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    Eduardo, em carro alugado, em Deerfield Beach: os governadores bolsonaristas “são carniceiros que querem os restos do espólio de Jair Bolsonaro. Se eu for candidato, explodo o debate” CRÉDITO: JOÃO BATISTA JR._2025

anais da sabotagem

Pai (e eu) acima de tudo

Como Eduardo Bolsonaro vive e opera nos Estados Unidos

João Batista Jr., de Washington | Edição 228, Setembro 2025

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Depois de duas semanas no Texas, o deputado Eduardo Bolsonaro estava desconfiado de que, se voltasse para o Brasil naquele mês de março, acabaria preso. Enquanto pensava no que fazer, perdeu a passagem de retorno e, a certa altura, ligou para o seu pai para se aconselhar. Segundo sua própria descrição da conversa, deu-se o seguinte: “Eu falei: ‘Pai, você me garante que eu não vou ser preso? Você não acha que tem 1%, 2%, 3% de chance?” O pai, cujo passaporte está retido desde fevereiro do ano passado para evitar uma fuga ao exterior, disse que não tinha garantia alguma. Eduardo, então, começou a especular sobre o que aconteceria se acabasse preso: “Eu disse: ‘E quem vai me tirar da cadeia? O senhor vai obrigar meus filhos e minha mulher a me visitarem na cadeia? E quando é que eu vou sair de lá?’”

Eduardo rememorou a conversa com o ex-presidente Jair Bolsonaro durante um almoço em Washington, no dia 23 de julho. O deputado, que está desde 27 de fevereiro nos Estados Unidos, aceitou que eu o acompanhasse durante cinco dias. Neste período, testemunhei Eduardo dando entrevistas, atendendo aliados, discursando em eventos, gravando vídeos para as redes sociais. Conversamos em saguão de hotel, restaurante, lanchonete, salas de embarque de aeroporto, auditório de universidade e salas do Capitólio, o Congresso americano. Fizemos dois voos – um de Washington para Dallas, outro de Dallas para Miami. Em quase toda a conversa, o deputado fala do pai, do ministro Alexandre de Moraes e da “ditadura brasileira”. Está obcecado pela ideia de acionar todas as armas possíveis contra o Brasil, sejam políticas ou econômicas, custe o que custar.

Em nosso almoço em Washington, Eduardo contou que, quando encerrou a ligação com seu pai, a decisão de ficar nos Estados Unidos estava tomada. Ele garante que, naquele telefonema, não se falou de dinheiro nem do financiamento de suas atividades no exterior, mas apenas do que poderia fazer se continuasse nos Estados Unidos. “A única maneira de destruir o sistema é agindo de fora para dentro. De dentro do Brasil, não tem como”, diz. Naquela altura, já se sabia que, dois meses depois do telefonema, seu pai havia lhe mandado 2 milhões de reais numa única remessa.

 

O que não se sabia é que a operação financeira começara antes disso. No dia 20 de agosto, a Polícia Federal indiciou Eduardo e Jair Bolsonaro por coagir as autoridades e tentar obstruir o processo sobre a intentona golpista do Oito de Janeiro. Em um relatório de 170 páginas, a PF reuniu evidências de provas de que Bolsonaro vinha enviando dinheiro ao filho no exterior desde o início do ano. Houve seis transferências em valores menores, que totalizaram 111 mil reais. A PF suspeita que o fracionamento dos valores pode ter sido uma tentativa de lavar dinheiro operando abaixo do radar dos órgãos de controle, que prestam a atenção apenas em remessas de maior vulto. Parece uma suspeita infundada. Quem está lavando dinheiro pelo método de quantias parceladas não faz uma transferência de 2 milhões de reais. O que as operações mostram é que Bolsonaro vinha ajudando o filho a atentar contra a soberania nacional. De volta ao Brasil, contatei o deputado para falar do assunto. Ele criticou a PF e minimizou o episódio: “Vira e mexe JB fazia Pix para mim. O dinheiro é dele, acho que ele pode gastar como bem entender.”

Quando recebeu os 2 milhões do pai em maio, Eduardo fez duas transferências para a conta de sua mulher, Heloísa. Uma de 50 mil, outra de 150 mil, num intervalo de duas semanas. No inquérito, a Polícia Federal afirma que ele usou a conta da mulher para “escamotear os valores encaminhados por seu genitor”, com o objetivo de “evitar possíveis bloqueios em sua própria conta”. Ele rebate: “Você acha que vou receber 2 milhões e nada vai para Heloisa?” Em Washington, durante nossa conversa, ele havia reclamado que os 2 milhões eram pouco dinheiro. Disse que, descontados os impostos e custos da remessa, ficou com cerca de 1,6 milhão de reais, ou 290 mil dólares. “Esse valor não dá nem para dar entrada numa casa”, disse. Uma família média americana leva quase quatro anos para receber uma quantia equivalente.

Mas uma família média americana não vive como Eduardo, que, “quase toda a semana”, pega um voo de três horas entre Fort Worth, a cidade texana onde reside, e a capital americana, onde opera seu lobby que culminou no mais extraordinário ataque à soberania do Brasil por parte da maior potência do planeta. Eis a cronologia:

 

*Em 9 de julho, o presidente Donald Trump anunciou a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras.

*Em 18 de julho, revogou o visto americano de sete ministros do Supremo Tribunal Federal e do procurador-geral da República. Uma medida inédita contra a Corte Constitucional de um país que mantém relações diplomáticas com os Estados Unidos.

*Em 30 de julho, aplicou a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Foi a primeira vez que a lei foi aplicada contra alguém que não é considerado terrorista ou violador dos direitos humanos.

 

Tudo isso sob alegação de que a Justiça brasileira promovia uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro, cuja atuação golpista está fartamente comprovada.

 

A parte mais prática da atuação de Eduardo Bolsonaro que resultou num ataque ao Brasil começou em 2023, mas a teoria saiu da cabeça de Paulo Figueiredo, neto do último general-presidente da ditadura brasileira e ex-comentarista da Jovem Pan que virou youtuber. “Em novembro de 2022, fui ao Congresso americano”, rememora Figueiredo, com quem também conversei na Flórida. Figueiredo, que tem green card e é fluente em inglês, procurou parlamentares republicanos para dizer que Jair Bolsonaro só perdera a reeleição porque havia censura no Brasil, onde estaria vigorando uma ditadura liderada por Alexandre de Moraes. “Eu bati na porta de gente eleita, mas que ainda nem tinha assumido.” Na companhia de Carla Zambelli, hoje presa na Itália, Figueiredo esteve com o veterano deputado Chris Smith, republicano de Nova Jersey, que integra o Comitê de Direitos Humanos do Congresso. Tentou convencê-lo de que “a situação do Brasil estava degringolando” porque “Moraes deu um golpe no país”.

Em março de 2023, Figueiredo teve a ideia de trabalhar pela aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes. A legislação, promulgada em 2012, prevê congelamento de ativos, cancelamento de cartões de crédito e proibição de entrar nos Estados Unidos. Figueiredo compartilhou a ideia com Eduardo, já que ambos tinham estudado a Lei Magnitsky nos cursos do falecido Olavo de Carvalho, o ex-astrólogo que serviu de farol ideológico do bolsonarismo até sua morte em 2022. Eduardo topou na hora. Logo surgiu outra ideia: levar a Washington uma carta denunciando o Brasil por cercear a liberdade e acusando o PT de manter ligações secretas com o narcotráfico.

Nem uma coisa nem outra eram verdadeiras, mas a carta ganhou a assinatura de cem parlamentares. Em novembro de 2023, Eduardo liderou uma comitiva de políticos aos Estados Unidos, entre eles, os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG), Gustavo Gayer (PL-GO) e Julia Zanatta (PL-SC) e o senador Magno Malta (PL-ES). Em Washington, o grupo entregou a carta ao deputado Chris Smith. Eduardo e Figueiredo tentaram, ainda sem sucesso, conhecer a republicana Maria Elvira Salazar, filha de exilados cubanos que representa o estado da Flórida. Seria um contato providencial. Salazar é membro do Comitê de Relações Exteriores e preside um subcomitê que cuida das relações com o Canadá, a América Latina e o Caribe.

No gabinete de Salazar, Figueiredo deixou uma foto de Alexandre de Moraes. Mais tarde, em maio de 2024, quando Salazar apareceu no Congresso com uma folha impressa com o rosto do ministro – a quem chamou de “operador totalitário” do Brasil –, Eduardo e Figueiredo tiveram certeza de que a deputada entendera que o Brasil vivia sob uma “ditadura da toga”. Nesse meio-tempo, os dois fizeram um plano de comunicação e ação política. “Tínhamos dois problemas para resolver: nem a população brasileira entendia que tinha sofrido um golpe de Estado, nem o mundo entendia que o Brasil já não era mais uma democracia”, diz Figueiredo, com a segurança de quem descreve uma realidade óbvia.

