Apparício Torelly, o Barão de Itararé: em 1934, ele foi sequestrado e espancado pela polícia política de Getúlio. Libertado, afixou na porta de sua sala uma placa: “Entre sem bater” CRÉDITO: ARQUIVO DO INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS USP_FUNDO BARÃO DE ITARARÉ
O Barão e o tubarão
As peripécias de um humorista no império de Getúlio Vargas
Arnaldo Branco e Renato Terra | Edição 226, Julho 2025
No começo do século XX, o Rio de Janeiro era a capital da República. Sim, a gente pagava para os políticos morarem em uma cidade com praia, Carnaval decente, vida cultural e esquinas. O epíteto de “Cidade Maravilhosa” reluzia nas esquinas iluminadas, na arquitetura de inspiração francesa e na fervilhante vida cultural da metrópole praiana. O Rio de Janeiro vivia seus anos dourados. Ou seja: os cariocas ainda não eram numerosos o suficiente para avacalhar a cidade.
Tudo era tão glamouroso que os cariocas não caminhavam: praticavam footing (que era como as pessoas de antigamente chamavam o rolezinho). As mulheres não podiam caminhar com as próprias pernas (ou como se dizia na época: não podiam fazer footing com as próprias pernas). Estavam proibidas de votar, o que talvez fosse uma vantagem, porque só dava para votar em homem. Aquelas que batiam de frente eram consideradas loucas pela sociedade conservadora. Essa crônica de 1930, publicada na revista Careta, dá o tom:
Literalmente maluca, os cabelos revoltos, os olhos acesos, os gestos estabanados, ela espalha por onde passa uma tempestade furiosa de desejo e de pecado. É contagiosa e diabólica. Ninguém lhe resiste à fascinação sensacional de moça ultramoderna.
Pois é. Desde 1930, ninguém sabe usar a palavra “literalmente”. Naquela época já existia gaslighting, só não tinha esse nome. Mas as palavras importadas nunca faltaram, como se nota: uma paquera era um flirt. Os speakers transmitiam as notícias do rádio e de vez em quando rolava “uma partida de football feminino por ocasião de um five o’clock”. E a rede social da época era o pessoal fazendo footing em volta da praça falando ao mesmo tempo. Para compensar a ausência de celulares e a falta de alguma coisa para ler no banheiro, havia cerca de duzentos periódicos somente no Rio de Janeiro. Muitos eram vendidos em bancas de jornal que naquela época vendiam – pasme – jornal.
Caso você não saiba, o jornal era um monte de papel onde a internet era impressa. Com um dia de atraso. Um desses jornais era A Manha, uma publicação humorística que satirizava a imprensa, os costumes e os políticos. Sim, antes do Pasquim, do Planeta Diário, da Casseta Popular, do Sensacionalista e do piauí Herald, já havia “jornalismo-mentira e humorismo-verdade”.
Em 1925, um gaúcho insubordinado aceitou o convite de Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, para assinar uma coluna de humor no jornal A Manhã (não confundir com A Manha). Seu nome era Apparício Torelly, mais conhecido como Apporelly. Sua abordagem cômica logo se tornou famosa na capital da República. O sucesso foi tão grande que gerou um jornal próprio. Apporelly bateu algum recorde mundial de trocadilho ao batizar seu novo jornal. Satirizou o nome A Manhã tirando apenas… um til. E criou A Manha.
Apesar da paródia, Mário Rodrigues desejaria sucesso ao novo semanário humorístico. Provavelmente, ele já conhecia a principal regra do humor: ficar puto é pior. A Manha revelava que a cobertura jornalística naquela época já era uma piada. E as piadas de Apporelly acabavam revelando mais do que a cobertura jornalística.
A década de 1920 não ganhou o apelido de “anos loucos” à toa. Aqui, no Brasil, foi um período marcado por uma série de crises institucionais e levantes militares. Por isso, a eleição de 1930 pedia uma escolha não muito difícil. É que até 1930, o Brasil vivia num esquemão chamado de República Velha. Na verdade, era um acordão, com Supremo, com tudo, para que os fazendeiros produtores de café e de leite escolhessem os presidentes. Era a política do café com leite. Se o país continuasse nas mãos dos paulistas, hoje provavelmente seria chamada de política do macchiato.
Noel Rosa, outro cronista genial da época, traduziu tudo num samba que ficou famoso:
Lá, em Vila Isabel,
quem é bacharel
não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite
e a Vila Isabel dá samba.
Não é preciso ser bacharel para entender o que Noel cantava. Era o seguinte: São Paulo produzia café, Minas produzia leite, e os latifundiários mineiros e paulistas produziam os presidentes do Brasil.
