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    Gilberto Molina (à direita) socorre um ferido numa passeata em 1968. Coube a ele contar aos pais que o irmão fora morto. O pai perguntou: “Por que mataram se ele já estava preso?” CRÉDITO: EVANDRO TEIXEIRA_1968_ ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

anais de uma ditadura

O inconformado

Um irmão morto e um homem que nunca aceitou “não” como resposta

Angélica Santa Cruz | Edição 231, Dezembro 2025

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Foi um deus nos acuda chegar de carro ao Cemitério Municipal Dom Bosco, na Zona Norte de São Paulo, naquela tarde quente, abafada e de trânsito pesado de 24 de março. Sentado no banco do carona, o engenheiro aposentado Gilberto Carvalho Molina recebia mensagens por WhatsApp de funcionários do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. “Você já está vindo?”, perguntavam. No volante, a diretora de Recursos Humanos, Paula Molina, a segunda de suas quatro filhas, avisava: “Pai, ainda vamos demorar mais uns vinte minutos pra chegar.” E, no banco de trás, outra filha, Marcia Molina, uma guia de turismo recém-chegada de viagem, ia colocando calças compridas mais adequadas para a ocasião enquanto avançava em uma marmita feita às pressas pela irmã. Ao longo do caminho, o trio perpetuava uma tradição familiar herdada do avô paterno: a de encarar situações difíceis com piadinhas distensivas. Tiravam sarro do atraso, do calor, do cheiro de comida no carro, de tudo.

Quando a trupe enfim chegou ao cemitério, o carioca Gilberto Molina foi cercado por um grupo de pessoas e imediatamente levado para um palco montado embaixo de uma tenda. As duas irmãs se entreolharam, surpresas. “Meu pai sempre foi muito discreto. A gente sabia que ele estava em São Paulo para receber uma homenagem por sua luta pela reparação aos parentes dos desaparecidos na ditadura militar, mas não tinha ideia de que ele representaria todas as famílias no evento”, lembra Paula Molina. “Até brincamos: parece que temos uma celebridade aqui.”

No palco, a ministra Macaé Evaristo fez um discurso que passava a limpo a história tortuosa das 1 049 ossadas encontradas na vala clandestina de Perus, como ficou conhecido o buraco de 30 metros de comprimento, 50 cm de largura e 2,70 metros de profundidade escavado no Cemitério Dom Bosco na década de 1970 – e onde foram parar corpos de opositores do regime militar e indigentes. O irmão mais novo de Gilberto Molina, Flávio, morto sob tortura em 1971, um dia antes de completar 24 anos, também foi enter­rado – ou melhor, escondido – na vala.

 

A participação de Macaé Evaristo na cerimônia se encerrou com uma frase de natureza histórica: “O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em nome do Estado brasileiro, pede desculpas aos familiares dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar brasileira, iniciada em 1964, e à sociedade brasileira pela negligência, entre 1990 e 2014, na condução dos trabalhos de identificação das ossadas encontradas na vala clandestina de Perus.” Foi aplaudida de pé. Abraçou Gilberto Molina, deu para ele uma placa de acrílico com o pedido de perdão e, depois, lhe passou a palavra.

Diante do microfone, vestindo camisa social e calça jeans, o engenheiro aposentado contou como se transformou no primeiro familiar de um desaparecido político a ver a vala de Perus com os próprios olhos. Ele esteve no Cemitério Dom Bosco procurando pelo corpo do irmão em 1981, nove anos antes da existência do depositório clandestino vir a público. Foi recebido pelo então administrador do cemitério, Antônio Pires Eustáquio, o Toninho, que apontou para uma área gramada e disse que a administração anterior à dele havia exumado uma quadra inteira de covas e levado as ossadas para lá. “Perguntei se tinha certeza e ele disse: ‘Tenho, quer ver?’ Ele chamou uma retroescavadeira que abre as sepulturas, localizou o lugar direitinho e abriu um pequeno pedaço. Logo um pouco abaixo da superfície gramada apareceu um primeiro saco, apareceu outro… O Toninho tirava aqueles sacos rasgados. Tirou um fêmur desse tamanho e me perguntou: ‘Seu irmão era grande?’ Eu disse: ‘Era.’ De outro saco, ele tirou um crânio e me perguntou: ‘O seu irmão usava dentadura?’ Aí eu disse: ‘Não, Toninho, para.’ Minha perna começou a ficar bamba. […] Comecei a ficar meio tonto e fomos lá para dentro. Tomei um cafezinho”, lembrou ele, ao microfone.

Os militares ainda estavam no poder, e São Paulo era governada por Paulo Maluf. Não havia clima político para fazer nada com a informação da vala atulhada de ossadas. Só em 2005, e 24 anos depois dessa cena e de uma sequência penosa de entraves, o engenheiro aposentado conseguiria identificar as ossadas do irmão.

 

Quando desceu do palco, Gilberto Molina foi cercado pela imprensa. Com medo de que o pai tivesse um mal-estar por causa do calor, as filhas se revezaram para levar água em copinhos plásticos, garantir que ele ficasse na sombra e até ajudar na ordem das entrevistas. “Começamos a brincar que éramos as assessoras de imprensa dele”, diz Paula Molina. Apesar das piadas de sempre, a cerimônia foi um pequeno marco na família. “Foi a primeira vez que vi meu pai contando as coisas que aconteceram quando nós éramos crianças”, diz ela. “Eu e a minha irmã, a gente só chorava…”

 

Gilberto Molina hoje tem 82 anos, cabelos brancos e usa um aparelho de surdez. Quando ficou viúvo, em 2014, foi morar em um apartamento menor na Tijuca, bairro onde mora há décadas. Por prescrição médica, precisa tomar dois litros de água por dia – e os goles são fiscalizados de perto pela filha mais nova, Luisa. Gosta de fazer marcenaria em uma casa da família no interior de Minas Gerais. Às vezes se isola por semanas e sai do retiro voluntário distribuindo banquinhos entre amigos e familiares.

