Maria Massela, que vive na França desde quando tinha 18 meses de idade: “Toda a minha vida eu vivi aqui, mas nunca conquistei a nacionalidade francesa. Alguns anos atrás até tentei, recebi um não e, confesso, deixei para lá” CRÉDITO: JULIO BITTENCOURT_2023
“Volta pra África”
Sentindo na carne a violência e o racismo da polícia francesa
Maria Massela | Edição 203, Agosto 2023
De Paris
O tiro serviu como um chamado de guerra. A bala que em 27 de junho atingiu o peito de Nahel Merzouk, disparada por um policial, fez mais do que matar esse garoto francês (descendente de argelinos e marroquinos) da cidade de Nanterre, na Região Metropolitana de Paris. Reacendeu na França o barril de pólvora da questão da violência policial e do racismo de Estado, provocando uma onda de protestos.
O assassinato de Nahel gerou reações de personalidades políticas, esportivas, artísticas e religiosas, bem como da ONU, e desencadeou manifestações em diferentes cidades francesas que logo se transformaram em rebeliões, com parte dos manifestantes incendiando carros, depredando prédios e saqueando lojas. Os protestos resultaram em uma morte, dois feridos graves e cerca de 3,5 mil pessoas presas.
A estudante Maria Massela, de 23 anos, jovem negra e imigrante do Congo, participou da primeira marcha em homenagem a Nahel. Em depoimento a Sandra Soares Sibaud, em Paris, ela conta como a calma deu lugar ao tumulto e revela seu ponto de vista sobre a violência contra negros e árabes na França. “O lema da ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’ só vale para os brancos”, diz Massela.
A morte de Nahel Merzouk trouxe à tona uma lembrança que talvez tenha sido o gatilho da minha primeira revolta interior, quando eu tinha 13 anos. Agora, nos meus 23 anos, senti de novo a mesma tristeza e indignação que conheci depois do afogamento de um colega de colégio. Meu amigo Alexander tinha a mesma idade que eu e também era negro. Ele estava dentro de uma piscina pública do nosso bairro quando teve uma crise de epilepsia. O salva-vidas que estava de guarda se recusou a socorrê-lo. Depois, o cara argumentou que o Alexander e dois outros garotos – também de pele escura – tinham sido advertidos diversas vezes a parar de gritar durante as brincadeiras. Como não tinham obedecido, o guarda se negou a ajudá-los como forma de punição. Tenho certeza de que se os meninos fossem brancos isso não teria acontecido.
A violência da polícia em relação aos negros é apenas mais uma expressão do racismo que se encontra por toda parte. Não tenho raiva dos policiais como pessoas, e sim da polícia como instituição do Estado. Para mim, quando a polícia nos agride, é o Estado que nos agride. O poder público francês trata negros e árabes de uma forma diferente da que trata os brancos. Quando eu estava no colégio, por exemplo, não tinha o direito de usar o armário da escola entre uma aula e outra, mas os alunos que frequentavam as aulas especiais, bilíngues, tinham esse privilégio sob o argumento de que carregavam mais livros por estudarem mais matérias. Por coincidência, esses alunos eram todos brancos, e os estudantes do curso regular eram majoritariamente pretos ou não brancos. Juntos, nós batalhamos para tentar mudar essa situação, mas nunca teve jeito. Durante os quatro anos de curso, passamos o dia carregando para lá e para cá a mochila pesadíssima. A verdade é que o senso comum associa negros e árabes ao roubo, à pobreza, à falta de conhecimento e de estudo. É esse o estereótipo que colaram na gente – o de sub-humanos. Na faculdade, muitas vezes vi negros receberem notas piores mesmo tendo apresentado trabalhos de qualidade semelhante aos de colegas brancos.
Se você e eu estivermos numa manifestação e fugirmos da polícia, pode ter certeza de que vão correr mais atrás de mim do que de você, se você for branco. Cenas como essa aparecem nos vídeos feitos pelos participantes da Marcha Branca, que foi realizada em protesto ao assassinato do Nahel. Pessoas que não estavam fazendo nada de errado foram presas, enquanto homens mascarados que queimavam carros e depredavam prédios e lojas escaparam. Se você tem dúvida, confira nos vídeos. Os caras que escondem o rosto com a camiseta e exibem o peito nu são brancos! Muita gente defende que esses infiltrados são gente da extrema direita buscando causar confusão, afinal eles sabem quem é que vai pagar a conta. Eu acredito cada vez mais nessa teoria porque sempre vou às manifestações e vejo com meus próprios olhos quem é quem e quem faz o quê.
