A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
“Era para espionar”

    CRÉDITO: CÁSSIO LOREDANO_1983

despedida

“Era para espionar”

O escândalo que atazanou o poderoso Delfim Netto, morto aos 96 anos

Ricardo Balthazar | Edição 216, Setembro 2024

A+ A- A

Nos primeiros dias de abril de 1976, o diplomata Guy Mendes Pinheiro de Vasconcellos foi tomado por grande inquietação. Conselheiro da embaixada brasileira em Paris, onde servia havia dois anos, ele organizara com um colega uma reunião secreta fora da representação oficial e estava preocupado com os riscos da iniciativa. Tentara fazer contato direto com um dos seus superiores em Brasília, para pedir instruções, mas, com as comunicações precárias, a ligação não completou. Resolveu arriscar.

Na noite do dia 2, uma sexta-feira, Vasconcellos foi à casa do primeiro-secretário Fernando Antônio de Oliveira Santos Fontoura, seu parceiro na empreitada. Duas outras pessoas tinham sido convidadas para jantar: o coronel Raimundo Saraiva Martins, adido do Exército na embaixada brasileira, e o banqueiro Jacques de Froissard de Broissia, diretor da área internacional do Crédit Commercial de France (CCF), cunhado do presidente francês, Valéry Giscard d’Estaing. Vasconcellos atuou como intérprete para auxiliar o coronel, que não era fluente em francês, e tomou notas durante a conversa, procurando dissimular o interesse despertado pelo que ouvia.

Fazia três meses que o banco francês começara a discutir sua entrada num dos projetos grandiosos da ditadura militar no Brasil, a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, em plena selva amazônica. O CCF oferecia empréstimos para a compra de turbinas e outros equipamentos, a serem fornecidos por indústrias brasileiras e francesas. De acordo com Broissia, o banco tinha encontrado um obstáculo na embaixada em Paris, chefiada então pelo economista Antonio Delfim Netto, ex-­ministro da Fazenda. O banqueiro sugeriu que um grupo formado por diplomatas e colaboradores do embaixador estava exigindo o pagamento de comissões milionárias para dar andamento às negociações.

 

No dia 5, segunda-feira, Vasconcellos enviou um telegrama a seu chefe em Brasília, para garantir que a bomba chegasse logo aos altos escalões do Ministério das Relações Exteriores. O conselheiro queria autorização para acompanhar o coronel Saraiva em novas reuniões que pretendia agendar com autoridades francesas. Achava possível agir sem despertar desconfiança. “Não há perigo de que meus verdadeiros propósitos sejam descobertos, visto como todas as atenções tendem a se focalizar sobre Saraiva, dada a sua qualidade de militar”, escreveu na mensagem, a primeira de uma série em que detalhou o relato de Broissia nos dias seguintes.

Quase ninguém sabia do papel duplo que Vasconcellos desempenhava. Ele ocupava uma pequena sala no terceiro andar da embaixada, instalada num palacete do século XIX às margens do Rio Sena, e fazia com discrição seu trabalho na seção política, onde lhe cabia acompanhar as atividades do governo francês, eleições locais e outros assuntos da área. Ao mesmo tempo, atuava como agente do Centro de Informações do Exterior (Ciex), órgão criado dentro da estrutura do ministério para espionar opositores do regime militar e buscar informações de interesse do governo fora dos canais diplomáticos oficiais. Vasconcellos usava um codinome ao se comunicar com seus superiores: “Sebastião”, sem sobrenome.

 

As atividades do Ciex permaneceram encobertas durante décadas por um véu de segredo, que só seria levantado de forma definitiva no início da década passada pela Comissão Nacional da Verdade, criada no governo Dilma Rousseff para investigar violações de direitos humanos praticadas na ditadura. Com base em documentos recolhidos pelo Itamaraty no Arquivo Nacional em 2007 e digitalizados anos depois, a comissão concluiu que o Ciex cooperou ativamente com o aparato repressivo criado pelo regime, monitorando exilados políticos e até participando de sequestros.

