A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
O infiltrado

    Conjunto de imagens captadas pelo agente disfarçado: quando policiais civis roubaram 280 quilos de cocaína da quadrilha no Complexo da Maré, um deles reclamou: “Bando de ladrão fdp” CRÉDITO: FOTOMONTAGEM COM REPRODUÇÕES DA INVESTIGAÇÃO DA POLÍCIA FEDERAL BRASILEIRA

questões criminais

O infiltrado

Como um policial federal levou 25 traficantes internacionais de cocaína à prisão

Allan de Abreu | Edição 209, Fevereiro 2024

A+ A- A

Cristiano Mendes de Cordova Nascimento estava muito à vontade em seu apartamento na Rua Conde de Bernadotte, no Leblon, Zona Sul do Rio, na tarde de 12 de março de 2021. O empresário recebia a visita do seu novo parceiro de negócios, Edmilson Lincoln Jardim Filho. As paredes do apartamento estavam cobertas com fotografias de cavalos de corrida. Mas Nascimento precisava discutir detalhes do negócio que sustentava seu mundo, inclusive algumas dezenas de cavalos que mantinha em vários haras pelo Brasil: os próximos carregamentos de cocaína que seriam enviados para a Europa, via Porto do Rio de Janeiro.

Nascimento, um homem de meia-­idade, estatura mediana e ligeiramente acima do peso, não parecia preocupado com o prejuízo milionário que sofrera com as recentes apreensões da droga remetida ao continente europeu. No total, ele havia perdido 1 676 kg de cloridrato de cocaína, cujo valor, no Brasil, é estimado em 40 milhões de reais. Mas isso era um problema passageiro. Nascimento queria discutir futuras remessas da droga e, para isso, contava com a ajuda decisiva de Jardim Filho, despachante aduaneiro no porto carioca.

Jardim Filho – que os funcionários de Nascimento apelidaram de Xuxa, em razão de seus cabelos loiros e pele clara – oferecera a facilidade mais sonhada por todo traficante de cocaína: burlar o scanner, que varre todos os contêineres antes da entrada no terminal portuário carioca, em busca de drogas. Por esse serviço, Nascimento concordara em pagar 400 dólares (2 mil reais) por quilo de cocaína que Xuxa conseguisse embarcar para a Europa, quando o carregamento total fosse superior a meia tonelada. Se a quantia fosse menor que isso, o valor do quilo subia para 600 dólares (3 mil reais). “Nós entramos pra dentro do porto, tá tudo o.k. pra embarcar, sai a lista pra embarque, você consegue resolver?”, perguntou Nascimento. “Resolvo”, respondeu Jardim Filho.

 

Empolgado, o traficante resolveu contar detalhes do seu negócio ao futuro parceiro. Catarinense de Blumenau, Nascimento disse que atuava no tráfico internacional de cocaína havia dez anos. Fornecia toneladas da droga para grandes compradores europeus, como a máfia calabresa ‘Ndrangheta e o narcotraficante britânico Ryan James Hale, conhecido como Robô, baseado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A cocaína saía dos países andinos, cruzava o Brasil em caminhões e era enviada para a Europa via portos, sempre com a logomarca FedEx em cada tablete de 1 kg. Os europeus pagavam a droga por meio de transferências financeiras a bancos na Bolívia. O dinheiro entrava no Brasil via doleiros. E Nascimento lavava os recursos na compra de imóveis, no investimento em uma transportadora sediada em Santa Catarina e, claro, na aquisição de cavalos de corrida.

Depois de alguns minutos de conversa, Nascimento acionou seu sócio por videoconferência, o também catarinense Lindomar Reges Furtado, conhecido como Israel, radicado em Foz do Iguaçu, no Paraná. Filho de um ex-prefeito do interior de Santa Catarina, Israel já foi preso por contrabando de produtos do Paraguai, sobretudo cigarros. Israel perguntou a Jardim Filho se a Polícia Federal estava trabalhando bastante no Rio. “Não deve tá”, interrompeu Nascimento. “Porque não consegue pegar nós. Eles devem tá se matando porque eles não descobrem quem é nós, eles entendem de tudo!” Todos gargalharam. “A polícia até pode saber de nós, mas não tem prova. […] Como é que vai pegar uma reunião nossa aqui? Entendeu? Não tem como!” Jardim Filho aquiesceu: “Perfeito!”

Nascimento e Israel nem desconfiavam, mas Jardim Filho, o Xuxa, era um personagem fictício, criado por um policial federal que se infiltrou na quadrilha sob o disfarce de despachante aduaneiro. Ao longo de três anos, aconteceram vários encontros como o daquela tarde de março de 2021, aos quais o agente costumava comparecer munido de microcâmeras ou microgravadores. As conversas reproduzidas nesta reportagem foram extraídas do material gravado pelo agente, ao qual a piauí teve acesso.

