CRÉDITO: TOM GAULD_2020
Construindo escritores
Como as oficinas literárias ensinam a compreender o outro
Reginaldo Pujol Filho | Edição 194, Novembro 2022
Já faz vinte anos daquela noite: em uma agência de publicidade de Porto Alegre, redatores e jornalistas sentaram-se ao redor de uma mesa de reuniões. Na cabeceira, estava a pessoa que fazia com que aquele encontro não fosse um evento de trabalho, mas uma aula: o escritor e professor Charles Kiefer abria os trabalhos de uma oficina de contos.
Dias antes, um amigo da faculdade havia me ligado, dizendo: “Lembro que tu escrevia umas histórias e mandava por e-mail. Não quer entrar numa oficina de contos?” A oficina era organizada por redatores da agência e, para completar o número de participantes, estavam convidando gente de fora.
Aos 22 anos, eu não fazia ideia do que era uma oficina de contos. Aliás, como todos os colegas, fazia pouca ideia de quase tudo em matéria de literatura. Fã de Luis Fernando Verissimo, eu achava que escrevia crônicas, não contos. Da numerosa obra de Kiefer, eu havia lido apenas Quem Faz Gemer a Terra, novela de 1991 que causou certa polêmica ao adotar o ponto de vista de um agricultor sem-terra que degola um policial militar (em referência a um episódio verídico ocorrido em Porto Alegre). Mas aceitei o convite.
Com a barba já branca, apesar dos 44 anos, Kiefer anunciou que o primeiro módulo da oficina duraria um semestre. Para mim durou quase dez anos.
Na aula inaugural falamos de nossas leituras e fizemos um exercício de escrita coletiva (cada um escreveu um trecho e passou adiante para o próximo continuar o texto). Em poucos meses, o grupo de alunos se modificou a ponto de não restar nenhum empregado da agência, e acabamos nos mudando de lá para uma livraria-café, que logo faliu. Fomos para um espaço de salas de aula, que fechou em pouco tempo. Chegamos, enfim, à livraria Palavraria, onde segui com Kiefer até 2011. A Palavraria sobreviveu à oficina, mas infelizmente fechou em 2016.
Oficina de contos ou literária, work-shop de narrativa ou de literatura, curso de escrita criativa – os nomes variam e, até hoje, ao dizer que dou oficinas de escrita criativa, o mais comum é não entenderem o que faço. Se estou sem paciência, digo que dou aula de literatura. O que não é mentira.
É difícil saber quando surgiu a ideia de estudar técnica literária. Há certo consenso de que ela se consolidou nos Estados Unidos, no final do século XIX, quando também se desenhou o formato atual dos cursos, com um professor-escritor transmitindo seu conhecimento sobre técnicas de escrita e debatendo com os alunos os seus textos. Em 1939, a Universidade de Iowa oficializou o primeiro programa específico de escrita criativa em nível universitário, o Workshop de Escritores de Iowa. O modelo se espalhou pelos Estados Unidos e países de língua inglesa, iniciando uma tradição universitária com graduações, mestrados e doutorados.
“Escrita criativa? Então tem escrita não criativa?” Quem estuda ou dá aulas sobre o tema já ouviu a pergunta implicante. No livro Creative Writing and the New Humanities (Escrita criativa e as novas humanidades), o professor australiano Paul Dawson recorda que só em meados do século XIX a palavra literature consolidou-se no inglês como sinônimo de criações artísticas na forma de textos. Até então, o termo era poetry, que já não atendia aos novos gêneros narrativos, em especial ao romance. Segundo Dawson, na época outras expressões ombreavam com literature, como imaginative writing (escrita imaginativa) e creative writing, que “passou a funcionar como sinônimo para literatura”. Ou seja, por algumas décadas, antes de se consolidar como área de estudos e ensino, escrita criativa tinha o mesmo sentido que damos à literatura hoje.
