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    Luísa Matsushita em seu ateliê: em um canto do local, ela montou uma espécie de santuário com presentes recebidos de fãs. “Subir no palco é difícil. Mas sair de lá é tão difícil quanto” CRÉDITO: GIL INOUE_2025

músicos do brasil

Da turbulência ao silêncio

A trajetória de Luísa Matsushita e do grupo Cansei de ser sexy

Danilo Marques | Edição 228, Setembro 2025

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Durante uma viagem de ônibus de Nova York até Woodstock, em 2013, voltou à mente de Luísa Matsushita uma pergunta que vinha perturbando suas noites de sono: “O que você quer fazer da vida?” Aos 29 anos, Matsushita estava cada vez mais incomodada com o rumo que sua vida tinha tomado como cantora do Cansei de ser sexy, ou CSS, grupo de música pop-rock e eletrônica que obteve grande sucesso no início dos anos 2000 e continua a ser uma das bandas brasileiras mais admiradas no exterior. “Eu queria ser uma designer famosa, não uma celebridade pop. Cantar nunca foi o que me propus fazer. Eu não sei cantar, eu não gosto de cantar”, ela diz, ao recordar aquele momento decisivo.

Apesar da dura autoavaliação, foi como cantora que Matsushita se projetou internacionalmente. Por isso mesmo, a decisão de parar de cantar depois de uma década não era nada fácil para ela. Tanto mais que isso significaria se afastar de suas três amigas do Cansei de ser sexy, todas elas vivendo atualmente em Los Angeles: Ana Rezende, Luiza Sá e Carolina Parra.

Depois de muito refletir, Matsushita não deixou o grupo, mas pouco a pouco resolveu buscar um novo caminho. Levando adiante seu gosto pelo desenho, que praticava havia anos, ela decidiu se tornar artista visual.

 

Em 2014, fez uma exposição individual, chamada Animal, na Percy Gallery, em Oakland, na Califórnia, com vistosas pinturas de guepardos feitas com sumi, um tipo de tinta, como o nanquim. Depois, se embrenhou por conta própria em uma residência artística na Amazônia durante dois meses. Quatro anos depois, enquanto seguia seu caminho autodidata na pintura, foi à Austrália para ter aulas de permacultura – que planeja ambientes sustentáveis, em equilíbrio com a natureza. De volta a São Paulo, resolveu vender seu apartamento “com tudo dentro” e comprou um terreno de 5 mil m² em Garopaba, no litoral de Santa Catarina. Matsushita queria construir uma casa e colocar em prática seu aprendizado em permacultura. Não deu muito certo: ela não pediu o alvará de construção à prefeitura, e a obra foi embargada. A cantora se conformou em fazer apenas um barraco no terreno, onde morou de 2018 a 2023, sozinha.

A permacultura ficou um pouco para trás, mas Matsushita persistiu nas artes. Até que, em 2023, foi convidada para outra exposição individual, agora na Galeria Luisa Strina, uma das mais conceituadas de São Paulo. Grandes pinturas abstratas, com formas orgânicas, ganharam títulos divertidos como Cebolão e Caminhão de melancia. O próprio nome da mostra contrariava a frequente austeridade de algumas exposições, lembrando mais uma letra de música: Se não for para chorar, eu nem saio de casa.

A Galeria Luisa Strina acabou se interessando em representar a nova artista, e Matsushita resolveu se dedicar com mais afinco à pintura. Alugou um ateliê em São Paulo, onde agora se refugia quando não está em turnê. Aos 41 anos, ela diz que a rotina de shows já não lhe faz bem e que muitas vezes prefere ficar ali, no ateliê, sozinha, em silêncio. É uma mudança significativa para alguém que duas décadas atrás, com o Cansei de ser sexy, fez muito barulho e empolgou a juventude nos clubes mais antenados de São Paulo e de outras metrópoles pelo mundo com suas músicas debochadas, as roupas multicoloridas e as performances irreverentes.

 

 

No palco, Luísa Matsushita é Lovefoxxx. Foi o pseudônimo que adotou em 2002 – quando ainda não existia o Cansei de ser sexy –, depois de acessar um site dos primeiros anos da internet, o Pornalizer, cuja brincadeira era oferecer ao usuário um nome com o qual poderia tentar carreira no mercado pornô. O site pedia o nome completo e oferecia um “nome de guerra”. Apenas por curiosidade, porque ela não estava interessada em se aventurar na pornografia, Luísa Hanaê Matsushita digitou seu nome completo – e o site lhe sugeriu o pseudônimo Linda Love Fox (raposa do amor, no sobrenome). Bingo! Matsushita juntou os dois sobrenomes, acrescentou dois X, a fim de deixar mais contemporâneo, e criou o apelido com o qual começou a assinar desenhos e ilustrações.

Descendente de japoneses pelo lado paterno, ela nasceu em Campinas, numa família de classe média. Seu pai, que é formado em direito, fez carreira como técnico em eletrônica e trabalhou por anos como mecânico da Vasp. A mãe, hoje aposentada, foi professora de educação básica. Aos 13 anos, a menina já gostava de roupas exuberantes: quando saía nas ruas, toda montada e com maquiagem chamativa, havia quem a comparasse, por causa do exagero, com drag queens, a despeito da altura (hoje, 1,60 metro). “Eu fui criada para o mundo”, diz Matsushita.