 

Infiltrado em duas organizações criminosas, Jardim Filho – cujo nome verdadeiro é mantido até hoje em segredo – ajudou na apreensão de 10,8 toneladas da droga no Brasil e na Europa e colocou a Polícia Federal no encalço de 33 traficantes internacionais de cocaína – 25 estão atrás das grades e oito estão foragidos.

Durante esses três anos, o policial esteve no centro de uma operação de vida ou morte. E, em duas ocasiões, esteve a um milímetro de ser descoberto.

 

Por ser próxima do porto, a Rua Sacadura Cabral, no bairro da Saúde, área central do Rio, concentra boa parte dos despachantes aduaneiros interessados em intermediar a importação ou exportação de cargas pelo terminal portuário. Em conversa com alguns despachantes em meados de 2019, agentes da Polícia Federal e da Administração de Repressão às Drogas (DEA, na sigla em inglês), a polícia americana de combate ao narcotráfico internacional, souberam que traficantes ligados à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) procuravam um meio de driblar o scanner dos contêineres no Porto do Rio, pois estavam tendo dificuldades com o rigor da fiscalização no Porto de Santos, no litoral paulista.

 

Os agentes trataram então de espalhar pela Sacadura Cabral a informação de que um despachante aduaneiro – chamado Edmilson Lincoln Jardim Filho – tinha um esquema para burlar o temido scanner. A informação chegou ao traficante Maycon Igor Scoralick, o Russo, que na época ocupava um cargo comissionado na Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ligada ao governo estadual. Em dezembro de 2019, os dois se encontraram num shopping contíguo ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio. Jardim Filho detalhou seu esquema para Scoralick: ele conseguia retirar de dentro do pátio contêineres com cargas legalizadas sem o conhecimento do dono, levá-lo para um galpão da quadrilha nas proximidades, inserir as bolsas com cocaína e reingressar os contêineres no porto, pronto para o embarque à Europa. Tudo isso sem passar pelo scanner.

Quatro meses depois desse contato inicial, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, informada da operação, aprovou a infiltração do policial na quadrilha de Scoralick. Assim surgiu, formalmente, a pessoa física Edmilson Lincoln Jardim Filho, filho de Edmilson Lincoln Jardim e Vilma Jardim, nascido em 20 de dezembro de 1974. Embora o sotaque carioca do policial não deixasse dúvida quanto à sua origem, nos documentos forjados ele era natural de Recife. Com autorização judicial, Jardim Filho ganhou carteira de identidade e passaporte, documentos necessários caso os criminosos decidissem checar seus registros.

Em junho de 2020, no mesmo shopping do aeroporto, Scoralick intermediou uma reunião entre Jardim Filho e dois traficantes: Chendal Wilfrido Rosa, o líder do grupo, e seu braço direito Victor Henrique Tavares da Silva. Nascido em Curaçao, no Caribe, Chendal Rosa integra a No Limit Soldiers (Soldados sem limites), facção criminosa caribenha especializada em assassinatos por encomenda mundo afora. Ele responde a ações penais por narcotráfico, latrocínio, homicídio, roubo e lavagem de dinheiro na Europa e no México.

No fim da última década, Chendal Rosa trocou a Europa pela Baixada Santista, onde se associou ao PCC para mandar cocaína à ‘Ndrangheta e outras organizações criminosas europeias. O traficante de Curaçao disse ao agente infiltrado ter estrutura logística para retirar a cocaína enviada pelo PCC em portos da Bélgica, Holanda, Itália, Espanha e Portugal. Para testar o novo esquema via Porto do Rio, ele fez uma oferta: Jardim Filho ganharia 70 mil dólares (350 mil reais) para enviar 140 kg da droga até Antuérpia, na Bélgica. No fim do encontro, Chendal Rosa entregou ao infiltrado um celular com apenas um aplicativo instalado, o Sky ECC, que, na época, era considerado o mais seguro do mundo, com criptografia avançada e um recurso capaz de apagar remotamente todas as mensagens.

A oportunidade de enviar os 140 kg de cocaína para Antuérpia se materializou em outubro daquele ano. Na tarde do dia 8, um contêiner que seria embarcado em um navio com destino ao porto belga carregado com polipropileno foi sorrateiramente retirado do terminal portuário carioca e levado para um galpão em Bonsucesso, Zona Norte da capital, por uma transportadora contratada pela PF. No galpão, Chendal Rosa, Scoralick e o agente infiltrado romperam o lacre do contêiner, inseriram as bolsas com os tabletes do entorpecente (a droga viera dois dias antes da Baixada Santista) e inseriram novo lacre clonado.

Em seguida, sem que o dono do polipropileno desconfiasse, o contêiner foi levado novamente para o porto sem passar pelo scanner. A direção do porto, bem como a Receita Federal, ambas previamente autorizadas pela Justiça, deixaram o contêiner passar. Cinco dias depois, Jardim Filho recebeu os 70 mil dólares em dinheiro vivo, no lobby do hotel Wind­sor, em Copacabana. Foi sua primeira operação como agente disfarçado. O dinheiro foi entregue à PF e depositado em uma conta judicial. Para não levantar suspeitas da quadrilha, a Polícia Federal não fez a apreensão da droga. Preferiu alertar a polícia belga, que então apreendeu o carregamento em Antuérpia.

