Marco Rubio e Donald Trump, em reunião na Casa Branca: para convencer o presidente a capturar a Venezuela, o secretário juntou três linhas – o petróleo para os empresários, o narcotráfico para os agentes do Departamento de Justiça e o reduto eleitoral da Flórida para os políticos BRENDAN SMIALOWSKI_AFP_2025
Operação Flórida
Como o ambiente conservador de Miami pavimentou o caminho para a queda de Maduro
Fernando Brancoli, de Miami | Edição 233, Fevereiro 2026
Por volta das quatro da manhã de 3 de janeiro de 2026, o estacionamento do El Arepazo começou a encher. O restaurante fica numa esquina de Doral, um subúrbio de Miami onde as placas dos consultórios estão em espanhol e os outdoors, em vez de hambúrgueres, anunciam empanadas. Os moradores chamam o lugar de “Doralzuela”. Afinal, mais de um terço da população ali é formada por venezuelanos. Naquela madrugada, carros chegavam com bandeiras amarelas, azuis e vermelhas penduradas nas janelas. Alguém abriu o porta-malas de uma picape e ligou o som no volume máximo. Logo a imprensa começou a chegar. Uma mulher de uns 25 anos chorava diante de uma câmera de tevê local. “Desde que nasci, vivemos sob uma ditadura”, disse. Ao lado, um homem de cabelos brancos posava para um fotógrafo com uma bandeira desbotada, do tipo que se guarda no fundo do armário esperando o dia certo. As imagens rodaram o dia inteiro nos noticiários em espanhol.
A notícia que os reunia tinha chegado horas antes. Às duas da manhã, horário de Caracas, mais de 150 aeronaves americanas cruzaram o espaço aéreo venezuelano. Atingiram sistemas de defesa, instalações militares, aeroportos. Em uma operação que durou menos de 30 minutos, agentes da cia e da Delta Force, uma tropa de elite do Exército americano, invadiram o Palácio de Miraflores, sede do governo venezuelano, e sequestraram Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Mais de cem pessoas morreram no ataque, entre agentes de inteligência, oficiais venezuelanos e militares cubanos. Antes do amanhecer, Maduro já estava fora do país, a caminho de um tribunal federal em Nova York. Era a maior operação militar americana na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989.
Em Caracas, a manhã chegou devagar. As ruas estavam vazias. Quem saiu de casa encontrou carros queimados, postos de controle em cada esquina e helicópteros cruzando o céu. “Como me sinto? Com medo, como todos os venezuelanos”, disse um morador à Associated Press. Alguns opositores do governo comemoravam das janelas, sem coragem de descer de seus apartamentos. Perto do Palácio de Miraflores, um grupo de chavistas queimava uma bandeira americana. A maioria ficou em casa, de portas trancadas, para ver o que viria.
Duas cidades. Duas madrugadas. Em uma, festa. Na outra, silêncio. A mesma notícia, recebida de formas opostas, e uma pergunta que nenhuma das duas conseguia responder: para quem, afinal, essa operação tinha sido feita? A razão da invasão americana da Venezuela se resume a duas palavras: Trump e petróleo. Horas depois do sequestro de Maduro, Trump convocou a imprensa em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida, e não fingiu sutileza: “Nós construímos a indústria de petróleo da Venezuela com talento e esforço americanos, e o regime socialista roubou de nós.” O país tem as maiores reservas comprovadas do mundo, 303 bilhões de barris, mais que a Arábia Saudita. Trump, como quem fecha um negócio, acrescentou: “Vamos fazer o petróleo fluir como deveria.”
Era o tipo de franqueza que deixa diplomatas desconfortáveis e eleitores satisfeitos. Trump sempre entendeu que, na política americana, confessar o óbvio às vezes funciona melhor do que escondê-lo. O que ele não disse (e talvez não soubesse) é que fazer o petróleo fluir levaria anos. Décadas de corrupção, desinvestimento e saques deixaram a infraestrutura venezuelana em ruínas: oleodutos que não são atualizados há meio século, refinarias abandonadas, plataformas desmontadas e vendidas como sucata. Especialistas estimam que restaurar a produção aos níveis históricos exigiria mais de 100 bilhões de dólares e pelo menos uma década de trabalho. “Produção de petróleo não é um interruptor que se liga e desliga”, resumiu o americano Tony Franjie, especialista em mercado de petróleo, em entrevista ao canal de notícias Al Jazeera. O prêmio estava ao alcance, mas não cabia no bolso, pelo menos não tão cedo.
Mas a equação Trump-petróleo é uma explicação incompleta para a invasão. Durante mais de uma década, um arranjo político foi construído no Sul da Flórida, envolvendo redes de exilados, legisladores, doadores de campanha e cálculos eleitorais, que transformou a Venezuela em uma causa bipartidária, unindo republicanos e democratas. A pressão por sanções, o reconhecimento de governos paralelos, a retórica de “mudança de regime”: tudo isso foi gestado em Miami antes de chegar a Washington.
Em 2019, o economista Mark Weisbrot, crítico de longa data da política americana para a Venezuela, cunhou uma expressão: “Se fosse uma operação militar, se chamaria Operação Flórida.” Sete anos depois, na madrugada de 3 de janeiro, a operação aconteceu. E a Flórida, de fato, estava no centro de tudo.
