Manifestação em julho de 1975, na cidade de Rio Maior, a 84 km de Lisboa. O fotógrafo Sebastião Salgado, que morava em Paris, se mudou para Portugal logo após o 25 de Abril de 1974 e registrou o tumultuado Processo Revolucionário em Curso (Prec). Salgado nunca trabalhou a divulgação dessas imagens, reproduzidas nesta página e nas seguintes, que acabaram ficando praticamente desconhecidas CRÉDITO: SEBASTIÃO SALGADO_1975
Começou com música
Os 50 anos da Revolução dos Cravos em Portugal
Simone Duarte, de Lisboa | Edição 211, Abril 2024
Na noite de 24 de abril de 1974, o jornalista João Paulo Diniz pediu um dos discos dos Beatles na discoteca da rádio e outra meia dúzia de álbuns que faziam sucesso na década de 1970, “para não dar nas vistas”. Quando entrou no estúdio para transmitir o programa Quatro Tempos, que normalmente ia ao ar das dez da noite às duas da manhã, todos os domingos, segundas, quartas e sextas, sabia da missão histórica que lhe cabia. Era uma quarta-feira. Pela manhã, Diniz tinha ido ao cemitério para visitar o túmulo do pai. Precisava conversar com ele, que, muito antes do nascimento do filho, estivera na prisão por se opor à interminável ditadura de António de Oliveira Salazar. Mais tarde, jantou com a mãe e contou o que ia acontecer. Ela ficou apreensiva: “Mas filho, o pai sofreu tanto… e se não correr bem?” À noite, já no estúdio da Rádio Peninsular dos Emissores Associados de Lisboa, preparou-se para colocar no ar a canção E depois do adeus, anunciando assim a primeira senha secreta que daria início à derrubada de quase cinquenta anos de regime ditatorial. Estava consciente de que não podia “defraudar a confiança” que haviam depositado nele. Aos 25 anos, tinha uma certeza: se tudo desse certo, o pai ficaria orgulhoso.
Dois dias antes, Diniz estava na rádio quando o chamaram à recepção. Um homem queria falar com ele.
– Não se lembra de mim? – perguntou o estranho.
– Não, da Guiné? – retrucou Diniz.
Como a maioria dos jovens da época, o jornalista tinha estado “na tropa”, o que significava ter ido à guerra em uma das colônias portuguesas na África onde os movimentos de independência eram mais fortes: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
– Não – respondeu o homem, dizendo que tinha trazido uns discos de Israel e perguntando se Diniz poderia acompanhá-lo até o carro. – São novidades, grandes sucessos, lembrei-me de trazer para tu passares aí na rádio, vem comigo até o carro.
O primeiro instinto de Diniz foi achar que o desconhecido era da Pide (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), a polícia política que dirigia a censura, perseguia, prendia, interrogava, torturava e matava qualquer um que fosse visto como inimigo da ditadura de Salazar, instaurada em 1933. Ali, começava o período do Estado Novo. Em 1968, por motivos de saúde, Salazar foi substituído por Marcello Caetano e morreu dois anos depois. Havia quatro anos, portanto, que a ditadura vinha sobrevivendo ao ditador.
Naquele abril de 1974, Portugal era um país pobre, antidemocrático, conservador e colonialista, isolado do resto do mundo. O regime autoritário lutava contra os movimentos de independência nas suas colônias africanas. Em treze anos, a Guerra Colonial levou 90% dos jovens portugueses, cerca de 800 mil, para os campos de batalha, agravou a crise econômica do país, considerando que nada menos que 37% do orçamento público eram destinados ao conflito, e traumatizou a sociedade.
“Eu entrei no carro”, conta Diniz, hoje aos 75 anos, sentado em uma das mesas do simbólico café A Brasileira, no bairro do Chiado, em Lisboa. Estava desconfiado com o convite. “Era um Mini, lembro que fiquei com o pé direito de fora, não me sentei, não fechei a porta, porque aquilo não me soou bem. Aí ele me disse: ‘Sou oficial da Força Aérea.’ Apresentou-se: ‘Está aqui o meu cartão.’ Estava escrito Costa Martins. ‘Precisamos de ti porque vamos dar um golpe de Estado para derrubar o regime.’ Eu não acreditei, pedi para não me chatear, disse que naturalmente ele devia ter bebido, que golpe de Estado era coisa séria e que eu tinha mais o que fazer, mas aí ele me interrompeu e perguntou: ‘E se fosse o Otelo a falar contigo?’”
Otelo Saraiva de Carvalho tinha sido o comandante de João Paulo Diniz na Guiné-Bissau. Diniz não quis se comprometer. “O Otelo quer me ver? Não estou com ele desde que voltei da Guiné, quero lhe dar um abraço. Mas estou com imenso trabalho, que tal no mês que vem?” Costa Martins, o mensageiro do homem que coordenava as operações do golpe que derrubaria a ditadura, insistiu que tinha de ser naquele dia. Não podiam esperar. Combinaram então de se encontrar no Apolo 70, o primeiro centro comercial de Portugal, entre nove e dez da noite.
Quando Diniz chegou, os três foram para uma cafeteria. Otelo Saraiva de Carvalho, um dos líderes mais importantes do 25 de Abril, disse que precisava dele para transmitir na rádio a primeira senha da noite que desencadearia as manobras militares. Queria que ele tocasse no programa de rádio a canção de Zeca Afonso, Grândola, vila morena. Serviria como um sinal para, segundo as palavras que Diniz ouviu de Otelo, “as tropas avançarem, para instalar uma democracia e acabar com a Guerra Colonial, com aquela bagunça”. O jornalista aceitou a missão, mas argumentou que precisavam escolher outra música. O cantor Zeca Afonso já havia sido preso, tinha muitas canções censuradas, iria chamar a atenção dos censores da Pide. Diniz não tinha dúvida de que deveria ser uma canção que não despertasse suspeita. Sugeriu E depois do adeus, cantada por Paulo de Carvalho que representara Portugal no Festival Eurovisão da Canção. Combinou-se ali a frase que Diniz falaria e o horário exato da transmissão: 23h55 do dia 24 de abril. Quando se despediram, o jornalista perguntou ao ex-comandante o que aconteceria se algo não corresse bem.
– Vai correr bem – respondeu Otelo.
– Mas e se não correr? – insistiu Diniz.
