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    Segundo o Ministério da Saúde, 3 097 jovens se mataram no país em 2016. Foram 955 a mais que em 2010. A automutilação está entre os principais alertas emitidos por suicidas em potencial FOTO: HANNAH MCKAY_2018_REUTERS

questões existenciais

Em nome do nada

O suicídio de jovens no Brasil

Mônica Manir | Edição 149, Fevereiro 2019

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“Pior cena da minha vida: ver meu filho pendurado a um palmo do chão.” Valquíria Fernanda Olivato chora. Com a ponta dos dedos, espalha o borrado da maquiagem sob os olhos de feições indígenas, gesto que lhe acentua a expressão de dor. Fazia oito meses que Matheus, então com 21 anos, se enforcara na chácara em que morava com a família. Estava apenas em companhia da avó materna naquela noite. A mãe só tomou conhecimento do suicídio quando amanheceu, porque havia dormido em outra casa, para onde todos se mudariam em breve. Um sobrinho a avisou pessoalmente, sem medir as palavras: “O Matheus se matou.” Olivato passou quatro horas deitada ao lado do filho morto, até que a perícia chegasse. “Tentavam me tirar dali dizendo ‘ele já foi’, mas a gente não aceita.”

Nossa conversa aconteceu em outubro passado, no Shopping Valinhos, as duas sentadas num banco de corredor. Valinhos fica a 91 quilômetros de São Paulo e a 46 de Paulínia, onde a representante comercial de 39 anos mora. Ela rememorou a vida do filho e a semana da perda, alternando o relato com a exibição de fotos guardadas no celular. Nas imagens, Matheus aparece ao lado do irmão pequeno e em dias de festa.

O rapaz, que já terminara um curso técnico em química, estava estudando tecnologia em análise e desenvolvimento de sistemas. Havia conseguido uma bolsa de iniciação científica, que lhe rendia 400 reais por mês, e projetava um software direcionado à indústria. Sonhava arranjar um bom emprego em Paulínia, município-sede de um dos maiores polos petroquímicos da América Latina. “Ele gostava do que fazia, tinha a mesinha dele, o computador dele na faculdade”, contou a mãe.

 

Matheus demonstrava muito apego ao irmão de 6 anos, fruto de outra união da representante comercial. Quatro dias antes de morrer, o jovem levou o caçula à escola e o fotografou entrando na sala de aula. “Olha meu tesouro na 1ª série! Ele está crescendo”, comentou com a mãe. Para a criança, Matheus era “Tato, meu irmão palhaço, maior vacilão”. O menino ainda evita assistir a vídeos no YouTube que contenham palavrões. “O Tato não gostava”, justifica.

Corintiano roxo, o universitário tatuara na perna o símbolo do time, exatamente como fizera o pai, que trabalha numa indústria química e se separou de Olivato há quinze anos. Baixo – media apenas 1,62 metro –, Matheus tinha o corpo bem definido pela prática do CrossFit e exibia outras tatuagens: uma mandala no peito, um leão na lateral esquerda do tórax, a frase “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” no braço e o símbolo do lema hakuna matata  na perna. A expressão em suaíli, idioma falado na África Oriental, quer dizer algo como “não se preocupe” ou “sem problemas” e ganhou popularidade com O Rei Leão, animação da Disney lançada em 1994.

O rapaz costumava recitar um trecho da música que, no filme, explica o significado de hakuna matata: “Os seus problemas você deve esquecer/Isso é viver, é aprender.” Valquíria Olivato olhou para mim como se falasse com o filho: “Você gostava tanto desses versos… Pregou tanto uma coisa e não seguiu… Ficou meio contraditório.”

 

“Parceiraços” não faltavam, segundo a mãe. O jovem se encontrou com um desses amigos na quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018, após entregar um trabalho na faculdade. Eram 22h30 quando a representante comercial ligou: “Filho, está tudo bem?” “Tudo bem, mãe, já cheguei em casa. Comecei a ver um filme na Netflix.” “O.k., filho, fica com Deus.” A “asfixia mecânica” de Matheus – termo técnico usado pelos legistas – ocorreu por volta de 1h50.

Olivato buscou explicação nas mensagens de celular do rapaz. Intrigou-se principalmente com uma troca de WhatsApp entre Matheus e a ex-namorada. O casal, que se relacionara por quatro anos, tinha rompido. Ele queria voltar, mas ela pedia um tempo. Há registro de que os dois conversaram por telefone. Depois da ligação, o jovem mandou um recado: “Eu te amo muito, nunca se esqueça disso. Estou com a corda no pescoço.” A ex respondeu com um “fique bem, também te amo” e digitou o emoji do joinha. “Ela entendeu aquilo no sentido figurado, claro. Não pensou que ele ia fazer o que fez”, me disse Olivato. “Não a culpo de forma alguma. Ninguém compreendeu o que se passou. Matheus não sofria de depressão, que eu saiba. Tinha medo até de injeção, imagine, mas teve coragem para…”