O condado de Miami-Dade, o mais populoso do estado da Flórida, abriga a maior concentração de exilados latino-americanos. É um lugar onde a polícia local e a geopolítica global se confundem há décadas. Para testemunhar essa notável confluência, basta ligar o rádio. Quem sintoniza as estações AM em espanhol de Miami escuta um tipo único de programação. Os locutores falam de Cuba, Venezuela e Nicarágua como se tratassem de bairros vizinhos. Discutem sanções, denunciam “o regime”, entrevistam exilados. É uma bolha construída ao longo de décadas e onde a Guerra Fria nunca terminou.
Primeiro, chegaram os cubanos, fugindo da revolução que levou Fidel Castro ao poder em 1959. Aproveitaram que Miami fica a apenas 370 km de Havana. Muitos dos que fugiram da ilha, transformada no primeiro país socialista das Américas, eram profissionais de classe média, empresários que perderam tudo com as nacionalizações promovidas pelo novo regime. Reunidos em Miami, ergueram uma cultura política própria: rádios em espanhol, associações de bairro, igrejas, comitês de ação política.
Com o tempo, consolidaram uma regra não escrita: nenhum político sobrevive na Flórida sem ser linha dura contra Havana. Eles ajudaram a eleger legisladores como Ileana Ros-Lehtinen, a primeira cubano-americana no Congresso, e os irmãos Díaz-Balart, cujo pai fora ministro de Fulgencio Batista, o ditador derrubado pela revolução de Fidel. Entre eles, anticomunismo funcionava como credencial. O embargo a Cuba, que dura mais de seis décadas apesar de sua manifesta ineficácia, é menos uma política externa do que uma política doméstica: só persiste porque seus defensores estão concentrados onde os votos contam.
Ao longo dos anos, chegaram os nicaraguenses que fugiam dos sandinistas, os colombianos que escapavam da guerrilha das Farc, os argentinos que saíram durante o governo de Néstor Kirchner. Os venezuelanos começaram a chegar em massa a partir de 2000, quando Hugo Chávez, eleito em 1998, consolidou seu projeto de “socialismo do século XXI”. Em 2013, a imigração se intensificou ainda mais depois que Maduro assumiu o poder e a crise econômica e política se agravou. Segundo dados do Censo americano, entre 2008 e 2018 a população de origem venezuelana apta a votar na Flórida cresceu mais de 180%.
Boa parte dos imigrantes venezuelanos se instalaram em Doral, Weston e outras cidades do condado de Miami-Dade. Encontraram uma estrutura que os cubanos já tinham montado: advogados que falavam espanhol, igrejas evangélicas com cultos em castelhano, mercados que vendiam o tradicional café colombiano Sello Rojo e a popular farinha P.A.N., tão usada nas arepas, hallacas e tortilhas. Hoje, entre 100 e 120 mil venezuelanos estão aptos a votar na Flórida.
Em um ambiente anticomunista, os venezuelanos sentiram-se em casa e logo foram integrados às redes republicanas locais. Os dois grupos tinham diferenças de origem, de classe, de geração. Enquanto os cubanos da primeira onda eram profissionais e empresários destituídos pelas nacionalizações, os venezuelanos vinham com diplomas e algum dinheiro. Mas todos compartilhavam um inimigo comum: aquilo que chamavam, genericamente, de el socialismo.
A conexão ia além do rótulo. Desde o início dos anos 2000, Cuba e Venezuela tinham se tornado parceiros estratégicos: Chávez enviava petróleo subsidiado à ilha. Em troca, recebia médicos e professores, além dos assessores de inteligência que ajudaram a blindar o regime. Para os exilados em Miami, os dois governos eram considerados faces da mesma moeda. Juntos, nicaraguenses, colombianos, argentinos, cubanos e venezuelanos formaram um arquipélago de ressentimentos – uma base eleitoral que logo se traduziria em organização.
Há algo particular nas comunidades de exílio. A perda funda uma identidade, e essa identidade, porque nasceu de uma ferida, resiste a revisões. O cubano que fugiu de Fidel há décadas e o que deixou Havana anteontem podem discordar de quase tudo, menos do essencial: de que perderam algo, e de que alguém é culpado pela perda. O mesmo vale para os venezuelanos. É uma memória que se transmite entre gerações, cultivada em jantares de família. É também uma condição vulnerável: quem carrega uma ferida procura aliados, e aliados às vezes têm suas próprias agendas. Miami oferecia estrutura, contatos, tradução política. Em troca, pedia lealdade. A pergunta que poucos faziam era: lealdade a que exatamente?
Com o tempo, surgiram organizações próprias. A entidade Cidadãos Venezuelo-Americanos Independentes (Ivac) é liderada por Ernesto Ackerman, um empresário de origem cubana que se tornara porta-voz informal da causa venezuelana. O grupo coordenava campanhas de naturalização e organizava caravanas de ônibus até Washington para pedir sanções. A Veppex fundada por venezuelanos que se diziam perseguidos políticos, tinha outra estratégia: operar a máquina política local. Em 2010, conseguiu que a Prefeitura de Doral declarasse o 13 de abril como Dia do Exilado Político Venezuelano. Era um gesto simbólico, mas dizia muito: os recém-chegados tinham aprendido com os cubanos que, na América, até a diáspora precisa de data comemorativa.
Uma das figuras centrais desse movimento era o venezuelano José Antonio Colina. Baixo, bigode zelosamente aparado, voz firme, Colina é presença constante em entrevistas de tevê e rádio. Tinha sido tenente da Guarda Nacional Bolivariana da Venezuela. Em abril de 2002, um golpe militar derrubou Chávez, que, com apoio popular e de setores leais das Forças Armadas, voltou ao poder 47 horas depois. Colina não participou diretamente do golpe, mas integrava círculos militares que se opunham ao governo. Um ano depois, o regime o acusou de envolvimento em atentados a embaixadas em Caracas. Culpado ou não, Colina fugiu para a Colômbia e de lá para Miami, onde passou mais de dois anos detido pelos serviços de imigração enquanto lutava pelo asilo. Quando finalmente saiu, em 2008, fundou a Veppex.
