A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    Filipe Toledo na Indonésia, em 2019: em ondas gigantes, o mais perigoso não é se chocar com o fundo; a maior ameaça é o caldo, que impede o surfista de voltar à tona para respirar CRÉDITO: FILIPE TOLEDO_2019

questões de arrebentação

Sem medo, Toledo

Às portas da Olimpíada de Paris, a saga dos brasileiros para enfrentar ondas que matam

Adrian Kojin | Edição 213, Junho 2024

A+ A- A

Em 31 de janeiro passado, o paulista Filipe Toledo surpreendeu o público da primeira etapa do Circuito Mundial de Surfe ao abandonar a competição em Pipeline, no Havaí. Cancelar a própria participação em um campeonato internacional de surfe requer uma justificativa convincente. Poucos atletas tiveram a ousadia de tomá-la durante uma prova, ainda mais se estão entre os melhores do mundo, como Toledo. Quatro meses antes, ele havia se consagrado na praia de Lower Trestles, em San Clemente, na Califórnia, como bicampeão mundial. 

A desistência do surfista brasileiro de participar da repescagem do Lexus Pipe Pro, primeira etapa do ano da divisão da elite da Liga Mundial de Surfe (WSL, na sigla em inglês), foi por um motivo prosaico. Toledo disse que teve uma intoxicação alimentar. O brasileiro chegou a surfar sua bateria de estreia contra o compatriota Samuel Pupo e o havaiano Shion Crawford, mas terminou em último lugar, marcando apenas 1,77 ponto na somatória de suas únicas duas ondas. 

Assim que a desistência foi anunciada, um tsunami de críticas inundou as mídias sociais. Acusavam Toledo de ter abdicado de sua participação no evento porque ficou aterrorizado diante das ondas de 8 a 10 pés (entre 2,4 e 3 metros) que explodiam sobre a perigosa bancada de lava vulcânica e coral. Pipeline é famosa por ser considerada a onda mais temida do planeta, responsável por registrar a cada temporada acidentes graves e até fatais.

 

O medo de surfar em Pipeline é um sentimento esperado, inclusive dos campeões mundiais. Deixar de competir lá por essa razão, não. A desistência de Toledo foi o combustível que seus detratores precisavam para passar a contestar seus títulos. Nenhum outro campeão mundial sentiu na pele o massacre das mídias sociais como ele. O surfista foi atacado com uma intensidade insana. Sua resposta inicial veio via Instagram:

Aos críticos de plantão e aos campeões mundiais que comentam nas redes afora, acreditem no que quiserem, não tô aqui pra provar nada pra vocês! Minha saúde é minha prioridade! Aos que torcem por mim, muito obrigado! Estamos juntos e já, já estaremos de volta melhor e mais forte!

Mas a consequência mais grave desse embate digital, no qual sua família se envolveu de maneira exasperada, ainda estaria por vir. Em 11 de fevereiro, domingo, Toledo virou manchete nos principais sites esportivos brasileiros ao fazer outro anúncio: disse que não iria mais competir no Circuito Mundial de 2024 para cuidar de sua saúde mental. Uma bomba. O mundo do surfe logo começou a perguntar: mas será que Toledo vai participar da Olimpíada de Paris 2024, a partir de 26 de julho?

 

As provas de surfe da Olimpíada serão disputadas no Taiti, em Teahupo’o, outra das ondas mais perigosas do mundo – e Toledo já declarou que essa onda e a de Pipeline são as que mais o assustam. Nas disputas realizadas no pico taitiano, em mais de uma ocasião ele entregou baterias aos seus adversários para não correr o risco de se machucar. 

Na coletiva de imprensa depois que conquistou o bicampeonato mundial na Califórnia, realizada no dia seguinte à sua vitória, em 10 de setembro de 2023, Toledo questionou: “Teahupo’o é um lugar incrível, maravilhoso, mas como já falei: é o melhor lugar para fazer uma Olimpíada?” Naquele momento ele não poderia imaginar que iria desistir do Circuito Mundial no início do ano seguinte e ter, em seguida, que esclarecer, num vídeo publicado na internet, que, sim, independentemente de sua opinião sobre a onda, estará em Teahupo’o em julho próximo.

Em meio ao burburinho gerado por toda essa polêmica, houve quem lembrasse que, no dia da vitória na Califórnia, o pai do surfista, que atua também como seu técnico, Ricardo Toledo – três vezes campeão brasileiro de surfe –, vestia uma camiseta laranja com a frase “Sem medo Toledo”, estampada nas costas. Era um incentivo ao filho ou uma premonição? Um campeão mundial tem o direito de não competir num determinado tipo de onda por sentir medo? Seu título perde valor por causa disso? 

 

 

 

Filipe Toledo, de 29 anos, não é o único preocupado com Teahupo’o. Em entrevista ao podcast Surf 360º, o presidente da Confederação Brasileira de Surf (CBsurf), Teco Padaratz, disse: “Tem dois lados, um positivo e um negativo. O positivo é que o nome de Teahupo’o e do Taiti faz vender muito patrocínio, todo mundo quer assistir, a onda é muito impressionante. Só que, na Olimpíada, a gente sabe que por tradição tem que olhar para o lado da integridade física de seus atletas. Eu acho extremamente perigoso.”

