Galeria de mitos: a partir do assassinato de John Lennon, em 1980, começaria a pairar sobre a cabeça de cada ídolo a ameaça: “Cuidado, você pode estar sob a mira de um fã” CRÉDITO: KLEBER SALES_2024
A Big Sister do pop
Culto a Taylor Swift é uma versão distópica das venerações musicais ao longo da história
Roberto Muggiati | Edição 209, Fevereiro 2024
As novas gerações, batizadas com as letras terminais do alfabeto – X, nascidos entre 1965 e 1981; Y, ou millennials, nascidos entre 1982 e 1996; e Z, nascidos entre 1997 e 2012 – cresceram na era da internet embaladas pelas redes sociais e todas as suas sequelas. Para a maioria, a compreensão do mundo se tornou praticamente impossível, a mera apreensão da realidade uma tarefa difícil. Muitos vacilam até antes de clicar na opção “não sou um robô”. Ingressamos em tempos distópicos. Conceituando: distopia, segundo o dicionário, é um lugar ou estado imaginário em que o indivíduo vive em condições de extrema opressão, desespero ou totalitarismo.
O clássico da distopia é 1984, o livro de George Orwell, publicado em 1949. Nele, a figura de um irmão mais velho, o Big Brother, vigia e controla 24 horas por dia a vida de cada cidadão, do qual exige total submissão às regras repressivas do Estado. Até o pensamento é policiado, na maneira de se expressar de cada indivíduo, que deve aderir ao newspeak – a novilíngua. Em 1999, a televisão holandesa criou um reality show inspirado no mundo distópico de Orwell. O sucesso foi tão grande que tevês do mundo inteiro compraram o formato. O Big Brother Brasil começou em 2002 e logo se tornou um dos campeões de audiência da Rede Globo. Outro dado sintomático da adesão à distopia: nos anos da pandemia no Brasil, os livros 1984 e A revolução dos bichos, também de Orwell, ocuparam as listas dos mais vendidos, muitas vezes em primeiro lugar.
Foi nesse novo quadro social que se formou o culto a Taylor Swift. De certa forma, a cantora ocupa o lugar de uma irmã mais velha benfazeja. Atuando na contramão do Big Brother controlador e repressivo, ela vela pelo bem-estar e felicidade dos fãs, como uma Big Sister protetora e afetuosa. Além de atrair para o seu entorno milhões de pessoas com o intimismo de suas canções autobiográficas, Swift vem tecendo com elas uma trama de cumplicidade por meio de uma série de artifícios, como o culto cabalístico de suas datas pessoais, o 13 do dia e o 1989 do ano do seu nascimento, suas postagens nas redes sociais e as pulseiras da amizade. No polo oposto de divas do passado – como Greta Garbo, com seu brado de guerra “Me deixem em paz” –, Swift se faz sempre transparente e pede: “Não me deixem nunca.”
Outro contraste marcante de época: os hippies se definiam como We are the people our parents warned us against (Nós somos as pessoas que nossos pais nos mandaram evitar), num tempo em que pais e filhos viviam em guerra permanente. Já os swifties contam com o apoio irrestrito da família na sua dócil idolatria.
Os dados vitais da estrela: nasceu Taylor Alison Swift, em 13 de dezembro de 1989, em Reading, Pensilvânia. Descendente de três gerações de presidentes de banco, seu pai, Scott Kingsley Swift, é consultor financeiro do banco de investimentos Merrill Lynch. Sua mãe, Andrea, trabalhou como executiva de marketing de um fundo de investimentos. Deu à filha um nome de gênero neutro na crença de que isso a ajudaria numa carreira empresarial de sucesso. Atirou no que viu e acertou no que não viu, porque o nome foi inspirado no cantor de rock James Taylor… Taylor Swift tem um irmão mais moço, Austin, que estudou na Universidade de Notre Dame. Um detalhe curioso: ela passou os primeiros anos de vida numa fazenda onde eram cultivados pinheiros de Natal. Cresceu, portanto, sob o signo de Papai Noel. John Lennon se autoproclamava “herói da classe operária”. Taylor Swift pode ser vista como uma autêntica “heroína da classe média”.