Por décadas, ele foi protagonista de uma versão tropicalizada de Antígona, a tragédia grega em que uma mulher desafia o poder de um Estado totalitário pelo direito de sepultar o próprio irmão. Ainda assim, construiu uma vida familiar venturosa. É definido pelos que o rodeiam como um homem carinhoso, pragmático, meticuloso e, antes de tudo, um inconformado – qualidade que lhe foi muito útil na missão de montar o quebra-cabeça que explicaria tudo o que foi feito de Flávio Molina a partir do momento em que ele saiu da casa dos pais, um apartamento de classe média em Copacabana, em 20 de julho de 1969. “No dia em que o homem pousou na Lua”, gosta de frisar Gilberto Molina.

 

Por causa dele, o caso de Flávio Molina é singular. Demorou quase quarenta anos desde sua morte, mas sua família conseguiu quase tudo o que se oferece no Brasil em termos de reparação: refazer seus passos, encontrar seu corpo, identificá-lo, enterrar os restos mortais no jazigo da família, obter indenização, fazer retificações em certidões de óbito. Do ponto de vista jurídico, o engenheiro aposentado também conseguiu muito. Foi a partir de uma representação enviada por ele em 1999 que o Ministério Público Federal em São Paulo entrou no caso das ossadas de Perus e acabou abrindo uma ação civil pública que, entre outras coisas, resultou no pedido formal de desculpas feito pela ministra Macaé Evaristo, em nome na União. Os que acompanharam de perto as estações de sua via-crúcis para conseguir cada centímetro dessas reparações descrevem a história de um sujeito que não aceita não como resposta.

Ana Maria Müller, advogada com atuação épica na defesa de familiares de mortos e desaparecidos políticos e uma das fundadoras do CBA (Comitê Brasileiro pela Anistia) do Rio de Janeiro, de sua casa na Ilha de Paquetá, onde mora desde que se aposentou, explica: “O Gilberto sempre foi o cabeça dessa busca na família dele. Era um cara abnegado. Não tinha dia, não tinha hora, passou a respirar essa história como se fosse indispensável para a vida. À medida que se envolveu, absorveu também o sentimento de que era necessário fazer justiça coletivamente, para dar sentido às histórias de todas as famílias que conviveram com esse drama inconcebível que é o desaparecimento de um ente querido e pelas mãos do Estado.”

“É uma história comovente, a do Gilberto. Sempre com um jeito afetivo, cuidadoso, ele nunca desistiu – costumava repetir que precisava dar uma resposta para a mãe”, afirma Marlon Alberto Weichert, um dos procuradores de São Paulo que entraram na batalha pela identificação das ossadas de Perus depois que Gilberto Molina enviou a representação de 1999 denunciando a paralisação nos trabalhos.

Flavia, a filha primogênita de Gilberto Molina batizada em homenagem ao tio, desaparecido, diz: “A busca por reparação era uma missão da vida do meu pai. Ele trabalhava porque tinha família, mulher, quatro filhas. Mas as horas que seriam de distração dele eram para correr atrás das pessoas, fazer contatos, ler muitas reportagens sobre o tema. Era algo que ele queria resolver.” E Paula Molina resume: “Meu pai procurou muito, brigou muito por isso. O objetivo dele era, no fim, voltar para casa com algum sinal de esperança.”

 

Em 1968, o fotojornalista Evandro Teixeira fez, para o Jornal do Brasil, fotografias que se tornariam registros célebres das manifestações estudantis que varreram as ruas do Rio de Janeiro durante meses. Uma delas mostra uma passeata dissolvida no Centro da cidade. A imagem é esfumaçada, os personagens mal parecem ter rosto. De uma névoa branca de gás lacrimogêneo, saem os contornos de um trio formado por um homem ferido, levado pelos ombros por duas pessoas. De seu lado direito, está um policial. Do lado esquerdo, vê-se um personagem com óculos escuros, calças pretas e camisa branca abotoada, em um efeito geral estranhamente arrumado para a situação. É Gilberto Molina.

Este ano, enquanto revirava arquivos em seu computador, ele achou uma cópia da foto. Enviou no grupo de Whats­App que usa para falar com as filhas, com a descrição daquela tarde em que quase foi preso:

História longa… Final da passeata dissolvida com o pau quebrando, bomba estourando, gás lacrimogêneo e muita gente sendo presa. A polícia cercou um grupo de umas quinze pessoas contra a parede de um prédio na esquina da Rio Branco com a Presidente Vargas e eu lá. Uma repórter gritava, de fora do cordão de policiais, perguntando os nomes dos presos e eu respondi. Aí chegou um camburão e todos iam sendo empurrados pra dentro. Eu fui me afastando e me abaixei junto a um cara que estava recostado no chão e tinha apanhado muito. Ficamos os dois por último, chegou um oficial e levantou o cara. Eu o peguei do outro lado, fomos em direção ao jipe do oficial e pusemos o cara dentro. Eu ia entrar junto, mas o oficial me empurrou e foram embora. A foto é caminhando para o jipe.

As filhas de Gilberto Molina estranharam a mensagem – sempre concentrado nas buscas pelo irmão, ele não costumava contar que também teve certa atuação política no passado. “Eu, por exemplo, nem sabia dessa foto”, diz Paula. “Depois de ver essa mensagem pensei… poxa, será que meu pai poderia ter sido preso e sumido também?”

Elas cresceram em uma cobertura, também na Tijuca, cheia de mulheres, barulhenta e animada. O pai, sempre usando um bigodinho, se movimentava discretamente – e fazia piadas. Lembram dele se dividindo entre os programas em família e as viagens ou reuniões para falar de desaparecidos políticos. O sumiço do tio não era um tema proibido em casa, mas os detalhes da saga para identificar seus restos mortais eram discutidos apenas com a mulher, Vera. Certa vez, lembra Flavia, ele chegou em casa taciturno, passou direto pela sala, se trancou no quarto e caiu em um choro tonitruante. Outra vez, rememora Paula, ela ainda adolescente estava estudando no escritório do pai. Abriu uma gaveta, distraída, e deu de cara com fotografias da autópsia do tio, em que ele aparece com o rosto todo machucado, como quem apanhou muito. “Imagine, meu pai teve que andar todos esses anos com fotos de um irmão morto…”, diz ela. E teve o dia em que todas perceberam que o pai devia ter feito algo importante: o repórter Caco Barcellos resolveu entrevistá-lo. O jornalista que descobriu a existência da vala de Perus em 1990 queria saber como Molina conseguira ver as ossadas ainda em 1981.

