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“Respira-se pó”

    Guerra perto de um dos primeiros prédios residenciais de Brasília, por volta de 1960: “Alguns acham que isto aqui vai melhorar. O capital paulis­ta entrará de rijo, buscando novos mercados” CRÉDITO: PETER SCHEIER_C. 1960_ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

anais da micro-história

“Respira-se pó”

O tumulto e a esperança com o nascimento de Brasília nas cartas de um de seus primeiros habitantes

José Augusto Guerra (1926-82) | Edição 215, Agosto 2024

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Foi de um apartamento ainda empoeirado de obra no segundo andar do então recém-construído Bloco K, na Superquadra 106 da Asa Sul, que José Augusto Guerra escreveu as cartas a seguir. Nascido em Maceió em 1926, ele exerceu diversas profissões ao longo da vida – entre elas jornalista, crítico e professor universitário. No início de 1960, atuava como funcionário da Câmara dos Deputados no Rio de Janeiro. Brasília nem havia completado dois meses e meio de sua inauguração quando, em meados daquele ano, ele e outras centenas de funcionários públicos federais foram transferidos à nova capital numa realocação coletiva apelidada de Operação Mudança, organizada pelo deputado maranhense Neiva Moreira.

A destinatária das cartas era Rildacy, esposa de José Augusto. Enquanto esperava Brasília se tornar habitável, ela se mudou temporariamente para o Recife com os dois filhos pequenos – Euclides Augusto (apelidado de Kido), na época com 1 ano, e Ana, com 3. De lá, recebia informações do marido sobre o funcionamento e evolução de estruturas básicas da nova capital. Numa mistura de esperança pelo futuro de Brasília e exasperação ocasional com as dificuldades práticas de viver numa cidade que mal nasceu, Guerra discorria sobre supermercados, escolas, calçadas, mas também sobre o momento político do país e sobre a vida conjugal dos dois, em apaixonadas declarações de amor à mulher, a quem chamava de Dácy.

Em setembro de 2023, eu, Anita Rivera Guerra, neta de José Augusto Guerra, publiquei um artigo em memória de meu avô no site Arquivos Abertos das Cidades Latino-Americanas, destacando alguns trechos de sua correspondência. Agora a piauí publica uma seleção mais extensa destas cartas.

 

 

7 DE JULHO DE 1960

Minha Dácy,

Aquele corre-corre e faz-isso-e-aquilo da mudança, iniciada aí, ainda prossegue. Cheguei às 9 horas de terça-feira, peguei as chaves logo depois e contratei com alguns dos homens da mudança que poderíamos começar à uma da tarde. Almocei no Saps[1] a 120 cruzeiros com sobremesa. Gente de enganchar. Comida razoável.

 

*

Depois comecei a tomar pé no apartamento. É bom esse de canto. Daqui você vê a paisagem: o Palácio do Congresso bem longe, parte do lago, a avenida principal da cidade. Está bom para você: não tem montanhas e a vista se perde longe. Uma beleza.

À noite saí para comer qualquer coisa. Ia atravessando um dos blocos, quando encontro um amigo da Câmara. Terminei indo jantar na casa dele. Às dez estava com sono e dormi.

 

No dia seguinte, quem me acordou foi o clarão do apartamento. O Sol a gente vê nascer. E eu o vi bem ontem: foi crescendo devagarinho, levantando-se e daqui a pouco todos os quartos e sala ficaram daquele jeito. O Sol bate de rijo, violento. Muito bom mesmo.

*

O objetivo agora é aprontar o apartamento. Uma desordem. A empresa construtora ainda não havia liberado o apartamento. Portanto encontrei-o incrivelmente sujo, sujo de construção recém-concluída, tudo sujo mesmo, nem passar a vassoura passaram. Ainda não haviam testado nem água, nem luz, nem gás. Agora estão consertando os tacos soltos, devido ao Sol intenso. O bombeiro da empresa (por enquanto, até a entrega do edifício que ainda está com os corredores e a área de baixo às escuras) está aqui. Deu enguiço no chuveiro, na pia, no aquecedor, na porta da cozinha, no banheiro da empregada. Em quase tudo. E eu ainda com tudo desarrumado. Que coisa séria essa história de mudança: Mas vai terminar tudo certo. As persianas o IAPC[2] não colocou. Está na fase de concorrência. Dizem que vamos ter, outros que não. Ninguém sabe. A área entre os edifícios é areia vermelha no duro. Um ventinho qualquer e a poeira entra pela cara da gente. Cara, roupas, bolsos, cabelos, boca. Imagine-se naquelas cidades sem calçada nem calçamento e areia solta. Assim é onde moramos.

À noite um friozinho bom e tudo calmo, sem ninguém andar nas ruas por causa da poeira. Agora é que o Iapi[3] começou a construir jardins em redor dos edifícios. Mas nem daqui a dois anos isso ficará pronto em toda a cidade. O ritmo de trabalho continua. As empresas particulares estão entrando. Ontem comi uma pizza muito boa, na quadra do IAPB,[4] perto da Igreja Nossa Senhora de Fátima. Depois fui à redação de um jornal para saber das eleições que vi anunciadas.[5] Vou votar hoje às nove da noite na Rádio Nacional, como credenciado da Revista Bancária junto ao Banco do Brasil e à Sumoc.[6] […] Você precisa mandar dois retratos 3×4 para a gente se matricular no Hospital Distrital. A gente: nós e os meninos.

*

São essas as notícias, Daçokota. As saudades começaram. Mas o trabalho é muito com o apartamento de cabeça para baixo, muita coisa a fazer e querendo fazer logo tudo para assentar a cabeça e começar a escrever. Brasília, não há dúvida, é formidável. Tenho conversado com muita gente: candangos, altos funcionários, barnabés, donos de lojas, professores que moram nos JK[7] etc. E, adotando aquela velha técnica jornalística de ser baralho, como diz a Ridete,[8] anoto coisas curiosas. Quando me encontro com um desesperado em Brasília, ajudo a conversa, dou corda e ouço coisas terríveis. Quando me encontro com um entusiasta, digo: “Se é assim que você está dizendo, é mesmo formidável. Essa gente que reclama não pode querer que Brasília seja o Rio. Assim como seria um absurdo exigir de uma criança de 2 anos que pense como se tivesse 10 anos.” E o defeito principal é o sistema de transporte. Quem não tem um troço qualquer, não sai do lugar. Soube que o prefeito foi aos Estados Unidos estudar uma maneira de dar a Brasília o sistema de ônibus melhor do mundo. Coisas do Israel.[9] Mas, pondo de lado o baralho, eu acho isso daqui (com visão para o futuro de dez anos para a frente, e o que são dez anos?) uma cidade extraordinária. O comércio será intenso. Já existem mais agências bancárias do que em Maceió. E só tem, praticamente, dois meses e meio de idade.

