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Uma mulher

    Mirtes de Souza: ela precisa lidar o tempo todo com a culpa de estar seguindo com a sua própria vida, depois da morte de seu filho. “Por onde eu ando, sou vista como a mãe do Miguel”, diz CRÉDITO: DIEGO BRESANI_2025

questões brasileiríssimas

Uma mulher

A vida de Mirtes de Souza, antes e depois da morte do seu filho de 5 anos

Thallys Braga | Edição 229, Outubro 2025

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Na manhã do dia 18 de julho, uma sexta-feira de Sol tórrido em Brasília, 48 mulheres se reuniram em um auditório do Ministério da Justiça. Estavam ali a convite do governo para opinar sobre a criação de um programa de assistência a familiares de vítimas da violência do Estado. Cada uma delas teve a vida marcada pela morte trágica de um filho, irmão ou marido. Algumas lidam com o luto há décadas. Outras, há poucos meses.

“Onde estão os ministros que palestraram para nós ontem? É sempre a mesma coisa: eles vêm, falam o que querem, mas nunca ficam para escutar o que nós temos a dizer”, reclamou uma participante. No dia anterior, as convidadas tinham se reunido com autoridades, como as ministras Anielle Franco, da Igualdade Racial, e Macaé Evaristo, dos Direitos Humanos e Cidadania.

Outra participante disse: “Para matar, os caras levam um minuto. Matam com um tiro. E ficam recebendo salário até o dia em que são julgados. Já nós temos que lutar anos para conseguir uma indenização.”

 

As queixas chegavam de todos os lados.

“Vocês sabem por que eu tenho tanto medo de o meu filho morrer na cadeia? O presídio fica longe da minha casa, e eu não tenho dinheiro para fazer o translado do corpo. Eu conheço mãe de preso que não conseguiu enterrar o próprio filho.”

“Eu nunca vou ser avó porque a polícia matou o meu único filho.”

 

“Eu não sou perita, mas li o processo várias vezes e tenho capacidade de entender o que é certo e o que é errado. Não vão me convencer de que o meu marido é culpado pela própria morte.”

No lado esquerdo da mesa circular onde as convidadas se sentavam, Mirtes Renata Santana de Souza esperava a sua hora de falar. No meio daquela reunião de histórias traumáticas, a de Mirtes de Souza talvez fosse a única que todas as convidadas conheciam em detalhes: seu filho único, Miguel Otávio Santana da Silva, morreu aos 5 anos, depois de cair do nono andar de um edifício de classe média alta no Recife, onde ela trabalhava como empregada doméstica. O caso chamou a atenção da sociedade, do meio artístico, de autoridades brasileiras e internacionais, como a ONU, pelo seu absurdo: Miguel morreu depois de ter sido deixado sozinho em um elevador pela empresária Sari Mariana Costa Gaspar Corte Real, a patroa da mãe do menino.

“Bom dia a todos. Eu sou Mirtes, mãe do menino Miguel”, ela começou. “Eu sugiro que o governo ofereça um atendimento humanizado às mães das vítimas. Que, no momento de serem ouvidas na delegacia, elas sejam acompanhadas por psicólogas e assistentes sociais. Que seja colocado em prática o direito ao sigilo dos nossos dados. Muitas pessoas aqui tiveram os dados pessoais vazados em momentos de vulnerabilidade.”

 

A principal sugestão de Souza ao governo é que os familiares das vítimas sejam ouvidos uma única vez durante os inquéritos. “Sempre que somos chamadas para depor, temos que repetir as mesmas coisas. Isso é doloroso. É perverso. É violento. Se eu já prestei um depoimento, que usem aquilo que eu disse antes. Por favor, não me façam cutucar a ferida.”

A morte de Miguel gerou processos em três áreas do direito: a criminal, a cível e a trabalhista. Em todos os casos, Souza precisou narrar os eventos que antecederam e se seguiram à queda do seu filho do alto do edifício em que ela trabalhava.

A mãe perdeu a conta de quantas vezes relatou que naquele dia 2 de junho de 2020 ela desceu para passear com a cadela da família e a patroa lhe disse: “Deixa o Miguel aqui que eu passo o olho nele.” Que levou o filho para o trabalho porque a escola estava fechada por causa da pandemia. Que a avó de Miguel, que costumava cuidar dele, tinha saído para buscar remédios no posto de saúde. Que, ao retornar do passeio com a cadela, encontrou o filho estirado no pátio do prédio. Que, apesar de ter fraturas expostas, o menino ainda respirava. Que a patroa os levou para o hospital de carro, mas, quando chegaram lá, era tarde demais. Que ela pretendia voltar a trabalhar algumas semanas depois da morte do filho, mas, quando descobriu que Miguel foi deixado sozinho no elevador, ficou tão atordoada que acordou a mãe aos gritos: “Mãinha, eu não trabalho mais para a Sari. A Sari matou o meu filho.”

 

Alguns dias antes do aniversário de dois meses da morte de Miguel, Souza sonhou com ele. “Foi um sonho tão real que eu acordei sentindo o calor dele em cima de mim.” No sonho, ela encontrou Miguel brincando com uma cuidadora. Ao ver a mãe, o menino correu e se jogou nos braços dela, dando um abraço muito forte. Souza lhe disse:

– Filho, estou com muita saudade de tu. Volta para casa.

Miguel respondeu:

– Não, mamãe. Aqui é bom, estou brincando.

O menino correu de volta para a cuidadora, e Souza acordou. “Eu queria muito que o sonho não tivesse acabado”, diz ela à piauí. “Mas Miguel me falou que estava feliz, e isso me conforta um pouco com relação à partida dele. Só que eu queria que ele estivesse feliz aqui comigo.”

Mirtes de Souza nunca quis ser mãe. Depois que sua meia-irmã teve um bebê, ela se afeiçoou a crianças, mas não o suficiente para querer criar uma. “Cresci vendo o meu pai expulsar as minhas irmãs de casa quando elas engravidavam. Eu tinha pavor de acontecer comigo”, diz. Nascida na capital pernambucana em 25 de fevereiro de 1987, ela se mudou com os pais para Bonança, na Região Metropolitana do Recife, aos 3 anos. Seu pai, Erivaldo, teve seis filhos, sendo quatro mulheres, no primeiro casamento. Com Marta, a segunda esposa, teve Mirtes e José Francisco, três anos mais novo que a irmã.

Erivaldo era marchante, um abatedor de gado. Com a venda do couro dos animais, conseguiu comprar um terreno e construir um conjugado para morar com a segunda mulher e os dois filhos. Em casa, os irmãos viviam em pé de guerra um com o outro, mas na escola, era Mirtes quem defendia José Francisco dos estudantes mais velhos. Uma vez, ela enfiou o lápis na testa de um aluno que tinha humilhado José. “Mesmo com as arengas, eu e meu irmão sempre fomos unidos”, ela conta.