– Se falhar qualquer coisa, tu, que és civil, vais ser preso em Caxias, e nós, que somos militares, vamos para o presídio militar da Trafaria.
À tarde do dia 24 de abril, Diniz recebeu o aviso de que haveria uma mudança de horário. Em vez de 23h55, a transmissão teria de ser feita uma hora antes, às 22h55. A frase que antecedia a canção era essencial para desencadear a operação na capital e arredores, já que o alcance das estações de rádio de Lisboa não era nacional. Quando entrou no estúdio, o jornalista pensou: “O.k., hoje é o dia. Não dá para falhar.” Mas às 22h48, uma falha técnica suspendeu a transmissão. Durou 3 minutos apenas, mas pareceu uma eternidade para os militares que esperavam o primeiro sinal para entrar em ação. Diniz só sentia o peso da responsabilidade e sonhava com o fim da Guerra Colonial quando pensou… “Vamos embora”:
Faltam 5 minutos para as 23 horas. Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, E depois do adeus:
Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
não me traz
tua voz
Em silêncio amor,
Em tristeza enfim
Eu te sinto em flor,
Eu te sofro em mim
Eu te lembro assim
Partir é morrer
Como amar é ganhar e perder.



A locução de Diniz durou exatos 8 segundos. A música levou mais 3 minutos e 19 segundos. E assim começou a sublevação dos militares nos quartéis da capital. Otelo Saraiva de Carvalho comandava tudo do Quartel da Pontinha, em Lisboa. A revolução dos chamados capitães de abril já estava no ar. Entrara em curso a Revolução dos Cravos, que logo obteria a rendição de Marcello Caetano, sucessor de Salazar, acabando com 48 anos de ditadura em Portugal, a mais longa do século XX na Europa.
A menos de 2 km dos estúdios da rádio, o então jornalista, cantor e militante político José Jorge Letria assistia no cinema a Nosso amor de ontem, de Sydney Pollack, com Robert Redford e Barbra Streisand. Levara a mulher e um casal de amigos para jantar antes de ver o filme sobre a história de amor em pleno período de caça às bruxas aos comunistas nos Estados Unidos. Aos 23 anos, e com um filho de menos de 6 meses em casa, Letria era um dos poucos civis portugueses, menos de vinte, que sabiam da operação militar para derrubar o regime. Não tinha ideia se a revolução seria vitoriosa. Não sabia se era a última sessão de cinema de suas vidas, se era uma despedida. O filme terminou antes da meia-noite, e ele e o amigo deixaram as mulheres em casa em segurança. Precisavam estar sozinhos para sintonizar na Rádio Renascença e esperar que o relógio marcasse meia-noite e vinte. Assim foi. O amigo, que dirigia um Citroën GS, parou em frente ao Hotel Roma. Os dois, ansiosos, esperaram para ouvir a contrassenha da noite. Dessa vez, era mesmo Grândola, vila morena, a canção de Zeca Afonso, que confirmaria que o golpe estava em curso.
A música era a quinta faixa do álbum Cantigas do maio, de Zeca Afonso, gravado em 1971. O disco estava trancado em um armário da Rádio Renascença, já com os cortes da censura. Os agentes da Pide costumavam usar pregos para arranhar as faixas censuradas ou os discos inteiros. José Jorge Letria emprestou o seu álbum. Outra vez, uma falha aconteceu. À meia-noite e cinco minutos da madrugada de 25 de abril de 1974, 15 minutos antes da hora da senha, um corte de energia interrompeu a emissão da Rádio Renascença. Cinco minutos depois, a transmissão foi normalizada. À meia-noite e vinte minutos, durante o programa Limite, a senha definitiva foi lida pelo locutor moçambicano Teodomiro Leite de Vasconcelos. O combinado era que ele falasse a primeira estrofe de Grândola antes do início da música. Era o sinal verde de que as unidades estavam preparadas e os militares revoltosos podiam sair dos quartéis em todo o país. Leite de Vasconcelos leu:
Grândola, vila morena,
Terra da fraternidade,
O povo é quem mais ordena,
Dentro de ti,
Ó cidade.
José Jorge Letria soube da Operação Fim-Regime duas semanas antes, mas só foi informado da data exata do golpe poucos dias antes de 25 de abril. “Uma das razões para a escolha desse dia é que havia um grande contingente de tropas em Lisboa que estavam sendo mobilizadas para a Guerra Colonial na África.” Além disso, havia a questão da claridade. “Não poderia haver um levante na Lua cheia, tinha de ser uma noite de Lua minguante”, conta Letria, que não consegue conter a voz rouca nem os suspiros ao lembrar aquele 25 de abril. “Eram três da manhã e nós ficamos dando voltas em frente ao Batalhão de Caçadores 5 até que os soldados começaram a sair, centenas deles, com as caras todas pintadas, prontos para o combate. Foi a maior emoção da minha vida.” Letria lembra também de ter visto uma cena insólita, quase de cinema. “Do nada, apareceu um tipo embriagado de smoking dentro de um Alfa Romeo; saiu com a gravata na mão, indignado de ver manobras militares de madrugada em Lisboa e dizia algo do tipo: ‘uma pessoa sai de uma festa e está sujeita a isto.’”
Nunca lhe devolveram o álbum com a gravação de Grândola, vila morena. Letria não se importa: quem afinal iria exigir de volta o álbum da música que viraria o hino da revolução?
“Eu não tenho cartão de visita, mas se tivesse, escreveria assim: um dos quatro que gravaram a Grândola”, sorri o ex-padre Francisco Fanhais. Aos 82 anos, Fanhais é um homem alto, magro, com um olhar doce, que se emociona e chora toda vez que fala em Zeca Afonso. Ele lembra o dia, ainda no seminário, quando um padre lhe deu o disco do músico e disse quase sussurrando: “Ouves baixinho.” Quando ouviu a voz, o poema, a música de Menino do bairro negro e Os vampiros, pensou: “É isso que faz sentido.”
Cinco anos depois, em 1968, o padre Fanhais, que cantava cantigas ao violão, conheceu Zeca Afonso, um encontro, diz ele sem hesitar, que mudou a sua vida. Logo descobriram que o pai de Zeca tinha sido tratado pelo pai de Francisco, que era médico. Tornaram-se amigos. Zeca o convenceu a participar do programa de tevê campeão de audiência na época: o Zip-Zip. O sucesso do primeiro talk show da televisão portuguesa era tanto que a companhia de água e esgotos registrava um pico do consumo nos intervalos quando os telespectadores corriam para ir ao banheiro.