Quando a ditadura militar começou, Gilberto Molina cursava engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acabou entrando em uma das organizações para onde iam os estudantes indignados com os rumos políticos do país. Alinhou-se à Ação Popular (AP). “Sou ateu e só entrei porque não sabia que ela era uma dissidência da juventude católica”, disse, achando graça, no primeiro dia em que recebeu a piauí em seu apartamento na Tijuca.

Ficou pouco tempo e era um soldado raso na organização. Junto com um punhado de colegas, escrevia panfletos com críticas ao governo e passava de carro jogando a papelada em lugares como portas de fábricas. Participava de comícios-relâmpago, fazia pichações. “Hoje o pessoal só precisa pegar um spray. Mas na minha época era muito mais elaborado!”, achou graça de novo, agora a caminho de um restaurante por quilo a algumas quadras de sua casa. “A gente tinha que comprar sebo de boi em açougues e pó preto para graxa de sapatos, ir para um lugar distante, botar tudo para ferver em uma lata. Ficava aquela coisa borbulhando. Depois a gente fazia canudos com cartolina amarrada com durex e melava nessa mistura. Um dia antes, procurava nos bairros os muros e paredes ideais para escrever. Na hora, alguém ia dirigindo um carro, os outros desciam e pichavam: ‘Abaixo a ditadura! Fora Médici!’”

Antes de Médici, numa manhã de 1968, logo cedo, Gilberto Molina foi preso mesmo, pego de surpresa por dois policiais, dentro de casa, sem saber direito por quê. Quando percebeu que seria levado para uma delegacia, pediu licença para se vestir, pegou alguns panfletos que tinha guardado e pediu ao irmão Flávio, que estava deitado na cama, que escondesse o material. Foi interrogado, mas não apanhou – os policiais fizeram uma acareação com outra pessoa, mostraram fotos de outras. Ele não conhecia ninguém. Ficou uma noite na cadeia, foi liberado e passou a responder a um processo na Justiça Militar. Seria absolvido anos depois.

Também em 1968, um ano antes de começar a cursar química na UFRJ, Flávio, quatro anos mais moço que o irmão, foi preso pela primeira vez. A polícia invadiu o campus da Faculdade de Filosofia durante uma assembleia estudantil e levou todos que conseguiu para o antigo campo de futebol do Botafogo. Foi fichado, solto no dia seguinte e também passou a responder a processo na Justiça Militar. Indignado, aprofundou a militância que começara em 1966, quando ainda era estudante ginasial e se engajou na política estudantil.

Dependendo da fase de suas vidas, a diferença de idade entre os irmãos poderia afastá-los ou deixá-los mais próximos. Na infância, saíam juntos para pescar na fazenda onde um tio vivia e trabalhava, a Santa Teresa, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Depois o convívio rareou, sobretudo quando estudaram em colégios internos em períodos diferentes. A certa altura, passaram a dividir o mesmo quarto no apartamento onde os pais moravam com a avó, no Posto 6, em Copacabana. De vez em quando, os dois enfrentavam debates acalorados com os pais, conservadores, durante as refeições – mas nunca entravam em detalhes sobre a atuação em organizações. “Era uma regra nessa época, para proteger as famílias.” Gilberto Molina pegava praia com o irmão mais novo e seus amigos de escola que também já atuavam em movimentos políticos – e nem assim se falava do assunto.

Quando terminou a faculdade, em 1969, Gilberto Molina foi contratado como engenheiro civil e transferido para uma obra. Foi uma mudança radical. Na paralela, se apaixonou pela estudante de arquitetura Vera, que seria sua mulher por mais de quatro décadas e mãe de suas quatro filhas. “Fiquei em uma daquelas bifurcações do destino: o que eu faço, continuo na organização? A vida foi naturalmente me levando para outro lado. Se eu fosse mais novo como meu irmão, que se engajou politicamente ainda no ginásio, provavelmente teria ficado e entrado na clandestinidade.”

No meio do ano, Gilberto e Vera se casaram. Fizeram uma pequena viagem de lua de mel e, na volta, ele chamou o irmão para ir até seu novo apartamento ver umas fotos. No meio da conversa, o telefone tocou. “Era alguém pedindo para falar com o Flávio, passei para ele. Ele conversou qualquer coisa e me disse: ‘Olha, vai lá em casa, diz pra mamãe que eu não vou dormir lá e pega uma bolsa com roupas para mim.’ Fui fazer isso naquela noite mesmo. Minha mãe perguntou: ‘É coisa de mulher?’ Eu disse: ‘Não, mamãe. Depois ele entra em contato com você.’”

Os irmãos marcaram um encontro para o dia seguinte, na Praça José de Alencar, no Flamengo. Flávio foi com um amigo da época de ginásio, Frederico Eduardo Mayr. Os dois eram inseparáveis. Nos arquivos que Gilberto guarda meticulosamente em seu computador, há uma fotografia em que eles aparecem com outros jovens, com ar orgulhoso, depois de uma escalada ao Pico da Bandeira. E é de autoria de Mayr um desenho, feito com caneta em março de 1967, que mostra Flávio sentado com as pernas cruzadas, usando camisa de mangas curtas, sandálias e óculos de grau de aros grossos. Aparece ali com um ar compenetrado, um jeito de jovem revolucionário de classe média. Mayr estudava arquitetura e também seria preso em São Paulo, torturado, morto e enterrado no Cemitério Dom Bosco. O retrato que desenhou do amigo viraria um quadro pendurado na casa de Álvaro Andrade Lopes Molina e Maria Helena Carvalho Molina que, além de Gilberto e Flávio, tiveram outros três filhos.

