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O messiânico

    Deltan Dallagnol, na Câmara dos Deputados, em 2023, dois meses antes de perder o mandato: “Mor, se tudo der certo nas palestras, vão entrar ainda uns 100k limpos até o fim do ano” CRÉDITO: PABLO VALADARES_CÂMARA DOS DEPUTADOS_2023

anais do lavajatismo

O messiânico

As motivações e táticas de Deltan Dallagnol em 950 mil mensagens do Telegram

João Batista Jr., Allan de Abreu, Felippe Aníbal, Lígia Mesquita, Luiz Fernando Toledo e Matheus Pichonelli | Edição 210, Março 2024

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“Li na diagonal a denúncia. Ainda tenho de lê-la melhor. Está muito boa, porém faço algumas críticas construtivas”, escreveu o procurador Orlando Martello Júnior, do Ministério Público Federal no Paraná. A mensagem foi enviada pelo Telegram, no grupo batizado como “Filhos do Januário 1”, que reunia os procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato. Era 9 de setembro de 2016 e a Lava Ja­to estava no auge. Em cinco dias, o país seria apresentado à primeira grande denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na forma do famoso PowerPoint, que mostrava catorze balões, cada um com conteúdo diferente, dos quais saíam setas apontando para o balão central, onde estava escrito LULA.

A despeito do breve elogio de Martello Júnior, a denúncia ainda era um rascunho e pontos importantes não estavam parando de pé, na visão dos próprios procuradores, a começar pelo pilar central da acusação: a de que Lula ganhara um apartamento tríplex no Guarujá, no litoral de São Paulo, como recompensa por favorecer a empreiteira OAS em contratos com a Petrobras. Mesmo faltando tão pouco tempo para a divulgação da denúncia, havia incertezas abundantes sobre fatos, sobre dados e sobre provas.

Martello Júnior começou então a enumerar suas “críticas construtivas”. A primeira dizia respeito à forma: o texto da denúncia estava longo demais. “Reduziria à metade. O que não foi contado em trinta folhas (ou no máximo em cinquenta), não merece ser contado”, escreveu, mas foi ignorado: a peça final saiu com 149 páginas. Em seguida, apontou que a expressão “projeto de poder” aparecia pelo menos dez vezes, coisa que julgava “desnecessária e política” – e, desta vez, foi ouvido: na versão final, caiu para cinco vezes. O procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa e principal autor da denúncia, propôs trocar “projeto de poder” por “projeto de financiamento partidário ilícito”. O procurador Paulo Galvão, de Brasília, considerou que a expressão podia aludir ao uso de caixa dois e sugeriu “projeto de financiamento partidário por meio de corrupção”. Dallagnol tentou outras duas opções: “projeto de governabilidade mediante corrupção” e “projeto de enriquecimento ilícito mediante corrupção”. O procurador Antônio Carlos Welter, do Rio Grande do Sul, achou a solução: “Talvez se possa usar mais de uma expressão, não precisa ser sempre a mesma: projeto de poder mediante captação ilícita de apoio, corrupção de agentes políticos para obter apoio político, e aí vai.”

 

Por fim, Martello Junior reclamou do trecho em que dizia que a acusação se baseava em “indícios suficientes de autoria”. Sugeriu que os redatores se limitassem a dizer “autoria”. Explicou: “Dificilmente teremos mais prova do que isso. Logo, para não dizer depois que só tínhamos ‘indícios de autoria’, e com isso condenamos, é bom deixar ‘autoria’.”

Enquanto o grupo debatia, Martello Júnior chamou Dallagnol à parte, em uma mensagem reservada, para falar sobre a acuidade das informações. Um trecho da denúncia, por exemplo, era baseado em excertos de jornais. “Nas frases seguintes”, escreveu Martello Júnior, “há cinco ou seis afirmações que não sei se são verdadeiras. O que sai na imprensa nem sempre é verdadeiro; logo, me dá medo de eles contestarem isso de modo cabal. Tentar desqualificar a denúncia dizendo que é baseada em recortes de jornal que só falam bobagem!”

A constatação era delicada para uma denúncia tão grave e às vésperas de vir a público. Martello Júnior se referia a uma passagem em que a denúncia contabilizava os deputados e senadores – da situação e da oposição – que foram aderindo ao governo Lula quando a propina começou a ser distribuída. Era tudo baseado em matérias de jornal. Uma hora depois, Dallagnol lamentou a falta de solidez – “caramba, mas isso é um contexto bem relevante…” –, mas tudo o que lhe ocorreu foi ampliar a pesquisa sobre reportagens: “E se checar em outras matérias? Tiver mais fontes?”

 

Em paralelo, em outro grupo de procuradores no Telegram, chamado “Incendiários ROJ”, sigla que a piauí não identificou, Dallagnol compartilhou algumas alterações no texto e pediu para dois colegas que avaliassem um acréscimo que ele fizera, mas sobre o qual não estava “muito seguro”. O adendo dizia: “A partir da erupção do escândalo do mensalão em 2005, aliás, LULA teve contato com evidências que vieram a público mostrando a toda a sociedade que o ‘caixa dois’ era fruto de corrupção e, nesse caso, sua omissão em reconhecer, apurar e estancar o esquema fala por si.”

O procurador Roberson Pozzobon observou: “Acho perigoso, Delta. Dá a entender, a contrario sensu, que antes ele [Lula] não sabia. Quando na verdade falamos que ele foi o maestro.” Dallagnol respondeu que removeria o trecho – o que de fato aconteceu. Horas depois, pediu ao procurador Júlio Noronha que resumisse os fatos apresentados na denúncia, tendo em mente os problemas que Martello Júnior apontara mais cedo. Queria que a denúncia fosse recebida sem que se percebessem suas fragilidades. Dallagnol escreveu: “Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… Então, é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre a Petrobras e o enriquecimento, e, depois que me falaram, tô com receio da história do apartamento… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua.”

Pozzobon reclamou da falta de um “documento matador”. Em resposta a Dallagnol, que queria uma providência saneadora até quarta-feira, ele escreveu: “Temos provas para essa denúncia, mas não é tão simples, Delta. Ela envolve offshore e operações de compra e venda sucessivas. Acho que vale fazer […], mas acho que não dá tempo até quarta.” Em seguida, detalhou: “Não temos ainda um documento matador para fechar alguma das hipóteses possíveis: a) Que eles queriam ficar com as duas unidades; b) Que a OAS não quis mexer no antigo apartamento do presidente (deixou de canto); c) Que o [apartamento de número] 131 só foi vendido depois de a cobertura [ser] entregue.”

 

Depois de ajustes aqui e ali, Dallagnol pareceu convencer-se de que estava tudo certo. No grupo “Incendiários ROJ”, escreveu: “Caros, vocês não têm mais a mesma preocupação que tinham quanto ao imóvel, certo? Pergunto porque estou achando top e não estou com aquela preocupação.” E logo recomendou: “Acho que o slide do apartamento tem que ser didático também.” Mais adiante, acrescentou, fazendo referência à parte do PowerPoint que trataria do tríplex do Guarujá: “Imagino o mesmo do Lula: balões ao redor do balão central, ou seja, evidências ao redor da hipótese de que ele era o dono.”

Naquela época, a Lava Jato já tinha seus opositores, mas Dallagnol festejava o apoio maciço que a operação recebia. No “Incendiários ROJ”, comentou que viajara com a família de avião no fim de semana e só se falava disso. “Todo mundo que me reconhece me pergunta quando vem a acusação do Lula ou quando vai ser preso rs.” Mas, mesmo na última hora, a peça acusatória tinha inconsistências importantes. Em outro grupo, Dallagnol apontou o problema do dolo da construtora OAS: “Não vi nada falando de dolo deles na denúncia no tocante ao conhecimento da origem criminosa dos valores. Talvez seja o caso de retirá-los. Alguém mais pensou nisso?” Ele prosseguiu: “Se o dolo é direto, devemos ter alguma prova que embase nossa acusação de que eles tinham ciência de que o dinheiro que estava sendo incorporado no imóvel e no patrimônio do casal presidencial vinha de crimes.”

Era um nó e tanto, mas havia outros. Como fundamentar a tese da “espécie de conta-corrente” da propina? Era a expressão que os procuradores usavam para designar um suposto fluxo de dinheiro, no qual parte dos lucros que a OAS obtinha com contratos públicos era encaminhada como propina para os imóveis de Lula. Dallagnol, num momento de discussão sobre o assunto, comentou: “O problema é que não estamos provando os crimes antecedentes diversos. Acho capenga.” O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, outro integrante do “Filhos de Januário 1”, grupo cujo nome fazia referência a um procurador da força-tarefa, Januário Paludo, também já tinha observado outra inconsistência: “O que me incomodou mais foi a ausência de explicação clara, na parte da corrupção, do sistema de conta-corrente que as propinas geravam. Isso é claro na lavagem, mas na corrupção não.”

Na madrugada do dia 13 de setembro, na véspera da apresentação da denúncia, Dallagnol falou um pouco mais sobre os slides. Dirigindo-se ao procurador Noronha, contou que havia reunido catorze expressões-chave que apontavam para Lula. Era o infográfico do PowerPoint tomando forma. “O que está em negrito e sublinhado é o que […] vai para cada balão ao redor do nome do LULA no slide.” Na tarde daquele dia, em diálogo com um assistente, Dallagnol contou que a ideia inicial era usar uma foto do petista no PowerPoint, mas decidiram-se apenas pelo nome.

