Os sons do Spotify: o que realmente importa para a empresa é o “fator de permanência”; se alguém pula uma música, ou para de ouvi-la completamente, é sinal de que algo deu errado CRÉDITO: PEDRO FRANZ_2023
Spotify, Spotify, Spotify
Como o serviço de streaming está monopolizando nossos ouvidos e impactando a qualidade da produção musical
Daniel Cohen | Edição 205, Outubro 2023
Tradução de Isa Mara Lando
No início da década de 2000, depois que o Napster revolucionou o antigo modelo de compra e venda de música, uma ideia ganhou força. Repetida com frequência, chegou a se tornar um clichê: as pessoas só seriam tentadas a abandonar a pirataria se acessar música legal ficasse muito mais fácil do que fazê-lo ilegalmente. Coube ao Spotify – com mais de 500 milhões de usuários, dos quais mais de 200 milhões pagam assinatura mensal – transformar o clichê em realidade. Assim, é surpreendente – e, ao mesmo tempo, nada surpreendente – que a empresa tenha sido criada em um país onde a pirataria musical era mais generalizada do que em qualquer outro lugar da Europa.
Na metade dos anos 2000, calculava-se que 1,2 milhão de pessoas compartilhavam arquivos pirateados na Suécia, cuja população era de 9 milhões. Três serviços de compartilhamento de arquivos tinham raízes suecas: Kazaa, μTorrent e The Pirate Bay. Para algumas pessoas, a pirataria estava ligada a um compromisso ideológico com a livre transmissão de informações. O Pirate Bay, por exemplo, foi criado em 2003 pelo Piratbyrån (Gabinete da pirataria), um coletivo sueco que era crítico das leis de direitos autorais. Três anos depois, surgiu o Partido Pirata, com a promessa de fornecer “acesso gratuito à comunicação, à cultura e ao conhecimento”. O partido obteve 7% dos votos da Suécia nas eleições europeias de 2009.
Ao fundar o Spotify em 2006, os suecos Daniel Ek e Martin Lorentzon estavam decididos a oferecer um serviço gratuito. Nenhum dos dois havia trabalhado com música. Ek, então com 23 anos, era um programador de Rågsved, um subúrbio de Estocolmo. Havia criado uma empresa de publicidade online, a Advertigo, que vendeu para a Tradedoubler, firma de marketing digital da qual Lorentzon foi um dos fundadores. A experiência de ambos em publicidade não era irrelevante: se as pessoas fossem usar o Spotify sem pagar nada, o serviço gratuito teria que ser sustentado por anúncios.
Para competir com os downloads ilegais, o Spotify havia encontrado duas formas: oferecer um serviço gratuito e usar a mesma tecnologia que facilitava a pirataria. Poucos meses depois de lançar o Spotify, Ek e Lorentzon compraram o μTorrent e contrataram seu fundador, Ludvig Strigeus, como chefe de desenvolvimento. A primeira onda de redes de compartilhamento de arquivos, como o Napster, usava a tecnologia P2P (peer-to-peer, ou ponto a ponto), conectando alguém que queria baixar uma música com alguém que já tinha aquela música em seu computador. Um software gerenciador de torrents usa outro método: ele pega fragmentos de uma música a partir de múltiplos computadores de uma rede e baixa todos ao mesmo tempo. Se os fragmentos forem compartilhados entre muitos usuários com conexão de internet rápida, o processo fica mais confiável e também mais rápido do que baixar de uma única fonte.
A velocidade era um dado importante para Ek. Ele queria que uma música começasse a tocar instantaneamente ou que, pelo menos, desse a impressão de ser instantânea. Para isso, a execução da música tinha que começar dentro de 285 milissegundos. Se demorasse mais que isso, de acordo com o estudo que um engenheiro da equipe havia lido, a demora seria perceptível. Uma das maneiras pelas quais o Spotify atingiu seu objetivo foi baixando partes de uma música para o computador dos usuários quando estes a tocavam pela primeira vez. Neste caso, se outra pessoa quisesse ouvir aquela música poderia, então, baixá-la por torrent, pois os torrents eram divididos de tal forma que a música poderia começar a tocar antes mesmo de ela ter completado seu download.
