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A sociedade dos homens
Transpondo o faroeste para o Cerrado brasileiro, Oeste outra vez retrata com maestria um universo degradado e sem mulheres
Na sequência inicial do filme Oeste outra vez, do diretor Erico Rassi, vemos uma mulher de costas, partindo. Depois disso, não há mais nenhuma outra presença feminina no filme. Elas são até mencionadas, mas nunca vistas. Em um dos melhores filmes brasileiros da temporada, atualmente em cartaz em alguns cinemas seletos, Rassi resgata os principais signos do faroeste e os transporta para o Cerrado brasileiro – mais especificamente, a Chapada dos Veadeiros. Ele retrata um mundo degradado, onde não há mulheres e os homens rudes se caçam em duelos vazios, motivados por princípios torpes.
Tudo começa quando Durval (Babu Santana) decide ficar com a mulher de seu vizinho, Totó (Ângelo Antônio). Totó, dono de um boteco largado em uma viela rural, contrata um pistoleiro e arma uma emboscada para matar Durval. O plano dá errado e Totó se embrenha no mato, fugindo do inimigo que agora quer vingança. É rato caçando rato no Cerrado, enquanto esses homens brutos deixam para trás o legado triste e solitário de suas vidas miseráveis. Pistoleiros chifrudos tentam escapar de suas existências vazias, remoendo amores antigos que os deixaram por causa de seus ciúmes, sentimento de posse e falta de cuidado. Homens que querem ser amados, cuidados – mas relegam suas mulheres ao descaso.
Dirigindo seu segundo longa-metragem, Rassi é um condutor firme e domina com clareza o universo que constrói e o que extrai de seus atores. Elabora com habilidade – entre o patético e o comovente – o afeto desses homens chafurdados numa masculinidade nociva. O conflito entre civilização e barbárie, a vingança, os duelos, a solidão – tudo o que compõe um bom faroeste está presente em Oeste outra vez. Ângelo Antônio carrega nos olhos a miséria de Totó, enquanto o carisma de Babu Santana reafirma na pele de Durval porque é um dos atores mais requisitados do cinema brasileiro. Os veteranos Antônio Pitanga e Rodger Rogério estão impagáveis. Os diálogos criados por Rassi também são extremamente inspirados, e a equipe de som constrói um dos melhores painéis sonoros do cinema contemporâneo – o som narra o tempo todo e contribui para tragar o espectador para aquele ambiente hostil. Por fim, a criativa direção de arte de Carol Tanajura traduz visualmente o universo degradado desses homens tristes.