Colina tinha uma tese que repetia em entrevistas: a Venezuela estava pior que Cuba. “Cuba é uma ditadura”, disse à rádio pública americana. “Mas pelo menos a revolução deles foi igualitária. Na Venezuela, não tem comida, não tem pasta de dente, não tem fralda, e ainda te matam na rua.” A comparação servia a um propósito: se os cubanos tinham a Lei de Ajuste Cubano (CAA, na sigla em inglês), que lhes facilitava a obtenção de residência ao pisar em solo americano, por que os venezuelanos não mereciam o mesmo tratamento? A frustração de se sentir exilado de segunda classe alimentava o ativismo. E criava uma dependência mútua: os venezuelanos precisavam de aliados no Congresso e os republicanos precisavam de uma causa que mobilizasse votos latinos, já que Cuba era uma bandeira desgastada. Ackerman descrevia as viagens a Washington como “missões”. “Vamos de gabinete em gabinete”, contava em entrevistas. O destino era sempre o mesmo: o escritório de um senador cubano-americano da Flórida. “Nosso general”, como Ackerman o chamava. Seu nome era Marco Rubio.
Na autobiografia que publicou em 2012, Marco Rubio, 54 anos, conta que na infância brincava de derrubar o governo de Cuba. Ele e os amigos simulavam operações militares no quintal de casa, em West Miami, escondidos atrás de arbustos, planejando invasões imaginárias. Um dia seriam eles a libertar a ilha. É o tipo de detalhe que se lê com um sorriso condescendente, até que o menino cresce e vira secretário de Estado, cargo que ocupa desde a posse de Trump, em janeiro do ano passado.
A brincadeira tinha algo de herança familiar: seus pais chegaram aos Estados Unidos em 1956, três anos antes de Fidel tomar o poder, mas se integraram à comunidade de exilados que viria depois, a mesma que fez do Sul da Flórida uma extensão do Caribe, na geografia e na política. Nascido em Miami, Rubio cresceu nesse ambiente. Quem o conheceu jovem descreve um sujeito ambicioso e afável: sorriso fácil, aperto de mão firme, memória para nomes. Na juventude, fez estágio no gabinete de Ileana Ros-Lehtinen, a voz mais dura contra Havana no Capitólio. Aprendeu cedo que, em Miami, política externa não é abstração: é pauta local, conversa de família, critério de voto.
Em 1998, com apenas 26 anos, foi eleito para a Câmara Municipal de West Miami. Dois anos depois, ganhou uma cadeira na Assembleia Legislativa da Flórida, derrotando, no caminho, um radialista popular entre os exilados cubanos. Era um sinal do que viria: sabia falar a língua da comunidade, mas também sabia jogar o jogo institucional. Subiu rápido. Em 2006, aos 35 anos, tornou-se presidente da Assembleia, o primeiro descendente de cubano no cargo. Em 2010, elegeu-se senador pelo Partido Republicano, surfando a onda do Tea Party, o movimento reacionário que canalizava a raiva contra Obama e o establishment político de Washington. Quando a Venezuela entrou em crise, Rubio tinha todas as ferramentas e os contatos. Faltava só o palco.
O palco apareceu em 2014. Rubio foi um dos coautores da primeira lei americana de sanções voltada especificamente para Caracas. Eram medidas pontuais, contra indivíduos acusados de violar direitos humanos, mas a lei estabeleceu um princípio: a Venezuela era um problema dos Estados Unidos. Nos anos seguintes, acumulou projetos. Em 2019, uma lei autorizou 400 milhões de dólares em ajuda humanitária. Em 2023, os poderes de sanção foram ampliados. Entre uma lei e outra, Rubio fez audiências no Senado, recebeu ativistas venezuelanos no gabinete, apareceu em churrascos e missas da diáspora. Virou, na prática, o porta-voz da causa, o rosto americano de uma luta que, para muitos em Doral, era pessoal.
A relação com Trump era improvável. Em 2016, os dois tinham se enfrentado nas primárias republicanas. Trump o apelidou de Little Marco (Marquinho, mas com um tom pejorativo) e zombou dele em rede nacional porque, nos debates, ficava nervoso, suava, bebia água. O senador revidou chamando-o de “vigarista” e insinuando que suas mãos pequenas indicavam outra coisa. Foi brutal. Perdeu, inclusive na Flórida. Mas, quando Trump venceu a eleição, Rubio engoliu o orgulho e se aproximou. Descobriu que, em política externa, o novo presidente tinha pouco interesse e menos ainda conhecimento. Era uma brecha.
Em fevereiro de 2017, no primeiro ano do governo Trump, Rubio levou Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López, líder oposicionista venezuelano preso em 2014 e hoje exilado na Espanha, para um encontro com Trump na Casa Branca. Foi a primeira vez que o presidente demonstrou interesse pessoal pelo assunto. Segundo relatos da época, Trump ficou impressionado com Tintori, uma mulher loira que falava inglês fluentemente e chorava ao descrever o marido. A Venezuela deixou de ser só um dossiê e virou uma história com rosto.