À noite, Dallagnol pediu que os colegas começassem a escrever o texto de divulgação da denúncia, a ser distribuído aos jornalistas. Estava empolgado: “Será um poderoso instrumento nosso”, escreveu. “Ele vai definir as primeiras manchetes e o que vai sair primeiro. É ele que dará o tom e pautará a imprensa de cara.” Empenhado em ampliar o impacto da denúncia, Dallagnol havia criado dois grupos do Telegram com o nome “Coletiva”.

Um deles reunia procuradores, membros da Polícia Federal e da Receita Federal. Dallagnol mandou mensagem dizendo que a presença deles no evento de divulgação seria “uma honra”. Para o outro grupo, com dois assessores de imprensa do Ministério Público Federal do Paraná, pediu: “Precisa avisar à GloboNews. Gostaria que fosse transmitido tudo ao vivo.” Recomendou que houvesse um cadastramento para o acesso à sala do hotel onde o evento aconteceria para “não aparecer um maluco lá, ‘Fora Temer’ rs”. Como Dilma Rousseff fora afastada da Presidência no mês anterior, as manifestações contra o então presidente Michel Temer eram recorrentes no país.

Havia uma corrida contra o tempo. A peça seria apresentada naquele mesmo dia, mas ainda não estava finalizada. No grupo “Filhos do Januário 1”, os procuradores brincavam com a situação. A procuradora Laura Tessler, também baseada em Curitiba, escreveu:

– Parabéns pela denúncia, galera!!!

– Aquela que não está pronta, LAURA? – provocou a colega Jerusa Viecili.

– Isso mesmo!!!!

 

As mensagens dos grupos de Telegram descritas acima integram o acervo da Operação Spoofing, deflagrada pela Polícia Federal em julho de 2019. O objetivo era investigar o vazamento de contas de Telegram mantidas por participantes da Lava Jato, um escândalo que ficou conhecido como Vaza Jato. Divulgados em primeira mão pelo site Intercept Brasil, os lotes de mensagens vazadas por um hacker revelaram que os procuradores da Lava Jato – com Deltan Dallagnol à frente – faziam combinações com o então juiz Sergio Moro. No escurinho do Telegram, trocavam informações e acertavam planos de ação.

Agora, a piauí teve acesso ao conteúdo integral das mensagens de Deltan Dallagnol apreendidas pela Spoofing. É um volume enorme, em grande parte inédito, que totaliza 952 754 mensagens, recebidas ou enviadas pelo procurador entre maio de 2014 e abril de 2019, perfazendo quase cinco anos. Todas foram lidas pela equipe de repórteres da revista ao longo de cinco meses. As mensagens – aqui reproduzidas com correções de digitação, ortografia e abreviações para melhor compreensão e fluidez da leitura – compõem um retrato didático sobre a conduta de Dallagnol, para quem a Lava Jato era um chamado de Deus.

Por vezes, o procurador parece uma voz de equilíbrio e ponderação. Outras vezes, está abrasado por um espírito à Savonarola, próprio do moralista furioso da Florença renascentista. Na sua missão lavajatista, à exceção de sua fé religiosa que se manteve constante, Dallagnol começou de um jeito e acabou de outro. De início, era um pregador da anticorrupção, apenas. Aos poucos, sem abandonar seu papel de evangelizador da moralidade pública, rendeu-se aos encantos da popularidade e entregou-se às seduções do mundo que combatia – o jogo do poder, a política partidária, as palestras remuneradas.

No curso dessa trajetória singular, Dallagnol, segundo mostram as centenas de milhares de mensagens no Telegram, aparelhou o Ministério Público Federal no Paraná para os interesses que julgava mais convenientes, divulgou informações imprecisas, expandiu seus poderes para além de sua alçada e, uma vez convertido em estrela nacional do combate à corrupção, aproveitou sua fama para obter vantagens pessoais. E, em 2022, num desfecho melancólico, foi condenado a indenizar Lula em 75 mil reais pelos ataques à honra do atual presidente na coletiva do PowerPoint.

Naquela madrugada de 14 de setembro de 2016, no entanto, Dallagnol nem sonhava que acabaria condenado a indenizar Lula. Varou a noite acionando os colegas e discutindo as palavras que usaria na apresentação da denúncia. Escreveu: “Caros, ia chamar na coletiva o esquema maior, que abrange vários órgãos, de propinópolis, para mostrar que é um Estado da Propina, algo maior do que o petrolão. Contudo, falando com Paulo [refere-se ao procurador Paulo Galvão], ele teve uma ideia genial, de chamar de propinocracia, um governo da propina, o que se encaixa em tudo”. O grupo vibrou. Noronha respondeu “excelente ideia!”. Pozzobon mandou um “top”. Quando consultou sobre a forma final do PowerPoint, Dallagnol só colheu elogios. “Muito top”, respondeu Pozzobon. “A ideia das bolas, indo e voltando, ficará massa”, disse Noronha. “Obra-prima”, disse outro.

Já era manhã do dia 14 e o documento continuava sob discussão. “Delta, bom dia!”, escreveu Noronha. “Uma coisa que senti falta na sua apresentação […] foi mostrar a corrupção denunciada mais concretamente (contratos específicos, valores, envolvimento da OAS, etc.).” Carlos Fernando dos Santos Lima, hoje aposentado, fez um resumo da denúncia que poderia ser enviado à imprensa, que encerrava assim: “Por fim, Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa Marisa Letícia também são acusados de receber de maneira dissimulada valores ilícitos para o seu enriquecimento pessoal, aproveitando-­se de fraude imobiliária cometida pelo sindicato dos bancários de São Paulo (Bancoop) em detrimento de centenas de mutuários.”

O colega Antônio Welter corrigiu de imediato: “Carlos, na última parte o recebimento não decorre da fraude da Bancoop. Melhor tirar essa referência. Ele foi beneficiado pela OAS mediante um apartamento cuja construção foi assumida por ela.” Mas Santos Lima não estava em busca de precisão, e sim de uma forma mais eficaz para minar a imagem de Lula, e então respondeu: “Gostaria de manter de alguma forma a referência ao escândalo Bancoop para colocá-lo mal frente aos trabalhadores.” O erro foi retirado do texto final de divulgação.

O procurador Andrey Borges de Mendonça, de São Paulo, membro do “Filhos do Januário 1”, se ofereceu então para ler e revisar a peça de acusação, já que não tinha participado da redação. E apontou algumas passagens dúbias, além de erros factuais: “Sou ruim de matemática, mas só para ver se eu que estou fazendo confusão. No item dois da denúncia, fala em 2,4 milhões de lavagem de dinheiro. Depois no item três, 1,3 milhão. Depois no item doze, 3,1 milhões. Não sei se os valores estão batendo…” Não estavam. A correção foi feita.

Depois disso, o procurador tentou antecipar algumas perguntas que os jornalistas poderiam vir a fazer. “Pode ser da minha cabeça, mas talvez levantem a questão: se mensalão e Lava Jato são a mesma face do esquema, por que o Moro [o então juiz Sergio Moro] é competente, se o mensalão, em primeira instância, foi pra outro juízo? Só para pensar caso levantem [o tema]”, diz. (Ninguém levantou o assunto, mas a questão da competência de Moro acabou sendo um dos motivos centrais, quase cinco anos depois, para a anulação da condenação de Lula.)

A poucas horas da coletiva, Dallagnol ponderava sobre como deveria se referir ao então ex-presidente: Lula? Senhor Lula? Senhor Luiz Inácio? Optou por “Lula”. E fez um gracejo sobre as setas que vinham de todos os lados em direção ao balão central com o nome de Lula: “Estou me segurando para não usar a expressão ‘tentáculos’ rs”. Em seguida, no grupo do Telegram que mantinha com os assessores de imprensa deu uma orientação: o púlpito não podia ficar na frente da projeção dos slides. E, já quase na hora, momentos antes de ganhar as câmeras, Dallagnol escreveu em latim.

– Alea jacta est.

Em português: a sorte está lançada.

Como se sabe, o “poderoso instrumento” definiu as manchetes – e foi um desastre. “Acho que hoje o próprio Deltan reconhece que errou naquele bendito PowerPoint… maldito PowerPoint”, disse à piauí o procurador José Robalinho Cavalcanti, lotado em Brasília. “Porque apontava o presidente Lula como chefe da organização criminosa. Independentemente dessa discussão, se era ou não era, isso nunca foi atribuição de Curitiba.” O procurador Wellington Saraiva, também de Brasília, é outro que lamenta. “Aquele famoso PowerPoint foi um equívoco evidente. Não deveria ter sido feito”, disse. “Teve efeitos muito negativos para o investigado e acabou tendo efeito negativo para o próprio Ministério Público Federal.”

 

No seu último dia de estudos na Universidade Harvard, em 2013, Deltan Dallagnol ouviu uma profecia feita por um pastor da igreja que frequentava, a Foursquare Church. O pastor disse que Dallagnol voltaria ao Brasil com a missão de lutar contra os maiores corruptos da história. Um ano depois disso, em março de 2014, começou a Operação Lava Jato. E, em março do ano seguinte, quando a Lava Jato completou um ano, Dallagnol já estava se convencendo de que suas ações eram movidas pela mão divina.

“Eu acho que Deus está conduzindo todo esse processo. Está fazendo chover”, escreveu ele, no primeiro aniversário da Lava Jato. “Vejo Deus agir neste caso desde o começo. Há uma série infindável de ‘coincidências’ e condições necessárias sem as quais não teríamos esse caso.” Uma coincidência resultava do seu networking religioso. Priscila Francielle Ferreira, mulher do seu pastor, era assessora da procuradora Letícia Pohl Martello, coordenadora da área criminal do Ministério Público, em Curitiba. Casada com Martello Júnior, foi ela quem convidou Dallagnol para comandar uma operação que acabara de ser aberta – chamava-se Lava Jato.