O pai, cansado do esforço físico causado pelo trabalho com o gado, virou motorista de Kombi quando os filhos eram adolescentes. Souza passava o dia cuidando da casa com a mãe, e José ajudava o pai a cobrar a tarifa dos passageiros da Kombi. Um dia, quando tinha 13 anos, o garoto caiu ao chão, com convulsões. O pai dirigiu para uma unidade de saúde e, chegando lá, foi informado de que José teria que ser transferido para um hospital no Recife. Seu cérebro tinha sido infectado pelo “germe do porco”, disse o médico. O menino havia contraído neurocisticercose, doença causada pelo parasita Taenia solium. “A gente não acreditava que o José fosse sobreviver”, diz Souza. Depois de vinte dias internado, os médicos disseram que o menino não corria mais risco de vida. Teria sequelas, mas continuaria vivo.

Quando o irmão voltou para casa, Souza percebeu que ele se comportava de um jeito diferente. Demorava para compreender as coisas que lhe diziam; às vezes, não entendia nada. José nunca tinha sido um aluno ruim, mas depois da infecção teve dificuldades nos estudos e foi reprovado na escola. Com algum tempo de tratamento, voltou a trabalhar com o pai e a sair com os amigos. Em uma sexta-feira de julho de 2005, avisou a mãe que iria passar o fim de semana com os meios-irmãos na casa da avó paterna. Colocou as roupas e os remédios anticonvulsivantes na mochila e foi para o ponto de ônibus.

Na noite de domingo, quando Souza e seus pais assistiam ao Fantástico, o telefone tocou. Era alguém avisando que José tinha sofrido um acidente e estava na emergência. Os pais se mandaram para o hospital, e Souza, então com 18 anos, passou a madrugada aflita e sem notícias do irmão. Erivaldo e Marta voltaram para casa só na manhã seguinte, à procura dos documentos necessários para fazer o enterro do filho caçula. “Eu desabei”, lembra Souza.

Testemunhas disseram à família que José passeava com um dos meios-irmãos, quando um sujeito de bicicleta chegou e atirou na sua nuca. “Contaram que o meu irmão caiu no chão e só sabia chamar por mãinha e painho.” O bairro comentou que o atirador era um policial corrupto que traficava drogas e, à procura de um devedor, atirou por engano no jovem de 14 anos. Depois de prestarem queixa na delegacia, os pais de Souza foram ameaçados de morte pelo acusado, e decidiram não continuar com a investigação. A mãe nunca se conformou com o desfecho do caso, que deixou impune o homem que matou José. “Mãinha conhece a dor de perder um filho, por isso me incentiva a fazer de tudo para ter justiça pela morte de Miguel”, diz Souza.

 

Uma vez que tinha se tornado filha única, Mirtes de Souza quis trabalhar para ajudar os pais nas despesas de casa e se distrair do luto. Com 19 anos, foi contratada como garçonete em um pesque-pague às margens da Rodovia Luiz Gonzaga, na cidade de Vitória de Santo Antão, a cerca de 50 km do Recife. Depois, foi trabalhar em uma tapiocaria no outro lado da rodovia. O segundo dia de serviço coincidiu com o seu aniversário de 20 anos. No meio do expediente, a patroa, uma mulher branca, reclamou que Souza, negra, era muito lenta no preparo das tapiocas e lhe deu dois beliscões. A jovem largou o emprego. Os pais a aconselharam a retomar os estudos, mas ela queria ter dinheiro para aproveitar os anos da juventude. Virou revendedora de cosméticos e, aos domingos, trabalhava na recepção de um clube.

Passou sete anos dedicando os domingos ao clube, mas nunca teve a carteira assinada. Fez bicos no salão de beleza de uma das meias-irmãs e conseguiu pagar um curso de informática. Com o diploma, ensinou crianças de 5 a 7 anos a usarem o computador. Então, soube que amigos e vizinhos estavam se matriculando em cursos gratuitos na área da construção civil, oferecidos pelo governo federal para quem quisesse trabalhar em grandes obras no Recife. Assim, aos 24 anos, formou-se carpinteira. Trabalhou primeiro na construção de uma enorme caixa d’água no Centro do Recife e, mais tarde, em projetos residenciais de luxo.

Seu último trabalho foi na construção de um condomínio. “Um colega vivia me dizendo que, um dia, ainda realizaria o casamento de um carpinteiro com uma carpinteira. Eu respondia: ‘Irmão, deixe disso, estou aqui para trabalhar.’” Mais tarde, Souza entendeu o motivo das insinuações do colega: Paulo Inocêncio da Silva, outro carpinteiro da obra, estava gostando dela. Sabendo que a colega chegava atrasada porque morava longe, ele guardava o café da manhã para Souza. Na hora do almoço, reservava lugares para os dois sentarem lado a lado. Sempre encontrava um canto silencioso no meio da obra para que ela fizesse a sesta.

Em meados de 2013, os dois começaram a namorar. Em fevereiro de 2014, ela engravidou. “Eu tive muito medo da reação de painho”, diz. Inocêncio da Silva pediu ao sogro que continuasse abrigando a filha por pelo menos quatro meses em Bonança, enquanto providenciava uma casa para os dois e o futuro bebê. Erivaldo aceitou. O pai tinha sofrido um acidente e não podia trabalhar, mas tampouco gostava que sua mulher e a filha ganhassem o próprio dinheiro. “Ele ficava ofendido se a gente fizesse a feira e pagasse as contas”, diz Souza.

Uma das meias-irmãs de Souza era manicure de Sari Corte Real, uma mulher rica que estava à procura de uma passadeira, em meados de 2014. A manicure recomendou a mãe de Souza para o serviço. “Era roupa que não acabava mais pra passar”, recorda Marta, sobre os primeiros dias na função. Ela acabou contratada como empregada doméstica de Corte Real, que ficou satisfeita com o trabalho da passadeira.

A notícia da nova contratação não foi bem recebida em sua casa. “Meu pai virou outra pessoa”, diz Souza. Ofendido com o salário que sua mulher recebia, expulsou ela e a filha de casa. Souza ficou tão assustada com a reação do pai que precisou ser atendida em  um hospital, com pressão alta. “Quase perdi o meu filho”, conta. O marido a levou para morar na casa da família dele em Orobó, no agreste pernambucano, a 110 km da capital. Marta se alojou de favor na casa de uma vizinha em Bonança.

Para não colocar a gravidez da filha em risco, Marta pediu que os vizinhos não contassem o que acontecia em Bonança. Por telefone, ela dizia à filha que estava tudo bem. Mas Souza descobriu, na reta final da gravidez, que a mãe tinha deixado a casa da vizinha e estava desabrigada. “Mãinha passava o dia trabalhando na casa de Sari e, à noite, ia dormir na emergência de um hospital”, diz, com lágrimas nos olhos.