Padaratz, que foi surfista profissional, ilustrou seu argumento lembrando os sufocos que ele e seu irmão, Neco Padaratz, passaram com a onda taitiana. “Eu já entrei lá, eu sei o que é aquela onda, já tomei porrada, já fui parar nos corais, meu irmão quase morreu lá”, disse. “Eu me preocupo muito com atletas inexperientes naquela onda, acho uma imprudência.”

Localizada na Ilha de Tahiti Iti, ou Taiti Pequeno, na Polinésia Francesa, Teahupo’o entrou para o mapa do surfe mundial há pouco tempo. Chamado de Praia dos Crânios Quebrados, o pico era praticamente desconhecido até 1986, ano em que os havaianos Mike Stewart e Ben Severson, campeões mundiais de bodyboard, contaram, depois de uma viagem ao Pacífico Sul, ter encontrado uma onda impressionante, que se equiparava e talvez superasse a rainha Pipeline. Ao que consta, alguns surfistas locais, liderados pelo taitiano Thierry Vernaudon, já haviam surfado ali, mas num dia de ondas insignificantes.

Bodyboarders, por deslizarem nas ondas deitados sobre pranchas curtas de espuma macia, encontram mais facilidade para se encaixar – e sobreviver – em “buracos”, como são conhecidas as ondas que se retorcem sobre elas mesmas de maneira aterrorizante, sugando a água do oceano para formar cavernas líquidas e engolindo tudo à sua frente em velocidade descomunal – e, no caso de Teahupo’o, ainda atravessando uma rasa, afiada e sanguinária bancada de coral. 

Isso fez com que Teahupo’o se tornasse inicialmente o destino praticamente exclusivo de bodyboarders, considerada impossível de ser surfada em pé, sobre pranchas. Além da voragem amedrontadora da onda, havia uma dificuldade mecânica, nos termos da física do movimento. Em Teahupo’o, as potentes ondulações que percorrem milhares de quilômetros no fundo do oceano, ao se chocarem com a barreira de coral, não têm outro caminho a seguir senão para o alto, projetando-se em direção ao céu até o ponto de quebra. É quando a crista da onda – ou, no linguajar dos surfistas brasileiros, lipe (de lip, lábio em inglês) – inicia sua trajetória descendente, formando o tubo. Dependendo da grossura desse lábio e de como ele acerta o surfista, pode ser o beijo da morte.

Como recorda Steve Robertson, na época gerente-geral da Association of Surfing Professionals (atual WSL), divisão Australásia, em 1997 uma tentativa de realizar o campeonato com surfistas em pé havia terminado muito mal. “Foi um desastre. As ondas estavam terríveis e o clima também”, disse ele em uma entrevista. “Estávamos usando uma grande balsa, quando houve uma mudança drástica de vento no meio do dia, que fez com que a balsa explodisse no recife, causando milhares de dólares em danos. Então, no meio do evento, os organizadores nos abandonaram porque ficaram sem dinheiro.” A ASP foi salva pelo governo do Taiti, que bancou a premiação em dinheiro e convidou os surfistas a retornarem no ano seguinte.

A ASPvoltou em 1998 e o mito de que a onda de Teahupo’o estava fora do alcance de um surfista em pé sobre sua prancha foi definitivamente derrubado durante o campeonato Gotcha Tahiti Pro. Tratava-se de um evento da divisão de acesso do Circuito Mundial, mas por conceder um bom número de pontos para quem está lutando para chegar à elite do surfe, reunia surfistas com muito talento e disposição.

Robertson conta:

O mar estava com 3,5 metros de altura. Mas não era o tamanho que nos preocupava. O poder absoluto [das águas] era inacreditável, um território completamente desconhecido para um evento. Pensamos: “Será que podemos realmente realizar o campeonato e fazer esses caras surfar essas ondas?” Tínhamos um grupo de surfistas muito bom, e era perfeito demais para cancelar. Sabíamos que poderíamos fazer isso. E assim fizemos.

O Gotcha Tahiti Pro durou três dias de ondas incríveis, e foi vencido pelo australiano Koby Abberton, com o havaiano Conan Hayes ficando em segundo lugar. As imagens resultantes foram o principal assunto entre surfistas e fãs ao redor do mundo. Era impossível ficar indiferente diante de tamanha força da natureza. Foi como se as ondas quisessem saltar para fora das fotos e explodir na cara do observador. Colaborava para o impacto das imagens a cor do oceano, um azul cristalino mesmerizante, e a luz generosa, incidindo no interior dos tubos.

Dali em diante, Teahupo’o passou a ser uma das etapas mais esperadas do calendário anual de competições. Sobretudo pelos fãs, já que nem todos os surfistas se sentiam confortáveis em competir lá e, se pudessem, pulariam direto para a próxima parada do Championship Tour, a divisão principal da WSL, costumeiramente disputada em condições mais amigáveis. Para os organizadores, apesar dos desafios logísticos de realizar um evento numa vila esquecida no Fim da Estrada, como o pi­co também era chamado, a recompensa era certa. Ano após ano a cobertura da etapa de Teahupo’o, que a partir de 1999 passou a valer para o Circuito Mundial, estava entre as que chamavam mais atenção.