Em 1971, o padre Fanhais mudou-se para a França. A Igreja o proibira de cantar em Portugal por causa dos sermões que fazia contra a Guerra Colonial. Juntou-se ao amigo Zeca na gravação do álbum Cantigas do maio, no Château d’Hérouville, nos arredores de Paris. A capital francesa, nas décadas de 1960 e 1970, transformara-se no refúgio dos jovens portugueses que escapavam clandestinamente para não lutar na Guerra Colonial. Era também onde os músicos, que compunham e cantavam canções contra a ditadura, gravavam seus discos. Zeca Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco eram contratados da gravadora portuguesa Sassetti. As gravações dos discos aconteciam no castelo, que tinha uma qualidade técnica inexistente em Portugal. Durante a década de 1970, o Château d’Hérouville se tornaria o estúdio predileto de astros do rock e do pop como David Bowie, Elton John e Pink Floyd.
Durante quinze dias seguidos, entre outubro e novembro de 1971, Fanhais, Zeca, José Mário Branco e o músico que acompanhava no violão, Carlos Correia, apelidado de Bóris, gravaram o álbum. José Mário Branco era o responsável pelos arranjos e pela direção musical. Para Grândola, vila morena, uma homenagem ao cante alentejano, um canto em coro e sem recursos de instrumentos, José Mário queria os quatro músicos de braços dados andando em círculos e arrastando os pés no chão. “O chão do estúdio era muito liso, por mais que nós arrastássemos os pés, não fazia barulho algum”, lembra Fanhais, o único dos quatro ainda vivo. “O Zé Mário decidiu que só havia um lugar possível: a parte de fora do estúdio em que o chão era de brita, mas uma estrada passava ao lado.” A solução foi gravar de madrugada. Às três da manhã, os microfones foram colocados no chão, em roda, e os quatro ficaram arrastando os pés, juntos, caminhando em círculos, de braços dados, reproduzindo a cadência dos passos numa alusão aos cantores alentejanos que caminham pelas ruas das vilas da região. No dia seguinte, já no estúdio, colocaram os fones, ouviram o barulho dos próprios pés e começaram a cantar. Dois anos e meio depois, Grândola, vila morena seria a senha final para a derrubada do regime.
“Grândola nasce nos anos 1960 quando Zeca Afonso é convidado para cantar pela Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, no Alentejo”, diz o jornalista Nuno Pacheco, crítico de música do jornal português Público. “Ele gostou tanto de como foi recebido na vila que resolveu escrever um poema de agradecimento e depois o musicou. Na gravação em Paris, aquele arrastar de pés confunde-se um pouco com uma marcha marcial, de tropa. A canção é isso, o arrastar dos pés, sem instrumentos, só vozes. Parecia algo de mobilização, mas era uma declaração de amor à Grândola. Ela é de fato mobilizadora, um bocadinho como Pra não dizer que não falei das flores, do Geraldo Vandré. Quem ouve pensa: é para ir em frente.”
“O Zeca Afonso não era muito tocado na rádio. Estava na lista negra da Pide”, continua Pacheco. Mas o disco saiu e a canção não foi proibida. Grândola então passou a ser cantada em meios estudantis, em associações. Teve o seu ápice num evento organizado pela Casa da Imprensa, em um espetáculo no Coliseu, o palco mais simbólico de Lisboa, apresentado em 29 de março de 1974, menos de um mês antes do início da Revolução dos Cravos. Junto com Zeca Afonso, a multidão que lotava o teatro cantou em peso Grândola, vila morena. “Eu estava lá, no Coliseu abarrotado, as pessoas cantavam a plenos pulmões, mesmo com a Pide lá dentro¸ cantavam e gritavam ‘Morte à Pide!’”, lembra o jornalista.
José Jorge Letria foi um dos organizadores dos prêmios da Casa da Imprensa no Coliseu. Estava no palco junto com Zeca Afonso, Carlos Paredes, Adriano Correia de Oliveira e os principais músicos que viviam em Portugal e lutavam contra o regime. “Até as dez e pouco da noite, nós estávamos discutindo com o diretor-geral de espetáculos que dizia que era melhor para nós e para o Estado que não fizéssemos o concerto porque ia colocar muita gente contra o regime”, recorda Letria. “Nós decidimos nos bastidores que íamos cantar.” Os músicos respeitaram os censores que já haviam proibido que Zeca Afonso cantasse A morte saiu à rua e Venham mais cinco, que diz:
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que já é tempo de embalar a trouxa
E zarpar.
Apesar dos pedidos que vinham da plateia, os músicos também não desafiaram os censores interpretando Os vampiros, cujos versos dizem:
No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada
[…]
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.
Mas Grândola, liberada pela censura, estava no roteiro. Sete mil espectadores cantaram a música em uníssono. “Era comum”, conta Nuno Pacheco, “a Pide liberar uma música para depois perceber que ela tinha o poder de mobilização, voltar atrás e proibi-la. Mas isso não aconteceu com Grândola.” Paulo de Carvalho, o intérprete de E depois do adeus, a primeira senha da revolução na rádio, diverte-se. “Às vezes a censura é estúpida”, diz ele, rindo. “Se eu fiquei para a história, foi por acaso, porque o João Paulo Diniz achou que era complicado colocar uma música do Zeca Afonso.”
Ele então comenta sobre E depois do adeus. “Foi escrita pelo José Niza. A canção é inspirada nas cartas que o próprio Niza escrevia para sua mulher durante a Guerra Colonial. As primeiras estrofes são pequenos trechos dessas cartas”, diz Carvalho e, em seguida, cantarola baixinho: Quis saber quem sou,/o que faço aqui,/quem me abandonou,/de quem me esqueci… “Tenho orgulho e fiquei marcado para sempre, mas não fiz nada para que isso acontecesse. Tenho uma enorme admiração pelo Zeca Afonso, não só pela obra, que é muito importante na renovação da música portuguesa, mas pela pessoa. Ele era muito coerente e Grândola é a música da revolução. Enquanto eu estive por acaso, ele esteve onde merecia estar.”
