Um clássico virado ao avesso
O romance James, de Percival Everett, refaz uma história clássica de Mark Twain pela ótica de um homem negro escravizado
O escravizado Jim se mostra submisso, ignorante, supersticioso e ingênuo sempre que há um branco por perto. Em tal situação, deixa de lado a norma culta da língua e diz frases do tipo: “Meu vrido da sorte vai mi protegê” ou “Nóis num é dotô”. Os demais negros que vivem na mesma região dos Estados Unidos – o Vale do Rio Mississipi – agem de modo idêntico. Vários aprendem as estratégias já durante a infância. Os escravizados adultos ensinam às crianças “de cor” não apenas o jeito “corretamente incorreto” de se expressar, mas também uma série de outras condutas seguras: nunca fazer contato visual com os brancos, nunca falar antes deles, nunca os afrontar, nunca bancar as sabichonas. Caso uma residência incendeie, não convém que os negros gritem “fogo, fogo!” para alertar os senhores. É melhor que berrem: “Misericórdia, sinhá! Oia lá.” Assim, os brancos descobrirão sozinhos que se trata de um incêndio e continuarão se julgando espertos. Quanto mais os negros reforçarem os padrões comportamentais que a sociedade escravocrata lhes atribui, menos vulneráveis estarão.
Entre si, no entanto, os escravizados abandonam o disfarce e se revelam perspicazes. Eles, então, abdicam da postura servil e conspiram contra os algozes. De quebra, rejeitam o linguajar caricato e conversam sem erros grosseiros de gramática. Jim segue a regra, mas vai muito além. Como se alfabetizou secretamente, redige sua biografia às escondidas e lê ensaios que garimpa com discrição na biblioteca de um juiz. O cético escravizado é um intelectual, capaz de raciocínios densos e de usar palavras incomuns (labiríntico, abstruso, multifário, heteróclito…). Em sonhos ou pensamento, dialoga sobre moral, liberdade e direitos civis com os filósofos iluministas Voltaire e John Locke.
O camaleonismo de Jim e seus pares configura um dos pontos altos de James, romance do escritor negro Percival Everett que venceu dois importantes prêmios literários americanos, o National Book Award e o Pulitzer. O livro abraça uma missão ousada: recontar As aventuras de Huckleberry Finn, o clássico de Mark Twain, autor branco de ascendência europeia. O menino pobre e igualmente branco que protagoniza a trama original, lançada em 1884, escapa do pai abusivo, forja o próprio assassinato e se refugia numa ilha do Missouri, onde reencontra Jim, um conhecido. O escravizado também está fugindo. Resolveu dar no pé quando soube que a dona planejava vendê-lo.
Da ilha, os dois rumam para o Norte pelo Mississipi. Àquela altura, a primeira metade do século XIX, boa parte dos estados nortistas já havia abolido a escravidão. No trajeto, a dupla se mete em inúmeras confusões e desenvolve uma terna amizade. O menino narra as peripécias enquanto Jim – descrito como um homem simples, crédulo e analfabeto – ocupa a posição de coadjuvante.
Hoje, As aventuras de Huckleberry Finn desperta reações controversas. Para uns, embora denuncie os horrores da escravidão, o livro acaba reiterando clichês racistas e, por isso, não é digno de qualquer reverência. Para outros, apesar dessa limitação, o romance permanece uma obra essencial, por seu estilo inovador, que consolidou a literatura em prosa feita nos Estados Unidos e ainda lhe abriu as portas da ficção moderna.
Em James, Everett inverte as bolas e alça Jim à condição de narrador-protagonista. A artimanha ilumina facetas complexas e encantadoras do personagem, nem sequer insinuadas na obra de Twain. O escravizado, agora, tanto se esconde quanto se desnuda por meio de atitudes paradoxais e engenhosos jogos linguísticos. Everett releu As aventuras de Huckleberry Finn quinze vezes seguidas antes de escrever o livro publicado em 2024. O esforço valeu a pena. Nas palavras do crítico e pesquisador Luiz Mauricio Azevedo, James “confirma o sentido profundo da literatura”: renovar o mundo graças à renovação das histórias que explicam como chegamos até aqui.