Tecnicamente, é hoje uma bilionária, com a fortuna pessoal calculada em torno de mais de 1 bilhão de dólares. Um patrimônio construído com cada nota de sua música, cada letra de suas canções. O segredo de sua arte? Cito da salada mista preparada por vários críticos e servida pela Wikipédia:
A música de Swift consiste principalmente em elementos de pop, synth-pop, country, country pop e rock. Seus trabalhos posteriores se baseiam em gêneros como indie folk, rock alternativo, R&B [rhythm and blues], EDM [eletronic dance music], hip-hop e trap. Swift se descreveu como uma artista country até o lançamento de 1989 (2014), que ela caracterizou como seu primeiro “álbum sonoramente pop”.
A revista Rolling Stone escreveu: “[Swift] pode ser tocada na estação country, mas ela é uma das poucas estrelas do rock genuínas que temos hoje em dia.” Segundo o New York Times, “não há muito na música de Swift para indicar country – algumas batidas de banjo, um par de botas de caubói usadas no palco, um violão deslumbrante –, mas há algo em sua mescla de firmeza e vulnerabilidade que é exclusivo de Nashville”. O jornal inglês The Guardian escreveu que Swift “arranca a melodia com a eficiência impiedosa de uma fábrica pop escandinava”.
Será que ela é tudo isso mesmo? Taylor descreveu sua sexta turnê, chamada The Eras Tour, como “uma jornada por todas as eras musicais de minha carreira”. Primeira excursão depois de cinco anos, cobrirá o mundo até 8 de dezembro de 2024 com 71 apresentações na América do Norte, 13 na América Latina, 10 na Ásia, 7 na Oceania, 50 na Europa, num total de 151 shows.
Num ano horrível para a humanidade, Taylor Swift teve o seu annus mirabilis coroado ao ser escolhida pela revista Time como “A Pessoa do Ano”, com direito a uma caprichada reportagem de capa. Alguns destaques do texto, escrito por Sam Lansky:
Este foi o ano em que ela aprimorou sua arte – não apenas com a música, mas na posição de uma contadora de histórias magistral da era moderna. O mundo, por sua vez, observou, clicou, gritou, dançou, cantou com ela, se deslumbrou, seguiu em caravanas até estádios e salas de cinema, deixou que ela criasse a trilha sonora de suas vidas. […] Existem pelo menos dez cursos universitários dedicados a ela, inclusive um em Harvard; a professora Stephanie Burt disse à Time que planeja comparar a obra de Swift com aquela do poeta William Wordsworth. […] Contar histórias é tudo o que ela sempre fez. […] Talvez este seja o verdadeiro efeito que Taylor Swift causa: ela dá às pessoas, particularmente a garotas, condicionadas a aceitar rejeição, abuso psicológico e físico de uma sociedade que trata suas emoções como inconsequentes, permissão para acreditarem que sua vida interior tem importância.
E numa daquelas declarações categóricas típicas da Time: “Ela é a última monocultura a sobreviver em nosso mundo estratificado.”
A revista explicou o critério da escolha:
Todo ano contém luz e trevas; 2023 foi um ano com uma dosagem significativa de escuridão. Num mundo dividido, em que muitas instituições estão falindo, Taylor Swift achou um meio de transcender fronteiras e se tornar uma fonte de luz. Ninguém mais no planeta é hoje capaz de comover tantas pessoas tão bem. A conquista desse feito é algo que geralmente creditamos ao alinhamento dos planetas ou ao destino, mas dar exagerado crédito aos astros equivale a ignorar a capacidade e o poder de Taylor. […] Enquanto sua popularidade foi crescendo ao longo das décadas, este é o ano em que Swift, aos 33 anos, alcançou uma espécie de fusão nuclear: combinando arte e comércio para liberar uma energia de força histórica. Ela conseguiu isso entregando aquilo que sabe fazer melhor do que todo mundo, entretendo e escrevendo canções que se conectam com as pessoas.
Swiftie veio logo atrás de rizz na eleição da palavra do ano pelo Dicionário Oxford, o que só valoriza a cantora ainda mais. Rizz é uma corruptela da internet para a palavra “carisma” – qualidade que ela possui mais do que qualquer outra pessoa.
Para aqueles que, como eu, escrevem sobre música, é muito difícil “explicar” Taylor Swift: ela mesma conta sua história melhor do que ninguém, de um ponto de vista privilegiado.
A idolatria devotada a Taylor Swift, com fãs acampados durante dias à porta dos estádios e movendo mundos e fundos para conseguir um ingresso para o show, é algo que espanta. Mas não tem nada de inédito.
