Rico Dalasam: Quando Todo Dia sumiu da internet, os fãs ficaram furiosos com o rapper. Pabllo Vittar e DJ Gorky nunca explicaram ao público que a decisão de recolher a música partiu deles CRÉDITO: LARISSA ZAIDAN_2022
“Tá ligado?”
Os poucos altos e os muitos baixos de Rico Dalasam, o primeiro rapper gay a ganhar projeção no Brasil
Thallys Braga | Edição 195, Dezembro 2022
“S
enhoras e senhores: com vocês, o cara que revolucionou o rap brasileiro. Façam muito barulho para Rico Dala-saaaaaaam!”, anunciou a mestra de cerimônias, uma moça transgênero.
O público do Circo Voador, no Rio de Janeiro, era formado em sua maioria por jovens negros e da comunidade LGBTQIA+. Eles gritaram, assoviaram, bateram palmas – e Rico Dalasam não apareceu.
“Gente, cadê o Rico?”, a produtora Juliana Arruda berrou, atrás do palco. O rapper paulista veio caminhando a passos lentos em meio ao breu dos bastidores. “Mano, o DJ acabou de tocar música de festa, não tem como eu entrar agora”, disse ele. “Deixa o palco ficar escuro por um tempo. O público tem que entender que a nossa vibe não é de festa.” Arruda, com olhos esbugalhados e mascando nervosamente um chiclete, seguiu ao palco escuro para levar o recado.
Meia hora antes, quando Dalasam, de óculos escuros Prada e um capuz preto, circulou pelo salão da casa de shows, uma moça o abordou com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Tem dias que é assim”, ele comentou. “Me chegam várias gayzinhas com o coração metralhado, várias minas pretas com o peito metralhado. Ninguém sabe pelo que essas pessoas passaram, tá ligado? Só seguro na mão delas e as lágrimas caem.” O cantor era a atração principal da festa gratuita que a Prefeitura do Rio promovia naquela terça-feira de julho para lançar uma campanha de combate ao preconceito contra a comunidade LGBTQIA+.
Dalasam tem 33 anos e é o primeiro rapper assumidamente gay a ganhar projeção no Brasil. No ano passado, ele lançou Dolores Dala Guardião do Alívio, um álbum confessional sobre as frustrações amorosas que viveu com outros homens. As músicas chamaram atenção e o cantor passou a correr o Brasil com suas performances de forte apelo emocional, que ele prefere chamar de “encontros”.
Quando finalmente subiu ao palco do Circo Voador, tomado pela atmosfera intimista que pretendia, Dalasam agiu como se estivesse sozinho em seu quarto, se exibindo diante do espelho. O ponto alto da noite foi quando ele desceu do palco e caminhou até o meio dos fãs, atentos e curiosos, para cantar Braille. A canção sobre os desafios de um amor entre dois rapazes, um negro e um branco, é o sucesso atual do rapper. No meio da música, ele interrompe o canto e recita um poema de sua autoria:
Caro menino branco
Esse nosso encontro pede a lucidez
De saber o lugar que me encontro
E você, por sua vez
Se é pra andar ao meu lado, saiba que
Alguém foi senhor, alguém foi escravo
E, entre nós, esse espaço
Pede alguns passos.
Braille foi escolhida a melhor canção de 2020 pelo júri técnico do Prêmio Multishow. A música também agradou ao rapper Emicida, que conhece Dalasam desde muito antes da fama. Em uma entrevista ao programa Roda Viva, em 2020, Emicida o descreveu como “um dos melhores letristas que temos hoje”. “Acho que aquilo [Braille] nunca havia sido feito na nossa música, talvez nem na música mundial”, disse no programa da TV Cultura.
O público do Circo Voador também ouviu Todo Dia, que Dalasam gravou com Pabllo Vittar para o Carnaval de 2017. Foi uma oportunidade única. A própria Vittar não canta a música há cinco anos. A canção foi objeto de um processo movido pelos produtores da drag queen contra o rapper e até há pouco tempo não podia ser cantada por ninguém, devido a uma decisão judicial. Todo esse imbróglio causou poucos prejuízos a Vittar, mas quase destruiu a carreira de Dalasam, que viu os fãs se afastarem progressivamente. Horas antes de subir ao palco do Circo Voador, um produtor perguntou que imagens o rapper gostaria que fossem projetadas no telão durante a apresentação de Todo Dia. Ele escondeu o rosto com as mãos, riu e respondeu: “Escreve bem grande: ‘Eu sobrevivi.’”
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ico Dalasam (pronuncia-se “Dalaçã”) começou a fazer rap aos 19 anos, tratando do orgulho e da vida de um jovem gay e negro da periferia. Depois, suas músicas passaram a ter a dor como o principal fio narrativo. A mudança se deve ao sentimento de que nunca foi amado, embora tenha tido três namorados, e à rejeição pública que sofreu após a disputa com Pabllo Vittar.
A história de Todo Dia, a música mais famosa de Dalasam até o momento, começa em 2015. Nesse ano, ele conheceu Orlando Araújo, um jornalista que trabalhava com gerenciamento de carreiras musicais em Belo Horizonte. Em um sábado de março, Araújo reuniu um grupo de amigos para conferir o show do novato Rico Dalasam numa pequena casa de espetáculos de São Paulo. “Só apareceu a gente e mais ninguém”, lembra Araújo. Quando o rapper terminou a apresentação, os dois começaram a conversar e desenvolveram uma conexão genuína. Foram embora do evento e vararam a madrugada trocando beijos pelo Centro da capital paulista.
A curta carreira de Dalasam estava uma bagunça. O rapper, então, pediu que Araújo se tornasse seu empresário. Ele aceitou e se mudou para São Paulo para ficar perto do namorado e dos negócios. “A relação profissional e o namoro se fundiram até se tornar uma coisa só”, relembra Araújo. Quando as pessoas começaram a reconhecer o nome e a imagem de Dalasam, o rapper experimentou um afago em sua autoestima que desconhecia até então. “Me vi bonito, com dinheiro, sendo respeitado. Fazia tudo o que eu queria e todo mundo concordava, ninguém me falava não.” Dalasam resolveu propor a Araújo que os dois tivessem um relacionamento aberto. “Ele me falou: ‘Agora que estou ficando famoso, as pessoas vão me achar bonito e eu não posso desperdiçar isso.’ Respeitei o momento e concordei em abrir a relação, desde que a gente não beijasse ninguém na frente um do outro. Mas o Rico me desrespeitou várias e várias vezes.”
No Carnaval de 2016, Dalasam foi convidado a cantar no bloco Baianas Ozadas, em Belo Horizonte, no período da manhã. Quando o show acabou, desceu do trio elétrico e foi ao encontro do namorado, que se divertia com amigos numa rua próxima. Ele conta que encontrou Araújo “com a maquiagem borrada de quem tinha beijado muito”. Desde que aderiram à poligamia, foi a primeira vez que Dalasam encarou o fato de que Araújo também poderia se relacionar com outras pessoas, como haviam combinado. Ele engoliu a raiva, se despediu e foi embora sozinho. Ao meio-dia de 8 de fevereiro, descendo uma ladeira da capital mineira, Dalasam puxou o celular do bolso e publicou em sua conta no Twitter: Não espero o Carnaval pra ser vadia! Eu sou todo dia! Todo dia!! Era a primeira versão do refrão de Todo Dia, que seria um dos hits de 2017, nas vozes dele e de Pabllo Vittar.