“O Zeca abriu janelas onde nem paredes havia”, resume Sérgio Godinho, ele próprio, um dos maiores nomes da música portuguesa. Godinho é autor de canções que são, há mais de cinquenta anos, a trilha sonora de gerações de portugueses, como Liberdade:
A paz, o pão
Habitação
Saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir.
A canção, com seus versos impregnados do espírito daquele tempo, foi lançada seis meses depois da Revolução dos Cravos, quando Godinho voltou definitivamente do exílio. Apesar de sua própria importância musical, ele comenta sobre a influência de Zeca Afonso: “Sempre foi uma figura tutelar, um inventor, um desbravador. Na música brasileira, eu sinto que houve uma continuidade. O Chico [Buarque] bebeu do Noel Rosa, os músicos brasileiros são herdeiros de Ary Barroso, de Dorival Caymmi. Nós aqui, não… Então o Zeca, neste contexto, é um inovador, rompeu com o fado de Coimbra, teve influência africana, do tempo que fugiu da ditadura e foi trabalhar em Moçambique. O Zeca era muito estimulante, vivíssimo, um espírito muito independente. Ele me fez acreditar que eu podia escrever canções em português.”
O crítico Nuno Pacheco discorre sobre o contexto histórico. “A música em Portugal começa a ser de contestação aí por volta dos anos 1960, um bocadinho na sequência de uma alteração que foi feita de gênero e abordagem do fado de Coimbra, e passaram por lá o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira e o José Niza, junto com tantos músicos que se opunham ao regime. Eles se libertaram daquela malha tradicional do fado de Coimbra que falava de amores, desgraças… e começou a nascer uma canção mais limpa, menos ligada àquele modo de cantar operístico de Coimbra. Essa nova canção deu origem à chamada nova música popular portuguesa, como foi no Brasil a MPB. Aqui foi a MPP. Na verdade, não era uma música ligeira que passava na rádio nem nos festivais. Era uma música mais balada, no princípio só com violão, mas enriquecida com vários outros instrumentos. O Zeca Afonso e o Adriano Correia de Oliveira foram dos primeiros a cantar a pobreza, a imigração, o que agitava as pessoas naquela altura. E o que agitava as pessoas naquela altura era a Guerra Colonial. Eles cantavam de uma forma dissimulada porque a guerra não se podia abordar diretamente, se não os discos eram proibidos. A Pide ia buscar os discos e não os deixava sair ou proibia que tocassem na rádio: não era proibido ser vendido, mas era proibido de ser difundido, e se não tocava na rádio, era como se não existisse. Isso foi andando aos poucos da década de 1960 até 1974, quando eclode o 25 de Abril. Estes discos, estas canções foram alicerces para a luta clandestina contra o Estado Novo.”
Na véspera de completar 14 anos, o hoje pianista e compositor de jazz Mário Laginha estava ansioso pelo dia 25 de abril. Como era tradição na família, a avó chegava a Lisboa no dia 24 para cozinhar para o aniversário do neto no dia seguinte. O prato mais esperado era a sobremesa de arroz-doce. Com canela, ela decorava cada pote de arroz com diferentes desenhos, seguindo a tradição em Salvaterra de Magos, no Ribatejo. Mas aquele 25 de abril seria diferente. O pai, que saíra cedo para o trabalho, voltou uma hora depois. O adolescente entreouviu a conversa:
– Acho que houve uma revolução – disse seu pai.
– Isso é bom demais para ser verdade – respondeu a mãe.
“Eu primeiro pensei que algo mau estava acontecendo. Minha mãe era professora de matemática, meu pai, funcionário público. Não era uma família que falasse de política. Eu não tinha cultura política nenhuma. E, de repente, nada aconteceu no meu pequeno mundo, ninguém veio comemorar, ninguém me deu parabéns, não houve festa, comecei a ficar irritado. Ninguém estava a lembrar dos meus anos até que comecei a perceber que meus pais estavam a ficar muito contentes com alguma coisa que estava a acontecer.”
No dia seguinte, o pai o levou para passear de carro, de janela aberta fazendo o V de vitória. Mário cantava: vitória, vitória, vitória. Os pais finalmente explicaram que viviam em um regime político ditatorial, em que as pessoas não podiam dar a sua opinião, não havia liberdade de expressão. “Isso nunca era assunto lá em casa. Começaram a ser abordados temas que não eram falados. Eu costumo dizer que tive um curso básico de política em algumas horas.”
Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto são os quatro nomes incontornáveis da geração de músicos daquele período. “É claro que havia outros muito bons como o Adriano Correia de Oliveira e o Luís Cília, para citar dois deles, mas estes quatro deixaram um legado extraordinário, imenso”, diz Mário Laginha. “Eles todos tinham a consciência do obscurantismo em que se vivia. Nós não tínhamos acesso a nada. Como alguém pode dizer que no tempo do Salazar é que era bom? Isso era uma aldeia sem informação alguma, não havia cultura, não chegava nada de fora, praticamente não se ouvia jazz… Eles eram todos diferentes, mas tinham em comum o fato de fazerem música boa e rica. Não tinha nada a ver com a música ligeira portuguesa. Os textos eram engajados e interventivos. Romperam completamente com uma tradição”, afirma.
Laginha interpretou ao piano Tanto mar, de Chico Buarque, quando o cantor e escritor brasileiro recebeu o Prêmio Camões em Lisboa, no ano passado, na véspera dos 49 anos da revolução. No discurso da premiação, Chico disse: “Por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que eu publique romances e contos, por mais que eu receba prêmios literários, faço gosto de ser reconhecido […] em Portugal como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim. Valeu a pena esperar por esta cerimônia marcada, não por acaso, para a véspera do dia em que os portugueses descem a Avenida Liberdade a festejar a Revolução dos Cravos.”