O plano previa que os parlamentares e influenciadores bolsonaristas operassem pelas redes sociais no Brasil, enquanto Eduardo e Figueiredo se ocupavam da perna internacional, dando entrevistas a podcasts e canais de extrema direita nos Estados Unidos para influenciar congressistas americanos. O roteiro ganhou mais impulso depois que Eduardo se mudou para os Estados Unidos e foi cumprido à risca. Só entre abril e julho deste ano, ele esteve seis vezes no War Room, o podcast do conspiracionista Steve Bannon, que ocupou brevemente o cargo de estrategista-chefe da Casa Branca no início do primeiro governo Trump e, em fevereiro passado, foi condenado a três anos – cumpridos em liberdade – por afanar o dinheiro arrecadado na campanha para construir um muro na fronteira com o México.

Antes disso, já havia dado entrevista para Tucker Carlson, ex-âncora da direitista Fox News e hoje dono de um canal com 4,4 milhões de inscritos. Depois, tornou-se presença frequente no One America News, um canal no YouTube com 1,4 milhão de inscritos. Esteve no Valuetainment, canal com 6,9 milhões de inscritos do controvertido Patrick Bet-David, cuja família fugiu do Irã depois da queda da monarquia. E também foi ao programa de Steven Crowder, outro ex-Fox News, com 5,7 milhões de inscritos. Em todos os podcasts e canais no YouTube, Eduardo e Figueiredo bateram na mesma tecla: o Brasil é uma ditadura e Jair Bolsonaro é vítima de uma perseguição implacável.

As aparições ajudaram a abrir as portas entre congressistas de direita. Além de Chris Smith e Elvira Salazar, Eduardo e Figueiredo se aproximaram de republicanos de Utah (Mike Lee), Geórgia (Richard McCormick), Texas (Lance Gooden) e, sobretudo, da Flórida, como Rick Scott, Cory Mills, Brian Mast e Carlos Giménez. Figueiredo contabiliza que ele e Eduardo sentaram com as equipes de 47 parlamentares. (O Congresso americano tem 435 deputados e 100 senadores.) Em paralelo, os dois também começaram a se articular para ter contatos na Casa Branca.

O primeiro alvo foi o Departamento de Estado, equivalente ao Ministério de Relações Exteriores. Em mais de uma ocasião, Eduardo e Figueiredo estiveram com o chefe da chancelaria americana, Marco Rubio, outro republicano descendente de família cubana. Fizeram contato também com integrantes do Conselho de Segurança Nacional, órgão da Casa Branca que aconselha o presidente Trump. Ali, receberam um pedido: apresentar um punhado de documentos – inquéritos, reportagens de imprensa –, tudo traduzido para o inglês, demonstrando a “ditadura brasileira”.

Para aplicar a Lei Magnitsky, era preciso convencer o Conselho de Política Interna, órgão do gabinete executivo da Presidência. O argumento central, diz Figueiredo, era demonstrar ao governo Trump que Moraes havia “invadido a jurisdição dos Estados Unidos”. Figueiredo deu como exemplo seus próprios perfis no Instagram, no X e no YouTube, que foram derrubados por decisão de Moraes. Os perfis haviam sido criados com IP (protocolo de internet, na sigla em inglês) dos Estados Unidos e as empresas que os mantinham eram todas americanas. A decisão de Moraes foi motivada pelo fato de que Figueiredo usou suas redes sociais para incitar militares e civis a promover a intentona golpista do Oito de Janeiro.

O pleito da dupla estava ganhando tração. Em 20 de março, Elvira Salazar e Richard McCormick enviaram uma carta à Casa Branca pedindo a aplicação da Magnitsky contra Alexandre de Moraes. Dois meses depois, Marco Rubio, o secretário de Estado, disse que havia grande possibilidade de uso da lei contra o ministro.

Na fase seguinte, Eduardo e Figueiredo se reuniram com a equipe do Gabinete de Conselho Especial da Casa Branca, que recebe e analisa denúncias. Em seguida, fizeram contato com o Escritório de Conselho Legal do Departamento de Justiça, que atua como conselheiro jurídico do procurador-geral. (Nos Estados Unidos, o procurador-geral não é independente, como no Brasil, mas um servidor do Ministério da Justiça.) “Depois disso tudo, ainda tivemos de ir aos departamentos de Comércio e do Tesouro, que efetivamente são os que aplicam a decisão de congelar contas bancárias”, diz Figueiredo. Encerrada a romaria, a dupla se reuniu com Dan Scavino, subchefe de Gabinete da Presidência, e Stephen Miller, assessor de segurança nacional. Os dois, Scavino e Miller, têm sala na Casa Branca.

Finalmente, o caso foi parar sobre a mesa de Donald Trump.

 

Desde então, Eduardo e Figueiredo deitavam e acordavam esperando o ataque que a Casa Branca poderia desferir contra o Brasil. Não sabiam o que viria, mas torciam para que a Lei Magnitsky saísse do papel. “Por duas vezes, tivemos uma janela de dias para a lei ser aplicada”, conta Eduardo. “Mas na primeira vez o Elon Musk decidiu brigar com o Trump. Aí, entenderam na Casa Branca que não deviam abrir mais uma situação envolvendo redes sociais.” (A briga explodiu quando Musk, dono do X e megafinanciador da campanha de Trump, disse que o nome do presidente estava na lista de clientes do pedófilo Jeffrey Epstein, que se suicidou na prisão em 2019.)

“Para não deixar o nosso caso morrer, a gente ficou igual a palhaço de rodeio na frente dos caras, batendo na porta e dizendo ‘se lembra de mim?’”, diz Figueiredo. Duas semanas depois, em 12 de junho, ele e Eduardo foram informados por assessores da Casa Branca que estava quase tudo pronto – e, mais uma vez, foram para Washington. “Recebemos a notícia de que o Trump queria um relatório resumido em uma página, impresso em corpo 14. Eu tive de reduzir um calhamaço de mil páginas em uma. Eu estava em um hotel diferente do Eduardo, saí correndo para o meu [para escrever o resumo], daí vejo na tevê o bombardeio contra o Irã…” Pela segunda vez, o pacote foi adiado.

No dia 3 de julho, já com o cessar-fogo entre Irã e Israel em vigor, deu-se o movimento definitivo. “Tivemos mais uma reunião com a equipe do Trump sobre o Brasil. Quando chega nele, não temos mais feedback, o que é natural”, diz Eduardo. Depois da reunião, um assessor de Trump – que eles não quiseram identificar – ligou para Figueiredo dizendo que a dupla ficaria “feliz” com a novidade que estava por vir. Nessa altura, Eduardo e Figueiredo desconfiavam que poderia haver algum tipo de sanção de natureza econômica, já que Trump sempre abre a caixa das tarifas toda vez que quer atacar um país. No fim da tarde do dia 9 de julho, quando Trump anunciou em sua rede social, a Truth Social, a tarifa de 50%, a dupla comemorou.

Como justificativa do tarifaço, Trump disse que a balança comercial entre os dois países era prejudicial aos Estados Unidos e que Jair Bolsonaro estava sendo vítima de uma “caça às bruxas” na Justiça e que o governo precisava “parar IMEDIATAMENTE”. A carta é indigente, ao fazer de conta que seu autor desconhece a independência entre Executivo e Judiciário em qualquer democracia, e ainda faz de conta que a balança comercial não é superavitária em favor dos Estados Unidos. Mas atendeu ao pleito de Eduardo e Figueiredo, que queriam que a justificativa da medida contra o Brasil, fosse qual fosse, estivesse claramente vinculada à ideia de que Bolsonaro é perseguido.

Nas gravações que a Polícia Federal divulgou no dia 20 de agosto, ficou claro que a intenção de Eduardo era muito mais livrar o pai da prisão do que as déboras do batom. Em mensagem enviada ao pai dois dias antes do anúncio do tarifaço, ele explicitou esse objetivo ao dizer que uma anistia light não seria suficiente. O que Eduardo chamou de “anistia light” é aquela que favorece apenas os condenados miúdos do Oito de Janeiro, sem incluir seu pai. Ele escreveu: “Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos Estados Unidos terá sido o post do Trump [ele se referia a um post do dia 7 de julho, dois dias antes do anúncio do tarifaço]. Eles não irão mais ajudar.” E completou: “Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia OU enviar o pessoal que esteve num protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto.”