Dias depois, os irmãos se viram de novo, desta vez na Avenida Presidente Vargas. “Ele disse que ficaria longe por um tempo. Perguntei se ele precisava de dinheiro, ele respondeu que não.” Gilberto nunca mais voltou a ver seu irmão. Antes de entrar de vez na clandestinidade, Flávio foi fazendo despedidas que lhe pareciam dolorosas. Telefonou para o pai e pediu para vê-lo na “casa da vovó Gigi”. A avó já tinha morrido, o pai entendeu o recado. Encontrou o filho, também pela última vez, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio. O estudante da UFRJ também foi ver a namorada, Leila, na porta da escola onde ela estudava. Disse a ela que faria uma viagem.

Depois das despedidas, Flávio passou a se comunicar apenas por carta. A família não sabia a qual organização ele pertencia, onde estava e o que fazia na clandestinidade. Em uma carta enviada para sua mãe, em agosto de 1969, Flávio dava pistas de que havia aderido à luta armada. “Mamãe, sei que você ainda não se acostumou com a minha ausência. O caminho que escolhi é bastante difícil e ambos devemos saber suportá-lo, devemos encarar a realidade como ela é. Estou fazendo algo que considero certo e necessário, e para isso saí de casa e abandonei os estudos.”

Em seguida, demonstra preocupação de que os dois irmãos mais novos o vejam como bandido e faz considerações sobre a sua escolha – prolixas e inflamadas, à moda da esquerda da época: “Tenho pensado muito em Cláudio e Celso sobre a minha ‘influência negativa’ na formação deles […]. Estou de cabeça erguida e quero que todos estejam. O ser humano que tem suas ideias e não as leva para a prática é um fraco, hipócrita e cabotino, e isto eu não sou, pois o caminho obrigatório da teoria é a prática, e se esta se mostra diferente cabe, dentro desta prática, corrigi-la e formar uma nova teoria para buscar novamente a unidade.” E, lá pelas tantas, escreve sobre o treinamento que andara praticando na Fazenda Santa Teresa: “Peça ao titio desculpas pelos tiros que dei por lá (foi longe das galinhas), mas eu precisava melhorar a pontaria.”

O apartamento de Copacabana sentiu o peso da saída do terceiro filho dos Molina. “Meus irmãos mais velhos, Marta e Gilberto, já moravam fora. Talvez para protegê-lo, meus pais mandaram o caçula, Celso, para morar na fazenda do meu tio. Eu, adolescente, fiquei lá”, diz o químico Claudio Molina, 72 anos, o único irmão ainda vivo de Gilberto. Hoje aposentado depois de uma carreira longeva na Petrobras, ele lembra de dois eventos particularmente marcantes, pesados, desse período. O primeiro foi a visita de um homem que parecia um oficial de Justiça, para entregar um mandado de prisão. No segundo episódio, entrou um grupo de policiais à paisana no apartamento, fazendo perguntas, revistando tudo, abrindo o cofre da família. Todos com postura intimidatória. “Um deles era um cara muito abusado, arrogante. Sentou-se na poltrona onde o meu pai costumava ver televisão e me perguntou se eu tinha uma foto do Flávio. Eu disse que sim, fui lá dentro, fiz um certo suspense e mostrei uma foto dele bebê. Nunca esqueci a cara de raiva que ele fez.” Aos poucos, o pai e a mãe foram entendendo que sim, era verdade, a ditadura fazia dessas coisas. Gilberto tomou a frente da busca pelo irmão.

Em julho de 1970, os contatos feitos por Flávio cessaram de vez. A família ficou no vácuo, sem saber seu paradeiro. Até que, no dia 29 de agosto de 1972, o Jornal do Brasil e O Globo publicaram, no meio de pequenas notas, que ele havia morrido nove meses antes em São Paulo, em um confronto da polícia com “dois terroristas [que] pertenciam ao Movimento de Libertação Popular (Molipo)” e “a pretexto de protestar contra o aumento de ônibus”.

Como o irmão respondia a um processo na 2ª Auditoria da Marinha do Rio de Janeiro, Gilberto pediu que o advogado que o defendia, Alcione Vieira Pinto Barreto, perguntasse ao juiz auditor do caso se era verdade que ele estava morto. As autoridades responderam que “o noticiário de imprensa era infundado”. Gilberto passou a visitar quartéis, telefonar para hospitais e necrotérios perguntando pelo irmão. Nada.

Já trabalhando duro como engenheiro civil, Gilberto morou em várias cidades brasileiras com Vera, para acompanhar grandes obras de perto, como as de hidrelétricas. As meninas foram nascendo. “Fiquei um período meio perdido, sem saber como começar a correr atrás de notícias do meu irmão. Era uma época em que a gente demorava para contatar as pessoas, não tinha essa de mandar Whats­App.” Em uma das fases em que voltou a morar no Rio, descobriu o CBA, que lutava pela anistia. Aos poucos, entrou em uma rede de contatos de militantes políticos e familiares de desaparecidos, que levantavam fiapos de informações e passavam uns para os outros.

No CBA, alguém lhe passou o contato de um militante que tinha informações sobre o seu irmão e estava disposto a falar. Era o professor de história Rubim Santos Leão de Aquino. Os dois marcaram encontro, na hora do almoço, na frente da Igreja de Santa Luzia, no Centro do Rio. “Quando cheguei, vi um homem parado na esquina. Nos cumprimentamos, ele me levou para a sala onde trabalhava, em um prédio ali perto. Eu me sentei, ele começou a falar.”

 

Aquino contou tudo o que sabia. Flávio Molina participara da Ação Libertadora Nacional (ALN), a organização fundada por Carlos Marighella que, entre outras ações, fazia assaltos a bancos, as chamadas expropriações, para financiar a derrubada da ditadura e o início da revolução popular. Fizera parte do Grupo dos 28, como ficou conhecido um punhado de jovens que foram para Cuba participar de treinamento de guerrilha. Alguns deles resolveram deixar a ALN e abrir uma dissidência, o Molipo. Era o grupo do ex-ministro José Dirceu. Junto com o amigo de infância Frederico Mayr, Flávio aderiu à nova organização. Voltou ao Brasil em novembro de 1971.