Em 2000, ainda no ensino médio em Campinas, ela viu na revista Capricho, dirigida a adolescentes, uma reportagem sobre o evento de moda Casa de Criadores, realizado em São Paulo pelo produtor André Hidalgo. Em um box cor-de-rosa no canto da matéria, uma pequena chamada dizia que os interessados em fazer um desfile no evento podiam enviar seus portfólios para a Rua Augusta, nº 2690.

 

Matsushita tinha apenas 16 anos, mas resolveu arriscar, porque vinha se aventurando no design de moda. Enviou um portfólio feito de maneira bem artesanal, com fotos digitais impressas que mostravam suas amigas vestindo roupas confeccionadas por ela. Esperou por uma resposta – mas nada. Resolveu então ligar para a Casa de Criadores.

Quem atendeu foi Alexandre Duarthe, assistente de Hidalgo, que disse ser impossível dar a ela a chance de um desfile, por ser menor de idade. Em compensação, ofereceu uma vaga de faz-tudo no evento. “Era o mesmo que conseguir um estágio”, diz a cantora. Mais ainda: era a chance de se aproximar dos estilistas que admirava e mergulhar na cena underground de São Paulo, que naquele início do século XXI estava em ponto de ebulição. Uma leva de jovens estilistas paulistas dava a sensação de que a moda brasileira vivia um novo tempo e iria finalmente deslanchar, com o empurrão da São Paulo Fashion Week, que concentrava os principais desfiles.

Matsushita chegou bem na hora. A experiência na Casa de Criadores acabou lhe rendendo três ofertas de emprego: das grifes Cavalera (criada pelo ex-deputado estadual Alberto Hiar e pelo baterista Igor Cavalera, da banda Sepultura); Carlota Joaquina (segunda marca da estilista Gloria Coelho); e Caio Gobbi. Ela preferiu trabalhar com Gobbi, por quem tinha admiração – e que a havia presenteado com uma regata de tule com estampa da Hello Kitty. Para tanto, Matsushita teria que se mudar para a capital paulista. Do flat alugado para passar apenas uma semana, ela ligou para seus pais e disse que não voltaria para Campinas. O casal não teve opção senão concordar.

A jovem iniciou, então, uma maratona, durante as férias de julho, para conseguir um apartamento e se matricular em uma escola onde pudesse concluir o ensino médio – faltava um ano e meio de estudo. Optou por dividir com quatro mulheres que mal conhecia um apartamento no bairro Bela Vista. Quanto à escola, escolheu a mais barata que encontrou. Antes de terminar o ensino médio (ela nunca fez curso superior), Matsushita se mudou para um endereço no Baixo Augusta – trecho da famosa rua que na época era um espaço de cultura alternativa, mas também de uma desinibida prostituição nas calçadas, sem falar nos pequenos crimes. “Foi uma época triste. Aprendi a andar na rua depois de enfrentar essa parte da Augusta”, ela diz.

 

O Cansei de ser sexy começou a surgir num clube do Baixo Augusta, o Funhouse. Em agosto de 2003, no primeiro aniversário do clube, uma das atrações da festa foi a apresentação do músico Adriano Cintra com sua banda I Love Miami. Em meio ao público, estava a mineira Iracema Trevisan, que vinha matutando um novo projeto para sua vida: criar um grupo musical. Na época com 20 anos, Trevisan era estudante de moda na Faculdade Santa Marcelina e assistente do estilista Alexandre Herchcovitch. Embora não fosse amiga de Cintra, mantinha contato com o músico, que namorava o artista plástico Maurício Ianês, o braço direito de Herchcovitch.

O alvoroço no Funhouse com a “banda de barulho” (como a definiu Cintra) durou cerca de 20 minutos. Ao final, Trevisan procurou Cintra para cumprimentá-lo e, além dos elogios, propôs que lançassem juntos um novo grupo. Ele respondeu de maneira bem lacônica: “O.k., a gente se fala.”

Naqueles tempos, Cintra, que vivia criando bandas, alugava uma sala no bairro Barra Funda, onde fazia ensaios. Dias depois da conversa-relâmpago no Funhouse, Trevisan insistiu com o músico sobre a criação do grupo e aproveitou para pedir emprestada a sala na Barra Funda, a fim de fazer um primeiro ensaio. Ele perguntou quem iria. “A Ana, a Luiza Sá, a Maria Helena. E uma garota que você vai adorar conhecer: a Luísa”, disse, referindo-se a Matsushita. “Ela é ótima. E tem uma guitarra.”

Foi nas baladas paulistanas que Matsushita conheceu Ana Rezende, de 20 anos, estudante de cinema, Luiza Sá, de 19 anos, que fazia artes plásticas, e Maria Helena Zerba, também de 20 anos, aluna de uma faculdade de moda. “Toda quinta, nós íamos à Torre”, recorda Rezende. A quinta-feira era a melhor noite do badalado clube no bairro de Pinheiros, ou pelo menos a noite mais divertida, porque era quando acontecia a festa Debut, que atraía figuras descoladas da moda e das artes.

Matsushita chegou ao ensaio na Barra Funda vestindo uma camisa da banda britânica de rock Motörhead. Ela conta que, ao entrar na sala e encontrar toda a turma já reunida, se sentiu um peixe fora d’água. Para piorar, o único posto que tinha sobrado na banda não era o de guitarrista, mas o de cantora. Matsushita arranhava alguma coisa na guitarra, mas ser cantora era algo que nunca tinha passado por sua cabeça.