 

Anunciado o tarifaço, as contradições não demoraram a aparecer. Em sua primeira manifestação pública, Eduardo divulgou uma nota, assinada com Figueiredo, na qual atribui a decisão de Trump ao lobby que vinha fazendo na Casa Branca. “Nos últimos meses, temos mantido intenso diálogo com autoridades do governo do presidente Trump – sempre com o objetivo de apresentar, com precisão e documentos, a realidade que o Brasil vive hoje. A carta do presidente dos Estados Unidos apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade.”

No dia 11 de julho, dois dias depois do anúncio de Trump e da nota da dupla, o pastor bolsonarista Silas Malafaia, aquele que vive aos berros, se disse “INDIGNADO” com a articulação de Eduardo nos Estados Unidos. Em mensagem obtida pela Polícia Federal num dos celulares de Bolsonaro, Malafaia se dirige ao ex-presidente e destila ódio contra Eduardo. “DESCULPA, PRESIDENTE! Esse seu filho Eduardo é um babaca.” Chamou-o ainda de “estúpido de marca maior” e “idiota”, e disse que Eduardo estava entregando à esquerda “o discurso nacionalista” e “ferrando” com Bolsonaro. “Só não faço um vídeo e arrebento com ele por consideração a você”, completou.

Quatro dias mais tarde, em 15 de julho, houve outro desentendimento, mas desta vez com uma grosseria de estremecer as bases da família tradicional. Em entrevista ao Poder360, Bolsonaro disse que Eduardo era “imaturo” e elogiou a nova postura adotada pelo governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, a quem Eduardo vinha fazendo críticas duras e públicas. Ao saber da entrevista, Eduardo enfureceu-se. Disse ao pai, por WhatsApp, que estava pensando em “deixar de lado a história do Tarcísio”, mas talvez agora voltasse a atacá-lo. E abriu a cloaca: “VTNC seu ingrato do caralho. Me fodendo aqui [nos Estados Unidos]! Vc ainda te ajuda a se foder aí! Se o IMATURO do seu filho de 40 anos não puder encontrar os caras aqui, PORQUE VOCÊ ME JOGA PRA BAIXO, quem vai se foder é vc. E VAI DECRETAR O RESTA DA MINHA VIDA NESTA PORRA AQUI.”

Menos de uma semana depois, já com a maioria dos brasileiros se opondo ao lobby bolsonarista contra os interesses brasileiros, Eduardo mudou de tom em público. Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., disse: “Sempre trabalhei para sanções individuais no Alexandre de Moraes, mas o presidente Trump, dentre as alternativas dele, escolheu essa [o tarifaço].” Na mesma entrevista, Eduardo e Figueiredo disseram que haviam discutido sobre as tarifas com autoridades do governo americano antes do anúncio oficial. Mas garantiram que, nessas reuniões, afirmaram que eram contra as sobretaxas, por entender que não seriam uma boa medida.

Nas conversas que tive com Eduardo e Figueiredo, no entanto, eles nunca disseram que haviam discutido previamente as tarifas, embora tenham fornecido dados para diversos órgãos do governo americano, inclusive o Departamento do Tesouro. Eles apenas desconfiavam que Trump poderia decretar alguma sanção econômica. “O Trump chegou à conclusão de que o remédio correto para o Brasil não era só sancionar o Alexandre, mas sacudir o establishment brasileiro”, diz Figueiredo. “A gente sente a dor do empresariado, mas o fato é que células boas sofrem as consequências da doença que tem no Brasil. Trump percebeu que uma pressão nas elites financeiras é fundamental.”

Aparentemente, o lobby de Eduardo e Figueiredo apenas ofereceu a Trump um bom pretexto para fazer o que ele sempre quis: taxar pesadamente o Brasil no curso da sua guerra para desglobalizar a economia e tentar reindustrializar a economia americana. Tanto que a Lei Magnitsky só veio depois das tarifas. A intenção de Trump ganhou mais nitidez quando aplicou uma tarifa também de 50% contra a Índia, onde não há nada parecido com a suposta “caça às bruxas” a um líder de direita. Ao contrário. O presidente da Índia, Narendra Modi, é um expoente da direita, que já conversou com Trump por telefone e esteve com ele pessoalmente na Casa Branca. O que une Brasil e Índia é o fato de que ambos os países são potências regionais e integram o Brics, que pode, a longo prazo, afetar a hegemonia americana.

Na semana seguinte ao anúncio das tarifas contra o Brasil, Eduardo e Figueiredo voltaram a Washington para uma nova reunião com interlocutores do Departamento de Estado – que eles também não quiseram identificar. A pauta, agora sim, era saber quais ministros do STF deveriam sofrer sanções, além de Alexandre de Moraes. Eduardo e Figueiredo passaram uma lista, com um resumo da atuação de cada ministro e a razão pela qual pleiteavam que seus vistos fossem revogados. No dia 18 de julho, o governo americano anunciou o cancelamento dos vistos americanos de oito autoridades brasileiras: sete ministros do STF e o procurador-geral da República.

Neste ponto, surge uma nova contradição. Eduardo garante que recorreram a um escritório americano de advocacia para auxiliar em toda a trama. Perguntei se o escritório trabalhou de graça, em nome da causa. Ele disse que não. Fiz a mesma pergunta para Figueiredo, mas ele afirmou que jamais contrataram qualquer escritório de advocacia para ajudar no lobby. “Eu nunca soube de escritório de advocacia trabalhando conosco”, disse ele.

O tema não é trivial. A pedido da Procuradoria-Geral da República, Alexandre de Moraes abriu um inquérito para investigar a atuação de Eduardo nos Estados Unidos. Os investigadores acreditam que Eduardo contratou um escritório para abrir portas e agendar reuniões com dirigentes da Casa Branca, o que complica sua situação jurídica e a do seu pai, o financiador do lobby. Coloca pai e filho claramente na posição de sabotadores dos interesses brasileiros.

Cinco dias depois da cassação dos vistos, um assessor da Casa Branca – também não identificado – pediu detalhes sobre um tópico que Eduardo e Figueiredo haviam inserido na lista do STF. Era o caso do dentista Cleriston Pereira da Cunha, que morreu enquanto estava no presídio da Papuda, em Brasília, em novembro de 2023. Cunha, preso por participar da intentona golpista do Oito de Janeiro, pediu transferência para prisão domiciliar em razão de problemas cardíacos, mas faleceu antes que seu pleito fosse analisado pelo STF. “Quando me pedem algo, eu saio correndo para escrever relatório e mandar”, diz Figueiredo.

Uma semana depois, a Lei Magnitsky foi aplicada contra Alexandre de Moraes.

 

Eduardo pediu licença parlamentar no início do ano. No fim de agosto, solicitou ao presidente da Câmara autorização para exercer o mandato à distância. Diz que está praticando “diplomacia parlamentar” nos Estados Unidos. Desde março, quando entrou em licença, não está recebendo o salário de deputado, de 34,6 mil reais líquidos, mas não vive apenas com o dinheiro que o pai lhe remeteu. “Aqui, eu não posso ter renda ativa, mas passiva, sim.” Traduzindo: ele pode receber doações. “Tem pessoas que me ajudam, mas não sou obrigado a falar disso. Não é dinheiro público.” No último evento em que fez “presença VIP” – um encontro em uma capela em San Jose, na Califórnia –, diz que não recebeu nada. “Fiz porque gosto de ver pessoas, fazer fotos, entrar em contato com a comunidade”, diz. (O material de divulgação anunciava VIP Meet & Greet com Eduardo Bolsonaro. Lá estava ele.)

Numa manhã de julho, acompanhei Eduardo na fila de embarque no voo 795 da American Airlines, que iria de Washington para Dallas. Ele integrava o grupo 1, reservado aos passageiros da classe executiva. Como o custo é muito mais alto, perguntei se ele próprio estava pagando seu bilhete. Ele respondeu: “É um amigo do amigo do meu pai.” Estava parafraseando a frase pela qual o ministro Dias Toffoli, do STF, era identificado nas planilhas da enroladíssima empreiteira Odebrecht na Lava Jato. Toffoli, que era amigo de Lula, que por sua vez era amigo de Emílio Odebrecht, seria – nas palavras do filho de Emílio, Marcelo Odebrecht – “o amigo do amigo do meu pai”. Feito o gracejo, Eduardo não identificou quem, afinal, estava pagando sua conta.

