O poeta e as copas das árvores do Prospect Park, no Brooklyn, onde ele está morando: “Assistir tão de perto a vitória de Donald Trump me traz sentimentos confusos e pensamentos sombrios” CRÉDITO: NATÁLIA ALVES_2024
Não sei se me viram, mas eu os vi
Entre a poesia e a política durante as eleições americanas
Ricardo Aleixo | Edição 219, Dezembro 2024
10 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Uma longa temporada em Nova York, que se inicia no período imediatamente anterior às eleições presidenciais nos Estados Unidos, tem o poder nada pequeno de me deslocar da habitual posição de observador distanciado das disputas pela Casa Branca para a de observador próximo demais da eclosão de alguma grande transformação política e social que impactará toda a população mundial.
Penso nas anotações que farei a partir de hoje, em forma de diário, sobre o que chamo de “temporada americana”. Vim para atuar como pesquisador visitante do Departamento de Estudos da Performance da Universidade de Nova York, um meio de juntar materiais das mais variadas procedências para projetos literários, artísticos e acadêmicos, uma vez que continuo a atuar, a distância, como professor visitante do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.
Trata-se aqui do típico diário de escritor e artista, que escrevo enquanto avanço na pesquisa sobre autoria negra na poesia e na arte experimental feita nos Estados Unidos. Pretendo transformar essa pesquisa em um novo livro de memórias e me empenho em tentar viver o mais intensamente possível o cotidiano desta cidade tão aberta à diferença quanto é fechado em si mesmo o país de que ela é o ponto mais luminoso e interessante.
11 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Em parte da manhã, busquei informações adicionais sobre o trabalho do artista sonoro, compositor e performer Jeremy Toussaint-Baptiste, que N., minha companheira, e eu conhecemos quando ele fez uma palestra na Universidade de Nova York. O mediador do debate que se seguiu foi o pensador da tradição radical negra, poeta e performer Fred Moten, a quem devemos o convite para conhecer o originalíssimo trabalho de Toussaint-Baptiste.
De suas obras projetadas no telão, a que mais me interessou (entusiasmou é o verbo mais exato) foi a performance Y’all don’t wanna hear me (You just wanna dance) [Vocês não querem me ouvir (Vocês só querem dançar)]. A ideia que estrutura a performance é muito simples: fazer de um dispositivo acústico de longo alcance – um LRAD, sigla para Long Range Acoustic Device, também conhecido como “arma sonora não letal”, usado pelas forças policiais americanas para dispersar multidões – um equipamento que “pode unir e até guiar uma multidão através do efeito sonoro”. Enquanto dura a bateria, o dispositivo (que Toussaint-Baptiste adquiriu numa loja de descarte de tecnologia) dispara músicas para fazer a plateia dançar enquanto o artista, com o apoio de um microfone embutido, puxa conversa com quem quiser sobre os seus processos criativos. Está incluído no projeto o direito de outros artistas darem diferentes destinações a equipamentos de controle “adquiridos com recursos públicos”.
O especial de tevê Los latinos preguntan… Kamala Harris responde, do canal Univision Noticias, foi bem “meia-boca”. Perguntas e respostas estavam devidamente ensaiadas. Trump deveria conversar com los latinos no dia 8, mas, devido ao impacto do furacão Milton sobre a Flórida, remarcou o compromisso para o próximo dia 16.
Vejo Donald Trump como uma couraça. Isso mesmo. Não a hipótese de uma pessoa, um ser humano, um homem sob uma couraça – para mim, ele, inteiro, é uma couraça. O que me leva a pensar em Wilhelm Reich, que fala da “couraça psicológica” como a mescla das couraças psíquica, muscular e energética. Tudo em Trump é hirto, rígido, travado. Não posso dizer que não gosto dele, porque ele nunca se dá a conhecer quando fala, isto é, quando vocifera. Talvez a melhor definição para ele seja: uma couraça que passa a ideia de que protege a população americana, que o idolatra, de seus próprios traumas e suas fantasias de grandeza.
O “caso Kamala Harris” apresenta um outro tipo de complexidade. Sempre que a escuto falar fico tentado a confiar em seus propósitos. A inteligência, a perspicácia nas respostas, o tom de voz entre seguro e sereno, a elegância e até seu jeito de rir, todas essas qualidades tocam o meu coração mineiro e sentimental. O problema é que todas as suas falas, por mais bem-intencionadas – ou, vá lá, sinceras – que sejam, resultam débeis diante do real imediato, nos planos interno e externo: o custo de vida aqui é altíssimo e a violência policial contra a população negra, que tem na política de encarceramento em massa uma forte aliada, são fatos tão inquestionáveis quanto o apoio do governo do qual ela faz parte, como vice-presidente, ao genocídio do povo palestino.
12 DE OUTUBRO, SÁBADO_Revejo, um por um, os cartazes que fotografei, dias atrás, na Avenida Flatbush. Não por coincidência, as peças gráficas foram afixadas na altura da esquina da Flatbush com o Boulevard Toussaint L’Ouverture, que homenageia o libertador do Haiti. São cinco cartazes em tamanho A3. É impossível decifrar a assinatura de quem os criou. Em todos eles, frases combativas ocupam cada milímetro do papel, em arranjos gráficos de grande eficácia. Nenhuma sutileza. Papo reto, como se diz no Brasil. Descrevo apenas um: o que traz, em seu canto superior esquerdo, as seguintes frases, grafadas até perto da base do papel, como num poema:
BACKSTABBER!!!//DEMOCRATIC PARTY… DEATH OF THE BLACK VOTER/NO BLACK POLICY/BLACK HATE CRIME/REPARATION/60 YEARS OF VOTING (Traidor!!!//Partido Democrata…/Morte do eleitor negro/Nenhuma política para negros/Crime de ódio aos negros/Reparação/Sessenta anos de voto).