Embora ainda não fosse famoso, Dalasam já era respeitado no meio artístico. Caetano Veloso tinha classificado o trabalho dele como “iradíssimo”. Outra pessoa que estava de olho era Rodrigo Antunes, um versátil produtor musical conhecido como dj Gorky. No primeiro trimestre de 2016, ele produzia um conjunto de remixes para uma música que a banda Jota Quest gravou com Anitta, e convidou Dalasam para participar. Algumas semanas após o Carnaval de 2016, o rapper gravou os vocais na casa do produtor, em São Paulo. Aproveitou para apresentar composições inéditas, entre elas Todo Dia, que, segundo Dalasam, estava com a letra quase toda escrita, para uma melodia baseada na cadência do funk Baile de Favela, de MC João.
Gorky guardou as composições de Dalasam por meses. Em setembro, ligou dizendo que queria incluir Todo Dia no disco de estreia de Pabllo Vittar. Dalasam gostou da proposta. “Eu sabia que a imagem dela seria importante para um movimento disruptivo que estava surgindo no país. Era uma drag queen do Maranhão, fugia da perspectiva Sudeste”, diz o rapper. “Naquela ligação, o Gorky basicamente pediu o meu capital social emprestado para a Pabllo. E eu dei.” Quando foi à casa do produtor para gravar a colaboração, ele encontrou Vittar, sem peruca nem maquiagem. Os dois estabeleceram uma relação afetuosa, mas não uma amizade. Vez ou outra, trocavam mensagens e se elogiavam em público.
Dalasam diz que não era fã das músicas de Vittar, “nem achava relevante”. Ele explica: “A Pabllo faz parte de um universo que eu nunca pertenci, de divas do tipo Britney Spears, Lady Gaga, Madonna… Isso não me construiu. Eu tenho como referência Chaka Khan, Whitney Houston, Leci Brandão, Alcione, Destiny’s Child. É outra concepção de diva.” Mas os amigos dizem que, antes de se encontrar com a drag queen, Dalasam costumava ouvir as músicas dela e dizer, animado: “Se liga nessa parada. Isso vai dar muito certo, vai dar bom.”
Em outubro de 2016, Dalasam conseguiu ingressos para assistir à entrega do Prêmio Multishow, na Barra da Tijuca. Foi acompanhado de Orlando Araújo e do designer Oga Mendonça, seu amigo. Ao chegar, foi recebido calorosamente por Gorky, que o convidou para se sentar ao lado dele e de Vittar na plateia. Os três ficaram juntos a noite inteira, depois seguiram para uma festa promovida pelo Grupo Globo. Era a primeira vez que Dalasam ia a um evento com tantas figuras influentes da indústria fonográfica. Para comemorar, tomou alguns drinques. Ele diz que não tinha o hábito de ingerir bebida alcoólica na época.
O rapper se lembra de que Gorky, em plena festa, disse: “Rico, faz um tempo que estou tentando falar contigo. Falta só a sua assinatura para fecharmos o disco da Pabllo.” Em seguida, tirou um papel do bolso da calça, o esticou no balcão do bar e deu para o rapper assinar. Sem ler o que estava escrito, Dalasam assinou o documento em que renunciava aos royalties pela reprodução da música Todo Dia. Ele receberia os lucros da composição, mas nenhum centavo pela participação como intérprete.
Orlando Araújo diz que se sentiu incomodado com o “comportamento sufocante” de Gorky naquela noite. “Ele ficava me cutucando o tempo inteiro. Dizia para eu me apresentar para fulano, para cumprimentar o presidente da Warner, falar com não sei quem da Sony Music. Acho que queria me tirar de perto do Rico para puxar o contrato do bolso.” Araújo ainda era o empresário de Dalasam, mas não estava acompanhando a negociação de Todo Dia. Ele acha que foi excluído da discussão porque a música é inspirada na mágoa que o rapper sentiu quando viu a sua maquiagem borrada no bloco de Carnaval. Semanas antes do Prêmio Multishow, Gorky enviou o contrato por e-mail para Dalasam, que não respondeu. “Algo me soava estranho desde o começo, mas eu não sabia definir o quê. Parecia que estavam me afastando de algo que era meu”, diz o rapper. “A música estourou no país e começaram a chegar convites para nos apresentarmos juntos, Pabllo e eu. Ninguém da equipe dela respondia. A impressão que eu tinha é que estavam tentando me apagar até o meu crédito pelo sucesso da música também desaparecer.”
Dalasam desvia o olhar e se cala por um instante. “O jogo da Pabllo não estava ganho, tá ligado? Todo Dia foi longe, marcou a juventude do país. Foi por causa de Todo Dia que a Anitta e a Daniela Mercury convidaram a Pabllo para os trios elétricos naquele Carnaval. Foi Todo Dia que fez as pessoas perceberem que a Pabllo daria certo.”
A música foi mesmo um sucesso. No Carnaval do ano seguinte, em 2017, o refrão esteve entre os mais cantados nos blocos de rua: Eu não espero o Carnaval chegar pra ser vadia/Sou todo dia, sou todo dia. O clipe se tornou o mais assistido de uma drag queen no mundo. Vittar lançou seu disco de estreia em seguida e conseguiu emplacar mais dois hits, que não tinham autoria nem colaboração de Dalasam. A demanda por shows do rapper cresceu, e ele decidiu aproveitar o momento para criar outras canções festivas. Retornou ao estúdio e, em julho, lançou o EP Balanga Raba, com quatro músicas que transitam entre o hip-hop e o pop. Destas, escolheu Fogo em Mim para transformar em videoclipe. Como tinha pouco dinheiro, pensou em usar o lucro das reproduções de Todo Dia para pagar os custos da nova produção. Ao acessar o site onde os artistas retiram o dinheiro gerado pela reprodução de suas músicas nas plataformas digitais, encontrou saldo zero. Não havia nada a receber em seu nome pela participação como intérprete em Todo Dia.
O rapper telefonou imediatamente para Gorky. “Ele respondeu de supetão: ‘Rico, você me deu os direitos da música no dia do Prêmio Multishow. Agora que fez sucesso você quer voltar atrás?’ Fiquei sem reação”, conta Dalasam. Para tentar resolver o impasse, Gorky fez uma proposta por telefone. Disse que concederia parte dos direitos de intérprete, desde que o rapper cedesse metade dos direitos de composição da música. “Isso não existe. Eu compus a música inteirinha, criei a melodia, entreguei praticamente pronta para o cara. O justo é o justo: eu deveria ganhar por cantar e por escrever.” Gorky foi irredutível.
