Fingindo a própria morte: a tradicional relutância em admitir que o mundo animal entende a morte faz parte do nosso velho apego, cada vez mais insustentável, ao excepcionalismo humano CRÉDITO: ARI HISAE_2025
Os animais e a morte
Será que todo ser vivo compreende, de verdade, o que significa a finitude?
Kathryn Schulz | Edição 226, Julho 2025
Tradução de Isa Mara Lando
Segundo o capitão John Smith, o explorador inglês do século XVII que conhecia tudo sobre a Virgínia, o gambá-da-virgínia “tem a cabeça como a de um porco, o rabo como o de um rato, e é do porte de um gato”. Se Smith tivesse olhado mais de perto, teria descoberto que o animalzinho também tem polegares opositores, cinquenta dentes (mais que qualquer outro mamífero terrestre, à exceção do igualmente bizarro tatu-canastra) e, se for fêmea, treze mamilos, dispostos como em um mostrador de relógio, com doze em círculo e um no centro. Os mamilos ficam ocultos em uma bolsa na barriga, pois o gambá-da-virgínia é um marsupial, o único nativo da América do Norte.
Tudo isso é estranho, mas não tão estranho quanto o comportamento que dá fama a esse gambá: fingir-se de morto. Ao contrário do que se pode imaginar, não se trata apenas de se enrolar e ficar imóvel. O gambá que se finge de morto cai para um lado com a língua esticada para fora, os olhos bem abertos, sem piscar. A saliva lhe pinga da boca, enquanto sua outra extremidade vaza urina e fezes, juntamente com uma gosma verde pútrida e malcheirosa. Sua temperatura corporal e frequência cardíaca entram em queda, sua respiração se torna quase imperceptível e a língua fica azul. Se, em um surto de sadismo ou durante uma experiência científica, alguém lhe cortar a cauda enquanto está neste estado, o animal não moverá um único músculo.
Em inglês, a expressão playing possum (brincar de gambá) significa exatamente “fingir-se de morto”, no sentido de evitar um conflito ou simular indiferença. Donde se pode perguntar: mas o que, exatamente, significa “fingir-se de morto” para um gambá? A resposta é bem mais difícil. Será que o gambá tem alguma ideia do que significa estar morto? (Sem falar se faz ideia do que significa “fingir”.) Quando dá início à sua performance digna de um Oscar, será que o gambá sabe que está em perigo mortal? Será que o fato implacável da morte tem algum impacto no seu pequenino coração de gambá? E se não tiver – o que parece provável, dado que seu cérebro é muito pequeno –, o que dizer de todas as outras criaturas que se fingem de mortas: o sapo, a cobra, a aranha, o tubarão, vários pássaros, como o andorinhão? E o que dizer de todas as outras criaturas, de modo geral? O polvo, o elefante, o jacurutu, o gato doméstico, a tartaruga-gigante, o chimpanzé: quem, em todo o vasto reino animal, também percebe, tal como nós, algum sinal da mortalidade que se aproxima?
É essa a questão que anima Playing possum: how animals understand death (Fingindo-se de morto: como os animais compreendem a morte), publicado pela Princeton University Press, o novo livro da espanhola Susana Monsó.[1] A autora não é bióloga nem zoóloga, mas filósofa, com um interesse especial pela natureza da mente animal. Embora a obra explore, às vezes com precisão excruciante, o possível estado interior de todo um zoológico de criaturas, é a nossa própria condição intelectual e emocional que permeia as páginas do livro. A pergunta implícita da obra é: quanto qualquer ser vivo, humano ou não, pode realmente compreender sobre o que significa morrer?
O campo em que Monsó se aventurou chama-se tanatologia comparada. É o estudo de como diferentes espécies reagem à morte. A questão não é nova. Em A descendência do homem, Charles Darwin pondera: “Quem poderá dizer o que sentem as vacas quando rodeiam e fixam o olhar intensamente em uma companheira morta ou prestes a morrer?” Se a questão é antiga, a disciplina é recente. Monsó data sua origem no ano de 2008, quando dezesseis chimpanzés de um centro de resgate em Camarões ficaram observando em silêncio absoluto – algo nada típico da espécie – uma companheira morta sendo levada embora num carrinho. Uma foto dessa cena, publicada na revista National Geographic no ano seguinte, despertou uma explosão de simpatia e curiosidade, tanto no público geral como entre cientistas, psicólogos e filósofos, todos interessados em determinar o que aqueles chimpanzés estavam sentindo ao demonstrar, aparentemente, tanta tristeza pela morte do colega.