As semelhanças com o compartilhamento ilegal de arquivos não paravam aí. O Spotify ficou disponível para milhares de usuários convidados antes mesmo de ter obtido as licenças para as faixas que estava transmitindo. No início, as músicas disponíveis na plataforma vinham dos próprios funcionários, de suas coleções pessoais, e muitas tinham sido obtidas ilegalmente. Como dizem os cinco coautores de Spotify teardown, um estudo crítico bem-humorado, o Spotify “começou, na prática, como um serviço pirata”. Só três anos depois da fundação da empresa que as últimas músicas pirateadas foram excluídas. Cinco anos depois disso, o Spotify abandonou os torrents e começou a hospedar todas as suas músicas em centrais de servidores, virando um serviço de streaming.
O Spotify foi lançado oficialmente na Suécia em outubro de 2008 e no Reino Unido em fevereiro de 2009. Poucas semanas depois, instalei o aplicativo no meu celular. Podia-se optar pelo uso gratuito – interrompido por anúncios a cada meia hora, mais ou menos – ou então por uma assinatura premium, que permitia ouvir música sem interrupções por 9,99 libras por mês (na época, pouco menos de 32 reais). Eu estava no segundo ano da universidade e, como todo mundo que eu conhecia, escolhi a versão gratuita. As gravadoras não estavam nada satisfeitas com essa opção. Não era só porque recebiam menos royalties quando a música tocava numa conta de graça. As gravadoras temiam que a gratuidade do Spotify produzisse o mesmo efeito do compartilhamento ilegal de arquivos. Ou seja: as pessoas pensariam que não era mais necessário pagar para ouvir música – fosse por streaming, por download ou por meio da compra de um CD. Naquele ano, a indústria fonográfica global faturou 15 bilhões de dólares, uma queda em relação ao pico de pouco mais de 22 bilhões de dólares em 1999 (ano do lançamento do Napster). E a situação só piorou: em 2014, a receita caiu para 13 bilhões de dólares. A indústria da música parecia estar morrendo, se é que já não estava morta. Mas então as coisas começaram a se revitalizar.
Em 2021, a receita do setor atingiu um recorde de 24 bilhões de dólares (embora, em termos reais, isso represente apenas dois terços do valor de 1999). E cerca de dois terços dessa receita provinham do streaming. O resultado não se devia apenas ao Spotify, que nunca foi lançado na China, onde os três serviços de streaming da Tencent – QQ Music, Kugou e Kuwo – somam quase 600 milhões de usuários. (Desde 2017, o Spotify tem 9% da Tencent e a Tencent tem 9% do Spotify.) Mas com a melhora do cenário, surgiram artigos de jornais afirmando que o streaming em geral, e o Spotify em particular, tinham salvado a indústria da música.
Concordar ou não com essa opinião depende de como se vê a indústria da música. Dois terços de todas as canções transmitidas por streaming são controlados pelas três gravadoras: Universal, Sony e Warner, as chamadas Três Grandes, que se deram muito bem com o streaming. Em 2021, por exemplo, só a Universal faturou 4,8 bilhões de dólares com o serviço. Mas, como apontam os autores de Spotify teardown, “a própria existência do Spotify continua dependendo” da disposição das Três Grandes de continuar disponibilizando as músicas.
Com tanto poder, as Três Grandes têm condições de ditar as regras. Uma das coisas que conseguiram nas primeiras negociações com o Spotify foi participação acionária, começando por uma fatia correspondente a quase um quinto da empresa. As gravadoras e distribuidoras menores, no entanto, não têm condições de fazer exigências sérias, seja para si mesmas, seja para os músicos que representam. Assim, pode parecer estranho, mas é difícil responder a pergunta mais importante sobre o modelo de negócios do Spotify: Quanto a plataforma paga aos artistas? Em The Spotify play, que descreve a ascensão da empresa, Sven Carlsson e Jonas Leijonhufvud contam que os acordos iniciais do Spotify com as gravadoras eram “tão complicados” que era impossível apontar “um valor exato” de quanto os artistas recebiam cada vez que um ouvinte executava suas músicas.