 

Durante o mesmo período em que campeonatos proporcionaram a visibilidade inicial de Teahupo’o, o episódio que mais repercutiu entre o grande público leigo foi a chamada Onda do Milênio, surfada em 17 de agosto de 2000 pelo californiano criado no Havaí Laird Hamilton. Ele se tornou naquele dia o primeiro surfista a desafiar Teahupo’o com o auxílio de uma moto aquática. Fotos e filmagens do feito se espalharam pelo planeta, impulsionadas pela nascente internet. Nenhuma outra leva de imagens de surfe havia chegado a tantas pessoas. “Acho que os tubos que surfei aqui no Taiti foram definitivamente os mais dramáticos de que me lembro”, disse Hamilton, depois de sua experiência épica. 

Alguns anos antes, Hamilton havia praticamente inventado o tow-in surfing – ou surfe rebocado –, no qual o surfista é levado por uma potente moto aquática até dentro da onda. Rapidamente, o tow-in ganhou fama e se tornou uma modalidade do esporte. O primeiro campeonato de tow-in no mundo, a Tow In World Cup, realizado em 2002, na onda de Jaws, na Ilha de Maui, foi vencido pela dupla formada por um havaiano e um brasileiro, Garrett McNamara e Rodrigo Resende. Em terceiro lugar ficou a dupla brasileira formada por Carlos Burle e Eraldo Gueiros.

Desde então, a prática de tow-in vem causando confusão no público leigo, em especial depois da fama alcançada pelas ondas monstruosas de Nazaré, em Portugal, que só podem ser surfadas utilizando-se de técnicas de surfe rebocado. Para quem não está familiarizado com as nuances do esporte, fica difícil saber quais são os melhores surfistas do mundo: serão os que ganham campeonatos em Nazaré, recorrendo ao tow-in, ou os que vencem etapas no Circuito Mundial, sem precisar desse recurso?

A realidade é que são categorias bem diferentes. O surfe de tow-in é praticado por uma porcentagem muito pequena de esportistas, e somente quando a velocidade da onda não permite que eles entrem nela utilizando apenas a impulsão da remada. Além disso, o surfista rebocado pela moto aquática usa uma prancha menor e mais estreita, e com alças para o encaixe dos pés. Foi assim que Hamilton surfou a Onda do Milênio, projetando Teahupo’o como a nova fronteira do surfe extremo.

Ainda que surfistas de tow-in sejam muito competentes no que fazem, as habilidades requeridas nessa modalidade são distintas das que definem o vencedor do Circuito Mundial. Obviamente, a coragem de colocar a vida em risco é algo obrigatório ao perfil de qualquer surfista de ondas gigantes. Mas, para ser campeão mundial pela WSL, a coragem, embora importante, não é indispensável. 

Há ondas pequenas, médias, grandes e gigantes. Naturalmente, as gigantes (que só podem ser surfadas por meio de tow-in) são as de maior impacto visual, com os surfistas parecendo formiguinhas percorrendo montanhas de água. As ondas também podem ser divididas entre as que não oferecem risco e aquelas que se convencionou chamar de “ondas de consequência”, entre as quais se destacam Pipeline e Teahupo’o. Como é imprecisa, essa definição deixa bastante espaço para discussão, até porque ondas pequenas, que à primeira vista seriam consideradas ondas sem riscos, podem também causar acidentes sérios. 

Em ondas gigantes, o mais perigoso não é necessariamente o risco do surfista se chocar com o fundo, já que elas costumam quebrar em águas profundas. A maior ameaça nesse tipo de onda está no chamado caldo, que impede o surfista de voltar à tona para respirar, podendo vir a se afogar. Ou a possibilidade de ser atingido pela própria prancha, sofrendo algum tipo de lesão. Mais recentemente na história do surfe de ondas gigantes foram introduzidas várias medidas de segurança, como o uso de coletes infláveis e times de resgate. 

Já numa onda mediana ou grande, que venha a quebrar com força sobre uma bancada rasa, o maior perigo está na possibilidade de o surfista, no caso de queda, sofrer um impacto violento contra o fundo, o que pode causar lesões e deixá-lo inconsciente. Até hoje nunca foram registradas mortes em eventos da WSL, mas são vários os casos conhecidos de surfistas que morreram ao surfar fora de campeonatos nas ondas de consequência. Em Pipeline, registram-se pelo menos sete mortes; em Teahupo’o, uma. Acidentes com lesões graves, há inúmeros.

O Circuito Mundial da WSL é composto de uma série de campeonatos em diferentes tipos de ondas ao redor do mundo. Nenhuma das onze etapas em 2023 foi disputada em dias de ondas grandes, tampouco de alto risco. Em um ano de má sorte para a WSL no quesito ondas, Pipeline e Teahupo’o, as duas arenas com mais chance de oferecer condições perigosas, decepcionaram. Quem esperava fortes emoções teve que se conformar com baterias em que, muitas vezes, táticas de competição contaram mais do que a disposição de apostar no tudo ou nada.

Isso facilitou a conquista do segundo título mundial de Filipe Toledo em Lower Trestles, na Califórnia, embora não seja obviamente o único motivo da vitória. Essas ondas são consideradas um picadeiro perfeito para o surfista acrobático, capaz de belas manobras aéreas, no que o brasileiro é um dos principais especialistas. Ele terminou o ano disparado como a melhor pontuação no ranking, mesmo sem ter arriscado o pescoço em nenhuma situação. 

Importante notar que os títulos mundiais de Toledo vêm sendo desmerecidos nas redes sociais por sua dificuldade em surfar ondas como Pipeline e Teahupo’o, que exigem não só coragem, mas uma habilidade específica na qual ele mesmo admite ter que se aprimorar, que é entubar de backside, ou seja, de costas para a parede de onda. Só que, à parte essa técnica, ninguém discute que Toledo domina com supremacia tudo mais que possa ser feito numa onda para marcar pontos.