A partir do canto superior direito, encimado pelo nome “Kamala”, um desenho – tosco como os dos demais cartazes – desce na diagonal: uma mulher negra e um homem branco vestidos com roupa azul; um homem negro e uma segunda mulher negra. Poderia tratar-se de uma fila, não fosse o fato de o homem branco ter nas mãos uma enorme faca que atravessa os corpos do homem negro e da segunda mulher negra. Na ponta da arma, em meio a gotas de sangue, uma data: “1964”. No canto inferior direito do cartaz – este não assinado –, mais uma frase: Biden/BLUE/NO MATTER WHO! (Biden/Azul/Não importa quem!) A primeira mulher negra posicionada atrás do homem branco tem no rosto uma expressão indiferente. Azul é a cor do Partido Democrata, de Joe Biden e Kamala Harris.
Hoje estivemos de novo no Museu de Arte Moderna (MoMA), desta vez, para conferir de perto uma das mais significativas coleções de vozes gravadas do mundo, a do projeto Dial-A-Poem. Que começou assim: depois de prosear por telefone com o seu amigo William Burroughs (1914-97), num dia do turbilhonante ano de 1968, o poeta John Giorno (1936-2019) decidiu criar nada menos que um serviço público de oferta gratuita de poemas. Não quaisquer poemas, entenda-se. Giorno chamou para acompanhá-lo na empreitada, além de poetas, artistas de outras áreas e ativistas políticos, de Amiri Baraka a John Cage, de Anne Waldman a Frank O’Hara, de Bernadette Mayer a Allen Ginsberg, e muitas outras figuras importantes da cena contracultural da época.
O projeto foi lançado em 1969. Qualquer pessoa que ligasse para o número (212) 628-0400, de Nova York, poderia ouvir as vozes da incrível turma reunida por Giorno, com leituras não só de poemas (alguns foram considerados pornográficos pelos jornais conservadores, devido às referências explícitas à vida queer), como também de mantras budistas e discursos políticos contra o racismo e a Guerra do Vietnã.
A história do Dial-A-Poem é muito bonita. Felizmente, o projeto está agora acessível a quem deseja conhecer a fundo uma parte do passado que se recusa a ser a mera ilustração (sonora) de uma era “muito louca”. Junto de N., passei alguns bons momentos no quarto andar do MoMA, onde a mostra continua a atrair a atenção de todas as pessoas que topam entrar no jogo de sentar diante de um telefone daqueles bem antigos, discar para o número (641) 793-8122 e ouvir algumas das mais de duzentas gravações – apresentadas aleatoriamente. E que o público de poesia no Brasil se prepare. Em janeiro estreia, em São Paulo, a versão brasileira do projeto, para a qual tive a honra de ser convidado, com outros e outras poetas para quem a poesia é mais do que um jogo de salão.
As pesquisas continuam dando um empate técnico entre Kamala Harris e Donald Trump.
13 DE OUTUBRO, DOMINGO_Na calçada em frente a uma pequena loja na Avenida Flatbush, uma placa convida os passantes a se cadastrarem para a votação no dia 5 de novembro. O cadastro pode ser feito lá mesmo. Basta falar com a proprietária da lojinha, com quem N. e eu conversamos um poucochinho: ela nos diz, com animação, que as pessoas que moram na redondeza votarão em peso na candidata do Partido Democrata. O otimismo dela me comove. Na saída, fotografo os cartazes colados na vitrine. Em um deles se lê a seguinte afirmação: THE BEST ACTIVISMIS EQUAL PARTS ANGER AND LOVE (O melhor ativismo partilha igualmente a raiva e o amor).
14 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_É óbvio que eu vim para Nova York em busca do sentido da vida. Sem ironia. Quer dizer, declaro isso sem qualquer laivo daquela ironia, no limiar do sarcasmo, que algumas pessoas atribuem à minha escrita. Falo do sentido da vida de um artista e escritor que vê a si mesmo como um exilado no próprio país-pesadelo onde nasceu e que não sabe muito bem o que esperar do país para onde se mudou há menos de um mês. Ficar aqui mais de um ano eu já sei que não quero. Certo é que, não importa para qual lugar do mundo eu decida partir, pretendo me empenhar na descoberta do sentido da vida ao lado de N., e isso inclui o propósito de trabalhar menos – e em ritmo ainda mais lento do que o que tenho adotado nos últimos tempos – daqui para a frente, já que trabalho e vida se confundem, no meu cotidiano, desde que eu contava 18 anos.
O New York Times de hoje diz que Donald Trump jantou com amigos bilionários e desfiou um rosário de lamentações. Quer mais dinheiro – e mais atenção – de todos eles.
15 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Troca de mensagens com um amigo de juventude. Nos conhecemos no final da década de 1980. Meu amigo tem três anos menos que eu, que completei 64 idades em setembro. Me lembro do tempo em que ele passava por Belo Horizonte, para algum compromisso profissional, e pernoitava na casa dos meus pais, no bairro Campo Alegre. Ele quer saber por onde tenho andado em Nova York e o que é que eu incluo “nessa roda”. Sei que a pergunta dele é típica de quem, como a gente montanhesa de que ambos descendemos, pratica um conversado cheio de volutas. Volto à sua mensagem. O que o amigo quer é saber onde fico eu “em todo esse movimento”. Diz que são perguntas muito importantes, que o levam ao quintal de minha casa, “num tempo distante”, e ao quintal da casa dele, no interior de Minas. E conclui, bonitamente: “Ainda temos muito por onde ir.”
16 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Los latinos preguntan… Donald Trump responde. Um programa de tevê tão “meia-boca” quanto o protagonizado por Kamala Harris.