Se negros e árabes fossem os incitadores do quebra-quebra, eu seria capaz de compreender esse comportamento. Não sou a favor da agressividade, acho que a violência nunca é a solução, mas consigo entendê-la. A brutalidade surge como resposta a um chamado de guerra da própria polícia! Na marcha do Nahel, por exemplo, estava tudo calmo e, de repente, os policiais começaram a lançar bombas de gás lacrimogênio para dispersar a multidão. Muitas vezes é impossível deixar uma manifestação com rapidez, porque tudo fica enfumaçado e confuso e nem sempre existe uma rota de fuga predeterminada. Você quer sair e não tem como! E a coisa piora quando a polícia, para acelerar o processo, se organiza num bloco e corre em direção à multidão distribuindo pauladas. Tem sido assim… Na passeata em Nanterre, o cheiro e a fumaça dos carros pegando fogo, assim como as depredações, só começaram depois dessa manobra de dispersão violenta. Nos protestos, eu tenho medo da polícia. No dia a dia nas ruas, não. Mas nunca sinto que a polícia existe para me proteger. Se algo acontecer comigo, eu vou primeiro gritar pelo meu pai – é verdade! –, não pela polícia.
Participo de quase todas as manifestações ligadas às questões de racismo e injustiça social. Cada vez menos acredito na eficácia delas, mas se é essa a ferramenta que temos, então, vamos usá-la. Desde dezembro eu moro pertinho da Place de la République, onde tradicionalmente acontecem os protestos em Paris. Recentemente, eu estava numa manifestação no miolo da praça e, quando a dispersão começou, fui impedida por um policial de seguir na direção da minha casa. Ele não acreditou que eu morasse ali, ficou repetindo “Sai daqui! Sai daqui” e “Pode voltar para a periferia!”. Só faltou dizer “Volta pra África!”, frase que já ouvi tantas vezes.
Cheguei a Paris em 1999, com 18 meses de idade, quando meus pais deixaram o Congo por dificuldades financeiras e vieram para a França morar com parentes que já viviam aqui. Meu bisavô era contador e trabalhou para o governo durante a colonização do Congo pela Bélgica. Ele sempre fez questão de que seus filhos estudassem. Dizia que só assim seria possível encarar os brancos olho no olho, de igual para igual. Muitos de seus filhos vieram para a França depois da independência, que aconteceu em 1960. Instalaram-se em um bairro pobre na periferia de Paris, na cidade de Saint-Germain-en-Laye.[1] Essa é uma das cidades mais ricas da França, mas as benfeitorias nunca chegaram ao bairro em que cresci. Minha avó, por exemplo, vive até hoje no mesmo prédio cujo elevador está quebrado há anos. Já velhinha, ela tem de subir as escadas carregando suas compras. Sou testemunha do quanto essa região só se deteriora. Depois, tive uma passagem por Saint-Denis, numa área periférica considerada chaude – ou seja, quente, violenta. Minha mãe costumava proibir as crianças de brincar na rua, por medo do que pudesse acontecer.
Com o tempo, percebi que o racismo está enraizado em todo mundo, mesmo em quem sofre dele, mesmo em mim. Uma amiga de infância, branca, costumava fazer piadas preconceituosas quando estava comigo e tanto eu como ela considerávamos isso normal. Uma vez apareci com um vestido com estampa de abacaxi e ela perguntou “mas não deveriam ser bananas?”. Ela vivia me chamando de bamboula, termo muito usado na época colonial, hoje considerado racista e discriminatório. Levei anos para compreender que essa palavra, dita de forma supostamente brincalhona, era na verdade um insulto. A mudança aconteceu quando entrei no Twitter e comecei a ler relatos com os quais me identifiquei e que recebiam a definição que lhes era devida: racismo!
Gosto muito de estudar e já sonhei em ser presidente da República do Congo para tentar melhorar as condições de vida no meu país de origem. Fiz faculdade de direito na Sorbonne, mas não dei continuidade depois da graduação. Preferi começar a cursar jornalismo com a esperança de, por meio do poder de contar histórias, conseguir abrir a cabeça das pessoas e ajudar as coisas a mudarem mais rapidamente.
Toda a minha vida eu vivi na França, mas nunca conquistei a nacionalidade francesa. Alguns anos atrás até tentei, recebi um não e, confesso, deixei para lá porque me sinto muito mais congolesa do que qualquer outra coisa. Quando estou numa manifestação, ali no meio da multidão, sou 0% francesa – o que me faz participar é justamente a necessidade de brigar para que os negros e árabes que aqui fizeram a vida sejam reconhecidos e tratados como franceses, ora! Por outro lado, durante a Copa do Mundo, confesso: sou 100% francesa!
[1] Muitos jogadores de futebol estrangeiros, contratados por times franceses, escolheram a cidade de Saint-Germain-en-Laye como moradia. Entre eles, Ronaldinho, quando jogou pelo Paris Saint-Germain, o PSG, entre 2001 e 2003.