Dois anos depois, veio a aposta mais ousada. Em janeiro de 2019, a Venezuela vivia uma crise de legitimidade. Maduro fora reeleito em 2018, mas a oposição e dezenas de países denunciaram a eleição como farsa: a principal candidata de oposição, María Corina Machado, foi impedida de concorrer, houve abstenção recorde e denúncias de fraude. A Assembleia Nacional, controlada pela oposição, declarou a presidência “vaga” e invocou uma brecha constitucional: o presidente da Assembleia podia assumir interinamente.
O presidente da Assembleia era Juan Guaidó, um deputado de 35 anos praticamente desconhecido até semanas antes. Guaidó se autoproclamou presidente interino em uma praça de Caracas, diante de câmeras de tevê. De imediato, os Estados Unidos reconheceram Guaidó como presidente legítimo. Mais de cinquenta países fizeram o mesmo – inclusive o Brasil com Bolsonaro. Maduro continuou no Palácio de Miraflores, com o apoio das Forças Armadas, da Rússia e da China. A estratégia fracassou e Guaidó acabou no exílio em Miami, mas Rubio cresceu. Na época, a imprensa americana passou a chamá-lo de “arquiteto-chefe” da política para a Venezuela. Não era exagero.
Rubio entendia como Washington funcionava. Não bastava denunciar Maduro como ditador (isso qualquer um fazia). Era preciso traduzir a crise numa linguagem que abrisse portas. Denunciar a Venezuela como rota do narcotráfico chamava a atenção do Departamento de Justiça. Classificá-la como base da inteligência cubana atraía o interesse dos comitês de segurança. Apontá-la como porta de entrada para russos e chineses despertava preocupações no Pentágono. Cada enquadramento mobilizava uma burocracia diferente. Rubio jogava a longo prazo, uma paciência rara em Washington, onde carreiras se medem em ciclos eleitorais. Enquanto outros políticos recorriam a gestos dramáticos, Rubio acumulava pequenas vitórias: uma lei de sanção aqui, um indiciamento por narcoterrorismo ali. Não tinha pressa. Sabia que, para derrubar um governo, não bastava vontade política. Era preciso criar as condições em que a derrubada se tornasse inevitável. Ou, pelo menos, defensável.
Há uma ambiguidade moral nessa paciência. “Criar condições” é uma expressão neutra, quase técnica, o tipo de frase que cabe em relatórios e audiências. Na prática, o que significa? Para defensores das sanções, é cortar o fluxo de dinheiro que financia a repressão, pressionar generais a mudar de lado, isolar um regime que se sustenta pela força. Para críticos, é estrangular uma economia já em colapso, encarecer remédios, punir um povo que não escolheu seu governo. A verdade, provavelmente, está em algum lugar entre os dois, e é impossível calcular com precisão. Quanto do colapso venezuelano é culpa de Maduro, quanto é culpa das sanções? A pergunta é real, mas a resposta é política.
Rubio e seus aliados argumentavam que as sanções eram cirúrgicas, voltadas a indivíduos do regime, não contra a população venezuelana. Economistas apontavam que, na prática, a distinção se dissolvia: sanções ao setor petrolífero afetam toda a economia e punem os cidadãos. Restrições bancárias dificultam importações e sufocam o regime, mas também barram a compra de alimentos e remédios. Em qualquer situação, há sempre uma aposta. Planta-se o sofrimento de curto prazo para colher a liberdade de longo prazo. O dado indiscutível é que raramente a conta é paga pelo apostador.
Nada disso impediu a ascensão de Rubio. Pelo contrário: sua paciência rendeu frutos. Em janeiro de 2025, com o início do segundo governo Trump, tornou-se o primeiro político de origem latina a ocupar a Secretaria de Estado, o equivalente à chancelaria brasileira. Meses depois, acumulou a função de conselheiro de Segurança Nacional, algo que não acontecia desde Henry Kissinger nos anos 1970. “Marco vai ficar na história como o maior secretário de Estado que os Estados Unidos já tiveram”, disse Trump em outubro de 2025. O homem que tinha sido humilhado nas primárias agora concentrava mais poder em política externa do que qualquer outra figura do governo.
Dois dias depois da posse, Rubio telefonou para os dois líderes da oposição venezuelana. O primeiro foi Edmundo González, um diplomata de 75 anos que concorreu à Presidência em 2024 e, de acordo com a oposição, venceu. A segunda ligação foi para María Corina Machado, a quem González substituiu na chapa presidencial depois que ela foi novamente proibida de concorrer. A mensagem era clara: o que Rubio havia costurado por uma década agora era a política oficial dos Estados Unidos. Mas ele não operava sozinho. Por trás, e em alguns casos antes dele, havia uma engrenagem menos visível.
Em Washington, ideias não surgem do nada. Elas são produzidas, testadas, embaladas e distribuídas por uma rede de instituições que funciona como uma linha de montagem. Think tanks publicam relatórios. Relatórios viram citações em audiências no Congresso. Audiências viram manchetes. Manchetes viram opinião pública. Opinião pública vira política. A Venezuela passou por essa linha de montagem ao longo de uma década. O que saiu do outro lado foi um consenso raro: democratas e republicanos concordavam que Maduro precisava cair. Discordavam apenas sobre o método.