17 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Ano após ano, sobretudo quando o calendário aponta a realização de eleições, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, continuo a achar prudente ouvir com a máxima atenção o diálogo entre Alice e Humpty Dumpty (neste trecho que emprestei da tradução do clássico de Lewis Carroll feita pelo meu erudito e saudoso amigo Sebastião Uchoa Leite):
– Quando eu uso uma palavra – disse Humpty Dumpty num tom de escarninho –, ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique… nem mais nem menos.
– A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
– A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.
Os candidatos estão numa campanha furiosa, mas as pesquisas seguem no marasmo: empate técnico.
18 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Every vote matters (Todo voto conta), lê-se no display eletrônico situado acima da cabeça da jovem mulher sentada bem à minha frente. Não sei se ela é daqui mesmo, e se o voto – independente do país da qual terá vindo –, é assunto com o qual ela de fato se importe.
19 DE OUTUBRO, SÁBADO_Localizado no centro do Brooklyn, o Roulette Intermedium é um espaço voltado às artes cênicas e à música improvisada. Acabamos de voltar de lá, onde fomos ver e ouvir o duo formado pelo poeta e performer Fred Moten e pelo baixista Brandon Lopez, que eu só conhecia de nome – e do ótimo álbum, Moten, que os dois gravaram em 2022, com a participação, também, do baterista Gerald Cleaver. Assim que chegamos, fomos cumprimentar os caras. Fred me disse que, se eu me sentisse à vontade, poderia me juntar a eles em algum momento da performance. Aceitei, óbvio, porque me senti à vontade e com vontade de fazer uma das coisas (dentre as que se pode fazer acordado) que mais amo nesta vida.
20 DE OUTUBRO, DOMINGO_Kamala Harris fez aniversário. Sua equipe empenha-se em estabelecer comparações entre os 60 anos que ela completa hoje e os 78 de Donald Trump – alguns meses mais novo que o presidente Lula, registre-se. Tento, sem sucesso, encontrar algum debate sério sobre etarismo na política americana. Seguirei tentando, enquanto o sono não vem. Caso não encontre nada, vou dormir com a sensação de que a estratégia dos democratas é equivocada.
Na primeira das duas vezes em que N. e eu estivemos no Museu Whitney de Arte Americana para apreciar a esplêndida mostra Edges of Ailey (Bordas de Ailey), dedicada à celebração da memória do bailarino, coreógrafo e ativista negro Alvin Ailey (1931-89), me entusiasmou, já pouco depois de entrarmos, a requintada funcionalidade da exposição engendrada pela curadora Adrienne Edwards, que faz do público parte ativa do ambiente. Um vasto material de arquivo composto por filmagens de performances e ensaios, entrevistas, cadernos com anotações coreográficas, desenhos, fotografias, recortes de jornais e revistas, pôsteres e programas soma-se a registros das diversas fases da vida do artista e da Alvin Ailey American Dance Theater, fundada em 1958 e, ainda hoje, em plena atividade.
Dois pontos altos da mostra são as obras de mais de oitenta artistas de diferentes épocas e países (Jacob Lawrence, Jean-Michel Basquiat, Alma Thomas, Lynette Yiadom-Boakye – até o nosso Rubem Valentim está lá, para firmar a profunda ligação de Ailey com o candomblé da Bahia) e uma instalação em vídeo, exibida em loop, que mixa entrevistas concedidas pelo coreógrafo a trechos do repertório de sua companhia, como as diversas versões do clássico Revelations, de 1960.
Nada, no entanto, me comoveu mais do que a visão de três jovens negras que, diante de uma sequência de fotos de coreografias de Alvin Ailey, divertiam-se na tentativa de reproduzir este e aquele movimento – e aquele outro, como que tocadas pela lembrança de que a afrodiáspora é, não um conceito fechado, explicável conforme oscilem as vogas acadêmicas, mas um chamamento à vida plena, tal como nos ensina a poética de um dos mais influentes artistas da dança do século XX.
P.S.: O catálogo da mostra é um espetáculo à parte.
21 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_Foi com Américo, meu pai, que aprendi a amar o jazz. O favorito dele era Louis Armstrong. Nat King Cole, Sarah Vaughan e Billie Holiday também eram nomes muito apreciados por ele. Dizzy Gillespie o fazia rir, devido às bochechas infladas, “a ponto de estourar”, como meu pai dizia, mais até do que por causa da música. Conversávamos, às vezes, sobre um ou outro episódio da vida desses e de outros artistas. Contei-lhe, certo dia, que Dizzy candidatou-se à Presidência da República em 1964, e ele, incrédulo, perguntou se “foi de brincadeira”.
Na época eu não sabia muito sobre essa história, só disse que foi a sério, fiquei de lhe mostrar uma foto do bóton com o lema da campanha: Dizzy Gillespie for President. Um jornal me lembrou que o grande trompetista, nascido em 1917, seis anos depois de Américo, completaria, hoje, 107 anos. Pus para tocar alguns de seus clássicos e dei um Google para, enfim, tentar saber mais sobre sua campanha à Presidência. Foi surpresa atrás de surpresa: o músico realmente pretendia ser uma alternativa ao republicano Barry Goldwater e ao democrata Lyndon Johnson (que venceu o pleito). A primeira medida a ser tomada por ele, caso eleito, seria mudar o nome da Casa Branca para Blues House; sua música de campanha, Vote Dizzy, era uma versão de um de seus maiores sucessos, Salt peanuts. A campanha não teve força bastante para levá-lo a efetivamente participar da eleição, mas contribuiu para a difusão da pauta do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
22 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Gostei muito da ideia que embasa a campanha Cat Ladies for Kamala, num procedimento definido, em outro contexto, pela filósofa Judith Butler, de “reversão performativa da injúria”: responder com humor às críticas do candidato a vice de Trump, o senador J. D. Vance. Ele afirmou que os democratas são um grupo de mando formado por “oligarcas empresariais” e pelo que chamou de “mulheres sem filhos donas de gatos”. Para Vance, tais mulheres estariam “infelizes com suas próprias vidas e as escolhas que fizeram”, e por esse motivo “querem deixar o resto do país infeliz também”.