Mesmo em 1952, A Manha continuava falando dessa política com todos os trocadilhos possíveis:
O café com leite é o regime imperante em todas as regiões mais ou menos desenvolvidas do Brasil, onde a classe média, que é a mais numerosa, vive alimentando-se de médias, que podem ser de café com leite para as regiões de Minas e São Paulo; de café sem leite para os estados pobres e, finalmente, sem café e sem leite, para “o polígono das secas” e outras figuras geométricas que estamos estudando.
Mas a política do café com leite virou coalhada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Os prejuízos foram imensos. A crise de 1929 não foi uma marolinha, foi um tsunami. Como o lema do governo era “café acima de tudo, leite em cima de todos”, o presidente da época colocou as tetas à disposição para os latifundiários mamarem.
Os jornais davam as notícias, mas A Manha teve a manha de ampliar o ridículo da situação e, com isso, foi mais eficiente ao retratar o que, de fato, era ridículo. Apporelly publicou uma entrevista satírica com Vaz Antão Luis, que era uma espécie de alter ego do presidente Washington Luís:
Este jornal, que nasceu para a defesa de nossa sociedade – sociedade anônima, é certo, mas em todo caso sociedade –, não podia deixar de abordar a questão da crise do café, ouvindo para isso a mais alta autoridade do país. O dr. Vaz Antão atendeu-nos prontamente:
Vaz Antão: Aqui está a solução. Para os grandes males, pequenos remédios. O cafezinho será o salvador do café grande. A dentada do cão cura-se com o dente do próprio cão. Tome patrioticamente o seu cafezinho! Os cálculos são impressionantes. Tomando por base a população de 40 milhões de brasileiros e supondo que cada brasileiro tomasse um cafezinho por dia, teríamos tomado 40 milhões de cafezinhos. Supondo porém que em vez dum cafezinho, na média, cada brasileiro resolvesse tomar uma média, teríamos então por dia uma média de 40 milhões de médias. Pode dizer no seu jornal que a crise está debelada, uma vez que os brasileiros não deixem de tomar a sua média matinal. Eu falo à luz dos algarismos. É ali nas estatísticas, na tábua dos algoritmos!
Apporelly mostrava que o governo tratava os empresários como café com leite e que a conta seria paga pela população. Não precisa nem dizer que Washington Luís acabou seu mandato com a popularidade de um bombom Caribe. Só que o brasileiro já tinha vocação para um novelão muito antes da chegada da televisão ao país. No meio desse processo, Washington Luís resolveu apoiar um candidato paulista.
Mas qual é o problema? Naquela época o pessoal também não gostava de paulista?
Sim, mas não foi só por isso: é que o Washington Luís já representava São Paulo – e tinha chegado a vez de um mineiro ser presidente da República. O candidato do governo foi confirmado: seria o paulista Júlio Prestes.
Seu principal opositor era o gaúcho Getúlio Vargas, que tinha tanta habilidade para costurar acordos que reduziria qualquer líder do Centrão a um estagiário. Getúlio conseguiu unir forças políticas tão díspares quanto os argumentos usados pelos fãs de Ivete Sangalo e Claudia Leitte. Com uma perna, abarcou a indignação burocrática dos estados que ficavam de fora da política do café com leite. Com outra perna, trouxe para si os anseios empreendedores de uma crescente classe média urbana. A habilidade sobre-humana de Getúlio dotou-o de uma terceira perna para incluir o descontentamento dos militares de baixa patente, que gerou um movimento conhecido como tenentismo. Outras pernas surgiram – talvez inspiradas em Oswaldo Aranha – para aglutinar o apoio de figuras importantes, como Pedro Ernesto, Rui Barbosa e Luís Carlos Prestes.
Era a Aliança Liberal. Um movimento que escancarou o prazo de validade vencido da política do café com leite. E, como ocorreu muitas vezes no Brasil, a Aliança Liberal detectou a necessidade de promover mudanças estruturais para que as estruturas não mudassem. Quem resumiu esse sentimento foi o então presidente do estado (o nome que se dava à época ao governador) de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada: “Façamos serenamente a revolução, antes que o povo a faça pela violência.”