“Ela não sabia cantar nada, só sabia gritar”, diz Cintra à piauí. Com o que Matsushita concorda. Se não era possível cantar, que ao menos berrasse. “Ela berrava como a Kathleen Hanna”, recorda Ana Rezende, em tom de elogio, comparando a amiga à cultuada cantora da banda de punk feminista Bikini Kill. “Apesar de eu ser tímida, a performance é que era meu forte”, avalia Matsushita. De fato, seria a desenvoltura de Lovefoxxx nos palcos, mais que sua voz, que logo chamaria a atenção para a nova banda. “Ela não era discreta e não queria passar despercebida”, diz Herchcovitch, que assistiu a alguns dos primeiros shows.

Quando foram decidir o nome do grupo, Matsushita lembrou-se de uma entrevista em que Beyoncé dizia estar cansada de ser sexy. O comentário narcisista da cantora americana chamou a atenção da turma, mas eles cogitaram opções, como “Cansei de ser rico”. Por fim, o “ser sexy” acabou se impondo, apesar de não ter a preferência de Cintra. “Eu achava que seria um nome provisório”, ele diz.

O grupo começou ensaiando sucessos alheios. Com o tempo, resolveu criar suas próprias canções. Algumas semanas depois do primeiro ensaio, com um conjunto de inéditas, Cintra decidiu que era hora de fazer um show. O local escolhido para a estreia do Cansei de ser sexy foi o Sixties, uma loja de quinquilharias em Pinheiros, conhecida do público alternativo por promover festas e apresentações de bandas, que nasciam e acabavam num piscar de olhos. “As meninas ficaram em pânico”, relembra Cintra, sobre o momento em que falou com as parceiras sobre a primeira apresentação pública da banda.

Como o número de músicas era pequeno, ele correu para fazer outras e se pôs a vasculhar composições deixadas nos arquivos do computador. Matsushita entrou na parada, enviando ao colega letras que pipocavam em sua cabeça, que ele em seguida musicava. Dessa mesma forma surgiriam alguns dos sucessos do Cansei de ser sexy, como Alala, Let’s make love and listen to death from above e Meeting Paris Hilton.

Numa noite de novembro de 2003, na estreia no Sixties, a composição da banda ficou assim: Adriano Cintra, o único homem no palco, atacou na bateria; Maria Helena Zerba se instalou no teclado; Iracema Trevisan ficou com o baixo; Ana Rezende e Luiza Sá, com as guitarras. No vocal, Luísa Matsushita, quer dizer, agora Lovefoxxx, usando roupas customizadas por ela.

O público pareceu não se incomodar com os instrumentos mal tocados. As letras, despretensiosas e bem-humoradas, chamaram mais a atenção, bem como a performance atrevida de Lovefoxxx. Uma das músicas apresentadas foi Pau no cu da Valentina, que satirizava (sem nomear claramente) uma poderosa corretora de imóveis de São Paulo, Valentina Caran, e expressava a irritação juvenil por não conseguir alugar uma moradia: Preciso de uma casa/ou apartamento/não tenho fiador/vai tomar no cu!/ina, ina, ina, pau no cu da Valentina.

Entre o público rarefeito do show, estava Ricardo Ataíde, que às vezes discotecava no programa Gordo a go-go, de João Gordo, na MTV. Dias depois, em uma de suas participações na tevê, ele decidiu tocar uma canção do Cansei de ser sexy, Ódio ódio ódio, sorry C. “As coisas começaram a acontecer a partir daí”, diz Cintra.

As redes sociais ainda engatinhavam – o MySpace tinha sido lançado naquele ano de 2003 e o Orkut só surgiria no ano seguinte. O Cansei de ser sexy foi rápido na avaliação de que o futuro passava por aquelas tecnologias e disponibilizou a maior parte de suas músicas gratuitamente no Trama Virtual (um site da gravadora Trama, aberto a todos). Também começou a vender em casas de shows camisetas estampadas com seu nome e CDs feitos artesanalmente. Em julho de 2004, lançou a primeira gravação em disco, produzido de maneira amadora: o EP Em Rotterdam já é uma febre, com sete faixas: uma introdução para I wanna be your J. Lo.; a própria I wanna be your J. Lo.; Ódio ódio ódio, sorry C.; Hollywood; Meeting Paris Hilton; Bezzi; e outra vez I wanna be your J. Lo, numa apresentação ao vivo.

Todas as músicas haviam sido compostas por Cintra e Lovefoxxx, exceto Bezzi, que teve a participação de Luiza Sá, e Hollywood, uma versão do sucesso homônimo de Madonna. J. Lo é a atriz Jennifer Lopez, uma das celebridades evocadas pelo grupo neste início, assim como a milionária Paris Hilton, numa canção debochada que diz: I wanna go/To the Hiltons all over the world/And I, I wanna be/Just like you, bitch. “Era tudo bem chamativo, mas maravilhoso”, diz Herchcovitch. “Porque uma coisa é você ser chamativo, porém não ter conteúdo. Eles eram chamativos e tinham um bom conteúdo.”