*

Na Câmara, as opiniões se dividem sobre Brasília […] A maioria dos cariocas detesta isto daqui. Nancy[10] me disse: “Vou fazer qualquer concurso, mesmo de seja lá o que for, para voltar para o Rio.” E as expressões são estas, na Câmara: “Isto é o fim, um inferno, não se tem conforto, uma tristeza, um miserável esse Juscelino, vou votar no Jânio, uma desgraça como essa não poderia ter acontecido comigo e coisas desse tipo.” Eu ouço e consolo: “Dá-se um jeito.” Mas não há jeito, todos sabem. O jeito é ver mesmo esta cidade crescer. E como cresce.

*

Bem, minha Dácy, são essas as notícias de primeira vez. Agora vamos trabalhar. Vamos cuidar de ganhar mais dinheiro para enfrentar o rojão das despesas. Aqui a Câmara com frequência está fazendo diurnas e noturnas, aproveitando a presença dos deputados. E eu vou, a partir de segunda-feira, entrar nessa história para não cair em déficit. Jornal à noite, como me prometeram, será a última coisa a fazer, no último caso.

*

Quanto lhe dei? Está precisando de dinheiro? Um abraço daqueles do Pet.

 

18 DE JULHO DE 1960

Dácy querida,

[…] Você me pede que lhe fale, com realismo, sobre Brasília. Creio que uma semana é suficiente para sentir a nova capital e outra semana para analisar-lhe o funcionamento. Em princípio, tudo está surgindo aos poucos. Para dar uma solução à falta de transportes (os ônibus que existem são tão escassos e precários que se espera a valer, sem esperança de conseguir um lugar), o prefeito Israel Pinheiro foi aos Estados Unidos. Nessa história de ir estudar e contratar o material, creio que dentro de seis meses esse setor não estará regularizado. O que está salvando a situação é a Câmara, com três ônibus. Pego a condução aqui perto, na Igrejinha [refere-se à Igreja de Nossa Senhora de Fátima], à 1 hora. Dez minutos depois estou na Câmara.

*

Vamos agora ao abastecimento. Não há leite de vaca em Brasília. Uma carrocinha passava sempre às 7 horas, mas a polícia sanitária deu em cima e acabou. Tinha água. Espera-se que a CCPL [sigla da Cooperativa Central dos Produtores de Leite] ou outra empresa qualquer resolva trazer sua organização para Brasília. Por enquanto, uma empresa desse tipo não dá lucro. O consumo não será suficiente para cobrir os gastos de instalação e despesas de empregados. E por isso, ainda por certo tempo, não sei quando (a não ser que o próprio governo instale a usina de pasteurização), não teremos leite bom, de vaca. A solução é o [leite em pó] Ninho.

*

Carne. Começa a tornar-se um problema sério. A Novacap [sigla da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil] só dispõe de um supermercado, que fica a 15 ou 20 minutos daqui de casa. Ora, segundo os entendidos, cada supermercado deve atender a uma procura diária de 2 mil pessoas. Mas há tanta gente chegando que sábado, conversando com um dos gerentes do mercado, ele me disse que perto de 6 mil pessoas estão comprando diariamente. A solução será a construção de outro super ou então que a iniciativa privada comece a fazer concorrência. É o que es­tá acontecendo. Esta semana já estará em funcionamento a Casa Colorado, aqui na Rua do Comércio, com entrega a domicílio. Mas o que acontece é que, quem aparece no balcão da carne depois das nove da manhã, dificilmente encontra carne que preste. É de segunda para baixo. Nada de filé, de alcatra, de chã de dentro.

Lavanderia. Descobri uma de um cearense que, num barraco, comprou duas máquinas de lavar roupa e começou a negociar, cobrando 50 cruzeiros por uma camisa e 130 cruzeiros por um terno. Apareceu outra lavanderia, bem instalada, na Rua do Comércio (ainda não fui lá) e o cearense baixou as camisas para 40 cruzeiros. Já entreguei três para lavar.

*

Sobre empregada, uns arranjam, outros não arranjam. O problema para mim é que elas só se empregam onde existe boia e dormida. Ora, o apartamento ainda está daquele jeito. O homem da vitrificação se atrapalhou, os tacos saltaram, a empresa construtora está recolocando-os, e nesse vai não vai ainda continuo meio desarvorado dentro de casa, com quase tudo como veio de lá do Rio: os livros ainda embalados, as panelas e apetrechos de cozinha.

*

Não existe feira. A feira do candango é uma improvisação muito sem jeito. Em sua maioria desempregados, arranjam qualquer coisa para vender. Bananas, refresco, objetos usados etc. Não é feira: é um ajuntamento de pobre gente à procura de condução e de meios de condução para voltar.

*

Bem, esta é a realidade sobre Brasília. Uma cidade que está cheia de problemas, que não funciona a tempo e a hora, que necessita de mercados, de serviço de coleta de lixo mais perfeito, de artesãos que consertem os sapatos, lavem a nossa roupa, vendam linha e agulha. Alfaiate é fruta rara. Existe um na Cidade Livre.[11] Barbeiro só existe na Câmara e engraxate é o que se vê na cidade.

*

Sobre trabalho, creio que entrei com o pé direito. Já no avião, encontrei Valentim Bouças.[12] Conversamos durante a viagem e ele me propôs o que já havia contado a você: serei uma espécie de babá, de correspondente, para informá-lo do que se passa no Congresso Nacional. Aqui em Brasília ele me apresentou ao dr. Carlos Alberto Penteado, com quem estou entrosando, paralelo ao negócio do sr. Bouças, outros assuntos. De modo que, para começo de conversa, prometeram-­me pagar o que eu vinha recebendo do Observador. Já mostrei o que podia fazer, aprovaram meu sistema de notícias. Com a continuação, a tendência é organizar-se um escritório em Brasília. Escritório de assessoria a certos grupos econômicos de São Paulo (o dr. Penteado é ligado à família Whitaker,[13] de São Paulo).