Dalasam mandou uma mensagem para Vittar, que nunca respondeu. Ele procurou um advogado e, em 29 de julho, notificou judicialmente Gorky e Arthur Gomes, conhecido como Maffalda, outro responsável pela produção de Todo Dia. Reivindicava a sua participação como cointérprete da música. Dois dias depois, os produtores despacharam uma contranotificação extrajudicial, reiterando que Dalasam havia assinado um contrato. Disseram que o rapper criou apenas o refrão da música, enquanto eles foram responsáveis por todo o restante da produção. Ofendidos, Gorky e Maffalda decidiram lutar para obter a integralidade dos direitos de composição e exigiram que o caso fosse agora resolvido na Justiça.
Vittar não esteve diretamente ligada ao processo, já que a disputa era em torno dos direitos autorais, e ela é apenas intérprete de Todo Dia. Mas seu nome aparece ao lado do de Gorky nas considerações finais da contranotificação. No documento, para se vingar da reivindicação de Dalasam, Gorky exigia que Todo Dia fosse retirada das plataformas digitais e dos shows de Vittar até o final da disputa na Justiça, para “evitar a promoção nociva e parasitária” do rapper.
Quando o clipe, com 50 milhões de visualizações, e a música sumiram da internet, os fãs ficaram enfurecidos. Não com Vittar e Gorky, mas com Dalasam. Numa foto que publicou no Facebook minutos depois de a disputa judicial se tornar pública, o rapper recebeu comentários como “Bixa imunda”, “Cobra!!!” e “Bicha uó, devolve o clipe da Pabllo”. Gorky e Vittar nunca esclareceram ao público que a decisão de recolher a música partiu deles próprios. “Eu saí como o malfeitor”, diz Dalasam. A piauí quis ouvir a versão de Gorky sobre o contrato assinado naquele balcão de bar no Prêmio Multishow e os desdobramentos judiciais, mas ele não deu entrevista. Pabllo Vittar também não quis falar sobre o caso.
Nos últimos tempos, Dalasam tem pensado com regularidade numa conexão que estabeleceu entre Todo Dia e a história da música brasileira. “Foi nas apresentações ao vivo que nasceu o que chamo de música brasileira silenciada, essa música feita por pretos que hoje está na base de tudo o que se escuta no Brasil. Lá atrás no tempo, os músicos negros só conseguiam apresentar suas criações em shows, enquanto os artistas brancos estavam no estúdio, gravando disco atrás de disco. Mas você acha mesmo que tinha só gente branca por trás da criação dos primeiros discos?”, questiona ele. “O que aconteceu comigo em Todo Dia provavelmente aconteceu com a primeira música do Brasil. Um mano preto criou, um branco pegou, lançou e conquistou o país porque era mais aceitável fazer isso tendo um corpo como o dele. E você sabe por quê. Quando se nega a intelectualidade de alguém no Brasil, esse alguém está sempre dentro de um corpo como o meu.”
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uando Rico Dalasam começa a falar, nada no ambiente chama mais atenção do que aquilo que sai da sua boca. Os ouvintes o acompanham em silêncio e jamais conseguem interrompê-lo. Aumentar o tom de voz, levantar o dedo, discordar cordialmente: nada fará Dalasam interromper seu monólogo. Expansivo e gentil, por vezes ele foge os olhos para o teto e se cala brevemente: está pensando em que palavras usará no instante seguinte. Então retoma o discurso com as sobrancelhas erguidas, costurando cada trecho da história, e invariavelmente encerra com a pergunta: “Tá ligado?” Com 1,79 metro, nem gordo nem magro (84 kg), tem olhos melancólicos, que ora fixam o chão, ora miram o interlocutor com força. Ao sorrir, quase nunca mostra os dentes.
Ele nasceu no dia 22 de julho de 1989, em São Paulo, e é filho adotivo da baiana Ana Celia Maria da Silva, que o batizou de Jefferson Ricardo da Silva. O menino se juntou aos quatro filhos biológicos dela – Jussara, Alexandre, Luzia e Paula –, na casa de dois cômodos onde todos viviam, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Ana Celia foi entregue para uma tia abastada quando tinha entre 3 e 4 anos. Aos 13, foi forçada a se casar com um homem mais velho. Um dia, soube que o vizinho estava indo para o Guarujá, no litoral de São Paulo, e foi embora com ele. Conseguiu emprego em um bar à beira-mar que virou a sua casa. Ela passava os dias servindo e, à noite, dormia embaixo do balcão. “Minha mãe levava uma vida extremamente miserável. Ia pulando de armadilha em armadilha, pensando que surgiria alguma salvação”, resume o filho Alexandre.
No Guarujá, Ana conheceu o baiano Hélio, com quem teve Jussara, sua primeira filha. Depois se mudou com o companheiro para Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, e teve mais três filhos em menos de sete anos. Nunca deixou de trabalhar, sempre na área de serviços gerais. Fez lentamente um pé-de-meia e, em 1982, comprou um apartamento em Taboão da Serra. Acabou perdendo o imóvel, que foi vendido pelo marido sem que ela soubesse. Hélio se mandou de volta para a Bahia, e ela só não ficou na rua com as quatro crianças porque tinha usado outra parte das economias para comprar um terreno no bairro Cidade Intercap, também em Taboão da Serra. Com a ajuda de vizinhos, ergueu em poucas semanas a casa com um quarto e um banheiro. Foi ali que chegou Dalasam, recém-nascido.
Ao atingir a maioridade, Alexandre conseguiu um emprego de auxiliar de enfermagem no Hospital Albert Einstein e passou a receber quatro vezes o salário da mãe. A vida da família começou a melhorar. Um dia, o pequeno Rico, apelido de infância, voltou da escola chamando de “pai” o irmão Alexandre, dezessete anos mais velho que ele. “Era confuso, eu rejeitei o título de primeira”, diz o irmão. “Minha mãe me puxou de canto e falou: ‘Olha, no futuro a gente pode explicar tudo ao Ricardo, mas agora ele está precisando te chamar de pai.’ Entendi o recado e o deixei me chamar do jeito que queria.”
Todos os filhos biológicos de Ana interromperam o ensino básico na adolescência e só o concluíram na vida adulta. Dalasam foi o único que frequentou escolas particulares desde pequeno, graças à mãe e ao irmão, que batiam de porta em porta pedindo bolsas de estudos para o caçula. Numa das tentativas, conseguiram uma bolsa integral no Colégio Benjamin Constant, na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. Dalasam aprendeu a ir de ônibus, sozinho, o que lhe conferiu certo grau de independência, mas também o colocou face a face com o racismo. Na capital paulista, mulheres brancas puxavam as bolsas para perto do corpo quando ele passava – o que o transformou numa criança contida e ressabiada. Até hoje, os amigos descrevem a desconfiança como uma das principais características dele.