23 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_A morte do filósofo e poeta Antonio Cicero levou-me a procurar uma anotação que fiz, há mais de vinte anos, para estruturar um curso que dei sobre a relação poesia e filosofia. Reproduzo-a neste diário como uma forma de, ao mesmo tempo, reverenciar a memória de Cicero e demonstrar o meu respeito pelo seu gesto de filósofo-poeta, que, com radicalidade inencontrável nestes tempos de apatia induzida, nos ensina algo sobre a diferença entre viver efetivamente e apenas sobreviver:
Se filosofar é, de acordo com Montaigne, aprender a morrer, fazer um poema é gesto que significa, do ponto de vista de quem se dedica a esse estranho ofício, a vivência da própria morte. Não que a realização de um poema nos diga algo sobre o que poderia ser uma arte de morrer, nada disso. Fruto de um “posicionamento fatal diante do outro” (é assim que Muniz Sodré define ética), desse outro que é tanto seu hipotético leitor quanto cada palavra com que foi escrito, o poema respira, pulsa, existe tão só porque alguém efetivamente morreu uma de suas infinitas mortes para que tal prodígio acontecesse.
(E é certo, sim, que espero poder dispor de recursos financeiros para viver plenamente a hipótese de uma “morte assistida” – assunto que precisamos começar a discutir no Brasil –, se eu, algum dia, entender que a vida em mim já está perto de atingir o limiar da indignidade.)
24 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Está na cara das pessoas. No jeito de andar. No olhar. A apatia. A indiferença. O medo. Ou será o pavor de, sem querer, comunicar o medo que sentem? De tudo. De todo mundo. Da própria sombra. Está, sim.
25 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_O poeta, songwriter e tradutor Dan Hanrahan, que já verteu muitos poemas meus para a língua de Langston Hughes e Gil Scott-Heron, foi outro amigo a quem recorri para tentar entender um pouco melhor o contexto da chamada “corrida à Casa Branca”. Dan, que se define como “anticapitalista e ativista na luta pelo meio ambiente”, me disse que “as eleições presidenciais nos Estados Unidos não costumam oferecer boas opções, e que este ano não é diferente”. Para ele, “a candidata democrata favorece a política neoliberal de Biden, para quem a universalização da assistência médica e a suspensão do fornecimento de armas a Israel, que continua a cometer crimes contra o povo palestino, sequer são temas a serem debatidos”. Donald Trump, no dizer de Dan, não é apenas um “outro político neoliberal”. Trump “declara a sua intenção de desconstruir a estrutura administrativa do Estado para, assim, permitir às grandes corporações operarem com o mínimo possível de limites”.
Meu amigo poeta lembra que seu ativismo político abarca, ainda, o antifascismo e o antirracismo: “Quando se trata desses dois temas, é possível distinguir grandes diferenças entre as candidaturas já mencionadas. Harris, uma mulher com pai jamaicano e mãe nascida na Índia, opõe-se ao racismo e promove os direitos das mulheres”, ao passo que “Trump não se cansa de declarar suas ideias fascistas”, prometendo “deportar até 11 milhões de imigrantes sem documentação legal, num plano quixotesco que acabaria com milhares de negócios, interromperia o fornecimento de alimentos no país e destruiria milhares de famílias, além de resultar na formação de grandes campos de concentração para os migrantes”.
Dan se pergunta se existem “candidatos com ideias políticas mais progressistas e mais razoáveis”, e responde com os nomes do “dr. Cornel West, que se candidata como independente, e de Claudia de la Cruz, do Partido para o Socialismo e a Libertação, que estão oferecendo plataformas com ideias sobre como reduzir o controle extremo que as grandes corporações exercem sobre o nosso governo e têm mensagens que se opõem abertamente à filosofia da supremacia branca, que ainda predomina nos Estados Unidos”.
Ele finaliza dizendo que gostaria de poder votar em um desses candidatos, mas que, infelizmente, seu voto “não teria efeito”, porque, “devido à estrutura do sistema político e à dominação que sobre ele exercem os grandes partidos, nem West nem De la Cruz têm chances de conquistar mais do que 1% ou 2% da votação”.[1] Por todos esses motivos, meu amigo afirma que votará na candidata democrata, “apenas como uma estratégia triste para evitar o fascismo no governo federal deste país”. Vai ganhar Harris? “Isso ainda não se sabe. Só sei que independentemente de quem vencer, a luta pela justiça e pela ecologia do planeta continua.”
26 DE OUTUBRO, SÁBADO_Um casal branco. Ela e ele sentados no metrô, cada qual com o seu celular na mão. Não conversam, sequer se olham. Estão pela casa dos 40 e poucos anos. Vêm do supermercado – o homem segura com firmeza um carrinho de compras. N., que também os observa, me chama a atenção para a frase estampada nos adesivos que trazem colados nos suéteres: I voted early (Eu votei cedo).
Com a câmera do celular, fotografo-os discretamente. Começo a imaginar uma narrativa protagonizada pelo casal – algo entre um quadro de Edward Hopper e um relato breve de Paul Auster. Anoto o nome do artista e o do escritor na conversa do WhatsApp em que, todos os dias, envio mensagens para mim mesmo, mas logo desisto do propósito inicial, dada a obviedade das “referências” a partir das quais eu pretendia escrever.