Quanto a Josué,[14] devo esta semana receber a decisão. Já telefonei para ele contando algumas novidades do Congresso. Deve chegar amanhã, terça-feira, para receber os meses acumulados desde abril e cuidar de assuntos políticos. Josué está doente. Deixei-o, no Rio, com um reumatismo na vértebra. Pelo jeito, essas doenças apareceram nele depois do trauma psíquico com a derrota política frente ao Barros de Carvalho.[15] Aquilo o acabrunhou, no sentido de não confiar em mais ninguém, nem mesmo no presidente, de quem ele se dizia amigo. Mas quem pensa fazer política de alto nível acaba se enfezando e adoecendo. De qualquer maneira, Josué ainda tem dois anos como deputado, e deve saber que Brasília não volta, não deixará de ser o que é: a capital do Brasil. O Rio hoje é um estado.

*

Aquela crônica semanal para a Hora de Brasília, suspendi. É jornal que não está circulando no Plano Piloto. Mandei mais duas para o diretor, que mora no Rio e informei-o disso. Aguardo-o aqui para conversar. Por outro lado, fui solicitado a aparecer no DC-Brasília, um jornal sucursal do Diário Carioca. Mas não tenho intenções de me meter no jornalismo diário.

*

São essas as notícias, minha Dácy.

[…] Estou é com saudades: de você, da dupla, da terra (não a carioca), do apartamento carioca, da nossa vidinha em comum, tão boa, tão cheia de amizade autêntica. Penso que vamos viver muito, que não desaparecerei assim tragicamente como o Pena Filho, que ainda velhos escreveremos cartas, quando você for passar uma temporada na casa da Aninha ou quando eu for visitar o Kido no Mosteiro de São Bento.[16] Porque nesses silêncios de apartamento enorme e vazio, vendo e sentindo esses ares limpos que se assemelham ao de terras que não terminam, de aparência plana como o velho mar, muito sinto sua ausência, naquilo que você tem de humano, de positivo, de feminino, de gracioso, de realmente belo: a sua presença.

 

26 DE JULHO DE 1960

[…] o apartamento vai ficar de nosso agrado. Estou preparando-o para recebê-la, para ter você comigo, para vivermos aqui uma boa temporada, se Deus quiser. E Deus está nos ajudando, piccina [pequena, em italiano]. Estes 21 dias brasilienses têm sido para mim muito úteis. A saudade é intensa, maior do que você imagina, mas necessária. […] Aquela expectativa de como será, da dúvida em torno da vida conjugal, do ajustamento, essa expectativa já está superada. E sob certo aspecto, como é muito mais agradável essa espécie de novo encontro, agora quando um encanto maior existe de fato e o amor, esse extraordinário motivo, já está cimentado em quatro camadas, em quatro anos e dois filhos. […] Hoje sou dos que retificam aquela velha ideia de que, no casamento, a melhor fase é a lua de mel. Não é. O encantamento dos primeiros dias quase sempre é imaginário e – por que não dizer? – também sensual. O gosto dos sentidos, a entrega recíproca, nos primeiros tempos, dá ao encantamento um certo quê de ilusório. Só mesmo a vida em comum, a participação ativa dos prazeres, das alegrias e das lutas, só isso é que dá verdadeiro sentido à união, à amizade, ao amor. Hoje estamos muito mais unidos, muito mais cientes do que somos e do que desejamos, muito mais certos de que nos queremos mutuamente, do que há quase quatro anos. […] E acredito que, aqui nesta Brasília ainda em construção, Brasília de poeira e de esperança, a gente encontre-se mais profundamente, enraíze-se mais, tenha mais possibilidades de nos darmos e de nos completarmos, você com essa beleza que não conheço mais bela, essas feições de mãe e de mulher, de minha esposa muito querida, inconfundível.

*

Aqui, nenhuma alteração nesta semana. Apenas estão terminando as calçadas que dão para os apartamentos. Já não piso tanta areia como na primeira semana. As tubulações de esgotos estão sendo montadas em toda a superquadra. Prossegue a construção da escola de Aninha, o reboco do cinema. Estão montando persianas na outra Quadra, 306, do IAPC. Logo, dentro de um mês talvez cheguem por aqui. Só o vento, a ventania é que piorou. Ventania meio nordestina, de fazer nuvens densas, a uma incrível velocidade. Aconteceu esta semana e na sexta-feira da outra. Ventania de durar três, quatro horas seguidas. A gente depois cospe e lá está o vermelho do pó. Aqui tenho feito gargarejos de Colubiazol. Apenas por precaução. Gargarejo três, quatro vezes ao dia e ao deitar. Como estamos no inverno, faz frio. Nosso cobertor é pouco. Ainda estou com aquele pijama, de lã. Arranjei uma lavadeira que deve chegar quarta-feira. Vou acertar os preços. A situação de empregada, como disse, varia muito. Parece-me que não é tão difícil. A minha dificuldade está em que elas querem ter um lugar onde dormir e comer. E me veem solteiro e têm medo. Já perdi uma. Os vencimentos variam muito. Eu preferia pagar bem a uma delas para cuidar de todo o serviço, mas pagar bem mesmo, do que oferecer mixaria e não pegar uma que preste.

*

De trabalho, vou indo bem. Só de não ter obrigação de tomar café e sair para o trabalho, isso é descanso. Quando essa turma de candangos me deixar tranquilo, então o ritmo será outro. Para você ter ideia da atenção que dispenso ao trabalho dos candangos, já me levantei umas cinco vezes no correr desta carta e atendi três vezes ao telefone, com conversa comprida.

*

Fale-me dos meninos. A boneca da Aninha não sei onde comprar, se tomar o Viscount Brasília-Recife.[17] Comprarei aí mesmo. Não tenho vontade de passar no Rio, a não ser para rever o apartamento. Mas a cidade, as caras, a maioria das pessoas, não. Está cedo. E o Kido, quando começa a andar?

 

4 DE AGOSTO DE 1960

Minha Dácy querida,

Encontrei seu telegrama segunda-feira. E fiquei tranquilo com respeito ao cheque já em suas mãos, para o seu gasto trivial e dos meninos. Aqui a luta maior, com a vitrificação, terminou. Agora é a menor, de limpeza. Tentei fazer isso logo depois de pronto o piso lindo, mas, não sei se devido ao excesso de poeira (dentro de casa) que apanhei, do pó da serragem, desde quinta-feira que não tenho andado muito bem da garganta. Certamente se acumulou tanto que terminei com irritação na laringe. E estou seguindo a recomendação do médico da Câmara: falar pouco e evitar contato com poeira. Consequência: não pude terminar o que havia começado com tanto ímpeto. Espero dentro de uns quatro dias, quando estiver bem restabelecido, voltar à atividade. Estou tomando Tussaveto e gargarejos de Colubiazol. Tomarei antibiótico no último caso, para dar um tiro no assunto. Prefiro vencer lentamente, aos gargarejos. A dificuldade maior é que a Câmara está em obras, estão quebrando paredes para colocar ar-condicionado e tanta coisa mais. E a poeira não encontra saída. Respira-se poeira lá e aqui. Até os livros, que comecei a arrumar, parei. Mas esta carta, mais bilhete que mesmo uma carta, tem a finalidade de colocar você a par de um fato novo. Já lhe disse que entrei aqui com o pé direito. Acho que isso está se confirmando mais uma vez. Acabei de ser convidado para ser assessor de imprensa do gabinete da Presidência da Câmara. Pelo menos até quando o presidente Mazzilli[18] for substituído, em março de 1961. Isto significa que terei uma gratificação suficiente para pagar o apartamento – 8 mil cruzeiros. Se por um lado gostei, por outro veio perturbar um pouco, pelo menos adiar nosso encontro no Recife. Praticamente comecei ontem, embora o ato deva sair hoje ou amanhã.