Mas havia um paulista no meio do caminho. No meio do caminho, havia um paulista. Júlio Prestes ganhou as eleições. Mesmo com voto impresso e auditável, as denúncias de fraude ganharam os jornais, os bares e as ruas. “Infelizmente o governo do sr. Washington Luís não irá deixar à disposição da curiosidade pública o serviço dos telégrafos para que nos seja transmitida a verdade, em vez da fraude”, dizia a primeira página do jornal O Globo. Um clima de revolta tomou conta do país. Felizmente, não há relatos de patriotas erguendo os celulares para os céus, cultuando pneus, dançando coreografias duvidosas ou trafegando quilômetros abraçados em caminhões.
Até que veio a morte de João Pessoa. Aqui não há nenhum registro metafórico sobre a capital paraibana, mas o assassinato do Pessoa em pessoa. João Pessoa era presidente do estado da Paraíba e candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. O crime teve mais tintas passionais do que políticas. Mas os jornais oposicionistas se esforçaram em inflamar o país com uma cobertura, digamos, mais passional do que jornalística. Uma fogueira de paixões.
No Rio de Janeiro e em São Paulo, as sedes dos jornais governistas foram empasteladas. A Manha foi sutilmente se virando para o apoio aos revolucionários: uma das primeiras medidas foi a demissão do funcionário Vaz Antão Luis. O jornal de Apporelly satirizou os jornais governistas que mudaram de lado, reivindicando o pioneirismo dessa política de adesão aos vencedores. A cobertura de A Manha ganhou ares de júbilo quando Apporelly se apresentou como herói do movimento adesista.
Mas antes do cabeção de Vargas chegar piscando e flutuando ao Rio nos braços do povo com suas tropas revolucionárias… havia no caminho uma batalha. As tropas leais a Washington Luís rumaram para a cidade paulista de Itararé. Homens armados partiram em comboios para a divisa entre os estados de São Paulo e Paraná. O encontro prometia ser sangrento. Criava-se um clima terrível para uma batalha épica que prometia ser o prenúncio de uma guerra civil.
Quem melhor descreveu esse confronto histórico foi o escritor Murilo Mendes, em um poema famoso, Itararé:
A maior batalha da América do Sul
Não houve.
A Batalha de Itararé não aconteceu. Foi desmarcada como se fosse um show do Tim Maia. Por qual motivo? Foi um acordo, acerto, ajuste, trato, pacto, arranjo etc. etc. etc.
O verdadeiro embate aconteceu depois da batalha que não houve: a guerra por cargos. Apporelly definiu assim a Revolução de 1930, como lembra Cláudio Figueiredo (no livro Entre sem bater – A vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé):
Em 1930, vitoriosa a revolução, cada um pegou sua fatia. O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio. Um outro cavalheiro, que nem revolucionário era, abiscoitou os Correios e Telégrafos. Outros patriotas menores foram exercer seu patriotismo a tantos por mês, em cargos de mando e comando. Fiquei chupando dedo, com uma mão atrás e outra também.
Foi quando Apporelly criou um personagem que seria o perfeito cronista desse país do conchavo, do jeitinho, da panelinha. Um personagem que seria o porta-voz oficial de eventos históricos que prometiam muito… e que floparam. Como a nossa Independência, que nos manteve dependentes, e a nossa revolução, que não revolucionou nada.
E foi nesse espírito que aconteceu o fato histórico: sem manjedoura, sem Reis Magos e sem chá de revelação, a batalha que não houve marcou o nascimento do ilustre Barão de Itararé:
Com relação à vida pregressa do ilustre fidalgo Barão de Itararé, o Brando, senhor feudal de Bangu-sur-Mer, nunca tive a menor dificuldade no recolhimento de completas informações, porque a sua vida pública é, na realidade, uma continuação da privada. É um homem sem segredos que vive às claras, aproveitando as gemas sem desprezar as cascas. Posso fazer solenemente essa afirmação histórica porque tive o privilégio de conviver com esse grande herói que a pátria chora em vida e há de sorrir, incrédula, quando o souber morto.
Apporelly já tinha mais de dez anos de carreira quando se sentiu inspirado pela batalha que não houve para se conceder um título de nobreza que nada valia.
A Revolução de 30 teve o apoio da imprensa. A famosa capa do jornal O Globo que estampava a foto de Washington Luís deixando a residência presidencial ao lado do cardeal Leme trazia a seguinte manchete: “Rendido, afinal, à gloriosa realidade que o cercava, o sr. Washington Luís retira-se do Palácio Guanabara.”
Aliás, fica o questionamento: por que se chama revolução e não golpe? Por que meu avô caiu no golpe do cartão de crédito e não na revolução do cartão de crédito? Não se sabe quando. Não se sabe quem foi o fundador. Mas no coração da burocracia brasileira, funciona a todo vapor o Departamento de Batismos Aleatórios dos Movimentos Políticos Brasileiros, também conhecido como botão estatal do Foda-se.