As conversas pelo Telegram mostram que, pouco depois do início da Lava Jato, Dallagnol se envolveu num projeto que ajudaria a minar sua conduta: as chamadas 10 Medidas contra a Corrupção. Era uma proposta institucional que, em breve, Dallagnol transformaria numa cruzada pessoal. Ele discutiu a ideia longamente com seu pastor Marcos Paulo Ferreira, da Igreja Batista de Bacacheri, que criou o Instituto Mude para divulgar o projeto. Numa reunião em Curitiba, o pastor sugeriu que o procurador rodasse o Brasil colhendo assinaturas de apoio. Dallagnol seguiu o conselho à risca, viajando o país como se fosse o pai da proposta – o que o tornou nacionalmente conhecido.

“Precisamos transformar essas medidas em um projeto de lei de iniciativa popular”, escreveu Dallagnol em uma mensagem, relembrando as palavras de seu mentor cristão. Entre outros pontos, o projeto previa transformar os casos de corrupção envolvendo mais de cem salários mínimos em crime hediondo e, também, tipificar o enriquecimento ilícito de agentes públicos como crime, pois até então era classificado apenas como improbidade administrativa.

Sentindo-se embalado por uma missão divina, Dallagnol escreveu para Poz­zobon: “Eu creio que Deus quer que a igreja alavanque essa mudança. Não quero espiritualizar tudo, mas estou mantendo essa hipótese bem pertinho do coração.” Apesar do alerta para si mesmo, a espiritualização era frequente. Suas mensagens aos procuradores trazem frases como: “Eu creio que Deus está atuando e usando vasos de barro, como eu, para abrir uma oportunidade preciosa de mudanças”; “Que Deus nos use, apesar do que somos”; “Eu creio que Deus fará muitas coisas boas e nos usará, como tem usado, nesse processo”; “Creio realmente que Deus nos abre uma grande oportunidade, e formaremos todos uma grande engrenagem para mudanças”; “Deus está no controle de todas as coisas. Tenho visto Ele agir nesse caso e creio que essa decisão, de algum modo, gerará bons frutos, embora eu não saiba como”; “Creio que Deus está abrindo portas no Brasil e usando líderes para que entremos por elas em diferentes frentes”.

Dallagnol dedicou-se tanto na busca de aliados para espalhar a palavra das 10 Medidas, que, no meio da campanha, começou a se deslumbrar com a adesão de famosos e o crescimento de sua popularidade. Contabilizava os apoios, comemorava cada um. Cassio Scapin, que interpretou o personagem Nino no Castelo Rá-Tim-Bum, foi um dos primeiros a aderir. A atriz Maria Fernanda Cândido também. O ator Reynaldo Gianecchini. O ator Márcio Garcia. A cantora gospel Fernanda Brum. A bailarina Ana Botafogo. A atriz Gabriela Duarte. Dallagnol adorou quando o ator Rodrigo Lombardi falou do projeto no Domingão do Faustão, da TV Globo.

A procuradora Mônica Campos de Ré, da força-tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro, avisou quando o senador e ex-jogador Romário assinou o documento em um restaurante. “Agora no Balada Mix com o mascote da campanha no Rio!”, festejou. Ré ampliou a lista de subscreventes com os atores Nelson Freitas, Luana Piovani, o casal Thiago Lacerda e Vanessa Lóes, a atleta Maurren Maggi, o roqueiro Andreas Kisser, o lutador Rodrigo Minotauro. Em 8 de agosto de 2016, vários artistas visitaram o Ministério Público, entre eles o cantor Fagner e os atores Victor Fasano, Susana Vieira e Lucinha Lins. “Preparem os celulares para a selfie”, disse Dallagnol. Numa mensagem, ele perguntou se “esse Gregorio Duvivier” poderia ser um aliado. E se Serginho Groisman iria topar. (Nenhum dos dois aderiu à causa.)

Em mensagem particular, Dallagnol pediu à assessora do Ministério Público que agradecesse a apresentadora Ana Maria Braga, da Globo, por “tomar posição em prol das mudanças apartidárias que o Brasil precisa para curar o câncer da corrupção e da impunidade”. Depois, se corrigiu: “Opa, melhor não falar em câncer porque ela teve, né?” A assessora riu. O procurador celebrou quando o apresentador Faustão, na época ainda na Globo, mandou um recado aos procuradores por meio de Sergio Moro. Dallagnol correu para o grupo da força-tarefa, batizado de “FT MPF Curitiba 3”, e escreveu, sem mencionar a intermediação de Moro: “Caros, Fausto Silva (Faustão) fez chegar a nós um recado: temos que usar linguagem mais simples em entrevistas e coletivas. Foi um conselho de quem está [há 32 anos] na tevê.” E então orientou a assessoria do Ministério Público a “profissionalizar as coletivas”.

Enquanto a Lava Jato corria, Dallagnol rodava o país a bordo do prestígio da operação e do projeto anticorrupção. Começou a selecionar as plateias. Entendeu que falar para líderes religiosos era mais estratégico do que para universitários. Depois de um evento com religiosos, explicou no Telegram: “Não eram ouvintes finais, mas líderes de igrejas (não necessariamente pastores). A diferença de falar para alunos de universidades ou para líderes é que 100 alunos são 100 pessoas, enquanto 100 líderes significa alcançar mais de 1 000 pessoas, de modo geral. Daí nosso incentivo em buscar líderes.”

O pastor Ed René Kivitz, um evangélico progressista de grande alcance na internet e nos cultos, já desconfiava dos propósitos da Lava Jato, mas dizia estar em oração pelo amigo, a quem oferecia um apoio crítico: “Caro Deltan, você é a única razão pela qual ainda nutro alguma simpatia pela Lava Jato. Não consigo me livrar da profunda impressão de que essa operação é mais um dos braços instrumentalizados por quem de fato ocupa o poder em nosso país.”

O prestígio pessoal e a popularidade pareciam começar a exercer um certo fascínio no procurador. Ele recorreu a uma jornalista que já tinha assessorado o Ministério Público. Convidou-a para gerenciar suas redes sociais e detalhou as funções: responder mensagens inbox, destacar mensagens positivas, propor posts básicos, curtir e responder usuários e elaborar relatórios quinzenais com “evolução e perspectivas”. Tempos depois, numa conversa sobre rede social, comparou sua presença digital com o alcance do jornal Folha de S.Paulo: “FSP atinge 300k pessoas por dia. Estou com 400k de seguidores.”

Quando foi convidado a participar do Programa do Jô, também da Globo, recebeu orientações detalhadas da assessoria do Ministério Público. Se Jô Soares fizesse uma pergunta mais engraçadinha, deveria entrar no clima e responder coisas como: “Ainda não encontramos nenhuma evidência contra você. Tem alguma coisa que queira nos contar?” Outra assessora sugeriu que, se cruzasse as pernas – “acho que é a posição mais indicada” – deveria cuidar para que a perna cruzada não apontasse para “a direção oposta do Jô” porque “isso não é nada bom, parece que o entrevistado quer se afastar/proteger do Jô”. Dallagnol cruzou as pernas do modo indicado.

Na medida em que avançava, a campanha e a própria Lava Jato ganhavam contornos ideológicos mais nítidos. Dallagnol ficou empolgado quando o presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, que mais tarde sairia do armário como bolsonarista roxo, prometeu se empenhar na coleta de assinatura entre seus 40 mil empregados. Certo dia, depois de sair de um evento, o procurador comemorou: “Tinha mais gente na minha palestra do que no aniversário do PT  kkkk […] O 9 está cada vez mais fragilizado.” (“Nove” é referência a Lula, que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda.)

Quando Sergio Moro divulgou a conversa telefônica em que a presidente Dilma discutia com Lula sua eventual nomeação a ministro – uma gravação ilegal, que ocorrera fora do período da autorização judicial –, os procuradores se alvoroçaram. “Ótimo dia rs”, começou Dallagnol. A procuradora Lívia Tinôco, da Bahia, torceu para que a prisão de Lula fosse decretada, o que mereceu reprimenda de uma colega: “Isso não é correto. Não é assim que se tira alguém”, disse Monique Checker, do Rio de Janeiro. Outra, a procuradora Anamara Osório Silva, de São Paulo, especulou mais tarde: “Se esse governo seguir, o que será de nós?”

Numa ocasião, os procuradores discutiram se seria conveniente para a força-tarefa da Lava Jato receber a visita de Marina Silva, da Rede. A maioria foi contra. (Em conversas posteriores, Dallagnol declarou que votaria em Marina no primeiro turno da eleição presidencial de 2018. “Se não fosse Marina, seria Amoêdo”, disse, referindo-se a João Amôedo, então no Novo.) Michel Temer, que já estava ocupando a cadeira de Dilma como interino, sondou Dallagnol sobre um possível encontro. O procurador contou que não aceitou, pois “não seria saudável”. Disse, porém, que passara um recado: “Ressaltamos que qualquer mudança na PF  do superintendente para baixo seria comprar briga. Garantiram manutenção.” Dallagnol estava satisfeito com Temer e, dois dias depois, brincou: “Melhor ‘Temer’ o futuro e enterrar o passado ‘Dilma’ vez!”