Em casa, o menino se soltava quando a irmã mais velha tocava cds piratas de pagode e as fitas cassete da banda Ara Ketu, trazidas da Bahia por uma vizinha. Certo dia, no início da adolescência, Dalasam conversava sobre música com um amigo e ouviu falar que seu vizinho tinha uma coleção de discos em casa. Era Luciano Santos, que tinha achado os vinis e uma vitrola no lixo. Vasculhando a coleção, Dalasam encontrou os CDS que determinariam os próximos anos da sua vida: The Miseducation of Lauryn Hill, de Lauryn Hill; Born Again, de The Notorious b.i.g.; e God’s Son, de Nas – todos rappers norte-americanos. Ele levou os discos para casa e viveu cada música como uma epifania pessoal. Ao recordar aquela época, Dalasam constata: “Foi ali que eu fiz um pacto eterno com o rap.”
A
s noites de sábado eram sagradas para jovens paulistas interessados em rap. Por volta das oito e meia, eles se encontravam em uma das entradas da estação de metrô Santa Cruz, na Vila Mariana, para se desafiar em duelos de rimas improvisadas.
A batalha costumava ser dividida em dois rounds. Os MCs interessados na disputa se inscreviam e um mediador sorteava dois nomes para duelar. O primeiro tinha trinta segundos para rimar, e o outro deveria responder às provocações no mesmo período de tempo. Era proibido xingar a mãe, a avó ou a irmã do adversário, ou ser homofóbico, mas alguns MCs burlavam as regras. Ao fim de cada rodada, o público, formado em média por cinquenta pessoas, batia palmas para eleger o MC que rimou melhor. O segundo round começava com quem ganhou o primeiro, e assim seguia a disputa, até ser escolhido um vencedor. “Tudo na Batalha do Santa Cruz era genuíno”, recorda Stella Yeshua, rapper e melhor amiga de Dalasam. “Ficávamos em pé ali por horas, escutando tudo, prestando atenção em cada linha das rimas.”
Entre meados dos anos 2000 e o início da década de 2010, as batalhas de rap do Santa Cruz promoveram uma pequena revolução no rap brasileiro. Emicida começou a rimar lá, ao lado de nomes como Drik Barbosa, Projota, Rashid e Bivolt. A intimidação do tempo (trinta segundos), que exigia rapidez mental, e a atenção de uma plateia conhecedora de rap elevaram a expertise dos MCs do Santa Cruz a um nível difícil de ser alcançado por rappers que aprenderam a compor de outras maneiras.
Quem levou Dalasam ao evento, em 2005, foi Yeshua, que o conheceu quando ele trabalhava como cabeleireiro e trancista em Taboão da Serra. O serviço de Dalasam, considerado o melhor do bairro, era mais barato que o dos salões de beleza. A sala de dona Ana, onde o jovem instalou os materiais de trabalho, vivia abarrotada de clientes. “Toda a comunidade negra de Taboão queria fazer o cabelo com o Rico”, conta Yeshua. “É por isso que ele sempre teve as melhores roupas e os tênis que ninguém no bairro tinha.”
Yeshua e Dalasam passaram a frequentar a igreja neopentecostal Sara Nossa Terra, cujo templo fica na Rua Augusta, no bairro Jardim Paulista. “Nunca existiu conflito entre a igreja e o rap porque a gente também ia às batalhas do Santa Cruz com a intenção de evangelizar”, diz a amiga. “O único conflito que existia estava dentro do Rico. Vi de perto ele sendo atravessado por várias forças de resistência à própria sexualidade.”
Dalasam se apaixonou pela primeira vez aos 11 anos, por um colega de turma do sexto ano. Nunca falou a respeito nem para o colega nem para outras pessoas. Entendeu, desde então, que gostava de meninos, segredo que manteve guardado até os 19 anos. Certa noite, chamou Yeshua para lanchar em um McDonald’s e contou tudo.
Ele começou a estudar moda em uma universidade privada de São Paulo, mas desistiu um ano e meio depois, para fazer cursos de colorimetria. A curiosidade por programas de computador usados na coloração de imagens o levou a se interessar por cinema. Em 2011, conseguiu uma bolsa para o bacharelado de audiovisual no Senac. Financiava as mensalidades com o salário que recebia como assistente do cabeleireiro e maquiador Max Weber. Ao mesmo tempo que estudava audiovisual, circulava pelas salas de aula de design gráfico, moda e marketing. “Fui criando saberes que me tornaram uma pessoa boa em conceber imagens. Hoje sei finalizar a cor de um videoclipe, fazer a arte de divulgação de uma música, montar o look de um show.”
Quando Emicida lançou sua primeira mixtape, em 2009, os jovens da Batalha do Santa Cruz começaram a procurar maneiras de se profissionalizar no rap. Parte deles seguiu para a produção musical, como Filiph Neo, um MC esguio e de sorriso largo que montou um estúdio amador no quarto e sala que dividia com a namorada e os dois filhos pequenos na Vila Joaniza, no distrito paulistano de Cidade Ademar. Para gravar seu primeiro rap, Dalasam pediu emprestado o estúdio de Neo, e retribuiu fazendo um penteado no cabelo dele.
Naquele tempo, produtores amadores criavam batidas de hip-hop para vender no SoundCloud, uma plataforma de distribuição musical. Cada coletânea custava, em média, 50 reais. Era muito dinheiro para Dalasam pagar. Ele descobriu uma maneira de baixar as amostras de quinze segundos que o SoundCloud oferecia das faixas à venda. Com um programa de computador, repetia as curtas batidas até criar uma faixa de três minutos. Depois, sincronizava o instrumental improvisado com os seus vocais e disponibilizava as gravações no mesmo SoundCloud. Algumas músicas que ele publicou em 2013 ainda podem ser encontradas na internet. Os instrumentais eram ruidosos, mas sofisticados.
O rapper passou seis anos fazendo música como passatempo até decidir que essa seria a sua profissão. Na reta final da faculdade, bateu o sentimento de que “a vida tinha andado para todo mundo das batalhas de rap”, menos para ele. Começou a trabalhar como assistente de direção de arte numa produtora de videoclipes no Capão Redondo, mas o salário era consumido pelas dívidas estudantis e quase nunca sobrava para a diversão. Dalasam dormia e acordava escutando as músicas mais tristes da britânica Amy Winehouse e do canadense The Weeknd. “Vivia puto, sem dinheiro para ir a lugar nenhum”, recorda. “Nesse ano aí, peguei um carinha da faculdade e acabou: foi o único beijo que eu dei.”
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sobrenome artístico que ele adotou desde que começou a compor é o acrônimo da frase “Disponho armas libertárias a sonhos antes mutilados”, um verso autoral. O apelido Rico foi dado por sua irmã Luzia.
No princípio, as suas composições podiam ser divididas entre políticas e românticas. As duas coisas se juntaram quando ele decidiu tratar explicitamente da orientação sexual nas rimas. Alexandre, o irmão-pai, lembra que um dia Dalasam chegou em casa anunciando que se lançaria como o primeiro rapper gay do Brasil. “Achei o máximo, pensei que fosse uma cartada de mestre para conseguir sucesso rápido. Depois de três dias, a ficha caiu e eu percebi que ele tinha se assumido homossexual.”