Quando comecei a escrever este texto sobre a devoção dos fãs de Taylor Swift, uma amiga sugeriu que eu evocasse os fanatismos musicais do passado, voltando até a época de Frank Sinatra e Elvis Presley, entre os anos 1940 e 1960. Mas me dei conta de que tudo começou bem antes: em meados do século XIX, com a lisztomania. Os concertos do pianista húngaro produziram tamanha histeria nas plateias europeias que a onda de entusiasmo foi chamada “febre de Liszt”. Algo equivalente só seria visto mais de um século depois, com o fanatismo em torno dos astros de rock – uma analogia tão flagrante que Ken Russell, o diretor de Tommy (baseado na ópera-rock da banda The Who), decidiu realizar Lisztomania (1975), o principal de seus filmes sobre o culto popular aos músicos eruditos.
Também o Brasil foi agitado, no século XIX, por dois surtos notáveis de idolatria. Um deles em torno de Maria Baderna, prima ballerina assoluta do Teatro alla Scala de Milão, que se exilou no Brasil com o pai, médico e músico, depois que o movimento republicano pela Unificação da Itália foi sufocado. Aos 21 anos, ela desembarcou no Rio de Janeiro em 1849, aceitando um convite para se apresentar com sua companhia no Theatro São Pedro de Alcântara (atual Teatro João Caetano), no Rio de Janeiro. Logo incorporou danças afro-brasileiras, como o lundu e a umbigada. Ela participava dessas danças ao ar livre em locais como o Largo da Carioca, com os próprios escravizados. Um escândalo para a sociedade escravagista e sexofóbica do Segundo Império.
Aos poucos, conquistou um séquito de fãs ardorosos, chamados de baderneiros. (Ainda em seu tempo de vida, a palavra “baderna” entraria para o dicionário como sinônimo de algazarra, tumulto e confusão.) Os baderneiros chegavam a extremos, como desatrelar os cavalos da diva e puxar eles mesmos a sua carruagem. Ou a homenageavam não com aplausos protocolares, mas com a “pateada”, batendo compassada e ruidosamente com os pés no assoalho dos teatros.
Maria Baderna brilhou nos palcos até 1871. Depois, dedicou-se a dar aulas de dança para moças até 1889. Morreu de câncer em 1892, aos 63 anos, e foi sepultada no cemitério carioca de São Francisco Xavier, no Caju. Do casamento com o maestro Gioacchino Giannini – de quem enviuvou aos 34 anos – deixou dois filhos e duas filhas.
Outro músico idolatrado no século XIX brasileiro foi o pianista e compositor americano Louis Moreau Gottschalk, considerado na Europa um sucessor de Chopin, mas cujo espírito nômade o levou a uma persistente turnê mundo afora. Em cada porto onde atracava, o pianista encantava não só as plateias, mas também os corações femininos, o que o obrigava às vezes a fugir às pressas da cidade, acossado por um marido ciumento ou pai ultrajado. Gottschalk também sabia seduzir povos e poderosos com sua música, compondo variações em torno de seus hinos pátrios. Fascinado pelo tema de Francisco Manuel da Silva, compôs a Marcha solene brasileira e produziu sua Grande fantasia triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, op. 69.
Adepto dos concertos de proporções gigantescas, iniciados por seu mentor Berlioz, Gottschalk não se restringiu às metrópoles, mas levou sua música às cidades de fronteira, aos campos de mineração e até às frentes de batalha da Guerra de Secessão. Numa turnê de catorze meses pela América do Norte, chegou a fazer quatrocentas apresentações, cobrindo 64 mil km de diligência, trem e barco a vapor.
Nascido em Nova Orleans, completou 40 anos cinco dias depois de desembarcar no Brasil, em maio de 1869. No Rio, encontrou a atmosfera e os recursos ideais para encenar seu primeiro “concerto monstro”, com dezesseis pianos tocados por 31 pianistas e duas orquestras sob sua regência. Obtendo de Pedro II jurisdição sobre as bandas do Exército, da Marinha e da Guarda Nacional, reuniu 82 tambores, 16 bombos, 55 cordas, 6 flautas, 11 flautins, 65 clarinetas, 60 trompetes, 70 trombones, 55 bombardinos e 50 tubas e trompas, agrupados em 9 bandas – um total respeitável de 650 músicos para os quais Gottschalk passou noites seguidas com onze copistas preparando as partituras. Em seus registros de viagens, reunidos em Notes of a pianist, ele descreveu: “Corro de um quartel para outro. Sou uma pilha voltaica sinfônica; uma máquina a vapor transformada em homem. Se não enlouquecer, não será culpa minha, nem de meus soldados. Meu quarto é um cafarnaum, meu coração um vulcão, minha cabeça um caos!”