Há outro motivo que dificulta chegar a um valor: os royalties não são calculados simplesmente com base no número de vezes que a música de um artista foi tocada. O cálculo leva em conta quantas vezes a música foi tocada em relação à música de todos os outros artistas. Funciona assim: o Spotify define um valor para cobrir todos os royalties a serem pagos a cada mês, e os artistas vão dividir esse total conforme o número de execução de suas músicas naquele mês. Por isso, o valor varia, mas o pagamento médio por execução é de cerca de 0,003 libras (em torno de 2 centavos de real). Esse dinheiro não vai diretamente para o artista. A maior parte vai para quem detém os direitos sobre o fonograma, como é conhecida a gravação da música. Uma parcela menor vai para o autor, que detém os direitos sobre a composição em si, abrangendo a melodia e a letra.
Os direitos sobre o fonograma geralmente pertencem à gravadora do artista: as Três Grandes ficam com 70 a 80% dos royalties pela masterização, nome que se dá à produção do fonograma (quanto menos conhecido o artista, maior a parcela das gravadoras). Os selos independentes normalmente ficam com 50%. Os direitos autorais das músicas são mais padronizados: a editora musical fica com cerca de um terço do valor e os compositores com o restante. (As maiores editoras musicais são braços das Três Grandes: Universal Music Publishing Group, Sony Music Publishing e Warner Chappell Music.) Tudo isso significa que um artista de uma grande gravadora que compõe suas próprias músicas pode receber, na verdade, apenas 0,001 libras (cerca de meio centavo de real), cada vez que sua música é tocada. Ou seja, para ganhar 1 libra em royalties (ou pouco mais de 6 reais), uma faixa precisa ser tocada mil vezes.
Mesmo assim, os números podem ser notavelmente altos. As duas músicas mais reproduzidas no Spotify, Blinding lights do cantor canadense The Weeknd, e Shape of you de Ed Sheeran, foram tocadas mais de 3,6 bilhões de vezes cada uma. Outras dez músicas de Sheeran já foram executadas pelo menos 1 bilhão de vezes cada. Estimou-se no ano passado que os ganhos de Sheeran com o Spotify já passavam de 80 milhões de dólares (cerca de 400 milhões de reais). Até mesmo Taylor Swift, conhecida crítica do Spotify, já fez as pazes com o serviço. Em 2014, ela chegou a retirar suas faixas da plataforma – “coisas valiosas devem ser pagas”, disse ela –, mas mudou de ideia em 2017. Até o ano passado, o Spotify já havia pagado a ela cerca de 70 milhões de dólares em royalties (350 milhões de reais).
Para muitos músicos menos conhecidos, no entanto, os valores que recebem do Spotify não pagam nem as cordas de um violão. Che Chen, guitarrista da 75 Dollar Bill, banda experimental de Nova York, disse ao site de música Pitchfork que uma das suas músicas rendera royalties de 20 centavos de dólar (cerca de 1 real). “Talvez a gente ganhe uns 100 dólares por ano com streaming”, disse ele. Mas, quando lançou um álbum ao vivo na plataforma Bandcamp – uma espécie de anti-Spotify, onde artistas e gravadoras fazem upload de músicas e as vendem diretamente aos ouvintes –, a banda conseguiu 4,2 mil dólares (cerca de 20 mil reais) em apenas dois dias.
Os artistas de maior sucesso, é claro, sempre ganharam mais do que os outros. Mas nos tempos do vinil e do CD, as bandas underground operavam em uma economia separada das estrelas pop. É certo que havia muito mais ouvintes de música pop, mas não importava: essas bandas tinham fãs dedicados, mais dispostos a gastar dinheiro comprando álbuns do que os ouvintes típicos. A novidade é que o modelo de pagamento do Spotify torna a música um jogo de soma zero, colocando um grupo como 75 Dollar Bill em competição direta com Ed Sheeran. Quanto mais o serviço toca os artistas famosos, menos todos os outros ganham. Taylor Swift decidiu que não valia a pena ficar fora do Spotify, mas, para outros, não vale a pena ficar dentro. Quando pesquisei 75 Dollar Bill, recentemente, vi que a banda havia retirado de lá todos os seus álbuns. O Hyperion, um selo britânico de música clássica, nunca colocou sua música na plataforma.[1] “O modelo do Spotify não funciona para música clássica”, disse Simon Perry, ex-diretor administrativo do selo, em entrevista à BBC. “Isso porque como proporção do total de ouvintes, o tráfego não basta para gerar a receita de que um selo precisa para investir em um artista e uma gravação.”