Em meados de 2013, o MC Filiph Neo foi convidado para fazer parte do grupo de produtores do primeiro ep de Dalasam. A ideia era fazer hip-hop com elementos do axé e do afro-reggae baianos que ele escutou enquanto crescia, mirando na audácia criativa de Frank Ocean e Mykki Blanco, dois dos primeiros rappers a se assumirem queer nos Estados Unidos. As coisas mudaram quando Dalasam contou que era gay. Todos os músicos que produziriam o trabalho de estreia dele decidiram se afastar, exceto Neo. A amiga Stella Yeshua diz que o desdém dos MCs, entretanto, durou pouco. “As pessoas eram obrigadas a se render quando escutavam o Rico cantar. Tinha muita punch-line, rimas com palavras novas, boa conexão entre os versos, flow impecável. A galera pensava: ‘Pô, a imagem dele conflita com os meus princípios, mas a música é muito boa. Vou ouvir nem que seja baixinho, no fone.’”
Dalasam passou 2013 entre idas e vindas ao estúdio caseiro de Neo. Juntava as sobras do salário da produtora de videoclipes e o dinheiro dos bicos de cabeleireiro para custear a gravação de uma música por vez. Sua grande aposta era Aceite-C, um rap sobre respeitar a própria identidade. Ele teve a ideia de começar a canção com um trecho reproduzido de O Mais Belo dos Belos, composição de Adailton Poesia, Guiguio e Valter Farias, gravada por Daniela Mercury. As batidas de hip-hop tomaram a frente no instrumental que Neo criou para Aceite-C, mas o axé foi mantido na base. A faixa acumulou mais execuções e comentários elogiosos que as publicadas anteriormente no perfil dele no SoundCloud. “Com Aceite-C, o Rico antecipou o movimento que hoje o Emicida vem fazendo de retomar a musicalidade brasileira, e conseguiu fazer isso sem ser percebido como um cantor de MPB, como aconteceu quando o Criolo tentou flertar com o samba”, diz o designer Oga Mendonça, que no início dos anos 2000 fez parte do Projeto Manada, considerado a primeira geração do rap underground de São Paulo.
Mendonça conheceu as músicas de Dalasam pelo SoundCloud e indicou o nome do rapper para um diretor que pretendia fazer uma série de videoclipes com novos talentos negros de São Paulo. “Qualquer um que entende de rap percebeu que o Rico era acima da média. Ele representava a coisa mais revolucionária que apareceu no rap em anos. Ninguém tinha discutido masculinidade nesse nível dentro do rap nacional.” O diretor de videoclipes era Toddy Ivon, dono da agência Space Rocket, a mesma onde Dalasam trabalhava. “O Rico era meu funcionário, e eu não fazia ideia de que estava planejando se lançar no rap. Fiquei chocado”, diz Ivon.
O produtor também trabalhava com artistas do meio gospel. Ele conta que, ao fim de 2013, o pastor Silas Malafaia, hoje um bolsonarista férreo, lhe telefonou pedindo que fizesse dois clipes para Jotta A, artista mirim que ganhou notoriedade no meio evangélico após vencer um concurso de calouros do SBT (hoje, Jotta A se identifica como uma mulher transgênero). Ivon não pensou duas vezes, já que precisava de dinheiro para investir em Aceite-C: gravou as cenas com Jotta A em duas diárias, recebeu o pagamento da gravadora Central Gospel Music e foi encontrar Dalasam para combinar o roteiro do videoclipe.
As cenas foram gravadas em uma ocupação cultural na Sé, no Centro de São Paulo. Entusiasmado com o resultado, Ivon resolveu fazer outros dois clipes para o EP de estreia de Dalasam. A fim de obter financiamento, visitou agências de publicidade para mostrar Aceite-C. Uma empresária do ramo da cultura decidiu financiar a gravação de um novo vídeo, tendo Nova York como cenário.
Na viagem aos Estados Unidos, Dalasam visitou festas tradicionais da cultura LGBTQIA+ negra de Nova York para gravar as cenas dos vídeos. Em um dos eventos, esbarrou em Mykki Blanco, o rapper gay que o inspirava. “Senti que estava adiantado em relação ao que era feito no Brasil, mas que tinha gente lá fora fazendo algo parecido com as minhas ideias. Aqui, só quem se aproximava da minha proposta era a Banda Uó, e ainda assim estava muito distante”, ele diz, se referindo ao grupo de tecnobrega que acabou em 2018.
Dalasam queria que o clipe de Aceite-C fosse divulgado de uma vez para impulsionar o sucesso que a música fazia na internet, mas Ivon não autorizou. “Eu conhecia um produtor da MTV, então queria esperar o momento certo para estrear o vídeo na tevê”, diz o diretor. Ele conta que o rapper não gostou da espera e foi até sua casa, acompanhado do irmão Alexandre, exigindo que o clipe fosse lançado de uma vez. Também pediu 70% dos lucros de reprodução no YouTube. Ivon se negou a fazer o acordo. “Se aquele vídeo fosse visto 1 milhão de vezes, renderia, no máximo, 1,5 mil dólares. É pouco dinheiro comparado ao que eu gastei na produção. Mas a popularidade certamente ajudaria o Rico a receber convites para muitos shows.” Segundo o diretor, Dalasam ficou enfurecido e tentou vazar o vídeo. Decepcionado, Ivon disse que não faria mais negócios com ele e os dois deixaram de se falar.
O rapper tem outra versão. “A gente foi à casa do Toddy pedir para agilizar o lançamento, sim, mas não existiu isso de vazamento. Com a demora, eu considerei gravar outro vídeo para a música com uns amigos da faculdade, e ele não gostou disso”, diz Dalasam. “Mas é verdade que nessa época eu não tinha conhecimento jurídico sobre contratos, porcentagens de pagamentos, nada disso. A falta de experiência me colocou em situações muito delicadas. Só a história com a Pabllo me despertou a necessidade de compreender como as coisas funcionam no campo jurídico.”
A imprensa começava a olhar com atenção para Dalasam. Em meados de dezembro de 2014, ele ligou eufórico para Stella Yeshua. “O Estadão vai publicar uma matéria sobre o meu rap e a minha sexualidade que vai mudar tudo”, disse. A amiga sorriu, o parabenizou, mas decidiu se afastar por um tempo porque não concordava com a escolha dele de tornar a homossexualidade pública. “Eu estava completamente cega pelas minhas crenças religiosas”, diz ela. A reportagem foi publicada em 14 de dezembro em O Estado de S. Paulo, com o seguinte título: Gay e Rapper, Artista Quebra Muros e Desponta como Promessa para 2015. Contava a trajetória pessoal de Dalasam e anunciava o lançamento do seu ep de estreia, que ele batizou de Modo Diverso. Valendo-se da repercussão da matéria, Ivon lançou o videoclipe de Aceite-C no YouTube no mesmo dia. Dalasam conta que recebeu um telefonema de Emicida parabenizando pela reportagem no jornal. Os dois não se falavam desde a época das batalhas do Santa Cruz.