 

Entre os papéis, a Comissão da Verdade encontrou a nomeação de Vasconcellos para fazer parte da rede de arapongas. Em 15 de maio de 1975, o chanceler Antônio Azeredo da Silveira comunicou à embaixada em Paris que o Serviço Nacional de Informações (SNI) criara um mecanismo de cooperação com o Serviço de Documentação Estrangeira e Contraespionagem (Sdece) da França para acompanhar a situação política em Portugal, que acabara de realizar as primeiras eleições depois da Revolução dos Cravos, que derrubara o regime salazarista em 1974. Azeredo da Silveira disse que a transferência de um agente do SNI era impossível e, por isso, escolhera Vasconcellos para a missão, incumbindo-o de criar uma base do Ciex na capital francesa.

A nomeação não era um segredo para o embaixador que mais tarde se tornaria alvo dos espiões. Delfim Netto tinha assumido suas funções em Paris em fevereiro de 1975 e, portanto, estava no posto quando o telegrama de Azeredo da Silveira chegou. “Tranquiliza-me a certeza de que Vossa Excelência compreenderá a delicadeza das atribuições do conselheiro Vasconcellos e saberá respeitar a indispensável compartimentação, que visa cobrir eficazmente a natureza das funções acumuladas de nosso funcionário”, escreveu o chanceler em sua mensagem.

Chamado para depor a integrantes da Comissão da Verdade no Rio, Vasconcellos quebrou o silêncio em fevereiro de 2014. Aposentado desde 2002, o diplomata disse que nunca teve qualquer interesse em Portugal. “A minha atribuição específica, dita de boca e tudo, era só para vigiar o Delfim, o Delfim Netto, quanto às negociatas”, contou. “A minha recomendação era essa, era vigiar as negociatas do Delfim e também mandar algumas bobagens sobre asilados e tal. Não tinha nada disso, só pegava e comprava uns folhetos em uma livraria, uns folhetos de esquerda, e mandava.” Segundo ele, a missão descrita por Azeredo da Silveira ao nomeá-lo era um mero disfarce: “Era uma cobertura para encobrir o verdadeiro trabalho, que era espionar o Delfim.”

 

 

Morto em agosto, aos 96 anos, Delfim Netto foi um dos ministros mais poderosos do regime inaugurado com o golpe de 1964, mas isso não impediu que se tornasse alvo da sua máquina de espionagem quando se viu afastado do centro das decisões. Delfim dirigiu a política econômica do país por sete anos, de 1967 a 1974, durante os governos dos generais Artur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici. Foram os anos do chamado “milagre econômico”, em que o Brasil cresceu em ritmo acelerado, com taxas jamais vistas, de 10% ao ano, em média. Ele também foi um dos signatários do Ato Institucional nº 5 (ai-5), o instrumento jurídico que, em 1968, fechou o Congresso, suspendeu liberdades e inaugurou a fase mais brutal do regime. Nunca se arrependeu.

Os dias gloriosos de Delfim terminaram com o fim do mandato de Médici e a ascensão do general Ernesto Geisel. O novo presidente escolheu o economista Mário Henrique Simonsen, que dava aulas na Fundação Getulio Vargas (FGV), para substituí-lo no Ministério da Fazenda. Embalado pelos resultados exuberantes que alcançara na condução da economia, Delfim se movimentou para tentar viabilizar uma candidatura ao governo de São Paulo nas eleições previstas para 1974, mas não conseguiu o apoio de Geisel e foi enviado a Paris como embaixador. Como as eleições eram indiretas, decididas por colégios eleitorais restritos em que a oposição tinha pouco peso, era inútil insistir em qualquer pretensão sem contar com a simpatia do regime.

Considerada um prêmio de consolação, a nomeação de Delfim para a embaixada foi recebida com resmungos no Itamaraty. O ex-ministro não era diplomata de carreira e fora agraciado com um dos postos mais cobiçados da diplomacia. Entretanto, era o tipo de concessão que o chanceler Azeredo da Silveira estava disposto a fazer para atingir um objetivo maior: convencer Geisel a implementar a política externa assertiva que propunha, mesmo que contrariasse os Estados Unidos e outros aliados tradicionais. “Silveira era muito arguto e sabia que precisava fazer certas coisas para manter o posto”, disse à piauí o embaixador Rubens Ricupero, que trabalhou com ele no Itamaraty no fim da década de 1970.