Com rapidez extraordinária, o Molipo foi dizimado pela repressão – o que gerou especulações sobre a existência de um delator, que até hoje rendem assunto entre os sobreviventes. “Aquino disse que meu irmão foi levado para a delegacia da Rua Tutóia, em São Paulo, onde reinava o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Foi torturado e morto. Eu nunca tinha ouvido esses detalhes. E chorei ali mesmo, na frente dele”, lembra Gilberto. O DOI-Codi, que funcionava na rua Tutóia, foi o maior centro de repressão da ditadura militar. Pelas contas da Comissão Nacional da Verdade, cinquenta pessoas foram trucidadas em suas dependências apenas entre 1970 e 1975, período em que Ustra esteve no comando.

Gilberto digeriu as informações por alguns dias e foi à casa dos pais, contar o que descobriu. Era um domingo. “Minha mãe tinha ido à missa, o meu pai se sentou em uma poltrona, eu na outra. Falei: ‘Olha, tive a primeira comprovação testemunhal de que o Flávio morreu.’ Narrei todos os detalhes. Meu pai só fez uma pergunta: ‘Por que mataram, se ele já estava preso?’ Depois ficamos lá, calados. Foi entardecendo. Minha mãe chegou e estranhou a gente ali no escuro. Quando soube de tudo, disse: ‘Vou rezar.’ Saiu e foi para o quarto.”

Gilberto não sossegou enquanto não conseguiu uma confirmação oficial da morte do irmão. Em 1978, com apoio do CBA, ele incluiu as notícias de 1972 que davam seu irmão como morto nos autos do processo que ainda corria contra ele na 2ª Auditora da Marinha e pediu de novo esclarecimentos. O Conselho da Justiça Militar do Rio acabou repassando o pedido ao Dops de São Paulo. O então diretor-geral de polícia, Romeu Tuma, recolheu todas as informações disponíveis sobre o militante carioca em São Paulo e enviou a resposta.

O conjunto de documentos oficiais contava a costumeira história, cheia de furos, inventada por agentes da repressão para esconder mortes sob tortura. De acordo com os arquivos, Flávio havia sido preso em 6 de novembro de 1971, ao se encontrar com um militante. Interrogado, declarou que teria um encontro às 13 horas do dia seguinte com mais um integrante da organização, no bairro do Ipiranga. Os policiais, diz a papelada, o levaram até o ponto do encontro. “Conduzido até o local tentou a fuga, não conseguindo em face de ter sido baleado mortalmente”, conclui o texto, bancando uma versão inteiramente mentirosa. Um exame necroscópico do IML mostrava as trajetórias de bala em seu corpo, e uma certidão de óbito informava que fora enterrado no Cemitério Dom Bosco, com o codinome de Álvaro Lopes Peralta. Os órgãos da repressão sabiam seu nome verdadeiro, como demonstrariam vários outros documentos encontrados depois nos arquivos do Dops, mas usaram o codinome. “Foi ocultação de cadáver mesmo, feita pelo Estado. A nossa família nunca foi avisada”, diz Gilberto.

Quando soube do codinome usado pelo filho, a família matou a charada: Álvaro e Lopes eram, obviamente, uma referência clara ao nome do próprio pai, Álvaro Andrade Lopes Molina. Peralta era o apelido que Flávio recebera, quando criança, do seu padrinho.

Com a confirmação oficial da morte do irmão em mãos, Gilberto partiu para as etapas seguintes. Depois de ver a vala de Perus em 1981, agora queria identificar o corpo, para poder enterrá-lo no jazigo da família, e um atestado de óbito com seu nome corrigido. Em todas as correspondências e documentos oficiais que enviaria a partir dali, Gilberto sempre assinava com o nome da mãe. “Em respeito à dor dela, e porque o nome de uma mãe que perde um filho dessa maneira tem mais força”, explica.

Depois da redemocratização, começou a frequentar o Grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro, do qual virou vice-presidente. Ia às reuniões religiosamente. Nas rodas de conversa, também contava as suas histórias difíceis, como aquela tarde em que chegou em São Paulo, foi até a Estação da Luz, pegou um trem até Perus e, de lá, um táxi – até ver as ossadas da vala clandestina do Cemitério Dom Bosco. Os encontros tinham um público flutuante. Muitos familiares de desaparecidos e ex-presos políticos iam por um tempo, depois sumiam. Surgiam pessoas misteriosas ou meio piradas, como um homem em desvario que, não se sabe se devido a alguma tortura que sofreu, enxergava um dragão em uma fotografia e acreditava que era um sinal. Alguns topavam receber acompanhamento de psicólogos voluntários ligados ao grupo. Um desses encontros foi marcado para um Domingo de Páscoa. Gilberto deu um jeito de ir mesmo assim.

No jornalzinho do Tortura Nunca Mais, assinava uma coluna de reflexões. Ele próprio colocava o jornal em envelopes, etiquetava e enviava para a casa das pessoas. Escrevia textos meio poéticos falando do sumiço do irmão e da dor da mãe e mandava para os grandes jornais. No começo, era publicado na seção de cartas dos leitores. Depois, passou a publicar nas seções dedicadas a artigos.

Usava as brechas em sua agenda de engenheiro para marcar encontros com gente que poderia lhe dar mais detalhes sobre o irmão. No Rio de Janeiro, conversou com a ex-guerrilheira Zilda Xavier Pereira, que participou da fundação da ALN e era mãe dos militantes Iuri e Alex Xavier, ambos presos e mortos pela ditadura. Ela contou como, sentada com Flávio em uma praça em Cuba, tentou demovê-lo da ideia de voltar ao Brasil com o grupo do Molipo.

Em São Paulo, aproveitou uma viagem de trabalho e foi com o irmão mais novo, Celso, conversar com a socióloga Ana Corbisier, que também aderiu à dissidência da ALN. Ela contou como era a vida deles em Cuba – treinamentos em matas, combates simulados, disciplina, táticas de guerrilha. E explicou que, sempre que voltavam ao Brasil, os guerrilheiros procuravam se descaracterizar. Antes de sua viagem de volta, Flávio mudou o corte de cabelo, trocou de óculos e deixou com ela um relógio de pulso que circulou na família Molina: era do pai, passou para Gilberto e acabou indo para Flávio. No encontro, Corbisier devolveu o relógio. “Dessa vez, eu estava tão interessado nos detalhes que não chorei”, conta ele.