Nada disso eu sabia em 2005 ao entrar no Bar Opinião em Porto Alegre e ver dezenas de pessoas sentadas em mesinhas ou encostadas no balcão autografando livros. Era o lançamento da antologia 101 que Contam, que reunia contos de 101 alunos e ex-alunos de Charles Kiefer, entre eles eu. Mais de mil livros foram vendidos no evento (menos de dez por autor, feitas as contas), para alegria do editor e dos egos dos estreantes. Até aquela época, encerrar uma oficina com a publicação de uma antologia era quase obrigação, espécie de trabalho de conclusão de curso. Hoje, parece já não ser tão usual.
Mesmo porque a expressão “escrita criativa” é usada no Brasil para nomear desde cursos para “melhorar a comunicação escrita” no trabalho até uma área acadêmica presente em universidades brasileiras e em países como Estados Unidos, Colômbia e França. Talvez a sua tradução mais conhecida por aqui sejam as oficinas ministradas por escritores, que visam a estimular o contato com a literatura e as ferramentas da escrita.
O escritor e professor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, que mantém a oficina mais longeva do país, diz no artigo A Escrita Criativa e a Universidade que o escritor mineiro Cyro dos Anjos (1906-94) teria aberto o caminho para as oficinas no país. Cyro havia publicado em 1954 o livro A Criação Literária e, em 1962, o antropólogo Darcy Ribeiro, então reitor da recém-inaugurada Universidade de Brasília, convidou-o para montar uma oficina nos moldes das que havia nos Estados Unidos. Em entrevista a Afonso Fávero, em 1987, o escritor contou como era o curso: “Os alunos davam o texto, e eu discutia com eles, […] era mais uma conversação do que uma aula.” Assis cita ainda outros autores pioneiros, como Judith Grossmann, Silviano Santiago, Affonso Romano de Sant’Anna, Maria da Graça Cretton, Esdras do Nascimento, Suzana Vargas e Raimundo Carrero, que ministra sua oficina no Recife desde os anos 1980 e inaugurou em 2016 um centro cultural com o seu nome para abrigar as aulas, entre outras atividades.
Assis é autor de dezoito romances – alguns premiados e lançados no exterior – e em 2019 lançou Escrever Ficção, um best-seller instantâneo. Também tem uma passagem na política: de 2011 a 2014 foi secretário da Cultura do Rio Grande do Sul na gestão de Tarso Genro (PT). A oficina que ele conduz na PUC do Rio Grande do Sul desde 1985 pode ser vista como a primeira de suas muitas iniciativas para incluir a escrita criativa no programa da universidade. Em 1987, por exemplo, como sua tese de doutorado em letras na PUCRS, ele apresentou a criação de um romance, Cães da Província. Em 2008, ele e Kiefer inauguraram, na Faculdade de Letras da PUC, o Sarau dos Novos, levando alunos de oficinas literárias para lerem seus textos na academia e responderem perguntas.
Foi nesse sarau que conheci Assis pessoalmente. Eu havia acabado de lançar meu primeiro livro e fui o convidado da sessão inaugural. Com meu espírito ingênuo e iconoclasta de estreante, além de uma dose de preconceito vazio a respeito da academia, li um conto escrachado, debochado e desbocado, achando que ia chocar a plateia. Óbvio que isso não aconteceu. Mas Assis, com a gentileza que o distingue, sugeriu que eu lesse outro conto, mais irônico, menos histriônico. Nunca perguntei a ele o motivo da sugestão, mas penso que, sendo aquele o primeiro sarau para reforçar a importância da escrita criativa na universidade, o professor quis evitar que se rotulasse logo de cara a produção das oficinas literárias.
Não cheguei a frequentar a “oficina do Assis”, como é mais conhecida, mas fui seu aluno em 2013, no mestrado em escrita criativa da PUC, lançado no ano anterior, junto com o doutorado. Na primeira aula da disciplina projetos de romance, a turma era o avesso dos meus primeiros colegas de oficina literária. Ali, a maioria tinha livro publicado e desejava seguir um percurso na literatura.
“O que vamos ter aqui é resultado da minha experiência de mais de trinta anos escrevendo romances”, disse Assis, dando início às aulas. Com seu inconfundível cavanhaque, vestindo blazer com lenços coloridos ou estampados na lapela, ele prefere não ensinar regras, mas trazer a experiência do escritor, leitor e professor. Impressiona sua capacidade de mergulhar nas mais diferentes propostas literárias dos alunos. Dono de uma ironia finíssima e fala calma, dizia frases como: “Há palavras que não se pode repetir num parágrafo. Outras, em um livro. E algumas, na vida.” Ao longo do semestre, além de estudarmos as obras de vários escritores, nós estruturamos nossos romances, com a orientação dele.