A Revolução de 30 tem esse nome pomposo já que não ia ser muito sonoro chamar de “Conchavo de 30”, “De repente 30” ou “Se vira nos 30”. O fato é que nada mudou na ordem geral: as elites continuaram mandando, só mudaram de endereço. Ou nem isso, o presidente continuou despachando no Palácio da Guanabara.
Não teve paredão, não teve guilhotina. Ninguém sequer foi cancelado na internet que não havia. Teve gente que manteve o mesmo cargo no governo. Imagina ter uma revolução e não rolar nem uns dias de folga no trabalho.
O Barão classificou a Revolução de 30 como “uma divergência entre os membros da mesma classe dominante”, segundo Cláudio Figueiredo. E nem foi uma divergêêêência assim tão grande, foi uma divergência tipo: é biscoito ou bolacha?
E, como tudo precisava ficar no mesmo lugar, a primeira providência do novo governo foi atacar quem queria mudar alguma coisa. A perseguição aos opositores tinha uma justificativa que é usada até hoje: a velha e boa ameaça comunista. Com a diferença absolutamente notável que naquela época a ameaça comunista existia de verdade, assim como o próprio comunismo.
O Barão estava ciente de que ninguém deveria largar a mão de ninguém – e foi resistência! Num gesto visionário, fundou a União das Repúblicas Socialistas da América do Sul, cuja sigla era… Ursas. Sim! Trata-se de coincidência esotérica, que vai se materializar num futuro distante, com a encarnação de certo pastor bombeiro que foi candidato a presidente em 2018. Algum ruído cósmico soprou um telefone sem fio no ouvido do Cabo Daciolo sobre a existência de uma tal de Ursal (outra sigla para a mesma união). Por aqui, a história não se repete como farsa, mas como piada mesmo.
Mas quem se levantou contra Getúlio Vargas? Os comunistas? Os anarquistas? Os fascistas? Os dadaístas? Os otorrinolaringologistas? Não: os paulistas.
Mais uma vez, o Departamento de Batismos Aleatórios dos Movimentos Políticos Brasileiros, também conhecido como botão estatal do Foda-se, escolheu a palavra “revolução” para descrever o que rolou em 1932. Se é correto ou não, o veredito será dado pelo grupo do leitor no WhatsApp. Mas o fato é que os paulistas estavam putos da cara, meo.
Afastados da boquinha de Getúlio Vargas, saudosos da política do café com leite, os paulistas fizeram um brainstorm, traçaram um business plan e resolveram correr atrás do seu market share. Pensaram fora da caixa e criaram um case disruptivo: a Revolução Constitucionalista de 1932.
O levante ganhou esse nome porque pedia que Getúlio convocasse uma Assembleia Constituinte, já que a última Constituição tinha mais de quarenta anos. Ou porque não conseguiram vender os naming rights para fazer uma Revolução Red Bull Constitucionalista.
Como não podia deixar de ser, no país do acordo, do conchavo, do deal e dos dealers, Getúlio Vargas acenou com uma promessa de nova Constituição e a construção de quadras de beach tennis pra ver se os paulistas se acalmavam. Mas aí também rolou uma coisa bem brasileira, que é ser obrigado a entrar em uma briga só porque você ameaçou entrar em uma briga e não quer ficar com fama de arregão.
Os paulistas caíram dentro e, ao contrário da Batalha de Itararé, dessa vez teve tiro, bolacha e bomba. Eles contavam com o apoio de outros estados, mas a adesão afinal não aconteceu. É que a verdadeira intenção era separar São Paulo do resto do país. Sim, é como se São Paulo estivesse planejando sua carreira solo sem avisar o resto da banda.
Mesmo antes do advento do orçamento secreto e do toma lá dá cá, Getúlio sabia agradar para depois ser agradado. Num truque ilusionista, ele fingiu que atendia aos clamores constitucionalistas para atender aos seus interesses pessoais. A mágica foi presenciada por uma Câmara dos Deputados lotada. “Prometo manter e cumprir com lealdade a Constituição Federal, promover o bem geral do Brasil, observar as suas leis, sustentar-lhe a união, a integridade e a independência”, disse Getúlio com uma mão na Constituição e outra na cartola.
Com o truque, ele se legitimava no poder e teria mais quatro anos de mandato. Seriam oito anos na Presidência sem nunca ter ganhado uma eleição. A Constituição fixou o mandato presidencial em quatro anos e foram convocadas novas eleições, mas só para 1938 – sim, Getúlio foi sorteado na promoção “Perca uma eleição e ganhe duas”.