A questão financeira, além de obscura, é um ponto de discórdia interna. Antes de se mudar para os Estados Unidos, Eduardo fez duas reuniões com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Queria que o PL contratasse um advogado e uma secretária, além de alugar uma sala comercial na Flórida para servir de base à sua campanha contra o Brasil até que uma anistia fosse aprovada no Congresso e Alexandre de Moraes deixasse o STF. Seu objetivo era viajar uma vez por mês para os Estados Unidos para fazer o trabalho. Não conseguiu convencer Costa Neto nem na época, nem depois de decidir ficar no exterior.

“É um não sem dizer não. Ele vai dizendo que não é prioridade”, protesta Eduardo, referindo-se ao comportamento ambíguo de Costa Neto. Em seguida, ele faz comparações. Diz que o PL banca um jato para que o deputado mineiro Nikolas Ferreira, outro militante da direita radical, rode pelo Brasil. “E para mim, nada?” E logo se compara com sua madrasta. “Soube pela imprensa que a Michelle custa ao todo 800 mil reais por mês”, diz. Ele informa que a quantia se refere a gastos com salário, equipe e viagens em jatos fretados. (Procurado, Costa Neto não quis confirmar os gastos mensais de Michelle, nem as reuniões com Eduardo.)

“O problema não é ela receber isso. A Michelle é uma pessoa boa comigo. Muitos analistas falam que é importante ter voto feminino, não discordo. A Michelle só tem pauta positiva: igreja, eleitorado feminino. A pergunta que eu faço é: será que o partido não vê que o que eu faço aqui é muito mais relevante?” Trocando em miúdos: na disputa por um candidato com o sobrenome Bolsonaro na chapa presidencial, Eduardo acredita que Costa Neto rejeita seu nome em favor do de Michelle apenas porque pode controlá-la.

Além disso, desconfia que Costa Neto não lhe dá nenhuma estrutura porque tem medo de “que Moraes aplique mais uma multa” contra o PL. (Logo depois da eleição de 2022, quando o partido fez litigância de má-fé ao endossar a lorota de que urnas eletrônicas foram fraudadas, recebeu multa de 22 milhões de reais.) Um dirigente do PL, que pede para ficar anônimo porque quer distância das confusões de Eduardo, explica a lógica de Costa Neto: “O PL é um partido do Brasil, opera no Brasil, não tem sentido ter escritório fora”, diz. “Na verdade, o Eduardo é um ingrato. Ficou no pé pedindo para presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Daí, o partido apoia. Quando consegue o que queria, ele se muda para o Texas.”

Nesse clima, Eduardo admite deixar o PL. Em maio, em Nova York, ele se reuniu com o senador Ciro Nogueira, do Progressistas, e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda. Os dois dirigentes, cujas legendas acabaram de se unir em uma federação, convidaram Eduardo para disputar o Senado por São Paulo ou – apenas para afagar seu ego – a Presidência da República. Ele adora a ideia. Mas seu mundo mental entra numa espécie de convulsão elíptica: afinal, ele então acredita que haverá eleição democrática num país que vive sob uma “ditadura”, com “censura” e urnas eletrônicas fraudadas?

 

A decisão de Eduardo Bolsonaro de ficar nos Estados Unidos foi definida naquele telefonema com seu pai, mas vinha sendo elaborada há tempos. “A mudança para cá foi calculada”, diz ele. “Eu estudo os movimentos do meu inimigo. Sabia que o Moraes iria bloquear as minhas contas no Brasil. Então, eu trouxe tudo o que eu tinha para cá. No Brasil, não tenho nada.” Em 2022, ele declarou à Justiça Eleitoral bens no valor de 1,7 milhão de reais, sendo 600 mil em conta-corrente. Seu patrimônio total é desconhecido, mas é certamente crescente.

Elaborado a pedido da Polícia Federal, um relatório do Coaf, o órgão que trata de prevenir operações financeiras ilegais, mostrou que, apenas entre setembro de 2023 e junho passado, Eduardo recebeu 4,16 milhões de reais e usou a maior parte para fazer operações de câmbio. O grosso do dinheiro veio do bolso do pai, mas Eduardo ampliou suas fontes de receita ao fundar a Eduardo B Cursos, em sociedade com Heloísa, sua mulher.

A empresa vendeu cursos a 197 reais por cabeça, inspirados em Olavo de Carvalho, com o propósito de formar “uma direita preparada para enfrentar as mentiras da esquerda”. No ano passado, inventou outra fonte de receita para livrar o país “das garras da esquerda” e faturar uma grana: um curso para candidatos municipais, no valor de 1 mil reais por aluno. O mesmo relatório do Coaf aponta que os cursos renderam 683 mil reais. A empresa do casal também faz marketing, produção audiovisual e edição de livros. Outra empresa, a Bolsonaro Store, vende uma parafernália de canecas de chope, camisas com o rosto do pai, bonés, calendários, tudo destacando o sobrenome da família. O próprio Jair Bolsonaro tem uma empresa de badulaques, a Jambol Promoção de Vendas Ltda. Na prática, os Bolsonaro viraram os Kardashian da política brasileira.

Quando estava no Brasil, Eduardo também faturava com palestras, cobrando um cachê de 40 mil reais. Nesse empreendimento, se desentendeu com o advogado Sérgio Henrique Cabral Sant’Anna, seu sócio na promoção de eventos da direita. Eduardo desconfiou que Sant’Anna vinha dando preferência para palestras do deputado Nikolas Ferreira, cujo cachê é muito superior, 120 mil reais. Então, romperam a sociedade na promoção de eventos e o negócio passou a ser controlado apenas por Eduardo. Sant’Anna nega ter boicotado Eduardo nas palestras e não comenta o valor dos cachês.

Em abril de 2023, prosseguindo nos planos de morar nos Estados Unidos, Eduardo abriu a Braz Global Holding, com sede no Texas. Conforme revelou uma investigação conjunta da Agência Pública, o portal UOL e o Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (Clip), a Braz Global era uma sociedade entre Eduardo e outros dois brasileiros. Um deles é o empresário Paulo Generoso, que celebrou nas redes sociais a intentona golpista do Oito de Janeiro como “Primavera Verde-Amarela”. Ele também é dono da Chamas do Brazil, uma churrascaria que fica em Arlington, no Texas, nas proximidades da casa de Eduardo.

O outro sócio da Braz Global Holding é André Porciuncula Alay Esteves, ex-capitão da Polícia Militar da Bahia, que trabalhou como número dois do ator Mario Frias na Secretaria Especial de Cultura no governo Bolsonaro. Na época, chamava a si próprio de “capitão da cultura” e andava armado na repartição porque dizia lidar com “gente bem perigosa”. Em 2022, Esteves candidatou-se a deputado federal pelo PL baiano, mas não se elegeu. Foi expulso da vida militar pelo crime de deserção e tem uma empresa de segurança patrimonial, a Alpen, em Salvador. Como é comum entre bolsonaristas, ele também se diz um “perseguido político”.

A Braz Global fechou um ano depois de ser criada. “Nunca passou um centavo por essa empresa”, afirma Eduardo, deixando uma pergunta sem resposta: por que então abriu uma empresa durante os preparativos de mudança para os Estados Unidos se por ela não passou um único centavo?

 

Eduardo, Heloísa e os dois filhos, Geórgia, de 4 anos, e Jair Henrique, de 2, moram em Fort Worth, ao lado de Dallas, em um condomínio aberto, sem guarita ou portão à entrada. Em setembro, a filha de 4 anos começará a estudar. Já está matriculada numa escola cristã. “Não entra agenda woke, não tem performance de trans e a alfabetização é aprendendo provérbios, salmos. Coloca a ideologia de Cristo, os Dez Mandamentos, o perdão”, diz ele, descrevendo, ponto por ponto, a cartilha do Maga, a sigla do movimento nacionalista americano que encanta os “patriotas” da direita no Brasil. Pagará mensalidade de 1 mil dólares. “Em Brasília, a escola era mais cara.”

O deputado escolheu instalar-se no centro-norte do Texas devido à presença de amigos na região. Um deles é o advogado Paulo Calixto, brasileiro radicado nos Estados Unidos há mais de vinte anos, que tem escritório de advocacia em Dallas. Uma das suas especialidades é navegar pela burocracia americana para a obtenção de visto permanente e abertura de empresa para estrangeiros. Ele ajudou Eduardo nos trâmites do visto. Hoje, o deputado tem dois tipos. O B1/B2, concedido a turista, estampado em passaporte comum, e o A2, destinado a funcionários de governos estrangeiros, o que inclui parlamentares, em seu passaporte diplomático. O amigo Calixto costuma ceder o escritório para reuniões políticas de Eduardo.

Na preparação da mudança para os Estados Unidos, ele não se limitou a criar uma empresa ou fazer movimentos financeiros. Logo no início do governo do seu pai, Eduardo começou a se empenhar em estabelecer conexões políticas no exterior. Em 2019, ele e o advogado Sergio Sant’Anna trouxeram para o Brasil um tradicional evento de direita dos Estados Unidos – a Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac, na sigla em inglês).