 

Passo a passo, mas bem rapidamente, o Cansei de ser sexy foi cavando o sucesso – até chamar a atenção da imprensa. Em 9 de janeiro de 2004, a jornalista Erika Palomino, então a mais influente na cobertura da noite e da moda paulistana, mencionou pela primeira vez o grupo em sua coluna na Folha de S.Paulo:

E por aqui fica como apostinha de 2004 as meninas do Cansei de ser sexy. Já tinha ouvido falar, mas vi ao vivo na última semana de dezembro no D-Edge [um clube paulistano]. O vocal principal é da absurda Love Foxxx, codinome para a fashionista Luiza, ex-assistente de Caio Gobbi. Adriano Cintra vai na bateria, e as outras atacam na baderna punk, com todos os elementos necessários. As letras são irônicas e divertidas, com frases tipo I wanna be your J. Lo.

“No caso do Cansei, foi um dos momentos em que tive a exata sensação de que estava diante de uma coisa que podia dar um caldo”, recorda a jornalista à piauí. Os principais elementos que chamaram a atenção dela foram a jovialidade desafiadora, a intersecção com a moda e a atitude punk, “tipo: a gente não sabe tocar, mas não tem problema algum não saber”, na explicação de Palomino. “Era confronto, mas confronto com charme: eles não tinham a contestação do rock, eram bastante irônicos.”

O crítico musical Lúcio Ribeiro – jornalista muito atento à cena indie rock em São Paulo – lembra que, a partir de dado momento, não havia ninguém que fosse indiferente ao Cansei de ser sexy e ao modo como o grupo tentava “arejar” a música brasileira. Em 2 de abril de 2004, em sua coluna Popload, também na Folha de S.Paulo, Ribeiro selecionou Meeting Paris Hilton entre suas músicas preferidas da temporada:

O explosivo combo de garotas de SP tem o diferencial indie, por onde quer que você olhe. É luxuoso, festeiro, e o som melhora a cada dia. Tem atitude, tem a Lovefoxxx no vocal, o Adriano Butcher [codinome de Cintra] na bateria, mescla guitarra barulhenta com teclado vagabundo, escolhe os temas das músicas tão bem quanto o Los Pirata [um trio brasileiro].

No fim de 2004, o Cansei de ser sexy foi convidado para se apresentar no Tim Festival, evento de música alternativa em São Paulo. “Foi o momento mais importante do ano para a banda”, diz Ana Rezende. Tanto mais que a edição de 2004 do festival trazia o grupo alemão Kraft­werk, pioneiro da música eletrônica, e os famosos britânicos Pet Shop Boys e PJ Harvey. Foi Rezende quem recebeu a ligação dos produtores do evento, com o convite para que se apresentassem no palco principal. “Eu nem fazia ideia de quanto eu poderia cobrar de cachê”, ela conta.

O grupo subiu ao palco com oito pessoas, sua nova formação. A hoje stylist Clara Lima entrou para reforçar os vocais, ao lado de Lovefoxxx. Carolina Parra, que estudava artes plásticas e já havia tocado com Cintra no grupo Ultrasom, foi convidada para impulsionar as guitarras.

A apresentação da banda no Tim Festival foi um fiasco. O Cansei de ser sexy teve que afinar os instrumentos quando já estava no palco, porque não foram autorizados antes, o que atrasou a programação do evento e irritou parte do público, que chegou a vaiar a banda. “Eu não faço ideia do que dizer a respeito daquele show. Foi um tiro no pé que nos deixou mais fortes”, disse Cintra ao jornalista Thiago Ney, três anos mais tarde. “Não nos deixar passar o som [antes do início da apresentação] foi uma palhaçada que até hoje eu tenho raiva. Muita gente falou mal, muita gente ainda vai falar mal e eu tenho coisas mais importantes para me preocupar.” À piauí, Cintra diz que, ao assistir alguns trechos disponibilizados no Youtube, percebeu que o show “não foi tão ruim assim”. Mas ele ficou por um tempo traumatizado com apresentações para grandes plateias.

Na plateia do Tim Festival, estava Carlos Eduardo Miranda (1962-2018), um funcionário da gravadora Trama com bom faro para bandas em ascensão. “Ele era um cara supervisionário, o homem mais legal do mundo”, diz Rezende. (Miranda foi um dos responsáveis pelo lançamento de grupos e músicos de sucesso, como Raimundos e Gaby Amarantos.) Apesar do fracasso no Tim Festival, a Trama resolveu contratar o Cansei de ser sexy – e o grupo iniciou a produção de seu primeiro CD comercial.

Lançado em 2005, o CD chamou-se, claro, Cansei de ser sexy. Trazia catorze músicas, todas elas assinadas por Cintra, sozinho ou em parceria. Destas, onze eram composições em inglês, como Meeting Paris Hilton e Let’s make love and listen to death from above. “Minhas referências todas eram americanas”, conta Lovefoxxx, coautora de onze canções. Para Iracema Trevisan, as letras eram em inglês porque havia uma “vontade de fazer parte do mundo”.

Em 12 de agosto daquele ano, o grupo tocou no festival Campari Rock, para o qual tinha sido convidado por Lúcio Ribeiro, então envolvido na organização do evento. A apresentação foi parte da campanha do primeiro CD, lançado dois meses depois. Do show, o jornalista lembra-se apenas do momento em que Clara Lima, “em uma das loucurinhas típicas do Cansei” (nas palavras de Ribeiro), levou um tombo no palco. Apesar da queda, a performance do grupo foi bem recebida. A melhor notícia, porém, viria alguns dias depois, da Inglaterra.