Pensando bem, não podia deixar passar a oportunidade. Para quem perdeu tanta coisa no Rio e agora está se recompondo, essa situação de assessor de imprensa (uma espécie de elemento de ligação entre o gabinete do presidente e a sala de imprensa) chega na hora. Principalmente quando não estou muito seguro, nem em continuar com o Josué, cada vez mais desiludido da política e ausente daqui, nem em saber se vai dar mesmo certo o negócio com o dr. Penteado, a depender da presença dele aqui, na próxima quarta-feira (era para ter vindo ontem). Porque só o dobro, só os 40 mil cruzeiros da Câmara, já fiz as contas e não são suficientes. Para o nível de vida que desejo ter aqui, com o máximo de conforto em casa, para compensar a pobreza de diversões, de ter para onde ir, só mesmo possuindo em casa quase tudo: hi-fi,[19] tevê etc. E isso vem por etapas, embora seja preciso a gente não perder as oportunidades, como esta que me deram (por sinal, fui indicado por um jornalista pernambucano). […] Em outubro, fala-se na Câmara em dar uma semana de férias para o pessoal ir votar. De acordo com os dias que derem, irei novamente vê-los. E quando chegar dezembro, possivelmente vamos ter as férias normais, de 15 a 15. Não vejo vantagem em você vir para cá e depois termos um mês de férias. Você já imaginou o que é passar um mês de férias em Brasília? Prefiro sofrer mais um pouco e ficar com você em dezembro em nosso querido Nordeste, o melhor lugar do mundo (para passar férias, diga-­se). […] Creio que você está compreendendo a responsabilidade, para mim, da vida nova. E qualquer moleza, omissão, descuido, é prejudicial. […] Para pegar a assessoria (que me deram, não pedi) tenho de renunciar a essas férias programadas para setembro. As férias, o nosso encontro, a nossa vida em comum, a tranquilidade de nossos passeios, a beleza de nosso amor, a poesia com que sabemos dosar nossa vida. Mas, por outro lado, a realidade está presente. Ela me diz: “Ocê precisa solidificar-se financeiramente. E se cortarem o dobro depois da saída do Juaça? Vá, portanto, preparando o terreno, lentamente, com segurança, de modo a não se ver tomado de surpresa.” Sei que as férias valeriam mais que todo o ouro recolhido e colocado no outro prato da balança. Mas um senso de realismo me adverte: não brinque, procure tirar o máximo de Brasília agora, porque você não é sozinho e precisa dar conta do recado.

 

12 DE AGOSTO DE 1960

O bolo que você fez no dia 2 chegou no dia 9. Já havia sinais de mofo. Mesmo assim dava para sentir o gosto da macaxeira. Dei a metade a um amigo meu do Maranhão.

*

Aqui a velha luta e a grande saudade. Achei formidáveis os retratos. Como o Kido está lindo e gordinho. E Aninha mais linda e já uma mocinha bem bonita, de cara larga. O Kido com um jeitinho de tolo, brincando com o garfo, no melhor da festa. E Anoca sabendo o que faz, posando no corte do bolo.

*

Eu aqui já estou bom da garganta. Não entrei no antibiótico. Mas ainda sinto um restinho de catarro nos brônquios, que, há cinco dias não sai, apesar do Rescinda. Como é o nome daquelas injeções anticatarrais que o Lavigne passou para você?

Mando-lhe mais postais de Brasília, embora a Brasília de quatro meses atrás. A cidade está crescendo demais. E dentro em pouco, se as obras de Furnas se atrasarem, creio que vamos padecer de racionamento de energia elétrica e de força. Já estamos prejudicando o povo de Goiânia, porque a Cachoeira Dourada é insuficiente. E Furnas está andando devagar, ou melhor, em ritmo inferior ao de Brasília.

*

Josué não quer nada com Brasília. Até as emendas ao Orçamento ele não apresentou. Não ganhou o Saps. Em suma, perdeu na jogada e, se não tomar uma atitude de quem ao menos recebeu o mandato por Pernambuco, não sei o que vai ser, quanto ao futuro político. Talvez depois das eleições ele se mexa. Os jornais aí não estão dizendo que ele esteve na bica de passar para o Jânio?[20] Foi um negócio sério. Conversamos (ele, dona Glauce,[21] o filho e dois pernambucanos) de três da tarde até sete da noite sobre o assunto. Nunca fui tão rude com o professor ao dizer que sua adesão a Jânio, a esta altura dos acontecimentos, poucos dias antes das eleições, seria o oportunismo mais vil e insensato que ele podia fazer. Conversa dura, de pesar prós e contras. Enfim, concluí: “O senhor faça o que bem entender, mas se aderir agora, ninguém, nem mesmo Jânio, irá acreditar no senhor. Eu faria o seguinte: não me envolveria nas eleições, ficaria à margem, não pronunciaria um discurso a favor de qualquer candidato, e ia descansar em Petrópolis, escrevendo o livro sobre a China. Garanto-lhe que o senhor cresceria mais no conceito do próprio Jânio. E por cima disso tudo, ainda faltam três anos para o senhor terminar o mandato de deputado. Para que precipitar-se agora numa adesão sem pé nem cabeça?” Isso foi há quinze dias. Até agora não se decidiu, embora tenha feito outra besteira: disse ao repórter do Jornal do Comércio que não está com Jânio. Não precisava dizer nada, se estava com fulano ou com sicrano. Na situação dele, o melhor é ficar calado, não abrir o bico.

*

Vou terminar. Estou lendo Graham Greene. Escrevi um artigo para o Correio Braziliense. Preciso aos poucos dominar esse mundo daqui, devagar. […] nada mais belo que sentir a beleza viva, o seu amor querido, a sua força tranquila, o seu abraço terno, a sua ternura que, tenho certeza disso, sempre me será repousante por todo o tempo que vier depois de nosso depois final. Não creio nesse final. Seria um absurdo, uma insensatez divina, uma estúpida sina, essa de ser humano e no humano parar.