A ideia era adubar o terreno de uma aliança global para denunciar o “globalismo”, termo que a direita usa para criticar a globalização, e fortalecer a luta contra o multilateralismo, contra o combate à crise climática, contra a promoção de igualdade racial e de gênero. A primeira edição da Cpac no Brasil ocorreu em um hotel em São Paulo, com a presença de políticos do Partido Republicano e estrelas do governo Bolsonaro, como a então ministra Damares Alves e o chanceler Ernesto Araújo. Eduardo palestrou. Começou dizendo à plateia: “[Estar] Aqui, para mim, é como jogar no Maracanã.”

No ano seguinte, Eduardo foi convidado para falar na edição americana da Cpac, em Washington, na qual estavam Trump e seu vice-presidente no primeiro governo, Mike Pence. Para ganhar a plateia, o brasileiro discursou em favor da ampliação do acesso às armas. Daí em diante, passou a organizar as edições da Cpac Brasil. Na edição de 2021, em Brasília, Donald Trump Jr., o primogênito do presidente, só não compareceu em pessoa porque, na última hora, um furacão impediu a decolagem do seu avião particular.

Em setembro de 2022, o trânsito internacional de Eduardo já havia chamado a atenção de Paulo Figueiredo. Em um almoço na churrascaria Fogo de Chão, em Nova York, Figueiredo sentou-se ao lado do então presidente Bolsonaro, que se encontrava na cidade por ocasião da Assembleia da ONU. “Eu falei para ele dar mais valor no que esse cara [apontou para Eduardo] estava fazendo”, contou. “Eu disse que ele [se fosse reeleito] levaria uma pernada do governo Joe Biden e precisava de anticorpos para se defender. O único que fazia articulação internacional era o Eduardo. O presidente não dava bola para nada disso.” Aparentemente, Bolsonaro gostou da ideia de um filho conectado no exterior – tanto que, agora, o financia lá fora.

 

Nas terras do Maga, Eduardo Bolsonaro parece à vontade e bem adaptado. Em nenhum momento, ele desconfia que pode ter infringido alguma lei, nem mesmo o primeiro mandamento da atuação parlamentar, que exige “promover a defesa do interesse público e da soberania nacional”. Sua vida cotidiana gira em torno de denunciar a “ditadura” no Brasil para salvar o pai da cadeia e derrubar Alexandre de Moraes, mesmo que à custa de afrontar a soberania do país.

Nos dias em que o acompanhei, sua agenda estava agitada. Em 22 de julho, terça-feira, ele desembarcou em Washington para uma série de compromissos. À noite, jantou com um dos seus principais aliados americanos na ofensiva contra o Brasil, o consultor político Jason Miller, porta-voz e assessor especial nas três campanhas de Trump. Em 2021, ano em que os trumpistas invadiram o Congresso em Washington, Miller fundou a própria rede social, a Gettr, como um espaço digital livre para a expressão da extrema direita.

Miller tentou emplacar a Gettr no Brasil, onde investiu tempo e dinheiro, sem maiores resultados. Esteve em duas edições brasileiras da Cpac, evento que também patrocinou. Foi homenageado por Bolsonaro com um almoço no Palácio da Alvorada. Antes de embarcar de volta para os Estados Unidos, prestou depoimento à Polícia Federal em São Paulo num inquérito sobre as milícias digitais bolsonaristas. Na campanha de 2022, subiu em carro de som em Copacabana e depois postou: “Milhões de brasileiros patriotas nas ruas passando na sua timeline!! Não tem coração verde e amarelo que aguente!!”

“O Jason Miller tem muita importância. Mas ele não atua dentro do governo americano. Ele mora na Virgínia, perto daqui, e vem muito para cá”, disse Eduardo, quando conversávamos no saguão de um hotel da rede Marriott, em Washington. “Ele e o Steve Bannon têm sido fundamentais no processo de conscientização.” Por “processo de conscientização”, entenda-se aprender a atacar o STF e defender Bolsonaro. No dia em que Moraes mandou Bolsonaro para prisão domiciliar, Miller postou a imagem de um manifestante com máscara do ministro e mãos algemadas.

“Jason foi a nossa ponte mais importante com a Casa Branca”, diz Eduardo. Ele e Figueiredo se reuniram pelo menos cinco vezes com o americano, só neste ano. (Jason Miller não respondeu minhas mensagens.) Os contatos compensaram a falta de ajuda do bilionário Elon Musk, que deixou o governo Trump no fim de maio. “O Musk não fez porra nenhuma”, diz Eduardo. “Eu e o Paulo tentamos, mas ele disse que não quer mais saber do Brasil.” Eduardo não tem notícia de ajuda de Susana Guerra, a presidente do IBGE no governo Bolsonaro e hoje no Banco Mundial. Ela é amiga de Ivanka Trump. “Não tenho contato com ela. Não sei se ela está ajudando, talvez esteja fazendo alguma coisa.” (Procurada, Susana Guerra não quis falar.)

O advogado americano Martin De Luca, casado com uma cirurgiã plástica brasileira, também teve relevância no plano de ataque. Em fevereiro, De Luca foi contratado por duas empresas: a Trump Media & Technology Group, dona da rede social do presidente americano, a Truth Social, e a Rumble, uma plataforma de vídeos, que está proibida pelo STF de oferecer seus serviços no Brasil porque não tem representante legal no país. Em nome da Trump Media e da Rumble, De Luca move uma ação contra Alexandre de Moraes no estado da Flórida. “O Martin e o Eduardo têm andado para cima e para baixo juntos em Washington”, me disse um criminalista de São Paulo que mantém relações com De Luca. O processo movido pela Truth Social e pela Rumble integrou as mil páginas do relatório que Eduardo e Figueiredo entregaram na Casa Branca.

Perguntei a Eduardo se ele tem alguma relação com De Luca. “Não tenho contato com ele”, garantiu. Não é bem assim. Por alguma razão, ele quis esconder essa relação. Quando consultei De Luca, ele me respondeu por WhatsApp, em mensagem escrita, sem meias-palavras: “Eu conheço Eduardo há quase uma década, muito antes de seu pai virar presidente. Ele é um amigo e um líder que está lutando por sua família e chamando a atenção do mundo para os abusos que estão acontecendo no Brasil em plena luz do dia.” O próprio Bolsonaro tem interlocução direta com o advogado. Num dos seus celulares apreendidos pela Polícia Federal, apareceu uma mensagem em que o ex-presidente o consulta sobre uma nota que pretendia fazer para elogiar Trump depois do anúncio do tarifaço. “Martin, peço que você me oriente também […] como proceder. Eu fiz uma nota […]. Com quatro pequenos parágrafos, boa, elogiando o Trump, falando que a questão de liberdade está muito acima da questão econômica. A perseguição a meu nome também, coisa que me sinto muito… pô fiquei muito feliz com o Trump, muita gratidão a ele. Me orienta uma nota pequena da tua parte, que eu possa fazer aqui, botar nas minhas mídias, para chegar a vocês de volta aí. Obrigado aí. Valeu, Martin.” (De Luca fala e escreve em português.)

A comunicação entre os dois, apesar da aparência banal, preocupa até os aliados de Bolsonaro. O áudio é um indício claro de que o ex-presidente, além de ajudar a bancar o filho no exterior, também atuou nas sombras junto a aliados de Trump para sabotar os interesses nacionais e pressionar os ministros do STF. O áudio também comprova que Bolsonaro vinha descumprindo a proibição legal de usar as redes sociais, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes exatamente para que não fizesse o que fez: boicotar o Brasil e articular contra Justiça.

Eduardo e Figueiredo não gostam de identificar seus interlocutores. “Esse tipo de coisa a gente não comenta”, diz Figueiredo, quando lhe pergunto se conhece dois personagens que são o puro suco do reacionarismo: Darren Beattie, um supremacista branco que Trump demitiu em 2018 e recontratou agora, e Sebastian Gorka, outro extremista dispensado em 2017 que está de volta à Casa Branca.

Ricardo Pita, um venezuelano naturalizado americano que trabalha como conselheiro no Departamento de Estado, é um dos poucos nomes que a dupla não esconde. Pita é um funcionário de segundo escalão e trumpista raiz com discurso feroz. Em maio, esteve no Senado em Brasília e aproveitou para visitar Bolsonaro. A vinda ao Brasil, aliás, provocou outra quizumba na família. Eduardo disse que a missão de Pita era discutir sanções contra Alexandre de Moraes em razão das “ameaças urgentes à democracia brasileira”. Foi desmentido pelo irmão, Flávio, que recebeu Pita no Senado e contou que a conversa tratou apenas da questão da segurança pública. “O assunto não teve nada a ver com sanções, com relação a quem quer que seja”, disse.