Luís Cília chegou a Paris no dia 1º de abril de 1964. Cruzou a fronteira clandestinamente, a bordo de um Fiat, na companhia de um casal: um tenente que ia desertar com a mulher grávida. Cília já havia sido chamado para a “tropa”. “Estava fora de questão ir para a Guerra Colonial”, relembra ele hoje, aos 81 anos, rodeado, em casa, por um arsenal de memórias: livros, discos, fotos, panfletos, cópias de cartazes de concertos da época e de relatórios da Pide que tratam dele mesmo. Na época que se exilou na capital francesa, tinha 21 anos, um violão na bagagem e uma enorme vontade de cantar contra a guerra nas colônias e contra a ditadura. O cantor português, nascido em Angola, foi quem mais gravou e lançou discos no exílio. No mesmo ano em que chegou a Paris, lançou seu primeiro LP, Portugal-Angola: chants de lutte, pela Le Chant du Monde, a gravadora ligada ao Partido Comunista Francês. Cantava o que ninguém podia cantar em Portugal. Não tinha de enfrentar o “lápis azul”, símbolo da censura da Pide, batizado assim porque os censores usavam um lápis de cor azul para cortar os textos das músicas ou de qualquer manifestação artística ou artigo antes de ser publicado pela imprensa.
Cília era tímido, mas frequentava o Select Latin, um café em que “ia todo português que chegava clandestino a Paris, toda a gente se encontrava, todo mundo passava pela cidade”. Os dez anos na capital francesa e uma viagem de um mês a Cuba o fizeram conhecer e ficar amigo de músicos como Georges Brassens, Léo Ferré, Paco Ibáñez, Pablo Milanés, Silvio Rodríguez. Lembra com carinho o encontro com a cantora argentina Mercedes Sosa: “Ela me perguntou: ‘Você conhece um poema que diz Resiste meu amor, resiste?’ Eu respondi que sim. Era meu.” “Havia um ambiente político incrível na França. Conheci outros músicos exilados portugueses como o José Mário Branco, o Sérgio Godinho e aí veio Maio de 68. ‘É proibido proibir’ é um slogan maravilhoso; onde houvesse portugueses ou uma ocupação em fábricas, lá íamos nós cantar. Era um clima de liberdade total”, lembra Cília.
Godinho também relembra a vida que tinha em Paris daquela época. “Vivi Maio de 68 intensamente. Ia para a rua todos os dias, dormia na Sorbonne, apanhava com gás lacrimogêneo, fiz parte da ocupação da casa dos estudantes portugueses em Paris”, diz ele, que, antes de morar na capital francesa, tinha estudado psicologia com Jean Piaget, em Genebra, e atravessado o Oceano Atlântico trabalhando na cozinha de um navio holandês. Fez trabalhos de conveniência até que acabou atuando no musical Hair em Paris. “Não fui um desertor porque não era ainda do Exército, fui o que chamam de refratário: não respondi ao ‘apelo da pátria’.” Godinho se mudou depois para o Canadá e estava em Vancouver no dia da Revolução dos Cravos.
Na madrugada de 25 de abril de 1974, o jovem Francisco Ribeiro Telles foi acordado por volta das duas da manhã junto com os outros recrutas da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, a 80 km de Lisboa. Não se surpreendeu. Passara o dia vendo um movimento anormal de carros de combate e jipes sendo abastecidos. Já estava desconfiado de que haveria exercícios noturnos. Ignorava que, naquela hora, os seus superiores já tinham ouvido no rádio E depois do adeus e Grândola, vila morena.
“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados socialistas, os Estados capitalistas e o Estado a que chegamos”, começou o capitão Fernando Salgueiro Maia, ao ler o comunicado do Movimento das Forças Armadas, avisando que iria marchar sobre Lisboa e precisava de voluntários. “Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o Estado a que chegamos!” O jovem Ribeiro Telles deu um passo à frente.
“Eu mal sabia disparar, tinha apenas três meses de tropa, deram-nos uma espingarda, uns cartuchos com balas, umas granadas e lá fomos todos a marchar para Lisboa numa coluna blindada”, conta o hoje embaixador Ribeiro Telles, secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Lembrei-me do meu pai que sempre foi uma pessoa que lutou contra o regime. Pensei que ia participar de um momento histórico, muito importante para o país, sem ter muita noção do que eu iria fazer.”
A Escola Prática de Cavalaria que partiu de Santarém teria a missão mais importante da operação: ocupar o Terreiro do Paço, onde ficavam os ministérios, e destituir o regime com a rendição do presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano, que se refugiou a 750 metros de distância dali, no quartel da Guarda Nacional Republicana, no Largo do Carmo. Caetano acabaria por se exilar no Rio de Janeiro.
O capitão Salgueiro Maia explicou aos recrutas que todos os revoltosos seriam identificados nos uniformes, nos carros de combates e nos jipes com um quadrado vermelho. “Havia a preocupação de que, quando passássemos no pedágio próximo a Lisboa, poderia haver algum problema”, relembra Ribeiro Telles. Tinha sido ali que uma tentativa de golpe, um mês antes, havia fracassado. “Foi muito impressionante. Entramos pelo Marquês de Pombal, pela Avenida da Liberdade e chegamos ao Terreiro do Paço às cinco da manhã. Imagine o barulho de uma coluna de blindados em plena Avenida da Liberdade. Não houve reação, nenhuma movimentação, zero, nada. Depois percebi que a sensação era de que o regime estava a cair de podre.”
Mesmo passados cinquenta anos, Ribeiro Telles reteve na memória detalhes do que se passou no Terreiro do Paço naquele dia. “Maia se reuniu conosco e disse que tudo estava a correr bem, que havia notícias de mais adesão de companhias militares importantes à revolução. O único problema era a Cavalaria 7, uma unidade que estava próxima na Ajuda [a 6 km de distância] e tinha um poder de fogo superior ao nosso.”
Havia também no Rio Tejo uma fragata da Marinha bem em frente ao Terreiro do Paço que não se juntara aos revoltosos e recebera instruções para disparar. Ribeiro Telles cai na gargalhada ao lembrar que, cada vez que a fragata se aproximava e baixava os canhões, “nós nos metíamos todos atrás de caminhonetes”. A fragata acabaria por se render. Mas a questão crucial foi quando dois carros de combate M-47 saíram da Cavalaria 7 e chegaram ao Terreiro do Paço.
“Há um brigadeiro que dá várias vezes ordem de fogo sobre nós. E os soldados que estão lá dentro não disparam. O Maia pede a rendição do comandante. A nossa subida para o Quartel do Carmo, no Largo do Carmo, onde Marcello Caetano e outros membros do governo estavam foi apoteótica. Centenas de pessoas, que chegavam cedo para trabalhar, ficaram paradas olhando para nós. Nós tentávamos fazer um cordão de isolamento, mas era uma multidão.”