A essa altura, Dallagnol já ditava os rumos da comunicação do Ministério Público, que não estava subordinada a ele. Há mensagens em que dava bronca na assessoria. “Hoje foi o segundo dia, em menos de uma semana, em que vocês nos ignoram na comunicação.” Outras vezes ele mesmo cancelava uma coletiva. “Todos os jornalistas estão desesperados por furos e podem colocar os pés pelas mãos.” Entrava em contato direto com repórteres para corrigir o que julgasse errado e até editava os textos que a assessoria de comunicação distribuiria à imprensa. Num caso, devolveu uma nota, com a seguinte observação: “Tentei dar um toque emocional.”

A jornalista Liliana Frazão Pereira, da comunicação do MPF, era uma interlocutora frequente. Dallagnol lhe pedia para avaliar seu desempenho em palestras e entrevistas. Quando o procurador planejou entregar o abaixo-assinado em favor das 10 Medidas no mesmo dia em que Moro participaria de um simpósio sobre a Lava Jato, a assessora comentou: “Tudo bem orquestrado, hein, dr. Deltan?” A jornalista se ocupava em distribuir alertas. “Tudo na Lava Jato interessa à imprensa”, escreveu. “Principalmente se envolve o ex-presidente…”

Os vazamentos à imprensa eram bem planejados. Em conversa* com uma assessora de comunicação, Dallagnol calculou que os termos do acordo da Odebrecht, a empreiteira mais enroscada na Lava Jato, deveriam vir a público de forma gradual. “Esse acordo atrairá muitos inimigos”, previu, sugerindo que as informações saíssem em vazamentos homeopáticos. “Primeiro, as comprovadas e mais fortes, com provas. Para ganhar legitimidade e força, e não tudo junto. É um caso muito sensível.” Em outra mensagem, falou dos seus propósitos: “Meus vazamentos objetivam sempre com que pensem que as investigações são inevitáveis e incentivar a colaboração.”

A estrutura do Ministério Público acabou cada vez mais envolvida na divulgação do projeto das 10 Medidas. Em um grupo de Telegram, Dallagnol conta que o vídeo de divulgação do projeto custaria 38 mil reais. “Estamos vendo como levantar esse valor”, escreveu. Sugeriu usar “valores da Vara, daqueles mais antigos, se estiverem disponíveis”. (Em nota à piauí, Dallagnol diz que nunca usou “valores da Vara” e, se o conteúdo da mensagem do Telegram for efetivamente verdadeiro, a ideia nunca passou de uma especulação.) Os funcionários do MPF também foram mobilizados. Em uma mensagem, Dallagnol disse que conseguira autorização para que cada servidor usasse trinta minutos de seu dia de trabalho para ajudar na campanha.

Quando foi entregue no Congresso Nacional, em março de 2016, o projeto 10 Medidas já havia recolhido 2 milhões de assinaturas. Fora um sucesso de público. E Dallagnol, agora, era o homem que pretendia lancetar a corrupção no Brasil, era o chefe da Lava Jato que, num desdobramento raro, já havia então prendido políticos e empreiteiros. Em novembro de 2016, quando foi finalmente votado, o projeto era apenas uma sombra da proposta original. A corrupção como crime hediondo subiu de 100 para 10 mil salários mínimos. O enriquecimento ilícito de agentes públicos continuou sendo apenas uma improbidade administrativa. Menos de um mês depois, por decisão do ministro Luiz Fux, do STF, o projeto voltou a tramitar no Congresso. Em 2017, chegou ao Senado. Em 2019, o Senado aprovou. No mesmo ano, voltou para a Câmara, onde está parado até hoje. (Em nota à piauí, Dallagnol lamentou o destino do projeto: “Infelizmente, terminou com o enterro das medidas na calada da madrugada pela Câmara dos Deputados, em flagrante desrespeito à sociedade.

 

Entre as milhares de mensagens pelo Telegram trocadas entre 2014 e 2019, a primeira conversa entre Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro aconteceu na noite do dia 9 de julho de 2015. Moro queria saber se o doleiro Alberto Youssef tinha informações sobre o então governador do Paraná, Beto Richa, como havia sido divulgado pela imprensa. “Prezado. Procede esta notícia […]?” Dallagnol respondeu que não, mas Moro insistiu: “Será que ele não falou somente aos promotores de Justiça?” Dallagnol então se ofereceu para checar a informação e despediu-se, não sem antes fazer uma saudação: “Bem-­vindo ao Telegram!!”

As comunicações se estreitaram ao longo do tempo e sugerem que Dallagnol comportava-se como uma espécie de auxiliar do então juiz. Transmitia pedidos de entrevista, dava recados, sugeria palestras, fazia alertas. Depois de um evento em Brasília, repassou o convite para um jantar na casa do ministro Luís Roberto Barroso, do STF. No aniversário de Moro, em agosto, transmitiu os parabéns enviados pela atriz Susana Vieira e prontificou-se para entregar algum recado à artista. Moro agradeceu “pela paciência em receber esses recados”. O procurador devolveu: “Imagina, você é um símbolo de uma causa. É um prazer participar disso.”

Dallagnol também não economizava elogios ao juiz. Quando o impeachment de Dilma se aproximava e as cidades estavam cobertas por cartazes em favor de Moro, o procurador fez coro: “Parabéns pelo imenso apoio público hoje. Você hoje não é mais apenas um juiz, mas um grande líder brasileiro (ainda que isso não tenha sido buscado). Seus sinais conduzirão multidões, inclusive para reformas de que o Brasil precisa, nos sistemas político e de justiça criminal.” Moro respondeu: “Parabéns para todos nós.”

A leitura das mensagens parece indicar que a relação entre procurador e juiz, cuja revelação pública começou a destruir as bases da Lava Jato, acabou estimulando Dallagnol a expandir seus poderes. Num caso, ao ser questionado sobre a origem de uma informação numa investigação, o procurador deixou claro que vinha do seu círculo familiar. Escreveu: “De uma parente minha que teve uma prima que foi casada com o filho do Guaracy (divórcio litigioso).” Em outro, queria investigar um namorado de sua irmã, “super suspeito de psicopata”. Consultou sua mãe, para pegar o nome do sujeito, e pediu ajuda à sua mulher, a advogada Fernanda Dallagnol, para levantar a ficha do rapaz. Ela respondeu: “Eu investigar? Vou pedir para um cara do MP que eu conheço.”

Em outra situação, Dallagnol mandou às favas os escrúpulos de consciência quando apoiou uma delegada da Polícia Federal, Érika Mialik Marena, que cometera um exagero fatal numa investigação. Como a delegada era sua aliada, o procurador ignorava seus erros. Antes, Marena havia prestado um serviço inestimável – e ilegal – na Lava Jato. Assinou um documento atestando ter tomado o depoimento de um delator, o lobista Fernando Moura. Era uma falsificação. A delegada não havia tomado depoimento algum. Numa mensagem, Dallagnol explicou: “Como expõe a Érika: ela entendeu que era pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada…” Em seguida, apesar de defender a amiga, Dallagnol admitiu: “Dá no mínimo uma falsidade…”

Passados quase dois anos dessa fraude, Marena estava novamente no centro das atenções, depois que sua investigação sobre supostos desvios de recursos na Universidade Federal de Santa Catarina acabara resultando numa tragédia: sob suspeita, e depois de passar um dia na prisão, o reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo foi proibido de entrar no campus e suicidou-se ao pular do sétimo andar de um shopping em Florianópolis. A delegada recebeu críticas violentas por sua conduta arbitrária. Dallagnol a apoiou. “Érika, eles não prevalecerão. São um absurdo essas críticas. Um bando de – perdoe-me – imbecis”, escreveu. “Nessas horas, quando há maior pressão, o importante é focarmos na realidade crua: você respeita todas as regras, atuou 100% corretamente e como fazemos em TODOS os outros casos.”

Quase dois meses depois, como as críticas contra a delegada continuassem, Dallagnol voltou ao assunto. “Érika, estou com o coração apertado com as injustiças que você vem sofrendo. Imagino como deve ser doído. Ao mesmo tempo, sei como você é e precisa ser forte para passar por isso. Deus usa situações como essa para nos preparar para novos desafios.” (Em 2023, ao analisar o caso da UFSC, o Tribunal de Contas da União concluiu que o reitor não cometera nenhum desvio ou irregularidade.)

O tom do seu apoio à delegada remetia à situação que ele próprio enfrentara, no final de 2016, quando se descobriu que havia comprado dois apartamentos do Minha Casa Minha Vida, o programa habitacional destinado à população de baixa renda. A compra não era ilegal, mas, para um paladino da honestidade, pegou mal a notícia de que usara um projeto social para ganhar dinheiro. Como se tivesse debruçado sobre um diário, o procurador buscou forças em longas mensagens que escreveu para si mesmo. Uma delas dizia: “Orei para que o Criador, aquele que tem o manual do fabricante, me cure dessa minha preocupação com a imagem, diante das falsas matérias sobre Minha Casa Minha Vida. Caráter é quem Você é. Reputação é o que os outros dizem que Você é. Deus não se importa com sua reputação, com o que os outros dizem de Você. Veja Jesus. E o que ele disse? Dê a outra face. Ore pelos seus inimigos.”

Em seguida, Dallagnol recorreu aos ensinamentos das histórias em quadrinhos. Escreveu: “Batman vs. Superman: Batman era criticado por seus métodos, violência, por ser justiceiro. Superman era colocado em falsas polêmicas, como um potencial risco em razão do seu poder.” E chegou à síntese do que deveria fazer diante das denúncias: “Se eu me concentrar em responder as falsas acusações, desperdiçarei muita energia que preciso investir para fazer minha parte pelo Brasil.” E encerrou inspirado numa frase atribuída ao primeiro-ministro inglês: “Churchill: se parar para atirar pedras em cada cão que ladra pelo caminho, não chegaremos ao nosso destino.” (Dallagnol já vendeu os dois imóveis, que ficam em Ponta Grossa, no interior do Paraná.)