 

As contrações começaram às quatro da manhã. Inocêncio da Silva, o futuro pai, já tinha saído de casa para o primeiro dia no novo emprego como carpinteiro. Souza gritou por uma prima do marido que morava na casa do lado. Arrumaram um carro para levar a grávida ao hospital de Vitória de Santo Antão, a 78 km de distância. A viagem apressada por estradas esburacadas sacolejava o automóvel, fazendo Souza gritar de dor. Ao chegar ao hospital, os médicos tentaram, sem sucesso, fazer um parto normal. Miguel Otávio Santana da Silva nasceu após uma cesariana, às 7h42 do dia 17 de novembro de 2014. Era um bebê grande: pesava 4,5 kg e media 52 cm.

“Minha primeira opção foi Otávio. É um nome forte e bonito. Nome de doutor, de advogado. Eu tinha esse pensamento para o meu filho: ele seria uma pessoa de poder, alguém com um nome de referência”, diz Souza. “Mas eu era frequentadora da Capela de São Miguel Arcanjo. Prestei atenção em Miguel, e achei bonito. Daí ficou Miguel Otávio.”

A má cicatrização dos pontos da cesariana tornou as primeiras semanas de maternidade um pesadelo. Souza sentia dores e desânimo. Quando o filho fez um mês, ela foi tomada por uma enorme alegria, e se convenceu de que seria uma boa mãe. Miguel era um menino saudável e esperto. “Eu era apaixonada por aquele neguinho.”

A essa altura, Marta tinha se separado do marido. Com o dinheiro da venda da casa da família em Bonança, comprou um imóvel no Recife, no bairro pacato do Barro, a 14 km do Centro da cidade, e convidou sua filha e seu genro para morar com ela. Marta quis se mudar para a capital pernambucana para ficar mais perto do trabalho e oferecer a Miguel o acesso a melhores escolas e hospitais. A avó, com o salário que recebia de Corte Real, contratou um plano de saúde para o neto.

Enquanto a mãe e o marido estavam no trabalho, Souza saía para procurar emprego. Ainda trabalhava no clube aos domingos, mas queria a estabilidade de um trabalho com carteira assinada. As oportunidades no Recife eram escassas. Um dia, Marta chegou em casa dizendo que Sari Corte Real estava à procura de uma segunda faxineira para manter arrumado o apartamento de 247 m², avaliado em 2 milhões de reais. Marta já tinha levado algumas amigas para fazer a faxina, mas Corte Real não gostou de nenhuma. “Mãinha, qualquer coisa, eu posso ir”, disse Souza. Ela foi, e Corte Real gostou tanto do trabalho que indicou a moça para a cunhada e uma amiga. “A pior experiência que eu tive foi na casa da cunhada dela, que não me dava comida e não deixava eu beber água nos mesmos copos que a família bebia”, lembra.

No final de 2016, Corte Real engravidou do primeiro filho e contratou Souza, com 29 anos, como cozinheira. Para chegar ao edifício em que a patroa morava, no Centro do Recife, Souza e sua mãe acordavam às cinco da manhã e pegavam um metrô e dois ônibus, numa viagem que durava cerca de uma hora e meia. Com 2 anos, Miguel passava as manhãs na escola e as tardes em um hotelzinho, um tipo de centro recreativo, onde brincava e tirava sonecas com outras crianças.

Embora tivesse sido contratada co­mo cozinheira, Souza acabou se ocupando também da limpeza do apartamento, para ajudar a mãe, que tinha 57 anos na época. “Como o apartamento é de frente para o mar, os móveis ficavam com uma camada grossa de maresia e poeira. Mãinha ficava muito cansada por ter que limpar aquilo todos os dias. Eu não conseguia ver o esforço dela e não ajudar.” Aos sábados, só Souza trabalhava. O combinado com os patrões era chegar às oito da manhã e sair ao meio-­dia, mas dificilmente ela conseguia ir embora tão cedo. “O marido de Sari chegava em casa e me pedia uma coisa, depois pedia outra, e outra, e outra. Quando eu me dava conta, já eram três, quatro da tarde.”

O marido de Sari Corte Real é Sérgio Hacker, herdeiro de uma das famílias mais influentes de Pernambuco. Quando Souza começou a trabalhar na casa do casal, Hacker tinha 27 anos – mesma idade que a esposa – e preparava a primeira candidatura política, pelo PSB, para a Prefeitura de Tamandaré, no litoral pernambucano. O histórico da família pesava a seu favor: das catorze eleições que disputaram desde 1992, os Hacker tinham perdido só uma. Em casa, as empregadas foram avisadas de que o patrão tinha grandes chances de ser eleito. Se a expectativa se realizasse, todos teriam que se mudar para Tamandaré, inclusive as funcionárias.

Quando Hacker ganhou a eleição, em 2 de outubro de 2016, Souza ficou com receio de perder o emprego. Ela não estava disposta a se mudar para outra cidade e ficar longe de Miguel e do marido. A mãe, Marta, se mostrava disposta à mudança, mas ficou aliviada quando Corte Real decidiu continuar morando no Recife. Hacker passaria os dias úteis trabalhando em Tamandaré, a cerca de duas horas e meia da capital, e voltaria para casa nos fins de semana.

Logo que assumiu o cargo, Hacker deu baixa nos contratos trabalhistas de Souza e Marta como empregadas de sua casa e contratou as duas como funcionárias da Prefeitura de Tamandaré. O salário delas, agora pago com dinheiro público, subiu de 900 reais para 1,3 mil reais. “Nós aceitamos assinar o novo contrato porque não podíamos perder o emprego”, diz Souza. “E, para ser sincera, a gente nem sabia que tinha alguma coisa errada. Outros empregados da família deles recebiam salário como funcionários da prefeitura.”

Souza só descobriu que seu registro trabalhista consistia em uma fraude três dias depois da morte de Miguel, quando jornalistas ligaram para perguntar por que os nomes dela e de sua mãe apareciam na folha de pagamento da Prefeitura de Tamandaré.

 

Quando Miguel estava com 3 anos, Mirtes de Souza e Paulo Inocêncio da Silva decidiram se separar. Segundo ela, o marido desenvolveu uma relação complicada com bebida e jogos de azar. Silva voltou então para a casa da família em Orobó, o que deixou Miguel abatido. Souza percebeu que o menino precisaria da ajuda de uma psicóloga, e encontrou uma profissional que conquistou depressa a confiança de Miguel. Graças a ela, Souza descobriu que o filho tinha que tratar um atraso na fala. “Ele falava igual ao Cebolinha”, conta a mãe.

Com o acompanhamento da psicóloga e de uma fonoaudióloga, Miguel passou a se expressar com clareza e se adaptou à separação dos pais. O menino descobriu que ter duas casas podia ser vantajoso: no Recife, ele brincava com os amigos na rua, frequentava a Igreja Católica com a avó e a evangélica com os colegas do hotelzinho; quando visitava o pai em Orobó, andava a cavalo e tomava banho de cachoeira com os primos. Souza nunca deixou o filho adotar um cachorro porque a casa deles era pequena. Em Orobó, não faltava espaço, e Miguel ganhou uma cadela, que ele chamou de Nanica.