Acidentalmente, a foto também captou uma das maiores dificuldades para pesquisar o que os animais entendem da morte: é preciso estar ali presente para observá-los. Em teoria, é possível realizar todo tipo de experimentos para avaliar essa compreensão, desde que nossa curiosidade supere nosso senso moral. Seria factível, por exemplo, apresentar a várias criaturas um animal decapitado, empalhado, movendo-se como uma marionete. Ou usar um alto-falante oculto para expor a uma mãe um áudio pré-gravado do seu bebê morto.
Os dois experimentos já foram propostos. Nenhum foi realizado, já que, felizmente, a crueldade e a morbidez caíram em desuso nos círculos acadêmicos. Assim, a tanatologia comparada depende sobretudo de evidências baseadas em relatos curiosos – como o caso dos chimpanzés de Camarões –, testemunhadas por acaso e registradas com diversos graus de precisão. Em razão disso, e também do seu forte impacto emocional, o campo é extremamente suscetível a interpretações antropomórficas não justificadas. O objetivo de Monsó é dissipar essa névoa de subjetividade da disciplina, usando o principal instrumento da filosofia: o rigor lógico. Para determinar se os animais são dotados de algum conceito de morte, diz ela, é necessário primeiro definir o que significa um “conceito de morte”.
Considere, por exemplo, o comportamento da formiga comum. Se uma formiga fica atolada na areia, suas companheiras tentarão salvá-la, puxando suas patas e escavando a areia para tentar libertá-la. Se uma formiga morre dentro da colônia, as outras, agindo como pequenos coveiros, logo retiram o corpo, em geral levando-o para um local fora do formigueiro.
À primeira vista, esses comportamentos parecem sugerir que as formigas compreendem a morte, já que têm reações adequadas tanto à iminência da morte quanto ao fato consumado. Na realidade, as formigas estão apenas reagindo a certas substâncias químicas – no primeiro caso, uma substância que age como uma espécie de pedido de socorro e, no segundo, substâncias emitidas por um cadáver. Se um cientista pegar uma formiga viva e aplicar nela esse “perfume de cadáver”, como fez o entomologista Edward Wilson nos anos 1950, as outras formigas vão considerá-la como morta e logo tratarão de retirá-la da colônia, ainda que o suposto cadáver esteja agitando as antenas, resistindo aos esforços das carregadoras e demonstrando todos os sinais possíveis de vida.
Em outras palavras, as formigas não têm conceito de morte. Sua reação à morte é governada unicamente pelo instinto. Monsó explica que podemos reconhecer essas reações porque são automáticas, provocadas por estímulos específicos e inteiramente previsíveis: cada formiga vai sempre reagir da mesma maneira ao se deparar com a morte, e vai demonstrar o mesmo comportamento que suas colegas. Em contraste, os animais que têm um conceito de morte reagem de maneiras aprendidas, não instintivas. Suas reações a estímulos específicos não são rígidas, mas altamente variáveis: o mesmo indivíduo pode ter diferentes reações a diferentes mortes, e diferentes indivíduos reagem de maneiras diferentes à mesma morte.
Devemos identificar a nossa própria espécie na frase acima. Os seres humanos adultos – mesmo os insensíveis, os indiferentes, os emocionalmente imaturos – demonstram um entendimento da morte que é notável em sua sofisticação. Incorpora a compreensão, entre outras coisas, da causalidade (toda morte é precipitada por algo), da universalidade (todos os seres vivos vão morrer), da mortalidade pessoal (nós mesmos estamos incluídos nisso) e da imprevisibilidade (não sabemos exatamente quando vamos morrer). E isso tudo antes de chegarmos às crenças sobre a vida depois da morte e às expressões de luto e pesar: usar roupas de crepe preto, recitar o kadish, escrever Hamlet.