Em 21 de agosto, o jornal britânico The Guardian dedicou uma reportagem de página inteira à nova música alternativa feita no Brasil – e o destaque foi dado ao Cansei de ser sexy. Anyone for a spot of satanic samba? (Alguém quer um pouco de samba satânico?) era o título da matéria assinada por Peter Culshaw, que assistira a um show em São Paulo. Culshaw chamou o grupo de “um fenômeno da internet” e escreveu: “Sua sensibilidade pop, maquiagem brilhante e subversão me deixaram perplexo, encantado e me conquistaram totalmente.” Essa inesperada projeção na imprensa em língua inglesa seria de grande utilidade para a futura difusão da banda no exterior.

Uma remessa com o primeiro álbum do Cansei de ser sexy foi enviada aos Estados Unidos e à Inglaterra por Eduardo Ramos, responsável na Trama pelo plano de carreira dos artistas. O CD foi parar no toca-discos de Tony Kiewel, que desempenhava função similar à de Ramos na gravadora americana Sub Pop – responsável por revelar vários nomes influentes do rock e do pop desde os anos 1990. Kiewel também se entusiasmou com a banda brasileira e decidiu lançar o disco nos Estados Unidos.

Os seis membros da banda (a essa altura, Maria Helena Zerba e Clara Lima haviam deixado a turma) embarcaram para Washington, com o objetivo de se encontrar com os representantes da gravadora americana – e já engataram uma turnê pelos Estados Unidos. Junto com outro grupo brasileiro, o Bonde do Rolê, o Cansei de ser sexy foi encarregado de fazer a abertura dos shows do dj americano Diplo. Ao se encontrar com Lovefoxxx em Nova York, na primeira viagem que ela fazia ao exterior, Kiewel profetizou: “Da próxima vez que nos encontrarmos, você já terá conhecido o mundo todo.”

De fato. Em pouquíssimo tempo e na velocidade de um jato, o Cansei de ser sexy saltou do mundinho paulistano para o mundo. Em 2007, o grupo fez trezentos shows em vários países, uma média de 25 apresentações por mês. “Cada dia a gente estava num país, cada dia acordava num país diferente e pra gente era muito legal, estávamos viajando loucamente, fazendo turnê, conhecendo pessoas”, relembra Cintra. Para facilitar a pronúncia dos fãs estrangeiros, o grupo passou a privilegiar como nome a própria sigla: CSS.

No mesmo ano, um fã americano que teve acesso à canção Music is my hot hot sex resolveu editar por conta própria um pequeno videoclipe com imagens dos músicos do CSS achadas na internet. O clipe foi um sucesso: não demorou a atingir 100 milhões de visualizações no YouTube, tornando-se o primeiro a alcançar essa marca na plataforma. A Apple logo se interessou pelo clipe e licenciou a canção para uma publicidade do recém-­lançado iPod Touch, de reprodução de músicas. Impulsionada dessa maneira, a canção entrou no mesmo ano para a lista da revista Billboard das cem músicas mais ouvidas nos Estados Unidos – um feito até então só alcançado por alguns poucos brasileiros, como Sérgio Mendes e Astrud Gilberto.

Uma reportagem de capa na edição de março de 2008 da britânica Dazed, na época uma das mais influentes publicações de cultura e música jovem, consagrou a banda no universo anglófono. A capa trazia uma foto de Lovefoxxx com um macacão colante multicolorido e cheio de brilhos. Dentro da revista, doze páginas dedicadas ao grupo brasileiro. “Eu fiquei um pouco desconfortável com essa matéria, porque a Dazed queria que eu saísse sozinha na capa. Fiquei bem constrangida”, conta Lovefoxxx.

Outra publicação importante do mundo da música pop e rock, a revista New Musical Express (NME), ampliou o coro, elegendo Lovefoxxx, no mesmo ano, como a 14ª pessoa mais cool do mundo. “Disseram que o CSS tinha ‘crescido’ com o segundo álbum, Donkey. Felizmente, isso não impediu Lovefoxxx de se vestir com uma roupa de dragão prateado e transformar todos os festivais do Reino Unido em um tumulto de alegria caleidoscópica e embriagante. De novo”, escreveu a NME.

O álbum Donkey, “feito na estrada e para a estrada”, na definição de Lovefoxxx, tinha sido lançado em julho de 2008. Os fãs gostaram do novo CD, que logo foi parar na lista dos duzentos mais vendidos do mundo. A crítica, porém, ficou dividida. Na Pitchfork, uma prestigiosa revista online de música independente, o crítico Eric Harvey escreveu ter sentido falta, no novo disco, da jovialidade do primeiro álbum: “O cansaço da estrada que levou ao profissionalismo certinho de Donkey parece ter se instalado rapidamente; espero que passe na mesma velocidade.” A NME, por sua vez, considerou Donkey um trabalho mais denso que o primeiro álbum: “Não menos gratificante, mas talvez não tão empolgante.” Em uma crítica não assinada, a revista afirmou: “[O novo disco] É uma coletânea mais ousada que a primeira, sem a alegria implacável que se espera. Mas também é um grande passo à frente, que prova que eles não vão desaparecer com a brisa mutável da moda.”

 

Cerca de um ano antes, um comentário havia desencadeado um feroz mal-estar nas relações entre os integrantes do grupo. Em um encontro com Cintra, em 2007, o executivo Matt Bates, da Primary Talent, empresa do Reino Unido que gerenciava os contratos do Cansei de ser sexy no exterior, comentou com o músico que finalmente iria conseguir quitar sua casa na Inglaterra e trocar o carro, graças às comissões que vinha ganhando com o grupo. Cintra se espantou com o comentário sobre tamanha fartura, uma vez que os próprios integrantes da banda precisavam implorar as comissões deles para Eduardo Ramos – que havia deixado a gravadora Trama e se tornado empresário do grupo.