Depois do divórcio dos pais, Miguel continuou passando as manhãs na creche e as tardes no hotelzinho. À noite, Souza se sentava no portão para ver o filho brincar com os amigos na rua. Difícil era convencê-lo a entrar para fazer as tarefas da escola. “Era uma guerra”, diz a mãe. Terminadas as tarefas, ele jantava assistindo às novelas da Globo na tevê da sala. Uma vez, ao visitar a mãe no trabalho, Miguel viu que os filhos de Corte Real tinham televisão no quarto e voltou para a casa cheio de ideias: “Mãinha, dá para colocar ali em cima da porta”, disse, quando Souza argumentou que não tinha espaço para uma tevê no quarto deles, e que quarto era lugar só de dormir. “Não, filho, só tem uma televisão porque é para nós três assistirmos à novela juntos”, respondeu a mãe.

Por causa desse episódio, Souza ensinou o filho a guardar dinheiro para comprar o que quisesse. Quando os dentes do menino começaram a cair, a mãe explicou que ele poderia colocá-los debaixo do travesseiro para ser recompensado pela fada do dente. Miguel fez o plano de comprar uma bicicleta para apostar corrida com os amigos da rua. “Ele disse que ia levar os dentes caídos para a casa do pai, porque a fada de lá dava mais dinheiro”, lembra Souza, aos risos. Os clientes de um bar na esquina da casa souberam do desejo de Miguel de comprar uma bicicleta e, quando o menino passava por lá com a mãe, gritavam: “Miguelzinho, Miguelzinho!” E enchiam a mão do garoto com moedas.

Uma vez, Corte Real convidou Souza e Marta para a festa de aniversário do seu filho, marcada para um sábado, no salão do condomínio, no Recife. As duas foram com Miguel. Chegando lá, tiveram que monitorar a correria das crianças na festa. “Não recebemos nada mais por isso”, diz Marta. O filho de Corte Real ganhou dois patinetes de presente – e a patroa deu um para Miguel. “Sari nunca destratou o meu filho”, diz Souza. “Ela era indiferente a ele.”

 

Na segunda semana de março de 2020, os primeiros casos de Covid foram confirmados em Pernambuco, como em todo o Brasil. Os patrões de Souza e Marta disseram a elas que cumpririam o isolamento social em Tamandaré e as convidaram para acompanhá-los. Não era propriamente um convite: caso não aceitassem, seriam demitidas. Então, as duas fizeram as malas e partiram com Miguel para Tamandaré. Hacker e Corte Leal tinham ali um casarão a 300 metros da Praia dos Carneiros. O imóvel tem duas salas de visita, uma sala de jantar, uma cozinha americana, uma suíte máster, três suítes simples, um quarto de visitas, um banheiro social e um quarto de empregada. Na área externa, garagem, piscina, churrasqueira e um terraço.

Miguel, aos 5 anos, nunca tinha visto uma casa daquele tamanho e corria de um lado para o outro. Ele se dava bem com os dois filhos de Corte Leal, um menino e uma menina de idades próximas à dele. Enquanto a mãe cozinhava e a avó limpava a casa, Miguel tomava banho de piscina com as crianças. O menino ainda não sabia nadar. “Eu ficava vendo ele pela janela da cozinha, com o coração na mão”, diz Souza. Pela janela, ela acompanhou o filho da patroa ensinar Miguel a movimentar os braços e as pernas para atravessar de um lado a outro da piscina. Um dia, Miguel gritou para a mãe, tirou as boias dos braços e mostrou que tinha aprendido a nadar. “Meu filho virou um peixinho.”

Antes da pandemia, quando precisavam acompanhar os patrões até Tamandaré, Souza e Marta dormiam no quarto de empregada, um cômodo pequeno e quente nos fundos da casa. “Era um lugar horrível para descansar”, diz Souza. Na pandemia, Corte Real permitiu que as duas funcionárias se acomodassem com Miguel no quarto de hóspedes. Afinal, o casal não pretendia receber visitas. Ela prometeu às empregadas que nenhum estranho entraria na casa enquanto os casos de Covid não estivessem controlados. Combinou que as duas tirariam folgas aos fins de semana e cumpririam jornadas diárias de oito horas de trabalho.

As promessas não duraram nem um mês. Primeiro, Corte Real e Hacker receberam familiares em casa. Depois, amigos e empresários foram almoçar e jantar. Uma vez, os patrões inventaram um churrasco de última hora, e Souza passou o dia inteiro na cozinha preparando os acompanhamentos e lavando as louças. Corte Real perguntou se Souza poderia mudar com a mãe e o filho para o quarto da empregada, pois queria acomodar as visitas no quarto de hóspedes. “Eu teria aceitado, mas não tinha condições de a gente dormir lá. O quarto estava sendo usado de depósito, tinha entulho para todo lado. Não sobrou espaço para colocar os nossos colchões”, diz Souza. Eles continuaram a dormir no quarto de visitas.

Souza e sua mãe começavam a trabalhar logo que acordavam e nunca sabiam a hora que poderiam parar. Dificilmente sobrava tempo para olhar o celular ou assistir à tevê. Só tinham notícias da Covid à noite, antes de dormir, pelas redes sociais. Nas folgas, elas costumavam ir à praia com Miguel. “Se ficássemos em casa, eles nos pediam favores o tempo inteiro”, diz Marta sobre os patrões. Quando as empregadas estavam de saída da casa com Miguel, a patroa perguntava com jeitinho se os filhos dela podiam acompanhá-las para brincar na praia. Mesmo de folga, Souza e Marta nunca deixaram de levar os filhos da patroa.

Quando a irmã de Sergio Hacker visitava a mansão, Souza tentava convencer Miguel a ficar com ela na cozinha. “Aquela mulher tentava fazer o meu filho ser empregado do filho dela. Ela mandava o Miguel ir no quarto buscar os brinquedos que o outro menino queria para brincar”, diz Souza.

Um dia, Miguel chegou na cozinha perguntando por que a pele dele era mais escura que a da mãe. “É porque você pega muito Sol, meu filho”, ela respondeu. “A cor da sua pele é linda, é um presente de Deus.” Souza ficou com o coração apertado, porque deduziu que Miguel não chegara sozinho àqueles questionamentos. Ela perguntou ao filho se alguém tinha falado da cor dele. O menino respondeu que não e deixou a cozinha correndo para voltar a brincar.

No final de abril, Hacker ficou doente, e o governo de Pernambuco mandou um médico à casa para examinar o prefeito de Tamandaré. Ele estava com Covid. Trabalhando na cozinha, Souza também sentia o corpo mais pesado, dores na cabeça e coceira na garganta. “Você deve ter sido infectada”, lhe disse Corte Real, que decidiu levar o marido e a empregada para se recuperarem no apartamento do Recife, longe das crianças. Os pequenos ficaram na casa de praia sob os cuidados de Marta.