O modelo em que os artistas são pagos, não mais pelo número de discos vendidos, mas por execução de suas músicas, pode parecer mais justo, uma recompensa por criar música que as pessoas apreciam. (Não é um modelo totalmente novo, aliás: as estações de rádio sempre pagaram os artistas segundo a frequência com que suas músicas são tocadas. A diferença é que esses pagamentos eram largamente superados pelos royalties dos CDs e LPs.) Mas a frequência com que uma pessoa ouve um álbum ou uma faixa não é o único indicador do quanto ela gosta dessa música. A que eu mais amo nem sempre é a que eu mais toco. Algumas são muito difíceis, ou muito intensas, para serem ouvidas como música de fundo. Outras significam tanto para mim que eu faço um racionamento delas, deliberadamente. Não creio que essa música valha menos porque eu a ouço menos. Mas o Spotify equipara diretamente a apreciação com as execuções. Até informa quando o ouvinte ingressa no grupo do 1% dos que mais escutam aquele artista, como se o entusiasmo pudesse ser quantificado.
Para que a plataforma contabilize uma música como executada – e o artista se qualifique para receber os royalties – é preciso que a execução tenha durado pelo menos 30 segundos. Se não conseguir manter a atenção do ouvinte durante esses primeiros 30 segundos, o artista não será pago. Alguns criadores adaptaram sua forma de fazer música a esse esquema. Em 2010, menos de 20% das faixas que chegaram ao primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos tinham um refrão começando nos primeiros 15 segundos. Em 2018, já eram quase 40%. Além disso, as músicas de sucesso têm ficado mais breves: entre 2013 e 2018, o tempo médio de uma música listada na Billboard Hot 100 nos Estados Unidos caiu de 3 minutos e 50 segundos para 3 minutos e 30 segundos. (O surgimento do TikTok, onde em geral se toca apenas um trecho da música, intensificou essa tendência.) Como o artista recebe a mesma quantia, seja qual for a duração da música, faz sentido mantê-la breve, na esperança de que o ouvinte continue escutando outras músicas. Assim, enquanto as faixas ficaram mais curtas, os álbuns ficaram mais longos: entre 2013 e 2018, a duração média dos cinco álbuns mais reproduzidos no Spotify aumentou em quase 10 minutos, chegando a 60 minutos. (Houve alguns esforços deliciosos para explorar a regra dos 30 segundos: em 2014, a banda de funk americana Vulfpeck lançou Sleepify, um álbum composto por dez faixas de silêncio, com duração de 31 ou 32 segundos, visando ganhar dinheiro para fazer uma turnê. Faturaram quase 20 mil dólares até o Spotify tirar o álbum do ar.)
Em vez de tentar usar as regras do próprio Spotify em seu favor, alguns artistas decidiram combater a plataforma de frente. Em 2020, o Sindicato de Músicos e Trabalhadores Aliados (Umaw, na sigla em inglês) lançou a campanha “Justiça no Spotify”, abordando as desigualdades da economia do streaming como uma espécie de disputa trabalhista. Mais de 28 mil artistas assinaram sua lista de reivindicações, que incluem o fim dos pagamentos com base na parcela do artista do total de execuções na plataforma e a introdução de royalties no valor de pelo menos 1 centavo de dólar por execução. A ironia é que os maiores críticos do Spotify costumavam ser os maiores artistas. Eles achavam que tinham mais a perder. No entanto, uma pesquisa recente com músicos profissionais no Reino Unido constatou que 82% ganham menos de 200 libras (1 250 reais) por ano com streaming. Apenas 7% ganham mais de 1 mil libras (6,2 mil reais). Um relatório de 2021 do Comitê Seleto de Cultura, Mídia e Esportes da Câmara dos Comuns do Parlamento britânico alertou: os “amantes da música” podem achar que estão fazendo um “bom negócio” com o streaming, mas há o perigo de que “alguns tipos de música que eles amam podem não estar mais sendo produzidos daqui a dez anos”.