O conceito que temos sobre a morte é tão elaborado que já se argumentou que outros animais não podem tê-lo, de maneira alguma, porque, para tanto, seria necessário, por exemplo, compreender o que é a aniquilação. Mas isso é absurdo, insiste Monsó. A questão não é saber se os animais têm um conceito de morte semelhante ao nosso. A questão é saber se eles têm algum conceito de morte, qualquer que seja.
Um aviso: Playing possum não oferece uma série de relatos tocantes demonstrando a existência de um “amor mais forte que a morte” entre os animais. Em 2013, foi lançado um livro assim. Chama-se O que sentem os animais (editora Odisseia), da antropóloga Barbara J. King. A autora não alega saber se os animais compreendem ou não a morte, mas afirma que sentem a tristeza de perder um ser querido, pois se afeiçoam e se apegam uns aos outros. “Porque um coração tem certeza de que a presença do outro é tão necessária quanto o ar para respirar”, escreve ela. Em apoio a sua hipótese, ela oferece relatos comoventes de reações à morte em todos os quadrantes do reino animal, desde a megafauna com cérebro volumoso (primatas, elefantes, baleias) até os animais domesticados com mais sucesso de público (gatos, cães, cavalos), chegando até os mais surpreendentes (galinhas).
Monsó também nos oferece relatos similares, mas muito mais esparsos e com muito mais escrutínio – e, quanto mais ela analisa, mais complicados parecem os relatos. Em 2017, por exemplo, uma macaca tonkeana chamada Evalyne deu à luz seu primeiro bebê, que morreu cinco dias depois. Na manhã da morte, Evalyne se recusou a comer e ficou dentro do seu recinto, aos gritos. Depois, passou a carregar o corpo do bebê por toda parte, lambendo e cuidando dele. Em certo momento, enfiou os dedos em sua boca, como quem tenta estimular o reflexo da sucção. Durante dezessete dias, ela não o colocou no chão uma única vez.
O comportamento de Evalyne não é incomum no reino animal. Muitos primatas, incluindo machos, já foram observados carregando um bebê morto, embora em geral por apenas algumas horas ou dias. O mesmo já aconteceu com vários cetáceos – como no famoso caso da orca conhecida como Tahlequah que, sem a vantagem de ter mãos, como os primatas, carregou seu bebê morto nas costas, continuamente, durante semanas, atravessando quase 2 mil km do Mar de Salish, na Costa Oeste dos Estados Unidos. Esse comportamento também já foi visto em outras espécies. Em 2008, em Queensland, na Austrália, uma fêmea de dingo foi observada carregando seu filhote morto de um lugar para outro durante quatro ocasiões, enquanto cuidava dos filhotes sobreviventes.
É quase impossível ler esses relatos e não sentir que esses animais compreendem o que aconteceu com seus bebês e estão sofrendo profundamente a dor da perda. Mas Monsó aconselha cautela. Segundo ela, quando um primata carrega seu bebê morto, muitas vezes o faz não com ternura, mas de maneira descuidada, levando o bebê na boca ou pendurado por uma só mão, deixando o corpo bater nas pedras e nas árvores, enquanto realiza todas as suas atividades normais, incluindo o acasalamento. Evalyne, depois de dezenove dias da morte do seu bebê, passou a comê-lo. Quando o cadáver começou a se desintegrar, ela roía um pedaço por algum tempo e, depois, o descartava para pegar outro.
Essa não é a única história no livro de Monsó que se situa na interseção entre o amor, a morte e o almoço. Lemos também sobre um cão que, após o suicídio do dono, começou a comer o rosto do morto, que havia sido encontrado menos de uma hora depois de sua morte – e o cão tinha bastante comida na tigela. Parece, para nós, uma violação chocante de um relacionamento que normalmente imaginamos se basear no amor e na confiança, mas não é excepcional. Dados confiáveis são difíceis de obter, mas estimativas sugerem que quase um quarto dos donos de animais de estimação que morrem sozinhos serão parcialmente consumidos por seus companheiros animais.