 

Na quarta-feira, 23 de julho, o dia seguinte ao jantar com Jason Miller, Eduardo teve agenda logo pela manhã. Estava escalado para fazer uma palestra numa versão reduzida da Cpac, cujo foco era tráfico humano. No evento, realizado em um salão do Cannon House Office Building, prédio de escritórios do Congresso, Eduardo falaria às 10h45. Dividiria a mesa com o mexicano Eduardo Verástegui, ator e produtor de cinema focado em filmes católicos contra o aborto, e o jornalista Kevin Wells, que dirige uma entidade cristã destinada a tirar crianças da pobreza.

Eduardo não tem familiaridade alguma com a questão do tráfico humano, mas isso é irrelevante. “Eu venho aqui, dou entrevistas, faço fotos…”, diz. ­De fato, deu entrevistas e fez fotos. Ao saber que sua palestra fora adiada para a tarde, ficou conversando nos corredores com políticos do Brasil e da América Latina. Falou com Leandro de Jesus, deputado estadual da Bahia pelo PL, que viajou ao país apenas para dar apoio a Eduardo e fazer conteúdo para suas redes sociais. Também conversou com o venezuelano Eduardo Bittar, líder do Rumbo Libertad, movimento de extrema direita que se opõe a Nicolás Maduro. “Assim como o Eduardo, eu não posso voltar ao meu país porque seria imediatamente preso. Aliás, tenho medo de pisar no Brasil durante o governo Lula”, diz Bittar. Como eu desconhecia qualquer processo contra Bittar na Justiça brasileira, perguntei a razão do risco de prisão. “O Brasil de hoje é a Venezuela de uns anos atrás”, disse. “Eu morei um tempo no Brasil, mas após a vitória de Lula, deixei o país.” Leandro de Jesus, o deputado estadual, é outro que vive sob o fantasma da prisão. O motivo? “Estou postando fotos e vídeos com o Eduardo.”

Na hora do almoço, fomos todos para um restaurante a dez minutos de Uber. Eduardo pediu sopa de batata com carne para todos. Como prato principal, ele optou por uma refeição frugal: frango com salada de folhas verdes. Há dois meses, está aplicando canetadas de Mounjaro, que tira o apetite. Já perdeu 16 kg. Durante a refeição, a conversa girou em torno dos temas previsíveis – exílio, ditadura no Brasil, Venezuela, mordaça, perseguição. Ele contou que soube pela imprensa que estava proibido de se comunicar com seu pai. Disse que estava cumprindo a proibição, em vigor havia cinco dias. Perguntei se eu podia ver suas últimas mensagens de WhatsApp. Ele então me mostrou o celular: todas as mensagens estavam apagadas. (Nos celulares apreendidos de Bolsonaro, a Polícia Federal só pôde acessar as mensagens depois de conseguir recuperá-las. Elas também haviam sido apagadas.)

Na hora do café, Eduardo recebeu uma mensagem de Heloísa. Sua mulher enviara uma imagem do aplicativo de banco dela mostrando que não conseguira concluir uma transação. Eduardo ligou, escutou por alguns segundos e perguntou: “Como é que você sabe?” Em silêncio, balançava a cabeça, assentindo com o que ouvia. Despediu-se: “Tá bom, então amanhã a gente conversa.” Perguntei o que havia acontecido. Ele subiu o volume da voz: “Apareceu um aviso para ela dizendo que não seria permitido fazer Pix a partir daquela conta. Tudo em nome da democracia, né? Porque minha mulher é uma pessoa altamente autoritária e identificada com o terrorismo, né?” Ele prossegue: “Como eles não conseguem pegar os exilados, vão para cima dos familiares”, protestou. “Mais uma vez é o Moraes mostrando que não segue a lei. O que a minha esposa tem a ver com isso? E, aí, qual é o limite? Qual é o próximo passo? Vão pegar o meu sogro, a minha sogra, os meus tios, os meus primos? É o Brasil de hoje.” (Até então, não era público que Eduardo havia transferido as remessas em valores fracionados que recebeu do pai para a conta da mulher.) Mesmo com suas contas bloqueadas havia alguns dias, Eduardo pagou a conta do almoço. Usou seu Apple Watch cadastrado com cartão de conta americana.

Na volta ao Cannon Building, Eduardo se deu conta de que perdera o horário da palestra e nem subiu ao palco. De novo, ficou pelos corredores. Deu entrevista para o canal conservador Real America’s Voice, transmitido por streaming e no YouTube. Falou de censura no Brasil, falta de direitos, ditadura, perseguição, bloqueio de contas e da tornozeleira eletrônica que seu pai estava usando havia cinco dias. “Os gringos não conseguem dimensionar as barbaridades do Moraes”, diz ele.

Enquanto Eduardo dava entrevista, um homem começou a filmar tudo com seu celular, sempre se colocando a si mesmo em cena. Um sujeito grisalho, dentes de porcelana e rosto esticado de botox, usando um terno bem cortado com três broches na lapela – um deles, com a bandeira de Mato Grosso. Era Xuxu Dal Molin, suplente de deputado estadual pelo União Brasil. Quando me aproximei dele, saiu logo dizendo: “Não tenho nada a ver com o Eduardo.” Xuxu, como é conhecido, é o retrato da ambiguidade política. Na Assembleia de Mato Grosso, propôs uma moção de aplausos a Trump em razão das tarifas, apanhou feio – seu estado é grande produtor agrícola ­– e agora se diz contrário às sanções americanas. Quando Eduardo terminou a entrevista ao Real America’s Voice, Xuxu puxou-o pelo braço, gravou vídeo no celular e fez selfies. Perguntei a Eduardo sobre o que falaram. “O Xuxu me pediu para gravar dizendo que eu era contra a tarifa do Trump”, contou Eduardo. “Eu disse que era a favor, que era uma medida necessária.” Xuxu não postou o vídeo da entrevista nas suas redes sociais.

Na tarde daquela quarta-feira, o noticiário no Brasil estava tomado por matérias sobre as ações de Eduardo e as reações que provocou. O bloqueio das contas de Heloísa também estava em destaque no UOL, em O Globo, na Folha de S.Paulo, no Estadão e no site Metrópoles. Eduardo então deixou o Cannon Building e voltou para o hotel onde fez ligações e postagens nas suas redes sociais. No Instagram, escreveu: “Minha esposa, Heloísa, que não é política nem milita nesta área, teve suas contas bancárias bloqueadas sem qualquer justificativa legal.” Em pouco tempo, o post no Instagram já tinha 292 mil curtidas.

Eduardo não sai do celular. Seu desempenho nas redes sociais é a medida de todas as coisas. “Ganhei 100 mil seguidores nos últimos dois dias”, diz, exibindo o Instagram, plataforma em que 57% de sua audiência é formada por homens e 43%, por mulheres. “Foi um dia bom, com meu adversário [refere-se a Moraes] fazendo um movimento errado. Ele está bem desesperado, fazendo loucuras.” Quando lhe pergunto se seu lobby contra o Brasil não dinamitou seu capital político, ele responde: “Não. Estou ganhando seguidores nas redes, isso nos momentos mais tensos, quando tiram o visto dos ministros, quando botam tornozeleira eletrônica no meu pai…” Desde o anúncio dos ataques de Trump ao Brasil, Eduardo ganhou meio milhão de seguidores. Hoje, tem 6,8 milhões no Instagram. Para ele, é a prova de que está no caminho certo.

Heloísa, formada em psicologia, também vivia das redes, onde atuava como influenciadora na área da moda e do universo pet. Hoje, tem 755 mil seguidores no Instagram. Sem renda desde que se mudou para o exterior, Eduardo diz que o bloqueio de suas contas não interfere no sustento da família. “Minha esposa, hoje em dia, nem trabalha mais como digital influencer. Está focada em tomar conta das crianças e nos afazeres da casa”, diz o marido. (Heloísa não quis me dar entrevista.)

 

No domingo, 27 de julho, Eduardo teve um dia agitado. Ainda pela manhã, já estava envolvido na Cúpula Conservadora, um evento que transcorreria naquele mesmo dia no South Florida Bible College, no município de Deerfield Beach, a 70 km ao Norte de Miami. Chegando na cidade, apanhou dois assessores do PL que viajaram à Flórida para gravar e fazer fotos do evento. Eduardo, o organizador da tal cúpula, ainda reclamou que o envio dos dois assessores era a “única estrutura” que lhe foi cedida por Costa Neto, o presidente do PL, desde que se mudara para os Estados Unidos.