Ela vestia uma camiseta em que se podia ler a frase “Viver continua sendo a melhor opção”. No pescoço, trazia uma gargantilha com um coração amarelo, símbolo do Filhos Eternos, grupo de WhatsApp ao qual se incorporou meses depois da tragédia. Todas as 53 componentes são mães de suicidas. “A coisa está começando cada vez mais cedo, aos 13, 14 anos”, disse Olivato. Os DDDs que antecedem os telefones do grupo se espalham pelo Brasil: 11, 19, 21, 51, 61, 62, 71, 81, 88…

 

A mãe de Matheus também faz parte de outro grupo fechado. Criado em 2014 no Facebook, o Unidas Somos Mais Fortes soma 125 membros. “É doloroso, é polêmico, e muitas pessoas não entendem, e muitas vezes recriminam essas mães! Se você é mãe de um anjo que se foi dessa forma, seja bem-vinda para relatar a sua história e desabafar!”, convida a página. “Quase diariamente entra uma mãezinha que perdeu o filho”, contou a representante comercial, “mas nem todas têm estrutura para continuar lá e acompanhar os relatos.”

 

Uma pesquisa da OMS, a Organização Mundial da Saúde, chegou a um dado alarmante sobre o suicídio no planeta: em 2016, a cada três segundos, alguém tentou se matar e, a cada quarenta segundos, uma dessas pessoas conseguiu. Cerca de 800 mil indivíduos, portanto, colocaram fim à própria existência naquele ano, o que tornou o suicídio a 18ª causa de mortes.

Outro levantamento, agora do Ministério da Saúde, demonstrou que, no mesmo ano, 11 433 pessoas se suicidaram no Brasil. Foram aproximadamente trinta mortes por dia – um aumento de 2,3% em relação a 2015. Trata-se da pesquisa mais recente sobre o assunto. “Por si só, esse crescimento já dá a dimensão cultural e política do problema no país”, afirma a psicóloga social Margareth Arilha, que atua no Núcleo de Estudos de População Elza Berquó, o Nepo, ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ela dedicou a carreira a pesquisas sobre gênero e saúde reprodutiva. Em 2017, porém, abraçou o tema do suicídio por sugestão da própria Elza Salvatori Berquó. A demógrafa de 93 anos, que ajudou a fundar o Nepo, alertava para a necessidade de o núcleo compreender o que está acontecendo com a humanidade a ponto de tantos indivíduos se suicidarem. Fixando os olhos de um azul translúcido em gráficos coloridos no notebook, Arilha me diz: “É trabalho para mais de uma década…”

A psicóloga principiou nossa conversa relembrando a dificuldade que teve para batizar um fórum realizado em agosto, no Centro de Convenções da Unicamp. O evento, que reuniu quase mil interessados e deixou setecentos na lista de espera, acabou por se chamar “Suicídio – Des/compassos da vida: Números, atos e demandas”. “É meio como o aborto. Ambos são temas difíceis, malditos”, comparou. No entanto, superada a rejeição inicial e diferentemente do que costuma ocorrer com a interrupção da gravidez, o suicídio tende a congregar as pessoas. “Muita gente conhece alguém que viveu, vive ou teme viver o problema.”

No mundo, homens se matam mais do que mulheres, talvez pela maior proximidade com armas de fogo. Considerando ambos os sexos, a maioria dos suicidas tem entre 30 e 59 anos. A pesquisa da OMS, contudo, mostrou que, em 2016, o suicídio figurou como a segunda razão mais comum de óbitos entre adolescentes e jovens de 15 a 29 anos (a primeira foram os acidentes de trânsito). Já no Brasil, ainda em 2016, o suicídio se revelou a quarta causa de morte nessa mesma faixa etária, abaixo apenas dos homicídios, dos acidentes e do câncer. À época, 3 097 adolescentes e jovens se mataram no país, de acordo com o Ministério da Saúde. Foram 281 a mais que em 2010 e 955 a mais que em 2000. O drama atinge famílias de todas as etnias e classes sociais. A OMS calcula que, para cada suicídio, de seis a dez pessoas à volta são afetadas psicologicamente.

Em 2014, o Ministério da Saúde determinou a notificação compulsória das tentativas de suicídio às autoridades. E, em 2017, anunciou a meta de reduzir em 10% a mortalidade por suicídio até 2020. Também em 2017, o Senado divulgou uma cartilha de trinta páginas sobre o assunto, a fim de orientar pais, professores e profissionais que se dedicam à defesa de crianças e jovens. A CPI dos Maus-Tratos, instalada para investigar os diferentes tipos de violência sofrida por menores de 18 anos no país, confeccionou o livreto com o auxílio de psicólogos e psiquiatras.