Salgueiro Maia tornou-se o rosto mais visível e o símbolo da vitória militar do 25 de Abril. Em vez dos tradicionais adereços de oficial de cavalaria – botas de cano alto e boina preta –, ele vestia a mesma farda que seus soldados, todos iguais na missão de derrubar a ditadura. “A preocupação dele desde o início era evitar o confronto”, conta Ribeiro Telles. “Ele próprio estava convencido na saída de que o regime iria cair e que, portanto, a reação à nossa coluna, os obstáculos que a coluna iria ter não seriam significativos. Porque no fim das contas ele pega duzentos e tal recrutas que não tinham experiência para fazer uma revolução. O Otelo Saraiva de Carvalho confiava muito nele e o Movimento das Forças Armadas tinham aprendido as lições do golpe frustrado nas Caldas da Rainha, um mês e meio antes, e se preparou para o dia 25 de abril de forma diferente. Nós respeitávamos muito o Maia, a sua integridade, a sua liderança. Não sei se outro capitão no comando teria tido tantos voluntários”, diz Ribeiro Telles.
O jornalista Adelino Gomes nem parece ouvir os músicos brasileiros que improvisam um forró para os turistas que passam pelo Largo do Carmo. Aos 79 anos, percorre a praça e gesticula como um jovem ao relembrar os acontecimentos de cinquenta anos atrás. Gomes também era um dos poucos civis que sabiam que haveria um golpe. Na época, estava proibido de exercer a profissão de jornalista, mas lembra que, ao chegar ao Terreiro do Paço, teve a mesma dúvida de milhares de portugueses: será este um golpe da direita ou da esquerda? Quando lhe disseram o nome do comandante da operação, teve uma surpresa: Salgueiro Maia tinha sido seu colega de escola. Não se viam há mais de dez anos. Gomes dirigiu-se diretamente a Maia:
– De que lado estás?
– Tu não tiveste um problema qualquer, que tiveste de ir para o estrangeiro por causa do que dissestes na rádio? – retrucou Maia, explicando em seguida: – Estamos a fazer isso para que ninguém mais tenha de sair do país por causa daquilo que diz ou faz.
Gomes tascou um abraço em Salgueiro Maia em pleno Terreiro do Paço.
Assim como Salgueiro Maia foi o rosto do que se passou no Terreiro do Paço e no Largo do Carmo – o epicentro da Operação Fim-Regime –, Gomes foi a voz do 25 de Abril na rádio, o jornalista que cobriu todos os detalhes da queda do regime. “Foi o dia mais feliz da minha vida. As pessoas olham para mim e pensam: ‘Este gajo não gosta da mulher, não gosta dos filhos.’ Mas é que 25 de abril de 1974 foi o dia mais feliz da minha vida. Passaram cinquenta anos e continuo a sentir o mesmo. Há qualquer coisa que se passou aqui, com uns gajos com umas armas, vivências, vontades, aspirações. O 25 de Abril não é só o Maia. O Salazar havia morrido, o Marcello Caetano, que tinha prometido mudanças, a chamada Primavera Marcelista, não avançou com as promessas, eram treze anos de Guerra Colonial em que jovens como o Salgueiro Maia perceberam que eram carne para canhão. O que chocou o Maia tanto em Moçambique como na Guiné foi sentir o desdém com que os portugueses brancos tratavam os militares [negros, mobilizados nas próprias colônias]. Ele deixou de acreditar naquela ideia do Portugal indivisível.”
Gomes continua: “Havia ainda essa política de prender estudantes opositores do regime e os enviar para servir na África, eles doutrinaram os jovens militares. O regime degenerou, estava fraturado entre os ultradireitas e os que queriam mudanças. Nesse quadro, surgem os militares jovens, que ouviam as fitas cassetes das canções dos músicos proibidos em Portugal antes de irem para a batalha matar. Foi um conjunto de fatores que se encontrou no inconformismo dos militares que sabiam que não podiam ganhar a guerra, queriam uma saída, queriam o fim do regime, mas não queriam ficar no poder. E esta é a diferença em comparação a tantos outros golpes. O 25 de Abril é este mar, esta torrente que se forma e vai desaguar no Terreiro do Paço e termina aqui.” Agora, Gomes está com um olhar que parece fotografar cada milímetro do Largo do Carmo e reviver cada segundo daquele dia.
Há dez anos, nas comemorações dos 40 anos da Revolução dos Cravos, Gomes e o fotógrafo Alfredo Cunha lançaram o livro Os rapazes dos tanques. Os dois descobriram o nome do cabo que estava no tanque e se recusou a atirar em Salgueiro Maia. “Reunimos dez soldados que estavam dentro dos carros de combate M-47. Cada um tinha uma memória diferente até que perguntamos quem era o cabo e todos apontaram para o José Alves Costa, que, ao longo de décadas, nunca tinha falado sobre o 25 de Abril.” Ao fechar a tampa do M-47, o cabo Costa fez com que o seu comandante desobedecesse às ordens do brigadeiro para disparar. Para Salgueiro Maia, que morreu aos 47 anos em 1992, o cabo era o verdadeiro herói do 25 de Abril, a revolução que começou com música e terminou sem sangue.
Para o jornalista que acompanhou cada passo do comandante naquele dia, o momento-chave aconteceu por volta de meio-dia e meia, quando Salgueiro Maia se dirigiu ao repórter:
– Temos todas as Forças Armadas do Exército conosco – exagerou.
– Temos o povo – disse um alferes.
– Além do povo, de cujo apoio nunca duvidamos, temos todas as viaturas blindadas do Exército português nas nossas mãos.
Naquela altura, Marcello Caetano ainda não se rendera, mas milhares de pessoas reunidas no Largo do Carmo já gritavam “Viva a liberdade”, “Abaixo os fascistas”, “Vitória, vitória”. Para Gomes, é nesse instante que Salgueiro Maia entende que já não se trata mais de um golpe militar, mas de uma revolução. “Já não são mais só os militares de um lado e o regime do outro, é o povo. O golpe transforma-se em revolução.”