Numa era em que já é possível falar na existência de uma escola de surfe brasileira, a “escola do espetáculo”, Toledo e os também campeões mundiais Gabriel Medina e Italo Ferreira, que foi medalhista de ouro em Tóquio 2020, são os principais maestros de uma maneira de surfar que tomou de assalto os palcos de competição mundo afora. O maior triunfo dos brasileiros reside na capacidade de surfar fora da onda, no ar, criando manobras nunca antes imaginadas.

Na última etapa do Circuito Mundial 2023 já se sabia que as ondas de Trestles, com suas paredes pouco verticais e sem muita potência, mesmo quebrando sobre um fundo de pedras roliças, não botariam medo em ninguém. O que levou muita gente a criticar a escolha do local, pelo terceiro ano seguido, como palco da WSL Final 5. 

A maioria dos fãs do surfe talvez concorde que Trestles é uma onda inofensiva demais para determinar o campeão mundial e que os esportistas deveriam ser colocados à prova em ondas de consequência, para não apenas comprovar sua habilidade sobre a prancha, mas também dar uma demonstração inequívoca de coragem. 

A capacidade de enfrentar o medo é um dos parâmetros que faz um surfista ser admirado. Quanto mais ameaçadoras forem as ondas, mais se exigirá do corpo e da mente – e maior será a glória do vencedor. Quando um campeão mundial demonstra medo, a cobrança tende a ser maior ainda.

 

As primeiras ondas surfadas em território brasileiro não ofereciam perigo algum. Em meados dos anos 1930, o americano Thomas Rittscher, filho de abastados comerciantes de café radicados em Santos, fabricou sua própria prancha e passou a surfar junto com sua irmã Margot nas ondas inócuas da Praia do Boqueirão, no litoral paulista. A prancha de Rittscher, feita depois de ele ter lido uma reportagem da revista Popular Mechanics, era um caixão de madeira oca lembrando um barco a remo. 

Três santistas, Osmar Gonçalves, João Roberto Suplicy (o Juá) e Silvio Malzoni, gostaram do que viram, pediram a revista emprestada a Rittscher, e aderiram àquela curtição até então desconhecida. Talvez carregar a pesada prancha oferecesse mais risco do que deslizar nas marolas sobre as quais se inaugurou o esporte no país. 

Aquele primeiro núcleo paulista acabou não se expandindo, mas, quando o surfe chegou ao Rio de Janeiro por outras vias, ganhou a dimensão de movimento comportamental e tornou-se carioca. No fim dos anos 1950, para começar, atrelou-­se ao flanar praieiro da bossa nova. Depois, em meados dos anos 1960, ligou-se aos hippies e à contracultura.

No Rio, o surfe ganhou personalidade própria, muito diferente do esporte praticado nos Estados Unidos e na Austrália, dois países que eram referência mundial. O esporte dos antigos reis havaianos encontrou entre os cariocas um ambiente ideal entre os jovens da elite da Zona Sul, garotos e garotas bem de vida e de bem com a vida. Com tempo de sobra, eles adotaram a prática de esportes marítimos e de praia, como o vôlei, a peteca, o frescobol, o mergulho e a caça submarina. Nos dias em que o mar subia e era impossível mergulhar, alguns começaram a surfar em pranchas rudimentares apelidadas “portas de igreja”.

Como era possível surfar naquelas pranchas é um mistério. Uma das raras fotos de uma porta de igreja mostra o jovem Arduino Colasanti (1936-2014), exímio mergulhador, pioneiro do surfe e galã do Cinema Novo, de cigarro na boca, carregando uma tábua larga e retangular de madeira, sem nenhum recurso hidrodinâmico, fora uma das extremidades levemente curvada, como um tapete de Aladim. Claro que um troço daqueles não serviria de jeito nenhum para surfar ondas grandes ou perigosas, mas isso não estava nos planos dos surfistas cariocas da época.

Não demorou muito para que as portas de igreja fossem substituídas pelas pranchas de madeirite, feitas de compensado naval, com o bico torcido para cima. Mais aptas a entrar no corte da onda, que era o objetivo maior daqueles tempos, elas pecavam na flutuação, por serem muito delgadas. Os “pranchistas” dependiam do auxílio de nadadeiras para entrar nas ondas. Aquele trambolho de borracha atrelado aos pés acabava comprometendo a performance.

 

 

Foi com a introdução das primeiras pranchas de espuma recobertas com resina de fibra de vidro, e a providencial passagem pelo Rio de um australiano campeão de surfe, em 1964, que tudo mudou de figura. Diz a lenda que o surfe no Brasil pode ser dividido em duas eras: antes e depois de Peter Troy (1938-2008). O australiano chegou ao Rio vindo do Peru, via Amazônia, onde havia contraído uma doença tropical. Ao desembarcar, teve a sorte grande de conhecer Irencyr Beltrão, filho de um médico, que acolheu o surfista em sua casa para que ele se recuperasse.

Quando se sentiu capaz de surfar novamente, Troy acompanhou Colasanti, amigo de Beltrão, até o longínquo Canto do Recreio, então um território desabitado na Zona Oeste. Colasanti vinha se aventurando como fabricante de pranchas, utilizando uma técnica que ainda não dominava completamente, e emprestou a Troy um protótipo recém-produzido, feito de espuma de isopor recoberta com resina. 

