CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Cidade fantasma
Refugiados climáticos deixam Muçum, após terceira inundação
Camille Lichotti | Edição 213, Junho 2024
O Hospital Beneficente Nossa Senhora Aparecida estava lotado na noite de 1º de maio – não de pacientes. Como era o único estabelecimento público com gerador em Muçum, foi ali que se refugiaram mais de cem pessoas. A cidade de 4,6 mil habitantes, a 200 km de Porto Alegre, ficara completamente às escuras depois das chuvas torrenciais que desabaram sobre o Rio Grande do Sul naquela noite.
Nessa inundação, a terceira a afligir o município em menos de um ano, Muçum foi engolida pelas águas do Rio Taquari e chegou a ter 80% da zona urbana destruída. Numa foto que se espalhou nas redes sociais, só era possível identificar, em meio ao mar de lama que cobria a cidade, a copa de algumas árvores e o teto de um posto de gasolina.
Como a casa em que Eliane Piccoli mora sozinha também foi atingida pela enchente, a auxiliar de serviços gerais de 57 anos correu para o hospital, que funcionava como abrigo na parte mais alta da cidade. Por volta das 23 horas, ela ouviu um estrondo vindo do alto do morro. Era um deslizamento de terra. Assustada, correu para longe do prédio, procurando abrigo na casa de uma amiga. Outras pessoas igualmente amedrontadas pela queda da encosta também fugiram do abrigo.
Por sorte, as instalações do hospital foram poupadas da torrente de lama. Mas, espalhados no chão dos corredores, os que escolheram permanecer no local repetiam a mesma frase, com algumas variações, num misto de desânimo e revolta: “Se minha casa estiver destruída de novo, eu vou embora de Muçum.”
Em setembro de 2023, a enchente do Taquari deixou 17 mortos em Muçum. O nível do rio chegou a 26 metros, quando o normal seria 3 metros. Muitos que tentaram escapar da inundação subindo aos andares superiores de seus imóveis acabaram afogados, pois a água alcançou os telhados. Famílias inteiras morreram dentro de suas casas. A de Piccoli foi destruída nessa primeira enchente. A rua em que ela morava sumiu do mapa, restando apenas um prédio de pé.
Dois meses depois, em novembro, quando parte da cidade foi inundada novamente, Piccoli estava provisoriamente na casa de um parente. A água não destruiu a residência, mas danificou alguns pertences que ela havia acabado de comprar.
O município prometeu construir casas novas para os desabrigados pelas enchentes de 2023, mas o projeto não saiu do papel. Piccoli, que vive sozinha, mudou-se para um imóvel alugado pelo programa de aluguel social da prefeitura que, felizmente, resistiu à inundação de maio passado. Ela está agora abrigando um casal de amigos que perdeu sua residência.
Na enchente de maio, não houve mortes em Muçum, mas boa parte da cidade ficou submersa por três dias. Já familiarizada com o protocolo do caos, a população deixou as zonas de risco na véspera da enxurrada. As chuvas fortes deste ano, entretanto, trouxeram uma nova modalidade de destruição: em trinta pontos do município, o solo encharcado dos morros não conseguiu absorver o grande volume de água e as encostas vieram abaixo. Casas em áreas altas – que permaneceram incólumes nas piores enchentes – acabaram atingidas pela lama.
Quando a água baixou, no dia 4 de maio, revelaram-se casas sujas de lama, com o interior devastado. Muitas já nem tinham portas e janelas. Outras permaneceram trancadas, porque seus moradores não queriam lidar com a limpeza pesada de um lugar que poderia ser inundado novamente a qualquer momento.
A rotina de desastres abalou o moral do município. “Todo mundo está aborrecido, cansado. Eu já não tenho mais vontade de fazer nada, não tem para onde a gente escapar”, diz Piccoli. Seu vínculo emocional com a cidade onde nasceu rompeu-se definitivamente. Ela diz que só não deixa Muçum porque não tem condições de pagar aluguel em outro lugar. “Mas vai ter bastante gente que não volta mais”, prevê. “Não vai sobrar ninguém, isso aqui já está um deserto.”
Quem tem condições de sair já busca alternativas. Logo depois da última enchente, a psicóloga Juliana Báo, de 26 anos, começou a procurar apartamento em outras cidades gaúchas para se mudar com o namorado. Quer um lugar no qual as águas não cheguem, pois está cansada de recolher destroços: “A gente mal terminou de recomeçar e já tem que recomeçar de novo.”
Até a segunda semana de maio, mais de meio milhão de gaúchos estavam desalojados (perderam a moradia, mas encontraram pouso na casa de terceiros) e mais de 80 mil ficaram desabrigados (não têm para onde ir e dependem do governo ou de organizações civis para ter um teto). Eles estão sob risco de engrossar uma tendência global: o número de pessoas deslocadas por causa de desastres climáticos já é três vezes o número de migrantes que fogem de guerras, conflitos internos e violência – e as enchentes são a principal causa dessa migração climática.
Região duramente atingida nessa temporada de catástrofes, o Vale do Taquari terá de sofrer mudanças drásticas para se adequar às mudanças também drásticas do clima. Cogita-se realocar bairros e até cidades inteiras para esvaziar as áreas mais críticas, que não poderão ser reocupadas. Mas, como se vê em Muçum, muitos habitantes já estão migrando espontaneamente. O prefeito da cidade, Mateus Trojan (MDB), reconhece que será difícil convencê-los a ficar para reconstruir o que perderam pela terceira vez.
“O processo de reconstrução é demorado e, nesse período, as pessoas não têm proteção garantida”, diz Victor Marchezini, sociólogo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “É um sentimento de abandono.” Ele acredita que o Rio Grande do Sul, pela extensão da área destruída e a quantidade de atingidos, se tornará palco de um dos maiores deslocamentos climáticos da história do país – atrás somente da migração provocada pelas secas na Região Nordeste.
Alguns especialistas, como Marchezini, preferem o termo “deslocados climáticos”, já que essa migração geralmente acontece dentro do mesmo país. Outros argumentam que, mesmo impreciso, o uso de “refugiados climáticos” comunicaria melhor a gravidade da situação.
Depois da catástrofe do início de maio, Muçum passou quase duas semanas sem luz e sem fornecimento de água. Nesse período, quem andava pelas ruas lamacentas tinha a sensação de estar visitando uma cidade fantasma. À noite, quando os voluntários de municípios vizinhos iam embora, os desabrigados se reuniam para dormir em pátios escuros, e as casas ainda habitáveis eram iluminadas por velas. Com o comércio destruído e sem clima para reuniões sociais, não havia razão para sair à rua. Às margens do Rio Taquari, tudo em Muçum era silêncio.
