O surfista de ondas reacionárias voa com sua prancha de nióbio sobre as águas do Tietê
The Olympic Herald
O diário mais adjetivado do Brasil
Olimpiário Ribamar | Edição 216, Setembro 2024

EDITORIAL
Um país campeão não se faz só com vitórias. Um país campeão se faz com vitórias, adjetivos e floreios sentimentais. O que é uma medalha de ouro diante de um exemplo de superação? O que vale mais? Um recorde batido ou terminar a prova entre os últimos, mas de cabeça erguida, com a certeza de que o Brasil te ama, que você fez história e que entrará para o Olimpo?
Mas será que só os atletas podem ter direito ao carinho irrestrito da torcida (mesmo que por duas semanas, a cada quatro anos)? É para sanar essa injustiça histórica que este The piauí Herald homenageia outros heróis: os nossos guerreiros do salto partidário, da escalada bancária, da ginástica moral e, claro, do levantamento de capivaras. Gente que não poupa esforços para trazer o ouro ao Brasil, via Guarulhos, na mala de um almirante, burlando a Receita Federal. É orgulho – e contrabando – que chama!
Orgulho: Tarcísio privatiza a Sabesp com valor 20% menor que o da Bolsa e entra para o Olimpo da Faria Lima
Famoso por treinar a Polícia Militar para virar recordista de matanças no país, Tarcísio de Freitas avançou em direção a uma nova modalidade esportiva. Versátil, o governador de São Paulo mostrou todo seu talento atlético e contábil ao privatizar a Sabesp por um valor 20% abaixo do que o mercado vinha pagando pelos papéis da empresa. Sua performance foi amplamente elogiada na Faria Lima, onde Tarcísio já tem sido comparado a grandes nomes do Olimpo financeiro, como Paulo Guedes, Delfim Netto, Elon Musk e Fabrício Queiroz.
“Foi difícil demais chegar aqui”, disse Tarcísio, muito emocionado, depois da vitória. “Mas valeu cada gota de suor. Hoje eu tenho certeza de que essa população carente da Faria Lima pode bater no peito, com orgulho, e dizer que existe alguém com histórico de atleta para representá-los.” Na GloboNews, o comentarista esportivo Joel Pinheiro da Fonseca destacou como o recorde de deságio cravado por Tarcísio cria uma “fase nova e virtuosa no bolsonarismo moderado”. Sua frase foi logo contestada pelo Comitê Olímpico Internacional, que não reconhece o bolsonarismo moderado como uma substância permitida no esporte, e muito menos na vida.
Fez história: orçamento secreto é derrubado na arena STF, mas volta na repescagem
“Nós queremos provar que a caneta é mais poderosa que a espada”, explicou o presidente da Câmara, Arthur Lira, depois do fim de uma luta de esgrima contra o STF. “Ninguém sai ganhando nessa briga entre o Congresso e o Supremo. Então nós propusemos uma solução em que a gente finge que perde e o STF finge que acredita. É ouro no sentido metafórico e literal.”
Lira se referia ao acordo feito entre o Congresso, o STF e o Poder Executivo para chegar a um consenso em relação às emendas Pix, filhas bastardas do orçamento secreto, anteriormente conhecido como o recorde olímpico de corrupção do Brasil. Legado do governo Bolsonaro, as emendas, que repassam aos parlamentares mais de 50 bilhões de reais do caixa do Executivo, haviam sido congeladas por uma liminar expedida pelo ministro do Supremo Flávio Dino – isso até serem desbloqueadas em reunião recente entre os poderes.
“Nós chegamos a um empate de 7 a 1 em favor do Congresso, o que é bom pra todo mundo”, prosseguiu Lira, contente com o resultado que coloca o dinheiro de volta em suas mãos. “Sabemos que o importante é competir, então deixamos para o Centrão a definição das regras desse jogo, cujo objetivo é fiscalizar o Centrão.” De volta à Câmara, Lira foi homenageado pela sua performance na competição de ginástica retórica. “Ele trouxe de volta ao parlamentar aquele orgulho de pertencer ao Centrão, aquela trajetória bonita, de quem superou tantos obstáculos, tendo vindo do baixo clero para chegar à vitória”, derreteu-se o seu pupilo esportivo, o deputado Elmar Nascimento. “É um eterno exemplo de superação.”