O apartamento do Recife tinha acumulado maresia e poeira. E, mesmo doente, Souza teve que limpar os cômodos, cozinhar e passear com a cadela da família. “Eu fazia uma coisa e deitava, fazia outra e vomitava”, lembra. Souza pediu para ir para casa, mas Corte Real disse que era melhor ela ficar com os patrões que desacompanhada. A empregada entendeu aquilo como uma imposição e preferiu continuar trabalhando. Semanas mais tarde, a filha dos patrões contraiu Covid, e Corte Real também a levou para a quarentena no Recife. Àquela altura, Souza já tinha se recuperado da infecção, mas precisou dormir no mesmo quarto que a menina doente, para atendê-la à noite, caso fosse preciso. “Sari me disse que quem tinha sido infectado não poderia pegar o vírus de novo”, lembra Souza.

Em Tamandaré, Miguel dizia para a avó que queria voltar para casa, pois sentia falta de brincar com os amigos na rua. “Meu filho não tinha mais rotina”, diz a mãe. “Ele acordava cedo, junto com a gente, e ia dormir tarde, depois que terminávamos de limpar a casa. Ele sentia falta dos brinquedos, do nosso quintal, de poder assistir novelas, de eu ter tempo para cuidar dele.” O menino fez festa quando a avó anunciou que eles passariam alguns dias no Recife. Corte Real precisava resolver assuntos familiares na capital e pediu que as empregadas ficassem lá para arrumar o apartamento.

Marta e Miguel chegaram ao Recife no primeiro dia de junho, uma segunda-feira. Na tarde do dia seguinte, a notícia se espalhou pela cidade: um menino de 5 anos tinha caído do nono andar do edifício Maurício de Nassau.

 

As câmeras de segurança do condomínio gravaram o momento em que Mirtes de Souza encontrou o corpo do filho no pátio do prédio. A chegada do menino ao pronto-socorro também foi registrada pelo sistema de vigilância do hospital. As cenas começaram a ser exibidas nos telejornais no dia seguinte, mas os familiares e amigos fizeram de tudo para que a mãe e a avó de Miguel não as vissem. Na manhã seguinte, durante o velório, uma tia do menino se exaltou e xingou Sari Corte Real e Sergio Hacker, quando eles se aproximaram para prestar condolências às empregadas. Souza, não entendeu nada, e pediu que a mulher se acalmasse.

À noite, Marta se deitou para dormir, e Souza se esticou no sofá da sala. Um número desconhecido enviou uma mensagem para o seu WhatsApp dizendo que ela deveria assistir às reportagens sobre a morte de Miguel na tevê. Souza ligou a televisão da sala e, minutos depois, um telejornal local exibiu as imagens de Miguel sendo deixado sozinho no elevador por Corte Real. “Sari matou o meu filho!”, ela saiu gritando pela casa, enquanto Marta tentava acalmá-la. A avó também ficou transtornada ao ver as imagens. Souza ligou para a patroa e perguntou por que ela tinha deixado Miguel sozinho no elevador. Corte Real disse que não tinha cometido crime nenhum e que iria provar sua inocência.

Souza não sabia, mas, àquela altura, Corte Real já tinha sido presa em flagrante sob suspeita de homicídio culposo e solta depois de pagar uma fiança de 20 mil reais. Os jornais repercutiram a prisão sem revelar o nome dela, o que revoltou Souza. “Tenho certeza de que, se fosse eu, meu rosto estaria estampado em todas as mídias. Eu já estaria na cadeia apanhando das outras presas”, disse, na época. No terceiro dia de luto, ela revelou o nome dos patrões para os jornalistas.

As redes sociais, naquela época, estavam tomadas por conversas sobre o racismo. Uma semana antes de Miguel morrer, George Floyd fora estrangulado por um policial em Minneapolis, nos Estados Unidos, e manifestações do movimento Black Lives Matter haviam ocupado as ruas de várias cidades do mundo. No Recife, militantes do movimento negro cercaram o condomínio de Corte Real para pedir a sua prisão. Outros atos aconteceram em Tamandaré. Os pais, a avó e os tios de Miguel não concordavam com os cartazes que relacionavam a morte do menino ao racismo. Não acreditavam que a história de Miguel tivesse qualquer relação com o debate racial.

Souza precisava de um advogado, mas não fazia ideia de onde procurar. A influenciadora Luisa Mell fez uma publicação no Instagram lamentando a morte de Miguel e se prontificando a pagar um advogado para a mãe dele. De repente, Souza começou a receber ligações e mensagens de advogados de diferentes lugares do Brasil se oferecendo para cuidar do caso sem cobrar honorários. (Mell nunca pagou um advogado para Souza.) Uma vizinha foi avisar que circulavam na internet vaquinhas com o nome de Souza. “Eu nunca criei vaquinha nenhuma”, diz. “Fui prestar queixa na delegacia de crimes cibernéticos.”

Um dia, Souza e Marta foram ao shopping para resolver um assunto no banco e decidiram almoçar em um restaurante da praça de alimentação. Quando chegou em casa, Souza abriu o Facebook e viu uma foto das duas almoçando. Nos comentários, as pessoas questionavam se uma mulher que passeia no shopping está realmente sofrendo pela morte do filho. “Outro dia, li um comentário que dizia que eu, a empregadinha, não sentia falta de Miguel, só estava usando ele para ganhar dinheiro. Quando cliquei no perfil, vi que o comentário era de uma mulher negra como eu. Ela era uma enfermeira. Aquilo pesou muito no meu peito.”

Duas semanas depois da tragédia, o Fantástico exibiu uma reportagem com imagens dos momentos anteriores e seguintes à morte de Miguel. As imagens mostram que Souza desceu para passear com a cadela dos patrões, enquanto Corte Real ficou em casa, olhando as crianças e fazendo as unhas com uma manicure. Miguel entrou correndo no elevador social às 13h06. Corte Real conversou com ele e conseguiu tirá-lo de lá. Miguel correu, então, para o elevador de serviço. Corte Real o seguiu, e a criança saiu correndo novamente, às 13h07. No minuto seguinte, entrou no elevador social. As imagens mostram Corte Real com o telefone grudado na orelha tentando ligar para Souza. Por alguns instantes, ela conseguiu manter o menino fora dos elevadores.

Às 13h10, Miguel correu de novo para o elevador social. Corte Real conseguiu tirá-lo pela quarta vez. No mesmo minuto, Miguel voltou para o elevador de serviço, e Corte Real desistiu de tentar levá-lo de volta para o apartamento. Ela apertou o botão da cobertura e as portas do elevador fecharam com Miguel ali dentro sozinho. Ele apertou os botões do sétimo e do nono andar. Na primeira parada, as portas se abriram e o menino ficou parado, olhando para o nada. As portas se fecharam e o levaram ao nono andar. Lá, ele deixou o elevador e foi para uma área de serviço, usada para abrigar os condensadores dos ares-­condicionados do prédio. Miguel caiu às 13h12. Depois, passou-se o seguinte:

13h13 – Souza volta com a cadela da rua, encontra o porteiro no elevador e fica sabendo que uma pessoa tinha caído no pátio. Ao encontrar o filho, aperta a mão dele e sente a pulsação. O porteiro Tomaz Silva diz para a criança: “Aperta a mão do tio. Reage. A gente ainda vai jogar bola juntos.” Ele sente Miguel apertando a sua mão.