Até hoje se encontra, para tomar um chope, com Newton Leão Duarte, outro amigo de seu irmão que aderiu ao Molipo – e também aparece na foto do Pico da Bandeira. Duarte esclareceu a história rocambolesca por trás do telefonema misterioso que fez Flávio sair de casa. Do outro lado da linha, era um integrante da ALN avisando que Newton Duarte havia sido preso e recomendando: “É melhor a gente debandar!”

Gilberto relembra como as coisas aconteceram: “O Newton tinha sido designado para arrumar um carro para assaltar um banco. Arrumou um Fusca roubado, trocou a placa e estacionou em uma rua em Copacabana. Mas a placa não era compatível com o ano do Fusca. Policiais corruptos, que faziam parte de uma quadrilha de roubo de automóveis, viram aquilo. Acharam que era um bando rival entrando em sua área. Pegaram o Newton, começaram a interrogá-lo. Pela maneira como ele falava, pelas roupas, pelo endereço dele, se tocaram: ‘Esse cara não é ladrão de carro, é terrorista!’ Mandaram para o Dops, onde ele apanhou muito. Acabou preso por anos no presídio da Ilha Grande.” Gilberto completa: “Pois é, foi assim que meu irmão teve que entrar na clandestinidade.”

Juntando um depoimento aqui, um documento oficial ali, Gilberto conseguiu montar o panorama completo do trajeto feito pelo irmão. Abrindo arquivos de computador, ele conta a história que reconstituiu. Três meses depois de deixar a casa dos pais, naquele dia em que o homem pisou na Lua, Flávio saiu do Brasil pelo Uruguai – é o que mostra um certificado de vacinação tirado no país, com o codinome de Carlos de Campos, outra referência à história familiar: era a rua onde o padrinho que o chamava de Peralta morava, em Laranjeiras. O documento estava no auto de prisão de Flávio. Do Uruguai, ele foi para o Chile. “Lá, me disseram que eles sequestraram um avião para ir a Cuba.” Gilberto nunca conseguiu checar essa informação, mas ela faz sentido – o sequestro de aviões por guerrilheiros que queriam chegar em Cuba era tão frequente que um Boeing 707 da Varig, de prefixo PP-VJX chegou a ser apelidado pelos próprios tripulantes de Expresso Cubano porque, por três vezes em um período de seis meses, foi desviado de sua rota por militantes armados com pistolas para pousar em Havana. Em 1971, Flávio voltou ao Brasil com dois passaportes falsos, ambos de Honduras. Um em nome de Álvaro Lopes Peralta. Outro, como Joaquim Villeda Leiva, nome falso que também usou para trocar dólares na Avenida São Luís, em São Paulo, como mostra um outro documento obtido por seu irmão. Se esse codinome também carregava alguma referência pessoal, ninguém da família Molina conseguiu pescar.

 

Em 1979, Gilberto Molina recebeu mais uma dica dessa rede de informações. Um ex-militante do Molipo que havia convivido em Cuba com seu irmão estava vivo, morando em Orvault, na França. Escreveu uma carta para ele perguntando se sabia detalhes sobre as circunstâncias da prisão de Flávio. E fez o de sempre: assinou com o nome da mãe. Em novembro, veio a resposta. Era um texto datilografado, comovente. “Não sei como falar com a mãe de um companheiro morto. Mais ainda, não sei como expressar-me frente à mãe de um companheiro tão querido.”

O ex-militante contou que, por ter a mesma faixa de idade, se aproximou muito de Flávio no período de quase dois anos em que todos permaneceram em Cuba. “Ele era conhecido como Armando ou, mais carinhosamente, como o Comprido – pela sua altura [Flávio tinha 1,86 metro]”, escreveu. Contou, carinhosamente, que também o chamavam de Pessimista, porque costumava salientar as possibilidades negativas dos assuntos. “E, por brincadeira, ele sempre levava isso a sério, mesmo nas coisas menos importantes”, completou.

Descreveu a última vez em que o viu, em um encontro por acaso, dentro de um ônibus em São Paulo – Flávio havia sido destacado para atuar na frente rural da guerrilha que esperavam fazer. Ele, na urbana. “Conversamos, trocamos ideias, apostamos no futuro. Ele estava com um pequeno pacote nas mãos. ‘É uma granada daquelas, nunca cairei vivo.’ Assim ele falava tranquilamente, com absoluta certeza.”

Ao fim do texto, o ex-militante ficou mais efusivo. “Você perdeu, há quase oito anos, seu filho Flávio. Não serão minhas palavras – nem as de ninguém – que poderão devolvê-lo ou trazer mais consolo. Mas saiba que ele viveu como um homem. E soube morrer também. Ninguém foi por ele delatado, ele não abriu a boca, apesar das torturas […] é um orgulho para mim o de haver militado com o Flávio.” Perto do fim, passou o endereço de sua mãe no interior de São Paulo: “Ela é muito religiosa.”

Gilberto adorou a carta. Leu para a mãe, emocionado. Mostrou para várias pessoas. Digitalizou e juntou, meticulosamente, ao seu arquivo de documentos. Em 2023, veio o baque. Ele comprou a segunda edição do livro A Casa da Vovó – uma biografia do DOI-Codi (1969-1991), o centro de sequestro, tortura e morte da ditadura militar, escrito pelo jornalista Marcelo Godoy. Foi direto no índice onomástico, procurando por referências ao irmão. Encontrou, na página 287, uma nota de rodapé que o tirou do prumo. Entrevistado por Godoy, um agente de repressão falava de um informante do Molipo, com o codinome Camilo, que salvou sua cabeça ao entregar a de pelo menos três colegas. Entre eles, a de Flávio. O livro não mostra o nome real do militante apresentado como delator, mas cita a carta que ele escreveu, da França, para a mãe de Flávio. “Vi isso e telefonei para Godoy, que me contou os detalhes da apuração que fez sobre esse delator. Chorei a noite inteira.”