Originalmente, Daniel Ek concebeu o Spotify como “o futuro da loja de discos”. As pessoas já sabiam o que queriam ouvir. A tarefa do Spotify era ajudá-las a encontrar as faixas. Mas, no início dos anos 2010, como escrevem os autores de Spotify teardown, quando empresas como Apple e Amazon lançaram serviços de streaming com bibliotecas igualmente grandes, o Spotify “começou a se transformar”. Não seria mais “um simples distribuidor de música”. Agora, era “o produtor de um serviço especial” – recomendar músicas. Ek havia chegado à conclusão de que “a maior questão não resolvida para a maioria dos usuários era: Como vocês podem me ajudar a descobrir o que eu vou ouvir?”. Havia tanta música sendo lançada que era difícil não ficar desnorteado. No início da década de 1970, lançavam-se 5 mil álbuns nos Estados Unidos por ano. Em 2013, foram quase 130 mil. Hoje, o equivalente a 3 milhões de álbuns é adicionado ao Spotify a cada ano. (Existem mais de 100 milhões de músicas no Spotify, das quais milhões nunca foram tocadas. Um site chamado Forgotify permite que os usuários as executem aleatoriamente.)
Nos últimos dez anos, o Spotify criou vários métodos para ajudar os ouvintes a decidirem o que desejam ouvir. Quando se abre o aplicativo, a página inicial recomenda diversas coisas – artistas, álbuns, playlists – com base no que o usuário ouviu no passado. Muitas dessas playlists são coleções de músicas compiladas por funcionários do Spotify. Algumas são imensamente populares: uma delas, RapCaviar, tem mais de 15 milhões de seguidores. Com isso, a RapCaviar tem mais influência para promover músicas de rap do que qualquer estação de rádio ou canal de tevê. Mas também existem as playlists “feitas para você” por algoritmos, em que cada usuário recebe uma versão personalizada com base no seu histórico de audição. Uma delas, muito promovida, é a Discover Weekly, uma seleção de trinta músicas que o usuário ainda não ouviu. Algumas playlists personalizadas são voltadas para uma determinada atividade ou um estado de espírito. A Running Mix é dedicada para a sua corrida diária. A Grief Mix, para um dia de tristeza. (Minha Grief Mix oferece um número surpreendente de raps).
Quando começou a introduzir esses recursos, o Spotify comparava seu papel ao de um “novo melhor amigo”, que oferecia “recomendações selecionadas a dedo”. Isso implica agência, iniciativa: quem recebe uma recomendação decide como agir. Mas não é bem assim que funciona a função AutoPlay do Spotify. Quando se chega ao final de um álbum ou de uma seleção de músicas, o AutoPlay entra em ação, tocando faixas mais ou menos semelhantes ao que se acabou de ouvir. (Algumas músicas têm mais chances de tocar em seguida do que outras: recentemente, o Spotify lançou um serviço chamado Discovery Mode, que permite aos artistas e às gravadoras aumentarem as chances de uma música tocar no AutoPlay em troca de uma taxa menor de royalties.) Desde o início de 2017, o AutoPlay já vem ativado. Para desativá-lo, é preciso acessar as configurações do Spotify e então desligá-lo. Caso contrário, as músicas continuarão tocando. Um novo recurso, chamado DJ (ainda não disponível no Brasil), oferece uma experiência mais parecida com a de ouvir rádio: um comentário de áudio acompanha as músicas selecionadas, recorrendo à inteligência artificial para fornecer informações sobre o que está tocando.
Como afirmou Gustav Söderström, copresidente do Spotify, as recomendações agora “impulsionam quase a metade das execuções”. No livro Computing taste, Nick Seaver faz uma etnografia dos cientistas de dados e gerentes de produto que trabalham “no mundo das recomendações musicais” e descreve como funciona essa tecnologia. A missão dos entrevistados, que em geral trabalham para empresas privadas contratadas por serviços de streaming, é ajudar seus clientes “a responder uma pergunta aparentemente simples: o que vem agora?”.
Quando se fala sobre uma plataforma como Spotify ou Netflix, há uma tendência de se referir ao “algoritmo”, como se uma única fórmula determinasse as recomendações que cada pessoa recebe. Mas na Willow, uma das empresas estudadas por Seaver (ele se refere às empresas e seus funcionários por pseudônimos), existem “dezenas e dezenas” de algoritmos, monitorando múltiplos aspectos: “Como é o som dessa canção? Em qual dispositivo o usuário está ouvindo? O que o usuário ouviu no passado?” Essas informações são então “reunidas e orquestradas” por outro algoritmo, que define como determinado usuário ouve música: se ele gosta de ser apresentado a coisas novas, por exemplo, ou se prefere ficar com o que já conhece. “Cada faixa recomendada é um pequeno teste, uma sondagem cujo objetivo é saber o máximo possível sobre o que um determinado usuário gosta.”