Nem Adelino Gomes nem Francisco Ribeiro Telles se lembram de ter cruzado com Celeste Caeiro. Mas um dos soldados, que viera com Ribeiro Telles de Santarém, pediu um cigarro à mulher que passava pela rua. Ela só tinha flores. Deu um cravo ao rapaz, que o colocou na ponta da espingarda. E começou a distribuir cravos vermelhos e brancos aos recrutas que ia encontrando pelo caminho. Eles repetiam o gesto do primeiro soldado, colocando as flores nas espingardas. As floristas do bairro seguiram o exemplo da mulher e passaram a distribuir cravos – e assim nasceu a Revolução dos Cravos. Ribeiro Telles só ouviria Grândola, vila morena, pela primeira vez, no dia 25 de Abril.
Em Paris, o ex-padre Francisco Fanhais soube do golpe pelo rádio. Assim que ouviu que as fronteiras tinham sido abertas, partiu de trem a caminho de Portugal. Quando pararam em Vilar Formoso, a primeira vila em território português, Fanhais abriu a janela para “respirar o ar puro do país”. Um cabo marchava sozinho na estação. “Um amigo dentro do vagão perguntou ao cabo: ‘Cadê os Pides?’ O militar levantou a espingarda e disse: ‘Fala alto porque isso agora é um país livre.’ Toda vez que conto essa história, eu choro”, diz Fanhais, enxugando as lágrimas.
“Todo o movimento anterior a 25 de abril eu chamo canto da resistência”, diz Nuno Pacheco, o crítico de música. “Depois do 25 de Abril, muitos dos músicos no exílio voltam ao país, começam a trabalhar aqui, e aí é que começa aquilo que eu chamo de canção de intervenção.” Ele explica a que se refere: “Os músicos que antigamente iam cantar num recanto, em uma associação para estudantes, nas faculdades, passam a cantar em fábricas ocupadas, nos campos durante a reforma agrária, para os camponeses que ocupavam uma herdade ou campo abandonado, ou nos ‘saneamentos’ quando uma comissão de trabalhadores tomava conta da administração expulsando o proprietário que os maltratava ou que era ligado ao antigo regime, ou à Pide.” Os músicos não ganhavam nada, às vezes um prato de comida ou alguma bebida. “Todos se colocaram a serviço do que estava acontecendo. Havia uma ocupação de um prédio, lá iam eles cantar. Andaram nessa loucura nos anos de 1974 e 1975 até que há o 25 de novembro de 1975.”
“O Zeca e eu fomos para Bragança numa campanha de dinamização do Movimento das Forças Armadas”, lembra Fanhais. Passaram quinze dias conversando e cantando em pequenas vilas. Em uma delas, as habitantes contaram o caso de um rapaz que fora preso pela Pide, depois de ser denunciado pelo patrão. Zeca Afonso ouviu todos os detalhes e começou a escrever e fazer a música. “Dois ou três dias depois, voltamos à vila para o Zeca tocar e cantar. As pessoas ficaram radiantes ao ouvir a história que haviam contado, que havia acontecido com eles. Era um tempo de doação completa. A entrega à revolução era sem reservas, onde nos chamávamos nós íamos e cantávamos em condições completamente anormais, às vezes nem microfone havia”, diz Fanhais.
José Jorge Letria, que controlava a “célula dos cantores” do Partido Comunista, recorda: “Fiz muitas canções à tarde para cantar à noite. E fazia muito à noite para cantar na hora do almoço.” Viajavam por todo o país se apresentando em sindicatos, escolas, associações de moradores, fábricas. “Nós vivíamos em estado de graça. Quem chegava com uma viola na mão para cantar e compartilhar com as pessoas os momentos de emoção e de grande entusiasmo revolucionário deixava de ser um cantor da revolução e passava a ser um irmão deles, um filho, éramos tratados como familiares, acarinhados com emoção. Claro que isso era muito mais forte no Alentejo por causa da reforma agrária. Havia poucos microfones, cantávamos em condições muito precárias, mas eu aguentava tudo.”
Margarida Antunes da Silva tinha 23 anos em 25 de abril. Viveu a euforia, essa vontade de mudar e pensar que tudo era mesmo possível. “Nunca houve um Primeiro de Maio como aquele, milhares de pessoas sorrindo de orelha a orelha, a felicidade estampada no rosto daquela gente toda, crianças, novos, velhos. Fico arrepiada quando me lembro. É algo irrepetível. Nunca vivi algo semelhante.”
Margarida Antunes da Silva conheceu José Mário Branco, que voltara de Paris, e Fausto, dois dos grandes músicos que formavam o Grupo de Acção Cultural (GAC), de orientação maoista. Onde quer que fossem, cantavam-se os versos de A cantiga é uma arma, de José Mário Branco:
A cantiga é uma arma
E eu não sabia
Tudo depende da bala
E da pontaria.
A jovem Margarida Antunes, como é conhecida, largou a faculdade e começou a vender os discos do GAC por onde iam. Depois, ela própria começaria a cantar. “Conviver com pessoas daquele calibre, naquela idade. Eles nos tratavam como iguais. A música entra na minha vida por causa do 25 de Abril e nunca mais sai. Viajávamos de Norte a Sul do país, cantamos em todos os quartéis do país, todos. Descobri um país que não conhecia.” Ela lembra ainda hoje quando ouviu 2 mil soldados perfilados cantando o hino da Internacional Comunista com punho erguido. “Imagina, nós sabíamos que o Brasil estava em plena ditadura e soldados eram sinônimo de fascismo e repressão. E de repente eles estavam ali lutando pelos mesmos ideais que nós. Tive a noção de que era possível mudar o mundo, o sonho de qualquer jovem.”
“Caí no meio do furacão”, admite Sérgio Godinho, que veio de Vancouver, no Canadá, e chegou nos primeiros dias de maio. “Pela primeira vez, as pessoas estavam cantando comigo as minhas canções. Eu não tive o percurso normal de um músico que lança um disco e vai fazendo sucesso aos bocadinhos. Eu tinha dois discos lançados aqui e todo mundo cantava as minhas músicas. Durante dias tive aquela sensação de que é isso o que faz sentido. Este é o meu público, e eu nunca estive com ele.” Godinho ainda se lembra de ouvir as massas cantando sua composição Maré alta:
Aprende a nadar, companheiro
Aprende a nadar, companheiro
Que a maré se vai levantar
Que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui.