Os think tanks são uma instituição particular inventada pelos americanos para executar esse tipo de trabalho. O nome não tem boa tradução em português (algo como “fábrica de ideias”) e, na prática, funcionam mais como “usinas de influência”. Ocupam uma zona cinzenta entre a academia e o lobby, produzindo estudos com aparência de neutralidade, mas que, frequentemente, servem aos interesses de quem os financia. Existem centenas de think tanks em Washington, de todos os matizes ideológicos: conservadores, liberais, libertários, especialistas em defesa, em clima, em política externa. Alguns operam com orçamentos modestos e influência limitada. Outros movimentam dezenas de milhões de dólares por ano e ajudam a definir os termos do debate. Seus estudos são citados por jornalistas, invocados por senadores, incorporados a projetos de lei. Moldam o vocabulário com que Washington discute o mundo. E funcionam como uma elegante sala de espera para o poder: ex-secretários e ex-embaixadores passam alguns anos em seus corredores, escrevendo artigos e cultivando contatos, até que o partido retorne ao governo e seus telefones voltem a tocar. É a porta giratória. Quem entra por um lado sai pelo outro – e geralmente volta.
O Center for Strategic and International Studies (Csis), um dos think tanks mais influentes da capital, mantinha a chamada “Iniciativa para o Futuro da Venezuela” que descrevia o país como “um Estado falido que representa uma ameaça significativa à segurança do Hemisfério Ocidental”. O enquadramento importava: não se tratava de uma crise humanitária distante, mas de um problema de segurança nacional americana. A Heritage Foundation, outro centro influente, seguia linha parecida, mas com ênfase doméstica: seus relatórios conectavam a Venezuela à gangue Tren de Aragua, ao narcotráfico, à suposta infiltração de criminosos entre os migrantes.
O Projeto 2025, o plano de governo que serve de roteiro para o segundo mandato de Trump, incorporou várias dessas recomendações. Em dezembro de 2025, duas semanas antes da invasão da Venezuela, dois pesquisadores do Csis publicaram um artigo defendendo que os Estados Unidos deveriam “ir com tudo” na Venezuela. O que o artigo não mencionava era quem financia o Csis dos dois pesquisadores. A lista:
- A ExxonMobil, petroleira que busca 1,6 bilhão de dólares em indenização por ativos expropriados por Chávez, doou 250 mil dólares ao Csis em 2024.
- A petroleira ConocoPhillips, que ganhou uma arbitragem de 8,7 bilhões de dólares contra o governo venezuelano, contribuiu com mais de 50 mil.
- A General Atomics, fabricante dos drones usados nos ataques a lanchas venezuelanas, e a Lockheed Martin, gigante do setor aeroespacial e de defesa, doaram mais de 250 mil dólares cada uma.
- A Boeing, gigante na fabricação de aviões e caças militares, entrou com mais de 100 mil dólares.
Como se vê, a Venezuela era, a um só tempo, um problema de segurança e uma oportunidade de negócios.
Havia vozes dissonantes. Think tanks de orientação mais liberal, como o Escritório de Washington para a América Latina (Wola, na sigla em inglês), enfatizavam o custo humanitário das sanções e defendiam soluções negociadas. Em 2021, um relatório do Escritório de Responsabilidade Governamental (GAO, em inglês), o órgão de auditoria do Congresso americano, ajudou a eliminar a ambiguidade moral das sanções ao concluir que elas tinham “contribuído diretamente” para o colapso econômico venezuelano. Mas essas vozes foram progressivamente abafadas. Em novembro de 2025, dois meses antes da invasão, a Foreign Affairs, influente revista sobre política externa americana, publicou um artigo intitulado How to topple Maduro (Como derrubar Maduro). O autor, Elliott Abrams, que tinha sido representante especial de Trump para a Venezuela entre 2019 e 2021, sugeria ataques cirúrgicos: destruir a defesa antiaérea, bombardear bases da Força Aérea, afundar lanchas do narcotráfico. Como se vê, o título não era uma metáfora.
A matéria-prima desse consenso, porém, não era fabricada apenas em Washington. Vinha também de Miami. Eram os ativistas de Doral que organizavam as caravanas até o Capitólio, entregavam centenas de cartas aos gabinetes, testemunhavam em audiências. Ernesto Ackerman, o líder do Ivac que chamava Rubio de “nosso general”, conhecia o senador pessoalmente e repetia suas frases em entrevistas. Em fevereiro de 2019, Rubio participou de um evento na Heritage Foundation intitulado Venezuela em um Ponto de Inflexão, onde ecoou o que os exilados diziam há anos: que Maduro era um narcoditador, que nenhuma opção deveria ser descartada. Os relatórios dos think tanks citavam dados que vinham dos testemunhos de Miami. Os testemunhos de Miami ganhavam peso porque os think tanks os validavam. Era um circuito fechado, e Miami era o ponto de entrada.
É tentador ver esse circuito como conspiração, um grupo de homens em salas fechadas decidindo o destino de um país. A realidade é mais banal e, por isso, mais perturbadora. Não era preciso combinar nada. Os think tanks publicavam o que seus financiadores queriam ler, não porque recebessem ordens para tal, mas porque a afinidade ideológica já estava dada. Os políticos citavam os relatórios porque validavam posições que já tinham. Os ativistas forneciam testemunhos porque precisavam de aliados. Cada peça seguia sua própria lógica, e o resultado era um consenso que parecia orgânico, inevitável até. A ilusão de neutralidade técnica é o que torna esse tipo de máquina tão eficiente. Ninguém mente. Todos apenas escolhem quais verdades contar.
Nesta engrenagem, as petroleiras são ingrediente fundamental. Quando Chávez nacionalizou a indústria em 2007, a Exxon e a Conoco (as mesmas que agora financiam think tanks enquanto esperam bilhões em indenização) saíram do país. A Chevron ficou, a única grande petroleira americana a manter operações na Venezuela. Isso criou uma tensão curiosa. De um lado, os falcões (como são chamados em Washington os defensores de linhas duras) queriam isolar completamente a Venezuela. Rubio era um deles. E, para ele, qualquer negócio com Caracas era, na prática, financiamento para Maduro.