No entanto, um usuário pode gostar de coisas diferentes dependendo da hora do dia, do seu humor, se está cozinhando, correndo ou preenchendo a declaração de imposto de renda. Eis o que disse Tom, um gerente de produto da Whisper entrevistado por Seaver: “Um ouvinte é na verdade muitos ouvintes.” Alguém pode gostar de ouvir techno, jazz e rythm and blues. Mas isso não significa que queira ouvir uma faixa que seja uma mistura dos três estilos: um sistema eficaz de recomendações saberá quando tocar jazz e quando tocar techno. E de que modo um algoritmo – ou um conjunto de algoritmos – distingue R&B de outros tipos de música, ou distingue um tipo de R&B de outro? Escreve Seaver: “Já se descobriu que é muito difícil treinar um computador para identificar gêneros musicais apenas pelo som.” Tome-se o caso do rock cristão: ignorando a letra, pode-se confundi-lo facilmente com o rock não cristão. Como não consegue diferenciá-los com base no som, o software de recomendação tem que ser capaz de reconhecer que o rock cristão atrai um conjunto específico de ouvintes. Assim, com base nas preferências de outros usuários com interesses semelhantes, pode então recomendar músicas adequadas para um fã do rock cristão.
Ao analisarem o som de uma faixa e quem costuma ouvi-la, empresas como a Whisper dividem a música em diferentes “grupos”. Um grupo pode, com frequência, se assemelhar com um gênero existente, mas às vezes se refere a algo novo, a um conjunto de artistas cujas músicas têm certas características em comum, sem terem surgido juntos. No Spotify, o responsável por dar nomes a esses novos grupos é Glenn McDonald, o “alquimista de dados” da empresa. Ele tem um site, Every Noise at Once (Todos os barulhos ao mesmo tempo), que mapeia em um único gráfico todas as distinções baseadas em gênero do Spotify – um total de mais de 6 mil. Percorrer esse mapa é como visualizar uma galáxia, em que McDonald é o astrônomo responsável por nomear cada nova estrela. Os gêneros à esquerda são considerados mais densos e atmosféricos (black metal críptico, black metal épico, black metal grego). À direita, estão os mais agitados e animados (rave funk, techno minimal hard). Alguns gêneros listados são puramente funcionais: “sono”, “pilates”, “calmante para pets”. Outros são intrigantes: o Spotify distingue entre “quarto pequeno”, “quarto grande”, “quarto grande e profundo” e “quarto da fuga”. É divertido imaginar como deve ser o som desses gêneros, mas não há necessidade de supor: basta clicar em qualquer desses nomes e você ouvirá um exemplo do gênero.
Ao navegar pelo Every Noise at Once, percebe-se como é limitada nossa experiência no Spotify. Para mim, a parte mais emocionante de ouvir música acontece quando me apaixono por uma música, ou um álbum, que não se parece em nada com o que eu já escutei antes. Mas já ouvi queixas de que as recomendações do Spotify são muito óbvias: o problema não é que as pessoas não gostem do que o Spotify lhes apresenta, mas sim que as sugestões são muito claramente de algo de que elas poderiam gostar.
Apesar de toda a conversa do Spotify sobre “descobertas”, o que realmente importa para a empresa é aquilo que Mike, o cientista-chefe da Willow, chama de “fator de permanência”. Se alguém pula uma música, ou para de ouvir uma música completamente, é sinal de que algo deu errado. Não se pode entediar o ouvinte, mas também não se pode assustá-lo e afugentá-lo.