 

17 DE AGOSTO DE 1960

[…] tenho certeza de que, aqui em Brasília, vamos ser muito felizes, mais do que éramos na Velhacap.[22] Eu estou gostando imensamente disso aqui. Parece que sou uma das poucas exceções […] Ainda há pouco surgiu um movimento no sentido de retorno de alguns funcionários, contanto que se submetessem a uma junta médica. E, em tom de brincadeira, dei minha opinião: “Só volto para o Rio se me pagarem o dobro do dobro.” Não tenho mais vontade de me meter no formigueiro. Aqui me sinto um pouco mais livre. As manhãs, graças a Deus, ainda me pertencem. Em dez minutos tomo uma condução oficial e estou na Câmara. Não respiro fumaça de ônibus. (Respiro poeira, quando o vento começa a castigar a terra vermelha). Os horizontes são imensos, largos. Só tenho saudades da paisagem de nosso apartamento (da lagoa) e do mar. Aqui não temos isso. Embora a gente disponha, na frente do apartamento, de uns 100 m2 de área que certamente vão ajardinar e enfeitar como deve ser. E será realmente uma bela cidade esta Brasília de JK.

De saúde, estou bom. Tive de entrar mesmo no antibiótico: três injeções de 400 mil unidades. Mas não foi nada sério. Nem cheguei a sentir febre. Era uma faringite misturada com rinite e também com um começo de bronquite. Esses ites curei-os sem adoecer de cama. Não faltei um dia de Câmara. Alimentei-me bem, mesmo sem vontade de comer. Fiz papa de aveia todas as noites, antes de deitar, para fortalecer o organismo. Dizem que esse é o tributo que se paga em Brasília. A diferença entre morar na flor da terra e a 1,2 mil metros de altura dá nisso. O organismo vai se adaptando. A respiração sofre um pouco. Quem sofre do coração, tem palpitações. Mas depois de um mês, dois, tudo se normaliza. Até o nariz começou a sangrar, de poeira.

*

De trabalho, vou me firmando. Estou colaborando no Correio Braziliense. Mando-lhe um recorte. Como não podia deixar de ser, o tema é sobre o nosso Nordeste. Já estou com outro artigo, uma crônica, que deverá sair boa se eu tiver fôlego: Brasília, a cidade sem livros.

*

Aqui há mosquitos, sim. Principalmente se a gente abre as janelas ao entardecer. Atribuo às obras que estão fazendo, ao descuido dos empregados em deixar água estagnar-se. E se no inverno a coisa se complicar, o jeito é mosquiteiro para todo mundo. (O inverno aqui é o verão daí. Quer dizer: estamos no inverno, mas a temperatura é fria e não chove. Desde que cheguei só vi um dia de chuva, mesmo assim fraquinha, que nem deu para molhar a poeira. Agora, no verão é chuva constantemente. Em vez da poeira, teremos lamaçal e mosquitos, certamente).

*

Ontem, dia de sua carta, custei a dormir. Meu pensamento não se afastou de você. E então a acolhi ternamente, aqui no cantinho do coração, e abracei-a e beijei-a um mundo de vezes. […] Cada vez confio mais que há uma certa predestinação em nosso querer recíproco. Tenho a impressão de que a medida exata de nossa amizade, nem mesmo nós podemos saber. Mas Ele, que nos uniu e nos ajuda, sabe. E eu tenho confiança n’Ele. Tenho confiança em que vamos viver muito assim, nesse enlevo, nessa doçura, nessa paz interior, apesar das dificuldades materiais que de vez em quando poderão surgir. Criaremos os meninos (e não devemos parar na Ana-­Kido). Ainda domingo, na missa, pedi a Ele que me indicasse uma pessoa com quem eu pudesse conversar, com inteligência, sobre o nosso problema conjugal. Eu acho que não estamos pecando, não estamos infringindo nenhuma lei d’Ele e da humanidade, quando nos unimos com o diafragma. Os antecedentes, sua doença, sua frieza física, tudo isso estava perturbando seriamente nossa união, a que temos direito. E quando podíamos naqueles dias sem perigo, você não sentia a menor vontade de me pertencer, de tornar-se, comigo, a Unidade. Então, perguntei a Ele, qual a solução, a saída? Ter novo neném, mal saído de outro, é até contra a segurança biológica, a saúde. E como acho que a grande maioria dos que podem nos instruir, vão dizer que o diafragma, em qualquer hipótese, é pecado, pedi a Ele que, até ciente mais do que todos, de nosso problema, da frieza física que só poderia nos arruinar (a não ser que fosse acidental, o que teríamos de aceitar com mais amor, ainda), me indicasse uma maneira de ter certeza absoluta de que estou certo ou não estou certo, e de convencer-me de que não estou certo, se não estou. Porque eu desejaria recebê-lo na comunhão e estou com essa dúvida, embora considere que minha consciência está tranquila. Apenas quero um referendo especial, justo, equilibrado. Já temos dois filhos e mais queremos ter. Limitar o encontro aos dias excepcionais é, como vimos, adoecer. E ter encontros mais constantes é dar equilíbrio e saúde à vida conjugal. Pelo menos, esse é o nosso caso e já sentimos como era um tanto triste, sem jeito, passarmos semanas e semanas numa continência doentia, porque nos dias estéreis faltava o élan, o entusiasmo. Se fôssemos sensuais, pecaminosos, não poderíamos viver sem conservar, agora na ausência, a fidelidade, a castidade, como estamos vivendo agora. E somos fiéis e castos, porque nos amamos profundamente. Porque conhecemos o segredo da união, da unidade: a alegria de que podemos nos pertencer sem nenhuma sombra de transgressão, de pecado. Eu lhe pertenço, querida esposa; e você é a minha Dácy.

*

Observe bem a empregada. Mande ela suspender o ovo ou o leite, para os tumores desaparecerem. Que idade ela tem? Será que vai se ambientar nessa cidade em construção, onde à noite é triste e nem as ruas estão com iluminação, nem a quadra interna dos edifícios? Convença-a de que deve vir para um lugar diferente do Recife.

 

29 DE AGOSTO DE 1960

Recebi sua carta. Já passei um telegrama, comunicando que as malas estão sendo arrumadas. Realmente, a Câmara me concedeu férias de 5 a 23 de setembro […] Espero passar o domingo já com você e a turma toda.

