Sylvie Weil em Campos do Jordão, nos anos 1940, com a galinha que foi seu primeiro amor: “As lembranças que tenho do Brasil são o jardim, o triciclo, a casinha e as canções” CRÉDITO: ACERVO PESSOAL
Uma companhia incômoda
A pensadora francesa Simone Weil, na visão de sua sobrinha
Leda Cartum | Edição 226, Julho 2025
Paris, meados de 1911. Uma menina de 2 anos, sentada no berço, folheia um livro ilustrado: um volume da série infantil clássica da Larousse, Les livres roses pour la jeunesse (Os livros cor-de-rosa para a juventude), dedicado à história dos antigos romanos. O livro é de seu irmão, dois anos e nove meses mais velho. A menina, que ainda não sabe ler, vira as páginas e examina as figuras ilustrando o grande império – o maior do Ocidente – que durou cinco séculos. É então que, de outro cômodo, os pais a escutam gritar: “É verdade que esses romanos existiram? Eu tenho medo dos romanos!”
Essa é uma das tantas anedotas que se contam sobre a vida da pensadora francesa Simone Weil. Desde a primeira infância, e durante os pouco mais de trinta anos em que esteve neste mundo, ela sempre manifestou ideias extraordinárias – extraordinárias até demais, confessou o seu pediatra, que achava que uma criança capaz de dizer as coisas ditas por ela não tinha como continuar vivendo por muito tempo. Com 3 anos, Weil ganhou um anel de presente e recusou: “Não gosto de luxo!” Com 6 anos, mandava rações de açúcar e até um ovo de Páscoa para os soldados no front da Primeira Guerra Mundial (1914-18). Também nessa época decidiu adotar um soldado, enviando para ele o dinheiro que conseguia com pequenos trabalhos domésticos.
Essa empatia radical pode não ser tão extraordinária assim em uma criança que está descobrindo o sofrimento dos outros e tomando para si as dores do mundo – a questão é que Simone Weil cresceu, e a radicalidade não abrandou. Parece mesmo ter crescido com ela. As ideias excepcionais que teve na infância mantiveram-se vivas, ganhando mais e mais camadas de consistência. O medo dos romanos que ela sentiu no berço, por exemplo, permaneceu até o fim: em 1943, pouco antes de morrer, aos 34 anos, ela escreveria que “a brutalidade dos romanos horrorizou e paralisou seus contemporâneos exatamente como a dos alemães hoje”.
Vida e pensamento raramente têm uma correspondência tão íntima como na história de Simone Weil. O que ela pensava, manifestava; e seu pensamento só tinha sentido se fosse manifestado em todos os níveis da existência. Em uma resenha para a New York Review of Books, em fevereiro de 1963, Susan Sontag a descreveu como uma pessoa “insuportavelmente idêntica às próprias ideias”:
O ascetismo fanático, o desprezo pelo prazer e pela felicidade, os nobres e ridículos gestos políticos, as elaboradas abnegações, a incansável aflição; e não excluo a singeleza, a falta de jeito físico, as enxaquecas e a tuberculose. Ninguém que ama a vida desejaria imitar a sua dedicação ao martírio, nem desejaria isso para seus filhos ou para qualquer pessoa que ama.
De fato, não era fácil ser mãe de uma pessoa assim. Selma Weil estava sempre pronta a largar tudo para salvar a filha, tentando atenuar as decisões extremas que ela tomava e protegê-la de alguma forma, mesmo que pelas costas. Simone era determinada, mas também extremamente desajeitada: tinha as mãos pequenas demais, era míope demais, magra demais, sofria de enxaquecas terríveis. E, no lugar de se conter, optava sempre por ir até o limite.
Nascida em 1909, em uma família de judeus não praticantes, de posição social confortável, ela decidiu, aos 25 anos, se tornar operária e foi trabalhar na linha de montagem da Renault. “Lá recebi para sempre a marca da escravidão, como a marcação a ferro quente que os romanos faziam na testa de seus escravos mais desprezados”, escreveu em seu diário. “Desde então, é isso que me considero: uma escrava.” Trabalhou na fábrica por quase um ano, tentando manejar a prensa pesada, enquanto suportava as próprias enxaquecas incessantes, embutindo e contando peças (a conta normalmente dava errado), até que por fim uma inflamação da pleura impediu que ela continuasse a empreitada.
Pouco depois, com a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Weil decidiu se juntar aos republicanos. Era pacifista, mas, sabendo que a guerra não podia ser evitada, entendia que era preciso viver plenamente o campo de batalha. Não durou muito ali também. Trabalhando na cozinha, um dia, por acidente, enfiou o pé num buraco cheio de óleo quente que os camaradas tinham acabado de usar para cozinhar. Foi levada para um hospital em Barcelona, e a gravidade da queimadura poderia ter sido fatal se seus pais não tivessem corrido para resgatá-la. “Se você tiver uma filha”, disse sua mãe ao poeta Jean Tortel, “reze a Deus para que ela não seja uma santa.”
“A extrema dificuldade que tenho às vezes para executar uma ação mínima é um favor que recebi”, anotou Simone Weil em um caderno que se tornou depois um de seus mais conhecidos livros, O peso e a graça. Ela entendia sua inabilidade como uma dádiva, porque, graças a isso, não dispunha sequer da possibilidade de se acostumar com o mundo. Seja lavando a louça (um amigo chegou a dizer que ela segurava um prato como quem erguia um ostensório), seja com um fuzil na mão e trajes da milícia anarquista, não havia concessões a fazer, não havia adaptação possível.
Desde a idade de 12 anos, sou habitada por uma dor situada em torno do ponto central do sistema nervoso, no ponto de junção da alma com o corpo, que dura através do sono e nunca cessou sequer por um segundo. […] Sou sustentada pela fé de que um esforço de atenção verdadeira nunca se perde, mesmo que não tenha, direta ou indiretamente, nenhum resultado visível.
Simone Weil não lançou nenhum livro em vida. Publicou artigos, alguns deles assinados com o anagrama Émile Novis (um nome masculino), e acumulou pilhas de cadernos de anotações, que foram editadas em livro aos poucos. O peso e a graça foi o primeiro, publicado quatro anos depois da sua morte, prefaciado e organizado pelo filósofo católico Gustave Thibon (o mesmo que a descreveu lavando louça). Weil entregara a ele uma dezena de cadernos escritos em Marselha, depois de ter morado na fazenda do amigo. Eles não se veriam mais.