As mensagens do Telegram mostram que a retidão ética exibida em público nem sempre pautava sua conduta em privado. Quando planejou uma viagem internacional com a família, deu-se conta de que não haveria tempo hábil para obter passaporte para a filha caçula. Fernanda, sua mulher, propôs ao marido que desse um jeitinho: “Você pergunta para algum delegado da PF se podemos levar [a menina] em algum horário para fazer o passaporte dela?” Dallagnol entendeu logo – “vai parecer que quero furar a fila, quando não é o caso” –, mas fez exatamente isso. Escreveu para o delegado Felipe Hayashi, que integrava a Lava Jato, e expôs seu problema, sem pedir favores explicitamente, e obteve o resultado que desejava. Hayashi perguntou: “Que dia você quer vir com ela e sua esposa fazer o passaporte?” Dallagnol sugeriu a manhã seguinte. “Venha amanhã então”, assentiu o delegado. Pronto, a fila estava furada.

 

“Mor, saiu a série O mecanismo na Netflix”, anunciou Dallagnol à sua mulher em 23 de março de 2018, uma sexta-feira. “Vamos suspender Suits hehehe”, acrescentou, falando da série americana sobre advogados poderosos. A empolgação do coordenador da Lava Jato com O mecanismo, dirigido por José Padilha, era partilhada pelos demais procuradores e, também, por boa parte de Curitiba. Pelas vias do Centro da capital paranaense, inclusive na rua da sede do MPF, havia totens e outdoors exibindo peças de divulgação da série, com uma foto em close do ator Selton Mello, que interpretou o fictício delegado Marco Ruffo.

O entusiasmo inicial, no entanto, logo deu lugar a uma decepção generalizada. Já na manhã de sábado, 24 de março, começaram as mensagens de frustração nos grupos de Telegram. Os procuradores reclamavam que eram representados como profissionais despreparados e arrogantes, que cometiam erros elementares até para interpretar decisões do STF, mas o pior de tudo era outra coisa: quem brilhava na série era a Polícia Federal, o que jogou lenha na fogueira das vaidades.

Orlando Martello Júnior, que já havia assistido a sete dos oito episódios, foi um dos primeiros a gritar. “Bomba!! Assisti O mecanismo. Pinta o MPF da pior forma possível. Preocupou-me que isso irá para o mundo. A PF é mais ética que o juiz e o MPF. Se a coisa continuar assim, a defesa de Lula vai chamar o diretor para depor na ação […]. Essa temporada está perdida para nós.” Depois da manifestação de alguns colegas, Martello Júnior explicou seu receio: “Quando vemos filmes baseados em fatos reais acabamos por aceitar a trama. Para pessoas do exterior que não leram – e não lerão – livros, jornais, a estória dos abusos pode pegar […]. É o que fica para a história!”

Em princípio, como ainda não tinha começado a assistir à série, Dallagnol fez piada: “Eles têm que botar um galã. Vou ser eu, com certeza.” Mas logo foi informado de que seu personagem já aparecia naquela primeira temporada e era retratado “como um almofadinha”. No próprio sábado, ele viu o primeiro episódio e mudou de tom. “Foda pra gente mesmo. Louva a PF. Detona MP como soberbo, ingênuo e não ponta firme. Sobrou até pro Moro também […]. Fiquei na dúvida até se não é o caso de deixar bem claro que tem um pequeno percentual de realidade, mas a maioria é criação.”

O temor de que a PF aparecesse melhor que o MPF era antigo. Ainda na fase em que os produtores da série estavam pesquisando o assunto, a dúvida angustiou os procuradores. Um deles, Alan Mansur Silva, levou o assunto a Dallagnol. “Deltan, alguém da Lava Jato está fornecendo informações ao José Padilha […]? Nosso receio é que como há consultoria dos delegados, [a série] saia muito ‘pró-delegado’.”

Dallagnol explicou ao colega que a série era baseada no livro Lava Jato: o juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de autoria do jornalista Vladimir Netto, que fez a interlocução entre os produtores da série e os membros do MPF. Depois de um almoço com o pessoal da série, em um restaurante do Shopping Itália, em Curitiba, Dallagnol escreveu: “Sendo franco e realista rs, acho impossível que o foco [da série] não seja a PF… Mas de qualquer modo perguntei agora ao Vladimir Netto sobre isso, dizendo que fui demandado, na linha de que haja um reconhecimento ao papel do MP… Mas o ideal é que a ANPR [Associação Nacional dos Procuradores da República] ou outro fizesse isso, porque a gente pedindo parece disputa de vaidade.”

Era tanta disputa de vaidade que Dallagnol voltou a procurar o jornalista para enfatizar sua apreensão sobre a visibilidade dos procuradores na série. O jornalista tranquilizou-o: “Entendo sua preocupação, mas a importância do MPF na Lava Jato está superclara para o Padilha e para a Elena [refere-se a Elena Soárez, a roteirista da série] e para todos nós do projeto.” Quando O mecanismo saiu, o procurador Diogo Castor de Mattos decretou: “Perdemos nosso tempo dando infos para os produtores.”

(Procurado pela piauí para comentar as críticas dos procuradores, José Padilha mandou uma mensagem em que diz o seguinte: “Sobre os procuradores reclamarem que a PF tem mais protagonismo na série: não me surpreende em nada. Durante a produção o Dallagnol me procurou para que eu assinasse as dez medidas DELE contra a corrupção. Eu achei descabido e recusei. Depois, na filmagem do documentário que estou fazendo, em parte sobre meu próprio erro crasso de avaliação da Lava Jato, pedi que a turma do Intercept desse um search nas mensagens usando meu nome. Apareceu uma mensagem dos procuradores dizendo pro Dallagnol me procurar que era certo que eu iria apoiar a sua lista! A procuradoria buscava o apoio de pessoas conhecidas para ganhar visibilidade. Queriam os holofotes.”)

A rivalidade entre os procuradores e os agentes da PF tinha um histórico. No dia em que aconteceram as três primeiras prisões de políticos, nos primórdios da Lava Jato, houve um clima de euforia entre os procuradores. Martello Júnior, que atuara na investigação, começou a receber cumprimentos dos colegas logo de manhã, quando as prisões ainda estavam sendo feitas. Mas, quando perceberam que a imprensa estava dando destaque à Polícia Federal, o caldo entornou nos grupos de Telegram. Dallagnol colocou panos quentes: “O MPF tem tido um bom espaço e é saudável que a PF, que é grande parceira neste caso, tenha o seu.” Mas o tom de civilidade não durou.

Quando saiu uma reportagem no jornal O Estado de S. Paulo sobre uma eventual autonomia da PF, os procuradores sentiram sinal de perigo. Temiam perder espaço e poder para a polícia. Luiz Fernando Lessa, do Rio de Janeiro, sugeriu contra-atacar: “Então é soltar os podres [da PF]. Cadê os casos de controle externo?” Depois, sugeriu que notícias negativas contra a PF poderiam ser veiculadas em programas popularescos da Bandeirantes e da Record. Quando aconteceu outra prisão, o procurador João Carlos de Carvalho Rocha, do Rio Grande do Sul, escreveu, desolado: “Estou acompanhando pelo g1. Entrevista da PF, com mera coadjuvância do MPF. Praticamente todos os comentários postados se referem apenas à PF. Lamentável.”

O então procurador-geral, Rodrigo Janot, foi acionado e reclamou, junto ao STF, sobre a autonomia da PF, que marcava depoimentos e decidia quem e quando seria ouvido sem consultar os procuradores da Lava Jato. O STF acatou a demanda e suspendeu depoimentos agendados para os dias seguintes pela PF. Os procuradores vibraram, mas a notícia não estava chegando à imprensa. Aílton Benedito de Souza, procurador de Goiás, lamentou porque a ideia era que a divulgação servisse para “meter na cara desses FDP”. Só ficaram aliviados quando o Jornal Nacional divulgou a notícia à noite.

Houve momentos, como mostram as mensagens no Telegram, que procuradores especulam sobre a possibilidade de que venha a ser instalada uma “CPI da PF”. Quando houve uma sucessão no Ministério da Justiça, a procuradora Monique Checker estava indignada com o tratamento privilegiado que vinha sendo dado à PF. Fez um desabafo: “Eu preferia alguém que tocasse o terror, mesmo aumentando a crise institucional.” Mais cedo, Checker havia criticado os delegados que “agem sem pensar” e usam a “tática do achaque explícito [que] sempre dá certo”. No dia seguinte, a procuradora espinafrou todo mundo. “No afã de atacar o governo, toda a mídia e o público estão embarcando na onda dos delegados.”

O conteúdo das trocas de mensagens mostra que os procuradores da força-­tarefa buscavam intensamente o apoio da imprensa, mas queriam exclusividade. Quando comentava sobre as relações entre a PF e a imprensa, Gustavo Velloso, procurador do Distrito Federal, avaliou que havia uma “relação promíscua muito antiga”. Checker subiu o tom: “É antiga, mas acho que atualmente virou quase um estupro. Não sei se pela velocidade da comunicação ou pelo descontrole em si. Ou ambos.”