A cartilha está organizada em perguntas e respostas. Entre as dez questões apresentadas, há as que discorrem sobre fatores de risco, em especial os transtornos mentais, como os de humor (depressão e bipolaridade), os de personalidade (a exemplo da paranoia) e os provocados pelo uso de substâncias psicoativas, além da esquizofrenia. De acordo com a publicação, quem tentou se matar uma vez corre o risco de recidiva, “principalmente os mais impulsivos, agressivos, desesperançosos, desesperados ou desamparados”. O livreto também ensina que o suicida em potencial costuma deixar pistas, seja aumentando o consumo de álcool ou outras drogas, seja abandonando atividades habituais e preparando cartas de despedida.

A capa exibe a ilustração de uma jovem indígena, de um estudante negro e de uma mulher branca de meia-idade. Todos estão de costas, sob um ipê amarelo repleto de palavras (diálogo, compreensão, amor, confiança) e equipamentos eletrônicos (celulares, tablets, computadores).

Índios de 14 a 29 anos se encontram, de fato, na lista dos mais vulneráveis ao suicídio no Brasil. A média entre eles, segundo relatório que o Conselho Indigenista Missionário divulgou em setembro, é de um caso a cada três dias. Em 2017, registraram-se 128 óbitos (contra 106 em 2016). A maioria aconteceu no Amazonas e em Mato Grosso do Sul.

Já o aumento do suicídio entre adolescentes e jovens negros foi constatado por um estudo realizado pela Universidade de Brasília e pelo Ministério da Saúde. O levantamento atestou que, de 2012 a 2016, as mortes autoinfligidas cresceram 12% nessa população, passando de 4,88 casos para 5,88 por 100 mil pessoas. Nesse período, o suicídio de brancos da mesma faixa etária ficou estável e girou ao redor de 3,7 casos por 100 mil pessoas. Para os estudiosos, entre os motivos que podem ter levado os negros e os indígenas a se matarem, destacam-se a discriminação racial, a violência física e os maus-tratos a que estão sujeitos.

 

No seu discurso de posse, em janeiro, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Regina Alves, dedicou 1 minuto e 49 segundos de sua fala ao suicídio e à automutilação infantojuvenis. “Pais que não sabem o que fazer, professores que estão desesperados, educadores que não sabem como lidar com a situação, conselheiros tutelares, nós vamos fazer um grande time e levar esperança para nossas crianças”, prometeu.

Três semanas antes, um vídeo com Damares Alves pregando num culto evangélico se espalhou pela internet. Ela relatava que, dos 6 aos 10 anos, sofreu frequentes abusos sexuais por parte de um tio. Certo dia, “com muita dor na alma”, subiu numa goiabeira disposta a tomar veneno e morrer. Em cima da árvore, porém, teve uma revelação e desistiu do intento. “Eu não vi um unicórnio, eu não vi um amigo imaginário, eu vi o que eu acreditava, Jesus!” Diante das críticas e dos memes que o vídeo suscitou, a futura ministra não se mostrou ofendida. “Encham as redes sociais de pés de goiaba porque quero falar sobre isso”, retrucou. Uma campanha nacional de prevenção à automutilação e ao suicídio de crianças e jovens está entre as 35 medidas prioritárias que o presidente Jair Bolsonaro estabeleceu para os primeiros cem dias de seu governo.

Em 2017, o número de adolescentes britânicos que se mataram subiu 67% em relação a 2010. Quando informada desse índice tão preocupante, a premiê Theresa May tomou providências. Durante a Cúpula Global Ministerial de Saúde Mental, que ocorreu em Londres há quatro meses e atraiu representantes de mais de cinquenta países, ela nomeou a economista conservadora Jackie Doyle-Price como ministra de Prevenção do Suicídio. A nova pasta vai contar com um orçamento anual de 1,8 milhão de libras – ou cerca de 9 milhões de reais. Terá a missão de manter na ativa o Samaritanos, serviço fundado em 1953 pelo sacerdote anglicano Edward Chad Varah para ouvir as dores de quaisquer pessoas por telefone, sem julgá-las. O governo do Reino Unido também prometeu um investimento maior tanto em programas relacionados à saúde psíquica de estudantes quanto em propostas que combatam o estigma ainda associado aos portadores de transtornos psicológicos. São eles os que mais buscam no suicídio a saída para seu sofrimento.

 

O poeta e juiz Régis Bonvicino concorda com a necessidade de a população e os governantes acolherem os que sofrem de doenças mentais para evitar que tirem a própria vida. “Deveríamos incluí-los entre as minorias, pois hoje padecem o mesmo que os LGBT, por exemplo”, defendeu, a caminho de uma lanchonete no bairro paulistano de Higienópolis. “Se você não consegue salvar seu filho, precisa salvar o dos outros”, disse, em tom assertivo. Sua filha Bruna morreu no último dia 19 de outubro, após se jogar do apartamento da avó, na serra da Cantareira, Zona Norte de São Paulo. Ela conseguiu quebrar a tranca da porta de acesso à varanda, que estava ali exatamente para contê-la, e ainda se desvencilhou da avó antes de saltar do 13º andar. Tinha 25 anos.