Escreveu um e-mail para um grupo de amigos, contando: “Esta carta eu divulguei muito na época, porque ali constavam alguns passos do Flávio e era uma demonstração de respeito e sentimento pela perda de um companheiro […] Até ontem eu via a carta com apreço, ao reler agora tive ânsias e sono perdido.” Quando contou essa história para a piauí, disse: “Depois me lembra de te contar da vez em que eu achei que iria chorar pela última vez!”

 

Ao longo de décadas, Gilberto Molina revelou uma capacidade sobrenatural de não se abater diante da máquina de moer gente da burocracia estatal. Lidou com má vontade, incompetência, preguiça e um aparato especialmente talhado para favorecer o esquecimento. Flávio teve quatro atestados de óbito, muito diferentes entre si no que há de mais fundamental – o nome, a causa e o local da morte. Chegar à última versão foi uma maratona de tenacidade por parte de seu irmão.

O primeiro atestado, emitido no cartório do Ipiranga, bairro onde, pela versão oficial, ele teria morrido ao tentar fugir da polícia, vinha com o nome “Álvaro Lopes Peralta”. Informava que ele havia sido sepultado no cemitério de Perus, colocava como causa da morte uma “hemorragia interna traumática” e dizia que ele havia morrido em uma esquina no bairro do Ipiranga.  Com esse documento em mãos, Gilberto, de novo com o apoio do CBA, deu início a um processo de reconstituição de identidade e de reassentamento de óbito. Em 1981, com uma decisão judicial, conseguiu colocar na certidão o nome verdadeiro do irmão e de seus pais.

Em 2017, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) começou a retificar atestados de óbito das pessoas mortas nas mãos do aparato oficial da repressão, fazendo constar no documento a causa real da morte. Era uma das medidas de restabelecimento de memória e verdade recomendada em 2014 no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Em agosto de 2019, no entanto, o trabalho foi interrompido. Jair Bolsonaro demitiu a presidente da CEMDP e destrambelhou o órgão. Gilberto decidiu seguir sozinho. Começou a trocar e-mails com o cartório do Ipiranga. São mensagens infinitas, em que se fala da documentação necessária e não se chega a lugar algum. O pedido acabou recusado. Em burocratês, uma funcionária do cartório informou que a retificação só poderia ser feita pela via judicial. Gilberto respondeu: “Discordo peremptoriamente e tomarei as providências cabíveis.”

Disparou e-mails pedindo ajuda e acabou envolvendo no caso as mais altas esferas. Acionou a Comissão de Direitos Humanos da OAB paulista, que oficiou o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, que por sua vez já havia determinado, em resposta a uma consulta feita pelo Conselho Nacional de Justiça, que todos os cartórios do estado deveriam atender a esses pedidos de retificação administrativamente – ou seja, sem esperar decisões judiciais.

Dez dias depois de causar esse vai e vem, o cartório entrou em contato com Gilberto avisando: o pedido dele seria atendido. Em janeiro de 2020, quase cinco décadas depois da morte do irmão, ele recebeu em casa a certidão de óbito com a causa real de sua morte: “Não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto de perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora do regime ditatorial de 1964 a 1985.” O local também foi corrigido: o DOI-Codi da rua Tutóia.

Certidão nas mãos, o engenheiro aposentado justifica a trabalheira: “É um papel? É um papel. O Flávio já tinha sido enterrado, já estava no sepulcro da família. Mas, para mim, é um dos documentos mais importantes. Simplesmente porque ele é justo.”

Gilberto também correu atrás de indenizações. Em 1991, ajuizou uma ação, em nome da mãe, pedindo reparação por dano moral e material causado pela tortura, morte e ocultação do cadáver de Flávio. Em 2003, a União foi condenada a pagar 85 mil reais e recorreu, mas a família acabou recebendo em precatórios, em parcelas divididas ao longo de anos. E, em 1996, Flávio foi incluído no rol de desaparecidos políticos cujos familiares foram indenizados pelo governo, pela lei 9.140/95 — os Molina receberam cerca de 100 mil reais.

Nada, entretanto, foi tão labiríntico, doloroso e surreal quanto a batalha pela identificação do corpo do irmão. Com seu nome falso cheio de significados familiares, Flávio foi sepultado no Cemitério Dom Bosco, primeiro na cova número 14, rua 11, quadra 2, gleba 1 e número de registro 3 054. Em 1976, antes que a família soubesse que ele estava lá, foi transferido para a vala clandestina.

Quando a vala foi aberta, em 1990, a análise forense das ossadas ficou a cargo do Departamento de Medicina Legal da Unicamp. Gilberto achou que o processo ia ser rápido. Mas, junto com todos os outros restos mortais, o de seu irmão caiu em um jogo de empurra que durou mais quinze anos, passou por cinco legistas, três universidades e se transformou em um martírio tão longo e escandaloso que, em 2009, motivou uma ação do Ministério Público Federal pedindo a responsabilização de todos os envolvidos.

Até conseguir, a família Molina mandou material genético para oito exames de DNA, todos com resultados inconclusivos. Primeiro, houve um exame realizado pelo Departamento de Medicina Legal da Unicamp, onde os sacos plásticos com as ossadas acabaram empilhados em um galpão, tomados por lama em razão de uma inundação. Depois os exames foram repetidos no Laboratório de Genética Bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que em 1997 declarou que não teria condições de continuar o trabalho e despachou o material de volta para a Unicamp, em péssimo estado, com algumas amostras de sangue guardadas em vidros quebrados.

