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Paisagem bucólica, crise frenética

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Paisagem bucólica, crise frenética

Morra, amor, de Lynne Ramsay, dramatiza a experiência de uma mulher no puerpério

| 31 out 2025_10h02
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Numa região remota dos Estados Unidos, Grace (interpretada por Jennifer Lawrence), cuida de seu bebê recém-nascido. À noite, a criança não para de chorar, enquanto o novo cachorrinho da casa, adotado pelo marido (Robert Pattinson), não cansa de latir. Grace passa noites inteiras acordada, enquanto o marido dorme tranquilamente, alheio ao barulho da criança e do cão. Numa madrugada, ela decide interromper o incômodo de forma radical. Vai até a casa da sogra, a poucos metros da sua, apanha uma escopeta e dá fim à vida do cachorro.

Antes de se mudar para a casa de dois andares no meio do nada onde está morando, Grace vivia numa cidade grande e tinha uma série de planos para sua promissora carreira de escritora. A decisão de buscar uma vida bucólica foi motivada pelo casamento e o nascimento do bebê. As coisas, porém, não saem como esperado.

O filme de Lynne Ramsay, que dirigiu Precisamos falar sobre o Kevin, essencialmente dramatiza o puerpério – período repleto de variações emocionais e hormonais que acomete mães depois do parto. Costuma durar de seis a oito semanas, mas no filme o período é estendido e se transfigura numa espécie de psicose diabólica. Grace passa longos períodos sozinha, já que o companheiro trabalha fora – a cada vez que o marido retorna a casa, a encontra num estado mental cada vez mais instável, fazendo coisas cada vez mais estranhas. A certa altura, Grace aceita ser internada numa clínica psiquiátrica.

O longa adota um ritmo frenético, em contraste com a placidez da paisagem rural, filmada em cores pastéis. Por cerca de 20 minutos, as cenas todas têm como fundo sonoro o latido perturbador do cachorro, às vezes acompanhado dos berros da criança. Ramsay adota um tom similar ao do romance homônimo e semiautobiográfico no qual o filme se baseou, da escritora argentina Ariana Harwicz, cuja narrativa não linear e experimental tenta dar conta da solidão extrema e da raiva – ora latente, ora explosiva – da protagonista (a tradução do livro saiu no Brasil pela Instante).