A notícia de que o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, fechara um acordo de delação premiada com a PF – e sem a participação do Ministério Público – caiu como uma bomba. Dallagnol, que tentava se preservar nas polêmicas com a polícia, lembrou no grupo “Filhos de Januário 2” que os delegados estavam violando um entendimento prévio: “Não tinha ficado combinado que íamos chamar uns aos outros para acordos?” Ao que a procuradora Isabel Groba Vieira, do Paraná, respondeu: “Eles [os delegados da PF] conhecem a palavra lealdade?”

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, tratado como mentor do grupo, propôs que os procuradores boicotassem o acordo de Palocci. Explicitou seu plano: “Podemos ir queimando aos poucos [o acordo] dizendo que nos recusamos [a aceitá-lo] por falta de comprovação, que os anexos não correspondiam à importância de Palocci e que a PF virou a porta da esperança.” (A delação de Palocci tornou-se uma das mais complicadas. O Ministério Público acabou por rejeitá-la, mas a Polícia Federal a validou. Mais tarde, às vésperas da eleição de 2018, Moro divulgou um trecho da delação, que não trazia novidades, nem provas. A iniciativa foi interpretada como uma forma de prejudicar a candidatura de Fernando Haddad, do PT.)

Embora reclamassem da acusação frequente de que tinham motivações políticas, os procuradores – da Lava Jato e de outras operações – viviam em discussões políticas no Telegram. Além das críticas e piadas sobre Lula e o PT, a maioria dos procuradores tampouco era fã de Jair Bolsonaro, o político que crescia junto com a Lava Jato. Dois anos antes da eleição, a procuradora Lívia Tinôco especulou que ele não teria 10% dos votos em 2018. “Será como um Enéas”, escreveu, em referência ao folclórico presidenciável dos anos 1990. “Se Bolsonaro ou qualquer outro mentecapto de direita for eleito, a culpa vai ser dos deficientes morais e mentais do PT”, escreveu o procurador Luiz Fernando Lessa.

Depois que Bolsonaro disse no programa Roda Viva, da TV Cultura, que seu livro de cabeceira era A verdade sufocada, do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o único oficial militar condenado pelo crime de tortura, o procurador Aílton Benedito de Souza fez um tuíte recomendando a leitura do livro, e a discussão pegou fogo. “Lamentável e constrangedor”, reagiu Wellington Saraiva. Começou então uma discussão sobre a ditadura militar, a Lei da Anistia e a tortura.

Na eleição de 2018, quando Bolsonaro se elegeu, já não havia tanta antipatia contra seu nome. “Apesar da italianice dos Bolsonaro, da emotividade, dos rompantes de cólera verbal, dos avanços e recuos em diversos temas, Bolsonaro tem uma cabeça de milico bem formada e uma intuição absurda”, escreveu o procurador Angelo Augusto Costa, de São Paulo, mostrando-se aliviado com a perspectiva de que o eleito seria tutelado por “cinco generais e um almirante no Ministério. Rs”.

O procurador Peterson de Paula Pereira, do Distrito Federal, considerado um caso raro de petista nos diversos grupos de conversa do Ministério Público, decretou: “Ninguém respeitará esta anta.” O procurador-chefe da Lava Jato evitava participar dessas discussões que, na maioria das vezes, produziam bate-­boca e acabavam como tinham começado. Apesar de sua militância política, Dallagnol parecia sempre mais pragmático e focado em questões capazes de produzir resultados concretos.

 

Depois de Lula e do PT, o grande inimigo de Deltan Dallagnol era o ministro Gilmar Mendes, decano do STF, crítico dos métodos empregados pela Lava Jato. Para Gilmar, segundo suas próprias palavras pronunciadas no plenário do Supremo, os procuradores eram “cretinos”. Para os procuradores, Gilmar era o “Gilmau”.

Logo no começo das mensagens, ainda em 2014, os procuradores já criticavam Gilmar, que era tratado como “idiota”, “sem escrúpulos” e “mau-caráter”. Quando o ministro concedeu um habeas corpus que tirou o ex-ministro José Dirceu detrás das grades, Dallagnol ficou furioso, temendo que outras solturas fossem feitas. No momento em que Antonio Palocci também pediu um habeas corpus, Dallagnol enviou uma mensagem aos colegas dizendo que, se o ex-ministro acabasse sendo libertado, era preciso pedir o impeachment de Gilmar.

Havia, segundo ele, uma lista de razões. Gilmar não se declarava suspeito de julgar casos do escritório de advocacia em que sua mulher trabalhava, tinha o hábito de imputar crimes aos procuradores publicamente, votava de modo incoerente – “denotando favorecimento” – e, entre outras coisas, acusava a Lava Jato de fazer “reféns” para manter o apoio popular. Dallagnol recebeu a solidariedade da procuradora Laura Tessler, que fora procurada pelo advogado Modesto Carvalhosa para ajudar na redação de um pedido de impeachment de Gilmar. Carvalhosa pediu a destituição do ministro apenas em 2019, e não deu em nada.

A ideia de impichar Gilmar é recorrente nos grupos de Telegram. Para Dallagnol, segundo escreveu nas mensagens, o ministro era um inimigo e, mais do que isso, um empecilho para sua missão de varrer a corrupção do Brasil. Achava que só completaria sua tarefa se tirasse Gilmar do seu caminho. No grupo “Filhos de Januário 4”, até articulou uma forma de tentar incriminá-lo – o que extrapolava sua alçada profissional. A ideia era encontrar algum elo entre Gilmar e Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, então encarcerado em Curitiba sob a acusação de ser o operador financeiro do PSDB. Dallagnol acreditava que Gilmar, que já tinha concedido dois habeas corpus em favor de Paulo Preto, fosse beneficiário das contas que o operador mantinha na Suíça. (À piauí, Gilmar disse: “Não sei quem é Paulo Preto, só conheço por fotografia. Tenho recursos em Portugal, porque comprei um apartamento e pago contas lá. Não tenho nada na Suíça.”)

O Supremo, por ser a instância final das decisões sobre a Lava Jato, atraía muita atenção. Cármen Lúcia, hoje a única mulher no tribunal, era alvo das grosserias mais insultuosas e machistas nos grupos de Telegram – inclusive das procuradoras. Quando assumiu a presidência da Corte, posição que ocupou de 2016 a 2018, a ministra recebeu críticas técnicas, mas, sobretudo, de cunho pessoal. Falavam de seu cabelo, seus dentes, seu estado civil, seus cuidados corporais.

Numa passagem, porém, os procuradores fizeram jus à perspicácia e ao bom humor característicos de Cármen Lúcia. O ministro Teori Zavascki, então relator dos processos da Lava Jato no STF, morrera num acidente de avião e os procuradores estavam ansiosos para saber quem seria seu sucessor. Divulgaram a seguinte piada, que se passa no velório do ministro e satiriza o interesse de Gilmar em assumir como relator da Lava Jato: “Um colega me contou que viu e ouviu o ministro Gilmar Mendes se aproximar da presidente do STF, a ministra Cármen Lúcia, e perguntar: ‘Presidente, posso ocupar o lugar do Teori?’ Ela respondeu: ‘Se você couber no caixão e fizer tudo discretamente, pode.’”

 

Deltan Dallagnol comandou a Lava Jato dos 34 aos 41 anos – e transformou a sua vida, inclusive financeira, em antes e depois. Já nas primeiras horas da investigação, o procurador mandou uma mensagem ao pastor Sócrates Oliveira de Souza, diretor executivo da Convenção Batista Brasileira, colocando-se à disposição para se reunirem no Rio de Janeiro. Como já estava empenhado na divulgação do projeto das 10 Medidas contra a Corrupção, propôs fazer uma palestra. Estava ganhando o apoio de vários ramos da religião – do espiritismo ao candomblé.

Logo surgiram convites de outros campos. De seguradoras, planos de saúde, bancos, sindicatos, empresas. Dallagnol fazia questão de dizer que suas palestras eram filantropia e que o dinheiro que recebia era integralmente destinado a entidades como o Hospital Erasto Gaertner, de Curitiba, especializado no combate ao câncer. Quando se interessou em profissionalizar sua atuação, contratou a Star Palestras e Eventos, uma empresa paulista que passou a intermediar a negociação de seus cachês. A Star Palestras tinha – e ainda tem – no seu catálogo nomes famosos como Hortência, a ex-jogadora de basquete, e o infectologista David Uip, ex-secretário de Saúde do Estado de São Paulo.

Em agosto de 2016, por exemplo, Dallagnol fez uma palestra para a cooperativa financeira Sicoob, no Espírito Santo. A empresa pagou 60 mil reais. As contas foram divididas assim: 45 mil para o fretamento do voo do procurador e 15 mil reais ao Hospital Erasto Gaertner, em forma de doação. Em poucos meses, já tinha um cachê estabelecido. Em uma mensagem no Telegram, informou: “Estou cobrando 35 mil reais.” Os valores não eram fixos. Para instituições ligadas à educação, cobrava menos. Para dar uma aula no Acre, pediu 10 mil.

Com o aumento da demanda, começaram as regalias. O convite para palestrar para contabilistas do Paraná incluía um fim de semana com a mulher no hotel Bourbon, em Foz do Iguaçu. O mesmo hotel na cidade das cataratas foi também o destino de uma palestra para a Unimed – nesse caso, pediu quarto adicional para a família, mas sugeriu arcar com os custos da babá e despesas extras. Também teve hospedagens pagas com a família no SPA Lapinha, no Paraná, e no resort Costão do Santinho, em Santa Catarina.

Com o tempo, passou a se interessar pelo modelo das aeronaves que faziam seu transporte, já que costumava andar em jatos fretados. Pegou gosto pelo King Air, um bimotor de alto desempenho, que seu sogro avaliou que era muito seguro. Em um caso, pediu ao contratante que o transporte entre o Rio de Janeiro e Volta Redonda fosse de helicóptero – para ele e a família. Fernanda, sua mulher, gostou da ideia: “Falei com a minha vó e ela aceitou a carona rs.”