O ano era 1942. Depois de muita insistência, ela tinha aceitado fugir com sua família para os Estados Unidos – foi preciso de fato insistir muito, porque ela resistia profundamente ao privilégio de estar longe da guerra. Tanto que não conseguiu aguentar essa situação por muito tempo: menos de um ano depois, deu um jeito de atravessar o Atlântico de volta. Aportou na Inglaterra com uma ideia obsessiva, seu “Plano de Organização de Enfermeiras da Linha de Frente”. Ela queria juntar um time de mulheres que saltariam de paraquedas nos campos de batalha para tratar os feridos e moribundos. Weil, certamente, seria uma delas. Era quase uma performance, um “experimento”: ela acreditava que a imagem de mulheres desarmadas caindo do céu, todas vestidas de branco, com a “coragem não motivada pelo impulso de matar”, poderia “atingir a imaginação [das pessoas] mais do que qualquer uma das concepções de Hitler”. Mas ela não chegou sequer à França. Contraiu uma tuberculose e, recusando-se a comer mais do que as porções oferecidas aos soldados, morreu em Ashford, na Inglaterra, em agosto de 1943.
“Eu não sou alguém a quem é bom unir o próprio destino”, escreveu Weil, em uma das últimas cartas a Gustave Thibon. “Os seres humanos sempre pressentiram mais ou menos isso; mas, não sei por que mistério, as ideias parecem ter menos discernimento.” Depois da morte da amiga, Thibon se viu com a dezena de cadernos em mãos, e com a responsabilidade de realizar o desejo de Weil de que aquelas ideias mudassem de forma e “se alojassem sob uma nova caneta”. Ele então selecionou as tantas e dispersas anotações para publicá-las em livro, dividindo-as em 39 capítulos, com títulos como O sentido do universo, Desprendimento, Descriação, Desejar sem objeto, Amor e O impossível.
No prefácio de O peso e a graça, Thibon conta como foi difícil o primeiro contato com Weil, quando ele a recebeu em sua fazenda para passar algumas semanas trabalhando no campo. “Ela discutia indefinidamente, com uma voz inflexível e monótona, e eu saía literalmente desgastado dessas reuniões insolúveis.” Mas ele esclarece: “Aos poucos, passei a constatar que esse lado impossível de seu caráter, longe de ser expressão de sua natureza profunda, traduzia nada mais do que seu eu exterior e social.”
Se a maioria das pessoas sustenta uma aparência agradável, simpática, e só com o tempo e a convivência vai revelando seus traços mais difíceis, com Weil o fenômeno era o contrário, como escreve Thibon: “Ela exteriorizava, com uma espontaneidade amedrontadora, o lado desagradável de sua natureza, mas precisava de muito tempo, muito afeto e muito pudor vencido para manifestar o que tinha de melhor.” E o melhor de Simone Weil não era pouco. Como os vulcões das regiões árticas, cuja lava se esconde sob uma camada de gelo, ela era, segundo Thibon, interiormente fundada no amor: “Eu nunca voltei a encontrar, em um ser humano, uma familiaridade como essa com os mistérios religiosos; nunca a palavra do sobrenatural surgiu tão plena de realidade quanto no contato com ela.”
Trabalhei durante alguns anos na tradução e no prefácio de O peso e a graça, que ganhou nova edição em junho pela Penguin-Companhia das Letras. Essa experiência duradoura com o texto de Simone Weil confirmou para mim o que Gustave Thibon diz ao descrevê-la: num primeiro momento (que não é exatamente breve), o contato com esse livro não é fácil. Quanto mais me debatia com a leitura demorada que a tradução exige, mais as frases soavam impenetráveis e, com frequência, doloridas demais, rígidas demais, repressoras demais: “Suspender continuamente em nós mesmos o trabalho da imaginação preenchedora de vazios”, “Só possuímos as coisas às quais renunciamos”, “É necessária uma infelicidade sem consolos. É necessário não ter consolo.”
A sensação era de bater a cabeça contra uma superfície muito dura – mas bater em câmera lenta, sabendo que iria atingir mais uma vez essa parede e mesmo assim indo voluntariamente em direção a ela. Alguma coisa misteriosa continuava me atraindo. “Atirar-se contra a pedra”, escreve Weil, “como se, a partir de uma determinada intensidade de desejo, ela devesse deixar de existir”.
Conhecer detalhes de sua biografia também foi tornando mais difícil aceitar algumas de suas posições – que, se não são inflexíveis, soam no mínimo pouco razoáveis, ou simplesmente sem sentido. Em pleno auge do nazismo, Weil escreveu coisas como: “Os judeus, esse punhado de desenraizados, causaram o desenraizamento de todo o globo terrestre. Sua participação no cristianismo fez da cristandade algo desenraizado em relação a seu próprio passado.”
A mesma aversão que Weil sentia pelos romanos, ela manifestava pelo povo judeu. A diferença é que, neste segundo caso, a aversão recaía sobre ela mesma, e sobre seus iguais, perseguidos e mortos enquanto ela estava escrevendo. Embora nunca tenha se convertido oficialmente ao cristianismo, foi nesta tradição que ela encontrou a inspiração, afastando-se de qualquer origem judaica – muitos biógrafos dizem, inclusive, que a sua criação foi tão pouco ligada a essa origem que ela só soube que era judia na adolescência. De qualquer maneira, George Steiner considerou Weil “um dos casos mais feios de cegueira e intolerância na aborrecida história do ódio judaico a si mesmo”.
Dizer que ela é cheia de contradições é ainda muito pouco. Até porque a contradição é o seu verdadeiro critério para o contato com a realidade. A chave de leitura dos textos de Weil não é óbvia porque, num mundo repleto de debates e polêmicas, estamos acostumados a aceitar ou negar aquilo que estamos lendo. Mas esses são textos que não buscam provar nada, não se inserem na lógica argumentativa linear. O pensamento se dá em outro nível – mais profundo –, no qual o que se manifesta não é a mera opinião. A opinião é muito pouco em face da verdade que ela procura. Mestre das analogias, Weil explica em La personne et le sacré (A pessoa e o sagrado):
Como um vagabundo acusado em um tribunal de ter roubado uma cenoura se coloca diante do juiz, que, sentado confortavelmente, encadeia com elegância perguntas, comentários e piadinhas, enquanto o outro não consegue sequer gaguejar, assim se apresenta a verdade diante de uma inteligência ocupada em alinhar opiniões.