Em 2016, a PUC lançou em Porto Alegre um curso de graduação em escrita criativa, no qual Assis, hoje com 77 anos, também leciona. Mas ele não deixou de lado sua oficina, por onde passou uma série de autores que se projetaram nacionalmente, como Daniel Galera, Cíntia Moscovich, Amilcar Bettega, Carol Bensimon, Michel Laub e Paulo Scott.
A oficina dura dois semestres, e a seleção para suas quinze vagas é muito concorrida, atraindo gente de todo o país. É preciso enviar, além do currículo, uma espécie de carta de motivação e amostras da escrita. Até o início da pandemia, as aulas ocorriam na Escola de Humanidades da PUCRS. Atualmente, são online. No primeiro semestre, o programa prevê o estudo de diferentes obras e exercícios de recursos literários (“tempo da narrativa”, “espaço”, “diálogo”). No segundo semestre, os alunos partem para a escrita dos próprios contos, que são debatidos com a turma.
Em 2009, em um evento literário no Rio de Janeiro, ouvi a pergunta: “Por que tem tanta oficina em Porto Alegre?” De fato, nos anos 2000, além de Assis e Kiefer, a professora Léa Masina e escritores como Cíntia Moscovich, Luís Augusto Fischer e Alcy Cheuiche, entre outros, davam aulas. Mas a pergunta logo perdeu a razão de ser, porque, ao longo da última década, aumentou a procura, e oficinas criativas, escolas de criação literária e cursos em universidades se espalharam pelas capitais e grandes cidades.
Um episódio ilustra bem como a proliferação da oferta – e também do público – dos cursos de escrita no Brasil alcança desde aspirantes a escritor até pessoas que têm outras ambições. Em 2019, estive em Maceió para dar um curso a convite do Sesc, entidade que promove oficinas por todo o país com o circuito Arte da Palavra. Na última aula, um aluno perguntou: “Professor, quando vamos fazer narrações?” Sem muita certeza de ter entendido a questão, falei que estávamos exercitando isso desde o início, afinal o curso era sobre “vozes narrativas” (voz criada pelo escritor para contar as histórias). Ele insistiu: “Mas quando vamos ‘narrar’ pra valer?” Perguntei se a dúvida era sobre quando escreveriam um conto. O rapaz então disse: “Quando vamos fazer dublagens?” Ele estudava para ser dublador e associou as “vozes narrativas” à dublagem.
São muitos os tipos de oficinas. Existem as brevíssimas, de uma hora ou pouco mais, que costumam se apoiar em exercícios de desbloqueio de escrita, seja a “escrita automática” (que se faz sem pensar) ou escrever sobre uma vivência recente. Há workshops de algumas tardes ou noites, que abordam pontos específicos da escrita literária, como voz narrativa ou fluxo de consciência (a escrita que busca emular a dinâmica do pensamento, como em Ulysses, de James Joyce). Há ainda as oficinas de média duração (às vezes um semestre), que muitas vezes tentam abordar o básico de um gênero literário, como estudar o conto desde a criação de um personagem até a escrita de um texto. Existem, por fim, os cursos de longa duração (em geral, um ano), com programas mais rígidos, como o da oficina de Assis. Aí é comum encontrar gente com alguma experiência e interesse em publicar um livro. Em mestrados e doutorados, é possível que, além da escrita literária, seja despertada no aluno a veia de pesquisador, levando-o a se interessar também pela teoria literária e os processos criativos.
Os métodos variam. Meu primeiro professor, Charles Kiefer, anunciou bombasticamente na aula inaugural o “método do caos”: o conteúdo se construiria pelos textos escritos por nós. O escritor pernambucano Marcelino Freire, um reconhecido professor de oficinas, já iniciou seu curso sorteando “padrinhos artísticos” entre os alunos – autores famosos que deveriam ser estudados e servir de inspiração. Outros preferem investir em uma progressão: começar pelos exercícios simples e, pouco a pouco, chegar ao desenvolvimento de textos mais longos, experimentando diferentes técnicas durante o percurso, como escrever com perspectivas variadas, trabalhar descrições, explorar as técnicas de manipulação do tempo.