Esse pragmatismo pode explicar também a maneira como Azeredo da Silveira empregou os instrumentos à sua disposição para manter Delfim sob vigilância. No acervo pessoal deixado por ele aos cuidados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV no Rio, preservaram-se pelo menos 23 informes que recebeu dos agentes do Ciex. Entre eles, a piauí encontrou quatro telegramas enviados por Vasconcellos, todos sobre Delfim. “A ditadura acabava com reputações dessa forma”, afirmou o professor Matias Spektor, especialista em relações internacionais da FGV que fez pesquisas no acervo do chanceler. “Silveira poderia ter jogado fora esses papéis, mas por algum motivo optou por guardá-los.”

Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, o Ciex foi criado em 1966, no governo do general Humberto de Alencar Castello Branco, quando o Itamaraty era comandado pelo general Juracy Magalhães, veterano das rebeliões tenentistas do início do século XX. Como os investigadores não encontraram os atos administrativos que criaram o órgão e regularam suas atividades, dois diplomatas que o dirigiram sentiram-se à vontade para desconversar ao depor à comissão. “Para este órgão existir, teria que haver uma portaria, um decreto, uma lei, o que seja. Senão, não existe”, afirmou o embaixador Marcos Henrique Camillo Côrtes, a despeito de ter chefiado o Ciex de 1966 a 1968.

Mas a documentação encontrada no Arquivo Nacional não deixa dúvidas sobre a existência do órgão e sua finalidade. Mostra que o Ciex respondia somente ao ministro das Relações Exteriores. Os arapongas deviam enviar seus informes diretamente a Brasília, sem submetê-los antes às embaixadas, e dispunham de chave criptográfica própria para transmiti-los sem que outros diplomatas pudessem decifrá-los. O Ciex instalou bases em pelo menos onze países: Argentina, Chile, França, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e, no antigo bloco soviético, Alemanha Oriental, Polônia, Rússia e Tchecoslováquia.

 

Rumores acompanhavam a sombra de Delfim Netto antes mesmo de sua chegada a Paris, como o jornalista Elio Gaspari contou em A ditadura encurralada, quarto livro de sua série sobre o ciclo militar. A obra reproduz uma conversa que o general João Baptista Figueiredo, prestes a assumir a chefia do SNI, teve com o general Golbery do Couto e Silva, em fevereiro de 1974, semanas antes da posse de Geisel. Figueiredo contou que recebera um informe relatando que Delfim informou a um grupo francês que a Usina Hidrelétrica de Água Vermelha seria construída pela empreiteira Camargo Corrêa – antes da realização da concorrência.

Achando que encontrara um indício de fraude na licitação e de promiscuidade nas relações de Delfim com o setor privado, Figueiredo levou o papel ao conhecimento do presidente Médici. Golbery, depois de ouvir o que Figueiredo tinha a dizer, fez uma recomendação: “Esses papeizinhos, era bom botar numa pastinha separada. É preciso ter uma pastinha, porque em último caso a gente tem coisas para mostrar e dar uma paulada em cima de alguém. Você já deve ir pegando e juntando isso.” Golbery gravou o diálogo com Figueiredo e preservou a fita em seu acervo pessoal, que foi confiado a Elio Gaspari em 1985.

Em Paris, tudo indica que a bisbilhotice foi insuflada por Mariza Tupinambá, uma funcionária que Delfim demitiu da embaixada em janeiro de 1976. Era pianista e amante do ex-ministro do Planejamento Roberto Campos, que servira o governo Castello Branco e fora nomeado por Geisel embaixador em Londres. Alojada por Delfim em Paris a pedido de Campos, Tupinambá foi designada para a seção cultural e frequentava recepções na embaixada. Durou pouco no emprego. Como ela contou mais tarde, numa entrevista concedida ao semanário Pasquim no início de 1983, um diplomata a viu num restaurante com o coronel Saraiva, e isso bastou para o embaixador concluir que ela só estava ali para fomentar intrigas.