Então Getúlio Vargas surpreendeu a nação com uma série de movimentos ousados, inéditos e até impensáveis para um presidente da República: ele fez sua obrigação.
A Constituição também instituiu o voto secreto e direto para maiores de 18 anos, incluindo, vejam só, as mulheres. Aposto que os constituintes de 1934 se sentiram muito feministas. Getúlio foi responsável ainda pelo avanço de uma série de leis trabalhistas: determinou a jornada de oito horas, assistência remunerada às grávidas, previu a criação da Justiça do Trabalho e a proibição do trabalho infantil.
Para não ser chamado de comunista pelos patriotas, Getúlio se uniu a um grupo de extrema direita que estava surgindo no cenário político brasileiro: os integralistas. Eles não eram fãs de comida integral, mas um grupo que se inspirava em outro grupo que surgiu no cenário político mundial naqueles anos: os fascistas. Liderados pela figura raquítica de Plínio Salgado, os integralistas vagavam por aí uniformizados na cor verde, com a suástica torta que adotaram e faziam a saudação “Anauê”, afanada dos indígenas. O lema do grupo, por sua vez, foi afanado do fascismo italiano: “Deus, Pátria e Família.” O Barão de Itararé adorava esse slogan, tanto que resolveu aperfeiçoá-lo, só acrescentando uma letra: “Adeus, Pátria e Família.”
Assim como os pombos, as baratas e os ácaros, os integralistas eram numerosos: chegaram a contar com 500 mil filiados, em um país onde, na época, apenas 2 milhões de pessoas haviam votado na última eleição, a de 1930. Entre as pessoas normais, os integralistas ganharam o apelido de galinhas-verdes. Esse rótulo não foi invenção do Barão de Itararé, mas ele fez de tudo para torná-lo popular. Deu certo: era comum as pessoas soltarem galinhas pintadas de verde nas manifestações integralistas. Sim, naquela época ainda não tinha Luisa Mell.
Em outubro de 1934, foi convocada uma grande marcha integralista para que nossa bandeira jamais fosse vermelha. Mas outros setores, representantes da parte não dodói da sociedade, resolveram enfrentar e organizaram uma contramarcha.
Essa pororoca de gente só podia dar em confusão. Aconteceu um tiroteio de mais de duas horas que deixou sete mortos e cerca de trinta feridos. A disputa de narrativa sobre quem ganhou a briga foi tão sangrenta quanto o tiroteio, mas podemos dizer que o Barão de Itararé acabou decidindo a parada por nocaute, com essa manchete: “Um integralista não corre, voa.”
O Barão escreveu também uma legenda:
A debandada integralista, como se vê, foi na mais perfeita desordem. Vê-se à esquerda um galinha-verde atrás do poste, e no centro da praça vários outros acocorados. A retirada dos 10 mil… Salve-se quem puder!
A manchete e a legenda saíram na capa do Jornal do Povo, de cujo conselho editorial o Barão de Itararé fazia parte. O Jornal do Povo nem era uma publicação humorística. Mas o Barão não conseguia deixar de ser o Barão. Por causa de piadas como essa, Apporelly entrou na mira do gabinete do ódio de Getúlio Vargas. Foi fichado como “agitador” e colaborador de jornais “reconhecidamente comunistas”.
O Jornal do Povo irritou mesmo a polícia política do Getúlio Vargas quando mexeu num assunto muito sério. E que assunto foi esse? A taxação das grandes fortunas? A reforma agrária? Não. O Jornal do Povo mexeu no vespeiro quando falou mal dos milicos. O motivo: publicou um folhetim relembrando a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, que lutou contra as práticas escravagistas na Marinha. Sim, João Cândido, o Almirante Negro da música do João Bosco e Aldir Blanc. A canção é sobre uma história real, tirando aquela parte que tem sereia.
A reação da polícia política do Getúlio, comandada por Filinto Müller, não teve nenhum senso de humor. Na manhã do dia 19 de outubro de 1934, o Barão foi sequestrado, espancado, ameaçado e teve seus cabelos cortados. Em um surto de coragem ou de falta de amor pela vida, agradeceu por lhe terem poupado o gasto com o barbeiro. Depois que foi liberado, reagiu à agressão com a única arma que possuía. Depois de tanto apanhar, pendurou na porta da sua sala na redação a seguinte placa: “Entre sem bater.”