Apesar do revés, dois meses depois Chendal Rosa voltou a contratar Jardim Filho, desta vez para a remessa de 508 kg de cocaína. Eram dois contêineres, um para Antuérpia e outro para Valência, na Espanha. A operação se repetiu. Os contêineres foram retirados do porto, levados para Bonsucesso, onde receberam a cocaína e voltaram para o porto burlando o scanner. Jardim Filho recebeu 180 mil dólares (900 mil reais). A droga, de novo, foi apreendida. Uma parte no Porto do Rio, outra parte na Europa. O enredo se repetiria outras duas vezes: 330 kg da droga no fim de dezembro de 2020 e outros 400 kg em junho de 2021. Os dois carregamentos foram interceptados pela PF ainda no Porto do Rio.

O insucesso de quatro operações não despertou nenhuma desconfiança do traficante de Curaçao. Ele atribuiu as apreensões ao trabalho da polícia belga de quebrar a criptografia do Sky ECC, aplicativo que mais tarde encerrou suas atividades. Mas parte da quadrilha, possivelmente membros do PCC em Santos, começou a desconfiar do agente infiltrado. Afinal, os contêineres driblavam o scanner, mas o carregamento nunca chegava ao destino. Certo dia, Chendal Rosa orientou Jardim Filho a não ir a determinado local, sugerindo que, caso fosse, correria risco de vida. “Eles querem foto de você”, disse Rosa, em português, referindo-se aos membros do PCC. A PF suspeita que os traficantes queriam uma imagem de Jardim Filho para repassá-la a algum policial corrupto que pudesse identificá-lo. Para tranquilizar o novo parceiro, o próprio Rosa emendou, na sequência: “Confio em você.” Jardim Filho escapou dessa.

O infiltrado viveu outro momento tenso durante sua missão. No dia 21 de outubro de 2021, ele foi convidado por Victor Silva, o braço direito de Chendal Rosa, para mais uma reunião, desta vez num apartamento localizado no Leme, na Zona Sul do Rio, onde estava Isa, uma traficante do PCC. Ao chegar, Jardim Filho foi minuciosamente revistado por um dos seguranças da mulher. A sorte o salvou. Por mero acaso, naquele dia Jardim Filho resolveu comparecer ao encontro sem as microcâmeras ou gravadores ocultos que costumava levar para registrar os encontros.

Depois da revista, Isa pediu que Jardim Filho colocasse seu celular no modo avião, para dificultar a geolocalização por parte da polícia. Feito isso, sentiu-se segura e contou sua história. Disse ter trabalhado por muitos anos como babá de um dos filhos do casal Marcelo Mendes Ferreira e Karine de Oliveira Campos, conhecidos narcotraficantes baianos radicados em Santos. Quando o casal fugiu para o exterior em 2019, depois de virar alvo da Polícia Federal pelo envio de 5,3 toneladas de cocaína para a Europa, Isa assumiu a gerência do esquema – ou, nas palavras dela, passou a “cuidar do cofre da empresa”. Disse manter relações com o PCC e com “lideranças políticas do Brasil”, sem especificar quais seriam.

A traficante queria contratar os serviços de Jardim Filho para enviar 300 kg de cocaína para o Porto de Le Havre, na França. Negócio fechado, a droga foi inserida em um contêiner com minério de ferro em navio que zarpou para a Europa no início de novembro de 2021. A droga seria apreendida dias depois, no Marrocos, onde o navio fez uma parada antes de seguir para a França. Isa, identificada posteriormente pela PF como a gaúcha Cleide Roseane Boettsche, voltaria a se reunir com Jardim Filho em 25 de janeiro de 2022 no restaurante Assador, no Flamengo, Zona Sul do Rio, a fim de discutir uma nova remessa de cocaína para a Europa. Dessa vez, ela estava acompanhada do ex-marido e da filha adolescente. Disfarçados de clientes na mesa ao lado, um grupo de policiais federais ouviu a conversa e registrou imagens do encontro.

A essa altura, Boettsche já estava flertando com o infiltrado, conforme sugerem mensagens que ela enviou por WhatsApp dias depois do almoço no Flamengo: “Amei ver você”, escreveu Boettsche, antes de continuar a conversa por outro aparelho, “porque este tem fiscal”, escreve, referindo-se ao ex-marido. “Se passa por meu marido e não é mais, aí fica vendo [o celular]. Estamos separados.” Ao todo, a PF apreendeu seis cargas de cocaína do grupo chefiado por Chendal Rosa e Boettsche, somando um total de 1,75 tonelada da droga. Pelos serviços prestados à quadrilha, o policial infiltrado recebeu 640 mil dólares (3,2 milhões de reais). O valor foi depositado em conta judicial.