O músico resolveu questionar Ramos, que explicou que o atraso nos recebimentos era devido às dificuldades de praxe nas transações internacionais e aos impostos cobrados pelo governo britânico. Cintra e Luiza Sá marcaram uma conversa com a Primary Talent. Cintra então ouviu, pronunciada por Bates, uma frase que reverbera até hoje em sua cabeça: “Tudo o que vocês tinham a receber até agora já foi pago.”

Em um novo encontro do grupo com Ramos, Cintra disse ao empresário: “A gente te ama, você é nosso irmão, você apostou na gente, mas chega de mentira.” A conversa foi registrada por um pequeno gravador guardado no bolso da camisa de Luísa Matsushita. A piauí teve acesso à gravação. “Desde o começo do ano, foram movimentadas 682 mil libras na conta da banda e até agora não veio nada pra gente”, continuou Cintra, pouco antes de dizer que precisava sair dali ou acabaria batendo no empresário.

A quantia mencionada se referia somente às apresentações de 2007 e equivalia, na época, a cerca de 2,3 milhões de reais. “Onde está esse dinheiro, Eduardo?”, perguntou Carolina Parra. Seguiu-­se um tenso silêncio. Os muitos dias na estrada não haviam engordado a própria conta bancária dos músicos, cujos pagamentos eram feitos de maneira irregular, conforme suas demandas cotidianas. Cintra reclamava que não tinha dinheiro para comprar um maço de cigarros. Matsushita se queixava de não conseguir pagar o médico.

Ramos tornou-se um tópico delicado para todos os integrantes da banda – e acabou se desligando do grupo. No lugar dele foi contratado o americano Joel Mark. Cintra acabou movendo um processo contra Ramos, em que o acusava de furto, mas a iniciativa não foi adiante, pois o juiz pediu comprovação da relação profissional entre o empresário e o grupo – e eles não haviam feito sequer um contrato.

O afastamento de Ramos acarretou a saída de Iracema Trevisan. Em entrevistas dadas na época, ela disse que queria voltar a trabalhar com moda. Mas o motivo era sua relação pessoal com o empresário. “O pessoal da banda começou a descontar em mim a raiva que tinha do Eduardo”, conta ela. “A amizade com eles quebrou por tabela.” Ramos disse à piauí, por e-mail, que “absolutamente toda a receita do projeto foi utilizada em custos operacionais da própria iniciativa, eu mesmo não retirei 1 real sequer a título de remuneração pelo trabalho realizado. Éramos todos jovens e legitimamente ávidos por realizações”.

Quando a turnê de Donkey chegou ao fim, em 2009, Cintra voltou ao Brasil. “Ficou claro que o Adriano [Cintra] já não queria mais fazer shows”, comenta Ana Rezende. “Ele se tornou mal-humorado e agressivo, fazendo demandas irreais para a banda.” Cintra afirma que a criação das músicas recaía sobre sua inteira responsabilidade e isso o sobrecarregava. “Eu enchia o saco para que elas fizessem alguma coisa”, diz o músico, para quem Lovefoxxx era a única que efetivamente colaborava. Mas a própria Matsushita afirma que a reclamação de Cintra não faz sentido: “Ele quase nunca dava abertura para participarmos.”

Cintra também não se mostrava animado a fazer um terceiro disco. Mas fez. Em 2011, foi lançado La Liberación, que traz o hit City Grrrl, criado por ele e Lovefoxxx. E o Cansei de ser sexy foi, pela terceira vez, para a estrada.

Meses antes do lançamento do álbum, Cintra descobriu que estava com um problema de saúde. Os shows vinham se tornando cada vez mais extenuantes para ele: “Eu achava todos os dias que ia morrer.” Mesmo assim, seguiu até o fim, sem revelar seu problema às colegas da banda, que sentiam seu distanciamento. O músico conta que, em seu aniversário de 37 anos, em 21 de maio de 2011, as parceiras da banda o parabenizaram “muito friamente” e sequer se interessaram em ratear o bolo levado por uma amiga até o camarim, depois de uma apresentação em Chicago. “Nem disso elas participaram”, ele reclama. “Começou a ficar um clima chato.”

Depois da turnê programada, Joel Mark, o novo empresário, marcou uma nova rodada de shows, o que desapontou Cintra. À revelia de Mark, o músico decidiu voltar a São Paulo para fazer um tratamento médico. Ficou quatro semanas. Enquanto estava no Brasil, recebeu o e-mail que tornou tudo mais difícil na relação com o restante da banda. O empresário escreveu: “Precisamos conversar sobre o seu salário de 1,5 mil libras por mês do CSS. Esse salário vem estritamente do lucro dos shows, e como você não está mais tocando nos shows não faz sentido que continue recebendo esse valor. Como você não está se apresentando, a banda precisa pagar outra pessoa para tocar, o que acaba saindo mais caro para o CSS quando não está em turnê.” Ao receber o e-mail, muito irritado, Cintra enviou às colegas uma mensagem na qual dizia que elas estavam tramando contra ele pelas costas. Acrescentou que também iria processá-las. Estava selada a ruptura. Em fins de 2011, ele deixou a banda.