Em conjunto, esses casos evidenciam os limites do que se pode chamar de nossa tanatologia intuitiva. Ao saber que um primata, nosso semelhante, não larga seu bebê morto, atribuímos o fato à ternura maternal e a uma tristeza lancinante. Ao saber que um cão comeu seu dono morto, atribuímos o fato a um apetite cego e a uma indiferença bruta. Nenhuma dessas inferências, no entanto, está necessariamente correta. O comportamento da mãe primata pode sugerir uma incapacidade para compreender que o bebê morreu. Longe de estar inconsolável, talvez ela esteja apenas alheia ao fato real. Ou talvez esteja otimista, já que a atitude de carregar o bebê morto parece ocorrer apenas nos chamados estrategistas K – assim chamadas as criaturas, como primatas e cetáceos, que investem uma enorme quantidade de tempo e recursos em um pequeno número de descendentes. Para essas criaturas pode fazer sentido, por mais que um bebê pareça sem vida, esperar pela possibilidade de que ele, de alguma forma, volte à vida.
Quanto ao cão, antes que alguém decida se livrar do seu, considere o seguinte: quando encontram uma carcaça, os cães selvagens em geral começam a consumi-la pelo abdômen, a parte rica em nutrientes, e depois passam para os membros. Em 90% das vezes, segundo Monsó, eles nem sequer mordem a face da vítima. Já um cão de estimação vai direto para o rosto cerca de 70% das vezes, e raramente morde o abdômen. Monsó conclui: o cão não tem a intenção de comer o falecido dono, mas fazê-lo reagir, e se concentra no rosto porque sempre fez isso, estudando as expressões faciais do ser humano para perceber suas atitudes e seu humor.
O fato é que observar a reação de um animal diante da morte, diz Monsó, não nos informa absolutamente nada sobre o que esse animal está pensando ou sentindo. A mãe chimpanzé pode não ter noção do fato real e estar contente. O cão pode estar louco de tristeza. Mas, se essas histórias não esclarecem a questão, como podemos determinar o que um dado animal sabe sobre a morte, se é que sabe alguma coisa?
Para responder a essa pergunta, Monsó propõe uma definição básica de morte – ou seja, o mínimo absoluto que um animal deve compreender a respeito da finitude para podermos dizer que ele, de fato, a compreende. Nessa versão bem simplificada, a morte implica a cessação permanente das funções associadas à vida. Embutidas nessa definição estão as duas noções que a autora crê que um animal deve captar para ter algum conceito de morte: irreversibilidade e não funcionalidade.
Esse esquema confere certa precisão a um assunto que muitas vezes é baseado em histórias e sentimentalismo, e leva a discussões fascinantes. Sobre a não funcionalidade, por exemplo, Monsó começa notando que os animais não precisam compreender que, no momento da morte, todas as funções cessam. Basta que entendam que isso acontece com certas funções. Afinal, nem mesmo os humanos concordam sobre o que, exatamente, deixa de funcionar na hora em que morremos. Os irmãos João e Maria podem acreditar em diferentes destinos para sua falecida avó: João julga que ela está no Céu zelando por ele, enquanto Maria entende que ela está apodrecendo numa sepultura; no entanto, Maria não pensa que seu irmão não tem um conceito viável de morte apenas porque, para ele, a avó preservou parte de suas funções – a do zelo, por exemplo.
Da mesma forma, para que um animal compreenda a não funcionalidade não é necessário que entenda todo o espectro de capacidades que se encerram na morte, mas apenas aquelas que considera características dos seres vivos. Nossas formigas falham nesse teste, porque consideram que uma companheira malcheirosa está morta, embora esteja perfeitamente funcional. Os ratos se saem melhor: eles também retiram do ninho um rato vivo que recebeu um spray de “perfume de putrefação” – mas, como observa Monsó, só o fazem caso o rato esteja anestesiado, imóvel. Isso significa que os ratos entendem algo que as formigas não entendem: que o movimento normal é incompatível com o estado de morte.
E será que os ratos também compreendem a irreversibilidade? Supõe-se que não, considerando que compreender a irreversibilidade exige um raciocínio sofisticado sobre o futuro – uma capacidade que, provavelmente, está aquém de muitos animais não humanos. Mas será que o corvo realmente precisa entender o que significa “nunca mais” para compreender a morte? Monsó não pensa assim. Segundo ela, saber que uma criatura morta jamais voltará à vida não requer nada além de ser capaz de reclassificar uma entidade animada como entidade inanimada – categorias que são reconhecidas em muitas esferas do reino animal.