 

No segundo semestre de 2020, enquanto Jardim Filho estava infiltrado na quadrilha de Chendal Rosa, surgiu entre os despachantes aduaneiros da Rua Sacadura Cabral outro interessado nos seus serviços: Leonardo Serro dos Santos, o Carioca. Agentes da Polícia Federal passaram a segui-lo e descobriram que, em agosto daquele ano, Leonardo Santos chegara ao Rio, procedendo de Curitiba, para um encontro no lobby do hotel Fasano, em Ipanema, com Cristiano Mendes de Cordova Nascimento, o criador de cavalos de corrida. Seu sócio Lindomar Furtado, o Israel, que horas antes viera de Foz do Iguaçu, também estava presente. Não se sabe qual foi o conteúdo da conversa dos três.

Com o auxílio de amigos despachantes, Jardim Filho conseguiu um encontro com Leonardo Santos. Em reunião no hotel Fairmont, em Copacabana, no dia 17 de novembro de 2020, Jardim Filho ofereceu ao traficante o mesmo serviço que prestava ao caribenho Chendal Rosa: retirar do terminal portuário um contêiner com destino à Europa, inserir a cocaína e devolver o recipiente ao porto driblando o scanner. Santos aceitou a proposta de pronto e ambos combinaram de enviar 800 kg de cocaína nas próximas semanas.

Para isso, no entanto, seria necessário formalizar a infiltração policial na Justiça. A PF já havia recorrido à 6ª Vara Federal Criminal do Rio em outubro, mas a juíza Kátia Maria Maia de Oliveira negara o pedido. Entendeu que, até aquele momento, faltavam indícios concretos de que Nascimento, Israel e Santos integravam uma narcoquadrilha. Assim, o delegado Heliel Jefferson Martins Costa refez o pedido, incluindo a informação de que, nos últimos quatro anos, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do governo federal, identificara 261 milhões de reais em movimentações financeiras suspeitas do grupo. Dessa vez, a juíza autorizou a infiltração policial.

Em um segundo encontro, em 24 de novembro, ainda sem autorização judicial, Santos entregou a Jardim Filho um celular com aquele mesmo aplicativo Sky ECC já instalado. Acertaram o envio de 500 kg de cocaína (no lugar dos 800 inicialmente previstos) para Valência, na Espanha. O infiltrado receberia 700 dólares por quilo de droga embarcada. Depois dessa primeira remessa, Santos disse que a quadrilha teria outras 5 toneladas de cocaína prontas para embarque. Mais tarde, em conversa pelo Sky ECC, Santos escreveu: “Irmão, não tem caô, a mercadoria tá aqui [no Rio]. Aqui não tem duas palavras, nem volta na conversa, entendeu meu irmão, aqui é uma coisa só, mercadoria já tá aqui, nós vamos trabalhar.”

A PF solicitou à Justiça autorização para retirar o contêiner do porto, levá-lo ao galpão da quadrilha, inserir a cocaína e devolvê-lo no terminal, à espera do navio com destino à Espanha. A juíza Oliveira, no entanto, tomou uma decisão paradoxal: autorizou o policial infiltrado a receber os valores pela retirada do contêiner do porto, mas, ao mesmo tempo, negou a autorização para que o contêiner fosse retirado do porto para o enxerto da cocaína. “As medidas requeridas pela autoridade policial não encontram amparo legal e, caso deferidas, representariam a facilitação da prática de crime pelo próprio Juízo”, escreveu. A decisão arruinava toda a investigação.

Diante disso, o agente infiltrado tentou ganhar tempo com Santos, inventando desculpas para atrasar a retirada do contêiner do porto. Mas o traficante não quis esperar. Por conta própria, alugou um contêiner e reservou um lugar para o recipiente em um navio com destino a Valência, sem a participação de Jardim Filho. A droga seria inserida no contêiner dentro do próprio terminal portuário mediante o pagamento de um suborno de 200 mil reais para guardas portuários e estivadores. A PF usou essa iniciativa do traficante para reforçar perante a juíza da 6ª Vara que a traficância não dependia exclusivamente da ação de Jardim Filho. O próprio infiltrado, em relatório encaminhado ao delegado Heliel Costa, escreveu: “Este agente infiltrado de forma alguma está induzindo a prática criminosa, ela já está em curso. O que se pretende é justamente, através das medidas judiciais, ter o ‘controle’, fazendo as intervenções devidas, das supostas práticas criminosas.” O delegado encaminhou o conteúdo à juíza. O argumento, entretanto, não convenceu a magistrada.

Santos acabou desistindo de despachar a cocaína por conta própria por não conseguir embarcar o contêiner a tempo, enquanto o Ministério Público corria para salvar a investigação. Recorreu ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região, que concedeu a liminar para que Jardim Filho enxertasse a cocaína nos recipientes. “Fica autorizada eventual prática de crimes, quando forem absolutamente necessários à manutenção do disfarce e ao prosseguimento das investigações”, escreveu em sua decisão a desembargadora Simone Schreiber.