Foi Tupinambá que apresentou o banqueiro Broissia ao pessoal da embaixada brasileira em Paris. Em depoimento a uma CPI do Congresso em 1983, ela disse que chegou a discutir com eles um plano para instalar um grampo na sala de Delfim, localizada no térreo do palacete da embaixada, e gravar suas conversas. A ideia nunca foi executada. “Fui várias vezes à sala do Delfim para ver se descobria alguma coisa”, ela contou. Demitida, Tupinambá voltou para Londres, mas continuou em contato com o grupo.

Num dos telegramas que enviou a Brasília em abril, o conselheiro Vasconcellos afirmou que o grupo recebeu de Tupinambá uma lista extensa com nomes de várias pessoas que teriam desembolsado comissões para Delfim e seus colaboradores. A informante dizia ter recebido a relação de um membro da Assembleia Nacional francesa, Jacques Baumel. “A lista é muito grande e, pelo menos de imediato, seria difícil comprovar sua autenticidade”, ressalvou o diplomata no informe para o Ciex, acrescentando que não tinha ideia dos motivos que levaram o deputado a se envolver com o assunto.

 

Os quatro telegramas de Vasconcellos guardados nos arquivos do chanceler Azeredo da Silveira foram endereçados pelo agente “Sebastião” a uma pessoa que usava o codinome “Argeu”. É provável que se tratasse de Octavio José de Almeida Goulart, o diplomata que chefiava o Ciex na época, único integrante da rede de espionagem com quem Vasconcellos admitiu manter contato quando foi questionado pela Comissão da Verdade. No segundo despacho, em 6 de abril, Sebastião ofereceu um resumo da narrativa feita por Broissia, entremeado com sugestões de caminhos que poderiam ser explorados se alguém quisesse investigar o assunto no futuro.

Na essência, mencionava dois episódios. Segundo Broissia, fornecedores de equipamentos destinados à hidrelétrica de Água Vermelha tinham pagado uma comissão de 10 milhões de dólares para garantir seus contratos. O representante de um dos bancos na transação pedira      o dinheiro, supostamente depositado numa conta na Suíça. O agente não explicou o que Delfim tinha a ver com isso. Anotou apenas que, segundo Broissia, os fornecedores da usina tiveram dificuldades na execução do contrato e foram tranquilizados pelo embaixador depois que o pagamento foi feito.

O banqueiro sugeriu que, se quisessem detalhes sobre as comissões pagas por fornecedores franceses, o coronel Saraiva e os diplomatas deveriam procurar Gérard Valentin, o representante do CCF no Brasil, cujo escritório ficava em São Paulo. O despacho de Sebastião, porém, apontava como origem da história cabeluda um disse me disse que parecia levar a um beco sem saída: “Valentin foi chamado a Londres e um brasileiro, cujo nome ele, Broissia, não sabe, disse-lhe que, através de escuta telefônica, tinha sabido que havia comissão no assunto.”

O segundo episódio envolvia três novos empreendimentos que Geisel planejava desenvolver. O CCF se dispunha a financiar Tucuruí, cujas obras estavam começando no Rio Tocantins, no Pará. Broissia achava que o banco contava com a simpatia do governo, com o qual havia mantido contatos preliminares, mas tinha sido surpreendido pelo surgimento de um consórcio rival, que reunia bancos e fornecedores franceses, alemães e italianos. O grupo oferecia financiamentos para Tucuruí e duas outras hidrelétricas que seriam construídas no Rio São Francisco – Xingó, na divisa entre Alagoas e Sergipe, e Itaparica, em Pernambuco.

Broissia afirmou que Delfim dava as cartas nas negociações e convencera o governo a mudar de posição, passando a dar preferência aos concorrentes do seu banco. “Ele tem certeza absoluta, mas não pode provar, que [a mudança] foi determinada por influência da embaixada”, anotou Sebastião em seu despacho. “Em favor de tal afirmação, disse claramente que quem não paga comissão dificilmente consegue participar de projetos no Brasil.” O agente não mencionou nenhum pedido associado às novas hidrelétricas, mas disse que Broissia apontou negócios com equipamentos ferroviários e no Porto de Santos, nos quais teriam sido cobradas comissões.

