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    CACO GALHARDO_2024

diário do geraldo

Que Chou do Chuchu é esse?

Amarrei o que resta das minhas madeixas em chuquinhas coloridas

| Edição 218, Novembro 2024

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1º DE OUTUBRO_Convenci Tabata de que o Geraldão aqui tinha cartas na manga para o primeiro turno das eleições. Falei pra ela: “Fica tranquila que vai começar o Chou do Chuchu.” Não consegui capturar bem quais sentimentos tomaram conta do seu semblante.

Amarrei o que resta das minhas madeixas laterais em chuquinhas coloridas. Libelu, que sempre me apoia, vestiu-se de Sebrae pra demonstrar o nosso apoio ao empreendedorismo. Ensaiamos juntos uma entrada: “Tá na hora! Tá na hora! Tá na hora de votar!” Na hora que a live ia começar, a internet caiu.

2 DE OUTUBRO_Como ninguém presta atenção na agenda do vice, aproveitei pra me reunir hoje com Ahmad Abdulaziz Al-Ohali, Autoridade Geral das Indústrias Militares da Arábia Saudita.

 

Cheguei em casa e vi que o modem estava fora da tomada. Alguém sabotou minha internet!

4 DE OUTUBRO_Sextou! Sete e meia da matina já tô pegando um avião pra São Paulo. O pretexto dessa vez era o lançamento do Programa de Qualificação para Exportação (Peiex) em São Paulo. Como não pegava bem viajar pra participar de só um compromisso – ainda mais pela manhã –, fiz uma ousadia: dei uma olhada na fila de pedidos de reunião e marquei com a pessoa que mais desafiaria os meus dotes linguísticos. Ficou assim minha agenda para o meio-­dia: Shemara Wikramanayake, CEO e managing director, Macquarie Capital.

5 DE OUTUBRO_Tabata se comportou como a melhor aluna da classe. Mas a energia revolucionária hoje é da turma do fundão.

 

6 DE OUTUBRO_Dia da festa da democracia. Fui votar com Tabata, Libelu e uma penca de crianças. Não sei qual mensagem a Tabata quis passar com tanta criança em volta. Eu falei pra ela que criança não vota. Será que ela quis mostrar que a quinta série ganhou?

Comprei amendoins e azeitonas para acompanharmos a apuração lá em casa. Tem dias que a gente tem que tirar o escorpião do bolso. Quando o resultado final saiu, Tabata ficou desnorteada. Furiosa, olhou no fundo dos meus olhos e esbravejou: “Eu me preparei pra ser prefeita. O senhor me prometeu uma virada, disse que tinha uma carta na manga! Que Chou do Chuchu é esse?” Pena que ninguém filmou, ia virar meme.

7 DE OUTUBRO_Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada. A receita eu sei de cor. Toda eleição a esquerda fica perdidinha, convoca reunião atrás de reunião para descobrir como sair desse buraco. E nada acontece. Hoje fui ter com Lula às nove da matina e depois me reuni com o Marcus Barão, presidente do Conselho Nacional da Juventude do Brasil. Fiz um esforço colossal pra parecer tipo interessado. Aliás, usei “tipo” várias vezes. Pra tipo ele me entender.

 

Tem uma parte de mim, mais pessimista, que está vendo a morte da utopia. Aquele sonho coletivo de construir um país… acabou. É cada um por si e Deus por quem dá dízimo. Não vejo mais aquela sensação de olhar adiante, de pensar o futuro, de coletivizar os meios de produção. Não só a esquerda perdeu essa vocação, mas ninguém está interessado em nada que não seja a prosperidade individual. É pagar as contas no fim do mês e pronto.

Mas como sou dialético, não vejo apenas esse lado. O Geraldão aqui enxerga as nuances, contempla as dualidades, sabe enxergar longe. Posso dizer que tem outra parte de mim que não é pessimista. É catastrófica.

8 DE OUTUBRO_Hoje um novo lado esperançoso teimou em aparecer. Não sei se foi o Zolpidem que tomei antes de dormir ou se foi a emoção da Cerimônia de Sanção do Projeto de Lei nº 528/2020 – Combustível do Futuro. Quem diria que a descarbonização seria aprovada por unanimidade na Câmara? E que, durante a cerimônia, eu ficaria entre Dilma Rousseff e Arthur Lira? Tive um estalo: eles são a contradição, eu sou a síntese. (Lembrete: mandar essa pensata para o Vladimir Safatle.)