Só dois anos depois, em 2013, Mark então mandou para Cintra o distrato de contrato. Conforme o documento de quatro páginas, ele continuaria a receber somente os royalties das músicas, através das gravadoras que lançaram seus álbuns entre 2006 e 2011. Num e-mail enviado às quatro participantes que restaram no Cansei de ser sexy – Luísa Matsushita, Ana Rezende, Carolina Parra e Luiza Sá, o músico escreveu: “Assinei o papel. Essa bosta de banda aí é toda suas! Façam bom proveito…” De acordo com o distrato firmado na Califórnia – onde parte do grupo vivia na época –, ele passou a receber os direitos autorais meramente como autor, com o que Cintra não se conforma.

A piauí consultou Tobias Klen, um advogado especialista em propriedade intelectual. “A competência para julgar eventuais desavenças relativas ao conteúdo do contrato é da Justiça da Califórnia. Se ele entrar com ação judicial no Brasil, dificilmente terá qualquer chance de prosperar.” Além disso, para o advogado, os termos celebrados no documento são, sim, válidos. “Especialmente devido ao disposto no final”, em que o músico concorda com todo o conteúdo do distrato.

Em suas redes sociais, Cintra argumenta que, nos shows que sucederam a sua saída, as quatro integrantes continuaram tocando as músicas com as bases eletrônicas feitas por ele. Mas o quarteto alega que todas as bases para execução ao vivo das músicas foram refeitas em 2012. “Ele acha que não fizemos isso porque pensa que não somos capazes”, diz Rezende.

Perguntei a Cintra de qual quantia estava falando, quando se refere aos direitos autorais. Subindo um pouco o tom de voz, ele respondeu: “Eu vivo disso, só pra você saber. É por isso que, cada vez que elas afrontam o meu direito autoral, é uma coisa que mexe com a minha estabilidade financeira. É uma coisa que me dá extremo mal-estar. Principalmente as outras três, que são detestáveis.” As “outras três” são Rezende, Parra e Sá, que, de acordo com Cintra, pouco se engajaram na realização dos discos.

Por causa dessa ruptura, que ainda o aflige tanto, Cintra resolveu fazer um curso de direito na Escola Paulista de Direito (EPD). Diz que cansou de ser refém de advogados e quer provar que o distrato que assinou não tem validade (mas ele conta que trancou a matrícula na escola).

Apesar dos problemas que enfrentou depois de sua saída do grupo, Cintra não parou de trabalhar com música. Ele vem produzindo álbuns de artistas brasileiros há mais de dez anos. Além disso, fez dupla com três cantoras: Marina Gasolina (ex-Bonde do Rolê), Tiê e a vocalista Clara Lima, com a qual formou o grupo Superafim. Os fãs do Cansei de ser sexy reconheceram no EP do Superafim (com seis músicas), lançado em março, um par de alfinetadas de Cintra às ex-colegas, como na música em inglês Sorry:

E eu sei que você quer me ver
Morto e enterrado bem fundo
Sete pés às margens do rio
Você quer me esfaquear com tesouras grandes
Não me quer perto das suas irmãs
Pode dizer a elas que eu sou louco
Que você sempre me odiou
E que está muito melhor sem mim
Eu sou a maior bagunça ao seu redor
E você me odeia muito, muito mesmo.

Em 2013, as quatro integrantes do Cansei de ser sexy lançaram seu único álbum até agora: Planta, feito na Califórnia e produzido por David Sitek, da banda nova-iorquina TV on the radio. “Alugamos uma casa em Los Angeles e fazíamos música o dia todo”, conta Luísa Matsushita. O ex-colega Adriano Cintra não tardou a fazer sua crítica, dizendo que o disco “não tem músicas coesas”. Também enviou um e-mail às antigas companheiras, em cuja linha de assunto escreveu “HAHAHAHA” e que diz: “Vocês são muito, muito, ruins! O que me deixa muito feliz. O show sem minhas backing tracks [o fundo musical de apoio para as músicas executadas ao vivo] é simplesmente horrível.”

Sobre o álbum, a revista digital The Line of Best Fit, de Londres, escreveu que as integrantes do grupo “usaram o tempo para lidar com a perda de Cintra e criar uma identidade sonora além da sua contribuição, e acontece que elas realmente não precisavam dele e, talvez, ele estivesse atrapalhando o progresso delas.” A revista Pitchfork teve outra percepção: “Com Planta, elas perdem seu único integrante masculino, Adriano Cintra. Infelizmente, isso significou perder parte do apelo do CSS.”

 

Dez anos depois, uma das atrações do festival Primavera Sound, em São Paulo, foi o Cansei de ser sexy. “Vocês não sabem o que a gente passou para estar aqui hoje”, disse Lovefoxxx ao subir no palco, num sábado ensolarado, dia 2 de dezembro de 2023, com Ana Rezende, Luiza Sá e Carolina Parra. Fazia duas décadas que elas tocavam juntas. A cantora usava um macacão de confetes reflexivos de festa, que, depois, seria substituído por um vestido de babados e, por fim, por uma camisa com a palavra “MÃE” estampada. Pouco antes de cantar City Grrrl, ela discursou: “Se você tá perdida, toda cagada, apática, esse é um momento importante que vai passar. Como minha mãe Zezé diz: ‘Tudo chega.’ E eu, como mãe de vocês, digo: TUDO CHEGA.” Aos 39 anos, a adolescente impetuosa agora se apresentava como mãe e conselheira do seu público.