O banqueiro acreditava que o CCF tinha sido incluído numa espécie de lista negra por se recusar a entrar em projetos do interesse do embaixador. Segundo o relato de Sebastião, Delfim recomendara a Valentin que o banco desistisse de Tucuruí e investisse em outros empreendimentos, como o polo petroquímico do Rio Grande do Sul, e até indicara contatos que poderiam ajudá-los a encontrar outras oportunidades. A lista incluía seu principal auxiliar na embaixada, o ministro-conselheiro José Maria Villar de Queiroz, o economista Carlos Alberto de Andrade Pinto, amigo de Delfim, e três nomes que o agente do Ciex não conhecia.

“Parece óbvio que as declarações de Broissia foram motivadas pela raiva que tem atualmente da cúpula da embaixada e que seu objetivo é tentar recuperar o terreno perdido em matéria de investimento no Brasil”, observou Sebastião em nova mensagem para o Ciex, no dia 8. O banqueiro deu a entender que Giscard d’Estaing, seu cunhado e presidente, estava informado de tudo e sugeriu que os brasileiros se reunissem com o ministro do Comércio Exterior da França, Raymond Barre, que estaria disponível para conversar sobre o assunto. O coronel Saraiva se entusiasmou com a ideia e propôs que Vasconcellos e seu parceiro, o secretário Fernando Antônio Fontoura, o acompanhassem na missão.

Três dias depois do primeiro encontro com os brasileiros, porém, Broissia ressurgiu vacilante. O secretário Fontoura almoçou com ele e o encontrou “mais otimista sobre seus negócios com o Brasil e, consequentemente, mais reticente quanto a uma entrevista de Saraiva com Barre”, observou Sebastião numa mensagem no dia 9. Foi o último de seus telegramas que o chanceler Azeredo da Silveira conservou, mas não era o ponto final da história. Segundo o agente do Ciex, nesse mesmo dia, Saraiva avisou que também enviaria um relato sobre o caso para a cúpula do Exército.

 

O coronel Saraiva cumpriu a promessa. Transmitiu ao Estado-Maior do Exército um radiograma de sete páginas. Sua versão para as conversas com Broissia coincidia em grande parte com a que o Itamaraty recebera de Sebastião, mas diferia em detalhes importantes. Segundo Saraiva, a comissão paga pelos fornecedores de Água Vermelha fora de 6 milhões de dólares, não 10 milhões, e corresponderia a 6% do empréstimo feito para a construção da usina. Acrescentou que comprovantes de depósitos feitos numa conta na Suíça estavam guardados num cofre do CCF. Saraiva afirmou ainda que, no caso de Tucuruí, uma comissão de 60 milhões de dólares tinha sido exigida, informação que não consta dos despachos do agente Sebastião.

Em Brasília, o informe do coronel Saraiva pousou na mesa do general Fritz Azevedo Manso, chefe do Estado-Maior. Ele o levou até o ministro do Exército, general Sylvio Frota, que encaminhou os papéis para o general Figueiredo no SNI. No dia 22 de abril, Figueiredo enviou um bilhete ao secretário particular de Geisel no Palácio do Planalto, Heitor Aquino Ferreira. Segundo Figueiredo, sua única providência ao receber os papeizinhos de Saraiva foi falar com o general Bento José Bandeira de Mello, chefe de gabinete do ministro do Exército, para que “determinasse o afastamento (alheamento) do coronel Saraiva do assunto”.

O bilhete está reproduzido no livro do jornalista Elio Gaspari. Nele, Figueiredo disse que o relato do coronel devia ser visto com ceticismo. “É guerra de grupos”, opinou. “Pode haver verdades, mas também pode ser fofoca de interesses.” O chefe do SNI sugeriu também que o chanceler Azeredo da Silveira afastasse “alguns de seus auxiliares na embaixada” e encerrou com uma pergunta: “Que tal uma ação direta sobre o Delfim?” Depois de ler o bilhete, Geisel marcou um ponto de interrogação ao lado do último item, segundo Gaspari.