Desde os 14, fazia terapia. Era uma adolescente intempestiva, que não desgrudava da mãe. Na época, o psicólogo que cuidava da garota, chamado por Bonvicino de Dr. A, atribuía o comportamento à falta de limites. Ou melhor: a falhas na educação de Bruna. Em 2010, com 17 anos e às vésperas de prestar vestibular, a jovem mergulhou numa aguda depressão. O Dr. B a diagnosticou como portadora de transtorno bipolar – distúrbio cerebral que se caracteriza principalmente pela alternância de episódios depressivos e eufóricos, às vezes intercalados por períodos assintomáticos. Pouco mais tarde, o Dr. C concluiu que, além da bipolaridade, Bruna manifestava transtorno de personalidade limítrofe, também conhecido como síndrome de borderline. A doença leva o paciente a agir de maneira bastante impulsiva: irrita-se com facilidade, não consegue frear a raiva e gasta dinheiro descontroladamente.

Psiquiatras e psicanalistas se sucederam na trajetória da moça – os drs. D, E, F –, mas nenhum pôde evitar duas tentativas de suicídio, que a levaram à UTI. A primeira se deu em 2014, quando Bruna associou bebida alcoólica a uns sessenta comprimidos de ansiolíticos, antipsicóticos e estabilizadores de humor. A segunda aconteceu quase quatro anos depois, em fevereiro de 2018, no apartamento que ela dividia com os pais. Enquanto a mãe levava o cachorro para passear, a jovem ingeriu um coquetel de cinquenta antidepressivos e antipsicóticos.

“Minha filha se cansou de tomar tantos remédios. Ficava dopada e, por causa dos efeitos colaterais das drogas, engordou 20 quilos, o que a infelicitou ainda mais, porque era linda e vaidosa”, recordou Bonvicino. “Ela não suportava os ‘doutores impressora’, que prescreviam uma receita atrás da outra sem ouvir o que tinha a dizer.” Colocando a mão atrás da orelha, como se a ampliasse, o poeta aproximou seu rosto do meu e enfatizou: “Falta escuta.”

Em 18 de outubro, Bruna surtou de novo e se mostrou perigosamente agressiva, sobretudo em relação à mãe. Apavorados, os pais e a vizinhança pediram socorro à Polícia Militar. “Os policiais a acalmaram. Foram muito humanos”, disse Bonvicino. Ele e a mulher sugeriram que a filha telefonasse para o Dr. G, psiquiatra que a atendia na ocasião. Nas palavras de Bruna, o médico a dispensou, alegando “não ser especialista em tratamento de famílias violentas”. O poeta contou que todos ficaram chocados, inclusive a jovem, e concluíram que seria melhor ela dormir na casa da avó. De manhã, Bruna iria para um spa em Sorocaba (SP), onde já havia passado duas semanas. Às 8h30 do dia 19, porém, o poeta e a mulher receberam a notícia devastadora.

“Há um despreparo e um descompromisso enormes desses profissionais do sistema privado, que, além de tudo, pouco conversam entre si”, voltou à carga Bonvicino, pai de outros três filhos. “Muitos cobram uma fortuna e saem à francesa de casos difíceis, enquanto as famílias se veem exaustas e à deriva.” Ele criou um grupo no WhatsApp batizado de Psicofobia, termo que designa o preconceito contra portadores de transtornos e deficiências mentais. Ali, os 169 membros trocam informações sobre tratamentos, refletem a respeito da sociedade e noticiam novos casos de suicídio, não raro envolvendo estudantes. Faltavam três disciplinas para Bruna se formar em história na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Indagado sobre o preparo dos médicos para cuidar dos transtornos que podem conduzir ao suicídio, o diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, respondeu via e-mail que, durante sua formação, o psiquiatra aprende a identificar e tratar as diferentes doenças mentais. “Sendo assim, é o profissional mais adequado para ajudar o paciente em emergências médicas desse tipo, junto de uma equipe multidisciplinar que inclui assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e demais profissionais da saúde.”

Ele afirmou que a associação sempre discute o suicídio em seus eventos científicos, “frequentemente apresentados por especialistas renomados no assunto”. Destacou ainda que o Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado desde 1970, dedica muitas de suas trezentas horas ao tema. No rodapé do e-mail que me enviou, consta uma frase em maiúsculas: “PSICOFOBIA É UM CRIME!” Logo abaixo, há um convite: “Entre nesta campanha da ABP contra o estigma, coloque a frase acima em sua assinatura.”

“Precisamos impedir que a psiquiatria sequestre o suicídio”, defende Margareth Arilha. Para a psicóloga social do Nepo, estamos diante de uma epidemia que requer abordagens multifacetadas e não apenas médicas ou paramédicas. Antropólogos, sociólogos, artistas e comunicadores também deveriam se debruçar sobre a questão. “Em todos os estados do Brasil, temos registros de pessoas que se matam. Um fenômeno de tal proporção exige cuidados especiais.”