Apesar de servir na prática como pretexto para o governo abusar do poder, o Partido Comunista da época era bem atuante. Isso significa que não se limitava a escrever cartas de repúdio, lançar notas de protesto ou organizar tuitaços. Naquele tempo, a militância era presencial. Os militantes de esquerda agitavam em sindicatos, associações juvenis e no meio artístico. Eles finalmente resolveram se unir em uma frente chamada Aliança Nacional Libertadora, a ANL. Algumas reuniões para fundar e organizar essa aliança aconteceram na redação de A Manha. Apporelly e seu personagem, que antes pareciam isentões, deram uma guinada para a esquerda mais acentuada que a do Felipe Neto.
Núcleos da ANL foram surgindo no Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará, Goiás, São Paulo e Rio Grande do Sul, unindo comunistas de renome, como Luís Carlos Prestes e Carlos Lacerda. Sim, Carlos Lacerda, a maior figura histórica da direita brasileira, já passou um recreio na esquerda.
Para acabar com essa palhaçada, Getúlio decretou a famigerada Lei de Segurança Nacional. Era como se fosse o primeiro longa-metragem da franquia de filmes de terror que teve seu auge no AI-5. Com aquela lei, Getúlio instituiu a censura à imprensa e proibiu a existência de partidos que, entre aspas, “incitassem a luta pela violência” e “instigassem o ódio entre as classes sociais”. Parecia mais uma indiretinha do que uma lei: “Vou proibir certos partidos, não digo quais.” Mas era um ataque claro ao Partido Comunista, que Getúlio considerava o seu maior hater. No dia 11 de julho de 1935, a sede da Aliança Nacional Libertadora foi fechada.
Para provar que a oposição de esquerda era realmente presencial, os comunistas organizaram um golpe de Estado. No dia 23 de novembro de 1935, um conjunto de levantes armados transformou o Brasil – de novo – numa praça de guerra. O movimento foi chamado pejorativamente de Intentona Comunista, um apelido do tempo em que as pessoas sabiam que intentona era uma palavra com sentido pejorativo.
Mais uma vez, o Departamento de Batismos Aleatórios dos Movimentos Políticos Brasileiros, também conhecido como botão estatal do Foda-se, mostrou a que veio. Não escolheu “revolução” comunista ou um “golpe” comunista. Nem sacou nada criativo da cartola como “micareta comunista”. Mas sacou essa palavra meio troncha: “intentona”.
Os rebeldes comunistas esperavam a adesão da classe trabalhadora, mas na ocasião a classe trabalhadora devia estar trabalhando, e o levante foi um fiasco. Getúlio e Filinto Müller prenderam líderes, como Luís Carlos Prestes e Olga Benário, e intelectuais, como Graciliano Ramos. Dando prosseguimento à tradição brasileira de prender artistas em períodos de ditadura, o Barão também foi em cana.
Foi por causa do governo Vargas que Graciliano escreveu Memórias do cárcere. A lei de incentivo à cultura do Getúlio era a Lei de Segurança Nacional mesmo. E com quem o velho Graça foi preso? Com o Barão de Itararé (que é também um dos personagens do filme Memórias do cárcere, baseado no livro). Mesmo com a saúde debilitada na cadeia, ele achava forças para cantar a Canção do Exército de maneira irônica como faria um membro da geração Z.
Antes de ir para a mesma prisão que Graciliano, o Barão ficou detido no navio-presídio Pedro I, que ficava ancorado na Baía de Guanabara. A polícia fazia vistorias constantes na embarcação. Numa dessas vistorias, o Barão quase matou os outros presos de ataque cardíaco quando do nada resolveu gritar “Viva a revolução”. Os guardas já estavam se aproximando dos detentos com seus cassetetes quando o Barão completou “… de 30!”. Sem saber, o Barão pode ter inventado ali a pegadinha.
Muitos dos detidos no Pedro I não tinham sequer um processo, uma acusação formal. Não havia provas, mas havia convicção. Depois de alguma pressão da imprensa e da sociedade, o governo Vargas decidiu estabelecer um tribunal especial para examinar caso a caso a situação dos confinados. Um Sergio Moro da época foi escalado para comandar esse tribunal. E esse foi o depoimento do Barão, conforme o livro de Cláudio Figueiredo:
Juiz: Qual é o seu nome?
Barão: Ora, doutor, o senhor então atravessa o Atlântico numa lancha a motor, especialmente para me ouvir, e não sabe o meu nome?
Juiz: Bom, isso aqui é só uma formalidade.
Barão: Mas eu estou completamente informal, nem procurei me vestir. Como é que o senhor me vem com formalidades?
O juiz virou-se para o escrivão e sussurrou: “Apparício Torelly.”