Quando se vai ao Spotify para pesquisar por Pavement, uma banda de rock alternativo dos anos 1990, a primeira faixa que aparece é Harness your hopes. A música já foi tocada mais de 100 milhões de vezes, quase três vezes mais do que qualquer outra música da banda. Por muito tempo, essa faixa foi um lado B obscuro – tão obscuro que quando Stephen Malkmus, o vocalista do Pavement, a ouviu tocando em uma padaria alguns anos atrás, nem reconheceu como sendo uma de suas próprias músicas. Segundo um fascinante artigo do jornalista Nate Rogers, Harness your hopes começou a se popularizar em 2017, o ano em que o AutoPlay foi ativado em todas as contas do Spotify. Parece haver algo nessa música que levou os algoritmos do Spotify a lhe dar destaque. O músico americano Damon Krukowski teve uma experiência semelhante. Strange, de sua antiga banda Galaxie 500, não era muito popular quando foi lançada em 1989, mas se tornou a música mais tocada da banda no Spotify. Escrevendo em seu blog, Krukowski observa que Strange tem uma “estrutura musical mais previsível” do que a maioria das faixas do Galaxie 500, e pergunta se o AutoPlay pode estar “separando e recompensando… as músicas mais ‘normais’ do catálogo de cada banda”. Ele questiona então, mais preocupado: “Quando eu pedir para tocar Galaxie 500, o Spotify irá tocar a música da Galaxie 500 que mais se assemelha às músicas de outras bandas?”
Minhas próprias experiências com o AutoPlay são decepcionantes. As músicas oferecidas não são muito diferentes do que eu estava ouvindo antes, mas, em geral, parecem um pouco mais insossas. É como se o Spotify tivesse decidido que a melhor maneira de prender minha atenção é não exigir muito dela. Às vezes é isso mesmo que os ouvintes querem. Em certo momento, a Willow percebeu que os usuários estavam desligando, “a uma taxa muito alta”, uma playlist que eles haviam criado. O culpado foi identificado: uma faixa com vocais, dentro de uma playlist instrumental. O que aconteceu, segundo Mike, é que “a voz havia trazido a música para a atenção consciente dos ouvintes, levando-os a desligá-la”. Quando retiraram a música da playlist, o problema foi resolvido. Agora, mais uma vez, a playlist “voltou a ficar abaixo do limite da consciência dos ouvintes”.
Os termos que usamos para ouvir música online – stream (fluxo), torrent (torrente) – parecem ter antecipado esse efeito: se a música é uma torneira que está fluindo constantemente, às vezes temos que deixá-la nos inundar. É isso que o Spotify quer, ou até mesmo espera. O Spotify Wrapped, uma apresentação de slides gerada para cada usuário no final do ano, detalha o que a pessoa ouviu em diferentes momentos: o que tocou pela manhã, como ela “aproveitou o dia” e “abraçou a noite”. A ideia é que o aplicativo sirva como um companheiro constante, fornecendo a trilha sonora para nossos diferentes humores e experiências (ao que parece, ouvir música, em si, não conta como experiência). Gustav Söderström disse que gostaria que os usuários “ligassem o Spotify de manhã e não parassem até a hora de dormir”.
Como parte desse projeto de monopolizar nossos ouvidos, o Spotify foi além da música. Desde 2019, a empresa fez uma série de altos investimentos em podcast. Comprou produtoras como Gimlet Media e The Ringer, fechou acordos para produzir programas com o casal Obama e com o príncipe Harry e Meghan Markle e pagou mais de 200 milhões de dólares pelos direitos exclusivos ao Joe Rogan Experience, considerado o podcast mais popular do mundo. (E quase com certeza o mais controverso: Neil Young e Joni Mitchell retiraram suas músicas do Spotify em protesto contra as declarações de Rogan sobre a Covid.) Desde o início dessa onda de investimentos, a empresa vem se referindo menos à “música” e mais ao “áudio”. Agora sua “estratégia-chave”, disse Ek em 2020, é “se apossar dos momentos de fundo, se apossar, realmente, do áudio”.
Às vezes, parece que essa estratégia deu certo. O TikTok superou o Spotify em certos aspectos, como a capacidade de alçar uma música ao sucesso, mas foi o Spotify, mais que qualquer outra plataforma, que se tornou sinônimo da experiência de ouvir. Ninguém assina um serviço de streaming de vídeo como o Netflix esperando poder assistir a tudo o que deseja – sabemos que estamos pagando por uma seleção limitada. Mas a premissa do Spotify é que ninguém precisa de mais nada além dele próprio. A ideia de abandonar a plataforma pode parecer equivalente a abandonar a própria música.
