses uma prolongada recessão. Mesmo que o republicano não venha a aplicar tarifas comerciais, disse Summers, “a percepção de que é bem possível que estejamos seguindo políticas hipernacionalistas seria muito danosa à confiança global e aumentaria bastante o risco de crises financeiras em mercados emergentes”.

Se Trump impuser de fato as tais tarifas, as consequências serão ainda piores. Mark Zandi, um economista de centro que já assessorou republicanos e democratas e é hoje economista-chefe da Moody’s Analytics – uma empresa de pesquisa –, previu que o plano de comércio de Trump poderia dar início a uma guerra comercial que desempregaria cerca de 4 milhões de americanos e custaria 3 milhões de novos postos de trabalho, os quais seriam criados não fosse ele o presidente.

Trump, porém, nem vai precisar tomar alguma dessas medidas para produzir um efeito abrupto na economia. Sua crença no poder da ameaça, que ele utilizou em seus negócios particulares, assume outra dimensão como líder de um país com obrigações da dívida pública a honrar. Em maio, então candidato – cujas empresas já foram à falência quatro vezes –, ele declarou: “Peguei dinheiro emprestado sabendo que se pode pagar de volta com desconto” e “se a economia afundar, pode-se fazer um acordo.” Causou tumulto a ideia de que ele poderia persuadir os credores a aceitar menos do que o pagamento integral da dívida do governo americano. Criticado, ele esclareceu ao Wall Street Journal que os títulos do governo americano “são absolutamente sagrados”, mas o incidente pegou mal na comunidade financeira.

Anthony Karydakis, estrategista-chefe econômico da Miller Tabak, uma administradora de ativos, disse, antes das eleições, que uma vitória de Trump seria vista por todos como “um acontecimento altamente desestabilizador para os mercados financeiros”. E prosseguiu: “Se ele fizer a menor alusão a renegociação de dívida, a nota dos títulos da dívida pública dos Estados Unidos será rebaixada, e o resultado vai ser um êxodo em massa dos investidores estrangeiros do mercado de títulos americanos.” Em 2011, quando a contenda no Congresso retardou a elevação do limite da dívida, o mercado de ações caiu 17%. O acontecimento em pauta aqui teria proporções muito maiores. “As agências de avaliação de risco não poderiam ignorar um comentário dessa natureza”, afirmou Karydakis. “A pedra fundamental do direito a elevar a dívida soberana é a disposição e a capacidade do governo de pagar seu serviço normal e integralmente.” E acrescentou: “Os mercados não têm paciência com a burrice ou a ignorância. Eles se assustam.”

 

Por mais de um ano, Trump estimulou seus apoiadores a considerá-lo “obra inacabada” – “tudo é negociável” –, e a ambiguidade o levou a cruzar as portas do poder. Mas pensar num governo Trump jamais demandou um esforço de imaginação: o candidato vitorioso apresentou com orgulho suas prioridades, suas inspirações históricas, seus instintos sob pressão e seu juízo acerca daqueles que poriam em prática suas ideias. Em Trump: Como Ficar Rico, ele incluiu uma citação de Richard Conniff, autor de História Natural dos Ricos: “Personalidades alfa bem-sucedidas exibem obstinada determinação de impor sua visão ao mundo, uma crença irracional em objetivos nada razoáveis, chegando por vezes às raias da loucura.”

A visão de Trump, mesmo sua “crença irracional em objetivos nada razoáveis”, nunca foi uma incógnita. Nas primeiras décadas deste século, os americanos por vezes atribuíram seus maiores erros a uma falha da imaginação: a incapacidade de imaginar um terrorista numa caverna, capaz de promover um ataque, ou a arrogância de ignorar extensas previsões do Departamento de Estado sobre o que viria da invasão do Iraque.

Trump representa o risco contrário: sua vitória não foi uma falha da imaginação, mas sim um recuo para dentro dela, rumo ao pensamento mágico de que sua Presidência será diferente da campanha que a ensejou.

─

[1] Poucos dias após sua vitória nas eleições presidenciais de 8 de novembro, Trump passou a liderança de sua equipe de transição para Mike Pence, o seu vice-presidente, deixando Chris Christie como o vice-diretor da equipe.

[2] Em 2011, Obama fez questão de reforçar o comprometimento da política externa americana com a Ásia, dizendo que iria aumentar o direcionamento de recursos (políticos, econômicos, e militares) para a região. Mas a leitura da China dessas declarações foi a de que o “pivô para a Ásia” era uma desculpa para conter o seu poder e limitar a sua área de influência.

[3] Em uma declaração de 21 de novembro, Trump reiterou que abandonará a Parceria Transpacífico nos primeiros dias de governo.

Evan Osnos

Evan Osnos é repórter da New Yorker e especialista em política internacional

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