Barão: Ah, o senhor está vendo como sabia meu nome! E mesmo assim estava me perguntando? Eu sou um homem sério; não faça isso comigo.
[…]
Juiz: A que o senhor atribui sua prisão?
[…]
Barão: Vou fazer um esforço de memória para reconstituir os fatos. Ah… agora estou me lembrando. Quando fui preso, estava tomando um cafezinho. Em casa, tomava muito café. E me diziam sempre: não deve tomar tanto café, isso faz mal, um dia você se arrepende. Só posso atribuir minha prisão ao fato de estar tomando um cafezinho, o que na minha família sempre disseram que faz muito mal.
Juiz (para o escrivão): Escreva: o depoente informa que vírgula no momento vírgula não pode precisar o motivo da sua prisão ponto no entanto vírgula desconfia vírgula, não, tira a vírgula, que foi por causa do cafezinho ponto.
No dia 21 de março de 1936, o Barão foi transferido para a Casa de Correção que ficava na Rua Frei Caneca, no Centro do Rio.
Foi na Casa de Correção que o Barão começou sua carreira radiofônica. Passou a escrever monólogos e esquetes bem-humorados e deu uma contribuição original para a discussão sobre os limites do humor: nesse caso, os limites eram bem delimitados por barras de ferro e concreto armado. O conteúdo da emissora que os presos chamaram de “Rádio Libertadora” era berrado pelos locutores na ala central e ecoava por todo o presídio. Isso é o que se pode chamar de audiência cativa.
Foi na Rádio Libertadora que o Barão apresentou sua aclamada teoria das duas hipóteses:
O que nos poderia acontecer? Seríamos postos em liberdade ou continuaríamos presos. Se nos soltassem, bem: era o que desejávamos. Se ficássemos na prisão, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se não nos processassem, bem: à falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam embora. Se nos processassem, seríamos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvessem, bem: nada melhor, esperávamos. Se nos condenassem, dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve, muito bem: descansaríamos algum tempo sustentados pelo governo, depois iríamos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, seríamos anistiados, ou não seríamos. Se fôssemos anistiados, excelente: era como se não houvesse condenação. Se não nos anistiassem, cumpriríamos a sentença ou morreríamos. Se cumpríssemos a sentença, magnífico: voltaríamos para casa. Se morrêssemos, iríamos para o céu ou para o inferno. Se fôssemos para o céu, ótimo: era a suprema aspiração de cada um. E se fôssemos para o inferno? A cadeia findava aí. Realmente ignorávamos o que nos sucederia se fôssemos para o inferno. Mas ainda assim não convinha alarmar-nos, pois esta desgraça poderia chegar a qualquer pessoa, na Casa de Detenção ou fora dela.
O ano de 1938, em que deveriam ser convocadas novas eleições, se aproximava. Mas a disposição de Getúlio em largar o poder poderia ser comparada à de Zeca Pagodinho em largar a cerveja. Com medo de novos levantes, Getúlio costurou um grande acordo nacional com os integralistas, com tudo, para aumentar o seu poder de repressão. Ele teve, pelo menos, a decência de não oferecer cloroquina aos galinhas-verdes.
E qual foi a estratégia de Getúlio para ficar no poder? O favorzinho, o conchavo, o toma lá dá lá… você entendeu. O Ministério da Educação foi prometido para Plínio Salgado, líder dos galinhas-verdes, que ficou muito feliz em cacarejar seu próprio projeto de escola sem partido, que na tecla SAP quer dizer escola sem esquerda.
Porém, mais do que um motivo, Getúlio precisava de um pretexto. Então seu setor de inteligência produziu a peça de fake news mais famosa da história do Brasil: o Plano Cohen. Esse factoide ancestral pegou a mamadeira de piroca no colo, deu de alimentar, viu crescer. O plano, atribuído falsamente ao Komintern, a Terceira Internacional Comunista, falava em derrubar o governo através de greves, depredação do patrimônio público e assassinato de autoridades. Ou seja: se fosse real, seria bem mais efetivo do que uma nota de repúdio.
O documento foi redigido pelo capitão Olímpio Mourão Filho e interceptado pelos militares. Ou seja: a coisa era tão tosca que eles interceptaram o documento que eles mesmos escreveram. Mais ou menos como vender um Rolex que pertence à União e depois ter que sair por aí tentando comprá-lo de volta. Mas Getúlio foi competente em criar uma rede de fake news que manteve sua ditadura no poder e conseguiu dar o golpe. Esse capítulo da história, assim como muitos outros, Jair Bolsonaro – ai, que felicidade! – não leu.