Com a autorização judicial, o infiltrado combinou com Santos o envio de 500 kg da droga para a Espanha em 14 de dezembro de 2020. No fim daquele dia, no entanto, Santos informou a Jardim Filho via Sky ECC que o caminhão com a droga havia sido abordado por policiais civis na saída da favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Detalhe: os policiais só apresentaram 220 kg da droga na 25ª Delegacia de Polícia. O restante foi desviado, segundo Santos disse para o agente infiltrado. “Roubaram 280 [quilos]. Só apresentaram 220. Bando de ladrão fdp”, escreveu o traficante. Em outubro de 2023, o delegado Renato dos Santos Mariano, responsável pela apreensão, e outros três policiais foram afastados do cargo em razão do desvio e passaram a cumprir prisão domiciliar.

(A corrupção policial apareceu em outra ocasião. Em julho de 2021, Nascimento estava em São Paulo para pegar 300 mil dólares com um dos seus doleiros, dinheiro que pretendia investir na compra de um cavalo para disputar um torneio no Texas, nos Estados Unidos. Foi abordado por policiais civis. Em vez de ser preso, foi extorquido. Seis horas mais tarde, o liberaram, mas só depois de aceitar pagar 1 milhão de dólares aos policiais, que nunca foram identificados pela pf. “Foi polícia que me sequestrou”, relatou a um amigo horas depois, em conversa gravada por agentes federais. “Rebentou eu no meio.”)

Oito dias depois do flagrante na favela Nova Holanda, finalmente, o agente infiltrado conseguiu retirar um contêiner do porto e levá-lo em um caminhão alugado pela PF até um galpão na Penha, na Zona Norte. Ali, o pessoal de Santos, apesar da apreensão dos 500 kg, já dispunha de mais 450 kg de cocaína para inserir no contêiner. Jardim Filho estava no local. Acompanhou toda a operação e ainda registrou a ação com uma câmera escondida. Pelo serviço, recebeu 175 mil dólares (870 mil reais). A droga foi interceptada pela PF ainda no Porto do Rio. Santos não se abalou.

Em 8 de janeiro de 2021, a quadrilha embarcou mais 500 kg de cocaína para o Porto de Gioia Tauro, na Itália, com o auxílio de Jardim Filho, que recebeu mais 175 mil dólares pelo serviço (a droga foi apreendida pela polícia italiana, a pedido da PF). Três dias depois, finalmente o infiltrado foi apresentado por videoconferência aos dois líderes do grupo – Nascimento e Israel. A dupla atribuiu as apreensões dos carregamentos na Europa à quebra da criptografia do Sky ECC (dias depois, o agente infiltrado recebeu um celular com outro aplicativo considerado mais seguro pelo bando, chamado 1bc). Nascimento e Israel, descontentes com o trabalho de Santos, disseram que, a partir daquele dia, trabalhariam diretamente com Jardim Filho.

Tudo corria bem até que, em dado momento, o clima começou a ficar pesado porque os subordinados de Nascimento e Israel passaram a desconfiar que Jardim Filho fosse um policial, já que toda a carga enviada à Europa com participação dele acabava apreendida. Em chamada de voz pelo aplicativo Signal, Israel faz o seguinte comentário, ironicamente chamando Jardim Filho de “PF”: “E os meninos lá? Ô, PF, eles estão com medo de você.” Dito isso, Israel riu, Jardim Filho também. O traficante continuou: “Cê tá louco, esses homem fica nervoso. […] Os caras têm medo, entendeu?” Em seguida, Israel, imitando a voz de algum subordinado, diz o seguinte: “Levanta bem esse cara, mano, cê é louco, esse cara é PF.” E completa, ele próprio negando a possibilidade: “Que PF nada, sô!” O infiltrado caiu na gargalhada.

Para dissipar as suspeitas, Jardim Filho propôs a Nascimento e Israel que, em vez de dinheiro, seu pagamento fosse em cocaína, que também seria embarcada à Europa. Era um modo de mostrar que ele também estava disposto a correr riscos em nome da parceria. Israel apoiou a ideia. “Faz isso aí que agora nós vamos entortar de ganhar dinheiro”, respondeu o traficante. Assim, em agosto de 2021, dos 300 kg inseridos em um contêiner com destino a Antuérpia, 35 pertenciam ao policial infiltrado. Algum tempo depois, quando outro carregamento, de 400 kg de cocaína, foi apreendido em Barcelona a pedido da PF, Jardim Filho lamentou a perda do carregamento com um funcionário de Israel: “Não é bom pra ninguém [a perda da droga]. Eu mesmo, meu ganho viria na mercadoria.”

 

Os momentos mais tensos surgiam nas ocasiões em que o agente infiltrado se reunia em ambientes fechados com os integrantes das duas organizações criminosas, seja nas reuniões em lobbies de hotel ou apartamentos, seja nos galpões próximos ao porto onde a cocaína era inserida nos contêineres. O cuidado tinha de ser redobrado, já que as quadrilhas eram violentas. (Em telefonema captado pela PF, a ex-mulher de Nascimento descreve o ex-marido para um interlocutor não identificado na investigação: “Ele vai lá e manda matar.”) Sempre que o infiltrado se reunia com a quadrilha em locais privados, uma equipe com dez a doze policiais ficava à paisana, em carros descaracterizados, nas imediações, pronta para agir caso houvesse algum problema.