Rio da palavra “referências”, tão utilizada nas redes sociais de gente que “mexe com” literatura e arte no Brasil, e volto a apreciar a paisagem. Enquanto escrevo estas linhas, já em casa, noite alta, penso que o sábado fluiu sereno, mas, em compensação, negou-me o que eu tanto quero e preciso: deparar com sinais de adesão – apaixonada, na melhor das hipóteses – a Kamala Harris ou a Donald Trump. Em resumo, foi mais um dia em que não vi nem ouvi nas ruas nada relacionado à campanha eleitoral – as regiões de Nova York pelas quais temos andado são uma decepção certa quanto a essa expectativa. Nem parece que faltam poucos dias para a votação.
27 DE OUTUBRO, DOMINGO_Comício de Trump no Madison Square Garden. Na abertura, o comediante Tony Hinchcliffe se referiu a Porto Rico como “ilha flutuante de lixo” e zombou das pessoas de origem latina, que, segundo ele, “adoram fazer bebês”.
28 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_Quem ri por último, ri sozinho. De nervoso. Ou de pânico.
29 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Quando juntei no Google, agora há pouco, o nome Trump e a palavra poetry, meu único propósito era ver se descobria, na Web, um ou outro poema de contestação ou, vá lá, de celebração ao ex e, quem sabe, futuro presidente dos Estados Unidos. Quem mandou brincar com fogo? Em poucos segundos fui bombardeado por informações como esta: além dos livros Collected poems of Donald J. Trump (2019) e The beautiful poetry of Donald Trump (livro editado por Rob Sears, 2017), circulam por aí – inclusive em países como Inglaterra e Noruega – alguns outros títulos inspirados pela figura e pelo palavrório (seus tuítes e trechos de entrevistas foram diagramados como poemas) do homem que é – até, prova, digo, votos em contrário – a própria encarnação do crescente poder da extrema direita no mundo.
Delegados do Colégio Eleitoral nos Estados Unidos. Como são escolhidos? Qual é o limite de suas atribuições? Não sei se quero mesmo saber. Não a essa hora da noite. Prefiro escutar, pela enésima vez, o novo álbum de Moor Mother.
Poucos dias depois da nossa chegada a Nova York, cuidei de fazer do álbum The great bailout (O grande resgate), de Moor Mother (nome artístico de Camae Ayewa, nascida em Maryland há 43 anos), que até então eu conhecia muito superficialmente, um meio de tentar resistir à tortura psíquica que é acompanhar, desde os Estados Unidos, o noticiário sobre o estágio atual do racismo mundializado.
Cheguei até a obra dessa extraordinária poeta, compositora, performer, artista visual e professora de composição na Escola de Música Thornton, da Universidade do Sul da Califórnia, graças a uma pesquisa que desenvolvo, há quase três décadas, sobre os desdobramentos da velha e sempre nova tradição afrodiaspórica da palavra falada, em perspectiva experimental. Um dos mais vigorosos e inspiradores exemplos são, justamente, os texts-sonics de Moor Mother. O projeto The great bailout começou quando Moor Mother foi convidada pelo Tusk Festival, realizado na Inglaterra, para compor um tema a ser apresentado com acompanhamento de orquestra, em 2019. O título remete ao Slave Compensation Act, documento firmado no Reino Unido em 1837, que dava compensações fiscais aos “ex-proprietários” de pessoas africanas escravizadas, às quais, como se sabe, foi negado qualquer direito.
Nestes tempos de escancarado negacionismo – que só faz aumentar ainda mais o risco de extinção de todas as formas de vida no planeta –, Moor Mother nos convida, com seu estilo de escrita que procura “deixar espaço para o desconhecido e para as histórias do momento presente”, como disse numa entrevista, a pensar e a praticar um sentido ainda pouco conhecido da palavra resgate.
30 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_O barulho dos trens do metrô, o dia inteiro e na maior parte da noite, faz um contraponto violento, no limiar do grotesco, ao verdadeiro cinema de poesia que nos ofertam as janelas daqui de casa – de onde se veem as copas das árvores do Prospect Park e, mais à esquerda, alinhada com o horizonte, a imponente Ponte do Brooklyn. Noite dessas, acabei “escrevendo na cabeça”, enquanto tentava atrair o sono, este esboço de poema:
outrocentos
estrondos
por segundo
abruptam-se
na madrugada
do brooklyn
no vão entre
o prospect park
a fileira de prédios
do outro lado
e o studio que
chamamos de casa
Não adiantou. Continua a ser de filme de terror a trilha sonora que quase nos perfura os tímpanos ao longo do dia e da noite. Pior: quando não vemos a paisagem, os barulhos se transformam num concerto de musique concrète, em que o compositor-intérprete se diverte em assustar o público com sons que ora lembram a chegada de um trem carregado de nazistas a um lugarejo na Polônia nos tempos da Segunda Guerra Mundial, ora sugerem a ambiência sonora para uma hipotética leitura a várias vozes, com duração prevista de exatas 24 horas, do Inferno de Dante, ora, ainda, nos lembram de que N. e eu nos encontramos agora no 11º andar de um prédio na maior cidade do país, cuja população, dentro de poucos dias, escolherá uma das duas hipóteses, dentre muitas, de dar fim a isso que ainda insistimos em chamar de mundo.
31 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_O filósofo, teólogo, ativista político, intelectual público e escritor Cornel West concorre, como “anticandidato” independente ao cargo mais disputado dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que investe contra o que chama de “o fascismo bruto do gângster Trump”, o autor do seminal Questão de raça (Companhia das Letras), no seu perfil no Instagram (@brothercornelwest), define a vice-presidente Harris como “criminosa de guerra”.