Poucas e boas aconteceram antes de as quatro subirem no palco principal do Primavera Sound. Cintra enviou à produtora do festival, a Time For Fun, uma notificação extrajudicial que pedia às integrantes que não executassem as músicas das quais ele é autor ou coautor. “A supramencionada banda musical não está autorizada a executar nenhuma das obras literomusicais acima detalhadas [uma extensa tabela listava todas as músicas nas quais o ex-integrante tem participação]”, dizia o documento. “A gente tentou contestar, mostrando o distrato, mas, mesmo assim, não funcionou”, conta Rezende. A Time For Fun cedeu ao pedido de negociação, e o show só aconteceu depois de ter sido feito um acordo, cujo conteúdo não foi revelado.

Em seguida ao Primavera Sound, o Cansei de ser sexy planejava fazer uma turnê por cidades brasileiras. Mas realizar shows no Brasil virou uma dor de cabeça para o quarteto. “É algo que nos angustia demais”, conta Rezende. “Nós não podemos tocar por causa do Adriano.” O advogado Tobias Klen diz que, apesar do distrato feito na Califórnia, Cintra tem o direito de embarreirar as apresentações no Brasil por ser o autor ou o coautor das músicas – um direito que é inalienável e irrenunciável.

O Primavera Sound demonstrou que o interesse pelo Cansei de ser sexy ainda não arrefeceu. O público era formado não apenas pela geração dos anos 2000, nostálgica das loucurinhas antigas: havia pessoas mais jovens na plateia. “Tinha muita gente nova antenada na cena indie”, diz a escritora e apresentadora Jana Rosa, de 40 anos, que é amiga das integrantes da banda e as acompanhou na turnê que fizeram entre 2024 e o início deste ano, com cerca de trinta apresentações em cidades dos Estados Unidos, Europa e Japão.

 

O ateliê de Luísa Matsushita, a Lovefoxxx, fica numa tranquila rua residencial, cujo nome ela pediu que a piauí não revelasse, para evitar uma eventual visita de Adriano Cintra. “Quando vejo que ele me enviou um e-­mail, eu me sinto mal”, diz. Cintra confessa ter um “grande carinho por ela”, com uma ressalva: “Mesmo depois de todos os abusos cometidos contra mim.”

Matsushita conta que, até 2024, Cintra lhe enviava mensagens sem parar. “Era um ciclo vicioso: ou ele mandava mensagens superviolentas, ou pedia desculpa e dizia que nos amava.” Ela também afirma que o músico, ao deixar a banda, prometeu colocar as quatro na cadeia caso elas não pagassem a sua parte nos shows da turnê do álbum La Liberación, mesmo ele não tendo participado deles. A cantora nunca respondia. “Eu só não queria ter mais contato com ele”, justifica. Em 2016, ela resolveu enviar a Cintra um texto explicando por que não respondia suas mensagens e que terminava assim: “Eu desejo que você se ame.”

No mesmo texto, ela perguntava o que Cintra queria de fato. Ele sugeriu um encontro na Praça Buenos Aires, no bairro Higienópolis, onde ficava o apartamento dela na época. “Eu aceitei, mas era bem mais uma tentativa de ficar em paz com ele.” O encontro foi “superbonito”, recorda o músico. Depois disso, mantiveram, com reservas, certo contato. Até que ela sumiu. Cintra especula que Matsushita só aceitou encontrá-lo na época porque tomava o chá do Santo Daime e que deixou de vê-lo depois de interromper essa prática. Em conversa com a piauí num restaurante perto de seu ateliê, Matsushita, que de fato tomava o chá naquela época, afirma: “Hoje, ele está bloqueado de todos os meus canais de contato. Me sinto mal quando tenho que falar com ele.”

Com a carreira nas artes visuais se consolidando (num passo calmo, dessa vez), ela preferiu reservar o apelido que ganhou no Pornalizer – Lovefoxxx – para os palcos. “Eu guardei meu nome próprio para o que eu mais queria na minha vida”, diz. Suas telas são assinadas como Luísa Matsushita.

Ela trabalha no ateliê seis dias por semana, folgando no domingo. Assim como na música, tornou-se artista visual de maneira autodidata. No texto que acompanha a exposição feita no Brasil em 2023, Se não for para chorar, eu nem saio de casa, Matsushita diz: “Tudo que eu sei, aprendi fazendo. Fiz música assim, eu canto assim, construí uma casa e fiz móveis para o seu interior assim, consegui comer o que plantei. É assim que pinto, consigo descobrir formas de fazer, pois eu sou uma artista.” Em geral, ela trabalha com telas em grande formato, pintadas a óleo, com formas que variam entre o abstracionismo e o pop, orgânicas e muito coloridas. Os artistas Cícero Dias, Leonilson, Eleonore Koch e Tomie Ohtake figuram entre suas inspirações.

Em um canto do seu ateliê, ela montou uma espécie de santuário com presentes recebidos nas apresentações que fez entre janeiro e fevereiro de 2025. “Subir no palco é muito difícil. Mas sair de lá é tão difícil quanto”, diz ela. Para a satisfação dos fãs, Lovefoxxx continua apostando no exagero e no barulho. Mas Luísa Matsushita, ela mesma, tem outra avaliação de suas performances turbulentas com o Cansei de ser sexy. “É uma tentativa de me esconder do vazio e do silêncio. Na banda, eu costumo trabalhar com o excesso. Mas não deixo que esse excesso atinja minha pintura. Pintando, eu sei a hora de parar.”

Danilo Marques
Danilo Marques

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