“Foi muito emocionante”, Godinho recorda especialmente de um concerto em que estavam vários músicos, e o mestre da guitarra portuguesa, Carlos Paredes, tocou Verdes anos. “Eu pensei: ‘Estamos todos juntos nos meus verdes anos, num Portugal que mudou.’ Eu rompi a chorar, caíram-me as lágrimas, eu compreendi, caiu-me a ficha, como vocês dizem no Brasil. Foi um momento mágico; foi sobretudo voltar ao meu país, um país que estava a mexer, a querer ser diferente.”
Mas nem tudo eram cravos. Luís Cília chegou do exílio junto com José Mário Branco, um dos fundadores do GAC, no dia 30 de abril. Estavam a bordo do mesmo avião que trouxe Álvaro Cunhal, o líder histórico do Partido Comunista Português (PCP). “O meu verdadeiro exílio foram aqueles primeiros anos aqui. Em Paris, ninguém me perguntava de que partido eu era, íamos cantar e pronto. Aqui, não, havia o clima do chega para lá. Na minha primeira reunião com os cantores do pcp fui logo posto de lado quando disse que não era cantor do PCP, mas sim militante e músico profissional. O que ouvi foi: ‘Você veio aqui sacar dinheiro da classe operária?’ Era um ambiente e um clima de intolerância horrível e tentaram encobrir meu nome.”
Cília, nos anos 1960, compusera Avante camarada, que acabou se tornando o hino do PCP. “Revolucionário não é quem rima patrão com pão. Tudo aquilo que nos transforma e nos melhora é revolucionário. Eu sempre tentei lutar contra este sectarismo. A maioria das prefeituras era do PCP e nunca me convidavam para cantar. Levou muito tempo para isso mudar. Nos primeiros dois anos, eu não tinha trabalho, tinha de ir à França trabalhar para sobreviver.”
As divisões entre os músicos era um reflexo das divisões do Prec (Processo Revolucionário em Curso). Os excessos revolucionários levariam ao chamado Verão Quente de 1975, um dos momentos mais críticos do pós-25 de Abril, quando Portugal estava dividido entre as forças políticas que defendiam uma via eleitoral e outra, o caminho revolucionário. Portugal esteve à beira de uma guerra civil. Houve ataques às sedes do PCP e de outros partidos de extrema esquerda. “As coisas não podiam ser feitas à força. Havia essa luta entre o Partido Comunista e o Partido Socialista, estávamos caminhando para uma ditadura comunista. O socialista Mário Soares foi mesmo um líder e impediu que fôssemos por aí”, explica Sérgio Godinho. A tensão culminaria em 25 de novembro de 1975, com uma tentativa de golpe da esquerda mais radical travada pelo general Ramalho Eanes. É o fim do processo revolucionário. No ano seguinte, nas eleições parlamentares de abril, os socialistas ganham a maioria e o líder do Partido Socialista, Mário Soares, é eleito primeiro-ministro. Em junho o general Ramalho Eanes é eleito presidente da República.
“Há músicos que ficaram sempre taxados como cantores de intervenção quando na prática eles eram cantores contra a ditadura e viram-se envolvidos naquela guerra que foi a revolução de 1974, 1975”, diz o crítico Nuno Pacheco. “Depois do 25 de novembro, há uma pacificação da sociedade, há uma normalização do dia a dia, da vida democrática, já não há ocupações, saneamentos. Os cantores vão para o estúdio, e aí há uma série de discos que vem nessa sequência do 25 de novembro que são reflexo e crônica de 1974 e 1975. A música toma seu curso normal, é gravada, vendida nas lojas, sem censura e com a melhor qualidade possível.”
Assim como Zeca Afonso, Godinho nunca se associou a qualquer partido. Nem gosta de ser chamado de cantor de intervenção. “Nunca nos vi como heróis. Revoluções são impuras por essência, por isso não me desiludo, é um momento. Uma revolução é uma revolução, uma mudança de vida, de regime, de tudo, de estruturas. Houve aquele grande entusiasmo e depois as coisas se extremaram, no Verão Quente de 1975. Lembrei do Maio de 68 quando um dia eu estava subindo a Champs Élysées e, na direção contrária, vinha a primeira manifestação da ‘maioria silenciosa’, gaullista. Eu, num sentido da história, eles, em outro. Nesse dia, compreendi que a história se faz com passos para a frente e para trás. Cheguei em casa e pensei: Isso não é assim tão fácil nem como nós idealizamos. Então quando comecei a ouvir falar de conquistas irreversíveis do 25 de Abril, quando se começou a nacionalizar tudo, eu olhei sempre com um pé um bocadinho atrás, do gênero ‘eu já vi isso’, percebe?”
Grândola, vila morena tem mais de cem gravações em várias línguas, entre elas uma da cantora brasileira Nara Leão. Todos os anos, Francisco Fanhais, hoje presidente da Associação José Afonso, é chamado para cantar e contar o 25 de Abril para grupos de alemães que visitam o Alentejo. Acabam todos cantando “Grrandola, vila morrena”, conta Fanhais, imitando o sotaque dos alemães.
“Antes dos carros de combate de Salgueiro Maia, houve os carros de combate da canção e a canção com os poemas das baladas inconformadas”, conclui, emocionado, o jornalista Adelino Gomes, citando as palavras do poeta Manuel Alegre. “Os baladeiros foram os guardas avançados do golpe que estava por vir, a palavra precedeu o golpe, a palavra precedeu as armas, e as armas vieram de mãos dadas com as palavras do Zeca Afonso.”
Mário Laginha reforça: “A influência deles na música portuguesa é imensa. A música era muito boa, as letras também. O Sérgio Godinho soube ver que as guerras eram outras, são outras. Há certas coisas que já estão conquistadas. Acho que o Sérgio olha para a sociedade com uma inteligência que é invulgar. O Zeca Afonso tem canções absolutamente magistrais. Havia uma centelha. Os arranjos de José Mário Branco são brilhantes, me influenciaram muito. O Fausto tem álbuns icônicos. Não é uma corrida porque todos eram diferentes e tiveram, têm a sua importância. Ninguém escolhe o dia que nasceu. Não escolhi nascer no dia 25 de abril, mas se pudesse escolher era nesse dia que queria mesmo ter nascido. Quem não gostaria de nascer na data em que a liberdade foi conquistada depois de uma ditadura, no dia em que se fez a liberdade, em que a liberdade voltou a ser possível?”