Chegou o Halloween, tão esperado pelo povo do lugar. Achei bem chato, mas, pelo menos, não ouvi nem li, em relação à famosa data evento, aquela balela, mil vezes repetida no Brasil, de que “o Carnaval é político”, o “futebol é político”, qualquer merda rala “é política” – menos a política, cada vez mais despolitizada no país do lulismo e de seu antípoda, o antipetismo. Por aqui, até onde alcanço, o Halloween parece o que é: um jeito de ser que faz com que as pessoas se divirtam enquanto o fim do mundo se aproxima.
1º DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Lula se posiciona a favor de Kamala Harris. Com o seguinte argumento: “Eu acho que a Kamala Harris ganhando as eleições é muito mais seguro de a gente fortalecer a democracia nos Estados Unidos. Nós vimos o que foi o presidente Donald Trump no final do seu mandato, fazendo aquele ataque ao Capitólio. Uma coisa que era impensável de acontecer nos Estados Unidos”, afirmou.
Eu, que nada entendo de política, só trocaria, na frase do nosso presidente, o “muito mais seguro” por “um pouco mais provável”.
2 DE NOVEMBRO, SÁBADO_No preparo de uma aula que darei, no início de dezembro, sobre a corrente experimental da poesia contemporânea, recorro mais uma vez ao livro Zong!: as told to the author by Setaey Adamu Boateng, da poeta m. NourbeSe Philip (a grafia é mesmo assim: com o “m”, de Marlene, minúsculo, e o “S”, de NourbeSe, maiúsculo), que N. e eu adquirimos, no mês passado, no final da sessão de lançamento da edição comemorativa dos quinze anos de lançamento da obra.
O evento contou com a presença da autora, que performou trechos do livro e debateu com a também poeta Tonya Foster, numa instigante conversa aberta à participação da plateia que lotou o espaço da Igreja de São Marcos no Bowery. É ali que se realiza The Poetry Project, periodicamente, responsável pela vinda a Nova York da poeta – natural de Trinidad e Tobago, ela vive no Canadá, o que levou um de seus admiradores no Brasil, Augusto de Campos, a cunhar o neologismo “caribecanadense”, para defini-la em termos de pertença “geopoética”.
Em Zong!, a poeta, com recursos de espacialização das páginas hauridos das poéticas de vanguarda, trata de um episódio ocorrido em novembro de 1871, quando o capitão do navio negreiro Zong ordenou que cerca de 150 pessoas africanas escravizadas fossem lançadas ao mar, para que os proprietários da embarcação pudessem receber o seguro. O livro tem introdução assinada por Saidiya Hartman e prefácio de Katherine McKittrick, duas pensadoras da afrodiáspora.
3 DE NOVEMBRO, DOMINGO_Enquanto procuro motivos para não ceder ao pessimismo diante da apatia generalizada que identifico na grande bolha que é Nova York, leio no site do MoMA que Sonia Gomes lançou um livro de artista, com seus trabalhos. E que nele tem um poema de autoria dela, Sonia, que se encontra nestes dias em Paris. Para fazer ainda mais sucesso, evidentemente. Curioso e contente como só eu mesmo fico quando sou sabedor de alguma proeza estética realizada por gente querida e admirada, enviei-lhe um zap, que ela respondeu na manhã do dia seguinte. Me disse que não, não era um poema, “longe de ser poema”, que são só umas frases curtas que tirou “de anotações em cadernos”. Não me convenci de todo. Sonia Gomes, em si, já é um poema.
P.S.: Lembrar de falar com N. que Sonia precisa ser entrevistada para a sua tese, em função tanto do provincianismo de Belo Horizonte no período em que nossa amiga artista viveu e atuou lá, quanto da ideia de “internacionalização” das culturas de matriz africana na capital mineira, a partir de meados da década de 1990.
Tentativa frustrada de puxar conversa sobre as eleições com dois funcionários latinos do supermercado que fica perto do nosso prédio. Certamente me tomaram por um X-9. Não foram hostis, pelo contrário – até tiraram onda comigo, perguntaram se eu não preferia comentar o desempenho dos craques brasileiros na Europa –, mas não quiseram papo sobre as eleições presidenciais.
Parei para fotografar os pássaros que faziam evoluções no céu ainda bastante azul do Brooklyn – com a implantação do horário de inverno, os dias escurecem duas horas mais cedo que o habitual. Vi três pessoas com adesivos de Donald Trump. Conversavam em frente a uma pequena loja. Foi a primeira vez, em menos de dois meses, que vi pessoas portando adesivos de algum dos candidatos. Apenas isso. Adesivos. Pessoas absolutamente comuns, que a luz do Sol sobre a pele muito branca faz parecer mais velhas, e que talvez sejam mais jovens do que eu. Votarão ou já votaram em Trump. Olharam na minha direção como quem tem o condão de enxergar através de uma barreira qualquer. Não sei se me viram, mas eu os vi. Foi o suficiente por hoje.
O professor, ensaísta e tradutor americano Charles Perrone é um daqueles sujeitos a quem bem cabe o epíteto “amigo do Brasil e da cultura brasileira”. Não nos falávamos já havia alguns anos, mas anteontem resolvi pedir a ele um depoimento sobre as eleições. Ele me respondeu nestes termos: “Justo hoje, um amigo muito chegado (somos amigos desde os 12 anos), me ligou e me falou que tinha participado de um sarau com outros homens na idade de aposentadoria, todos preocupados com a situação. Ele lhes perguntou se tivessem de apostar 10 mil dólares no resultado, quem escolheriam? Meio que não quiseram responder, a princípio. Todos a favor da democrata, mas temendo que o declarado fascista ganhe. Meu amigo diz que os idiotas vão prevalecer e também que o tal Colégio Eleitoral o favorece. Ele exigiu que eu me posicionasse. Respondi que Kamala deve ganhar por um voto. E que aí começa o circo – o monstro já tem times nos estados-pêndulo que vão tentar desqualificar os eleitores dela ou os resultados. Não aceitarão a derrota. Tudo isso que falei está sendo abertamente dito mesmo na mídia convencional. Enfim, seja qual for o resultado, os próximos meses serão muito feios para as pessoas que ainda raciocinam.”