Minha primeira atividade de longa duração, como professor, iniciou em março de 2019, na Livraria Taverna, também em Porto Alegre, com seis alunos. Dura até hoje, com uma aula por semana. Eu havia planejado dar todo mês duas aulas teóricas e duas de análise dos textos escritos pela turma. Mas logo descobri que os alunos buscavam sobretudo estímulo para escrever. Propus, então, que a cada semana duas pessoas apresentassem seus textos e, a partir daí, eu apresentaria conteúdos sobre técnica literária.
“Se fosse eu…” Quando alguém começa assim seu comentário sobre o texto de um colega, em oficinas literárias, é hora de soar o alarme e relembrar algo essencial: nos cursos, literatura é trabalho em grupo. A espinha dorsal da maioria das oficinas é a dinâmica surgida da leitura e do comentário dos textos dos alunos. Quanto mais bagagem tiver o professor para conduzir o debate, melhor. Mas é preciso também criar um ambiente receptivo e estimulante para a participação de todos. Em cursos mais curtos e de menor engajamento, nos quais são escritos pequenos trechos, a dinâmica desenvolve-se com menos intensidade. Mas nos de maior duração, com discussão de contos, capítulos ou poemas da própria turma, o desafio aumenta.
Muito desse trabalho se perderá se não houver um espaço propício para que, debate após debate, cada aluno formule conceitos e seu modo de pensar literatura. É preciso reconhecer, contudo, que ouvir críticas ao próprio texto ou apontar correções no alheio não é tarefa fácil. Eu me lembro de uma colega habituada a receber elogios que, após ter um conto criticado em uma oficina literária, rebateu uma a uma as críticas – e depois sumiu das aulas.
Situações assim acontecem. E o problema não é porque há pessoas que não aceitam críticas ou só procuram as oficinas para confirmar “seu talento” (o que não é raro). O problema pode ser o modo como as críticas são feitas. Tanto mais que fazer e receber críticas não é exatamente algo que se pratique com arte no Brasil de hoje.
Aulas de escrita criativa, em vários sentidos, ultrapassam a mera ambição literária. Espera-se e estimula-se nos alunos a disposição para ler a escrita alheia com olhar generoso e para tentar entender o projeto do outro, o que ele deseja fazer e por que conseguiu – ou não. E é preciso expor o próprio trabalho e receber críticas sem se sentir ofendido. Há ainda o risco de que, em vez de comentar o texto alheio, a pessoa acabe falando sobre o seu próprio modo de escrever.
Uma vez, apresentei na oficina de Charles Kiefer um conto satírico que eu tinha escrito. E lá veio um “se fosse eu…”. O colega disse que não se emocionou com meu texto e completou: “Se fosse eu, exploraria mais a psicologia dos personagens.” Talvez meu texto fosse ruim, mas o “se fosse eu” sublinha a dificuldade de pensar o projeto alheio. Como se numa oficina mágica Clarice Lispector lesse um trecho de A Hora da Estrela, e Ernest Hemingway dissesse: “Dá para ser mais objetivo, usar uma linguagem mais direta?”
Há ainda a suspeita jamais comprovada de que oficinas pasteurizam a escrita dos alunos. O professor Paul Dawson diz que essa visão já se manifestava no aforismo latino Poeta nascitur non fit (Poetas nascem, não se fazem). Seria impossível ensinar escrita literária. Assis tem uma frase que adotei para tratar do assunto: “Não se ensina a escrever, mas aprende-se.”
A ideia de que oficinas pasteurizam textos não leva em conta que o aprendizado está longe de ser algo que o professor impõe aos alunos, com uma única resposta sobre como escrever. Ao contrário, o que se aprende numa boa oficina vem da construção conjunta, da interlocução entre alunos e professor – que, acredito, está ali para ajudar cada um a formar suas próprias ideias sobre literatura.
