A personagem Remédios Moscote (Cristal Aparicio), na cena de Cem anos de solidão em que a menina menstrua: para não diluir a poesia da obra de García Márquez, um dos recursos utilizados pela equipe de roteiristas foi manter na série o narrador onisciente do romance CRÉDITO: DIVULGAÇÃO_NETFLIX
Muito literário e muito político
Os desafios da adaptação de Cem anos de solidão para o streaming
Tiago Coelho | Edição 232, Janeiro 2026
Em abril de 1974, o escritor argentino Ariel Dorfman testemunhou o momento em que Glauber Rocha perguntou a Gabriel García Márquez sobre a possibilidade de adaptar seu romance Cem anos de solidão para o cinema. “Nunca”, respondeu o escritor colombiano para o cineasta brasileiro. Os três faziam parte de um grupo de intelectuais latino-americanos que se encontrava em Roma para denunciar violações de direitos humanos na América Latina. À mesa de uma trattoria na Piazza Navona, onde também estava Julio Cortázar, García Márquez justificou-se: “Sintetizar [num filme] essa história de sete gerações dos Buendía, toda a história do meu país e de toda a América Latina, da humanidade, é impossível.”
Àquela altura – relembrou Dorfman em artigo publicado no site Literary Hub em 16 de janeiro passado –, García Márquez já tinha recebido ofertas de Hollywood para transformar sua mais famosa obra em um épico de mais de duas horas, falado em inglês. “Imagine Charlton Heston fingindo que é um colombiano mítico e desconhecido em uma selva falsa”, disse o escritor. E arrematou: Ni muerto!
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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