T. S. Eliot escreveu que, em contato com os textos de Simone Weil, em pouco tempo percebeu que “seria necessário ler e reler toda sua obra para [levar a cabo] esse processo lento de compreensão”. Num primeiro momento, ele observou, é muito provável que fiquemos distraídos, tentando entender até que ponto concordamos e até que ponto discordamos das afirmações dela. Mas não é assim que será possível compreendê-las. “Devemos simplesmente nos expor à personalidade de uma mulher genial, de uma genialidade semelhante à dos santos.”
À medida que eu convivia com o texto sem tanta resistência (e é só pela convivência, ganhando intimidade, que as defesas vão baixando, naturalmente), percebi que uma nova operação começava a acontecer. A fronteira entre o estranhamento e o maravilhamento foi ficando cada vez mais tênue. Aos poucos, mas também subitamente, certas frases saltavam aos olhos – e emanavam beleza por si mesmas: “A inteligência não tem que encontrar nada; ela tem que limpar o terreno”, “Amar um estranho como a si mesmo implica, em contrapartida: amar a si mesmo como um estranho”, “Uma obra de arte tem um autor – no entanto, quando ela é perfeita, tem algo de essencialmente anônimo”.
É o anonimato essencial que Simone Weil sempre buscou ao longo da vida: desaparecer, estar em algum lugar sem “macular o silêncio do Céu e da Terra” com sua respiração e batimento cardíaco. E como é possível esse anonimato? Quando uma criança erra numa conta de matemática – é outra analogia que ela faz –, esse erro é dela; mas, se a criança acerta, sua pessoa está ausente da operação: “A perfeição é impessoal.” É por isso que o exercício da atenção – tanto os estudos como a prece são “ginástica da atenção” – é a única via possível para acessar o impossível: tornar-se (de fato) nada, ou (no mínimo) o mínimo.
“Se por acaso você pensar em mim de vez em quando”, diz ela, naquela mesma última carta que escreveu a Gustave Thibon, “será como pensar num livro que foi lido na sua infância”. Ela não deseja ser mais do que isso: uma lembrança remota, tranquila, que desperta algum afeto, mas não o suficiente para que venha carregado de tristeza ou de saudade.
Acontece que, no caso de Weil, sabemos que os livros de infância não foram assim tão inocentes. Já no berço, olhando ilustrações do Império Romano, ela percebeu que aquilo lhe causava medo. Sua personalidade sempre foi forte demais, excêntrica demais, e por isso mesmo chamativa demais: quando estudante, esquecia a caneta-tinteiro aberta no bolso e aparecia com o vestido cheio de manchas pretas; quando professora, chegava na sala de aula com o agasalho do avesso. Ganhou o apelido de “marciana”. E como deixar de notar esse ser de outro mundo, com seus óculos muito grossos e cabelos muito pretos? Georges Bataille, que a conheceu, a descreve como alguém que “causava mal-estar: falava lentamente, com a serenidade de um espírito estranho a tudo. […] Usava roupas pretas mal cortadas e seus cabelos curtos, crespos e despenteados pareciam asas de corvo, uma de cada lado do rosto”.
Quanto mais voltava a atenção para o próprio desaparecimento, mais atenção ela chamava para si. Talvez essa tenha sido uma das contradições que a moviam, e que nos move na direção dela até hoje: uma pessoa que se esforçou tanto para sumir que morreu quase voluntariamente antes de completar 35 anos, mas que, no lugar de evanescer, passou a se destacar ainda mais depois da morte, a ponto de ser praticamente santificada, enquanto se torna cada vez mais atual. Uma tímida espalhafatosa, cujos escritos influenciaram pelo menos cinco Prêmios Nobel de Literatura – André Gide, T. S. Eliot, Albert Camus, Czesław Miłosz e Seamus Heaney – e dois papas – João XXIII e Paulo VI –, além de inúmeros pensadores, filósofos, ativistas políticos e poetas de ontem e de hoje.
O escritor gaúcho Daniel Galera teve o primeiro contato com Simone Weil pelas frases que pescava no Tumblr, e demorou para enfim começar a ler O peso e a graça. “Gosto muito de livros que termino e tenho a sensação de que entendi 30%”, ele me disse. Agora está começando a escrever um romance cujo ponto de partida é o estranho encontro de Weil com Georges Bataille. Já Patti Smith, no seu livro Devoção, narra a busca pelo túmulo de Weil no cemitério de Ashford, e constrói a protagonista do livro a partir da pensadora francesa. A escritora Zadie Smith, em entrevista recente, revelou que a pesquisa para seu próximo romance está centrada em Weil. “Ela está no ar no momento”, disse ao Washington Post. “Sua personalidade é extrema. Ela é um monte de coisas ao mesmo tempo.”
“Não é possível assumir a tarefa de uma santa. Essa é uma herança de outro tipo, da qual não se consegue escapar – a menos que você vá viver na Patagônia ou entre os lapões.” Isso quem diz é a sobrinha de Simone Weil, Sylvie, em seu livro Chez les Weil (“Na casa dos Weil”, ainda não traduzido para o português).
Sylvie Weil vive em Nova York, cidade onde nasceu. Ela chegou a conhecer a tia ainda muito criança, mas não se lembra dela. Em 1942, quando a família estava exilada nos Estados Unidos, o nascimento de Sylvie foi um consolo. Simone, para a surpresa de todos – já que era tão pouco afeita a carinhos que, normalmente, quando tocada por alguém, reagia como se tivesse sido picada por uma cobra –, se apaixonou pela bebê, foi carinhosa como nunca tinha sido com ninguém. Falava da criança sem parar. Mas logo depois que Sylvie nasceu, Simone partiu para a Inglaterra, para tentar realizar seu plano das enfermeiras paraquedistas, e nunca mais voltou. Na correspondência com os pais e o irmão, seguiu falando da sobrinha: “Eu lancei um feitiço nela… vai dar para notar daqui a alguns anos.” Nessas cartas cheias de mentiras para que não soubessem que ela estava doente, depois internada, depois à beira da morte, as verdades eram principalmente a respeito de “Sylvie, do sorriso ensolarado”, a quem a tia enviava seus fondest kisses… “Vocês agora têm outra fonte de conforto.”
O pai de Sylvie é o irmão mais velho de Simone, André Weil – o dono do livro de ilustrações romanas que ela folheava no berço, aos 2 anos. E, se Simone manifestou ideias extraordinárias desde aquela época, André não foi diferente. As brincadeiras dos irmãos eram, por exemplo, recitar Racine e Corneille, olhando fixamente um para o outro: se um dos dois errasse uma palavra ou mesmo hesitasse, levava um tapa na cara. Foi André quem ensinou Simone a ler. Ele chegava da escola e compartilhava tudo o que tinha aprendido com a irmã mais nova: astronomia, aritmética, poesia… Cresceram cultivando um mundo secreto.