Mas admito: certas práticas adotadas em oficinas reforçam o preconceito de que são uma linha de montagem de escritores. Há uma série de noções que passaram a ser repetidas feito dogmas, como “escrever é cortar”, “adjetivos enfraquecem o texto”, “personagens têm que ser profundos” – ideias que foram e ainda são úteis em determinados contextos e para certos objetivos literários, mas, com o tempo, viraram cascas sem recheio. Tornaram-se muletas pedagógicas que, se não forem contextualizadas, podem ter efeitos péssimos sobre os alunos.
Esses dogmas, além de fazerem a literatura parecer um receituário, podem paralisar quem está iniciando e não tem bagagem para matizar o que é um conceito e o que é uma regra, e se sente tolhido com tanto “faça assim, não faça assado”. Uma aluna do Rio de Janeiro certa vez me perguntou por que diachos seu conto devia contar duas histórias, como um professor havia dito. Ele reproduzira a célebre frase do ensaio Teses Sobre o Conto, do argentino Ricardo Piglia: “Um conto sempre conta duas histórias.” É uma saia justa alguém perguntar a um professor sobre o que outro ensinou. Respondi que a literatura não é ciência exata e que Piglia estava falando de certa tradição do conto: alguns seguem essa perspectiva, outros não. É possível que algum professor, em outro curso, tenha dito a ela que falei asneira.
“Ah, a Virginia Woolf não frequentou oficinas”, já me disseram. Concordo. Machado de Assis e Lima Barreto também não frequentaram. Óbvio que ninguém precisa de oficinas para aprender a escrever. Os cursos são apenas um dos caminhos para se aproximar da escrita literária. E são também espaços de encontro com pessoas que em geral vivem de modo isolado sua paixão pela literatura. Recordo do alegre espanto da escritora e professora Moema Vilela, que se mudou de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, para Porto Alegre só para fazer a oficina de Assis. “É incrível encontrar tanta gente disposta a passar duas horas discutindo os problemas do teu personagem”, ela me disse.
São muitos os modos de se interessar por literatura. Assim como nem todo mundo entra num curso de violão sonhando ser o próximo Baden Powell, nem todas as pessoas que procuram cursos de escrita o fazem por ambição literária. Elas podem ter os mais variados motivos, o que exige sensibilidade para lidar com diferentes expectativas. Alguns procuram as aulas porque admiram os livros do professor, outros porque se interessaram pela proposta do curso ou desejam ouvir os escritores convidados para falar nas aulas. Há os que apenas querem romper com seu maçante dia a dia (e poderiam cursar aulas de pintura ou dança, tanto faz) e os que têm a ideia fixa de registrar memórias familiares ou um episódio de sua vida.
Um tipo curioso que parece ter surgido na segunda década dos anos 2000 – não me lembro de ter tido colegas com esse perfil – é o aluno encantado mais com a ideia de ser um escritor famoso do que com o trabalho de ler e escrever. Incluo o “ler” pensando no que disse o escritor angolano Gonçalo M. Tavares, em uma aula do seu curso de pós-graduação em artes da escrita, que frequentei na Universidade Nova de Lisboa: “Escrever é como futebol. Tem dois tempos. O primeiro é ler. O segundo é escrever. Nunca vi uma partida começar pelo segundo tempo.”
Já encontrei pessoas que, antes mesmo de começar a escrever seu livro, se preocupavam em achar um título que soasse bem ao ser traduzido para o inglês. Ou pensavam na playlist que indicariam ao leitor de seu futuro romance. Em seu blog Ossos do Ofídio, Marcelino Freire satiriza essa figura que pensa no lançamento do livro antes de tê-lo terminado. “Aí ele chega com o livro na mão, já diagramado. O original que ele mesmo fez. Em Word. Imaginou umas fotografias. E essa letra, que tal? Animal, não é mesmo? Eu tenho um tio que faz uns desenhos a lápis de cor. Nanquim, carvão. Olha a cara desse camaleão. Não é tudo de bom? A foto o escritor já tem. Ao fundo, a grande biblioteca. O cabelo aprumado. A mão à beira do queixo”, comenta no texto Escrever & Diagramar.