Modo Diverso foi lançado com seis músicas, incluindo Aceite-C, em março de 2015. Aquele ano foi um divisor de águas para os artistas da cena queer no Brasil. Liniker, Pabllo Vittar, As Bahias e a Cozinha Mineira, Johnny Hooker e Jaloo também fizeram suas estreias, todos sem a ajuda de gravadoras. No rap, Dalasam era o único. “Estávamos tendo discussões prematuras sobre pessoas LGBTs produzindo rap e funk, mas ninguém conseguia ultrapassar barreiras. Parecia impossível um corpo como o nosso ascender no rap”, diz a cantora Jup do Bairro, uma mulher transgênero. “Ver o Rico chegar com Aceite-C para mim foi uma mistura de emoção e alívio.”
U
ma semana depois de a disputa judicial em torno de Todo Dia vir a público, em agosto de 2017, Dalasam se apresentou para a maior plateia de sua carreira, no Festival CoMA, em Brasília. Subiu ao palco com o instrumental criado por DJ Gorky tocando no fundo, mas, em vez de cantar, bradou cinco vezes: “Respeita as bixa preta!” Depois daquele dia, foi ficando distante, deprimido, afastando-se até mesmo da própria equipe.
A empresária Marina Deeh, que assumiu o gerenciamento da carreira de Dalasam depois do rompimento dele com Orlando Araújo, nunca recebeu um comunicado oficial de que o seu trabalho com o rapper tinha terminado. “Foi natural, ele se isolou e a gente respeitou”, diz Deeh. “Quando comecei a trabalhar com o Rico, em 2016, ele era um menino fragilizado amorosa e financeiramente. Vivia chorando pelos cantos. Eu dizia: ‘Vamos aceitar até show de mil reais porque você precisa pagar o seu aluguel.’ No meio de 2017, estávamos fechando contratos maiores, mas então ele se isolou. Ficou frágil do mesmo jeito, talvez até pior.”
Deeh se questionava sobre o rumo que Dalasam daria à própria imagem. O rapper costumava brincar com as concepções de gênero, transitando entre o feminino e o masculino. Usava peruca, saia, maquiagem, barba colorida. A Vogue norte-americana o incluiu numa lista de pessoas que usavam a moda como uma ferramenta de rebeldia e liberdade pessoal. “Tudo passou a não fazer mais sentido, era um estilo associado ao pop”, diz a empresária. Embora não exprimisse, Dalasam estava tomado pela mesma incerteza. Os acessórios coloridos sumiram pouco a pouco da figura dele. O tamanho do cabelo diminuiu até ser raspado.
Em 2018, sem força para retornar aos palcos, o cantor decidiu montar um estúdio improvisado na sala do seu apartamento alugado na Rua Bela Cintra, no bairro da Consolação. Era uma tentativa de restabelecer a conexão com o rap. A ele se juntaram o produtor musical Dinho Souza, que viria a se tornar o seu colaborador mais importante, e o músico Moi Guimarães, ambos de São Paulo. Os três atravessaram madrugadas experimentando melodias e flertando com diferentes estilos musicais. Às vezes ficavam quatro, cinco dias sem sair à rua. Geralmente, Guimarães tocava violão e Dinho, piano, enquanto Dalasam escrevia as rimas.
Algumas das canções que surgiram no estúdio caseiro e nunca foram lançadas soam como conversas de Dalasam com ele mesmo. Em Jovinho, ele se dirige a um jovem que tentou seguir o próprio caminho, mas não soube se cuidar e acabou machucado. Dalasam diz que o menino precisa de um “tiquinho de carinho”, em rimas costuradas com termos do tipo “pânico”, “efeito alcoólico”, “ansiolíticos” e “antiético”. A música ainda não foi finalizada, mas o instrumental foi criado por Dinho Souza e aprimorado pelo produtor baiano Mahal Pita, ex-integrante do grupo BaianaSystem.
A parceria de Mahal Pita com Dalasam começou em 2015. Ele mandou uma mensagem para o rapper no Facebook depois de ficar fascinado por Aceite-C. “Tenho um tipo de magnetismo com artistas que propõem uma rebeldia, e Rico é inconformado com o mundo em que está. Isso contamina tudo o que ele faz”, diz o produtor. Pita incentivou Dalasam a mergulhar na música brasileira para que os dois pudessem criar um álbum que celebrasse as festas populares do país.
Nos meses de autoisolamento inspirado pela repercussão da história com Vittar, Dalasam escreveu uma série de letras e fez um conjunto de anotações. “Quando ele me mostrou, eu falei: ‘Rico, o que você tem aqui é uma trama, uma ficção pronta.’ Renderia uma história com capítulos e mais capítulos”, diz Pita. O projeto ganhou o nome de Folião Solidão. Além das canções – que transitam entre o rap, o funk, o afro-reggae e o pagode baiano –, foi criado também um livro, editado pelo músico Curumin, que nunca foi oferecido a editoras. Com cerca de cem páginas, reúne poesias, memórias, colagens — “e páginas em branco também”, enfatiza Dalasam. Ele trata o material com certo mistério. “Livro é coisa muito séria. Demora para ficar pronto, ainda mais quando é feito pensando em pessoas que não sabem ler, como a minha mãe.”
Trabalhar nesse disco deu para Dalasam a certeza de que deveria continuar fazendo rap. Depois da reação ostensiva do público diante da disputa judicial por Todo Dia, ele pensou se não deveria parar de cantar e se dedicar apenas à composição. “Mas, porra nenhuma, eu sou um artista. Seria bom para eles se eu ficasse por trás da cortina, escrevendo hits para os outros. Eles sabem que eu sei fazer um hit. Eu ficaria esperando o momento chegar, igual aos caras do time deles. E a minha hora não chegaria nunca”, ele diz, se referindo à Brabo Music Team, o time de produção comandado pelo DJ Gorky que cria músicas para Pabllo Vittar e outros artistas.
A princípio, Folião Solidão marcaria a volta de Dalasam, depois da pausa, mas o projeto acabou sendo arquivado. Na impressão de Pita, representaria para Dalasam algo semelhante ao que o disco Refavela representou para a carreira de Gilberto Gil, “quando ele voltou da Nigéria com a consciência de que era afrodiaspórico”. O disco, para Pita, “é o encontro do Rico com a história dele, do país, da família dele. Fomos voltando no tempo até chegar em Dois Arco-Íris, uma música que conta a história de dois escravizados negros fugitivos, como numa mitologia de orixás”.
No início de 2019, Dinho, Pita e Curumin foram ao apartamento da Bela Cintra para trabalhar na produção de Dois Arco-Íris. Curumin estava afinando o violão quando Dalasam soltou o verso: Fecha o olho e me leia em braille.
Era o início da letra de Braille, canção escrita num momento de tristeza com um dos ex-namorados, que era branco, embora ele se recuse a dizer que a música foi feita para o rapaz. “Não escrevi Braille para que alguém se compadecesse do meu sentimento. Ali já era tarde demais pra isso. Eu estava tentando extrair o que me violentou.”