Foi André também quem fez com que Simone sentisse que estava sempre aquém do que poderia ser: na adolescência, ela se desesperava por causa da “mediocridade de suas faculdades naturais”, quando comparadas aos “dons extraordinários” do irmão, “que teve uma infância e uma juventude comparáveis às de Pascal”. André descobriu um livro de álgebra aos 9 anos, e a partir daí dedicou a vida inteira a isso. Num perfil da Scientific American de 1994, poucos anos antes de sua morte, André Weil foi chamado de “o último matemático universal”.
“O gênio era bicéfalo”, diz Sylvie Weil, em sua biografia:
Meu pai tinha um duplo, um duplo feminino, um duplo morto, um duplo fantasma. Pois, sim, além de ser uma santa, minha tia era um duplo de meu pai, com quem se parecia como se fossem gêmeos. Duplo onipresente, como só pode ser um fantasma que não tem mais nada para fazer. Que não milita mais, não ensina mais, não parte mais para a guerra na Espanha, não tem mais encontros impressionantes com Cristo e, no entanto, faz tudo isso o tempo todo, muito melhor do que os vivos fariam.
Na adolescência, quando se mudou para Paris e morou no mesmo apartamento em que o pai e a tia cresceram, Sylvie às vezes se levantava de madrugada e abria às escondidas o armário de manuscritos. Era ali que a avó Selma mantinha guardadas as suas relíquias: caixas e mais caixas em que se empilhavam cadernos e folhas de papel cobertas pela caligrafia aplicada da filha morta. Sylvie lia e relia as cartas e se perguntava se o feitiço que Simone dizia ter lançado nela já tinha se manifestado. Mas que tipo de feitiço seria esse? “De pijama, agachada ou sentada no chão de pernas cruzadas, eu lia a frase O próprio Cristo desceu e me tomou. Eu pensava em garotos, ela era tomada por Cristo.”
A mulher sorridente que vejo na tela do computador me deixa, num primeiro instante, atordoada. Passei tanto tempo convivendo com as fotos e os textos de Simone Weil, e agora esse rosto de 82 anos parece ter dado vida e idade a um fantasma eternamente jovem. Sei que essa sensação não tem nada de original. Desde que nasceu, Sylvie escuta exclamações sobre como ela é idêntica à tia. Primeiro, dos próprios avós, que punham a neta no colo e mostravam fotos da filha perdida: “Essa é Simone, e vocês são muito parecidas.” Depois, na adolescência, de quase todo mundo, inclusive desconhecidos, que se aproximavam para encostar nos seus cabelos que eram “exatamente como os dela” (“Acredito que os homens não são tão sujeitos a esse tipo de fetichismo”, escreveu Sylvie em seu livro):
Simone era a jovem tia morta alguns meses depois que eu nasci, aquela com quem eu parecia. […] Seus olhos míopes, como os meus, me sorriam por trás dos óculos nas fotos que cercaram a minha infância e adolescência. Eu a encontrava com frequência, em momentos inesperados, na vitrine de uma livraria, na capa de um livro, às vezes até em cartazes. Seus cabelos muito pretos, como os meus, armados como os meus, ondulados como os meus.
A minha primeira impressão se desfez em segundos. É só buscar os nomes de Simone e de Sylvie Weil no Google para notar a diferença evidente, para além do fato de que o tempo passou para uma e não para outra. Em praticamente todas as suas fotos, o rosto de Simone mantém uma expressão ambígua, entre séria e provocativa, o olhar algo irônico, a boca fechada, no máximo com o canto do lábio puxado, prometendo um sorriso que não vai se cumprir. Sylvie, por sua vez, com o corte de cabelo de fato igual ao da tia, está sempre mostrando o máximo possível de dentes, sorrindo plenamente. Simpática, engraçada e rápida, ela não tem nada da “voz inflexível e monótona” descrita por Thibon, muito menos a natureza exterior desagradável. “Era difícil”, ela me diz, “parecer tanto com Simone, e ver que todo mundo se extasiava com essa semelhança. Eu, aos 15 ou 16 anos, queria parecer com Brigitte Bardot.”
Sylvie foi quem sugeriu que falássemos por teleconferência, depois que escrevi um longo e-mail a ela, contando do impacto que senti ao ler seu livro. “Quer dizer que você é mais uma apaixonada pela minha querida tia?” Ela já recebeu incontáveis mensagens de leitores devotos de Simone, pessoas que desejam que ela leia os livros, as teses, as peças de teatro, os poemas que escreveram, inspiradas em sua tia. Houve até mesmo um estranho que se aproximou de Sylvie e, como se estivesse falando com uma velha amiga, disse que era um “gêmeo cosmológico” de Simone Weil. “Todos são tão próximos dela! Mais do que eu. Não leio seus textos há muito tempo. Eu não sou filósofa”, confessa Sylvie, rindo.
“Os livros dela, depois de publicados, impressos, não me interessam muito, mas a versão deles que foi copiada pela mão do meu avô ou da minha avó ressuscitava a minha infância na Rua Auguste Comte”, escreveu Sylvie para a revista L’Archive. “Para mim, encontrar essas páginas cheias da caligrafia familiar, essas folhas leves que antigamente eu espalhava em volta de mim, sentada no chão diante do armário de manuscritos, não era consultar arquivos, escrutinar o seu conteúdo, mas encontrar seres de carne e osso dos quais eu tinha sido separada, era ouvir a música das vozes que cercaram minha infância. Eu acariciava essas cartas, eu sorria para elas! Por pouco não as beijei, mas isso não se faz na Biblioteca Nacional!”
Lendo essa biografia familiar, resultado também das pesquisas que Sylvie Weil fez na Biblioteca Nacional da França, em Paris, eu consegui ver Simone como nunca tinha visto, porque pelos olhos da sobrinha. Mas fui me interessando cada vez mais pela própria Sylvie, pelo legado impossível que ela carrega e pelo modo como foi aprendendo a lidar com isso ao longo da vida. Sylvie conta que cresceu à sombra de Simone Weil, tanto na intimidade, por ter nascido com a missão ingrata de preencher o vazio que ela deixou na família, quanto publicamente, já que a figura de sua tia ganhava cada vez mais um caráter sagrado. “Procuraram tanto por Simone na minha decepcionante pessoa!” Sylvie se tornou uma espécie de “tíbia da santa”, cujo papel principal não era mais do que se deixar “ser tocada, esfregada, abraçada”, e se sentir satisfeita nesse lugar de intermediária. Mas, no seu livro, conta que negou mais de uma vez o próprio parentesco, sobretudo porque, na adolescência, se sentia dividida entre o orgulho e a vergonha, como se tivesse um defeito de nascença.