Arrisco dizer que essa fixação em ser escritor, mais do que com a escrita, tem a ver com a inflação do culto à celebridade. Parece um contrassenso num país onde se lê tão pouco. Mas a profissionalização do mercado editorial brasileiro nas últimas décadas, aliada a eventos midiáticos, como bienais, grandes feiras de livros ou a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ampliaram certo glamour relacionado à atividade literária. Além disso, na bonança dos governos Lula e Dilma, a literatura não passou despercebida. Políticas de incentivo, compras de livros e o soft power da divulgação da literatura brasileira no exterior, por meio de bolsas de tradução, aumentaram a visibilidade do escritor nacional. Sem falar nos altos cachês de palestras, nas bolsas de escrita e nos prêmios literários. Amplifique isso com redes sociais e suas bolhas, e dá para entender por que há tanta gente querendo ser escritor. Tanto assim que, volta e meia, me perguntam como se faz para viver de literatura. Ah, se eu soubesse.
Esse cenário otimista de anos atrás, evidentemente, foi destruído, junto com tantas outras coisas, nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. E depois veio a Covid.
“Pânico” é a melhor descrição do sentimento que tomou conta de quem dava cursos de escrita criativa quando a pandemia chegou ao Brasil. Como seguir com as aulas, que ocorriam em livrarias, centros culturais e até na casa de escritores?
Logo se descobriu que todo computador era uma sala de aula. E fomos para o Zoom. Desde então, vi a função fática da linguagem – à qual recorremos para assegurar a boa comunicação em determinado meio – se ampliar em importância a cada “Boa noite, tudo bem, estão me ouvindo?”. Tive aluno que entrou na aula durante o trabalho, ou assistiu a parte dela no carro até chegar em casa. Precisei lidar com uma barata enquanto um aluno lia o seu conto. E dei aulas em Boa Vista, Pittsburgh, Votuporanga, Montreal, Vitória, Londres, Recife sem sair de casa. Abriu-se uma perspectiva até então pouco explorada para oficinas literárias.
Na febre das lives de 2020, houve um aumento exponencial da oferta de cursos por parte de escritores. E também de escolas e instituições que se adaptaram rapidamente ao virtual, como a Escrevedeira. Projetos nascidos no meio digital, como a plataforma Navega (com cursos de literatura, design, teatro e cinema), ganharam irmãs surgidas no embalo da zoomificação do mundo, como Bora Saber e Quadro Amarelo. Até editoras, como a Companhia das Letras, ofereceram cursos de escrita criativa.
Essa efervescência digital sublinhou uma contradição.
Quando fui aluno de oficina, meus colegas eram majoritariamente pessoas brancas, de classe média ou alta. Isso não mudou quando passei de estudante a professor. Com exceção dos estudantes dos meus cursos subsidiados pelo Sesc, os demais também eram brancos de classe média, que não questionavam o preço das aulas. Durante a pandemia, entretanto, fui procurado por pessoas que desejavam se inscrever nos cursos, mas não dispunham dos recursos necessários.
Já deve estar claro que atribuo à escrita criativa uma vocação democratizante: rompe com o mito elitista da literatura como coisa de gênios e eleitos, e sugere que todos podem tentar escrever. Com as aulas na internet, pensava eu, já não existiam mais empecilhos para essa democratização. Mas havia, sim, um impedimento: o custo das aulas. Essa questão passou a me perseguir desde então: se a escrita criativa tem vocação democratizante, como democratizá-la de fato? Uma medida que adotei foi oferecer bolsas de estudo na maioria das atividades. Outros professores fizeram o mesmo. Mas isso é apenas uma gota d’água no deserto que é o acesso à cultura no Brasil.
A escrita criativa é também uma resistência ao mundo do pragmatismo. Ninguém entra num curso assim para “qualificar o currículo”. Como costumo dizer às minhas turmas – e insisti nisso depois do início da pandemia –, as oficinas são como uma meditação coletiva. Durante duas horas, nós nos concentramos no texto de cada um com o objetivo de compreender seu ponto de vista, de refletir sobre o mundo e sobre as pessoas por intermédio da literatura, de praticar em grupo estas atividades frequentemente solitárias que são ler e escrever.