Naqueles dias, o presidente se preparava para sua primeira grande viagem internacional desde a posse. O destino era justamente a França, onde desembarcaria com sua comitiva no dia 26 e passaria apenas três dias. A programação incluía uma reunião de trabalho com o presidente Giscard d’Estaing e seus ministros. Um dos temas na agenda era o financiamento das hidrelétricas, que a Eletrobras e suas subsidiárias vinham discutindo com diversos grupos internacionais. No dossiê alentado que Silveira guardou com os papéis relativos à viagem, há cópias de quatro telegramas recebidos do agente Sebastião. Há também dois de Delfim, em que o embaixador descrevia a proposta do consórcio europeu e a classificava como mais vantajosa do que a do CCF.

O Deutsche Bank, alemão, a Banque de l’Indochine et de Suez, francesa, e a Banca Nazionale del Lavoro, italiana, prometiam levantar no mercado a soma de 1,6 bilhão de dólares para financiar os equipamentos das três usinas planejadas pelo governo. A empresa francesa Alstom, as alemãs Siemens e Voith e a italiana GIE entrariam no projeto. Segundo Delfim, 56% dos créditos estavam garantidos para fabricantes brasileiros, após negociações da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) com representantes do grupo europeu. O CCF de Broissia, por sua vez, deixava a escolha dos fornecedores a critério do Brasil, mas oferecia no máximo 250 milhões de dólares, e somente para Tucuruí.

As duas alternativas foram examinadas no encontro de Geisel com d’Estaing. O ministro Raymond Barre defendeu a oferta do CCF. Pelo lado brasileiro, o ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, e o de Minas e Energia, Shigeaki Ueki, disseram que a proposta era limitada e ainda estava em discussão. Os presidentes assistiram à conversa dos ministros sem opinar. Segundo as notas tomadas pelo diplomata brasileiro que acompanhou a reunião, preservadas nos arquivos do chanceler Azeredo da Silveira, só o francês falou após as exposições dos ministros. Disse apenas que o tempo reservado para o encontro se esgotara e seria necessário encerrá-lo, deixando a discussão inconclusa.

As negociações se arrastaram por mais dois anos e só foram concluídas em março de 1978. O CCF conseguiu o que queria e assinou o contrato para financiamento dos equipamentos de Tucuruí. O consórcio europeu ficou com as encomendas da usina de Itaparica, em Pernambuco. Alguns dos principais personagens da trama daqueles dias já estavam longe do palco. Raimundo Saraiva foi mandado de volta ao Brasil em maio de 1976, dias depois de Geisel se despedir da França. Villar de Queiroz foi transferido para o Canadá. Depois de continuar em Paris por alguns meses, Vasconcellos foi enviado para Santiago, no Chile, com a missão de continuar espionando para o Ciex. Em fevereiro de 1978, Delfim Netto deixou o posto em Paris e voltou ao Brasil.

 

As gavetas em que o caso foi abafado em 1976 foram reabertas às vésperas das eleições de 1978, que renovariam as duas casas do Congresso, em meio às discussões para montagem do governo de Figueiredo. Durante um comício da oposição na Bahia, em outubro, o ex-deputado federal Francisco Pinto, do MDB, disse que Delfim recebera comissões como embaixador, e que sabia o banco e a conta em que os pagamentos foram efetuados. Dias depois, o ex-deputado indicou que sua fonte era o informe produzido por Saraiva em Paris, e a imprensa logo o batizou como “Relatório Saraiva”.

O baiano Chico Pinto tocava na banda esquerda do MDB e possuía conexões com militares que se sentiam alijados do centro do poder e flertavam com a oposição. Tinha sido preso e afastado da Câmara em seu primeiro mandato, processado por causa de um discurso em que atacou o general Augusto Pinochet, ditador do Chile. Em 1978, foi o campeão de votos em seu estado e ganhou o bilhete de volta. Delfim o processou por calúnia, injúria e difamação, mas a posse na Câmara garantiu imunidade ao parlamentar. O deputado nunca apresentou qualquer prova, alegando que cabia ao Exército confirmar a existência do relatório e divulgá-lo.