Foi com a maturidade, ao se tornar mais velha do que Simone nunca foi, que Sylvie se conciliou com uma história que ao mesmo tempo é sua e não é – como são todas as histórias de família. Tornou-se também escritora e professora (de literatura francesa), assim como a tia e o pai – André Weil foi professor universitário e publicou diversos livros, inclusive uma autobiografia. “É que eu não tenho imaginação”, ela me diz. Hoje Sylvie se orgulha de não ter ficado louca, mesmo carregando esse espólio de gênios. Além de Chez les Weil, publicou mais de dez romances.
“Eu fico triste de não saber mais falar português” – é das primeiras coisas que Sylvie Weil comenta, quando começamos a conversar (em francês). Isso porque os primeiros livros infantis de que se lembra são brasileiros – e que guarda consigo até hoje. Ela me enviou fotos de alguns deles, a maior parte clássicos para crianças da editora Melhoramentos, como João Felpudo (de Heinrich Hoffmann), O fantasma lambão e outras histórias e Juca e Chico (ambos de Wilhelm Busch), Sinhaninha e Maricota, de Hulda von Levetzow (“Eu adorava esse, sobre duas meninas horríveis, criações de alemães”, comentou), além de alguns de autores brasileiros, como A gauchita e Baianinha (os dois de Lourenço Filho).
Um dos motivos que me levaram a escrever para Sylvie, e provavelmente fez com que ela sugerisse tão prontamente que nos falássemos, foi que, lendo seu livro, descobri a relação da família Weil com o Brasil.
Em 1944, André Weil era um professor sobrecarregado e mal remunerado em Bethlehem, na Pensilvânia, sem a menor possibilidade de voltar para a França, já que a guerra ainda não tinha terminado. Simone tinha morrido um ano antes. Selma, a mãe dos dois, desde a perda da filha falava com frequência em tirar a própria vida. Cabia a André encontrar uma direção para uma família rachada, exilada e com um bebê de pouco mais do que 1 ano para cuidar.
Naquele período, conheceu Claude Lévi-Strauss em Nova York: os dois ficaram amigos, e André o ajudou a resolver um “cálculo combinatório para as regras de casamento de um povo australiano”, nas palavras do próprio Weil. Mais do que isso, a análise matemática mostrou – como Lévi-Strauss declarou em uma entrevista – a aplicação possível da antropologia estrutural criada por ele.
Foi graças a essa amizade que André ficou sabendo sobre a Universidade de São Paulo, fundada dez anos antes, da qual Lévi-Strauss tinha sido um dos primeiros professores na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Havia então uma cadeira vaga na área de matemática, pois muitos dos professores italianos que lecionavam desde a fundação estavam deixando a USP depois que o Brasil declarara guerra ao Eixo.
Ir para o Brasil parecia a melhor solução naquele momento. “Mas então aconteceu uma coisa estranha: como era um período de guerra, precisávamos de uma autorização dos Estados Unidos para sair do país”, me conta Sylvie. “E os americanos não queriam permitir que André fosse para o Brasil. Estávamos em Nova Orleans esperando, eu ainda era um bebê… Os Estados Unidos queriam que São Paulo contratasse um matemático americano. Mas São Paulo respondeu: ‘Não, não há vagas para um americano, só queremos André Weil.’ Os americanos finalmente cederam, e toda a família partiu. Embarcamos no navio argentino Río Tunuyán e chegamos em São Paulo em janeiro de 1945.”
A família inteira – André e sua mulher, Eveline, a bebê Sylvie e seu meio-irmão Alain, filho do primeiro casamento da mãe, e os avós Selma e Bernard – instalou-se na Rua Bélgica, no Jardim Europa, em uma “casa modesta, mas cômoda, com um jardim agradável, uma grande mimosa e rosas que floresciam o ano todo”, escreveu André em sua autobiografia, Souvenirs d’apprentissage (Lembranças do aprendizado). “Que contraste com o nosso triste apartamento de Bethlehem!”
André Weil foi professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras durante dois anos. Dele e de outros estrangeiros convidados para lecionar na USP, esperava-se que consolidassem um centro de pesquisa em matemática na universidade. Junto com Oscar Zariski, um colega da Bielorrússia, André Weil participou da Sociedade de Matemática de São Paulo e foi um dos responsáveis por trazer uma perspectiva mais ampla e estruturalista para a área.
“As lembranças que tenho do Brasil poderiam ser as da sua avó…”, diz Sylvie, como se justificando para mim, quando pergunto a respeito. “São as lembranças de uma criança de 5 anos na São Paulo do final dos anos 1940: o jardim, o triciclo, a casinha [ela fala essa palavra em português] e as canções que eu aprendia… André sempre foi muito grato à cidade de São Paulo, que ofereceu casa e trabalho quando ele não tinha nada. Meus pais adoraram o Brasil, a vida deles no Brasil, e fizeram amigos para a vida toda.”
Mas o matemático sabia que, cedo ou tarde, deveria ceder a cadeira a um brasileiro, e nunca tinha pensado em viver definitivamente por aqui. No outono de 1947, quando surgiu a oportunidade, assumiu um cargo na Universidade de Chicago, e deixou o Brasil com a mulher e os filhos, levando 1 kg de café na mala. Selma e Bernard foram para a Suíça. Sylvie, que tinha 5 anos na época e era quem melhor tinha aprendido o português na família, nunca mais voltou ao Brasil.
“Minha família ficou desenraizada. A morte de Simone deixou uma ferida incurável. E a partida do Brasil foi o rompimento do qual nunca me recuperei”, diz Sylvie. A partir de então, as perdas e separações acentuaram a crise entre os membros da família Weil, que não superaram seus conflitos nem mesmo quando todos se reuniram alguns anos depois, no antigo apartamento de Paris. Sylvie conta que as disputas afloraram já quando estavam a caminho do Brasil, e só cresceram depois. “O primeiro choque acontece no navio Río Tunuyán. Mime [apelido de Selma] não me tira do colo, e não quer que eu me aproxime de outras crianças. André me arranca dos braços de sua mãe e me dá, aos gritos, a Eveline. Biri [apelido de Bernard] xinga André, e diz que eu sou a única alegria que lhes resta neste mundo”, escreve Sylvie em seu livro de memórias. O reencontro na França, no começo dos anos 1950, acarreta entre os pais e avós uma “longa série de brigas, disputas, processos, trevas, reconciliações seguidas de novas brigas, que vai durar toda a minha infância e muito depois, até a morte de Selma, em novembro de 1965”.