De noite, fui olhar as redes sociais do João Campos. Há um vídeo em que o prefeito eleito do Recife explica as obras na ponte giratória. Fala em “cordoalhas dos cabos de protensão”, cita “um dos maiores laboratórios de concreto do mundo, que fica na Noruega” e versa sobre as “malhas de aço”. Poesia pura! E, pra minha completa estupefação, o vídeo contava com mais de 1 milhão de acessos só no Insta. Fui dormir convencido de que o mundo tem salvação.

9 DE OUTUBRO_Passei um café e havia um homem simpático no meu gabinete. “Prazer, Geraldo. Sou Wellington Dias, ministro de Estado do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.” Nem sabia que esse ministério existia. Mais um sinal! Mais um sinal!

10 DE OUTUBRO_Eu sabia. Dentro do meu âmago, estava lá. Uns podem chamar de intuição, outros de sexto sentido. Mas eu tinha certeza de que só o Botafogo poderia exorcizar a urucubaca que a extrema direita colou na camisa da Seleção Brasileira. Viramos sobre o Chile com dois gols de jogadores alvinegros. Alguma coisa se mexeu no tecido social brasileiro nesse instante. Só os ímpios não verão nisso uma mensagem profética anunciando o otimismo redivivo dos anos JK! Os humilhados serão exaltados.

11 DE OUTUBRO_Tô passado! Descobri agorinha que um ser humano de esquerda conseguiu repercutir ideias e se eleger vereador. Então é possível? Seu nome é Rick Azevedo, sua campanha se chama Vida Além do Trabalho (VAT) e ele luta pelo fim da escala de trabalho 6×1. Olha, olha, olha que os sinais estão aparecendo.

Tem coisa que a gente vai carregando sem entender. Tenta encontrar os motivos, mas todas as buscas parecem vãs. Mas hoje foi diferente. Finalmente compreendi as razões da briga entre Ludmilla e Blogueirinha.

 13 DE OUTUBRO_Outro sinal otimista de que tem mais luz no fim do túnel da esquerda do que na rede da Enel: a Flip voltou a dar certo. A fofoca que ouvi é que o escritor Édouard Louis, estrela da festa literária, já comprou um apartamento em Laranjeiras, perto da Praça São Salvador, e agora atende pelo apelido de Dudu.

14 DE OUTUBRO_O Geraldão aqui foi ao Roda Viva. Finalmente me convidaram para um programa de tevê. Fiz questão de ir com a calça pescando siri para mostrar minhas meias coloridas.

Há muito tempo não via a Vera Magalhães tão aliviada com o tom civilizado do debate. Até eu cheguei a ficar com sono no final do primeiro bloco. Mas meu espírito pintalegrete aflorou. Sou da pá virada, mano, não tem jeito. Discorri sobre Finep, BNDES, urânio, Embraer, Inpi, Anatel, ludopatia, dumping, direito provisório e sobre um importante pleito da Anfavea. Tenho certeza que encerrei o programa com audiência recorde.

Na saída, conversando com paulistanos, descobri outra causa que está unindo o Brasil de Dilma e de Arthur Lira: o ódio à Enel. De grão em grão a gente acaba com a polarização.

15 DE OUTUBRO_Gente, o Paul McCart­ney tá de novo no Brasil? Daqui a pouco ele compra um apartamento em Laranjeiras, perto da São Salvador, e tá curtindo chorinho aos domingos de manhã com o Dudu.

Tô falando. Botafogo. Brasil 4 a 0 no Peru. Tem algo novo nascendo no Brasil.

16 DE OUTUBRO_Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando o dia começa com reunião matinal com o prefeito de Pindamonhangaba. Quando ele chegou por aqui, eu nada entendi: Isael Domingues foi condenado em segunda instância e mesmo assim venceu a eleição. Alguma coisa acontece no meu coração.

Ninguém me convidou pra festa de aniversário da Fernanda Montenegro. Chato isso. Será mais uma maquinação do Chico? Por que ele insiste em me boicotar?

18 DE OUTUBRO_Tanto blá-blá-blá antissistema e o grande vencedor das eleições municipais é Gilberto Kassab. Não adianta. Podem esbravejar contra o capitalismo, o socialismo, o identitarismo e o fascismo. No fim das contas, quem vence no Brasil é o fisiologismo.

Pra quem achou que a esquerda estava mais perdida que daltônico montando cubo mágico, o mês se abrilhanta com Geraldão defendendo a taxação das grandes fortunas e criticando a ideia de privatizar a Petrobras.

E também se ofusca com o empate do Botafogo com o Criciúma. Logo quando os sinais apontavam para uma redenção nacional, vem isso. Já conheço as pedras do caminho…


Por Renato Terra

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