*

Só telegrafarei em definitivo a hora do avião para o Recife, quando chegar no Rio. Lá devo receber $$$ do Observador, comprar a boneca da Anoca, a borracha do aspirador e mudar a resistência do ferro de engomar.

*

Escrevi este artigo sobre os livros em Brasília. (Como é bom a gente ter a manhã nossa, sem aliená-la, verdadeiro presente com que não contava nesta idade.)

*

Na verdade, como nos amamos, piccina. E quando sabemos que isso vai durar a vida inteira, bem que compreendemos como a presença de JC [Jesus Cristo] é definitiva e decisiva. Nosso apartamento é grande. E certamente ele nos deu assim grande para o habitarmos… Vamos conversar isso direitinho.

 

OUTUBRO DE 1960 (sem data específica)

[…] Saudades de tanta coisa que aconteceu nessas férias de setembro. Tanto episódio agradável, tantos momentos como nunca tivemos e sentimos. Tantos silêncios mais significativos que mil palavras.

*

Minha Dácy, eis em que dá esta solidão brasiliense: vivo mais em você, lembro-me mais de você, como se aqui estivesse arrumando as coisas comigo, passeando, indo ao cinema, comprando no mercadinho, fazendo pacote de roupas, lendo trechos de livros e dedilhando no piano tolices que me lembram você. E estranho: você mais que os meninos, como se o complexo de Édipo não existisse. Tudo me vem à memória: aquela peça formidável, em que sorri tanto que voltaria a revê-la se agora estivéssemos no Recife. Ri demais: desde a noite de núpcias até quando era conveniente rir. E não sei se você notou: eu também me senti velho, doente, sem você, meio cego, na cama enorme, só, olhando o nosso retrato de há quatro anos, quando eu era trinta anos mais jovem.

*

Quase tenho nada para contar. Votei ontem aqui mesmo no Bloco 4: Lott e Milton Campos. Mas o Jânio está na ponta e não acredito (como não acreditava) na vitória do marechal. E aí em Alagoas? Será que o padre e o Ari[23] vão ficar em último lugar? A lavadeira não voltou e as minhas camisas estão se acumulando e a tinturaria não as recebe porque a máquina enguiçou. Vou terminar comprando mais duas de nylon daquele tipo, quando regressar ao Recife.

Reiniciada a entrega do pão.

*

Estou lendo nas horas vagas. Terminei Nordeste, de Gilberto Freyre. Vou terminar Crime e castigo e escrever uns dois artigos.

Leia o Conrad. Ou então Uma tragédia americana, livro grande, grosso, que deve estar aí na estante. Fale-me da praia. Agora é que estou descascando e pensando que é sujo, mas não é.

Não gosto de falar em praia. Estou saudoso. Saudoso de tudo.

Receba esta carta e vá à praia por mim. Vá visitar o riachinho que nem chegamos a ver. Colha uma florzinha daquelas (é primavera). Tire retrato e mande para mim.

 

14 DE OUTUBRO DE 1960  

[…] Brasília foi consagrada à Nossa Senhora de Fátima. Houve uma festa. Vieram seminaristas de Diamantina. Às dez da noite do dia 12, procissão. De onze às doze da noite, hora santa com prática pelo arcebispo de Brasília. E à meia-noite, missa campal. Então, que fiz? Como estava meio sonolento, depois do jantar adormeci. E me acordei perto de onze ou pouco mais do que isso. Assisti parte da hora santa e fiquei até que as cerimônias acabaram. Era mais de uma da madrugada. Então rezei sozinho, pensando em você, no que ainda teremos de viver, no futuro, embora não nos devamos tanto preocupar com o futuro. Enfim, dependemos de tanta coisa! De um mundo inquieto, marchando para uma luta sem pé nem cabeça. E, internamente, com a vitória do Jânio (que espero faça um bom governo), que será de nós, do país, de Brasília? Alguns observadores acham que isto aqui vai melhorar. O capital paulista vai entrar de rijo. Também confio nessa opinião. Não pelo que Jânio tenha dito: “Juscelino construiu Brasília; eu vou torná-la habitável.” Mas pela sequência natural dos acontecimentos, a busca de novos mercados, a interiorização do país. E Brasília é um ponto-chave, o centro das decisões governamentais. Está faltando um bom prefeito. O dr. Israel é péssimo. Reina desordem no acabamento das obras iniciadas. O interior das superquadras, por exemplo, já podia estar mais adiantado. Em vez de começarem as coisas e terminarem, não: pavimentaram parte de nossa quadra. Mas deixaram pela metade e o que está em fase de conclusão, está se estragando. A gente é inclinado a pensar em marmeladas, para se refazer o trabalho. O caso das persianas é típico. E também das gavetas dos armários. A gente reclama, dizem que a verba foi aprovada, mas não sai nada de definitivo. (O caso das persianas e gavetas é atribuição do IAPC). Se, até começo de dezembro, não resolverem nada disso, vou encontrar uma solução, pelo menos das cortinas. Mas, por outro lado, não me sinto entusiasmado em fazer isso sozinho. E quando voltarmos, quando você vier comigo, sem os meninos, nos primeiros quinze dias bem que daremos solução a essas coisas.

*

O problema da empregada não mudou. Há um programa de rádio das 7 às 8, em que funciona um verdadeiro escritório de empregos domésticos. Muita gente, segundo o programa, está sendo atendida. Empregadas desempregadas; donas de casa sem empregada etc. Inclusive já ouvi até anúncio assim: “Precisa de uma menina de 12 anos etc.” Agora, não acho jeito de providenciar isso com essa antecedência toda, para janeiro, porquanto nem convém cair na asneira de confiar que contaremos com tal e tal pessoa. Há amigos meus que estão satisfeitos. Mas uma vez fui almoçar na casa de um e o almoço era à maneira carioca: uma carne assada com feijão e arroz e só. Quer dizer: eles, cariocas, não ligam muito para o estômago, já estão habituados (classe média) a fazer qualquer coisa e engolir. Nós do Nordeste é que gostamos de mesa farta e não há empregada que se aguente. É um negócio sério.

*

Josué nem dá as caras. Está na Europa. Aguardo a presença dele aqui para acertar as contas: se vamos continuar ou não vamos naquela colaboração. Já ouvi rumores de que o Jânio vai convidá-lo para ministro da Saúde. Mas não vai. E então num bilhetinho com a correspondência recebida, disse a ele: “Não se deixe envolver pelas especulações ministeriais.” Mas ele se deixa, vai na onda e depois se queixa da imprensa. Na Câmara, agora com a derrota do Lott, vamos ter novo presidente. Certamente continuarei na assessoria até março de 1961. Depois, com a nova Mesa, vamos ver em que vai dar.