O grand finale do concerto de 24 de novembro no Theatro Lyrico Fluminense foi a Marcha solene brasileira, feita para a ocasião e dedicada a dom Pedro ii. Composta para orquestra e banda marcial, incluía o efeito espetacular de salvas de canhão. Primeiro a usar o artifício, Gottschalk antecipou em treze anos a célebre Abertura 1812, de Tchaikovsky. O sucesso foi tão grande que motivou um novo espetáculo, dois dias depois. Gottschalk tocou algumas peças ao piano antes de sofrer um colapso em pleno palco. Seu esforço agravou uma infecção abdominal e ele morreu ao nascer do sol de 18 de dezembro de 1869. Seu enterro, no dia seguinte, um domingo, foi um dos maiores na história do Rio de Janeiro. O cortejo formava uma longa serpente de massa humana da Sociedade Filarmônica Fluminense, no Centro da cidade, até o Cemitério São João Batista, em Botafogo. Seus restos mortais foram depois trasladados pela família para Nova York.
No início do século XX, a música ganhou um efeito multiplicador com a gravação fonográfica. Um dos ídolos que se beneficiaram da nova tecnologia foi o tenor italiano Enrico Caruso (1873-1921), cultuado por uma multidão de fãs em seu curto tempo de vida. Sua interpretação de Vesti la giubba (Veste a fantasia), da ópera Pagliacci, em 12 de novembro de 1902, foi a primeira gravação na história a vender 1 milhão de cópias. Entre as cantoras, no mesmo período, destacou-se a soprano australiana Nellie Melba (1861-1931), que dominou a cena lírica a partir do Covent Garden de Londres e, entre suas fãs, contava com ninguém menos do que a rainha Vitória. Nada eterniza melhor um artista do que uma iguaria célebre: no jantar de comemoração do seu sucesso em Lohengrin, o lendário chef francês Auguste Escoffier, do Hotel Savoy, em Londres, criou a sobremesa Pêssego Melba em homenagem à cantora.
Nos anos 1920, os discos de 78 rpm (rotações por minuto) alcançaram vendas fabulosas. As campeãs de vendagem eram as cantoras de blues. Bessie Smith (A Imperatriz do Blues), ainda na era acústica, em 1923, vendeu 800 mil cópias da sua primeira gravação, Downhearted blues. A evolução para a gravação elétrica aumentou a qualidade e a vendagem dos discos. Bessie se dava ao luxo de viajar com sua trupe num vagão de trem exclusivo de dois andares com 30 metros de comprimento. Em seus discos, Bessie e Ma Rainey eram acompanhadas pelos melhores músicos de jazz da época, como os trompetistas Louis Armstrong e King Oliver.
A era do swing colocou em relevo as big bands e seus líderes solistas, como Glenn Miller, Benny Goodman e Tommy Dorsey. Mas eles não podiam prescindir dos seus crooners. Frank Sinatra tinha 24 anos quando começou a cantar na banda de Tommy Dorsey em novembro de 1939. Gravou mais de quarenta canções no primeiro ano. Em maio de 1941, já liderava as pesquisas de melhor cantor. Os shows das grandes orquestras se deslocaram dos auditórios das rádios para as mais espaçosas salas de cinema, como o Paramount Theatre, na Times Square, com seus 3 664 assentos. A estreia de Sinatra ali, em dezembro de 1942, quase abalou as estruturas do edifício. Nascia o fenômeno das bobby soxers, garotas adolescentes que usavam meias soquete e eram fanáticas por Sinatra. Os agentes do cantor cobravam dele total interação com as devotas, distribuindo autógrafos e posando para fotos. Brotaram pelos Estados Unidos milhares de fã-clubes do cantor, que recebia toneladas de cartas, religiosamente respondidas por seus funcionários, sempre acompanhadas de uma foto autografada.