As palestras começaram a chamar a atenção de sua própria assessoria. Quando foi convidado pela Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), uma assessora alertou: “Tem muitos distribuidores de órteses e próteses e querem pregar a não corrupção nesta área tão atolada na corrupção. O que você me diz?” Dallagnol achou bobagem e disse que “não adianta pregar para convertidos”. Estava aberta a porta para aceitar qualquer convite.

Nicolao Dino, subprocurador-geral da República, enviou uma mensagem para dizer que, mesmo doando os honorários das palestras, Dallagnol podia ser acusado de tirar proveito do cargo para beneficiar terceiros. Ele agradeceu a preocupação, mas descartou. Avisou que seguiria adiante com as palestras porque estava, desta forma, “contribuindo com a sociedade”.

Estava tão seguro do que fazia que até estimulava outros a adotar o mesmo caminho. Sugeriu que a promotora Luciana Asper y Valdés, do Distrito Federal, procurasse a Star, caso quisesse entrar no mercado. Disse que não pegava bem ela mesma negociar cachês. Contou que o segmento era rentável. O ministro Luís Roberto Barroso, do STF, segundo ele, estava cobrando 35 mil. Rodrigo Janot, então procurador-geral da República, levava 30 mil. Para o procurador Athayde Ribeiro Costa, do Paraná, Dallagnol deu até dicas de como fazer uma boa palestra: “Invista os dois primeiros minutos para sorrir e conquistar o público”; “Use a palavra SONHO”; “Trocar ‘indignante’ por ‘isso indigna você?’”; “O cara tem que ver e ouvir como um filme”.

Alguns colegas aderiram. Certa ocasião, Dallagnol e outros três procuradores foram convidados para um evento da XP Investimentos. Numa mensagem, ele comentou que um deles receberia 25 mil reais, mas não disse nada a respeito do seu próprio cachê. Comemorou bastante o formato do evento. “Alguém da XP vai fazer as perguntas. Não é show??? Acho que vai ser o melhor painel EVER.” Estava cada vez mais à vontade. O procurador Roberson Poz­zobon escreveu sobre o risco de palestrar para bancos. Dallagnol respondeu: “Achamos que há risco, sim, mas que o risco tá bem pago rs.”

Dallagnol passou a receber todo tipo de convite, inclusive sigilosos. Débora Santos, que se apresentou como consultora de política e Judiciário da XP, convidou o procurador para dar uma outra palestra e, desta vez, argumentou que o bate-papo seria privado. Para convencê-­lo, a consultora escreveu que o ministro Luiz Fux, do STF, participara de um evento na XP nas mesmas condições e não saíra nenhuma notinha na imprensa. Dallagnol aceitou o convite.

Gostou tanto das palestras que repassava contatos também para Sergio Moro. “Caro, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica vai te convidar para palestrar no evento deles”, escreveu. E avisou: “Estarei lá também. Eles pagam cachê elevado.” Moro respondeu: “Prezado, agradeço mas este ano minha programação já fechou, a não ser que seja em Curitiba.” O evento era em São Paulo. Em outra ocasião, Dallagnol compartilhou um convite ao então juiz para falar na Federação das Indústrias do Estado do Ceará. E contou sua própria experiência. “Eu pedi para pagarem passagens para mim e para minha família e estadia no Beach Park. As crianças adoraram”, disse. “Além disso, eles pagaram um valor significativo, perto de uns 30k. Fica para você avaliar.” Moro não disse se aceitou o convite ou não. A via era de mão dupla. Numa ocasião, Moro sondou Dallagnol para palestrar no Grupo Sinos, na cidade gaúcha de Novo Hamburgo. O procurador autorizou que o juiz passasse seus contatos aos interessados.

Em dado momento, Dallagnol decidiu fazer um fundo de reserva para a hipótese de ter que pagar uma indenização para Lula, que o acionava na Justiça por danos morais. Caso não precisasse usar todo o valor do fundo, doaria o restante para o combate à corrupção – nunca especificou de que forma. Ganhou dinheiro quando lançou seu livro A luta contra a corrupção pelo selo Primeira Pessoa, da editora Sextante. Recebeu 100 mil reais como adiantamento. Até agora, vendeu 32 mil exemplares – um bom número para o mercado brasileiro.

Com o patrimônio em alta, Dallagnol passou a ter preocupações de investidor. Na iminência do julgamento de Lula em segunda instância, mandou uma mensagem para a mulher, lamentando não ter resgatado suas ações mediante as previsíveis oscilações na Bolsa de Valores. “Não sei se fiz besteira porque passou do horário, o resgate acontece amanhã e a data da CONVERSÃO é depois de amanhã. Ou seja, vale o Ibovespa e valor de ação da quarta, quando é o julgamento do Lula.” (Preocupou-se à toa: a condenação de Lula fez a Bolsa disparar e atingir um recorde histórico até então.)

A certa altura, Dallagnol decidiu criar sua própria empresa de palestras e eventos em sociedade com Roberson Pozzobon, aquele que tinha preocupações em relação a palestrar para bancos. Como foi revelado pela Vaza Jato, as mulheres dos dois procuradores cogitaram se tornar sócias. Dallagnol continua na Star, cujo catálogo informa que o procurador pode falar sobre “luta contra a corrupção”, “propósito e resiliência”, “ética nos negócios” e “autismo e direitos dos autistas”. Procurada pela piauí, Fernanda Cunha, dona da Star, não quis informar como anda a demanda por seu agenciado.

Com tanta atividade, Dallagnol chegou ao ano eleitoral de 2018 com a conta recheada. Em uma troca de mensagens com a mulher, comemorou que estava com 949 mil reais “em poupança”. A expectativa era fechar o ano com mais dinheiro em caixa. Em meados de outubro, faltando pouco mais de dois meses para fechar 2018, escreveu: “Mor, se tudo der certo nas palestras, vão entrar ainda uns 100k limpos até o fim do ano.” As palestras e o livro já haviam rendido 400 mil reais. Nessa época, o casal estava se preparando para mudar para um apartamento maior, em Curitiba. Quando deixou o Ministério Público, em 2021, Dallagnol ganhava 34 mil reais brutos.

Os políticos não perderam a oportunidade de fustigá-lo pela bonança súbita. Os petistas Paulo Pimenta e Wadih Damous entraram com uma reclamação disciplinar junto ao Conselho Nacional do Ministério Público, argumentando que Dallagnol usava a Lava Jato para enriquecer. O CNMP autorizou as palestras remuneradas com a justificativa de que o procurador não vinha falando sobre assuntos sigilosos e, além disso, doava a maior parte dos cachês. (À piauí, a administração do Hospital Erasto Gaertner afirmou que recebeu 219 mil reais de doações de Dallagnol em 2016. A partir de 2017, no entanto, o procurador não fez mais doações à entidade.)

É uma ironia que a atuação de Lula como palestrante tenha sido um dos motivos da Lava Jato para pedir a quebra do seu sigilo fiscal e bancário. Moro autorizou a medida com o objetivo de descobrir se o dinheiro era propina disfarçada de cachê. Pouco antes de Moro dar sua sentença sobre o assunto, o procurador Angelo Augusto mandou uma mensagem aos colegas comentando o rosário de lambanças dos petistas: “Agora, a tigrada do PT, essa curte um luxo, um jatinho, um agrado, uma palestra, um lobizinho…”

Gilmar Mendes, o ministro do STF que mais criticou a força-tarefa e por ela foi criticado, identificou outra tigrada. Em conversa com a piauí, fez uma avaliação ácida tanto da Lava Jato quanto dos procuradores. “Eram pessoas que estavam aí para ganhar dinheiro. Já me falaram que ele [Dallagnol] acumulou um patrimônio imobiliário enorme”, disse. E completou: “Eles são pai e mãe do Bolsonaro. Eles imaginaram um cenário de terra arrasada em que eles seriam os sobreviventes. É o chamado tenentismo de toga: eles realizariam esse sonho.”

 

A reportagem da piauí conversou com Deltan Dallagnol durante cinco horas e meia em uma sala de reuniões de um hotel em Curitiba no dia 15 de fevereiro. O procurador estava acompanhado por dois assessores. Ali, combinou-se que a conversa era para apresentar contextos, e não uma entrevista. É o que se chama no jargão jornalístico de “conversa em off”. A piauí só deveria publicar as explicações que o procurador mandaria mais tarde, por escrito, em resposta às 36 perguntas apresentadas pela revista. A piauí está cumprindo o acordo. Dallagnol respondeu a todas as perguntas, exceto a que indagava sobre a mensagem em que escreveu “melhor ‘Temer’ o futuro e enterrar o passado ‘Dilma’ vez”.

Nas suas respostas, por dezenove vezes, Dallagnol escreveu o seguinte antes de dar sua versão: “Não responderei com base em supostas mensagens que não reconheço, mas com base na realidade.” A frase, tantas vezes repetida, faz parte da linha de defesa dos autores das mensagens que vieram a público com a Vaza Jato. Alegam que não reconhecem os conteúdos, sugerindo que podem ter sido editados, distorcidos, inventados, tirados de contexto ou mal interpretados.