“O que o rapaz disse quando escutou a música?”, eu perguntei. “Eu não tenho nada a ver com isso no fim das contas, tá ligado? Eles não me deram essas músicas, não me deram resposta nenhuma. Eu que nomeei o que sentia.” Foi a única vez que Dalasam usou um tom de voz ríspido ao responder às minhas perguntas.
Ele contou que depois de colocar a letra de Braille no papel, sentiu que precisava se afastar do disco Folião Solidão e pensar em algo novo para o seu retorno. Queria criar músicas que falassem da dificuldade de ser amado quando se é um homem gay e negro.
Dalasam lida com a inspiração de maneira metódica. Antes de colocar as ideias no papel, precisa associá-las a uma imagem – uma cidade, uma cor, um símbolo. “Tem letras que eu escrevo para São Paulo. Outras, analiso e penso: ‘Isso daqui é Rio.’ Não componho olhando para uma bananeira, tentando achar a relação entre a cor da armação dos seus óculos e o tom amarelado de uma luminária, apesar de essa ser a maneira que está enraizada no imaginário da música popular brasileira. Escrevo inventando imagens na cabeça.”
As invenções são, em certa medida, uma necessidade. Quando se vê preso a uma situação confinante, as rimas representam uma saída de emergência. No início da carreira, frustrado com a penúria da vida em Taboão da Serra, Dalasam rimava obsessivamente sobre o luxo. Riquíssima, de 2015, conta a história de uma bee (bicha) que fica rica: Eis aqui um negrinho cheio de querer/Trocando Campos Elíseos/Por Champs-Elysées/Cremes pra não envelhecer. Em Supstah, de 2021, ele canta para um namorado fictício sobre as viagens também imaginárias que os dois fizeram juntos: Vinhos pra balsa da Espanha até o Marrocos/Entre tecidos livres de impostos/Louças, estampas, sem nenhum perigo, vivos.
O rapper também usa palavras inventadas para traduzir os fluxos de pensamento. Em Procure, de 2017, os versos são conectados pela expressão Alibaba aluriê, criada por ele com base na língua iorubá-nagô. A canção inspirou um estudo de dois professores de linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Branca Falabella Fabrício e Luiz Paulo da Moita Lopes. Eles escreveram que a música de Dalasam recorre a um dispositivo poético que combina palavras aleatórias, sem se ater aos seus significados originais, a fim de criar novos sentidos. Como no trecho: Vai ter que entender meu wakabake/Entre os atabaques encarando as barca. Wakabaki é um termo do povo indígena Yaqui, do México, para designar um tipo de sopa de vegetais.
É difícil compreender todas as camadas das composições recentes de Dalasam, em parte porque ninguém está fazendo nada parecido. Os primeiros raps dele, sobre raça, sexualidade e classe, hoje são um pouco mais decifráveis porque as discussões acerca desses temas avançaram no debate público e nas artes. Também surgiram artistas que versam sobre questões semelhantes, como Linn da Quebrada, que lançou, em 2017, o Pajubá, disco sobre a experiência de crescer na periferia brasileira sendo uma pessoa queer – no caso dela, uma travesti. Para Dalasam, Linn é a única artista que, assim como ele, soube elevar as discussões sobre diversidade sexual e de gênero a outro nível.
A
boa recepção do público garantiu prestígio a Dalasam, mas nunca segurança financeira. As coisas se complicaram depois da disputa judicial em torno da música Todo Dia. No início de 2020, suas economias chegaram ao limite. E então veio a pandemia. Ele cumpriu os primeiros meses de isolamento social no apartamento da Rua Bela Cintra. Como não havia sinal de que a crise sanitária fosse amenizar e as finanças melhorariam, o rapper entregou o imóvel em maio e voltou para Taboão da Serra. Passou a ocupar um antigo quarto dele na casa do irmão.
De angústia em angústia, as músicas seguintes a Braille foram surgindo, até que Dalasam tinha canções suficientes para criar um novo disco. O produtor musical Dinho montou um estúdio no seu apartamento em Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde foram gravadas, ao longo da pandemia, todas as músicas de Dolores Dala Guardião do Alívio. Os equipamentos ficam em um quarto pequeno, de paredes cinza-claras. O microfone está de frente para uma janela, de modo que Dalasam sempre canta olhando para as árvores, com a luz do dia em seu rosto.
Quando se lembram desse período, os amigos se emocionam ao citar Dinho – um homem grandalhão e afável. Ele foi um estimulador cauteloso da criatividade do rapper nos dias mais sensíveis. Ajudou-o a encontrar um caminho para contar a história que precisava contar e superar o medo da própria arte. Com isso, se tornou o mais importante colaborador da carreira de Dalasam, que hoje o chama de irmão caçula. “Rico não sabe, mas é um produtor. Chega no estúdio com ideias prontas, às vezes tão elaboradas que é difícil entender. Meu trabalho é pegar tudo que ele pensa e aplicar a técnica musical para dar vazão às ideias”, diz Dinho.
O álbum Dolores Dala Guardião do Alívio saiu em março de 2021. Foi financiado com o dinheiro que o rapper recebeu por algumas lives feitas durante a pandemia e valores recebidos do processo judicial de Todo Dia. No primeiro semestre de 2020, Dalasam e os produtores Gorky e Maffalda se encontraram em São Paulo para uma audiência de conciliação. Assinaram um acordo que garante aos três parcelas iguais dos direitos pela composição e pela gravação da música. Embora não haja mais restrições judiciais, Todo Dia continua de fora das plataformas digitais, por motivos que Dalasam e seu advogado Felipe Caon dizem desconhecer.
Em 19 de novembro do ano passado, o rapper realizou o primeiro show de Dolores Dala Guardião do Alívio, no Centro de Culturas Negras do Jabaquara Mãe Sylvia de Oxalá, em São Paulo. Era a sua volta aos palcos depois de quatro anos. Na véspera, estava agoniado, com medo de que o lugar ficasse vazio. Mas os fãs lotaram o espaço, e elevaram a emoção das músicas a um patamar que ninguém da equipe do rapper esperava. Em certos momentos, mal dava para ouvir a voz dele. Depois da apresentação, Dalasam encontrou fãs no camarim e pôde sentir pela primeira vez o que as músicas do novo álbum despertavam nos jovens. “Voltei para casa esgotado, me sentindo fraco. A angústia das pessoas é coisa séria, mexe com muita coisa aqui dentro.”
No dia seguinte, acordou motivado para fazer outras apresentações. Ele acha que se apresentar ao vivo é o primeiro passo de um longo caminho que terá de trilhar para conseguir que as pessoas voltem a escutar a sua música. Ainda há pouco interesse das casas de shows. “Mesmo quando a gente consegue vender todos os ingressos, eu não volto para casa com a bolsa cheia de dinheiro. Pago as contas da locação do espaço, da equipe, e me sobra um pouco, às vezes nada.”
