CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Levados pelo fogo
ONGs do Pantanal lutam para salvar animais do incêndio
Amanda Gorziza | Edição 217, Outubro 2024
Eram cinco da manhã quando soou o alarme no Instituto Arara Azul, no coração do Pantanal. O incêndio que vinha consumindo a região se aproximava da base da ONG, no Refúgio Ecológico Caiman, no município de Miranda, no Mato Grosso do Sul. A equipe do instituto monitora diariamente os ninhos da reserva, para atualizar a contagem de ovos e filhotes de arara-azul. Diante da emergência, porém, essa atividade foi cancelada. Naquele dia 2 de agosto, todos se mobilizaram para organizar o combate ao fogo. Os bombeiros já estavam atuando na área.
Apesar desse esforço, as chamas consumiram, em apenas três dias, mais de 80% dos 53 mil hectares de área de preservação. “A intensidade e a temperatura foram muito altas”, diz a bióloga Ana Cecília Lourenço, que trabalha no instituto desde 2018. “Estava ventando demais e a vegetação estava seca.”
A área queimada no Pantanal até agosto passado já é 38% maior do que a extensão consumida pelo fogo em 2020, que foi um ano de destruição recorde. Várias árvores centenárias queimaram na reserva, no incêndio deste ano. Com elas foram destruídos ninhos de araras-azuis monitorados pelo instituto. Dois ovos se perderam. Inúmeros animais morreram, e as reservas de água e alimento para os sobreviventes ficaram escassas.
O refúgio é berço de mais de setecentas araras-azuis. Quando o fogo lambeu a região, o período reprodutivo dessas aves estava começando. A destruição de ninhos nesse período crítico coloca em risco as próximas gerações. A equipe do instituto entrou em uma corrida contra o tempo para socorrê-las e instalou 24 ninhos artificiais em árvores próximas das que foram engolidas pelas chamas.
As araras-azuis comem frutos de apenas duas palmeiras – bocaiuvas e acuris. A maioria dessas árvores queimou no incêndio. A bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto Arara Azul, avalia que a devastação das fontes de alimento dos animais pode forçá-los a buscar sustento longe do habitat natural, aumentando ainda mais os desafios para a sua conservação. “Isso significa voltar muitas décadas atrás no projeto. Um incêndio desses destrói toda uma vida de trabalho”, diz.
O levantamento dos impactos do incêndio para a arara-azul ainda está em curso, mas a equipe do instituto já trabalha na suplementação de alimentos. Frutos de palmeira estão sendo trazidos de Campo Grande para o Pantanal, atividade que deve se estender por cerca de um ano.
O Instituto Arara Azul atua há mais de trinta anos no Refúgio Ecológico Caiman, que é o maior centro de reprodução da espécie. Além de monitorar os ninhos naturais, a equipe maneja, recupera e instala ninhos artificiais. No total, são mais de 110 ninhos monitorados durante o ano. Graças a esse trabalho de conservação, a arara-azul saiu da lista de espécies ameaçadas de extinção em 2014.
O refúgio pertence a Roberto Klabin, herdeiro da maior produtora e exportadora de papel do Brasil, que leva seu sobrenome. Lá funciona um complexo de turismo ecológico, com reserva florestal, além dos projetos de preservação de animais. Por causa das queimadas, o hotel de luxo teve de ser fechado por dois meses e só retomou as atividades no fim de setembro.
Junto com o Instituto Arara Azul, outros projetos ambientais estão engajados na reconstrução desse santuário animal: o Onçafari, que atua no Refúgio Caiman há treze anos, e o Instituto Tamanduá, que no início deste ano começou seus trabalhos no local. As duas últimas ongs juntaram-se para socorrer animais que tiveram as patas e a pele queimadas. Foi montado um ambulatório de campanha no local para atender os mais debilitados – sobretudo, onças, tamanduás e tatus. “A rotina de trabalho mudou completamente depois do incêndio. Fazemos curativos e repomos alimentação. É um manejo intenso, de quase 24 horas, em cima dos bichos”, diz a médica veterinária Flavia Miranda, presidente do Instituto Tamanduá.
Uma onça monitorada há onze anos pelo projeto Onçafari não resistiu às queimaduras e morreu. Dos tamanduás resgatados, três morreram e dois ainda estão em tratamento. O tamanduá sobrevivente que a equipe apelidou de Armandinho sofreu queimaduras muito graves nas patas – os ossos chegaram a ficar expostos – e precisou passar por uma cirurgia.
Conhecido no estado como “labareda”, o tamanduá é uma das espécies mais afetadas pelas queimadas. Ainda não há estudos de campo suficientes para determinar se a espécie retornará ao Refúgio Caiman com o fim dos incêndios. “Eles voltarão se tiver disponibilidade de alimentos e de área de abrigo”, diz Miranda.
Em 2019, ano em que o volume de chuvas foi muito baixo, o Refúgio Caiman teve 60% de sua área queimada em um incêndio que se alastrou durante vinte dias. As consequências desse desastre ainda não foram superadas, diz Neiva Guedes: “Os efeitos das queimadas perduram por anos e por várias gerações. No ano passado, as araras-azuis ainda estavam com baixa imunidade e os filhotes tinham mais dificuldade para sobreviver. Apresentavam doenças como nanismo e lesões na pele.”
Em agosto passado, mesmo com a terra arrasada, as araras-azuis começaram a retornar ao Caiman poucos dias depois do incêndio, em busca de ninhos para a postura de ovos. “Apesar de frágeis, elas são muito resilientes. Não abandonam o habitat em um período de adversidade, principalmente se estão com filhote”, explica Guedes.
Em meados do mesmo mês, percorrendo o campo para monitorar a atividade das aves, a bióloga Ana Cecília Lourenço ouviu araras gritando ao redor de um ninho queimado. A equipe prontamente instalou um novo, no qual logo apareceram ovos. Até o final de setembro, haviam nascido 23 filhotes. A bióloga celebra essa recuperação: “É um sinal de esperança e alívio saber que as araras continuam se reproduzindo e vão conseguir cuidar dos filhotes depois desse fogo.”