13h15 – Corte Real chega ao pátio. Um morador do condomínio que é médico confirma que Miguel está vivo e recomenda que seja levado depressa para um hospital. Corte Real diz: “A gente leva.” E sobe para pegar as chaves do carro.

13h25 – Corte Real volta e consola Souza com um abraço. Souza vai no banco da frente do carro. Miguel vai atrás, no colo do médico. Souza grita pela janela pedindo passagem: “Sai da frente. É uma emergência.” A certa altura, Sari pega a contramão, para chegar mais rápido ao hospital.

A certidão de óbito não aponta a hora da morte de Miguel, apenas a causa: choque decorrente de politraumatismo.

 

Nos cinco anos que passou com Miguel, Mirtes de Souza viveu uma experiência humana total, de vida e de morte. O que aconteceu desde então virou uma confusão de eventos na sua cabeça. Ela passou a contar a passagem do tempo tendo como referência, sempre, o dia 2 de junho, a data em que perdeu o filho em 2020. Lembra, por exemplo, que nesse dia, em 2021, estava prostrada e sem saber como organizaria a vida prática. Ela e a mãe ficaram sem emprego depois da morte de Miguel. Se sustentavam graças à ajuda de pessoas solidárias ao seu luto, principalmente daquelas do movimento negro. Os ex-patrões pagaram o velório de Miguel e não ofereceram nenhuma outra ajuda. “Nós demoramos até para receber de volta as roupas e os sapatos que ficaram na mansão de Tamandaré”, diz Souza. “Miguel tinha um peixinho lá que não me devolveram. Não sei o que aconteceu com ele.”

Hoje, aos 38 anos, Souza conserva uma disposição juvenil. Seus olhos, pequenos e escuros, estão quase sempre alegres. Ela é bem-humorada e ri por qualquer coisa. Reage com desconfiança a gentilezas. “Sei não, viu”, tem mania de dizer. Só chora quando passa muito tempo falando de Miguel, ou sobre o período que a mãe ficou dormindo na emergência de um hospital. “Mãinha é a única família que eu tenho hoje. Levo ela comigo aonde for.”

A obesidade se tornou um problema para Souza na juventude e se agravou depois da gravidez. Foi Corte Real quem a incentivou a entrar para um grupo de corrida. Ela tomou gosto pelo esporte e, em três dias da semana, chegava mais cedo no trabalho para treinar com um grupo de corredores no Centro do Recife. Miguel a acompanhou em alguns treinos. Corria ao lado da mãe por 1 km, depois cansava e pulava no colo dela. Os colegas da mãe o apelidaram de “coiotinho”.

“Correr me fazia muito bem”, diz Souza. “Depois que tudo aconteceu, eu quis continuar correndo para aliviar a mente. Saía de casa às vezes sem rumo, pensando que, se corresse rápido, talvez encontrasse o meu filho em algum lugar. Mas chegou uma hora em que eu precisei parar.” Desconhecidos abordavam Souza durante a corrida para prestar solidariedade e perguntar do andamento do processo. “Mesmo com o caso sendo noticiado, as pessoas queriam ouvir as novidades da minha boca. Essa situação foi ficando muito pesada para mim. Por mais que a intenção fosse boa, as abordagens eram invasivas.”

A cada nova fase dos processos relativos à morte de Miguel, ela e a mãe são tomadas por um misto de tristeza e ódio. A defesa de Sari Corte Real adotou uma estratégia que caracteriza Miguel como uma criança impossível de controlar. As testemunhas convocadas pelos advogados da ré – vizinhos da casa de Tamandaré e outros empregados da família – narraram situações em que Miguel desobedeceu à avó e à mãe. A empregada Rosineide Maria Gomes, que às vezes cuidava das crianças de Corte Real, disse que os patrões tratavam Miguel como um filho. “Elas até dormiam no quarto de hóspedes, mesmo tendo quarto de empregada”, disse no depoimento. “Miguel era uma boa criança, mas não respeitava ninguém quando a mãe dele saía de perto.” A babá disse ainda que Corte Real deixava o próprio filho andar sozinho no elevador.

Em depoimento à Justiça, Corte Real disse que, enquanto tentava convencer Miguel a sair do elevador e voltar para o apartamento, ele ria da cara dela e não obedecia. Ela tentou lidar com a pirraça dele da mesma maneira que lida com os filhos, pelo diálogo. “Meu modo de resolver as coisas é conversando, mas o Miguel estava acostumado a apanhar”, disse. Segundo Corte Real, Miguel geralmente ficava envergonhado perto dela, embora sempre o tenha tratado como um familiar. “Se eu ia tomar sorvete com as crianças e o Miguel estava em casa, eu levava ele junto.” Sergio Hacker disse que sua mulher deixou Miguel sozinho no elevador porque queria dar um susto na criança. Assim, talvez ele obedecesse e voltasse para casa. A princípio, nem Corte Real, nem Hacker, nem seus advogados quiseram falar com a piauí. No final de setembro, o casal aceitou conceder uma entrevista por escrito. Depois que enviei cinco perguntas, eles voltaram atrás e não responderam.

A ausência do filho e a incerteza sobre o desfecho do caso na Justiça roubaram o sono de Souza no primeiro ano de luto. “Eu simplesmente não dormia”, diz. “Às vezes, os vizinhos ouviam os gritos que eu dava durante o choro.” Depois da primeira audiência de instrução do processo criminal, um trio de artistas – Adriana Calcanhotto, Mana Bernardes e Marcelo Jeneci – compraram passagens aéreas para Souza e Marta passarem uns dias longe do Recife. Elas foram acomodadas em um casarão cercado de mata no bairro carioca do Alto da Boa Vista. Foi a primeira vez que Souza viajou de avião.

“Antes de tudo acontecer, eu já tinha consciência da minha classe social. Era difícil não ter quando eu entrava naquele apartamento ou na mansão. O que eu não tinha era consciência de raça”, diz. “Trabalhando todos os dias e com um filho para cuidar, não me sobrava tempo para pesquisar sobre negritude.” Souza foi imediatamente acolhida por militantes do movimento negro de Pernambuco, que a ajudaram a compreender que a vida dela – a profissão, a perda precoce do irmão e do filho, a necessidade de trabalhar durante uma crise sanitária – se parece com a de outras mulheres negras brasileiras. “Senti muita dor no peito quando descobri as violências que as trabalhadoras negras sofrem no Brasil. Eu não conseguia acreditar que aquilo também tinha acontecido comigo.”

Ainda em 2021, a Justiça do Trabalho determinou que os ex-patrões pagassem salários e benefícios trabalhistas atrasados para Souza e Marta. No processo, Corte Real e Hacker foram acusados de fraude por terem contratado as empregadas como funcionárias da Prefeitura de Tamandaré. Em 2023, o Tribunal Superior do Trabalho condenou os dois a pagarem 386 mil reais por dano moral coletivo (por se tratar de uma ação civil pública, o dinheiro não foi para Souza, mas para entidades trabalhistas). A decisão foi baseada no conceito de racismo estrutural, algo inédito na Justiça brasileira. O juiz levou em conta que Souza e Marta foram submetidas a “gravíssimas violações humanitárias trabalhistas, que agrediram o patrimônio imaterial da sociedade brasileira”.