 

Em 1897, o sociólogo francês Émile Durkheim publicou O Suicídio, que se tornou um clássico. Com base em estatísticas da época, o livro classifica o ato em três categorias: o suicídio egoísta, que atinge aqueles menos ajustados ao meio familiar, religioso ou político; o suicídio altruísta, praticado em sociedades exageradamente integradas, que justificam o sacrifício de um indivíduo pelo grupo; e o suicídio anômico, fruto da desorganização dos mecanismos sociais que poderiam garantir a satisfação de necessidades básicas. Em 1930, outro sociólogo francês, Maurice Halbwachs, discípulo de Durkheim, definiu um ponto em comum entre todos os tipos de suicídios: a solidão irremediável.

No consultório paulistano da terapeuta familiar Adriana Ayres, a solidão é, de fato, uma questão recorrente. “Minha prática clínica mostra que muitos jovens não sabem estar com o outro, compartilhar emoções, e não parecem viver o presente. Se vão a um show, por exemplo, não se preocupam em falar com quem os acompanhou ou em apreciar os artistas. Querem somente mandar uma porção de selfies para pessoas que não se encontram ali. Postam as imagens e ficam no aguardo de curtidas vindas de outro lugar. Essa dificuldade de interagir com o real acaba gerando solidão, e solidão dói.”

Não raro, pacientes chegam ao consultório com agasalhos de manga longa em pleno verão para esconder os cortes que fizeram nos braços. O cutting ou automutilação já afeta cerca de 20% dos jovens no mundo, conforme a Mental Health Foundation, uma organização filantrópica britânica. Não à toa, a CPI dos Maus-Tratos também lançou uma cartilha para prevenir o problema, nos moldes do livreto sobre o suicídio. Ferindo-se, rapazes e moças esquecem momentaneamente a dor psíquica e se concentram na física. “Por incrível que pareça, isso traz certo alívio”, explica Ayres. O cutting costuma figurar entre os sinais de alerta emitidos por suicidas em potencial.

Professora da Universidade Federal do ABC, a socióloga Roberta Guimarães Peres lembra que os jovens de hoje nasceram quando já havia internet, o que lhes dá grande desenvoltura para a comunicação virtual, mas, como apontou Adriana Ayres, pode deixá-los menos preparados para lidar com as interações face a face e com a realidade de um modo geral. “Daí a dificuldade que noto em meus alunos de enfrentarem cobranças, desafios e frustrações.” Daí também o rótulo de “geração floco de neve” ou snow-flake generation – termo que, em 2016, o dicionário Collins incluiu entre as expressões mais significativas do ano. Os “flocos de neve” seriam os jovens da segunda década deste século, que se revelam menos resilientes e mais propensos a se melindrar do que os de gerações anteriores.

“Não gosto desse conceito. É ofensivo e redutor, porque passa a ideia de que tais jovens são fracos. Eles não são fracos, ainda que tenham vulnerabilidades”, argumenta a professora. Ela afirma que pânico, ansiedade e depressão fazem parte do vocabulário cotidiano de seus alunos.

A youtuber Bryanna Nasck – paulistana de 24 anos que, em seu canal, fala justamente de depressão, além do mundo LGBTI (o ‘i” é de intersexual) – se cortava na adolescência. “Foi o modo queachei de trocar a dor descomunal que eu sentia por uma dor isolada.” Atribui seu sofrimento ao bullying que sofria na escola. À época, ainda se chamava Hugo, mas não se identificava totalmente nem com homens, nem com mulheres. “Hoje me considero uma pessoa não binária, embora me encontre mais voltada para o espectro da feminilidade”, esclarece, ajeitando os longos cabelos de muitas cores – preto, rosa, laranja, vermelho. A tentativa de suicídio aos 16 anos, quando cortou a veia braquial, no braço, a levou a um leito hospitalar. Conseguiu sair do buraco graças ao apoio de familiares e dos amigos, e com a ajuda de um psicólogo. Episódios de depressão, no entanto, continuam a assombrá-la.

Nasck diz receber com frequência, pelas redes sociais, testemunhos de jovens e até de crianças desesperados por viverem em famílias que rejeitam a orientação sexual deles. Se antes vinham mensagens de texto, agora vêm principalmente áudios. “Procuro dar carinho, conforto e compreensão a esse pessoal.”

Uma pesquisa da Universidade Columbia, feita em 2011 com quase 32 mil adolescentes de escolas públicas do Oregon, nos Estados Unidos, mostrou que a probabilidade de um homossexual cometer suicídio é cinco vezes maior que a de um heterossexual. A taxa cai 20% quando os colégios propõem políticas contra o bullying e a discriminação. O estudo foi publicado na revista científica Pediatrics.