O australiano entrou na água, e na segunda onda deu uma cavada com tanta pressão que arrancou o fundo da prancha de Colasanti, que, boquiaberto com a demonstração, nem se importou com o estrago. Haviam sido apenas duas ondas, mas suficientes para chacoalhar a concepção de surfe do galã brasileiro. 

Para deleite da comunidade de surfistas cariocas, Troy repetiu a performance no dia seguinte, mas no Arpoador. Dessa vez, a prancha era uma belezura californiana pertencente a Russell Coffin, filho de 15 anos do dono da distribuidora da Coca-Cola no Brasil (mais tarde, ele contou que o pai fora enviado ao Brasil como espião americano, mas essa é outra história). Era a única prancha gringa disponível na Zona Sul e foi recrutada por Colasanti, que a emprestou a Troy.

A bordo da Bing 9’6”, com quase 3 metros de comprimento, o australiano deu uma verdadeira aula de surfe, com manobras nunca vistas por aqui, executadas com velocidade e perícia inconcebíveis para os surfistas cariocas até aquele momento. Dizem que, ao sair do mar, ele foi aplaudido. Daquele dia em diante, o surfe no Rio de Janeiro tomou novo rumo, focando no domínio das ondas por meio do aprimoramento das manobras. As ondas não seriam mais acarinhadas, e sim atacadas. 

Além desse feito que com o tempo adquiriu dimensão mítica, Troy fez algo ainda mais determinante para a evolução do surfe brasileiro: transferiu tecnologia, ao deixar para seus amigos cariocas um manual manuscrito com instruções avançadas para a fabricação de pranchas.

Pioneiro do surfe no Rio de Janeiro e considerado o melhor surfista de sua época, o empresário Jorge Paulo Lemann, hoje com 84 anos, falou em 2012 a respeito das ondas grandes que enfrentou no Rio. “Eu era um dos melhores surfistas do Rio de Janeiro, minha fama era essa”, ele disse, sem falsa modéstia, em uma palestra feita na Fundação Estudar cujo tema, ironicamente, era “O que aprendi em Harvard”. E prosseguiu, na palestra que pode ser vista no YouTube: 

Eu surfava ali na orla do Leblon e ia cada vez aumentando o tamanho das ondas. Qualquer onda no Arpoador, eu não tinha medo de encarar. Uma vez a cada dois ou três anos, tinha uma tempestade e se formavam algumas ondas colossais lá na Praia de Copacabana. Eu me considerava um bom surfista e a minha turma também, e nós decidimos que iríamos surfar essas ondas gigantes. As ondas que pegávamos eram de 3 metros, e as ondas de Copacabana de 10 a 12 metros [Lemann deve ter confundido metros com pés, já que ondas de 10 metros nunca quebraram na Praia de Copacabana; 1 metro é equivalente a 3 pés].

Para chegar no lugar onde se pegava a onda era difícil. Nadar por baixo delas era quase impossível, mas eu consegui chegar lá, e veio uma onda grande, e eu decidi que ia pegar. Tinha um outro problema, que no final elas encaixotavam, quase que na areia. Você tinha que pegar a onda, mas tinha que sair fora dela antes de chegar ao final. Eu peguei a onda. Senti meu sangue todo, parecia que corria para os pés, a velocidade era muito maior do que tudo que eu estava acostumado, e a altura era muito maior. Mas eu fui e consegui sair fora da onda antes que encaixotasse. 

Meus colegas disseram: “Vamos voltar.” E eu disse: “Para mim chega, para mim está bom.” Minha adrenalina estava no máximo, eu gostei de sentir aquele perigo, mas não queria repetir aquilo de novo. Menciono esta história, pois acho que na vida você tem que tomar alguns riscos. Para fazer o excepcional, você tem que tomar riscos.

O problema para quem gosta de onda grande no Brasil é que a costa do país, devido à sua topografia, não tem nenhuma onda que se aproxime das de Teahupo’o ou Pipeline. Menos ainda de Nazaré, Jaws ou Mavericks, os mais famosos picos de ondas gigantes do mundo. Desde sempre, surfistas brasileiros que gostam de desafiar o medo precisam ir para outros países.

Carlos Eduardo Siqueira Soares, o Penho, tem um lugar especial na saga dos brasileiros que partiram pelo mundo em busca de ondas mais desafiadoras. Em 1967, após uma passagem pelo Peru, ele se tornou o primeiro brasileiro a surfar no Havaí, a meca das ondas grandes. Mesmo sem ter o nível de surfe dos havaianos, californianos e australianos, Penho participou como convidado de um dos campeonatos mais importantes da época, o Makaha International Surfing Championships, tornando-se o primeiro brasileiro a tomar parte numa competição internacional de surfe. 

Além disso, Penho trabalhou numa das fábricas de prancha mais renomadas do Havaí, a Pacific Surfboards, onde aprendeu a dar forma e cobrir com resina polida os blocos de poliuretano. Foi lá que fabricou para uso próprio uma prancha revolucionária, que teria grande influência no Havaí, mas principalmente no Brasil. Era uma minimodel 7’2” (2,18 metros) inspirada nas pranchas feitas pelo australiano Bob McTavish e utilizada no campeonato de Makaha por outro australiano, Nat Young, considerado o melhor surfista daqueles tempos. 