Para o evento, Eduardo teve ajuda de Larissa Martins, a quem todos chamam de Lara. Ela coordena o grupo Yes Brazil usa, é ativa em mutirões de engajamento nas redes e, no curso do evento, era uma das figuras mais cumprimentadas. Com cabelos cacheados e olhos claros, Lara distribuía camisetas patrióticas ao público. Ela e o marido, Mário Martins, cujo dinheiro provém de fazendas de búfalo na Ilha do Marajó, no Pará, fundaram a Yes Brazil usa logo depois da facada de Bolsonaro, em 2018. A entidade, diz o site, é defensora dos “fundamentos judaico-cristãos de suporte à família”. Na prática, organiza eventos e passeatas nos Estados Unidos a favor de Bolsonaro. “Fomos nós que apresentamos o Rick Scott ao Paulo”, diz Mario Martins, referindo-se ao senador republicano e a Paulo Figueiredo. “Daí, o Paulo apresentou o senador para o Eduardo.” Rick Scott já foi governador da Flórida e é um obstinado aliado de Trump. O casal Martins diz que não dá dinheiro para Eduardo.

Ao meio-dia, antes da abertura da cúpula, Eduardo tirou da bolsa preta um tripé de iPhone e um sabre de luz para dar entrevista a um canal latino no YouTube. Falou por trinta minutos. E dá-lhe criticar las maquinitas (as urnas eletrônicas) e “Morales” (Alexandre de Moraes). Encerrada a entrevista, almoçou no McDonald’s, onde nunca fritou hambúrguer, como gosta de repetir. Quando fez intercâmbio nos Estados Unidos, trabalhou na rede Popeyes, onde fritava frango empanado. “A esquerda gosta de me zoar, me chamar de fritador de hambúrguer, de Bananinha. Eu não ligo.” (Quem disse que Eduardo fritava hambúrguer foi seu pai, em 2019, quando o indicou a embaixador brasileiro em Washington. E quem o chamou de “Bananinha” foi o ex-vice-presidente, Hamilton Mourão, quando ele causou um incidente diplomático com a China.)

Na Cúpula Conservadora em Deerfield Beach, todos os palestrantes do evento eram brasileiros e ex-alunos de Olavo de Carvalho. Entre eles, Allan dos Santos, que fugiu do Brasil em 2021, quando teve sua prisão decretada por disseminar notícias falsas, e a juíza Ludmila Lins Grilo, aposentada compulsoriamente depois de atacar o STF. Paulo Figueiredo também falou. O mediador era Rafael Satiê, um vereador do PL do Rio de Janeiro que ganhou projeção levando cariocas para as manifestações em São Paulo.

O assunto do evento era apenas uma variação da pauta de sempre: o Brasil é uma “ditadura”, o cerco às redes sociais é uma tentativa de combater a ascensão de comunicadores críticos ao “sistema” e o tarifaço de Trump é um remédio amargo, mas necessário. Os participantes chegaram ao consenso de que só “estrangulando” a elite econômica será possível aprovar a anistia e promover o impeachment de Alexandre de Moraes. Esse consenso era reflexo do evento da XP Investimentos, realizado no dia anterior, em São Paulo, com a presença de um grupo de investidores e três governadores bolsonaristas: Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr. Eduardo estava possesso com o evento e mais possesso ainda com os governadores.

“Os três falaram que a relação econômica está acima de Bolsonaro”, espuma Eduardo. “O Trump abriu a carta dele falando de Bolsonaro, fez posts citando Bolsonaro, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil retuitou Bolsonaro. E daí, lá do Brasil, ficam falando em evento da XP que não é sobre Bolsonaro?” Ele continua: “A elite econômica e os políticos de direita falam apenas nas tarifas e seus desdobramentos, mas esquecem o recado claro de Trump: sem anistia, não tem recuo. Parece que muitas pessoas não entenderam isso.” Indignado, Eduardo critica em seguida as pretensões eleitorais dos governadores. “São carniceiros que querem os restos do espólio de Jair Bolsonaro, mas só levarão o voto da direita se não tiver ninguém mais à direita. Se eu for candidato, eu explodo o debate.”

 

Quem conversa com Eduardo sai com a impressão de que ele acredita que está percorrendo uma jornada heroica. Em seu entorno, e mesmo em sua própria família, há a percepção de que ele se sente o “filho escolhido” pelo pai, que desejaria vê-lo na disputa presidencial, embora Bolsonaro nunca tenha expressado essa vontade, pelo menos em público. Eduardo opera movido por certezas férreas. Diz que é adepto do conceito de “antifrágil”, criado pelo ensaísta Nassim Nicholas Taleb, segundo o qual a evolução se dá através do estresse agudo. “Uma coisa frágil cai no chão e se despedaça, como uma cerâmica. O oposto é algo que, sempre em confronto, fica cada vez mais forte: ao estressar o músculo, ele cresce. O sistema se estressa e eu me fortaleço.”

Ele acredita, ou diz acreditar, que está crescendo e se fortalecendo. Sem dúvida, gosta dos holofotes, tanto que montou uma operação de mídia para aparecer em todos os lugares. “Imagina o quanto eu teria de gastar de dinheiro para estar no Jornal Nacional toda hora?” E faz uma nova comparação: “Este episódio está sendo igual à facada do meu pai, com cobertura full time falando de Eduardo Bolsonaro.” Mas não consegue entender porque não tem sido aplaudido nem por seus pares. “A minha grande indignação é por que os demais que se consideram de direita não estão atuando no mesmo sentido que eu e o Paulo Figueiredo”, diz ele. “Por que quem deve ser freado sou eu, em vez de todo mundo ir junto contra o Alexandre de Moraes?”

No PT, naturalmente, Eduardo virou um ímã de críticas. Em um post no X, Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Secretaria das Relações Institucionais, fez o seguinte resumo do que chamou de “conspiração desse traidor da pátria”. Escreveu ela: “Perderam a eleição, nunca reconheceram o resultado, tentaram dar um golpe, assassinar o presidente eleito, e agora querem uma intervenção estrangeira no Judiciário e no Congresso do nosso país. E ainda querem se passar por vítimas. Esse crime de lesa-
pátria não pode ficar impune.”

As críticas foram além do PT. Há um incômodo visível na própria direita, como mostram as brigas reveladas pela Polícia Federal, embora poucos falem publicamente. O presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB) disse que o lobby de Eduardo contra o Brasil era inaceitável. O senador Irajá Silvestre Filho (PSD-GO) vai na mesma linha. “É inaceitável o que estamos vivendo, uma relação diplomática de tantos anos trincada por esse episódio”, diz ele. “O mercado vai digerir, não vejo uma crise profunda com empresas e setores quebrando. Ele [Eduardo] deu um grande tiro no pé.”

Sob qualquer critério, Eduardo parece que não está se saindo bem. As pesquisas mostram que ele é responsabilizado, junto com o pai, pelo impacto negativo das tarifas. A Quaest, cujos dados vieram a público em 20 de agosto, trouxe números mostrando que o presidente Lula é a figura política que tem agido com mais correção, superando inclusive Tarcísio, o segundo mais bem colocado. Neste quesito, Eduardo e o pai estão no fundo do poço. Para 69% dos entrevistados, Eduardo está apenas defendendo seus interesses pessoais e os de sua família. Só 23% acreditam que trabalha pelos interesses do Brasil.

Pelo menos até agora, Eduardo não fala em recuo. “Qual a opção que eu tenho? Moderar o meu discurso e ver nossos apoiadores com medo de falar e gente indo para a cadeia, inclusive a nossa maior liderança? Eu tenho certeza de que estou 100% certo.” Com tanta segurança, ele já andou ameaçando até Hugo Motta, o presidente da Câmara, e o senador Davi Alcolumbre, que preside o Senado, caso não se verguem às pressões para pautar a anistia (que, lembremos, não pode ser light) e o impeachment de Moraes.

 

Perto do fim da Cúpula Conservadora em Deerfield Beach, Eduardo e Figueiredo falaram durante quase uma hora. Descreveram o trabalho que culminou no tarifaço de Trump, nas sanções contra os ministros do STF e na aplicação da Magnitsky contra Moraes. Ali, a dupla voltou a dar a entender que as tarifas eram um resultado direto do lobby que fizeram. Na plateia, o prefeito de Deerfield Beach, o republicano Todd Drosky, agradeceu a Eduardo por sediar o encontro na sua cidade, onde 20% da população, diz ele, são brasileiros. Fabio Wajngarten, ex-ministro da Comunicação de Bolsonaro, também pegou o microfone por cinco minutos e falou de publicidade em emissoras de tevê e redes sociais. Na primeira fila, estava sentado Bruno Zambelli (PL), deputado estadual por São Paulo e irmão de Carla Zambelli, que, naquela ocasião, ainda não havia sido presa na Itália.