Mas, de outro, a Chevron gasta cerca de 12 milhões de dólares por ano em lobby, argumentando que sua presença dava aos Estados Unidos alguma influência na Venezuela e impedia que russos e chineses ocupassem o vácuo. A tensão se resolveu em etapas. Em novembro de 2022, o governo de Joe Biden autorizou a Chevron a retomar operações limitadas. Em julho do ano passado, já sob Trump, a licença foi modificada: a petroleira podia operar, mas não podia pagar em dinheiro ao governo venezuelano, apenas em petróleo. Era uma solução que permitia manter o acesso às reservas enquanto estrangulava o regime. Quando a operação militar aconteceu, agora em janeiro, as ações da Chevron subiram. Trump anunciou que empresas americanas iriam “entrar e gastar bilhões”. Era um investimento, e um prêmio.
Mas think tanks e petroleiras, por mais influentes que fossem, tampouco explicam tudo. Havia outra engrenagem nessa máquina, talvez a mais importante. Não estava nos gabinetes. Estava nas ruas.
Em outubro de 2020, a oito dias da eleição presidencial, um anúncio começou a circular nas redes sociais do Sul da Flórida. Mostrava imagens de filas para comprar comida em Caracas, intercaladas com fotos de Joe Biden e Kamala Harris. A narração, em espanhol, dizia: “Isso é o que o socialismo faz. É isso que eles querem trazer para cá.” Em uma semana, o vídeo teve mais de 100 mil visualizações, quase todas em Miami-Dade.
O anúncio era falso. Biden nunca defendeu nada parecido com o chavismo, nem Kamala Harris. Mas não importava. A mensagem não precisava ser verdadeira. Precisava ser sentida. E, para quem tinha fugido da Venezuela, a imagem de prateleiras vazias não precisava de legenda: evocava o que tinham vivido.
Durante décadas, a Flórida decidiu eleições americanas. Desde que George W. Bush ganhou a eleição presidencial com uma diferença de apenas 537 votos no estado em 2000, vencer na Flórida tornou-se uma obsessão de ambos os partidos. Entre 2016 e 2020, a cidade de Doral (a Doralzuela do estacionamento do El Arepazo) registrou uma das maiores guinadas eleitorais do país. Mais de 40% dos cerca de 80 mil habitantes são de origem venezuelana. Trump perdeu ali por 40 pontos em 2016. Em 2020, produziu uma virada espetacular e venceu por margem apertada. O padrão se repetiu em outras cidades com grande população venezuelana: Weston, Sweetwater, partes de Hialeah.
No condado de Miami-Dade como um todo, a margem democrata caiu de 29 pontos para apenas 7 em quatro anos. A virada eleitoral era sintoma de algo maior: uma reconfiguração do mapa político americano, impulsionada em parte pelos mesmos exilados que lotavam o estacionamento do El Arepazo. Em 2024, Trump venceu em Miami-Dade – o primeiro republicano a fazê-lo desde 1988 – e levou a Flórida por 13 pontos, a maior margem desde 1988. Hoje, o estado deixou de ser um território disputado: virou republicano. Ironicamente, isso significa que o peso eleitoral dos venezuelanos já não era decisivo. A invasão aconteceu mesmo assim.
Os números contam uma história que vai além de preferências partidárias. Pesquisas de boca de urna mostravam que, para os eleitores latinos de Miami-Dade, a palavra “socialismo” tinha peso que não se repetia em nenhum outro lugar do país: menos conceito do que cicatriz, menos ideologia do que biografia. Os republicanos entenderam isso antes dos democratas. Enquanto a campanha de Biden falava de saúde pública e mudança climática, os comitês republicanos martelavam uma mensagem simples: Biden é socialista, Harris é socialista. Se eles vencerem, a América vira Venezuela. Era uma mentira, mas funcionava porque se ancorava em algo real: o trauma de quem tinha perdido país, carreira, família.
Há algo de trágico nessa equação. As pessoas que mais sofreram com o autoritarismo de Maduro acabaram votando em um homem que até ex-membros de seu próprio gabinete acusam de ter impulsos autoritários, que o levam a questionar eleições, atacar a imprensa, ameaçar adversários de prisão. A coalizão que se formou em Miami tinha pouco a ver com ideologia no sentido clássico: era uma aliança de feridas. E feridas não leem plataformas de governo. Reconhecem inimigos.
A Venezuela virou, assim, um código. Quando Trump dizia que ia “libertar” o país, não falava apenas para Caracas. Falava para Doral. Quando Rubio subia no palanque e chamava Maduro de ditador, os aplausos vinham dos dois lados do Estreito da Flórida. Era política externa feita para consumo interno, e consumo interno com consequências externas. Os ativistas venezuelanos sabiam disso e jogavam o jogo. A Veppex levava exilados a comícios republicanos. Em troca, esperavam que a retórica virasse ação. “Votamos nele porque prometeu nos libertar”, disse uma mulher em Doral, no dia da operação. “Cumpriu a promessa.” Mas havia uma tensão nessa aliança que só ficaria clara mais tarde. Os mesmos venezuelanos que votaram em Trump por causa da Venezuela seriam, meses depois, afetados por suas políticas de imigração. Antes, porém, havia uma invasão a fazer.