Sinatra explicava o seu sucesso: “É muito simples: vivíamos os anos da guerra, havia muita solidão e eu era o garoto de cada drugstore da esquina, o garoto recrutado para a guerra.” Na verdade, Sinatra foi considerado incapaz para o serviço militar por causa de um tímpano perfurado ao nascer: bebê de 6,1 kg, teve de ser arrancado a fórceps do ventre da mãe. Nas fichas do Exército, constava, porém, que ele “não era aceitável do ponto de vista psiquiátrico, por causa de sua instabilidade emocional”. De qualquer modo, no front interno e participando de shows para as tropas, Sinatra foi um grande trunfo moral para o esforço de guerra.
Desmistificando a suposta frieza do crítico de música, vai aqui um toque pessoal. Na noite de 26 de janeiro de 1980, sábado, vibrei como poucos ao assistir Sinatra ao vivo pela primeira vez. Uma das condições que ele impôs era cantar para um público de não menos do que 60 mil pessoas. Lá estavam 175 mil, comprimidas nas arquibancadas do Maracanã, mas uma catástrofe climática ameaçava a realização do espetáculo. Um temporal inclemente impedira a passagem de som – os técnicos não queriam molhar os microfones, os violinistas não queriam arruinar seus Stradivarius –, e Sinatra avisara que, se a chuva não parasse até as oito da noite, ele voltaria para o hotel.
O palco, montado no centro do gramado, era cercado por 5 mil cadeiras reservadas para os VIPs – entre os quais eu me incluía, como editor da revista Manchete. A sete minutos do prazo fatal, a chuva parou e um céu coberto de estrelas se abriu sobre o maior estádio do mundo. Quando Sinatra desceu pela primeira vez do palco para cantar junto à seleta plateia do gramado, eu o vi se aproximar de mim, microfone na mão, e iniciar minha canção favorita dos irmãos Gershwin, Someone to watch over me (Alguém que cuide de mim). Que mais podia eu pedir a Deus, em quem passei até a acreditar naquele momento fugaz?…
Em 1954, o epicentro da canção americana se deslocou para Memphis, no Tennessee, no coração do Sul dos Estados Unidos. Chofer de uma companhia de eletricidade, Elvis Aaron Presley, de 18 anos, estacionou na hora do almoço diante de uma pequena gravadora, a Sun Records, e registrou duas canções num acetato de 10 polegadas. Pagou 4 dólares e saiu dali com o único exemplar do primeiro disco de Elvis Presley na mão. Era sábado, e a secretária que fez a gravação anotou o endereço de Elvis. Ela sempre ouvia Sam Phillips, o dono da gravadora, dizer o tempo todo: “Se eu encontrasse um branco com a musicalidade e o sentimento de um negro eu faria 1 bilhão de dólares!” Ela achou que Elvis era aquele homem.
Das primeiras gravações para a Sun a um contrato exclusivo com a RCA foi um pulo, e Elvis emplacou seu primeiro hit em janeiro de 1956, com Heartbreak Hotel. Sinatra brilhou nos anos da era do rádio, Elvis projetou sua imagem na era da tevê. Em 1973 tornou-se o primeiro artista solo a ter um show transmitido pela televisão para várias partes do mundo, Aloha from Hawaii. Sinatra era The Voice, Elvis, The Pelvis, por causa da ginga sensual dos quadris. Ambos também fizeram carreira no cinema: Sinatra com mais de cinquenta filmes, Elvis com trinta. Os filmes de Elvis eram geralmente veículos para divulgar a sua música, ao passo que Sinatra se impôs como um dos galãs e grandes atores dramáticos de Hollywood. Embora não tivesse o physique du rôle, sobrava-lhe esprit de corps.
No auge da fama e da fortuna, Elvis teve que abrir mão da carreira para um gesto patriótico: foi prestar o serviço militar na Alemanha, onde conheceu uma adolescente, Priscilla, filha de militar, que se tornaria sua única esposa oficial e lhe daria a única filha. Priscilla é retratada num filme recente de Sofia Coppola como uma jovem que sofreu abuso psicológico.