A radical do skate
Heróis da tributação: com a PEC da Anistia, velocistas do Senado alcançam a sonhada marca de 23 bilhões de reais
“Ninguém solta a mão de ninguém.” Esse é o slogan que uniu um time de gigantes do atletismo político-tributário para a prova mais aguardada do Congresso Nacional. Em uma demonstração de que o espírito olímpico é maior do que qualquer inimizade, Flávio “Rachadinha” Bolsonaro, Jaques “Galego” Wagner, Sergio “Russo” Moro e Randolfe “Petróleo na Amazônia” Rodrigues votaram para que os partidos políticos sejam isentados de pagar 23 bilhões de reais em multas por irregularidades eleitorais.
A pec da Anistia, como tem sido chamada, surgiu em um momento difícil para os partidos, instituições que sofrem com a falta de recursos em um país que não valoriza seus esportistas do conchavo. A corrida para salvar nossas siglas guerreiras foi árdua. Depois de uma campanha impecável na Câmara dos Deputados, com uma vitória de 338 votos contra 83, o bastão passou para as mãos do Senado, onde o time de estrelas brilhou em uma votação-relâmpago, tão rápida que deixaria até Usain Bolt para trás. E assim, com um placar de 51 a 15, nosso time derrotou o adversário, também conhecido como contribuinte, e pôde respirar aliviado.
Emocionado, Flávio Bolsonaro dedicou a vitória a seu pai: “Foi quem me ensinou tudo nesse assunto financeiro, desde que eu era uma criancinha na Alerj.” Sergio Moro escolheu homenagear sua conje, a deputada federal Rosangela Moro, que também votou pela anistia partidária: “É importante não melindrar os partidos políticos, que foram muito atacados nos anos de Lava Jato”, justificou. Ex-ambientalista, Randolfe Rodrigues lembrou do patrocínio master da Petrobras. “É uma empresa que não poupa esforços para levar royalties de petróleo ao estado do Amapá.” Jaques Wagner, por sua vez, preferiu honrar a diplomacia: “Provamos que os liberais na economia e os liberais nos costumes podem se unir quando algo maior está em jogo.”
Fenômeno: venezuelano do breaking tira nota zero, choca o mundo, mas leva o ouro
Com mais de dez anos de experiência em quebrar democracias, nada mais natural para o atleta venezuelano Nicolás Maduro do que disputar a prova olímpica de breaking. “Soube que aquela senhora, a Raygun, homenageou a Austrália imitando os passos de um canguru. Vou homenagear a Venezuela imitando os militares que ocupam os meus ministérios”, disse Maduro, antes de fazer um spinning enquanto batia continência.
A performance de Maduro, com movimentos pouco convencionais, como a prisão de manifestantes e a ameaça de provocar um banho de sangue, fez com que o atleta saísse da Olimpíada com a medalha de ouro (ele também recebeu a prata, o bronze e mais cinco comendas militares).
A premiação revoltou os atletas rivais, que garantem ter visto os juízes dando nota zero ao campeão. Maduro assegurou que as atas com as notas serão mostradas assim que seus oponentes desistirem de disputar todas as eleições democráticas na Venezuela. “Será importante ter um único candidato para evitar qualquer tipo de dúvida nos resultados”, disse ele, com a segurança dos atletas que têm o controle pleno da técnica esportiva e da Corte Suprema.
Gigante: Nunes perde preferência do voto fascista para Marçal, mas segue de cabeça erguida
Um herói será sempre um herói, mesmo na derrota. É por isso que o prefeito Ricardo Nunes, mais conhecido, na cidade de São Paulo, como “aquele que foi vice do Bruno Covas”, segue de cabeça erguida, mesmo perdendo a preferência do voto fascista para o bolsonarismo 2.0 de Pablo Marçal.
“É muito triste não ter o esforço reconhecido pela torcida”, lamentou Nunes, lembrando de como se dispôs a extrapolar os limites físicos e morais para estar bem preparado para essa Olimpíada, firmando uma parceria com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-comandante da Rota Ricardo Mello Araújo, mais conhecido, em São Paulo, como “o vice do vice”. “Mas não surpreende, né?”, prosseguiu Nunes, com rancor. “O brasileiro não reconhece o esforço do atleta de terceira via, até mesmo quando a terceira via é reacionária.”
Mas nem tudo é tristeza na lendária caminhada de Nunes da sombra rumo à escuridão. É preciso lembrar o passado de privações do atleta: a filiação, ainda adolescente, à juventude do mdb; o esforço, como vereador, para anistiar as multas dos templos religiosos; e a coroação, já na prefeitura, quando passou a ser investigado pela suspeita de desvios na merenda escolar. “Tudo o que eu fiz foi pensando em dar um pouco de alegria ao meu povo do Centrão”, emocionou-se.
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