Todo o léxico jurídico confundia Souza. Ela não sabia o que era primeira e segunda instância, tampouco as diferentes etapas de um processo judicial, e ficava apreensiva quando os advogados lhe davam notícias do caso de Miguel. “Eu não entendia nada, pedia para eles me explicarem cada detalhe.” Ela queria ter autonomia para avaliar o que estava certo e errado na condução dos processos da morte do filho. Não podia confiar apenas na avaliação de terceiros, por mais que os seus advogados fossem bem-intencionados. Então, decidiu se matricular em uma faculdade de direito.

 

No meio da tarde de 9 de julho passado, o Centro do Recife, até então ensolarado, foi atingido por uma forte chuva. Souza deixava um bistrô na Rua da Aurora quando a água começou a cair. “Aquele prédio rosa é o Teatro de Santa Isabel”, ela me diz, apontando para o edifício no outro lado do Rio Capibaribe. “Já o prédio amarelo é o Palácio da Justiça. O processo do Miguel está ali.”

Duas horas antes, durante o almoço, Souza me contou que, um ano depois da morte do filho, voltou a trabalhar. Foi convidada para integrar a equipe do Grupo Curumim, uma ONG feminista e antirracista. “Ali eu comecei a me formar politicamente”, diz. Também entrou para a AfroResistance, outra organização sem fins lucrativos que trabalha em favor da justiça racial nos países da América.

A AfroResistance levou Souza para a sua primeira viagem internacional. Ela foi a única brasileira de uma delegação de estrangeiros que fiscalizaram o segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, em junho de 2022. Numa noite, a periferia de Cali, cidade onde Souza estava, virou uma festa com o anúncio da vitória de Gustavo Petro, primeiro político de esquerda eleito para a Presidência do país. “Todo mundo foi dançar salsa na rua, e eu doida para ouvir um brega ou um forró”, recorda, aos risos. O povo colombiano também comemorou a chegada de Francia Márquez à Vice-Presidência. Nunca uma mulher negra havia ocupado um cargo tão alto no país.

No dia seguinte, a nova vice-presidente pediu para conhecer a mãe do menino Miguel e mandou um carro buscar Souza no hotel. “Conheci a casa e a família de Márquez. Descobri que ela também tinha sido empregada doméstica e estava ameaçada de morte por lutar pela população negra. Voltei para o Recife inspirada por aquela mulher que nunca abaixou a cabeça para ninguém.”

Àquela altura, o processo de Miguel contava com uma decisão na esfera criminal. Sari Corte Real foi condenada a oito anos e seis meses de prisão por abandono de incapaz com resultado morte. A sentença foi divulgada pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco na antevéspera do aniversário de dois anos da morte do menino. Os dois lados ficaram insatisfeitos com a decisão. Os advogados de Corte Real consideraram a condenação um absurdo e decidiram recorrer. Souza, por sua vez, achou a pena branda. “Qualquer tempo que a Sari passar na cadeia vai ser pouco diante do tempo que eu vou ficar sem o meu filho”, ela me diz. “O que são doze, sete anos presa? Nada. Depois, ela vai voltar para os filhos e o marido. Eu vou passar o resto da vida sem ter o meu neguinho do meu lado.”

Souza está convicta de que Corte Real não será penalizada pela morte de Miguel enquanto o caso estiver no Tribunal de Justiça de Pernambuco, sobre o qual a família dela e a de Sergio Hacker têm influência. Em novembro de 2023, a pena foi reduzida para sete anos, e a defesa recorreu de novo, em busca da absolvição. Em julho de 2025, o tribunal negou o pedido e manteve os sete anos. É provável que os advogados de Corte Real apresentem novos recursos. Se o tribunal acolher, o processo pode seguir para o Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.

A família de Miguel teve uma ação por danos morais suspensa no STJ. Os advogados pedem que os ex-patrões indenizem Souza com 1 milhão de reais. O juiz primeiro acatou o pedido; depois, aceitou os argumentos da defesa de Corte Real de que a ação por danos morais não está diretamente relacionado ao contrato de trabalho de Souza e, por isso, o processo deveria tramitar na Justiça comum. “O meu filho faleceu no meu ambiente de trabalho, em uma morte causada pela empregadora. É claro que a Justiça do Trabalho deve julgar o caso”, argumenta Souza. Além disso, há uma ação cível no Tribunal de Justiça de Pernambuco, que também pede que os ex-patrões indenizem Souza com 1 milhão de reais. “Fiz esse pedido considerando o tempo que o meu filho contribuiria com as economias da nossa casa quando fosse um homem adulto e trabalhador”, diz Souza. “Eu não vou deixar de lutar pela indenização. Essas pessoas só entendem o peso dos seus atos quando têm que tirar dinheiro do bolso.”

Até agora, Souza não recebeu nenhuma reparação pela morte do filho. Apesar disso, depois que os jornais noticiaram que os patrões deveriam lhe pagar uma indenização milionária, ela se viu cercada de amigos e parentes que tinham passado anos sem fazer contato. Quando precisava ir ao Recife, tinha medo de voltar para casa tarde da noite e encontrar alguém mal-intencionado na rua. Ao sair de casa pela manhã, encontrava desconhecidos no portão pedindo para abraçá-la e tirar fotos. “Passei a ter medo de ser sequestrada.” Há poucos meses, Souza e a mãe deixaram o bairro do Barro para morar em outra região do Recife.

 

Logo que assumiu o mandato na Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe), em janeiro de 2023, a deputada estadual Dani Portela, do Psol, convidou Mirtes de Souza para ser sua assessora parlamentar. Portela a conheceu em 2020, nos protestos que o movimento negro organizou para pedir justiça pela morte de Miguel. “Lembro do impacto de ver Mirtes segurando uma placa com as palavras: ‘O resto da minha vida sem o meu filho’”, diz a deputada. Sabendo que Souza estava estudando direito, Portela a chamou para integrar a equipe jurídica do seu gabinete em junho daquele ano.

Nas primeiras reuniões de que participou, Souza se levantava depressa sempre que alguém perguntava onde tinha água ou um cafezinho. Portela precisou chamar sua atenção: “Qualquer um de nós pode servir os outros, menos você, que veio desse lugar de servidão. Aqui, você vai ser servida.” A deputada se lembra de perceber o comportamento de Souza mudar com o tempo. “Quando nos conhecemos, Mirtes era uma mulher negra de cabelo alisado. Ela atravessou um processo de transição capilar e começou a usar black e tranças.”