Pouco mais de um mês depois da descoberta do Plano Cohen, começou o famigerado Estado Novo. Um nome bonito criado pelo Departamento de Batismo Aleatório dos nossos movimentos, mas que na verdade era a velha ditadura.
O que aconteceu depois daquele novembro de 1937 é um filme trash de terror que o Brasil conhece bem. Volta e meia, esse roteiro macabro torna a ser escrito. Olha só a sinopse: num país que luta contra seus demônios, uma atitude drástica é tomada. Com o Congresso fechado, o governo entrega às pressas uma Constituição que suspende as eleições. Um período de trevas se anuncia. Um perverso ditador extingue os partidos políticos, institui a tortura, persegue opositores e cassa o direito de greve.
Infelizmente, trata-se de uma franquia que deu origem a outros filmes.
Para mostrar que o patrão ficou maluco, Getúlio promoveu uma queima total. Literalmente. Mandou incendiar livros de Jorge Amado e de José Lins do Rego. Incinerou as bandeiras dos estados em uma cerimônia um tanto bizarra. É o slogan “Brasil acima de tudo” levado a ferro e fogo. Ou ainda: para evitar que nossas bandeiras virassem vermelhas, Getúlio se antecipou, ao transformá-las em… cinzas. Com o cenário controlado na porrada, aos poucos os intelectuais presos por causa da Intentona seriam libertados. O Barão foi solto em dezembro de 1936.
Uma das violências da Constituição de 1937 foi a instituição da censura prévia aos meios de comunicação. A Manha, que tinha uma circulação irregular, ganhou dois censores para conferir tudo que seria publicado. Depois de algumas edições sob essa tutela, o jornal deixou de circular. Não sem antes cravar mais uma de suas brilhantes frases: “O Estado Novo é o estado a que chegamos.”
Apparício Torelly, na pessoa física, recolheu-se numa espécie de exílio. Como tudo nele parecia piada, seu exílio foi em Bangu. Passou os anos seguintes dedicando-se à ciência, sua segunda maior paixão. Tinha obsessão em encontrar uma cura para a febre aftosa.
Em abril de 1944 – quase sete anos depois do início do Estado Novo –, uma seleção brasileira de jornalistas e escritores se reuniu para celebrar os 25 anos de jornalismo do Barão de Itararé. Estavam lá Candido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Samuel Wainer, Vinicius de Moraes e Oswald de Andrade. O evento tornou-se uma das primeiras manifestações públicas contra o Estado Novo.
Getúlio e o Estado Novo caíram. No seu lugar ergueu-se o governo de Eurico Gaspar Dutra. Após oito anos fora de circulação, A Manha voltou às bancas, em grande estilo, no dia 27 de abril de 1945. Em pouco tempo, retomou a tiragem de 60 mil exemplares e passou a contar com colaboradores como Rubem Braga, Aurélio Buarque de Holanda, José Lins do Rego e Álvaro Moreyra. Ao chegar à redação, diariamente, Apporelly topava com grupos de pessoas que lhe pediam autógrafos, conselhos ou faziam propostas de negócio.
O Barão de Itararé anunciou assim o governo de Gaspar Dutra: “Depois do governo Gegê, o Brasil terá o governo Gagá.” Sua relação com Getúlio, porém, não terminou ali. Em 1946, o agora senador Getúlio Vargas reconheceu Apporelly entre os jornalistas de plantão no Senado e o saudou: “Até tu, Barão?” A resposta foi imediata: “Tubarão é o senhor, eu sou o Barão de Itararé.”
Durante o governo Dutra, Apporelly, veja só, se lançou candidato a vereador pelo Partido Comunista. Foi eleito. Como tudo na sua vida parecia piada, seu mandato durou pouco: o Partido Comunista foi cassado meses depois.
Aparício Torelly morreu em 1971. Além do título de Barão de Itararé, ele se autoproclamou “herói de dois séculos”. Estava errado. Apporelly brilhou nos séculos XIX e XX, e seu humor continua atual por uma razão bem simples: nossa vocação – aquela do jeitinho, acordo, pacto, trato – não permitiu que a gente avançasse muito nas décadas seguintes à sua morte. O Barão de Itararé, que nasceu sob os escombros de uma batalha que não aconteceu, continua como o cronista oficial de um Brasil que não houve. Afinal, como diz uma de suas frases mais famosas: “De onde menos se espera é que não surge nada mesmo.”
Este texto foi escrito para o documentário O Brasil que não houve, sobre o Barão de Itararé, que será lançado na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano e exibido no Canal Curta! em outubro.