No entanto, há um argumento a favor da decisão de deixar o Spotify. Mesmo pelos padrões da economia do streaming, a plataforma oferece aos artistas um mau negócio: a Apple Music paga três vezes mais por execução. O Tidal, quatro vezes mais. Mesmo assim, o Spotify ainda não precisou enfrentar uma reação negativa a exemplo da que atingiu a Amazon ou a Uber – principalmente, creio eu, porque há uma tendência a não reconhecer o trabalho que dá para criar uma música. Pessoas que abandonaram o Spotify falam de outros benefícios mais imediatos. É fácil se identificar com as pessoas que a jornalista Liz Pelly entrevistou para um artigo publicado no jornal inglês The Guardian no ano passado. Os entrevistados contam que ficaram insatisfeitos com a relação que criaram com a música no Spotify: tocavam só para ter um som ao fundo, ou priorizavam faixas isoladas em vez de um álbum inteiro, ou pulavam uma música de imediato se não gostassem dela. As pessoas admitem que deixar o streaming e voltar para discos, CDs ou MP3s exigiu esforço. No entanto, todas dizem que agora ouvem música de maneira diferente. A experiência é mais focada, mais engajada. Como disse um entrevistado, “é algo que eu estou fazendo, e não algo que estou recebendo”.
Considerado em termos básicos, o crescimento do Spotify é impressionante: a história de uma startup sueca que conseguiu passar na frente de algumas das empresas mais ricas da história. Mas quanto mais o Spotify cresceu, menos sueco ele ficou. Em 2016, Ek e Lorentzon escreveram uma carta aberta ao governo da Suécia pedindo uma redução nos impostos sobre as opções de ações para funcionários e a abolição dos controles de aluguel em Estocolmo.[2] “Se não for feita nenhuma mudança”, dizia a carta, “teremos que considerar focar a nossa expansão em outros países, e não na Suécia”. No ano seguinte, o Spotify abriu um novo escritório em Nova York, que, em pouco tempo, já empregava mais gente do que a sede em Estocolmo. Quando listou suas ações na Bolsa de Valores de Nova York, em 2018, foi por meio de sua holding em Luxemburgo.
No dia da estreia na Bolsa, as ações do Spotify valiam 149 dólares. Agora, no início de setembro deste ano, estavam sendo negociadas a 159 dólares. A empresa vale 31 bilhões de dólares, mas nunca registrou lucros. (Não ajuda em nada que o preço da assinatura estivesse congelado em 9,99 libras e só recentemente tenha sido reajustado para 10,99 libras; se tivesse acompanhado a inflação, hoje custaria 15 libras, ou quase 70 reais.)[3]
O Spotify quer que continuemos ouvindo, mas quanto mais ouvimos, mais o serviço precisa pagar em royalties. Não está claro se a empresa conseguirá encontrar uma maneira de conciliar esses dois fatores. Não é a única empresa de tecnologia em dificuldades: muitas vêm cortando empregos e, em junho passado, o Spotify anunciou a demissão de 200 funcionários, cerca de 2% de sua força de trabalho. Mas as ambições de Ek não se limitam ao streaming. Em 2020, ele se comprometeu a investir 1 bilhão de euros em startups europeias que buscassem “enfrentar os problemas infinitamente complexos da nossa sociedade”. O investimento mais recente foi de 100 milhões de euros na Helsing, “um novo tipo de empresa de defesa e inteligência artificial”. Seu objetivo? Trazer “funções baseadas em software para as forças armadas”.[4]
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_205 com o título “Ouça bem”.
Essa matéria foi originalmente publicada na London Review of Books.
[1] Em março de 2023, a Hyperion foi adquirida pela Universal Music e, na ocasião, 200 álbuns do catálogo do selo foram para o streaming.
[2] A política de controle de preços dos aluguéis – em vigor há décadas – acabou reduzindo drasticamente a oferta de imóveis para alugar em Estocolmo. Com isso, o Spotify alega que passou a ter dificuldades de atrair jovens talentos de fora da cidade ou da Suécia.
[3] No Brasil, a assinatura custa 21,90 reais desde julho de 2023.
[4] Segundo o anúncio oficial, os equipamentos militares alimentados por inteligência artificial estavam destinados para os exércitos da França, da Alemanha e do Reino Unido.
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