4 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Hoje cedo liguei o celular e a primeira notícia que me apareceu foi a da morte, ontem, aos 91 anos, do músico, arranjador, produtor musical e empresário Quincy Jones. Até alguns anos atrás, o maestro era, para mim, apenas um daqueles raros nomes que a gente define como “gigante da música”, sem demonstrar maior interesse pelo pensamento ou por detalhes de sua trajetória.
Minha história com “Q” – o apelido que amigos e colaboradores carinhosamente deram ao músico e que serviu de título a um de seus álbuns de que mais gosto –, teve início em algum dos primeiros anos da pandemia, quando assisti, na Netflix, ao muito bem realizado documentário sobre sua vida e obra. Já não sei quantas vezes voltei a certos trechos do filme, fascinado com esse artista que imprimiu sua inconfundível marca pessoal em numerosos momentos da música popular das últimas décadas.
Tamanha é a minha admiração por Quincy Jones que, ao fazer as malas, na véspera da viagem para cá, constatado o fato de que só poderia trazer um livro para ler no avião, escolhi o volume que transformei em talismã desde o início deste ano, quando o adquiri pela internet: 12 notas sobre a vida e a criatividade (H1 Editora, 2024, traduzido por Ana Beatriz Rodrigues). Mentiria se afirmasse que se trata de um livro bem escrito (por Quincy ou por algum ghostwriter), porque não é o caso. Talvez esteja mais para “autoajuda”, como a editora o define na ficha catalográfica, mas não me importo com isso, diante de um parágrafo como este, em que o espírito de uma época convulsionada é resumido com rara suavidade:
Quando me lembro do revolucionário single de 1971 do falecido irmão Marvin Gaye, What’s going on, não posso deixar de pensar em todas as experiências que ele teve e que o influenciaram – perdas, obstáculos políticos e sociais, guerra e tensões raciais. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo na época, mas ele e seus colegas compositores canalizaram os problemas para a canção: a dor e o sentimento coletivo de confusão, tanto na letra quanto na melodia. Apesar do meio hostil e das histórias trágicas que deram espaço à sua criatividade, ele conseguiu transformar esse sofrimento em cura – cura para aqueles que precisavam de palavras de esperança ou um sinal de compreensão mútua sobre a situação do mundo.
5 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_Dia D das eleições. Decido me concentrar na reescrita deste diário. O clima na redondeza de onde moro é de derrota, talvez de conformismo, mas não de desolação.
Numa pequena nota publicada em sua edição de hoje, o jornal The Guardian, de Londres, informa que uma coalizão de atuais e ex-presidentes de seções da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos – locais, estaduais e regionais – divulgou, ontem, uma carta lembrando aos advogados e ao público em geral que o tribunal “não é um teatro para reivindicações infundadas”. O documento adverte os colegas advogados “que entram com ações judiciais relacionadas às eleições” a não apresentarem “informações sem uma base factual e jurídica sólida”. A ver.
Finalmente recebi o depoimento sobre as eleições presidenciais que solicitei à minha querida amiga Sheila Walker, antropóloga e cineasta americana, baseada em Chicago e respeitada e admirada em toda a afrodiáspora. Chegou bem agora:
É claro que estou preocupada com a possibilidade de a razão não prevalecer nestas eleições. É difícil pensar que vivemos num país em que tantas pessoas, essencialmente devido ao seu desejo patológico de perpetuar a alegada superioridade branca, são seguidoras, semelhantes a ovelhas, de um homem que é tão abertamente imoral, na verdade, amoral, como também é reconhecido como estuprador e criminoso, além de ser flagrantemente racista. Sua falta de relacionamento com a verdade e seu gosto pela violência deveriam ser um problema para qualquer pessoa minimamente inteligente. Portanto, o fato de tantas pessoas que só posso considerar más e idiotas estarem do lado dele é preocupante. É chocante saber que tanta gente quer conviver com um presidente que promete ser ditador. A opção é uma mulher inteligente e atenciosa que informou o público sobre o seu plano para melhorar a vida nos Estados Unidos para a maioria, não apenas para os multimilionários – sobre os quais devemos nos perguntar quantas pessoas eles exploraram para acumular as suas fortunas. Minha esperança é que a inteligência e a moralidade prevaleçam – apesar do racismo e da misoginia.
Encomendamos, dias atrás, o livro Secret poetics, de Hélio Oiticica (coeditado em 2023 por Soberscove Press e Winter Editions, com apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em conjunto com a Fundação Biblioteca Nacional e o Ministério da Cultura). O volume é apresentado e traduzido por Rebecca Kosick, e traz, ainda, um ensaio de Pedro Erber. Admito que nunca sequer imaginei que Oiticica, cuja obra acompanho desde o final dos anos 1970, havia escrito – entre 1964 e 1966 – poemas líricos. Num breve texto introdutório, escrito à mão, como os poemas, e como estes reproduzidos em fac-símile nesse livro editado de modo tão competente, Oiticica explica sua opção: “A verdadeira lírica é imediata, isto é, imediatismo que se torna eterno na expressão poética lírica, exatamente o polo oposto da minha obra plástica, toda orientada por uma expressão que exclui o passageiro, os acidentes mesquinhos, apesar de os abarcar.”