As minimodels reduziram drasticamente o tamanho das pranchas, permitindo muito mais liberdade e ousadia nas ondas. Penho trouxe a sua para o Brasil junto com histórias fantásticas. Como a que ele relembrou num depoimento dado em 2015 ao jornalista e historiador do surfe Reinaldo “Dragão” Andraus:

Essa prancha funcionou. Comecei a pegar Pipeline com ela, quase ninguém surfava em Pipeline em 1968. Logo, quem veio fazer prancha na mesma fábrica, com o mesmo shaper [a pessoa que dá forma ao bloco de poliuretano] que me ajudou, o John Mobley, foram o Michael Ho e Reno Abellira. Nós ficávamos os três pegando onda ali com aquelas pranchas pequenas. Eles eram dois molequinhos locais que moravam por perto. 

Ho e Abellira, nos anos seguintes, destacaram-se como dois dos maiores surfistas havaianos de todos os tempos.

A exemplo de Peter Troy, que marcou uma era, é possível dividir a história do surfe brasileiro em antes e depois de Penho. Alargando a trilha aberta por ele, viriam Rossini Maranhão, o Maraca, e os dois Ricardos – Ricardo Fontes de Souza, o Rico, e Ricardo dos Santos Lima, o Bocão, todos eles grandes embaixadores do surfe brasileiro. Bocão foi o primeiro de uma linhagem de brasileiros que se destacaram em ondas grandes no Havaí. Mas o próximo divisor de águas no quesito alta performance seria Pedro Paulo Guise Lopes, o Pepê.

Cria de Ipanema, filho de uma família abastada e amante dos esportes, Pepê inicialmente tomou gosto pelas competições de hipismo, em que foi campeão carioca mirim. Ainda bem novo fez a transição para o surfe e se tornou um dos destaques do Píer de Ipanema e suas ondas de nível internacional – uma estrutura temporária instalada no início dos anos 1970 perto do Arpoador para construção de um emissário submarino, que, ao alterar o fundo de areia da praia, fez com que se tornasse um excelente pico para a prática do surfe.

Em 1976, Pepê foi o primeiro brasileiro a vencer uma etapa do Circuito Mundial, o campeonato Waimea 5000, realizado no Arpoador. Em dezembro do mesmo ano, foi o primeiro brasileiro finalista do campeonato Pipe Masters, o famoso evento realizado em Pipeline. Pepê tinha apenas 19 anos e teve o patrocínio do Jornal do Brasil, então um dos diários mais respeitados do país, num tipo de apoio inédito em âmbito mundial. Esse feito – chegar à final do Pipe Masters – só foi repetido por um brasileiro 38 anos depois, com o paulista Gabriel Medina, que em 2014 avançou ainda mais longe: ganhou o título mundial, o primeiro conquistado por ele e pelo país.

Pepê, conhecido por sua coragem, tornou-se campeão mundial de voo livre no Japão em 1981. Uma década depois, morreu na mesma competição, aos 33 anos, tentando o bicampeonato mundial. Em sua homenagem, uma faixa de quase 2 km na Barra da Tijuca foi denominada Praia do Pepê. Ainda hoje, é citado como inspiração pela geração que ficou conhecida como Brazilian Storm (Tempestade brasileira), pelo sucesso avassalador que conquistou. Dessa geração, os maiores expoentes são Gabriel Medina, Adriano de Souza, Italo Ferreira e Filipe Toledo, que garantiram para o Brasil sete dos nove últimos títulos mundiais. 

Pepê é admirado sobretudo por sua atuação no campeonato Pipe Masters, que por décadas foi a disputa de encerramento do Circuito Mundial e a de maior prestígio entre surfistas profissionais e fãs. Uma onda espetacular surfada em Pipeline, registrada pelas câmeras de dezenas de fotógrafos do mundo inteiro, alavancava carreiras. Ser um surfista consagrado ali muitas vezes valia mais do que uma boa colocação no ranking mundial.

 

À medida que o surfe foi se expandindo, com a indústria da indumentária faturando bilhões de dólares anualmente, criou-se quase que uma casta de esportistas profissionais especializados em Pipeline. Eles eram pagos para exibir as logomarcas mais famosas do mercado. As melhores ondas poderiam render um bom dinheiro para aqueles que as surfassem, o que estabeleceu ali um ambiente hipercompetitivo.

Com os havaianos assegurando, inclusive na porrada, seu direito às ondas que desejassem – prática conhecida como “localismo” –, aos estrangeiros sobravam as piores, quando sobravam. Depois dos havaianos, vinham os americanos e australianos, que muitas vezes compravam seus lugares mais à frente com a ajuda das grandes marcas que representavam. 

Os surfistas brasileiros acabavam no fim da fila. Por isso, sempre tiveram que enfrentar muitos obstáculos para surfar Pipeline. Além da dificuldade para obter patrocínio, pesava o preço das passagens, o valor do dólar, a barreira da língua e a falta de ondas potentes em território nacional para um treino prévio. 

Dificilmente os brasileiros que disputavam o Circuito Mundial obtinham bons resultados em Pipeline. Era uma etapa com a qual eles quase não podiam contar, justamente num momento crucial do ano, quando pontos decisivos decidiriam quem permaneceria na elite no ano seguinte. Gabriel Medina quebrou esse paradigma, com uma atuação irrepreensível e uma prancha tomada por logos de grandes marcas.