Em O Demônio do Meio-Dia, livro sobre depressão que o jornal britânico The Times pôs na lista dos cem mais importantes da primeira década do século XXI, o nova-iorquino Andrew Solomon retrata a doença que começou a devastá-lo três anos após a morte de sua mãe e o fim de um relacionamento amoroso. O escritor e professor de psicologia clínica no Centro Médico da Universidade Columbia compara a enfermidade com uma trepadeira que se enreda num carvalho e quase o sufoca. “Foi um negócio sugador, que tomou conta de tudo à minha volta, feio e mais vivo do que eu. Com vida própria, pouco a pouco asfixiou toda a minha existência.”

No livro, Solomon associa “essa coisa” que o drenava, mas que ninguém parecia ver, a diferentes culturas e reflete sobre as implicações históricas, sociais, médicas, biológicas e químicas da doença. Tempos depois de publicar a obra, escreveu textos avulsos a respeito do suicídio, compilados recentemente numa edição exclusiva para o Brasil, sob o título Um Crime da Solidão.

Em entrevista por telefone, ele condenou a pressão exorbitante por desempenho a que os jovens de hoje estão sujeitos e alertou sobre o quanto isso os prejudica emocionalmente. “Eu me preocupo muito com meus filhos nesse sentido. Deixo que brinquem, que disponham de tempo livre para a arte, que contemplem o mundo, que não se isolem.” Homossexual, Solomon é casado e tem quatro filhos, dois biológicos e dois de seu companheiro, com idades entre 6 e 15 anos.

Na coletânea, o professor mostra que os índices de depressão em adolescentes vêm subindo desde 2011 nos Estados Unidos. A situação dos jovens adultos tampouco parece melhor. Muitos entram no mercado de trabalho já endividados por causa dos empréstimos contraídos para bancar os estudos e se deparam com um futuro bastante incerto. “Em virtude da automação, diversos empregos se tornaram terrivelmente instáveis”, afirmou Solomon.

 

Mais identificado com a escuta por telefone, o Centro de Valorização da Vida, o CVV, hoje vai aonde é chamado. “Os pedidos para falar de suicídio aumentaram consideravelmente”, diz Sérgio Antonio Batista. Voluntário do serviço há dezoito anos, ele dá palestras sobre o problema em universidades e hospitais, além de treinar professores dos ensinos fundamental e médio para rodas de conversa com alunos acerca do assunto. Inspirado no Samaritanos do Reino Unido, o CVV surgiu em 1962 numa casa do Bixiga, bairro tradicional de São Paulo. É uma associação civil sem fins lucrativos nem vínculos com religiões, partidos ou governos. Atualmente possui 106 unidades, espalhadas por todo o Brasil. A mais nova fica em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde se deu a tragédia da Boate Kiss. Em 2013, a casa noturna pegou fogo e 242 pessoas morreram asfixiadas pela fumaça espessa que tomou conta do lugar.

O CVV se mantém graças a doações, em especial de seus 2 700 voluntários. Eles se encarregam de ouvir as inquietações dos que ligam gratuitamente para o número 188, mandam e-mails ou acessam o chat do serviço. Em 2018, foram 2,5 milhões de atendimentos. Em 2017, 2 milhões e, em 2016, 1 milhão. Os turnos de cada voluntário duram quatro horas, com mais trinta minutos “de segurança”, a fim de evitar cortes abruptos no contato.

Sérgio Batista reconhece que o CVV não serve de fonte para estatísticas sobre o suicídio, em razão da confidencialidade que norteia o serviço. “Não perguntamos nada a ninguém – nome, sexo, idade, profissão, nada, nada. Respeitamos o momento e o ritmo de quem nos procura”, explica Batista. Certa ocasião, depois de se apresentar por telefone, ele passou noventa minutos praticamente em silêncio com uma pessoa. “Eu escutava apenas o choro dela e as mudanças na respiração.”

Em 2015, o CVV se juntou com a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina para lançar o Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio. A campanha sensibilizou o Metrô de São Paulo, que autorizou os voluntários do serviço a dar plantão nas estações Sé e Santo Amaro. Eles começaram o trabalho em setembro do ano passado e devem encerrá-lo neste mês. A equipe nunca aborda os eventuais interessados. Prefere aguardar que tomem a iniciativa. Caso a pessoa deseje conversar em privado, é encaminhada para uma das salas existentes nas estações, cujas portas ficam entreabertas ao longo do atendimento.

Responsável por transportar diariamente 4 milhões de usuários, a Companhia do Metropolitano de São Paulo costuma enfrentar interrupções no sistema devido a tentativas de suicídio nas linhas, mas não divulga informações a respeito. Limita-se a afirmar que iniciou um processo de licitação para adquirir 88 novas portas de vidro. Instaladas à beira das plataformas, abrem-se automaticamente apenas quando os trens chegam, impedindo que alguém se jogue nos trilhos. Das 79 estações que compõem a rede metroviária paulistana, 21 já possuem tais portas. A meta é que outras 36 recebam o equipamento.