Elvis reinou no período fugaz do rock‘n’roll, quando rapazes e moças executavam as mais elaboradas acrobacias e cambalhotas em suas danças, superados no início dos anos 1960 por ritmos mais letárgicos como o twist, o hully-gully e o calipso. Foi nesse vácuo que surgiu o rock, música para ser ouvida, que culminou com a beatlemania em 1964. A nova onda não se restringia à invasão britânica dos Beatles, Stones, Yardbirds, Animals e The Who, havia também a contrapartida americana com a santíssima trindade dos J – Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison –, mortos entre setembro de 1970 e julho de 1971, todos aos 27 anos. E bandas de som multifacetado como Jefferson Airplane, Grateful Dead, Beach Boys, Creedence Clearwater Revival, The Band e muitas mais.
Um segundo Elvis – a antítese daquela fúria rebelde – reencarnou para outra faixa de público – o de Las Vegas –, balofo e suarento, com vistosos macacões brancos cravejados de lantejoulas, cantando baladas xaroposas como Love me tender, até a morte súbita, de parada cardíaca, aos 42 anos, na sua mansão de Memphis, chamada Graceland, com uma polifarmácia de catorze medicamentos no organismo. Elvis foi encontrado desmaiado, sentado na privada com um livro sobre o Santo Sudário, e morreu a caminho do hospital.
Nascido nas lonjuras de Duluth, Minnesota, Robert Allen Zimmerman adotou o nome artístico de Bob Dylan e foi tentar a sorte tocando folk nos bares do Village, em Nova York. Conseguiu contrato com a Columbia aos 20 anos e gravou seu primeiro lp, Bob Dylan, uma prensagem de 4,2 mil cópias com custo de produção de 403 dólares. Nada aconteceu. Mas, em 1963, de repente, Dylan estourou nas paradas com o single Blowin’ in the wind, que logo se tornou, ao lado de We shall overcome, um dos hinos do movimento pelos direitos civis.
Discreto, Dylan não chegou a gerar uma dylanmania, mas seu lado intelectual provocou uma dylanologia. Em 1971, publiquei um texto na revista Fatos & Fotos que dizia o seguinte:
De repente a dylanologia se transformou num pesadelo, começou a tomar forma física e a ameaçar a intimidade e a segurança do cantor. Ela se encarnou na figura de Alan Jules Weberman, 24 anos, cujas proezas incluem espionar de luneta a casa de Dylan e revirar toda manhã sua lata de lixo em busca de material inédito. Nos últimos anos, Weberman mentiu, trapaceou, chantageou e roubou para conseguir os itens que hoje ostenta em sua casa de Nova York no que chamou de Os Arquivos de Dylan.
Em 7 de junho de 1988, Dylan começou sua Never Ending Tour, que prosseguiria por trinta anos, com uma média de cem apresentações por ano. Seu show de número 3 mil da turnê interminável foi em 19 de abril de 2019 em Innsbruck, na Áustria. Em 2020, as apresentações previstas para o Japão e os Estados Unidos foram canceladas devido à pandemia de Covid-19. Em setembro de 2021, Dylan anunciou uma nova turnê, Rough and Rowdy Ways World Wide Tour, que se estenderia de novembro de 2021 até 2024.
Em 2016, o Prêmio Nobel de Literatura foi concedido a Bob Dylan “por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”. Segundo o New York Times, Dylan, aos 75 anos, “é o primeiro músico a receber a honraria, e sua premiação talvez seja a escolha mais radical na história desde a criação do Nobel em 1901”. Ao retomar sua turnê interminável no vigor dos 82 anos, Dylan – por sua generosidade artística – será candidato não só ao Livro dos Recordes, mas também à canonização pelo Vaticano (aliás, certa vez ele deu um show para o papa João Paulo II em Bolonha).
Morei três anos na Inglaterra. Cheguei em 1962 a uma Londres ainda vitoriana, saí em 1965 da Swinging London, uma cidade transformada por uma revolução cultural sem precedentes, atingindo todas as áreas de atividade, do cinema (a nouvelle vague britânica) ao teatro (com as peças dos angry young men), da nova moda (com as lojas de Carnaby Street e a minissaia de Mary Quant) ao florescimento da imprensa satírica e, acima de tudo, o rock britânico. Conheci os Beatles em sua versão juvenil de peões de xadrez, com seus terninhos e cabelos pajem. Lamentei perder os Beatles da explosão psicodélica pós-Sgt. Pepper’s – eu já tinha voltado ao Brasil para minha longa peregrinação por revistas como Manchete e Veja.