Como os policiais não podiam ver o infiltrado em ação, havia duas medidas de segurança. A primeira era a definição prévia de um tempo máximo de permanência do policial dentro do ambiente fechado. Caso esse tempo extrapolasse, os policiais do lado de fora invadiriam o local – e seria o fim da investigação. A segunda medida era, em caso de algum contratempo, Jardim Filho digitar uma senha que, via aplicativo de mensagem, seria enviada aos policiais do lado de fora.

Na reunião no apartamento de Nascimento no Leblon em março de 2021, a tensão tomou conta das equipes de vigilância. O prazo de permanência de Jardim Filho extrapolou e parte dos agentes queria invadir o prédio. O delegado Heliel Costa sugeriu aguardar um pouco mais. Minutos depois, Jardim Filho deixou o prédio sozinho, para alívio da equipe. O infiltrado, já habituado a manter-se tranquilo nesses encontros, estava tão relaxado que, durante a conversa com Nascimento e Israel, se esqueceu de conferir a hora no relógio.

Nascimento e Israel tinham conexões internacionais. Em abril de 2021, eles foram a Dubai, para um encontro com traficantes ligados ao britânico Hale, o Robô. Agentes da DEA acompanharam a reunião, que contou com a presença do jovem traficante uruguaio Sebastián Enrique Marset Cabrera, dono de um currículo exótico, mesmo para um criminoso: fundou uma facção na terra natal inspirada no PCC, o Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), chegou a jogar como meia-armador em um clube da segunda divisão do Paraguai e é apontado como um dos mandantes do assassinato do promotor paraguaio Marcelo Pecci, em maio de 2022. A PF suspeita que Marset Cabrera auxiliava Nascimento e Israel no transporte de cocaína na fronteira com Bolívia e Paraguai.

Ao todo, a PF e as polícias europeias apreenderam 9 toneladas de cocaína da quadrilha de Nascimento e Israel por meio do esquema do agente infiltrado. As remessas renderam pagamentos de 2,57 milhões de dólares (12,8 milhões de reais) a Jardim Filho, sempre em espécie – todo o valor foi depositado em uma conta administrada pela Justiça.

 

Até que ponto se justifica um agente do Estado praticar um crime para combater ou prevenir outro delito, ainda que de maior expressão? O conflito ético é latente desde os primórdios da infiltração policial, que começou na França entre os séculos XVII e XVIII, quando pessoas comuns, os agents provocateurs, eram pagas pela monarquia para ingressar em quadrilhas criminosas, identificar seus membros e detalhar seus crimes. Mas foi nos Estados Unidos que as undercovers operations se tornaram usuais como técnica de investigação policial, primeiro no combate às quadrilhas que burlavam a Lei Seca, de 1920, e, a partir dos anos 1960, na investigação da máfia e do narcotráfico. Entre 1976 e 1981, o agente Joseph Dominick Pistone, do FBI, infiltrou-se em duas das cinco famílias mafiosas de Nova York com o nome falso de Donnie Brasco. Levou à prisão mais de cem criminosos. Na década de 1980, Pistone lançou um livro contando os bastidores da investigação, que anos mais tarde seria adaptado para o cinema com os atores Johnny Depp e Al Pacino.

Pouco depois do enredo bem-sucedido de Pistone, no entanto, uma tragédia trouxe à tona o alto risco de uma infiltração policial. Em 1984, o agente Enrique Camarena, da DEA, infiltrou-se no Cartel de Guadalajara, no México, para descobrir a exata localização de uma plantação de maconha com 1 mil hectares de extensão. A lavoura foi identificada e destruída dias mais tarde pela polícia mexicana, o que desencadeou a fúria do cartel. Camarena foi descoberto, sequestrado, torturado por trinta horas e assassinado com uma broca inserida no crânio. Sua morte brutal acelerou a guerra às drogas do governo de Ronald Reagan.

No Brasil, o debate sobre a infiltração policial surgiu apenas em 1989, quando um projeto de lei do então deputado federal Michel Temer (PMDB) propôs a legalização do instituto. Mas, por não prever autorização judicial, a proposta foi vetada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Somente em 2001, depois que a ONU atualizou as estratégias de combate ao crime organizado na Convenção de Palermo, a lei brasileira passou a prever a infiltração policial mediante aval da Justiça.

Mas a falta de detalhamento das regras (duração da infiltração, necessidade de exaurimento de outros meios de investigação, exigência de relatórios por parte do infiltrado) fez com que a infiltração fosse pouco utilizada, ao menos oficialmente. Um dos raros casos em que o uso dessa estratégia veio a público foi na investigação do assalto à sede do Banco Central em Fortaleza, em 2005, que rendeu 165 milhões de reais aos ladrões. Um agente da PF infiltrou-se na quadrilha e começou a namorar uma parente de Antônio Jussivan Alves dos Santos, o Alemão, líder do bando. Com isso, obteve informações detalhadas do crime que ajudaram a polícia a prender parte do grupo, inclusive o próprio Alemão.