O mais influente na plateia, porém, era o carioca Pedro Valente, que se mudou para Miami em 1993 para cursar um MBA em administração de empresas. Hoje, ele e seus dois irmãos são donos de uma academia de jiu-jítsu, a Valente Brothers, onde treinam o casal Ivanka Trump e Jared Kushner e seus três filhos. Um dos irmãos de Pedro Valente, Joaquim, é companheiro da modelo Gisele Bündchen e pai do seu terceiro filho. Joaquim e Gisele viajam juntos com o casal Ivanka e Kushner para a Costa Rica. “Eu treino jiu-jítsu duas horas, toda sexta, com o Pedro, um grande amigo de muitos anos”, diz Paulo Figueiredo. “Já o Joaquim é o meu instrutor de tiro”, diz ele. Pergunto se ele conhece Gisele Bündchen: “Demais.”

Na cerimônia de posse de Trump, em janeiro passado, nenhum brasileiro esteve tão bem posicionado quanto Pedro Valente: sentou-se à mesa com a família Trump. Mas ele faz questão de informar que sua academia é “laica”, querendo dizer que atende cidadãos de qualquer ideologia. Como prova de seu ecumenismo político de origem, ele afirma: “O meu pai foi secretário de Saúde do Leonel Brizola.”

(No dia seguinte à Cúpula Conservadora, Pedro Valente deu provas cabais de sua influência. A história: Eduardo e família, Paulo Figueiredo e Fabio Wajngarten estão em um churrasco na casa de um amigo americano, em Miami Beach. De repente, drone e helicóptero sobrevoam o jardim. Um dos presentes, ao deixar a casa, é imediatamente cercado por vinte homens da Swat, a unidade de elite da polícia. Os policiais mandam evacuar a residência. A suspeita: há quatro cadáveres escondidos na casa, que seria vistoriada. A influência: Pedro Valente aparece, é reconhecido pelos policiais e, assim, num passe de mágica, tudo acaba em abraços, sorrisos e selfies. “Eu treino muitos militares, incluindo oficiais da Marinha e do Exército dos Estados Unidos, ensinando táticas de defesa humanizadas”, diz Valente. O desfecho: a denúncia dos quatro cadáveres, anônima, era infundada.)

 

No dia 19 de julho, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula o cargo com o de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, conversou por telefone com o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick – que é chamado pelas costas de Lunatic, o que dispensa explicações. Foi o primeiro contato do governo brasileiro com uma autoridade americana desde o tarifaço. Alckmin falou do interesse do Brasil em abrir uma negociação civilizada e ressaltou que Lula tem orientado para que as tratativas não tenham “contaminação política nem ideológica” – da parte do Brasil, bem entendido. Nada avançou. Seis dias depois da conversa de Alckmin com Lutnick, Lula se queixou que Alckmin liga todos os dias para a Casa Branca, mas não é atendido.

“O Alckmin está sendo muito humilhado”, diverte-se Eduardo, rindo à solta. Ele tem boicotado qualquer iniciativa brasileira de negociar. No final de julho, quando uma comitiva de senadores desembarcou nos Estados Unidos para tentar abrir um canal de comunicação, Eduardo disse o seguinte ao SBT News: “Eu trabalho para que eles não encontrem diálogo.” A comitiva reuniu-se com nove parlamentares, dos quais oito pertenciam ao Partido Democrata, e não colheu nenhum resultado. Um dos integrantes da comitiva brasileira era o senador Marcos Pontes (PL-SP), o astronauta bolsonarista. “Ele apareceu de bermuda numa reunião, nem trouxe calça. Acho que ele pensou que iria para Marte”, debocha Eduardo. (Era uma reunião informal, apenas com colegas de Senado, realizada no hotel em que se hospedavam.)

O ministro Fernando Haddad, da Fazenda, também foi boicotado. Ele tinha uma reunião virtual com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, marcada para o dia 13 de agosto. Os dois já se conheciam. Em maio passado, haviam sido apresentados num evento em Los Angeles pelo economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Às vésperas da reunião, porém, Bessent cancelou a conversa sem marcar uma nova data. Em entrevista à GloboNews, Haddad acusou a extrema direita – sem citar Eduardo nominalmente – de trabalhar para interditar o encontro. De início, Eduardo negou ter articulado contra a reunião. “Eu não cavo medidas contra o Brasil. A questão é que Lula fala tanta besteira e Haddad é tão ineficiente, que eles próprios enterram qualquer possibilidade de diálogo.”

Dias depois, ele próprio deixou claro que nem Haddad era o incompetente, nem Lula era o responsável por ampliar uma crise diplomática, já que, no dia da conversa cancelada, quem estava reunido com o secretário do Tesouro era o próprio Eduardo, que se fez acompanhar de Paulo Figueiredo. Ele conta que entregou relatórios para informar que Moraes não estava sendo punido como deveria pela Lei Magnitski. “A maior parte eram matérias da imprensa brasileira, traduzidas para o inglês, noticiando que os bancos e instituições financeiras não estavam cumprindo com a Magnitsky.” Encerrada a conversa, Eduardo postou uma foto ao lado do secretário e de Figueiredo, e escreveu que era “uma oportunidade única poder conversar sobre o Brasil e a América com alguém tão preparado”. Encerrou com um novo deboche: “Que os laços de amizade entre o Brasil e os Estados Unidos se fortaleçam ainda mais.”

Eduardo afirma que sem anistia (lembremos de novo: que não pode ser light) e o consequente perdão a Bolsonaro, ninguém do governo americano receberá Lula ou abrirá negociações – e tudo em razão do seu lobby. “Eu sou o brasileiro mais querido por Trump”, afirma, com satisfação. Ele também já saiu para caçar com Donald Trump Jr., em outubro de 2021, e esteve no escritório privado do presidente Trump em Nova York, ocasião em que sua filha engatinhou pelos tapetes. Perguntei se ele tinha contatos da família Trump em sua agenda no iPhone. Ele respondeu: “Vários.” Quando pedi que me mostrasse, ele se recusou.

A jornada de Eduardo mostra que ele está sendo ouvido em Washington, mas seu trabalho se encaixou como a mão na luva. Do ponto de vista de Trump, além das questões da economia global, faz sentido sua tentativa de desestabilizar o governo Lula e o STF. Afinal, até agora, o Brasil é a única democracia das Américas que, tendo sobrevivido a um governo de extrema direita, está julgando seus crimes – medida que, se tivesse sido tomada pela Justiça americana, poderia ter impedido Trump de estar agora na Casa Branca.

Apesar das convicções inabaláveis, Eduardo tem seus momentos de dúvida. Em caso de fracasso, ele planeja continuar nos Estados Unidos e passar a trabalhar na área de consultoria jurídica ou política. “Vou conseguir dar um jeito”, diz ele. “Dá para trabalhar junto ao Congresso. Se o brasileiro tem problema aqui com o que quer que seja, daí você fica abrindo porta. Aqui [o lobby] é trabalho lícito e legal.” E emenda em seguida: “Mas vou continuar denunciando os caras aqui de fora.”

Um integrante do PL, que pede para ficar anônimo para não abalar sua frequente interlocução com Eduardo, afirma que, entre os amigos no Texas, discute-se o plano de criar um fundo para recolher doações financeiras para ajudá-lo a permanecer nos Estados Unidos. “Mas aí a realidade vai se impor”, diz esse interlocutor. “Com Bolsonaro preso e as tarifas superadas pelo governo, com redirecionamento das exportações para outros países, o Eduardo vai perder valor de mercado.”

 

Na terça-feira, 29 de julho, Eduardo tirou um descanso de sua campanha. No Brasil, as manchetes dos jornais estavam incandescentes. Na Folha de S.Paulo: “Governo pede aos EUA exclusão de alimentos e da Embraer de tarifaço.” No Estadão: “Lula vai esperar tarifaço para definir reação e socorro a setores.” O Tempo: “Empresários tentam ajudar o Brasil com carta à Casa Branca.” Zero Hora: “Trump diz que tarifas serão de 15% a 20% para países que não fecharem acordos.” De folga, Eduardo resolveu tomar café da manhã com a mulher e os dois filhos pequenos. Escolheu o Bal Harbour Shops, um dos endereços de compras mais chiques de Miami.

João Batista Jr.
João Batista Jr.

Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)

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