Souza conhecia bem um integrante da Alepe, o deputado estadual France Hacker (PSB), tio de Sergio Hacker, para quem ela também cozinhou quando era empregada doméstica. Portela temia que o encontro com o deputado pudesse causar algum estresse na assessora, mas Souza nunca se deixou abalar pela presença de France Hacker. “O que mais nos surpreende é a alegria de Mirtes”, diz Portela. “Ela é o tipo de pessoa que chega no ambiente e coloca a energia lá em cima.” A deputada se lembra de poucas ocasiões em que viu Souza triste. Uma delas foi quando saiu a notícia de que Corte Real tinha se matriculado numa faculdade de medicina em Jaboatão dos Guararapes. “Acho que ela ficou mexida por saber que Sari está seguindo a vida como se nada tivesse acontecido.” Corte Real passou a se apresentar em público como Mariana, não mais como Sari, e tingiu os cabelos loiros de castanho.

Com os estudos de direito e o trabalho na Alepe, Souza pôde se concentrar em outras coisas além do luto, mas sentiu a ansiedade piorar. Ela precisou ser levada ao hospital duas vezes, com falta de ar e dores no peito. No ano passado, durante um dia especialmente estressante, tomou 1 litro de cajuína e sentiu a visão escurecer. Ficou um dia e meio acamada numa emergência, com a glicose nas alturas. “Eu desconto a minha ansiedade na comida”, diz ela, que hoje pesa 137 kg. Já tentou fazer acupuntura e, depois de muito resistir, passou a se consultar com uma psicóloga.

A prisão de Corte Real inspira algum sossego em Souza, mas ela tem certeza de que nunca voltará a ter um sono tranquilo. As ruas do Recife também a entristecem. Toda vez que entra em um elevador, ela vê um aviso sobre a lei estadual nº 17020/2020, promulgada depois da morte de Miguel, que proíbe o uso de elevadores por crianças com menos de 12 anos sem a companhia de um adulto. “Quero ir embora daqui, para morar em Salvador, mas só vou depois que o processo do meu filho for resolvido.”

Nos dois dias que passei com Souza no Recife, eu a vi sendo abordada oito vezes na rua. Ela teve que interromper todas as refeições para devolver abraços, ou agradecer o cumprimento de pessoas que diziam coisas do tipo: “Tu é uma guerreira”, “Vai para cima deles”, “Você não está sozinha”. No Paço do Frevo, um museu no Centro da cidade, uma senhora esbugalhou os olhos quando viu Souza: “Não acredito que é tu.” Ela cutucou duas amigas e disse: “Essa é Mirtes, a brava mãe de Miguel.” Souza sorriu com timidez e respirou aliviada quando entramos no elevador que nos levaria ao segundo andar.

“Por onde eu ando, sou vista como a mãe do Miguel”, diz. Souza precisa lidar o tempo todo com a culpa de estar seguindo com a própria vida. Se vai ao show da banda BaianaSystem, ou da cantora Gloria Groove, teme ser julgada por desconhecidos. O passado dificulta até a busca por um parceiro. “Eu me fechei para a vida e, nos momentos que tentei me abrir, fui ignorada por ser quem eu sou. Os homens não me veem como Mirtes, uma mulher que quer amar e ser amada. Me veem como a mãe de uma criança que morreu, uma mulher que tem uma ferida no peito. Eles me veem com pena.”

A ex-deputada estadual Erica Malunguinho, que atuou pelo Psol em São Paulo, é uma das grandes amigas que Souza tem hoje. As duas se conheceram em eventos da militância negra. No ano passado, alugaram uma casa em Itamaracá, no litoral de Pernambuco, para curtir o aniversário da cidade. Malunguinho se diverte ao contar sobre as duas passeando pelas ruas de madrugada, acompanhadas de amigos e namorados. “A prefeitura montou um bolo gigantesco para a festa”, conta Malunguinho. “A Lia de Itamaracá fez o primeiro corte, pela simbologia, e depois eu e Mirtes assumimos a função. Foi hilário. Acabaram os guardanapos e a gente teve que servir o bolo na mão do povo. As crianças entravam na fila duas, três vezes, e a gente não tinha coragem de recusar.”

Se percebesse alguém se aproximando de Souza com a intenção de falar sobre Miguel, Malunguinho puxava a pessoa em um canto e pedia: “Por favor, não fale sobre o filho dela. Não aqui, não neste momento. Deixe ela ser apenas uma mulher.”

 

Semanas atrás, os alunos de uma escola municipal no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, estranharam a ausência da professora de leitura Amanda Massucci Batista. Quando retornou ao trabalho, ela teve que explicar às crianças que havia tirado alguns dias de folga para lançar um livro no Recife. Ela é uma das autoras de Por que você não pegou Miguel Otávio no colo?, obra que analisa a relação da morte de Miguel com a maneira negligente como a sociedade trata as crianças negras. Os alunos, claro, perguntaram do que se tratava o livro, e Massucci Batista explicou que era sobre um menino que tinha caído do prédio em que a mãe dele trabalhava.

Um aluno perguntou: “Como está a mãe do Miguel?”

Massucci Batista respondeu: “Vocês não fazem ideia do que aconteceu com a mãe do Miguel. Ela teve muita dor, mas foi fazer faculdade de direito. Está quase se formando e lutando junto com outras mães por justiça.”

Souza recebeu nota máxima na monografia que apresentou no dia 9 de junho em uma universidade particular do Recife. Escolheu como objeto de estudo o trabalho escravo contemporâneo no Brasil, com ênfase nas trabalhadoras domésticas. A pesquisa traz um relato em primeira pessoa de tudo o que ela viveu na casa de Sari Corte Real, além da análise dos casos de Madalena Gordiano, que durante 38 anos serviu uma família mineira em condições análogas à escravidão, e o de Sônia Maria de Jesus, encontrada em situação semelhante na casa do desembargador Jorge Luiz de Borba, em Santa Catarina (e que foi tema da reportagem Sorriso: uma biografia, na piauí_215, agosto de 2024).

“Enquanto apresentava o meu trabalho, eu só conseguia pensar no meu neguinho”, diz. “Era para ele estar ali me assistindo. Ou melhor, era para eu estar assistindo ele se formar.” Ela tinha sonhos para o filho, mas o menino tinha os próprios. “Miguel dizia que queria comprar uma moto para me levar à praia.” Um dia, ele viu um policial montado numa moto e decidiu que seria policial. Depois, impressionado com os trabalhadores que corriam para se pendurar no caminhão de lixo, Miguel quis ser gari. “Ele ficava bestinha quando os garis davam tchauzinho.” O último sonho do garoto foi ser jogador de futebol.

Os sonhos de Souza são ter uma carteira da Ordem dos Advogados do Brasil, ser advogada trabalhista e chegar à promotora de Justiça. Ela considera adotar uma criança depois que os processos da morte de Miguel terminarem. “Eu só não sonho mais com o Miguel”, diz, em tom de lamento. “Ele apareceu para mim naquela vez, brincando, e nunca mais. Eu quero muito voltar a sonhar com o meu neguinho.”

Thallys Braga
Thallys Braga

Repórter da piauí

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29 jul 2024_13h27
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