Sylvie acrescenta no livro: “No centro da querela, é claro, a desaparecida: Simone. Para começar, havia eu, a bebê legada por ela a seus pais. Mas logo a querela se estendeu aos manuscritos.” Aqueles cadernos e mais cadernos de capa preta, sem pauta – cheios de pensamentos, citações em grego, latim ou sânscrito, passagens dos Evangelhos, meditações, anotações pessoais misturadas a menções à Ilíada –, que os pais de Simone levaram nas malas dos Estados Unidos para o Brasil, depois para a Suíça, depois para a França, e dedicaram a maior parte do resto de suas vidas a copiar em outros cadernos, cada um em uma ponta da mesa, a ponto de Sylvie achar que esse era o trabalho deles:
Eu os vejo, Bernard e Selma, debruçados sobre os cadernos, os óculos apoiados no nariz, como dois velhos bons alunos, o perfil agudo de minha avó, sua franja grisalha e tesa cortada reta na testa, sem a menor afetação, e o perfil mais doce de meu avô, seu bigode ainda espesso que pinicava quando ele vinha me dar um beijo.
E esse era, de fato, o verdadeiro trabalho dos dois. Desde a perda da filha, eles viviam inteiramente voltados à publicação dos manuscritos. Mas André, que se considerava o mais próximo de Simone, entendia que deveria participar desse processo. Não permitia que nada fosse feito sem a sua anuência. Selma e Bernard queriam ceder a sua transcrição dos manuscritos à Biblioteca Nacional da França. André se opôs. Por causa desse embate, o conjunto dos textos não foi publicado até hoje. Além disso, durante alguns anos, houve sequestros de manuscritos: André chegou a invadir o apartamento dos pais e levar cadernos consigo, mas eles foram atrás e conseguiram recuperá-los; os textos foram levados para a Biblioteca Nacional, mas voltaram ao apartamento da Rua Auguste Comte, e assim por diante.
Sylvie viu o pai romper relações com os avós, e ela própria acabou fazendo o mesmo. “Não posso dar razão nem a uns nem a outros. Só posso dizer que, em nome de Simone, eles conseguiram dar à minha infância um gosto amargo”, ela conclui em Chez les Weil.
“Pai, em nome de Cristo, me conceda isto. Que eu seja incapaz de corresponder a qualquer uma das minhas vontades, a qualquer movimento do corpo, qualquer esboço de movimento, como um paralítico completo. Que eu seja incapaz de receber qualquer sensação, como um cego, surdo e privado dos três outros sentidos.” Em algum momento, Selma e Bernard copiaram estas palavras, escritas em um dos cadernos, e depois publicadas em 1950 no livro La connaissance surnaturelle (Conhecimento sobrenatural). Simone Weil, que buscou ao longo da vida uma forma de se descriar, se desenraizar, “se exilar de toda pátria terrestre”, agora estava encarnada nos papéis que deixou para trás. E era lançada de um lado para o outro, sem qualquer poder de ação.
“Um mês antes da sua morte”, escreve Sylvie em seu livro, em uma das passagens nas quais se dirige diretamente à tia, “você escreveu que só os seus pais poderiam ‘refazer’ você. Sua morte desfez sua família para sempre. Nós vivemos desfeitos.” Como perdoá-la, depois de tudo isso? Como se reconciliar com a tia que não conheceu, mas se tornou um fantasma? Com alguém que, ao desaparecer, e justamente por ter desaparecido, assombra sua vida com mais presença do que qualquer outra pessoa?
Depois de observar por algum tempo a trajetória de Simone Weil e os conflitos criados por sua partida precoce, é fácil assumir uma posição cínica. Assim como sua figura foi logo considerada santa ou gênio, ou ambos, também pode ser vista como ridícula. Alguns artigos recentes a leem sobretudo nessa chave: a de uma menina mimada, cheia de privilégios, que esquia e joga tênis, que se recusa a comer por capricho, e decide trabalhar como operária, ou lutar na Guerra Civil Espanhola, mas nunca dá conta do recado e tem sempre os pais – principalmente a mãe – na sua cola, resolvendo os problemas que ela mesma criou. A escritora Judith Thurman, no artigo The supreme contradictions of Simone Weil, publicado na revista New Yorker (em 2 de setembro de 2024), observa: “Apesar de preferir casebres, os hotéis luxuosos não eram estranhos para ela. Como amava o mar, a família costumava passar verões na praia. Eles estavam em Portugal quando ela teve a primeira experiência mística e em Nice quando Hitler invadiu a Polônia.”
Flannery O’Connor, outra escritora intrigada pela vida dessa “mulher extraordinária”, confessa que “muito do que ela escreve é ridículo para mim”. Só que O’Connor não se contenta com o cinismo quando olha para Simone Weil. Ela sabe que o ridículo e o trágico são dois lados da mesma moeda:
É a vida mais cômica sobre a qual já li e a mais verdadeiramente trágica e terrível. Se eu vivesse tempo suficiente e me desenvolvesse como artista na medida adequada, gostaria de escrever um romance cômico sobre uma mulher – e o que é mais cômico e terrível do que a mulher intelectual e orgulhosa, angular, se aproximando de Deus centímetro por centímetro com os dentes triturados?
As contradições se multiplicam à medida que olhamos com mais atenção para a história dessa vida breve e repleta de acontecimentos, trágica e cômica, tímida e espalhafatosa. E, se ficamos na superfície dessas contradições, é fácil percebê-las apenas com ironia. Mas é sempre bom lembrar que vida e pensamento se entrelaçam visceralmente aqui, e por isso seria redutivo observar as ações desastradas e certeiras de Simone Weil sem considerar as palavras que escreveu obsessivamente. Diante do desconforto que ela causa, melhor é recorrer às suas anotações: “A contradição é a ponta da pirâmide”, “A contradição, por si mesma, é a prova de que não somos tudo”.