O segundo passo é voltar a colaborar com outros artistas. Em 2020, apesar da reclusão, ele lançou uma edição comemorativa do seu projeto de estreia, Modo Diverso, em que cada música ganhou uma nova versão com a participação de artistas queer que surgiram no rap depois dele, como a drag queen Gloria Groove. “Tinha potencial para ser um hit, mas a Gloria não quis, nem divulgou a música. Ela tem o jeito dela de cuidar da própria imagem, está tudo bem.” Em agosto passado, ele lançou um novo EP, que batizou de Fim das Tentativas, e traz colaborações com Céu e Tuyo. Para 2023, ele pretende lançar uma versão estendida do projeto, com o título Escuro Brilhante em o Fim das Tentativas e a participação do rapper Baco Exu do Blues em uma das músicas.
O terceiro passo é cantar outra vez nos festivais de música. Dalasam foi convidado para alguns, mas recusou, porque teria que se apresentar à luz do dia. Em festivais, as grandes atrações costumam cantar à noite. “Eu sei o lugar que a minha música ocupa. Se for para voltar, tem que ser direito.”
Uma boa notícia chegou no meio deste ano. O rapper foi convidado para cantar novamente no Festival CoMA, em Brasília, e fez questão de ajustar cada detalhe: quis cantar depois do pôr do sol, no mesmo palco e no mesmo dia (7 de agosto) em que se apresentou em 2017, naquele que foi o seu último show antes do recolhimento.
O
voo de Rico Dalasam chegou a Brasília pouco depois das seis da manhã do domingo, 7 de agosto. Ele havia se apresentado em Salvador na véspera e não conseguiu dormir. Em vez de descansar, passou a tarde com dois amigos à beira do Lago Paranoá. “Brasília me deixa sufocado. Preciso ir a um lugar aberto”, disse. Às cinco da tarde, uma van veio até o hotel buscar o rapper e sua banda para levá-los ao festival, mas Dalasam não havia voltado do lago. Os instrumentistas ficaram esperando na porta do hotel. Ele apareceu pouco depois, às 17h10, de sunga de praia e óculos de sol, e correu à suíte para tomar banho e vestir a roupa do show. “Estou segurando o choro o dia inteiro”, me disse. “Esse dia está sendo gestado há cinco anos.”
Assim que a noite caiu, Dalasam subiu a passos lentos a rampa de acesso ao palco montado no Eixo Cultural Ibero-americano, um complexo situado no Eixo Monumental. Antes de aparecer diante do público, realizou um ritual costumeiro: enquanto a música de abertura era reproduzida nos alto-falantes, ficou de cócoras nos bastidores, falando sozinho. Parecia rezar. Depois entrou em cena com uma calça preta apertada e um moletom da mesma cor comprado em brechó, botas, bolsa Bottega Veneta de lado e os óculos Prada de sempre. Um número modesto de pessoas o acompanhou nos primeiros minutos da apresentação. Alguns pareciam estar perto da grade apenas garantindo lugar para a principal atração da noite – Gal Costa.
A plateia aumentou a cada música, até que ficou difícil identificar onde terminava a multidão. Dalasam fez um discurso emocionado sobre o que aconteceu na sua vida desde a última vez em que esteve no festival. Disse que só conseguiu voltar porque os fãs decidiram dar outra chance a ele. A plateia desatou a gritar: “Ri-co! Ri-co! Ri-co!” Ele encarou o público em silêncio, com olhos molhados. Depois anunciou: “A próxima música eu vou descer para cantar aí, no meio de vocês.”
Era o momento de Braille. Raul Nunes, o produtor de Dalasam, o conduziu em meio à multidão. Em dado momento, o rapper disse: “Vamos parar aqui, Raul. A galera que me escuta está aqui.” Uma roda de jovens se formou ao redor de Dalasam, cantando cada verso da música aos berros, enquanto o rapper segurava o choro.
Assisti a tudo de cima do palco e fiz, naquele momento, a seguinte anotação no meu caderno: “Ainda que Rico não seja um artista mainstream e Braille não tenha chegado ao topo das paradas, a música o levou exatamente aonde precisava chegar depois do trauma. Um lugar seguro e íntimo, visitado por uma quantidade considerável de pessoas que respeitam o seu trabalho. Sem as privações de uma grande estrela, Rico pode se aproximar e ver nos olhos dos fãs o que a sua música é capaz de desencadear.”
A goiana Victória Brasiliano – uma moça baixinha, de cabelos cacheados na altura dos ombros – foi a Brasília só para assisti-lo. “As palavras do Rico encontram confusões que existem dentro de nós, mas não conseguimos nomear. Quem é preto passa a vida inteira lutando por um relacionamento assumido, por respeito e por afeto, às vezes sem se dar conta. Quando o Rico canta sobre essas dores dele, de alguma maneira está cuidando da gente.” A voz de Brasiliano embarga e seu amigo, Matheus Santos, de Brasília, coloca a mão sobre o ombro dela. Ele assistiu ao show de Dalasam grudado na grade, com o vinil de Dolores Dala Guardião do Alívio na mão.
“Eu sorrio, choro, fico puto escutando o Rico, porque ele descreve tudo o que eu sinto sendo uma bicha preta”, diz o rapaz. “Acho foda que ele conseguiu fazer músicas tão poéticas mesmo depois de ter sido cancelado. Voltou com o pé na porta, como quem diz: ‘Isso me fodeu, mas eu vou mostrar que foram eles quem me perderam o tempo todo.’”
N
uma tarde do início do inverno, depois de um mergulho no mar de Copacabana, com os óculos de natação presos na cabeça e os pés sujos de areia, Dalasam me diz: “As músicas brasileiras são as mais bonitas do mundo. Você pode ouvir músicas de várias eras do Japão, da China, da Índia. Não tem nada igual, mano. Tem um bagulho inexplicável nas músicas do Brasil. Como elas aparecem na cabeça dos artistas ninguém sabe, é um mistério.”
Um carro chega para levá-lo até o Centro do Rio, onde fará um show na Biblioteca Parque Estadual. O veículo entra no Túnel Rebouças. Dalasam desbloqueia o celular e a luz do aparelho ilumina o seu rosto. Ele abre o aplicativo Bloco de Notas e rola a página com uma longa lista de raps que escreveu e nunca gravou. Coisas que precisa dizer, mas está esperando o momento certo. “Eu sei que ainda não cheguei lá. Dolores Dala Guardião do Alívio é um disco que tem me ajudado muito, mas existe um invisível de coisas que ainda não descobri. Que sinto, mas ainda não sei nomear. Parece algo maior do que eu.”
Ele bloqueia a tela do celular e seu rosto quase desaparece no breu. “Mas vou continuar fazendo minhas paradas, até descobrir o que ainda falta. Até o Sol chegar. Trazer o Sol sem o Sol querer vir não deixa de ser um ato de fé”, diz. Depois se cala e fita o piso do veículo. Quando a van sai do túnel e um clarão entra pelas janelas, Dalasam se vira para ver a paisagem lá fora. Ele franze o cenho e cerra os olhos, com a luz do Sol cobrindo seu rosto.
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