Em 2000, depois da denúncia de que estavam em condições precárias na Unicamp, as ossadas passaram para a responsabilidade do Instituto Oscar Freire, da USP, que seria auxiliado pela equipe do IML. Seguiram-se mais três exames de DNA, um feito por conta própria pela USP, outro contratado pela universidade, mas realizado pelo laboratório BioMol Latin America, na Colômbia (“Este duvidou até da maternidade dos irmãos”, reclama Gilberto). Ainda houve um terceiro, em que um aluno bolsista da USP levou fios de cabelo da família para uma universidade da Inglaterra, sem qualquer registro oficial e sem resultados divulgados. Os Molina ainda enviariam amostras genéticas para exames feitos pela polícia técnica de São Paulo e, depois, por um laboratório particular na Argentina. “Era uma maluquice total. A mãe deles volta e meia ia para a casa da filha mais velha, em Resende, no Rio de Janeiro. Quando pediam material genético de novo, os filhos eram obrigados a removê-la, já doente. E o resultado nunca saía”, lembra Ana Maria Müller, advogada e fundadora do CBA.

Em setembro de 2005, o Ministério Público Federal resolveu tomar a frente da análise dos restos mortais. Com verba disponibilizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, contratou um laboratório particular, o Genomic Engenharia Molecular. O resultado saiu dez dias depois: as ossadas eram de Flávio Molina, com 99,99% de precisão garantida.

Álvaro Lopes Andrade Molina, o pai, havia morrido em 1985. Maria Helena, a mãe, estava cega e com movimentos limitados. Gilberto agradeceu aos dois procuradores que se empenharam no caso. Escreveu para a procuradora Eugênia Augusta Gonzaga e, no gabinete de Marlon Weichert, deixou um retrato 3×4 do irmão, usando terno e gravata, com uma dedicatória escrita no verso: “Ao dr. Marlon, com o agradecimento da família de Flávio Molina, pela dedicação e carinho que foram além do limite profissional. Muito obrigado.”

Na manhã de 10 de outubro de 2005 houve uma cerimônia no Ministério Público de São Paulo, em torno da urna envernizada onde foram colocados os restos mortais de Flávio. No final do dia, teve outro evento, agora na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O sepultamento no jazigo da família, no Cemitério São João Batista, ficou para o dia seguinte. Foi simples e sóbrio. Ana Maria Müller perguntou se a flautista e professora de música Laura Rónai, na época vizinha de sua filha, toparia tocar na cerimônia. Ela foi e levou um de seus alunos. Ao som das flautas transversais, Maria Helena Molina acompanhou tudo em uma cadeira de rodas. Como já não enxergava, Gilberto descrevia para ela o que estava acontecendo. “Claro, foi ali no sepultamento que declarei que estava chorando pela última vez. Mas me enganei. Uma coisa assim não vai embora nunca”, diz ele.

Dentre todas as reparações que conseguiu, faltou uma: identificar e punir os torturadores e assassinos de seu irmão. Gilberto, no entanto, está cansado. Aos poucos, foi deixando suas tarefas no grupo Tortura Nunca Mais para se dedicar à vida familiar. Três meses depois de ficar viúvo, sem prumo, tentou replicar a cultura de planejamento que aprendeu como engenheiro de grandes obras. Pensou bastante, sentou e fez uma lista de diretrizes para o resto de sua vida. Tomou coragem e reuniu as filhas para anunciá-las. São coisas privadas, das quais ele só revela uma: a decisão de entrar no aplicativo Tinder, para voltar a namorar. As filhas aprovaram a ideia. “Elas cantaram, juntas, a música dos Tribalistas, Já sei namorar”, lembra. Em um dos almoços com a piauí, foi contando suas histórias amorosas – tem uma namorada, com quem está há cinco anos. “Na luta pela memória dos desaparecidos políticos, agora aquietei um pouco. Mas fico muito feliz em ver, pela primeira vez na história do Brasil, generais sendo condenados pelos seus atos contra a democracia. Já é um começo.”

 

Na manhã de 8 de outubro, Gilberto Molina voou mais uma vez para São Paulo, convocado para participar de outra cerimônia organizada pelo Ministério dos Direitos Humanos e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Desta vez, era a entrega de certidões de óbito corrigidas para parentes de 102 vítimas da ditadura. Os que já tinham o atestado retificado, como Flávio, também foram contemplados. “Me disseram que agora seria uma versão 2025 do atestado, com redação mais precisa. Esses eventos mexem comigo e sempre digo que basta, mas acabo cedendo.”

Molina chegou ao Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco uma hora e meia antes do início do evento. Deu de cara com uma cena de filme. Ainda completamente vazias, as cadeiras do auditório estavam reservadas para os familiares com fotos de seus desaparecidos, penduradas nos encostos. Entre os homenageados, estavam Vladimir Herzog, Rubens Paiva e Carlos Marighella. Encontrou a fotografia de Flávio na quinta fileira e se sentou. “Não é o retrato dele de que gosto mais, nesse ele está disfarçado, na clandestinidade, com esse cabelinho feio”, brincou.

Quando foram pegar os documentos, alguns familiares lembraram ao microfone dos anos custosos de buscas por qualquer notícia de seus mortos. Por vezes, pessoas da plateia choraram. Outros fizeram discursos inflamados. Gilberto disse: “Flávio foi assassinado um dia antes de completar 24 anos. Passados mais de cinquenta anos temos aqui mais uma gota de justiça. Uma gota porque os responsáveis por essas mortes e desaparecimentos estão impunes até hoje e provavelmente vão continuar. Então para que nunca mais aconteça, para que jamais se esqueça, ditadura nunca mais, sem anistia para golpista.”

Sentado em um café no Aeroporto de Congonhas, pouco antes de voltar para o Rio, disse: “Eu estava pensando: as últimas pessoas vivas da família que conheceram o Flávio somos eu e o meu irmão. A maioria dessas pessoas que desapareceram era muito jovem, nem chegou a ter filhos. Essas histórias de quem se insurgiu contra uma ditadura não podem ficar para trás. Esses eventos simbólicos são importantes.”

No dia seguinte, analisou com calma o novo atestado de óbito e comparou com o anterior, de 2019, para checar as diferenças. Na nova versão, o lugar de sepultamento aparece como Cemitério de Perus. Por WhatsApp, o irresignado disse: “Talvez eu peça outra retificação, só para incluir o Cemitério São João Batista.”

Angélica Santa Cruz
Angélica Santa Cruz

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