Procurado por jornalistas, Saraiva esquivou-se dizendo que não podia falar sobre o assunto. Lotado no gabinete do chefe do Departamento de Engenharia e Construção do Exército, estava estagnado e só contava o tempo para passar à reserva, sem esperança de alcançar o generalato. Em Paris, o banqueiro Broissia também não queria conversa. Quando Reali Jr., correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, alcançou-o pelo telefone, afirmou que as histórias em circulação no Brasil eram fantasiosas e que o banco não queria se envolver em questões internas do país. “Que horror”, disse, desligando na cara do repórter.

Nessa época, Saraiva contou sua história a um colega do Departamento de Engenharia, o coronel Dickson Grael, que foi atrás de mais informações. O general Adyr Fiúza de Castro, que comandara a repressão política no Rio de Janeiro na década de 1970, lhe mostrou uma cópia do radiograma de Saraiva. O ex-ministro Sylvio Frota, que Geisel defenestrara em 1977, lhe contou que o assunto tinha sido enterrado no SNI. Detalhes do caso começaram a vazar para a imprensa, que voltara a respirar com o fim da censura imposta aos jornais até 1978. Os nomes dos diplomatas envolvidos também vieram à tona, e o chanceler Azeredo da Silveira mandou instruções à embaixada no Chile, onde Vasconcellos seguia na moita. “É preciso acautelar-se contra qualquer tentativa de contato, inclusive telefônico, por parte da imprensa”, recomendou Silveira.

Delfim deixara Paris decidido a voltar à política e estava bem cotado para uma posição no governo Figueiredo. Partiu para o ataque, ridicularizando seus acusadores e indo à Justiça contra os que falavam sem exibir provas. Numa entrevista reproduzida pelos principais jornais, disse que tudo não passava de uma “conversa de lavadeira” e cobrou a divulgação do Relatório Saraiva: “O que não é possível é continuarmos com esse sistema em que as acusações perdem a sua nitidez e vão se transformando em fofoca de cabeleireiro.” Deu certo. O assunto logo sumiu dos jornais, e Figueiredo o nomeou ministro da Agricultura.

 

A lama voltou à tona com tudo no início de 1983. Delfim estava novamente na condução da economia, como ministro do Planejamento, e se tornara alvo frequente da oposição. O país tinha afundado na pior recessão de sua história e a ditadura estava nos seus estertores. Mariza Tupinambá ressurgiu com uma entrevista bombástica ao Pasquim, publicada em duas edições, em fevereiro. Ela falou ao cartunista Henfil sobre o relacionamento tempestuoso com Roberto Campos, a quem esfaqueara numa briga dois anos antes, contou ter intermediado negócios em Londres, mostrou o comprovante de um pagamento recebido da Odebrecht e disse que foi enviada a Paris porque o amante queria que ela espionasse Delfim.

A oposição aproveitou a deixa em agosto, quando o Congresso instalou uma CPI para investigar a explosão da dívida externa brasileira e incluiu as denúncias contra Delfim no cardápio. Todos os envolvidos na história foram chamados a depor. Saraiva, já na reserva, compareceu duas vezes. Na primeira, confirmou ter apresentado um informe ao Exército em 1976, mas disse não ter autorização para discutir seu conteúdo. Na segunda, meses depois, a portas fechadas, deu o serviço completo. A sessão foi classificada como reservada, mas tudo foi gravado, transcrito e divulgado depois. Em 1985, Dickson Grael publicou um livro sobre os escândalos da época e reproduziu os principais trechos do depoimento de Saraiva.

O Relatório Saraiva jamais viu a luz do dia, porém. Nada que comprovasse suas denúncias apareceu, e os fatos jamais puderam ser esclarecidos. Delfim não quis depor à CPI. Coube a seu antigo auxiliar na embaixada, Villar de Queiroz, responder às acusações na comissão. Ele minimizou o papel da representação diplomática nas negociações dos empréstimos para as hidrelétricas, lembrando que cabia ao Ministério de Minas e Energia e à Eletrobras discutir os contratos e assiná-los. Observou também que, na época em que o financiamento de Água Vermelha saiu, Delfim despachava como ministro em Brasília e não tinha nada a ver com o assunto.