*

Estou escrevendo um artigo sobre um romance de Menotti del Picchia.[24] Romance curiosíssimo. Será o primeiro artigo, depois das férias. Terminarei domingo. Depois escreverei sobre a Transbrasiliana; depois sobre um livro de escritor alagoano; depois sobre a revista Nordeste e referências ao livro de Mauro Mota[25] (livro de crônicas); depois sobre uns contos do Érico[26] e outros contistas. À proporção que escrever, vou me afiando mais. Até que virá o ensaio sério sobre o Zé Lins.[27] Mais tarde, o seu romance, o nosso romance. Ainda acho cedo. Como não sou romancista, como não tenho imaginação, perturbo-­me quando, literariamente, preciso inventar. Os meninos estão tão pequenos… E uma autobiografia agora seria obra muito pessoal. Eu me descobriria e me revelaria logo na primeira frase. Revelaria você, nossos hábitos, nossa vida, nossos sentimentos. E muitos olhos (ainda que fosse um livro para cem leitores, como foi Stendhal no século XIX) eu me sentiria entregue à curiosidade de muitos. Nosso convívio e, de acordo com a maneira de dizer, nossa própria intimidade. Não, piccina, a intimidade é nossa […]. E não sei como você se sentiria se eu a colocasse inteira numa página literária, aos olhares de todos. Como escrevo bem, seria bem real: não o realismo cru e cáustico. Mas o realismo que, por ser bem apresentado, todo mundo lê. E lê nas entrelinhas. E, lendo, veria o que somos, como somos, como vivemos, desde os primeiros instantes, o entrelaçar das mãos da menina, até mesmo o que vivemos e sentimos e conversamos no leito nupcial. […] Seria um livro sobre o amor conjugal como tema. E a história, esta vida nossa. Esperemos um pouco mais. E depois vem a correlação entre o amor humano e o amor divino, o primeiro como prova e evidência de que existe o segundo. E assim por diante. Ficção e não ensaio. Vamos ver o que faremos. Gostaria apenas de ter tempo de realizar o que penso escrever. Porque, no terreno vocacional, é a única coisa que gosto de fazer. Quando descobri o mundo da literatura, desde essa época, ainda quase menino, enlouqueci. Enlouqueci e coloquei de lado o resto: a arte prática da vida. Havia então três caminhos (bem diferente do que é hoje): ou direito, ou medicina, ou engenharia. Nenhum deles me impressionava. Achava um absurdo a vinculação do homem, para sobreviver, a essas profissões por demais técnicas. A primeira, dentro de um mundo de sofismas e de sofistas; a segunda, exigindo aptidões especiais que não me seduziam; a terceira, exigindo um cerebralismo de cálculos que fugia ao meu temperamento. E só o vasto mundo das ideias me fascinava. Mas, profissionalmente, de que maneira? Pela arte de escrever. E desde aí, embora sabendo o que iria encontrar pela frente, saí do emprego, terminei o curso de colégio e como única tenda de trabalho, o velho Jalagoas[28] me serviu de abrigo, um abrigo temporário, que cedo descobri encontrar-me desabrigado. Daí em diante, frente a uma realidade fria, de homens crus, tive de lutar pela vida. Os ideais que desejava alcançar exigiam uma base que o berço não me deu: a estabilidade financeira. E como não a possuía… Faltou-me uma luz qualquer que me dissesse um caminho mais sensato para demorar-me um pouco mais no Jalagoas, apesar dos homens crus, ávidos para tomar o meu lugar (e tomaram) e estudaram, nos albores dos cursos de filosofia que existiam no Recife, um deles mais condizente com a vocação literária. Era o que devia ter feito, embora, sem culpa, desconhecesse esse caminho. E terminei sendo tragado pelo Rio numa luta medonha, até vir à superfície que me permitiu respirar, tomar pé e patinar, não na areia, mas na grande cidade, no vórtice da grande cidade. Não me penitencio de erros cometidos. Não creio que tenha errado por convicção. Apenas não me orientei bem, a bússola que trazia funcionou mal. O Sul não era a redenção: a redenção não sei se teria sido ficar em Maceió, num ambiente tão hostil, carregado de ideias e de pontos de vista que colidiam e feriam a realidade. Atordoado, desorientado, fugi. Também observo que nenhum dos que ficaram em Maceió, de meu tempo, trazia as preocupações que eu tinha. E daí viver como se eu próprio fosse uma ilha, incomunicável, um bicho. Às vezes passava dias e dias em casa sem falar com ninguém. Saía com outro doido pela literatura, o Mário,[29] e íamos nas barrancas da Ponta Verde olhar o mar e meditar sobre a saída, a fuga. Quando passamos com o Zéuchoa[30] agora nas férias, por lá, tive saudades da tragédia do adolescente, da minha adolescência. Olhar o horizonte sempre me pareceu um prazer. Mas o Mário se precipitou antes, meteu-se na Marinha, não aguentou dois meses, danou-se para o Rio, de lá começou a pedir dinheiro aos amigos e cedo se viu amarrado pela vida. Ainda tenho cartas dele, dessa época. Enfim, depois do horizonte também existia prisão. Saímos da prisão com barrancas de areia fina para cairmos na prisão das montanhas cariocas.

Por que estou eu contando agora essa história? Porque sei que você está me ouvindo e assim poderá melhor me conhecer, nas minhas irrealizações, nos meus anseios destruídos e na razão de quanto insucesso, um quase Judas do romance de Thomas Hardy. Sei, porque só você me ouve e me entende. […] Atribuo sua presença a um presente de Deus: mais vale o amor que a glória, a consagração literária, principalmente a quem, no vigor da adolescência, estava convicto de que era um escritor nato e dava as costas a tudo, à própria família, para realizar-se. […] Fui buscar em Shaw, que foi um verdadeiro artista, isto: “Um verdadeiro artista deixará que seus filhos passem fome, que seu pai se mate de trabalhar por ele, mas não renunciará à verdadeira expressão de sua vocação artística.” Estou um pouco desmemoriado. Parece que é assim: “que seus filhos vivam de pés descalços.” Achei isso, na época, extraordinário. Meu pai não entendia. Minha mãe resmungava. E eu não conhecia o mundo, nem mesmo a arte e muito menos o amor. Mas vamos parar com isso.

Agora vou tomar um segundo banho (faz calor) e almoçar. Estou escrevendo há duas horas. Mas você me ouve, amor querido. Um beijo meu, apesar da distância. Um cheiro. E até o reencontro, se Deus quiser. Um cheiro também nas cabecinhas que nada entendem: do Kido, da Aninha. Lembranças. Faltam nove domingos.