Não se sabe se Monsó está certa, ou não, quando afirma que os animais usam essa troca de categorias para compreender a irreversibilidade, mas as evidências estão a seu favor. Na Uganda em 2018, por exemplo, um chimpanzé fêmea deu à luz um bebê albino, uma ocorrência raríssima na espécie. Normalmente, a reação dos chimpanzés a um recém-nascido é de carinho e entusiasmo, digna dos avós de uma família italiana. O albino, porém, provocou terror. Os chimpanzés gritavam como fazem diante de um perigo mortal, até que o macho alfa do grupo arrancou o bebê da mãe e, com a ajuda dos outros, matou-o. Assim que o bebê morreu, a atitude dos chimpanzés mudou completamente, passando de pânico para curiosidade. Cheiravam o cadáver, examinavam e acariciavam sua pelagem, demonstrando plena confiança de que o objeto do seu terror não voltaria à vida.
O foco de Monsó em definir um conceito de morte ajuda a tornar histórias como essa não apenas interessantes, mas significativas, esclarecendo o que podemos inferir delas. Neste caso, a inferência é de que os chimpanzés compreendem que a morte é irreversível. Mas embora a abordagem de Monsó seja, em geral, produtiva, também pode ser frustrante. Em seu desejo de “não dar nada como certo e garantido, questionando todas as suposições”, pode deixar a sensação de que estamos constantemente adiando as grandes questões, em vez de nos aprofundarmos nelas. Além disso, a autora nem sempre se preocupa em fazer uma distinção entre os chamados argumentos de espantalho (como afirmar que os animais não têm funções mentais, uma proposição com quase nenhum ou poucos defensores hoje) e os desacordos sérios e substanciais (como saber se ter um conceito de morte requer que se tenha um conceito de vida).
Ainda assim, Playing possum representa uma grande contribuição para a tanatologia comparada. A disciplina, em sua breve história, vinha focando sobretudo em instâncias intraespécies de ternura, dedicação e tristeza diante da morte. Monsó, em uma útil ruptura com essa tradição, dá atenção constante à violência e à predação, tanto nas relações intraespécies quanto interespécies. A morte, como ela nos lembra, está em toda parte na natureza, desde os índices altíssimos de infanticídio intraespécie – responsável pela morte de cerca de 20% das hienas e até 60% dos chimpanzés – até o caráter sangrento de cada refeição de um carnívoro.
Para os predadores, que agem constantemente como agentes da morte em nome de sua sobrevivência, cada captura de uma presa, e também cada fracasso em capturá-la, é uma chance de aprender mais sobre a morte. Uma das conclusões claras, ainda que tangenciais, do livro de Monsó é que ser predador é uma atividade muito difícil. Quem tiver de apostar no vencedor de uma disputa entre um falcão e um esquilo, deve apostar no esquilo. Segundo uma estatística, de cada dez vezes em que é alvo de um predador, o esquilo escapa nove. Da mesma forma, um terno coração pode simpatizar com o antílope, mas é o leão quem está em desvantagem na competição, saindo perdedor na grande maioria das vezes. Como os predadores têm muito poucas chances de sucesso, eles percebem prontamente qualquer vulnerabilidade na presa. Um estudo sobre os lobos do Alasca, por exemplo, descobriu que eles têm muita dificuldade para apanhar os caribus saudáveis, mesmo os jovens, preferindo caçar animais que apresentem sinais de doença ou lesão – nos termos de Monsó, “sinais de funcionalidade comprometida”, que o lobo tentará transformar em “não funcionalidade irreversível”, de modo que possa obter seu alimento.
Em outras palavras, a pressão exercida sobre os predadores faz com que sejam excelentes candidatos a ter um conceito de morte. Considere-se, mais uma vez, aquele gambá se fingindo de morto. Monsó aponta que esse estado do gambá é biologicamente distinto de outra situação com a qual costuma ser confundido: a imobilidade tônica, uma espécie de “congelamento” com que muitos animais reagem diante de uma ameaça inescapável. A imobilidade tônica é extremamente útil. Pode camuflar um animal, considerando que é muito mais fácil detectar o movimento do que a imobilidade. Além disso, alguns predadores perdem o interesse por uma presa que não se move. Mas se a paralisia temporária bastasse, pergunta Monsó, por que o gambá se daria ao trabalho de fazer uma exibição tão mais elaborada que uma imobilidade simples?