Houve casos em que policiais se valeram da técnica para fins escusos. Em 2003, o então delegado da Polícia Civil paulista Robert Leon Carrel disfarçou-se de narcotraficante judeu, com direito a quipá na cabeça, para prender uma quadrilha que trazia cocaína da Colômbia. Carrel desviou parte da droga apreendida. Demitido da polícia, sua aposentadoria foi cassada. Durante as manifestações populares de junho de 2013, a Força Nacional chegou a infiltrar um dos seus agentes em um grupo com táticas black blocs no Rio, mas descumpriu uma medida elementar: não obteve autorização judicial, razão pela qual a investigação foi anulada.

Naquele mesmo ano, a então presidente Dilma sancionou a lei nº 12850 sobre o combate ao crime organizado. Vigente até hoje, a norma prevê a infiltração policial mediante aval da Justiça, por até seis meses, renováveis por igual período. A PF criou um setor na Diretoria de Inteligência Policial (DIP) apenas para cuidar de infiltração, seja virtual (comum em investigação contra hackers e pedófilos), seja real. A piauí solicitou à PF via Lei de Acesso à Informação o número de operações que se valeram dessa técnica desde a promulgação da lei atual, mas a corporação negou-se a fornecer os números, sob o argumento de que se trata de informação sensível. A reportagem apurou que as operações são raras, devido ao alto risco do infiltrado, mas comuns por meio virtual.

Apesar de reconhecer o avanço da lei brasileira atual, a defensora pública Maria Clara Hage Pereira, especialista no tema, aponta falhas na norma. “Diante da sensibilidade da infiltração, a lei deveria exigir um plano operacional detalhado por parte das polícias, no mínimo”, afirma. “Porque sempre que essa técnica for empregada haverá desobediência ao direito constitucional da privacidade, sem contar ao menos dois riscos latentes: a cooptação do infiltrado pela quadrilha e a morte do infiltrado, caso o disfarce caia por terra.”

 

Em fevereiro de 2022, a PF iniciou os preparativos para deflagrar duas operações e prender os traficantes identificados (devido à infiltração de Jardim Filho nas duas organizações, as duas operações deveriam ser deflagradas no mesmo dia). No dia 2 daquele mês, o infiltrado disse tanto à quadrilha de Nascimento quanto à de Chendal Rosa que iria viajar a passeio para Dubai. Havia um objetivo duplo: preparar sua retirada de campo, já que seu disfarce estava prestes a ser desvendado, e encontrar-se com Leonardo dos Santos, da quadrilha de Nascimento, que estava nos Emirados Árabes de férias com a família. Com ele, tentaria identificar outros integrantes da organização. O infiltrado lembrava que, certa vez, Israel dissera que um advogado brasileiro radicado em Dubai fazia parte do esquema.

“Eu devo dar uma viajada, cara. De­vo dar um pulinho em Dubai lá, mas vai ser passar uma semaninha só e volto”, disse Jardim Filho para Israel. Quando as duas operações foram deflagradas, ambas no dia 15 de fevereiro, o agente já estava nos Emirados Árabes Unidos. Cinco alvos – Cristiano Nascimento, Chendal Rosa, Victor Silva, Maycon Scoralick e Cleide Boettsche – foram presos no Brasil. Israel fugiu pelos fundos do condomínio onde morava, em Hernandarias, no Paraguai, minutos antes da chegada da polícia. A PF suspeita que houve vazamento da informação. Até janeiro, Israel permanecia foragido.

Um dia antes da deflagração das operações, Jardim Filho encontrou-se com Santos no saguão de colunas brancas e douradas em estilo neoclássico do imponente hotel Palazzo Versace, em Dubai, onde o trio estava hospedado. Disfarçados de hóspedes, agentes da DEA circulavam pelo ambiente para garantir a segurança do infiltrado. De Dubai, Santos disse ao policial infiltrado ter planos de ir com a mulher e o filho para as Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, e em seguida para Lisboa (ele tem cidadania portuguesa). Foi o último contato pessoal de Jardim Filho com Santos.

No dia seguinte, com a deflagração da operação, mudou tudo. Em conversa com o infiltrado via aplicativo 1BC, Santos lamentou a operação policial: “Eu tô fodido. Bloquearam as minhas contas. Acabei de ver aqui.” Quando Jardim Filho disse que deixaria os Emirados Árabes, Santos sugeriu que ficasse: “Melhor ficar em Dubai que não tem extradição. Aqui não prende, irmão. Não tem como […]. Todos estão aqui. Brasil não tem acordo com Dubai. E nem Europa”, escreveu o traficante. Antes de se despedir de Jardim Filho, Santos ainda combinou de se encontrar pessoalmente com ele no dia seguinte para coordenar o envio de 5 toneladas de cocaína em um carregamento de frango congelado com destino à Bélgica. (Santos chegou a ser preso em dezembro de 2022 em Abu Dhabi, também nos Emirados Árabes, quando se preparava para ir ao Catar assistir aos jogos da Copa do Mundo. Mas, como o governo brasileiro não fez o pedido de extradição dentro do prazo legal, ele acabou solto 45 dias depois. Está foragido até hoje.)