 

21 DE OUTUBRO DE 1960 

[…] Estamos na Câmara em rebuliço. As contas dos apartamentos (aluguel) começaram a ser cobradas. E vamos oficiar ao presidente da Câmara, que felizmente proibiu o desconto dos aluguéis em folha, como queriam os Institutos, no sentido de só pagarmos os aluguéis quando os apartamentos estiverem realmente prontos: persianas, gavetas nos armários e outras coisas miúdas. Vamos ver em que dá. Ninguém paga. Então as administrações dos Institutos, principalmente o IAPC, vão providenciar. Outro movimento: equiparação de nossos vencimentos aos dos militares e inclusão de adicionais por tempo de serviço no dobro. Alguns pleiteiam compra de automóvel. Mas não tenho dinheiro para isso.

*

[…] Os ladrões estão dando em cima nos apartamentos vazios. Israel Pinheiro, péssimo prefeito, não está dando bola para a cidade. Só a quadra do IAPB, onde mora Eduardo,[31] está completa. Jardins, recreio de crianças, asfalto, lâmpadas dentro das quadras, uma beleza. Quando tudo ficar assim, Brasília valerá a pena: uma cidade residencial. Soube que o IAPC gastou tudo na campanha do Lott e nada de terminar o que começa. Outra reivindicação dos funcionários da Câmara: a compra dos apartamentos.

*

Aqui tenho passeado no automóvel do Werneck.[32] Domingo fui ao Catetinho, primeira construção de madeira em Brasília, aonde o Juça[33] vinha e passava as noites, despachava algum expediente, isto há pouco tempo: em 1956. Grande presidente.

Já está na hora de terminar. Quero seu cheiro, seu abraço, com ternura. A ternura que você, mesmo com raiva, sabe me dar. E sem raiva, se transforma no que é a minha Dácy de milhões de anos, terna, muito bonita, a Daçokota do Pet, nos braços do Pet, para sempre.


[1] Serviço de Alimentação da Previdência Social (Saps), uma rede de restaurantes populares subsidiada pelo Estado.

[2] Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC). Criado em 1934, no governo de Getúlio Vargas, o órgão tinha entre as suas atribuições o financiamento de projetos de habitação popular em grandes cidades. Foi extinto em 1966, quando se fundiu a outros órgãos para formar o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), precursor do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

[3] Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (Iapi) – assim como o IAPC, tinha entre as suas atribuições o financiamento de projetos de habitação popular em grandes cidades. Também foi extinto em 1966.

[4] Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB) – órgão análogo ao IAPC e ao Iapi.

[5] Provável referência à eleição de sindicato da categoria de jornalistas.

[6] Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), autoridade monetária criada no governo Getúlio Vargas e ligada ao Ministério da Fazenda. Foi extinta em 1965, com a criação do Banco Central do Brasil, que passou a exercer suas funções.

[7] Possível referência aos blocos das quadras 400, com apartamentos menores em prédios de três andares.

[8] Amiga do autor.

[9] Israel Pinheiro da Silva (1896-1973), presidente da Novacap entre 1955 e 1960, e primeiro prefeito do Distrito Federal.

[10] Amiga do autor.

[11] A Cidade Livre foi uma área de Brasília demarcada para alojar trabalhadores atuantes na construção da nova capital. Livre de impostos, foi uma espécie de centro populacional provisório, idealizado para estimular o comércio nascente e suprir as demandas dos novos habitantes da cidade.

[12] Valentim Bouças (1891-1964) foi membro da equipe econômica do presidente Getúlio Vargas durante o Estado Novo, e chegou a se tornar conselheiro financeiro pessoal do então presidente. Fundador da revista O Observador Econômico e Financeiro, foi também presidente e membro do conselho de diversas multinacionais.

[13] Família paulista influente – dois de seus principais membros foram o empresário José Maria Whitaker, presidente do Banco do Brasil (1920-22) e ministro da Fazenda do primeiro governo Vargas (1930-31), e posteriormente do governo de Café Filho (1955); e o jurista Firmino Whitaker, membro do STF (1927-34).

[14] Josué de Castro, deputado federal de Pernambuco pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) por dois mandatos. Professor, médico e ativista, era conhecido por seu trabalho em nutrição e sobretudo pela obra Geografia da fome – o dilema brasileiro: pão ou aço, que se tornaria referência nacional por ser uma das pioneiras em destacar a tragédia da fome no âmbito político e social. José Augusto Guerra era seu amigo e também atuou como seu assessor.

[15] Antônio de Barros Carvalho, deputado federal de Pernambuco. Inicialmente filiado à União Democrática Nacional (UDN) e posteriormente ao PTB, se elegeu senador pelo estado em 1958, e foi nomeado ministro da Agricultura pelo presidente Juscelino Kubitschek em junho de 1960.

[16] O autor e a mulher desejavam que seu filho se tornasse padre.

[17] Referência a avião, especificamente à marca Vickers Viscount, um dos primeiros turboélices a integrar frotas comerciais de companhias brasileiras.

[18] Paschoal Ranieri Mazzilli (1910-75), presidente da Câmara dos Deputados à época.

[19] Referência a aparelho de som de alta qualidade.

[20] Naquele momento, Jânio Quadros se preparava para enfrentar o marechal Henrique Lott na eleição presidencial de 3 de outubro de 1960, que Quadros viria a vencer confortavelmente.

[21] Glauce do Rego Pinto, esposa de Josué de Castro.

[22] O Rio viria a ser apelidado de “Velhacap”, em contraposição à Novacap, estatal fundada durante o governo Juscelino Kubitscheck para tocar as obras da nova cidade.

[23] Ari Boto Pitombo, deputado de Alagoas pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

[24] Paulo Menotti del Picchia (1892-1988), jornalista, poeta e romancista ligado ao movimento modernista brasileiro.

[25] Mauro Mota (1911-84), cronista, poeta e memorialista pernambucano.

[26] Provável referência ao escritor Erico Verissimo (1905-75).

[27] Escritor José Lins do Rego (1901-57).

[28] Possível brincadeira com o nome do bairro onde o autor morava em Maceió, Jaraguá, justaposto ao do estado de Alagoas.

[29] Amigo do autor.

[30] Amigo do autor.

[31] Amigo do autor.

[32] Amigo do autor.

[33] Referência ao presidente Juscelino Kubitschek.

José Augusto Guerra (1926-82)

Foi jornalista, crítico, professor universitário e funcionário público

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