A resposta usual é que fingir-se de morto provoca a repulsa do predador. Mas a natureza oferece outras maneiras mais simples para obter o mesmo resultado, como sabe bem quem já sentiu o cheiro de um gambá. Na verdade, os gambás às vezes abandonam todo seu drama mórbido e simplesmente excretam sua gosma verde pútrida para afastar um animal indesejado. Sendo assim, qual é o propósito de todo o resto – o ritmo cardíaco reduzido, a baixa temperatura corporal, a língua azul? O propósito, escreve Monsó, é que o gambá não está “tentando parecer repulsivo, mas tentando parecer morto”: reconhecidamente, incontestavelmente, irreversivelmente morto. E só é razoável que o gambá se comporte assim, diz ela, se um ou mais dos seus predadores tradicionais compreende a morte. Em outras palavras, tal compreensão não apenas existe na natureza, como também a influenciou: como alguns animais são capazes de reconhecer a morte, outros evoluíram de modo a imitar os sinais típicos, por meio da tanatose (imitação da morte). É um argumento elegante e interessante, com implicações de longo alcance. Como a tanatose ocorre em muitas espécies totalmente diferentes, conclui Monsó, o conceito de morte deve ser amplamente difundido no reino animal.
Nossa tradicional relutância em admitir a possibilidade que o mundo animal entende a morte faz parte do nosso velho apego, cada vez mais insustentável, ao excepcionalismo humano. Ou seja: a ideia de que somos únicos entre as espécies porque somos dotados de inúmeras características que não se encontram em nenhuma outra criatura. Assim como a linguagem, o uso de ferramentas, o altruísmo e a matemática, a compreensão da mortalidade foi, durante muito tempo, considerada um traço inato e especial, ainda que difícil, do ser humano. Rousseau escreveu que um animal nunca saberá o que é morrer, e “o conhecimento da morte e seus terrores” é uma das primeiras aquisições que o homem fez ao se afastar da sua condição animal.
Essa afirmação é equivocada em dois sentidos: limita nossa compreensão sobre os outros animais e sobre nós mesmos. Uma das nossas muitas reações à morte, por exemplo, é a consciência de que um corpo morto apresenta uma dupla ameaça ao nosso bem-estar – é tanto um sinal de que o perigo ainda pode estar na área, como uma fonte de patógenos.
Assim, a exemplo das formigas e dos ratos, temos uma sensibilidade inconsciente aos necromônios, como são chamadas as substâncias químicas emitidas pelos cadáveres, que ativam nosso mecanismo de luta ou fuga. E essa é apenas uma das maneiras pelas quais nossa reação à morte se conjuga com a reação de outras criaturas. Qualquer pessoa que já viveu um perigo mortal ou já esteve nas garras de um sofrimento primal há de reconhecer o erro da afirmação de Rousseau segundo a qual conhecer a morte e seus terrores nos afasta da condição animal.
Sobre limitar nossa compreensão dos outros animais: às vezes, enxergar outra criatura tal como ela é não exclui enxergarmos a nós mesmos nela. Ao contrário: exige essa visão. Embora Monsó faça críticas sensatas ao antropomorfismo, ela também se preocupa com o impulso oposto. Para ela, empobrecemos nossa percepção das outras criaturas tanto ao lhes atribuir qualidades humanas que não possuem quanto ao lhes negar qualidades humanas que possuem – ou, para ser mais preciso, qualidades que nem merecem ser classificadas como “humanas”, porque não são exclusivamente nossas. A capacidade de compreender a morte, argumenta Monsó, é uma dessas características em muitas espécies.
O mesmo pode valer para a capacidade de sentir a dor do luto. Neste terreno, porém, Monsó, com sua cautela instintiva, pisa mais leve. Ela está certa em não misturar essas duas qualidades, pois é perfeitamente possível reconhecer a morte sem sentir sofrimento (como nós, humanos, fazemos ao ler os obituários nos jornais), assim como é perfeitamente possível sofrer por uma perda sem que haja morte (quando seu querido cachorrinho foge, ou o amor da sua vida anuncia que vai embora). E Monsó também tem razão ao apontar que a tanatologia comparada tem sido distorcida por quem busca evidências de sofrimento diante da morte – essa reação humana por excelência – quando, em vez disso, deveria prestar atenção nas outras maneiras pelas quais a compreensão da morte pode se manifestar no reino animal. (Eis aí a explicação para a relativa indiferença dos estudiosos ao conceito de morte entre os predadores.)