“Estar continuamente disposto a admitir que o outro é uma coisa muito diferente daquilo que lemos quando ele está aqui (ou quando pensamos nele)”, ela escreve no capítulo Leituras, de O peso e a graça. “Cada ser grita em silêncio, pedindo para ser lido de outra forma.” Weil sempre acreditou no potencial de todo e qualquer ser humano para o extraordinário. Gustave Thibon conta que uma vez ela pensou adivinhar uma vocação intelectual em uma jovem operária, e ficou horas dando aulas sobre os Upanixades para a moça, que estava totalmente entediada, mas permanecia quieta, ouvindo com educação. “Uma espécie de igualitarismo superior fazia com que ela [Simone Weil] tomasse a própria altitude como ponto de referência universal”, diz Thibon.
Essa altitude pode ser entendida em sentido quase literal, apesar de sabermos que Simone Weil era muito pequena e muito magra: de qualquer maneira, seu ponto de vista é sempre do alto e de fora. É como se ela estivesse vendo as coisas da beira do mundo, sempre prestes a escapar para o outro lado. E, como ela se sentia no limite, precisava de fato ter a experiência desse limite. Era preciso encontrar o limite dentro do mundo, na sociedade. Não bastava observar os operários, os camponeses ou os soldados no campo de batalha. Para Weil, era preciso viver a vida deles.
A professora e escritora Ecléa Bosi, organizadora do livro A condição operária e outros estudos sobre a opressão (a ser reeditado pela Editora 34), de Simone Weil, escreveu em um artigo que gostava de repetir aos seus alunos:
A permanência de Simone Weil na fábrica não foi eficaz: nada descobriu que melhorasse a linha de montagem, não renovou a teoria marxista, nem mudou a história das classes trabalhadoras. Mas criou um extraordinário acontecimento ético. Teve o sentido que Gandhi chamava de Yajna, “o grande sacrifício” em sânscrito: uma ação que favorece muitas pessoas, uma ação exemplar desligada de todo pagamento ou recompensa para quem agiu.
São esses extraordinários acontecimentos éticos que se multiplicam tanto quanto as contradições quando olhamos ainda mais atentamente para essa vida. Simone Weil ia até onde era possível ir – e se aproximava sempre do impossível. Não tinha pudor em suplicar a Charles de Gaulle para que adotasse seu plano de lançar enfermeiras de paraquedas na linha de frente (foi chamada por ele de louca). Sua militância era tão radical que nem os direitos humanos e a democracia eram suficientes – noções que, segundo ela, vêm de Roma. As reivindicações dos sindicatos operários – essa é mais uma de suas analogias – são como uma negociação com o Diabo: imaginemos que o Diabo estivesse comprando a alma de um infeliz e alguém negociasse, dizendo que ele está pagando um preço muito baixo, e que o objeto poderia valer pelo menos o dobro. É isso o que ocorre, segundo Weil, com “os sindicatos, os partidos, os intelectuais”: é o que ela chama de uma “farsa sinistra”. É preciso reivindicar algo que vai muito além, formular as “verdades indispensáveis”.
“Palavras como Deus e verdade, justiça, amor ou bem são companheiros desconfortáveis. Palavras como direito e democracia são mais cômodas.” Lendo (e relendo) Simone Weil, nos vemos convivendo cada vez mais de perto com esses companheiros desconfortáveis. Somos lançados em outro nível, no qual o que interessa não é a opinião, e mesmo a inteligência vai perdendo seu lugar de importância. “A diferença entre homens mais ou menos inteligentes”, diz ela em La personne et le sacré, “é como a diferença entre criminosos perpetuamente condenados à prisão, cujas celas são maiores ou menores. Um homem inteligente e orgulhoso da sua inteligência se parece com um condenado orgulhoso de ter uma cela grande.”
“Eu tive essa experiência bizarra de ver Simone”, me diz Sylvie, quando enfim faço a pergunta que estava guardando desde o começo: “Que história é essa de sua tia aparecer num túnel branco?” Ela fala agora um pouco envergonhada, mas dá para perceber que não consegue conter o entusiasmo. “É verdade, eu não ousaria inventar isso, porque não sou nem um pouco espiritualista. Não é uma coisa que a gente saia por aí contando para os amigos, que a gente ficou doente e viu a tia num túnel. Mas isso mudou tudo.”
Eu já tinha lido sobre isso em detalhes no livro Chez les Weil. Como Sylvie escreve, ela era na época uma jovem professora em uma universidade em Vermont, nos Estados Unidos. Houve uma pequena epidemia de pneumonia na região, provocada por um tipo de vírus pouco conhecido. Sylvie foi a única hospitalizada: passou semanas delirando, não conseguia mais falar inglês, e chegou a estar à beira da morte.
“Ainda acho meio ridículo contar que Simone Weil, sim, minha tia, apareceu para mim no fundo de um túnel branco”, escreve Sylvie em seu livro. “Eu a via muito bem, uma silhueta sombria envolvida numa capa, como nas fotos. Ela me convidava para acompanhá-la, não sei exatamente o que dizia, mas suas razões eram sedutoras. Falava comigo sem afeto, como se a questão fosse resolver um problema puramente intelectual. Eu tinha medo de que ela ganhasse, nesse terreno no qual sua superioridade não deixava nenhuma dúvida, e sentia que precisava lutar com todas as minhas forças. Ainda assim, eu não hesitava, e mais tarde lembrei muito bem das razões que dei a ela para não segui-la. Poderia ter sido o meu argumento de choque, aquele contra o qual ela não tinha nenhuma arma – meu filho de 8 anos que eu amava apaixonadamente e que precisava de mim. Mas não foi bem isso. Mais tarde, me senti culpada por não ter pensado nesse argumento tão honroso, mas sim de ter explicado longamente o quanto eu amava o silêncio e o céu rosa das tardes de inverno, e as bétulas brancas na neve cintilante. O quanto eu amava viver. Acho até que fui franca a ponto de dizer a ela que eu amava o meu corpo e o prazer que meu corpo me dava.”
Os pais de Sylvie só ficaram sabendo de tudo isso quando ela já tinha se recuperado e estava fora de perigo. E foi Eveline, sua mãe, quem se deu conta, emocionada: ao cair doente, Sylvie tinha exatamente a mesma idade de Simone ao morrer. André deu de ombros. “Mas isso mudou tudo. Eu podia finalmente ler Simone: fiquei mais velha do que ela”, reforça Sylvie na conversa que tivemos. “Passei a minha lenta convalescência lendo seus cadernos, suas últimas cartas. Eu me dei conta de que ela morreu aos 34 anos. Imagine: era quase uma adolescente! É uma questão de não ter tido tempo. O seu espírito ainda era muito jovem.”