O diplomata classificou o Relatório Saraiva como uma “comédia frívola”, uma “grosseira e infundada montagem de intrigas e calúnias, forjada por indivíduos despreparados e de mau-caráter”, e dirigiu insultos a cada um dos participantes da trama. Chamou Vasconcellos de “bisonho e pusilânime”, Fernando Fontoura de “mau-caráter, dedo-duro e intrigante”, Mariza Tupinambá de “mundana espiã”, Broissia de “picareta” e o coronel Saraiva de “irresponsável, incompetente, pigmeu moral, falso, covarde e criminoso”.

 

Em dezembro de 2019, Delfim Netto me recebeu para uma entrevista no escritório de sua consultoria, num casarão no bairro do Pacaembu, em São Paulo. O objetivo era conversar sobre a Operação Lava Jato e as relações que ele mantinha com as empreiteiras atingidas pelas investigações iniciadas em 2014. O próprio Delfim se tornara um dos seus alvos em 2018, quando policiais federais vasculharam sua casa e seu escritório em busca de documentos sobre a articulação do grupo que venceu o leilão para construir a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. O ex-ministro disse ter recebido 3 milhões de reais pelo trabalho, a título de honorários. O caso foi arquivado na Justiça sem apresentação de denúncia contra ele.

Durante a conversa, falamos também sobre o Relatório Saraiva e as acusações feitas contra ele quando estava em Paris. “Não houve nada”, afirmou Delfim. “Quando chegou aqui no velho SNI, eles analisaram. Era uma montanha de idiotice e arquivaram.” Fez uma pausa e acrescentou: “Tanto é verdade que eu fui depois ministro. O Figueiredo era o chefe do SNI. Você acha que, se eu tivesse algum problema, o Figueiredo teria me convidado?” Quando perguntei sobre o coronel Saraiva, não quis se estender muito. “Eu conhecia o sujeito”, disse. “Um pobre diabo, fanático.”

Ele contou que se desentendeu com Saraiva, tão logo assumiu o posto, por causa de uma banalidade. O coronel queria que a bandeira do Brasil fosse hasteada todas as manhãs com uma breve cerimônia na frente da embaixada e recolhida no fim do dia, cumprindo um ritual inaugurado antes da chegada de Delfim. O novo embaixador decidiu que bastava deixar a bandeira hasteada o tempo todo, mantendo-a iluminada à noite. “Era um sujeito maníaco”, disse Delfim. “Os outros assessores militares davam risada.”

O ex-ministro sobreviveu a quase todos os personagens desta história. O coronel Saraiva morreu em 2008, em Brasília. Fernando Fontoura, o anfitrião do jantar de 1976, morreu em abril deste ano, quatro meses antes de Delfim. Mariza Tupinambá publicou um livro de memórias, Eu fui testemunha, em 1984, e depois saiu de circulação. Foi interditada pela Justiça como incapaz de administrar a própria vida depois de uma ação movida por uma sobrinha e tenta até hoje reverter a decisão.

Vasconcellos publicou um livro de ficção científica alguns anos antes de se aposentar, Triângulo espacial, sobre uma expedição de astronautas a Marte. Depois de falar à Comissão Nacional da Verdade, voltou a se recolher. Hoje com 91 anos, ele disse à piauí que não se lembrava dos telegramas que enviou para o Ciex. A revista lhe apresentou os documentos, mas Vasconcellos disse que não os reconhece, e que suas mensagens podem ter sido alteradas depois de transmitidas para Brasília. “Os militares não estavam interessados em saber se alguém roubava ou não, só queriam saber dos comunistas”, acrescentou. Depois da volta ao regime democrático, Delfim Netto tornou-se um parlamentar influente com trânsito em diversas forças políticas, inclusive o PT. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo.

Ricardo Balthazar
Ricardo Balthazar

Jornalista, foi repórter e editor da Folha de S.Paulo e correspondente do Valor Econômico nos Estados Unidos

Leia Mais

despedida

À deriva

Trinta belugas sob ameaça de morte no Canadá

02 mar 2026_20h01
despedida

Sem recheio

O desaparecimento gradual dos filhos do meio

02 fev 2026_19h47
despedida

Nem os bichos, nem as árvores, nem as pedras

Um veterinário morto na Faixa de Gaza

23 dez 2025_16h57
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30