Donald Trump nunca foi um intervencionista. Ao contrário. Durante anos, criticou as guerras do Iraque e do Afeganistão, chamou a política externa americana de “desastre” e prometeu trazer as tropas de volta para casa. O movimento Maga, a sigla que identifica os adeptos do nacional-trumpismo, nasceu, em parte, dessa promessa. Menos guerras. Menos envolvimento externo. América primeiro. A Venezuela era, em tese, tudo o que Trump deveria evitar: um país distante, sem ameaça direta aos Estados Unidos, com um regime que não atacava ninguém fora de suas fronteiras. Uma intervenção ali seria exatamente o tipo de aventura que os isolacionistas republicanos detestam. E, no entanto, aconteceu.
O que mudou não foi Trump: foi o enquadramento. Rubio e seus aliados passaram anos construindo uma narrativa que transformava a Venezuela em algo diferente de uma guerra tradicional, algo que não evocasse nem Iraque, nem Afeganistão.
Primeiro, existe o petróleo. Trump gosta de falar em termos de negócios, de ativos, de coisas que podem ser obtidas ou perdidas. “O petróleo venezuelano é propriedade americana roubada pelos socialistas”, repete Stephen Miller, um de seus conselheiros mais próximos. A Venezuela virou um investimento a ser recuperado. Depois da invasão, a conta chegou. Trump disse que a Venezuela entregaria até 50 milhões de barris aos Estados Unidos, petróleo “de alta qualidade”, que estava parado em navios-tanque em razão das sanções. Seria vendido a preço de mercado, e o dinheiro, disse Trump, ficaria sob seu controle pessoal “para garantir que seja usado em benefício do povo venezuelano e dos Estados Unidos”.
A frase tem a precisão de um contrato e a sinceridade de um espólio. Analistas de política externa encontraram uma palavra para descrever o arranjo: protetorado. Os Estados Unidos não estão anexando a Venezuela, mas controlando seu principal recurso, ditando decisões econômicas e mantendo o governo local sob supervisão. No início do século XX, Washington fez o mesmo com a República Dominicana, o Haiti e a Nicarágua – países com bandeira e presidente, mas sem soberania fiscal. A diferença, agora, é o petróleo.
Depois, existe o narcotráfico. Em março de 2020, o Departamento de Justiça indiciou Maduro por narcoterrorismo, uma acusação que o colocava na mesma categoria de Pablo Escobar. O indiciamento tinha a digital de Rubio, que pressionara o Departamento de Justiça por anos. Até hoje, a acusação não veio acompanhada de provas, a Venezuela nem sequer é produtora de droga, mas apenas rota de passagem de cocaína que, em grande parte, vai para a Europa, mas o indiciamento deu a Trump uma justificativa que vai além da ideologia: combater o tráfico de drogas. E há um detalhe técnico que importa: a acusação de narcoterrorismo permite enquadrar a operação não como guerra, mas como “ação policial com apoio militar”, uma geringonça que, segundo a Casa Branca, dispensava autorização do Congresso. “Maduro tem múltiplas acusações nos Estados Unidos por narcoterrorismo”, escreveu o vice-presidente J. D. Vance no X horas depois do ataque. “Você não escapa da Justiça americana porque mora num palácio em Caracas.”
Por fim, existe a Flórida. Ou, pelo menos, a memória dela.
Rubio soube costurar essas três linhas. Em reuniões na Casa Branca, falava de petróleo quando estava com empresários, de drogas quando estava com o Departamento de Justiça, de votos quando estava com a equipe de campanha. Há algo quase admirável na economia dessa operação retórica para quem consegue abstrair seu imenso custo. A depender da plateia, a Venezuela era reserva de petróleo, ou corredor de cocaína ou laboratório de socialismo. Cada versão continha um grão de verdade, envolto em muito exagero. Juntas funcionavam como aqueles espelhos de parque de diversões que deformam o reflexo: dá para reconhecer a imagem, só não se sabe mais exatamente o que é. Trata-se de uma habilidade, essa de convencer cada plateia de que a sua versão é a verdadeira. Políticos fazem isso o tempo todo. A diferença é que, desta vez, a apresentação virou guerra.
A tensão com a ala isolacionista do movimento Maga nunca desapareceu. Figuras como Tucker Carlson, o apresentador de tevê que se tornou um dos principais porta-vozes do Maga, criticaram abertamente a ideia de intervir na América Latina. “O que a Venezuela tem a ver conosco?”, perguntou em um programa. A resposta de Rubio era sempre a mesma: tudo. Drogas, petróleo, imigração. A Venezuela não estava longe. Estava na fronteira.
Agora, finalmente, Rubio tinha o poder de agir. E agiu rápido.
Nas semanas anteriores à operação militar, os sinais tinham se acumulado. Rubio falava abertamente em “todas as opções”, o Pentágono transferiu porta-aviões para o Caribe. Mas, quando os mísseis atingiram Maracay e Barquisimeto na madrugada de 3 de janeiro, a surpresa foi real. Ninguém esperava que acontecesse naquela noite. Em Mar-a-Lago, Trump convocou uma entrevista coletiva para a imprensa às seis da manhã. Ao seu lado, de terno escuro e expressão contida, estava Marco Rubio. Até falou, mas nem precisava. Sua presença era a mensagem.
A reação foi imediata – e dividida. Enquanto os exilados em Miami celebravam, a América Latina acordava em choque. Brasil, Colômbia, Uruguai, Chile, México e Espanha emitiram uma declaração conjunta condenando a violação flagrante do direito internacional. O presidente Lula foi o mais duro: chamou a operação de “afronta gravíssima à soberania” e disse que a ação recorda os piores momentos de interferência na América Latina, pedindo uma resposta “vigorosa” da ONU.
