A guinada da democracia chilena para a extrema-direita
Preocupação com a violência ajudou a fazer de José Antonio Kast o candidato presidencial mais votado da história do país
Há cinco anos, nas eleições chilenas, o temor de uma vitória da ultradireita fez o centro e a centro-esquerda se moverem na direção do socialista Gabriel Boric. Seu rival, o ultradireitista José Antonio Kast, levou uma surra: perdeu a disputa final pelo Palácio de la Moneda por 11 pontos percentuais.
No fim do ano passado, foi como se tudo acontecesse no Chile de um outro planeta: o anseio dos chilenos por ordem e controle desembocou na vitória de Kast contra a candidata comunista Jeannette Jara, ex-ministra de Boric. O ultradireitista teve uma avalanche de votos – 58% contra 42%.
Foi o candidato mais votado da história chilena e em março vai inaugurar o governo mais à direita no país desde a ditadura de Pinochet, entre 1973 e 1990. Seu bloco de apoio não terá o controle do Congresso, mas poderá contar com outros partidos da direita, formando com eles maioria tanto na Câmara quanto no Senado.
Na campanha de 2025, Kast adotou um tom mais sereno que na anterior, a fim de projetar uma imagem mais moderada, explica Roberto Simon na piauí deste mês. O estilo mudou, mas não há sinais de que o novo presidente tenha mudado de posição em temas como aborto, casamento homoafetivo ou os crimes da ditadura.
A explicação para o triunfo da ultradireita no Chile tem várias camadas. Além de o próprio Kast passar por uma considerável transformação, pelo menos na fachada, a estratégia de sua campanha foi mirar nas prioridades da maioria dos chilenos: segurança pública, imigração e economia.
Em 2022, uma reforma constitucional tornou o voto obrigatório no Chile. Antes, o comparecimento às urnas era, em termos proporcionais, bem mais alto entre as classes de maior renda e instrução. Em função disso, a disputa presidencial de 2025 foi a primeira em que um contingente de chilenos mais pobres e menos escolarizados, que não costumava votar, teve que escolher um candidato. Eles rumaram, em massa, para a ultradireita. Os setores populares são os que mais rejeitam a esquerda porque são os mais expostos ao aumento da insegurança e aos efeitos da imigração. Kast prometeu um Chile da lei e da ordem, com mais poder à polícia e uma nova força para deportar imigrantes aos moldes do que tem feito Donald Trump.
O novo presidente não tem a piromania antidemocrática de Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele ou Jair Bolsonaro, apesar de manter laços ideológicos com os quatro. A militarização da luta contra o crime organizado e as políticas anti-imigração criam uma sincronia especial entre Santiago e Washington, inclusive em relação à Venezuela, país de origem da maioria das pessoas não documentadas que hoje vivem em solo chileno.
O caminho de Kast, entretanto, é estreito. Uma agenda radical não terá apoio do Congresso, em um país dividido e cujas instituições pressionam presidentes a migrar ao centro em busca de governabilidade – como ocorreu, aliás, com Boric. É pouco provável, também, que Kast se lance em uma cruzada ideológica fora do país e hostilize a China, um dos principais investidores no país no setor de mineração e destino de cerca de 40% das exportações chilenas (os Estados Unidos respondem por 15%).
Quanto ao Brasil, ele deve aplicar lógica similar: pode haver um esfriamento bilateral, mas não um antagonismo aberto. A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela testará os limites desse novo equilíbrio.
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