Mesmo assim, é impossível ler Playing possum sem voltar repetidas vezes à questão da tristeza e da dor do luto. Em suas páginas, uma elefante fêmea continua voltando ao lugar onde sua companheira mais próxima morreu, como uma viúva que faz uma visita semanal ao túmulo do marido. Um golfinho lutando com a morte é sustentado pelo seu grupo, que forma uma espécie de balsa para erguê-lo e ajudá-lo a respirar. Duas fêmeas de chimpanzé que não eram muito próximas passam a se afeiçoar depois que ambas sofrem a perda de seus bebês. Um jovem chimpanzé saudável perde a mãe, em seguida perde todo o interesse pela vida, recusando-se a comer, e por fim se arrasta para o lugar onde viu o corpo da mãe pela última vez e ali se deita – e morre também.
Em dado momento, o esforço para encontrar explicações alternativas para esses comportamentos assemelha-se a um certo contorcionismo. O falecido primatólogo Frans de Waal criticava a linguagem científica cautelosa e defensiva, do tipo que insiste em dizer que os animais têm “parceiros favoritos de afiliação” em vez de dizer “amigos”, ou que os chimpanzés exibem “contato boca a boca” em vez de “beijos”. Talvez os animais simplesmente gostem uns dos outros. Talvez simplesmente sofram com a morte de um companheiro. Talvez o foco exclusivo no comportamento deixe de lado a corrente subjacente de emoções que dá sentido a todo esse comportamento, tal como ocorre com nossas próprias emoções.
Desconfio que nossa hesitação para reconhecer que os animais são dotados de uma emoção tão poderosa quanto o sofrimento do luto tenha razões práticas. Ao admitir essas características, somos obrigados a nos confrontar com a maneira rotineira e brutal com que expomos os animais ao perigo e à matança, incluindo a expansão de estradas e a perda de hábitat, sem falar na produção industrial de alimentos. Mas, por trás disso, espreitam outras motivações mais sinistras. Para muitos de nós, a primeira exposição à morte envolveu um animal: o vaga-lume no pote de vidro, o passarinho embaixo da janela, o cervo atropelado na rodovia, o gatinho querido, já velho e magro, todo encolhido num canto. Atenuamos nossa tristeza por essas mortes, e por todas as mortes, ao imaginar que as coisas são diferentes para os animais. Que existem outras formas, melhores e mais sábias, de morrer. Que, se vivêssemos mais perto do osso da vida, da essência das coisas, não sentiríamos medo do fim da vida, nem sofreríamos pelo seu final.
Assim é nossa estranha relação com os animais e a morte: não temos certeza se eles a compreendem e, se não a compreendem, não temos certeza se isso os torna inferiores a nós, ou mais afortunados. É um problema tão antigo quanto o Jardim do Éden: ansiamos por ser distintos do restante da natureza e, ao mesmo tempo, ansiamos por fazer parte dela mais plenamente. É claro que, quando se trata de compreender a morte, somos distintos. Nenhum golfinho jamais fará uma autópsia, nenhum dingo lerá Heidegger, nenhum macaco comporá um réquiem para piano e violino.
Mas quem pode afirmar que eles não sabem de coisas sobre a morte que nós não sabemos? Por mais sofisticado que seja, nosso conceito de morte é, necessariamente, incompleto. Para quem é religioso, a morte faz parte do plano de Deus. O que poderia ser mais misterioso que isso? E, para quem acredita, ao contrário, que a morte é a aniquilação da consciência, o que poderia ser mais difícil de apreender plenamente do que a própria inexistência? Para nós, então, assim como para todas as espécies, alguma parte da morte permanecerá para sempre como tantas vezes a sentimos: impensável.
[1] Não há previsão de lançamento de Playing possum no Brasil.
O texto foi publicado originalmente na revista The New Yorker