Encerrada a conversa, faltavam apenas algumas horas para que os advogados dos traficantes presos tivessem acesso ao inquérito das duas operações no Brasil e, assim, soubessem que Edmilson Lincoln Jardim Filho, o Xuxa, era na verdade um policial infiltrado. Depois de desligar todos os telefones por meio dos quais se comunicava com as duas quadrilhas, o policial infiltrado seguiu para outro destino, mantido em segredo pela PF. Procurado sucessivas vezes pela piauí por meio de policiais que participaram das duas operações, Jardim Filho preferiu não dar entrevista, mesmo sem revelar sua fisionomia. Sua verdadeira identidade é conhecida por um grupo muito restrito de policiais, procuradores e juízes.

Nas duas operações, o Ministério Público Federal denunciou 33 pessoas por tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico. A defesa dos réus pediu a anulação da investigação, com o argumento de que, nas primeiras reuniões de Jardim Filho com as quadrilhas de Chendal Rosa e de Cristiano Nascimento, ainda não havia autorização judicial para a infiltração – o que é verdade. Além disso, os advogados alegaram que o policial infiltrado instigara os réus ao crime na medida em que ofereceu facilidades no porto carioca. “Nenhuma organização criminosa possui esse tipo de logística, que conta com o apoio da Polícia Federal e do Poder Judiciário para sua execução, tornando a operação de tráfico internacional de drogas verdadeiramente infalível”, ironizou o advogado Diogo Ferrari ao apresentar um pedido de habeas corpus.

No entanto, nas duas operações, os juízes de primeira instância rechaçaram esses argumentos. Consideraram que as primeiras reuniões do policial com as quadrilhas eram apenas atos preparatórios à infiltração. Afinal, o agente deveria estabelecer contato antes de ganhar a confiança de seus interlocutores criminosos. Os magistrados também rejeitaram o argumento de que as duas organizações só traficaram drogas em razão do apoio do infiltrado. Em sua decisão, o juiz Tiago Pereira Macaciel escreveu: “O agente policial infiltrado limitou-se a oferecer […] a facilidade de exportação de cocaína pelo Porto do Rio de Janeiro, mas […] não os pressionou ou assediou, de qualquer modo, para que cometessem os delitos de tráfico; não participou da internalização da cocaína no Brasil nem teve qualquer influência sobre as operações de armazenamento e transporte da droga até a sua inserção em contêineres destinados à exportação; logo, é manifesto que o policial infiltrado não excedeu os limites da atuação legítima de um agente encoberto no interesse da investigação criminal.”

Encerrados os julgamentos em primeira instância, todos os réus foram condenados. Nascimento pegou a maior pena, de 26 anos de cadeia. Chandel Rosa foi condenado a 22 anos, e seu braço direito Victor Silva, a 21. Como Santos nomeou um defensor mesmo estando foragido, seu julgamento prosseguiu normalmente e resultou numa pena de 18 anos. Scoralick foi condenado a 16, e Cleide Boettsche, a 15 anos. Com exceção de Santos, todos estão presos. Cabe recurso contra todas as condenações. Como continua foragido e não constituiu um advogado de defesa, Israel ainda não foi julgado.

Edmilson Lincoln Jardim Filho, por sua vez, continua trabalhando na PF, mas vive uma liberdade limitada. Até o fim de 2023, estava no exterior, sem previsão de retorno ao Brasil em razão do risco latente de ser descoberto e assassinado. Sua real identidade está dentro de dois envelopes guardados em cofres da Justiça Federal – um na 6ª Vara, outro na 10ª, onde tramitaram as duas investigações. O documento diz que o policial aceitou, apesar dos riscos, infiltrar-se nas duas quadrilhas. Não se sabe se fez plástica, se tem família, nem se toparia voltar a trabalhar como um agente infiltrado.

Allan de Abreu
Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)

Leia Mais

questões criminais

PF suspeita que senador Weverton seja sócio oculto do Careca do INSS

Parlamentar do PDT do Maranhão foi alvo da Operação Sem Desconto nesta manhã

18 dez 2025_11h11
questões criminais

Detalhes de uma delação inflamável

Beto Louco, investigado em fraude dos combustíveis, quer relatar à PGR pagamentos pedidos a Alcolumbre para bancar show de Roberto Carlos – uma parte dos milhões que diz já ter desembolsado para o senador

13 dez 2025_17h53
questões criminais

O caminho do mercúrio

Estudo mapeia as rotas que redes criminosas usam para contrabandear o metal usado no garimpo ilegal na Amazônia

30 out 2025_10h01
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30