Entre a chegada de Pepê Lopes em Pipeline, em 1976, e a vitória de Gabriel Medina, em 2014, na mesma praia, a maioria dos brasileiros que disputavam o Circuito Mundial amargaram a fama de merrequeiros, surfistas que amarelavam quando as ondas subiam no pico mais famoso do surfe mundial. O paraibano Fábio Gouveia e o fluminense Victor Ribas, dois expoentes brasileiros no Circuito Mundial nos anos 1990 e 2000, sofreram o mesmo tipo de cobrança que está sendo feita agora a Filipe Toledo. Os dois foram considerados fenômenos em ondas pequenas, mas com atuações frustrantes em Pipeline.

Em fevereiro de 2000, em uma reportagem de Alexandre Guaraná na revista Fluir, então a mais influente de surfe no Brasil, Ribas, que é de Cabo Frio, desabafou, sobre o campeonato Pipe Masters de 1998:

Achei um exagero o que fizeram comigo. Já tiveram performances piores do que a minha e não houve esse rebuliço todo. O que as pessoas não entendem é que eu não entro numa competição para mostrar coragem ou superioridade, e sim para vencer. Naquela ocasião, surfar uma onda nota 2 não me ajudaria em nada. Eu precisava de uma onda boa e ela simplesmente não veio.

Ele se referia à bateria de que havia participado, enfrentando o havaiano Ross Williams. Ribas entrou e saiu do mar sem surfar nenhuma onda, zerando a pontuação. Foi massacrado por causa da decisão de não se arriscar à toa, apesar de ter avançado uma bateria mais cedo no mesmo dia, com o mar apresentando condições para lá de assustadoras, com ondas de até 12 pés (cerca de 3,5 metros). 

A cobrança implacável deixou feridas, mas a mágoa gerada serviu de combustível para uma reviravolta magistral no ano seguinte, quando Ribas regressou a Pipeline para provar o quanto seus críticos estavam errados. No mar enorme, em dezembro de 1999, sua atuação foi impecável, e ele foi eliminado somente nas quartas de final por Kelly Slater, que já tinha faturado cinco títulos mundiais seguidos e estava a caminho de conquistar a vitória naquele evento. Ribas acabou em terceiro no ranking, a melhor colocação de um brasileiro até então.

Fábio Gouveia foi outro que penou para provar que tinha o necessário para encarar Pipeline. Primeiro campeão mundial brasileiro amador, pela International Surfing Association (ISA), em Porto Rico, em 1988, ele chegou a ser apontado como esperança de título mundial para o Brasil na categoria profissional. Seu melhor ano no Tour foi 1992, quando terminou em quinto lugar no ranking. Em entrevista ao podcast Por dentro do Tour, conduzido pelo jornalista Felipe Zobaran, veiculada no YouTube em fevereiro passado, Gouveia, com a singeleza e o bom humor que lhe são próprios, comentou sobre as cobranças que enfrentou ao longo da carreira e deixou seu palpite de como Filipe Toledo poderia agir a caminho da Olimpíada:

Eu não conseguia treinar em Pipeline, eu não tinha esse instinto atirado que muitos têm hoje em dia. E ainda tinha o medo dos caras, rolava uma intimidação. Quando sobrava a onda, era a onda errada e eu me lascava. […] Eu sempre tive medo de onda grande, mas eu sempre gostei. Nunca fui aquele cara de me jogar em condições extremas, mas sempre gostei. […] Eu tinha que sair da zona de conforto em Pipeline, e sair da zona de conforto me deixava ruim, sem curtir, baixo-astral, com dor na base da coluna. Aí, se eu não tenho experiência, se eu não tenho esse instinto de me atirar, então para mim tudo bem, eu não me incomodava em chegar em Pipeline e saber que eu não conseguia ir bem. Eu não me incomodava se os caras me chamassem de maroleiro, porque eu realmente tinha medo. […] A evolução veio quando Teahupo’o entrou no circuito […] a gente chegava cedo, eu caía todo dia de madrugada, puxava a fila, geralmente chegava um pouquinho antes, e saía um pouquinho depois, eu realmente gastava um tempo ali. E aí eu fui me aprimorando e melhorando meu desempenho em Pipeline. […] Não acho que Filipe seja um maroleiro, eu já vi o Filipe em ondas adversas […]. Eu nunca conversei com ele sobre isso, nunca conversei com Ricardinho sobre isso, mas tem como ele evoluir. 

 

Quando viu seu filho ser criticado impiedosamente na internet nos dias que se seguiram ao seu abandono do Lexus Pipe Pro, Ricardo Toledo, conhecido por suas reações viscerais, entrou na briga com tudo. Em repetidos posts no Instagram, a mídia social preferida do mundo do surfe, ele retrucou à altura do que julgou ser uma grande injustiça e falta de respeito:

Essas pessoas não perdem a oportunidade de tentar desmerecer a conquista dos outros, aquilo que foi alcançado com tanto trabalho, tanta luta, com tanto esforço. […] São onze anos do Filipe no Tour em busca desse título mundial dele e as pessoas querem desmerecer isso, chega a ser ridículo. Como se ele tivesse culpa de onde a WSL faz os eventos, começa ou termina os eventos. […] [Filipe] tem uma deficiência para backside? Sim ele tem, ele já falou isso muitas vezes, e ele sabe disso e já deixou claro para todo mundo que ele precisa melhorar nessas condições. Ele não tem medo disso, ele tem medo de se machucar, ele não tem medo de onda grande, tanto que ele vai lá e surfa. […] Todo mundo tem direito de ter seu dia mau, e as pessoas precisam entender isso e parar com esse tribunal da internet. […] Vocês são um bando de idiotas, a verdade é essa, vir aqui querer desmerecer as vitórias de um atleta que tem recordes de vitórias, pô, isso é o cúmulo do absurdo. […] Mas isso não vai roubar nossa energia, não vai tirar nossa paz, entendeu? […] O Filipe está trabalhando, está se recuperando, está descansando, tá no Havaí, vai continuar lá, vai treinar. As Olimpíadas estão aí. 