No seu perfil no Facebook, m. NourbeSe Philip lembra que, em resposta ao choque e ao desespero provocados pela eleição de Trump, em 2016, a poeta Laynie Browne reuniu uma coleção de respostas que foram publicadas na revista Jacket2, dedicada à difusão da poesia experimental. Ao justificar a reprodução do seu depoimento, NourbeSe mostrava-se tão preocupada quanto qualquer outra pessoa que pensa com a própria cabeça, em vez de entregar-se àquele tipo de “otimismo” para consumo imediato, paralisador, típico das redes sociais:
Estou confiante de que a vice-presidente Kamala vencerá, mas temo que Trump também já tenha vencido, na medida em que a sua grosseria, a sua vulgaridade, a sua falsidade, o seu racismo e a sua misoginia, para citar apenas algumas das suas qualidades, deixaram os Estados Unidos dilacerados, talvez irremediavelmente, até o âmago. Nesse sentido, seja quem for o vencedor, os Estados Unidos já perderam.
6 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_A fila se alongava, e eu gastei tempo demais pensando se deveria ou não falar com a jovem mulher negra que esperava pela vez de ser atendida por uma das caixas do supermercado. Quando criei coragem para comentar qualquer coisa sobre o bebê que ela procurava entreter, no carrinho, outra mulher, também negra e jovem, parou ao seu lado e perguntou, em castelhano, com voz sussurrada e olhar caricaturalmente arregalado, algo que entendi apenas em parte, mas que por certo tinha a ver com o resultado das eleições. A resposta foi um “Só Deus!”, que, repetido em duas outras diferentes modulações, não deixava espaço para qualquer dúvida acerca do que boa parte da minha vizinhança espera que aconteça de janeiro em diante.
Assistir tão de perto a vitória de Donald Trump me traz sentimentos confusos e pensamentos sombrios. Ou seria o contrário? Algo em mim quer fugir, mas para onde?
Os trens barulhentos cumpriram muito bem sua função de assombrar a noite de ontem nesta parte do Brooklyn.
7 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_O cada vez mais necessário James Baldwin, em 1963, numa palestra sobre “a identidade americana” para professores de escolas públicas de Nova York, antecipou o resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024:
O que passa por identidade nos Estados Unidos é uma série de mitos sobre os ancestrais heroicos de cada um. É surpreendente para mim, por exemplo, que tantas pessoas realmente pareçam acreditar que o país foi fundado por um grupo de heróis que queriam ser livres. Acontece que isso não é verdade. O que aconteceu foi que algumas pessoas saíram da Europa porque não podiam mais ficar lá e tiveram que ir para outro lugar para sobreviver. Isso é tudo. Eles estavam com fome, eram pobres, eram condenados. Aqueles que estavam conseguindo sobreviver na Inglaterra, por exemplo, não embarcaram no Mayflower. Foi assim que o país foi estabelecido. Não por Gary Cooper. No entanto, temos uma raça inteira de pessoas, uma república inteira, que acredita nos mitos, a ponto de, até hoje, selecionar representantes políticos, no que posso dizer, pelo grau de semelhança com Gary Cooper. Isso é perigosamente infantil e se manifesta em todos os níveis da vida nacional.
Antes de lançar as palavras da antropóloga Sheila Walker neste diário, perguntei a ela se gostaria de mudar ou acrescentar algo às suas declarações, depois da vitória de Donald Trump. Resposta rápida e segura: “O que poderia acrescentar? Que nos primeiros quinze minutos depois de eleito o ‘presidente’ Trump já disse quinze mentiras? Uma mentira por minuto!” E completou: “É só o começo. Mas os nossos ancestrais sobreviveram a situações bem piores – a escravidão não foi mole –, e durante esse período eles criaram formas culturais que enriqueceram o mundo. Tentando ver algo de positivo no horror…”
8 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_N. me contou sobre a conversa de duas jovens mulheres negras que ela ouviu aqui no prédio. A história me levou a escrever um texto, que busquei tornar um pouco próximo da tradução livre que Caetano Veloso fez de fragmentos do conto Melanctha, de Gertrude Stein, publicado no nº 8 da lendária revista Código, que Erthos Albino de Souza editou em Salvador entre 1974 e 1989. Escrevi:
Ontem, por volta das onze da manhã, desci para caminhar e calhou de ser no mesmo horário em que as pessoas que organizam a correspondência e as encomendas que chegam no prédio realizam o seu serviço. Uma moça negra estava separando um número enorme de cartas e encomendas, em um pequeno gabinete, pouco visível para quem entra no prédio. Outra moça negra então chegou e perguntou, gritando, se era a companheira de trabalho que estava lá dentro do gabinete. A primeira moça negra respondeu que estava, sim. Vi que eram amigas, porque, depois de a segunda pular sobre várias encomendas para abraçar a outra, as duas gritaram de alegria e se abraçaram com ainda maior alegria. A primeira moça negra pergunta: “Como você está? Já votou?” A segunda desconversa, dizendo que está atrasada, que precisa ir embora para resolver uma questão relacionada a um parente, que só parou para dar um abraço. A amiga repergunta: “Você vai ou não vai votar?” A segunda responde: “Olha, eu… Não briga comigo, não. Não quero gerar nenhuma discussão, mas estou indo embora.” Entendi que ela não iria votar. Ela não deve mesmo ter votado.
9 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Tudo indica que Trump fará maioria no Senado, maioria na Câmara, maioria no Colégio Eleitoral e maioria até no voto popular. Em relação à sua vitória eleitoral em 2016, aumentou seu apoio entre as mulheres jovens, entre os latinos e entre os negros.
[1] Claudia de la Cruz obteve 0,1% dos votos populares; Cornel West, menos que isso. (Nota da Redação.)