A geração de Woodstock viveu os anos da utopia. Por algum tempo, o Poder Jovem acreditou que seria capaz de implantar a justiça social no mundo. Os movimentos Women’s Lib e o Black Power surgiam com força para combater o machismo e o racismo. O portfólio ideológico-cultural daqueles jovens vinha da leitura de livros: a resistência pacífica aprendida em A desobediência civil, de Henry David Thoreau; a viagem ao Oriente guiada por Hermann Hesse, a abertura da mente por As portas da percepção, de Aldous Huxley (que inspirou o nome do grupo The Doors), o feminismo por O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, e A mística feminina, de Betty Friedan, a revolução socialista por Os condenados da terra, de Frantz Fanon.
O jovem dos anos 1960 queria ficar bem, em paz e amor com todos. Nas gerações seguintes a maioria queria se dar bem, de preferência passando a perna no próximo. (No Brasil viralizou um anúncio de uma marca de cigarro que ficou conhecido como a Lei de Gerson, interpretado pelo craque campeão do tri, que ordenava “levar vantagem em tudo”.) A virada começou em 1980 com o oposto dos hippies, os yuppies (young urban professionals), carreiristas e monetaristas, magistralmente descritos por Tom Wolfe no romance A fogueira das vaidades. Vieram juntos um novo século e um novo milênio, e a utopia foi deixada para trás. Seu fim já havia sido pontualmente decretado por John Lennon uma década antes na canção God, com o refrão The dream is over e corroborado pela entrevista à revista Rolling Stone proclamando que “O sonho acabou”.
Ironicamente, um dos episódios que contribuíram involuntariamente para essa virada teve um dedo dos Beatles: as chacinas em Los Angeles conhecidas como o Caso Tate-LaBianca, cometidas pelo bando de “hippies do mal”, comandado por Charles Manson. Na noite de 9 de agosto de 1969, a atriz Sharon Tate, mulher do cineasta Roman Polanski, grávida de oito meses, três convidados e o caseiro foram mortos a facadas em sua casa pelos seguidores de Manson, que escreveram com sangue nas paredes slogans incitando a um conflito racial. No dia seguinte, também em Los Angeles, foram mortos Leno e Rosemary LaBianca, segundo o mesmo modus operandi. Manson interpretou equivocadamente a canção Helter skelter, do Álbum Branco dos Beatles, como se fosse uma convocação de uma guerra apocalíptica entre brancos e negros. Creditada à dupla John Lennon e Paul McCartney, na verdade a canção foi composta totalmente por Paul McCartney, que queria gravar a música mais ruidosa e caótica do rock – e conseguiu muito mais do que isso.
A prova mais visceral do fim do sonho viria em dezembro de 1980 com o assassinato de John Lennon pelo fã Mark David Chapman. Esse episódio radical veio destacar toda a promiscuidade e – por que não? – a periculosidade da relação entre fã e ídolo. O laudo psiquiátrico revelou que Chapman queria se suicidar, mas não tinha coragem de fazê-lo. Projetou-se então mentalmente na figura do ídolo e matou Lennon como se estivesse matando a si mesmo. A partir daí, começaria a pairar sobre a cabeça de cada ídolo a ameaça: “Cuidado, você pode estar sob a mira de um fã.”
O ferino Fellini dizia que o rock era um eletrodoméstico. Superado o trauma da morte de Lennon, o rock continuou sendo a trilha sonora da juventude; até no Brasil ele brotaria nas principais cidades sob a sigla BRock. Novas bandas (Nirvana, U2, Oasis) deixavam sua marca, grandes nomes rolavam em suas megaturnês (Rolling Stones, Paul McCartney, Eric Clapton, Pink Floyd, Madonna) e multidões eram atraídas por megaeventos como o Rock in Rio, iniciado em 1985.
Quem reinou neste período foi um negro com a musicalidade e o sentimento de um negro que ganhou milhões com sua música: Michael Jackson. Ainda hoje, quinze anos depois de sua morte, seu álbum Thriller, de 1982, continua sendo o mais vendido de todos os tempos, com mais de 100 milhões de cópias. Menino-prodígio numa família de sete irmãos e três irmãs, adestrados como focas para o sucesso por um pai repressor, Michael se tornou o megastar do seu tempo. Mas tinha problemas com a sua negritude, a ponto de submeter seu corpo a várias mutações/mutilações até se tornar uma nova criatura. Sua sexualidade também era envolta em mistério, com acusações de abuso e pedofilia, encarou até um estranho casamento de dois anos com a filha única de Elvis Presley, Lisa Marie.