Pensando nisso, eu me lembro de um trecho do livro A mulher calada, da ensaísta Janet Malcolm, sobre a morte precoce e voluntária da poeta Sylvia Plath:
Uma pessoa que morre aos 30 anos, no meio de uma separação tumultuada, fica para sempre fixada no tumulto. Para os leitores de sua poesia e de sua biografia, Sylvia Plath será sempre jovem e implacável com a infidelidade de [seu ex-marido] Ted Hughes. Nunca chegará à idade em que as dificuldades da vida de um adulto jovem podem ser rememoradas com uma tolerância pesarosa, sem ódio ou desejo de vingança.
Simone Weil é também um exemplo de alguém que ficou para sempre fixada no tumulto. Não houve tempo para que a maturidade agisse lentamente, ao longo das décadas, equilibrando os extremos pouco a pouco, sem necessariamente nivelá-los ou apagá-los. Ficou fixado nela também o tumulto daquele momento do mundo. Uma pessoa com uma vida tão curta, mas que atravessou de perto duas guerras mundiais, visitou a Alemanha logo antes de Hitler chegar ao poder, trabalhou como operária na Renault um ano antes de Charles Chaplin lançar Tempos modernos (1936), foi à Espanha durante a Guerra Civil, atravessou o Atlântico duas vezes no meio da Segunda Guerra. Lê-la é entrar em contato com o testemunho direto de tudo isso, feito por alguém que pensou seriamente sobre cada uma das experiências que teve e as transformou em matéria de seus escritos e de sua existência.
O tumulto ficou fixado também em Sylvie Weil, que nasceu bem no meio dessa história e cresceu lendo cartas do passado, nas quais a tia dizia ter lançado um feitiço nela. Foi preciso encontrar as formas possíveis de movimentar dentro de si esse tumulto por tanto tempo congelado, de permitir que a idade avançasse para conquistar a tal tolerância pesarosa da rememoração.
Sylvie Weil nasceu nos Estados Unidos, passou parte da infância no Brasil, cresceu e estudou na França, mas diz só ter encontrado a sua verdadeira “casa” (ela faz questão de repetir para mim essa palavra em português) num minúsculo apartamento do Bronx, em Nova York, ao se casar com um russo-americano profundamente ligado à sua origem judaica. A partir daí, ela começou também a resgatar as próprias histórias familiares, dos seus antepassados mais distantes. “Eu fui aprender hebraico, fui ver quem eram meus bisavós, meus tataravós”, ela conta. “O judaísmo começou a me interessar cada vez mais. Os biógrafos dizem que Simone e André só ficaram sabendo que eram judeus na adolescência. Que meus avós eram completamente agnósticos. Mas não acredito nisso. Os dois irmãos eram inteligentes demais para não terem percebido a própria origem. E meus avós se casaram na sinagoga. Na sinagoga ortodoxa!”
Para a sua pesquisa, Sylvie aproveitou os arquivos da biblioteca do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde seu pai lecionou durante mais de vinte anos, até se aposentar. Ela tirava do instituto livros talmúdicos ou sobre grandes rabinos da história. “Minha assinatura é exatamente igual à de André, só trocando o A por um S. Porque, quando eu estava na escola, era assim que eu podia assinar os meus boletins no lugar dele”, ela recorda. “Então eu tirava os livros da biblioteca com a assinatura dele. E ele ficava encantado com isso. Me dizia: ‘Se alguém um dia for escrever a minha biografia, vai dizer que, no fim da vida, André Weil se converteu ao judaísmo, que ele lia o Talmude.’” Depois de um bom tempo estudando de perto a história do rabino do século XI Schlomo Yitzhaki, conhecido pelo acrônimo Rashi, autor dos primeiros comentários à Torá, Sylvie escreveu o livro histórico-biográfico Les vendanges de Rachi (As colheitas de Rashi). E fez também uma introdução – chamada Simone Weil e os rabis – à edição americana de Espera de Deus, mais um livro póstumo de sua tia: “Eu queria fazê-la entender o quão próximas as suas preocupações estavam daquelas dos rabinos do Talmude.”
Estamos conversando há quase duas horas, e Sylvie me conta como costuma cozinhar gefilte fish, bolinho de peixe frio com uma rodela de cenoura no topo, prato tipicamente judaico, mas com infinitas receitas diferentes – cada família tem a sua própria, que é sempre “a melhor de todas”. Depois, ela sorri e me diz: “Agora que tenho bem mais do que o dobro da idade de Simone, vejo que tudo foi levado a sério demais. Meu Deus, como tudo foi levado a sério! A história de que ela não suportava o judaísmo… Meu pai, muito mais tarde, vendo as minhas pesquisas, um dia me disse: ‘Acredito que, se minha irmã tivesse sobrevivido, seria isso que ela estaria estudando agora.’”
O sorriso e a voz de Sylvie Weil desaparecem da tela ao fim da conversa, e eu fico um tempo deixando o silêncio ressoar. E o que me vem à cabeça é o poema que João Cabral de Melo Neto escreveu em homenagem a Clarice Lispector:
Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.
Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.
Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?
Assim como Clarice, Simone Weil está entre as mulheres que mais se levaram a sério no século XX. A pensadora francesa também passou a vida insistindo em falar na morte, sempre que tinha a oportunidade e mesmo quando não tinha – e falar na morte, aqui, é falar verdadeiramente da vida. Em uma de suas últimas cartas para a mãe, escrita de Londres, ela diz ter certeza de que guarda consigo uma reserva de ouro puro que deve ser transmitida, mas que não consegue encontrar ninguém para recebê-la. É um bloco maciço, que se torna cada vez mais compacto e que não pode ser distribuído em pedaços pequenos:
Alguns sentem confusamente a presença de alguma coisa. Mas eles se contentam em emitir epítetos elogiosos sobre a minha inteligência e ficam com a consciência satisfeita. Quando me escutam ou me leem, é com a mesma atenção apressada que se presta a qualquer outra coisa, decidindo interiormente: “Estou de acordo com isso”, “não estou de acordo com aquilo”, “isso é impressionante”, “isso é completamente louco”. Concluem: “É muito interessante”, e mudam de assunto.
Realmente: é bem mais cômodo mudar de assunto. Não é nada fácil o que Simone Weil exige de nós. Não é fácil conviver com alguém que volta o tempo todo a falar na morte. Sylvie talvez seja aquela que mais sabe disso na pele. Mas aceitar a presença dessa companhia desconfortável, ler os seus textos, é aos poucos – e cada vez mais – abrir espaço para uma reserva de ouro puro, muito firme e muito frágil, com muito peso e muita graça. E, com o passar do tempo, o ouro pode até brilhar mais por não ser levado assim tão a sério.