Ao não divulgar dados sobre suicídio, o metrô segue recomendações da Organização Mundial de Saúde, que desaconselha menções simplistas ou sensacionalistas ao gesto extremo, sobretudo quando há celebridades envolvidas, a fim de evitar o chamado “Efeito Werther”. A expressão alude ao romance epistolar Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1774 na Alemanha. Marco do movimento romântico, o livro provocou uma onda de suicídios pelo mundo, à medida que ia sendo traduzido. Goethe tinha 25 anos quando escreveu a história do amor impossível de um rapaz por uma mulher comprometida. Devorado pela paixão não consumada, o jovem se mata com um tiro de pistola na cabeça. O autor concebeu a trama sob influência de seus próprios sentimentos por Charlotte Buff, que era casada.

Muitos leitores passaram a se vestir como o protagonista, com calças amarelas e jaquetas azuis. Os mais radicais resolveram imitar seu ato de desespero. Um sueco atirou em si mesmo enquanto mantinha o livro de Goethe aberto a seu lado, um sapateiro se jogou pela janela carregando um exemplar de Werther no colete, e uma moça, abandonada pelo amado, afogou-se com o romance no bolso.

Em 1775, o escritor inseriu na segunda versão da obra uma quadra de advertência que terminava assim: “Seja homem e não me siga.” Isso não impediu que proibissem o livro em algumas regiões nem que professores e pastores acusassem Goethe de equiparar a “infâmia” a um ato de heroísmo. Quando um bispo tachou o romance de “completamente imoral e abominável”, o autor lhe fez uma pergunta sarcástica: se o prelado falava nesse tom do pobre personagem, como deveria tratar os poderosos que remetiam milhões à guerra sem peso na consciência e com a bênção da Igreja?

O Efeito Werther se repetiu em outros momentos. O número de indivíduos que se mataram nos Estados Unidos subiu 12% durante o mês seguinte à morte de Marilyn Monroe. A atriz perdeu a vida em agosto de 1962, aos 36 anos, vítima de overdose de barbitúricos. Mais recentemente, a morte do ator Robin Williams por enforcamento, em agosto de 2014, aos 63 anos, também coincidiu com o crescimento de suicídios, segundo pesquisa divulgada pela revista científica PLOS ONE. Estatísticos projetavam que 16 849 americanos se matariam entre agosto e dezembro daquele ano, mas o número acabou sendo 10% maior.

Temendo o Efeito Werther, cinco pesquisadores dos Estados Unidos que analisam o impacto da tecnologia na saúde pública acompanharam de perto a série 13 Reasons Why, da Netflix. Baseada no romance homônimo de Jay Asher, a trama gira em torno de uma estudante de 17 anos, que, antes de se suicidar, grava treze fitas cassetes para treze pessoas que julga responsáveis por conduzi-la à decisão radical. A cena em que a protagonista corta os pulsos dura três minutos e é bem explícita. A primeira temporada do programa estreou em 2017. A segunda, em 2018, e a terceira está prevista para este ano.

De acordo com os pesquisadores, três semanas após o lançamento da primeira temporada, aumentaram as pesquisas em inglês no Google que incluíam a palavra “suicídio”. Também houve maior procura por informações do tipo “como se matar”. Elevaram-se, ainda, as buscas por serviços de saúde pública que tratam do problema. O estudo – veiculado em 2017 no JAMA Internal Medicine, jornal mensal da Associação Médica Americana – concluiu que a série aguçou a consciência do público sobre o assunto. “Não está claro, porém, se as consultas na internet precederam tentativas reais de suicídio”, disseram os pesquisadores.

 

No segundo sábado de cada mês, uma das unidades do CVV em São Paulo, a de Pinheiros, recebe pais, filhos e cônjuges de suicidas. Eles acorrem às reuniões na esperança de lidar melhor com a culpa e o caos trazidos pela perda brutal. “Acaba o sofrimento de quem se mata e começa o de quem fica”, diz a psicóloga paulistana Karina Okajima Fukumitsu, de 48 anos. Por mais de quinze vezes, a mãe dela, Yooko, investiu contra a própria vida. Ora misturava remédios com álcool, ora tentava se enforcar. Uma ocasião, chegou a atear fogo às roupas. Tudo em virtude de uma depressão severa que a tragou após a morte de um irmão no incêndio do Edifício Joelma, em fevereiro de 1974, no Centro de São Paulo. Os episódios depressivos se sucederam ao longo de três décadas, às vezes de maneira intensa, às vezes de modo mais brando.

A partir de 2004, por diferentes motivos, incluindo o acerto nas medicações, Yooko recuperou o prazer de viver e nunca mais quis se suicidar. Morreu em 2013, aos 68 anos, de edema pulmonar e hipertrofia do miocárdio. Não por acaso, Fukumitsu centrou seu pós-doutorado “nos que ficam”. Dele resultou o livro Suicídio e Luto: Histórias de Filhos Sobreviventes. Hoje a psicóloga se define como “suicidologista” e dá palestras e workshops no Brasil inteiro. Em seu consultório, atende aos pacientes sempre descalça para cumprir uma promessa que fez em 2014, depois que uma inflamação cerebral autoimune lhe tirou momentaneamente todos os movimentos, até os mais corriqueiros, como erguer um copo. “Prometi que ficaria descalça em ‘solo sagrado’ – os meus locais de trabalho – se conseguisse novamente sair da cama sem perder o equilíbrio ao colocar os pés no chão.”