Como Elvis, Michael Jackson morreu cedo, de parada cardíaca, em 2009, aos 50 anos, em Los Angeles, resultado de uma overdose dos medicamentos propofol e benzodiazepina. Assolado por dívidas colossais, ele iniciaria dali a três semanas uma megaturnê com cinquenta apresentações em Londres – mais de 1 milhão de ingressos esgotaram em menos de duas horas.
Também guardo em minha memória afetiva os detalhes dos três encontros presenciais que tive com o ídolo, ao longo de três décadas.
* Em 1974, como editor da revista Manchete, no Rio, recebi a visita de um insólito grupo de cinco adolescentes negros com vastas cabeleiras afro. Michael destacava-se entre os irmãos Jackson.
* Em 1984, viajei a convite da sua gravadora até Jacksonville, na Flórida, para assistir a um dos primeiros shows da Victory Tour. Michael, no auge do sucesso pós-Thriller como um dos maiores vendedores de discos do planeta, dava uma força para os irmãos, que o acompanhavam. O espetáculo me impressionou pelo domínio de Michael sobre a plateia e por sua grandiosidade. A pirotecnia que marcava cada final de apresentação excedeu em muito à famosa queima de fogos do Réveillon carioca.
* Em 1996, a uma quadra de minha casa em Botafogo, Michael Jackson gravou o clipe da canção They don’t care about us (Eles não se importam conosco) na favela carioca Santa Marta. Música de protesto em defesa das crianças, sua letra agressiva causou polêmica, gerando até acusações de antissemitismo. James Hunter, da revista Rolling Stone, escreveu que o cantor pop se mostrou aqui “mais combativo do que nunca”. Em 2010, um ano depois da morte de Michael, uma estátua de bronze em tamanho natural, do escultor Ique Woitschah, foi erguida na pracinha que leva o seu nome e o mostra como se estivesse velando pela comunidade do morro.
No mesmo ano, eu pagava o mico, tentando imitar seu passinho famoso na homenagem global pela internet (o leitor pode ver no YouTube em Muggi’s tribute to Michael Jackson, está lá até hoje e me sobreviverá). E, ainda, por uma dessas anedotas do destino, eu me vi em 2022 mergulhando fundo no complexo e torturado universo do cantor, ao traduzir Moonwalk: a autobiografia, de Michael Jackson (editora Estética Torta) – um mistério que não entendi até hoje: por que o livro, publicado em 1988, levou tanto tempo para chegar ao Brasil?
O canto da nossa época é rico em divas trágicas. Maria Callas na ópera, Edith Piaf na chanson, Billie Holiday no jazz. No rock, quem interpretou o papel à perfeição foi a inglesa Amy Winehouse. Ela não só resenhou sua miséria nas canções autobiográficas como a desfilou pelos palcos e turnês do mundo, esquecendo as letras, perdendo a voz e caindo inconsciente no meio de muitos shows.
Posso dizer que vivi com Amy uma experiência sincrônica em sua turnê brasileira no início de 2011. No dia 11 de janeiro, arrastei-me com o pé direito quebrado até a remota HSBC Arena para assistir ao seu segundo show no Rio. O pé inchado mal cabia num tênis largo sem cadarço. Na verdade, eu não sabia que tinha quebrado o pé, era uma fratura por estresse só detectada depois por ressonância magnética. A dor lancinante fundia-se ao desânimo moral de ver minha ídola reduzida a uma sombra da estrela que empolgara tantas plateias. Amy conseguiu, milagrosa e atabalhoadamente, completar as cinco apresentações no Brasil; na última, no Anhembi, chegou a ser vaiada.
Quatro meses antes de morrer, Amy gravou Body and soul com Tony Bennett. Quase choro ao ver e rever esse vídeo: Tony, com sua voz marcante, lendo a letra numa folha de papel (seria diagnosticado depois com Alzheimer), Amy no seu melhor momento, entortando com inflexões de soul e jazz a canção número 1 no ranking dos standards.
Um fã postou no YouTube que “ela irradia vulnerabilidade o tempo todo, parece cantar à beira do abismo, é a beleza absoluta da artista genuína”. Não fazem mais divas trágicas como Amy Winehouse. Vivemos o tempo de estrelas saudáveis e saradas como Taylor Swift. Um tempo de musas distópicas.