Nas 27 páginas de resposta, o procurador fez questão de defender a lisura da Lava Jato e de sua conduta, a começar pelo empenho na defesa das 10 Medidas contra a Corrupção – afinal, era um “projeto oficial, institucional, do Ministério Público Federal, capitaneado pela 5ª Câmara de Coordenação e Revisão”. Contou que se lembra de ter havido “uma maciça adesão ao projeto” da parte dos procuradores e disse que, em todos os lugares por onde viajou, “havia sempre procuradores e servidores engajados”.

Sobre seus investimentos, disse que jamais usou informação privilegiada. “Ao contrário de tantos investigados pela Lava Jato, prefiro perder dinheiro a ganhá-lo à custa da minha integridade”, escreveu. Ressaltou que nunca negociou com ações “de empresas investigadas ou vítimas na Lava Jato desde o início da operação” e que suas aplicações “estiveram declaradas no Imposto de Renda”. Detalhou: “Por exemplo, eu tinha ações da Petrobras antes de a Operação Lava Jato começar e não as vendi até meses após ter deixado de trabalhar na investigação. Durante o período, não comprei e não vendi ações da estatal, mesmo quando, com base em informações públicas, parecia a melhor decisão financeira.”

Ele não se lembra da “situação específica” em que teria pedido para investigar o namorado de sua irmã, o “super suspeito de psicopata”, mas disse duvidar que as mensagens sejam verdadeiras, porém – “se forem” – não passavam de “uma conversa familiar, que pode ser uma brincadeira”. Em seguida, complementou: “Entrando no terreno da especulação, caso tenha ocorrido qualquer tipo de verificação [sobre o namorado] a partir dessa conversa […], posso assegurar que tal verificação teria sido realizada exclusivamente por meio de bases de dados públicas, internet e redes sociais, sem implicar o uso indevido de recursos estatais.”

Sobre a fila que furou para tirar passaporte para a filha, disse desconfiar que a mensagem que lhe é atribuída esteja adulterada – porque o nome de sua filha está escrito errado – e defendeu que, ao contatar o delegado Felipe Hayashi, que integrava a Lava Jato, não lhe pediu nenhuma vantagem pessoal, nem solicitou que os protocolos fossem violados. Em sua resposta, Dallagnol deu a entender que qualquer brasileiro comum, ao enfrentar o mesmo problema, poderia ligar para um delegado federal e ainda escolher a data em que gostaria de pegar o passaporte. Disse que a interpretação de que burlou a fila para viajar na data desejada “é equivocada e ofensiva”.

No capítulo das palestras, Dallagnol frisou que a grande maioria era gratuita. Na campanha a favor das 10 Medidas, contabilizou mais de 150, “todas gratuitas”. Em 2018, um ano particularmente intenso, disse que fez 34 palestras gratuitas – sem citar o total das pagas – e deu detalhes: das 34, vinte ocorreram “em dias de folga, férias, fins de semana e feriados” e três aconteceram “à noite em Curitiba e Joinville (a uma hora e meia de carro), o que demonstra que amar, servir e lutar por boas causas é um propósito de vida mais do que meramente um trabalho relevante de interesse público”.

Quanto às palestras remuneradas, suas respostas são menos precisas. Escreveu que, entre 2016 e 2019, destinou 734 mil reais à filantropia e embolsou “menos de 40% do total”. A piauí voltou ao procurador para pedir que fornecesse o valor exato que recolheu para o seu bolso, evitando o uso de um percentual impreciso, mas Dallagnol respondeu que já havia dado todas as respostas necessárias. A revista voltou a insistir no esclarecimento. Sua assessoria de imprensa tentou durante dois dias agendar uma nova conversa, mas não conseguiu.

Sobre a escolha de jatinhos e helicópteros para viajar, inclusive com a família, Dallagnol explicou na nota que só fez certos pedidos para facilitar os deslocamentos e economizar seu tempo, mas explicou que “isso jamais foi uma demanda que fiz, mas uma possibilidade aberta para [viabilizar] certos convites para palestra”. Esclareceu: “Não creio que houve, nesses deslocamentos mais raros, preponderância de ‘jatinhos’, termo usado na pergunta que pode sugerir um viés de exigência de luxo e que não se reflete na realidade. Houve preponderância de aeronaves de menor porte, inclusive aeronaves simples, monomotor, de quatro lugares.”

 

Em novembro de 2021, quando abandonou a carreira de dezoito anos no Ministério Público, desiludido com o desmonte das operações contra a corrupção, Deltan Dallagnol já estava no mercado de palestras, atividade tão malvista pelos procuradores quando investigavam Lula, e entrou no mercado político, outra área que tantos procuradores consideravam suja. Filiou-se ao Podemos durante um evento em Curitiba com a presença de Sergio Moro, outro que criminalizara a política e, na época, já estava filiado ao mesmo partido. Não era um destino inusitado. Os grupos de Telegram de Dallagnol mostravam que, havia alguns anos, ele cogitava lançar-se como candidato a algum cargo eletivo.

Com a Lava Jato no auge, ele ainda dispensava a política. Em mensagens no Telegram, comentou sobre as desvantagens da carreira: “Ganha menos, tem menos férias, fica tomando pedrada na vitrine num jogo de mentiras.” Mas não era um caso encerrado. Escreveu: “A verdade é que quero em minha vida, em primeiro lugar, servir a Deus, e a Bíblia coloca que a vida do cristão é como o vento, que não sabe para onde vai. Se um dia decidir tentar, é porque entendi que é o melhor modo de servir a Deus e aos homens e por puro espírito público.”

Pouco tempo depois, o empresário Joel Malucelli – implicado em investigações da Lava Jato – mandou sondá-lo sobre uma candidatura ao Senado pelo Podemos. Nas mensagens, não fica claro se a negociação avançou, mas, em certo momento, Vladimir Aras, procurador do Distrito Federal, perguntou ao colega se ele estava “firme na candidatura”, ao que Dallagnol respondeu: “Eu não descarto também (assim como não descarto várias outras coisas), mas hoje minha saída [do MP], a meu ver e salvo alguma mudança radical de cenário, mais prejudicaria a causa anticorrupção do que ajudaria.” Mas disse: “Pelas pesquisas, estaria eleito, mas tem muito mais coisa importante em jogo.”

Na mesma época, escreveu uma longa mensagem a um colega em que voltou a falar sobre os aspectos negativos de uma eventual candidatura. Disse que perderia credibilidade pública, vários apoiadores na sua igreja não entenderiam a decisão, os eleitores do Paraná talvez ficassem insatisfeitos com suas viagens constantes pelo país e, por fim, faria com que o movimento em favor das 10 Medidas contra a Corrupção parecesse uma plataforma pessoal. Na eleição de 2022, Dallagnol declarou patrimônio de 2,7 milhões à Justiça eleitoral e elegeu-se deputado federal com 344 917 votos – o mais votado do Paraná.

Durou pouco. Em maio de 2023, perdeu o mandato por decisão unânime do Tribunal Superior Eleitoral sob a alegação de que pediu exoneração do Ministério Público para escapar de eventual punição em processos administrativos abertos para apurar sua conduta durante a Lava Jato. Caiu atirando. Afirmou que era vítima de perseguição porque declarara uma guerra sem fronteira contra poderosos políticos corruptos, que não havia processo disciplinar contra ele na época em que deixou o MP e concluiu que, para cassá-lo, o TSE fez “malabarismo jurídico”. Trocou o Podemos pelo Novo, cuja assessoria informa que lhe paga 44 mil reais, mais ou menos o que ganha um deputado. Sua tarefa é atrair novos filiados e dar palestras para candidatos nas eleições municipais, nas quais concorrerá à prefeitura de Curitiba. Na última eleição, o Novo elegeu apenas um prefeito** no país: em Joinville, em Santa Catarina. Desde então, porém, outros três migraram para a legenda.

Dallagnol conta com uma força generosa de apoiadores – aos quais ele chama de “agentes de Deus”. Quando foi condenado a pagar os 75 mil reais de indenização para Lula em razão do episódio do PowerPoint, nem precisou recorrer ao fundo de reserva que disse ter constituído para essa emergência. Seus apoiadores fizeram uma avalanche de Pix para a sua conta, totalizando 500 mil reais. Mais tarde, o Tribunal de Contas da União – com votos de ministros citados ou investigados pela Lava Jato – condenou Dallagnol e o ex-procurador-geral Rodrigo Janot a devolverem 2,8 milhões de reais pelo uso indevido de diárias e de passagens aéreas durante a Lava Jato. Cada um ainda deverá pagar multa de 200 mil reais. Dallagnol voltou às redes sociais e, em menos de 24 horas, conseguiu recolher 150 mil reais dos “agentes de Deus”.

 

*Esse parágrafo foi alterado para suprimir a informação de que o procurador Eduardo Pelella fazia parte do grupo do Telegram para o qual Dallagnol enviou essas mensagens.

**O texto original da reportagem informava que o Novo tem apenas uma prefeitura no Brasil, a de Joinville, em Santa Catarina. Na verdade, o partido elegeu apenas um prefeito em 2020, mas, desde então, filiou outros três. Hoje, tem dois prefeitos em Santa Catarina e dois em Minas Gerais.

João Batista Jr.
João Batista Jr.

Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)

Allan de Abreu
Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)

Felippe Aníbal
Felippe Aníbal

É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)

Lígia Mesquita
Lígia Mesquita

É repórter, com passagens pela Folha de S. Paulo e BBC Brasil

Luiz Fernando Toledo

É mestre em jornalismo de dados pela Universidade Columbia e um dos diretores da Abraji

Matheus Pichonelli

Formado em jornalismo e ciências sociais. É roteirista do ICL Notícias, com passagens na Folha de S. Paulo, iG, CartaCapital, Yahoo e UOL

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