De uma estante, a sansei vai tirando livros e mais livros para mostrar de onde extrai suas referências. “Qualquer processo autodestrutivo é um ato de comunicação, que decorre de alguma desarmonia nos relacionamentos”, explica. A pessoa se envolve em relações malsucedidas e se decepciona com o outro, vai definhando existencialmente e não sabe mais discriminar o que é da relação e o que tem a ver consigo mesma. “O suicídio seria o ápice desse processo.”

Em 2018, a psicóloga assessorou professores e orientadores educacionais do Colégio Bandeirantes, um dos mais renomados de São Paulo, depois que dois alunos do ensino médio se mataram em abril daquele ano. Além de ouvir as angústias do corpo docente, Fukumitsu deu palestras para pais de estudantes e para os próprios adolescentes. “O Bandeirantes foi pioneiro. Inspiradas nele, outras escolas do país – que haviam se deparado ou não com episódios de suicídio – se encorajaram a discutir o tema.” A psicóloga costuma aconselhar os enlutados a não buscar os motivos que levaram os suicidas à morte. “As razões nunca são claras. Não sabemos da missa a metade.”

No ensaio Le Treizieme Cesar [O Décimo Terceiro César], de 1970, o francês Henry de Montherlant escreveu: “Quando pretendo explicar as razões de um suicídio qualquer, tenho sempre a impressão de estar cometendo um sacrilégio.” Para o autor, não há nada mais misterioso do que as motivações de um suicida. Ele, que jamais assumiu a homossexualidade, se matou em 1972, aos 77 anos. Tomou cianureto e, em seguida, deu um tiro na boca.

 

Após a morte do filho, Valquíria Olivato se enterrou no sofá de casa e deixou de comer e beber. Até o dia em que uma amiga lhe disse que Matheus tinha enviado uma carta, psicografada pelo médium Hamilton Júnior. Espírita, a representante comercial se sentiu reconfortada quando leu que o filho pedia desculpas:

“Minha mãe querida, é com muita emoção que tento falar ao seu coração, procurando as palavras certas, envergonhado pelo que fiz. Porém, mãezinha, sabendo que serei acolhido mais uma vez pelos seus braços de amor, pois o amor de mãe vai muito além do que a gente pode imaginar. Só aqui, mãe, eu pude entender o que é esse amor, pois ouvia as suas preces quando pedia a Maria de Nazaré que me resgatasse do Vale dos Suicidas. […] Eu sofria todos os dias, mas, graças a Deus, eu estou procurando melhorar. Perdoa, mãe, o que eu fiz. Eu estraguei a minha vida, eu tinha tudo para ser feliz, uma mãe maravilhosa, condições para seguir em frente, e joguei tudo isso no lixo. […] Eu não sei o que me deu na cabeça, eu surtei, mas eu te amo muito, nunca se esqueça disso. […] Peço a vocês que me escutam, jovens principalmente, que conversem com a mãe de vocês, abram o coração, não deixem para amanhã, esperando que esse sofrimento que aperta a alma passe. […] Fique firme, mãe, não chore por mim. Do teu eterno filho, do teu menino arteiro, que para sempre estará no teu coração, com amor e saudade.”

Já Leandra Aparecida Zonzini Salvador ainda se sente desamparada com a morte de Guilherme, o Gui Casmurro, como gosta de chamá-lo. Professora de prática penal em Engenheiro Coelho, no interior de São Paulo, ela conta que o filho recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar aos 16 anos. “O Gui nunca aceitou a doença. Achava injusto tomar tanto remédio, sentia que perdia muito da capacidade intelectual.” O rapaz chegou a entrar em odontologia na Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais, mas logo desistiu do curso porque não conseguia ficar longe de casa. Vivia trancado. Em 2015, quando tinha 19 anos, pôs fogo num amontoado de carvão no banheiro, vedou as entradas de ar com um tapete e morreu intoxicado pela fumaça. Leandra Salvador administra no Facebook o grupo Mães que Vivem o Luto do Suicídio, com mais de trezentas mulheres, e não se cansa de perguntar: “Por que um filho abandona a gente assim?”

Como notou o francês George Minois, autor do livro História do Suicídio, o ato de se matar “horroriza, ao mesmo tempo que continua sendo a solução definitiva ao alcance de todos, que nenhuma lei, nenhum poder no mundo consegue proibir”. Mas talvez consiga prevenir. O poeta Régis Bonvicino, cuja mãe também se matou, não se dá por vencido: “Melhor o inútil do falar que o inútil do não falar.”

Mônica Manir
Mônica Manir

É jornalista. Publicou os livros Por um ponto final (Com-Arte) e Diário de uma fadiga (Cancioneiro).

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