No estacionamento do El Arepazo, as bandeiras ainda tremulam. Doral continua em festa. Mas, em algumas mesas, a conversa já mudou de tom. Não se fala só de Maduro. Fala-se de vistos para permanecer nos Estados Unidos.
O assunto provocou uma fratura na coalizão que Rubio construiu. E começou antes mesmo da invasão. Em fevereiro de 2025, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, anunciou o fim do Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês), uma espécie de visto humanitário que permitia a cerca de 600 mil venezuelanos viver e trabalhar legalmente nos Estados Unidos. Em maio do ano passado, a Suprema Corte autorizou a revogação. E, assim, centenas de milhares de venezuelanos (muitos dos quais tinham apoiado Trump e chegaram ao país fugindo de Maduro) passaram a viver sob ameaça de deportação. Para os que já eram cidadãos e tinham votado no republicano, a decisão era um golpe de outra ordem: muitos tinham parentes, amigos e vizinhos com TPS.
“Nos usaram”, disse um ativista venezuelano a uma rádio local. “Durante a campanha, os políticos republicanos nos garantiram que ele não tocaria nos documentados.” Uma pesquisa da Universidade Internacional da Flórida mostrou que metade dos venezuelanos que votaram em Trump estava arrependida ou tinha sentimentos mistos. Quase 40% disseram que votariam em outro candidato no futuro. O deputado Mario Díaz-Balart, republicano de Doral e neto de ex-ministro de Fulgencio Batista, declarou publicamente que se opunha à revogação do visto humanitário. Era tarde.
Horas depois da captura de Maduro, a prefeita de Miami-Dade, Eileen Higgins, pediu que Trump reinstaurasse imediatamente o TPS. Kristi Noem respondeu: “A Venezuela está mais livre hoje do que ontem. Não há razão para não voltarem.” A lógica era implacável e, para muitos em Doral, cruel. Quem ajudou a eleger Trump por causa da Venezuela agora podia ser expulso por causa da Venezuela.
A traição – é assim que muitos a descrevem – tem uma anatomia particular. Durante anos, os exilados venezuelanos foram instrumentalizados como arma eleitoral: seus traumas viraram anúncios de campanha, suas histórias viraram discursos de palanque, seus votos viraram margem de vitória nas urnas. Em troca, receberam promessas de linha dura contra Maduro, e essas promessas foram cumpridas. Mas o que não estava no acordo era o que viria depois. Os venezuelanos de Doral imaginavam que derrubar Maduro selaria sua integração à história americana. Descobriram, com o fim do TPS, que a gratidão política tem prazo de validade.
Havia outra ironia, mas silenciosa. María Corina Machado, a líder oposicionista que Rubio tinha cultivado por anos, foi escanteada. Em outubro de 2025, ela ganhou o Nobel da Paz, um prêmio controverso, criticado por organizações de direitos humanos devido ao apoio de Machado ao genocídio de Israel em Gaza e às sanções que devastaram a economia venezuelana. Trump ligou para parabenizá-la, mas achava que ele próprio era o merecedor do prêmio. No mesmo dia da operação militar na Venezuela, disse a jornalistas: “Ela não tem apoio nem respeito dentro do país. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito que merece.”
Quando o governo provisório foi anunciado em Caracas, Machado não fazia parte. Trump declarou que os Estados Unidos iriam “administrar” a Venezuela até uma “transição judiciosa”, e sua escolha recaiu sobre Delcy Rodríguez, a vice-presidente de Maduro. Machado, em entrevista ao canal Fox News, elogiou a operação, chamou Trump de “visionário” e “corajoso” e até ofereceu dividir com ele o Nobel da Paz. Era um gesto de conciliação. Ou de desespero. Doze dias depois, Machado foi recebida na Casa Branca. Levou consigo a medalha do Nobel e a entregou a Trump, em um gesto de gratidão pela deposição de Maduro. O Comitê Nobel precisou emitir uma nota: “A medalha pode mudar de dono, mas o título de laureado do Nobel da Paz não pode.” A mulher que liderou a campanha contra Maduro em 2024, que mobilizou milhões, que virou símbolo internacional da resistência democrática, agora implorava por um lugar à mesa. Trump aceitou a medalha de presente, mas não mudou de ideia: Machado continua fora do governo.
A coalizão que sustentou a Operação Flórida – exilados, legisladores, think tanks, petroleiras – entregou o que prometeu: a queda de Maduro. Mas coalizões instrumentais raramente sobrevivem à vitória. Cada grupo entrou nela por razões próprias. Agora, as razões divergem. Os venezuelanos de Doral querem ficar onde estão. A política migratória, que vem convulsionando os Estados Unidos, quer mandá-los embora. María Corina Machado quer governar. Trump prefere outra pessoa. O petróleo está ao alcance. As petroleiras temem desembolsar bilhões e bilhões de dólares num país ainda sob um regime chavista.
A história das intervenções americanas está cheia de alianças que se desintegraram depois da vitória. Os cubanos que desembarcaram na Baía dos Porcos em 1961 esperavam um apoio aéreo que nunca veio. Os afegãos que trabalharam como tradutores para o Exército americano esperavam vistos que demoraram anos. A fratura que se abre em Doral é a mesma que marca outras coalizões do ressentimento: servem enquanto há inimigo comum; racham quando a vitória chega e os interesses divergem.
No El Arepazo, ainda há bandeiras. Mas não há festa.
