CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Um quintal ancestral
Urnas funerárias indígenas achadas por acaso no Amazonas
Camille de Melo | Edição 211, Abril 2024
Depois de um temporal que varreu a cidade de Alvarães, no interior do Amazonas, Késia Silva, de 28 anos, estava limpando o quintal de terra batida do pai quando sentiu a ponta da enxada encostar em uma superfície dura. O golpe rachou o objeto enterrado, e ela pôde ver um pedaço de cerâmica adornado com linhas avermelhadas.
O grafismo cuidadosamente pintado chamou sua atenção. Késia continuou revirando a terra ao redor e encontrou outras duas urnas intactas. Uma delas se destacava por causa dos detalhes antropomórficos – olhos, boca e orelhas modelados em alto relevo na cerâmica –, mas todas estavam muito bem conservadas, com cada tonalidade de cor preservada. As três peças foram desenterradas por Késia com a ajuda de familiares no mesmo dia, no início de dezembro passado.
O pai de Késia, o agricultor Ciriaco Silva, de 58 anos, decidiu não abrir as urnas. Fez questão de guardá-las dentro de casa do mesmo jeito que as havia encontrado. Conhecidos sugeriram que vendesse os artefatos – o que, ele saberia depois, é proibido pela legislação brasileira. “Creio que seja uma descoberta muito importante”, disse Ciriaco na ocasião. Estava certo: eram urnas funerárias indígenas, provavelmente fabricadas entre 800 e 1500 d.C.
Arqueólogos profissionais demoram semanas para retirar objetos como esses do solo. O trabalho é minucioso, para não danificar as frágeis peças do passado, e toda etapa da escavação precisa ser registrada em cadernos de campo, que embasam estudos e publicações. Para escavar 1 m² de um sítio arqueológico, por exemplo, demora-se cerca de vinte dias.
Com as ferramentas que tinha à mão, a família de Késia fez uma espécie de arqueologia freestyle. Ainda assim, o zelo da empreitada surpreendeu os profissionais. “Só o fato de eles não terem quebrado a urna para ver o que tem dentro já foi um baita diferencial”, diz Eduardo Tamanaha, arqueólogo do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. O mais comum, explica ele, é as pessoas da região quebrarem esses artefatos, em busca de ouro ou alguma recompensa. Ao depararem com coisas sem valor monetário – como o pó dos ossos desgastados pelo tempo –, atiram a cerâmica nos rios amazônicos.
Avisado da descoberta em janeiro, Tamanaha e outros pesquisadores do instituto organizaram uma expedição à casa de Késia em março. A jovem, que tem ascendência indígena (embora a família não saiba a que povo pertenciam seus antepassados), ficou orgulhosa do achado: “Saber que aqui existia uma aldeia que deixou esse registro nos deixou interessados em descobrir quem eram eles e o que faziam.”
Na Amazônia, cerâmicas indígenas produzidas em épocas e localidades diferentes apresentam grafismos distintos, que talvez sinalizassem diferenças de organização social, religião ou línguas. As encontradas no sítio arqueológico Fazendinha – como o quintal da família Silva foi batizado pelos pesquisadores – pertencem à Fase Tefé da Tradição Polícroma da Amazônia. É como os arqueólogos identificam oficialmente as cerâmicas fabricadas no estilo próprio daquela região (variações locais expressas no formato e na pintura das cerâmicas indígenas são chamadas de “fases”).
É difícil determinar exatamente que povo ou etnia fabricou as urnas encontradas na Fazendinha. O que os arqueólogos podem fazer, por enquanto, é um levantamento etno-histórico, com informações de missionários que estiveram ali, nas margens do Rio Solimões, nos primeiros anos de colonização. “Nesses registros, os missionários falam nos povos omáguas, que também se identificam como kambebas, tinham o tupi-guarani como língua e até hoje estão presentes na região e próximos ao Rio Napo, que atravessa o Equador e o Peru”, explica Tamanaha.
Os missionários descreveram que as aldeias à margem do Solimões abrigavam indígenas de vários povos, com línguas diferentes, e que se podia navegar por horas na beira do rio e ver grandes aglomerações de malocas conectadas por estradas. “Havia até entrepostos onde viajantes indígenas podiam pernoitar, fazer comércio e se deslocar com facilidade”, diz Tamanaha. “Essas aldeias eram como grandes cidades.”
A legislação brasileira diz que todo patrimônio arqueológico pertence à União – portanto, não pode ser de posse particular. Mas os pesquisadores do Instituto Mamirauá reconheceram a contribuição de Késia Silva e seus parentes: eles foram convidados a visitar a sede do instituto, em Tefé, onde aprenderam sobre as pesquisas desenvolvidas e sobre a importância das urnas que encontraram para o avanço desses estudos.
Não houve dúvida: as urnas foram imediatamente cedidas pela família e agora estão na sede do instituto, onde os arqueólogos cuidam da primeira curadoria e preparam o armazenamento do material.
Os ossos dentro da urna estão em ótimo estado – o que é raro em peças tão antigas – e serão enviados para uma especialista em Santarém, no Pará. Espera-se que a descoberta ajude a obter mais informações sobre a população indígena que ocupou a região de Alvarães no passado. “O modo de sepultar os mortos é sempre muito específico. Por meio disso, podemos encontrar algum gesto cultural que nos revele algo”, diz Tamanaha.
Os especialistas ainda precisam analisar cada fragmento, fazer o decalque dos grafismos e examinar as pinturas com atenção, em busca de qualquer informação relevante. Com amparo dessa documentação detalhada, eles esperam conseguir financiamento para iniciar a pesquisa do sítio arqueológico Fazendinha e produzir material educativo para as escolas da comunidade.
A expectativa dos pesquisadores é encontrar muitos outros vestígios ancestrais no sítio. Segundo estimativa do instituto, a área que contém material a ser escavado se estende por 2 km ao longo do Rio Solimões, com 400 metros de largura.
Na visita ao sítio Fazendinha, em março, os arqueólogos identificaram uma quarta urna funerária no quintal da família Silva, ainda a ser retirada do solo. A família insistiu para que os pesquisadores fizessem logo a escavação, mas eles explicaram que precisam de autorização do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e de tempo para organizar uma intervenção profissional. Os moradores, então, decidiram isolar a área, com estacas e faixas, para evitar que algum desavisado danifique a peça. Sob a guarda de Ciriaco Silva, a nova urna estará em segurança, esperando o retorno dos arqueólogos.