No final de abril, Toledo participou na Espanha da cerimônia do Prêmio Laureus do Esporte Mundial, renomado prêmio internacional para o qual foi indicado pela segunda vez consecutiva na categoria Melhor Atleta nos Esportes de Ação do Ano. Na ocasião, ele declarou à agência Reuters que o tempo afastado das pressões do Circuito Mundial havia sido benéfico e estava confiante em ter um bom resultado em Teahupo’o, na Olimpíada, acreditando até na possibilidade de conquistar a medalha de ouro:

Eu vou vencer. Eu acredito nisso. Todos nós sabemos quem são os melhores surfistas em tubos. John John Florence, Gabriel Medina, Jack Robinson… Mas eu também sou bom. Eu posso provar para mim mesmo que sou bom. Tenho trabalhado muito e sinto que posso me provar e espero trazer aquela medalha para casa. Então vai ser divertido.

Um total de 48 surfistas competirão em Paris, 24 de cada gênero, oito a mais do que em Tóquio 2020. Estreante como esporte olímpico naquele ano, o surfe surpreendeu com uma das maiores audiências globais dos jogos – e foi no Japão que o brasileiro Italo Ferreira ganhou para o Brasil a primeira medalha de ouro no surfe. 

Nos próximos Jogos Olímpicos, a França, desfrutando de um privilégio concedido ao país-sede, terá direito a duas vagas em cada categoria esportiva: uma no torneio feminino e outra no masculino. Cada Comitê Olímpico Nacional pode qualificar o número máximo de quatro representantes, dois para cada gênero, embora esse número possa subir para três vagas em cada gênero. A terceira vaga deve ser preenchida com os esportistas de cada país mais bem classificados por equipes nos ISA World Surfing Games, de 2022 e 2024.

De acordo com os critérios olímpicos para o surfe, os dez mais bem colocados da WSL 2023 estão automaticamente classificados, desde que não ultrapassem dois por país. Por esse critério, Filipe Toledo, que terminou em primeiro, e João Chianca, em quarto no ranking mundial, preencheram essas vagas. Gabriel Medina e Yago Dora, respectivamente sexto e sétimo no ranking, ficaram de fora. Mas como o Brasil foi o campeão masculino por equipes do ISA World Surfing Games, entre 23 de fevereiro e 3 de março passado, conquistou a terceira vaga – e Medina vai poder disputar sua sonhada medalha olímpica. 

Dessa maneira, Toledo terá a companhia de Medina, além de Chianca, em Teahupo’o. Em dezembro passado, Chianca sofreu um acidente grave em Pipeline, quando foi retirado da água inconsciente, depois de se chocar contra o fundo de corais. Por muito pouco não perdeu a vida. Passou vários dias na UTI de um hospital no Havaí e regressou ao Brasil para uma lenta recuperação. Antes do acidente, ele era apontado como um dos surfistas em ascensão com mais capacidade de surpreender, já que surfa muito bem em ondas perigosas como Pipeline e Teahupo’o.

Medina é cotado como o maior favorito à medalha de ouro, não só entre os brasileiros. Sua retrospectiva em Teahupo’o só não é melhor que a do onze vezes campeão mundial Kelly Slater, que conquistou lá cinco vitórias, mas não estará presente. Medina já venceu duas vezes em Teahupo’o, em 2014 e 2018. Também foi vice-campeão em 2015, 2017, 2019 e 2023, fazendo cinco finais em seis anos. É sua onda favorita no Tour.

O campeonato em que Medina venceu Slater é tido por muita gente como o melhor de todos os tempos. Nessa disputa memorável, Slater teve que superar nas semifinais o havaiano bicampeão mundial John John Florence. Foi um duelo épico. Florence, que detém a reputação de melhor surfista da atualidade em Pipeline, desponta como o maior adversário de Medina em Teahupo’o, e já declarou que seu desejo é de que o mar “esteja grande, assustador, quero que esteja tão assustador que as pessoas tenham medo de ter prioridade”. 

No jargão do surfe, prioridade é o direito que têm um dos competidores de escolher a onda que deseja surfar entre as que entram a cada série. A prioridade vai se alternando entre os dois adversários na água. Como o tamanho da onda influi diretamente na nota, é esperado que o surfista com a prioridade sempre vá na maior onda que entrar – que tende a ser a que desperta mais medo também. Ao fazer uma afirmação desse tipo com tanta antecedência, Florence já está dando início ao jogo que tem tudo para decidir quem sairá da água com a medalha de ouro em Teahupo’o – o jogo mental.

Adrian Kojin
Adrian Kojin

Jornalista especializado em surfe, foi diretor de redação da revista Fluir e hoje é diretor editorial do site Hardcore. Publicou Alma Panamericana (Gaia), uma aventura de 25 mil km por catorze países

  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30