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O último Aureliano

    Petro, no palácio presidencial: ele é ex-guerrilheiro, sofreu ameaças de morte, viveu três anos na Europa e, em 2006, foi escolhido pelos leitores do jornal El Tiempo, o maior do país, como “personagem do ano”, à frente da cantora Shakira CRÉDITO: NATHALIA ANGARITA_2026

à sombra do império III

O último Aureliano

O nacionalismo mágico de Gustavo Petro, o presidente colombiano que desafia Trump

Roberto Andrés, de Bogotá | Edição 233, Fevereiro 2026

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Logo depois de invadir a Venezuela e sequestrar seu presidente, e antes de ameaçar tomar para si a Groenlândia, Donald Trump começou a fustigar a Colômbia. Afirmou que o país era governado por um “homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos – e não vai continuar fazendo isso por muito tempo”. Disse também que uma intervenção militar no país “soava bem”. Desafiando Trump, o presidente colombiano, Gustavo Petro, afirmou que estava disposto a “pegar em armas” e convocou o povo colombiano para ir às ruas em defesa do seu país.

A disputa, que ganhou os holofotes com a grave intervenção dos Estados Unidos no continente, começara um ano antes. Na verdade, Petro foi o primeiro líder da região a polarizar com Trump em seu segundo mandato. Em janeiro de 2025, quando iniciou sua caça a imigrantes, Trump despachou dois aviões com destino à Colômbia. Neles, estavam algumas centenas de imigrantes ilegais, que o presidente americano chamou de criminosos. Mas os aviões não pousaram em Bogotá. A entrada foi barrada pelo presidente colombiano. Petro alegou que os cidadãos de seu país estavam sendo tratados como delinquentes e que os Estados Unidos não respeitavam protocolos internacionais. Depois, autorizou a entrada dos aviões, mas o recuo não impediu que se iniciasse o embate entre os dois presidentes. Um embate cuja arena, claro, foi a terra de lacração das redes sociais.

Contrariado, Trump vociferou em uma postagem em que chamou Petro de presidente impopular em seu país e listou as retaliações que promoveria: tarifas sobre produtos colombianos, revogação de vistos de membros do governo, do presidente e seus familiares, além de sanções alfandegárias e em transações financeiras. A resposta veio logo. Abusando de referências da literatura e da história, Petro povoou o ringue com imagens incomuns nas contendas políticas. O resultado é um textão nacionalista com um quê de Realismo Mágico, que diz bastante sobre a forma como o presidente colombiano busca se posicionar politicamente.

 

Em resposta à ameaça de cassar seu visto, Petro afirmou achar entediante viajar aos Estados Unidos. Evocou Salvador Allende (ex-presidente do Chile deposto por um golpe militar com apoio do governo americano) para assegurar que resistiria a um golpe articulado por Trump. Em seguida, fantasiou seu próprio assassinato (“Me matarás, mas eu sobreviverei no meu povo, que é anterior ao seu, nas Américas”), apresentou uma imagem poética do povo colombiano (“Somos um povo dos ventos, das montanhas, do Mar do Caribe e da liberdade”), mobilizou o orgulho nacional (“A Colômbia é o coração do mundo”, o “primeiro território livre das Américas”) e suas peculiaridades (“terra das borboletas amarelas”). Tudo isso coroado pela evocação de uma figura mítica da literatura, em chave de autoidentificação – nas palavras de Petro, a Colômbia é também a terra “dos coronéis Aurelianos Buendía, dos quais eu sou um deles, talvez o último”.

Aureliano Buendía é o protagonista de Cem anos de solidão, clássico do escritor colombiano Gabriel García Márquez, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. O autor e o romance são motivos de orgulho nacional. É possível dizer que García Márquez está para o povo colombiano como Pelé está para o brasileiro. Não era a primeira e não seria a última vez que o presidente evocaria o aclamado escritor e sua obra-prima – desde a juventude, quando participava da luta armada, Petro utilizava o pseudônimo “Coronel Aureliano”. Note-se que a jornada de Aureliano Buendía não é a do herói que triunfa depois da superação de obstáculos, mas a de uma figura voluntarista, capaz de grandes feitos, mas derrotada pela dureza da realidade.

Como narra García Márquez, “o coronel Aureliano Buendía promoveu 32 rebeliões armadas e perdeu todas. […] Escapou de 14 atentados, 73 emboscadas e de um pelotão de fuzilamento”. Bastava liberais e conservadores anunciarem uma conciliação para que o coronel articulasse um novo levante armado, retomando a guerra. Foi tido como morto várias vezes, mas ressurgia em seguida. Chegou a ser comandante-geral das forças revolucionárias, temido em todo o país. Tentou suicidar-se com um tiro no peito depois de assinar o acordo de paz, mas a bala atravessou seu corpo sem atingir nenhum órgão. Já na velhice, quando se dedicava à ourivesaria, bradou ameaças contra os gringos que enchiam o país em busca de riqueza fácil. No dia seguinte, seus dezessete filhos, todos de nome Aureliano e cada um de uma mãe diferente, foram assassinados, um a um. Aureliano Buendía morreu solitário enquanto urinava na árvore do pátio da casa em que nasceu em Macondo.

 

É dessa estirpe de anti-herói, que oscila entre o mítico e o trágico, cujos feitos são memoráveis, mas cujos resultados são irrelevantes ou terríveis, que o presidente colombiano afirma ser o último biscoito do pacote. O sentido simbólico dessa comparação ajuda a compreender os objetivos políticos de Gustavo Petro ao polarizar de forma tão acalorada com um adversário que, na prática, tem poucas condições de enfrentar.

 

A eleição de Gustavo Petro e Francia Márquez para o governo da Colômbia começou um ano antes do pleito. Em abril de 2021, uma greve promovida por centrais sindicais parou o país, em um momento em que uma insatisfação difusa se acumulava na sociedade. O que veio em seguida foi uma onda de protestos massivos, que os colombianos chamam de el estallido (a explosão). Como apontou a jornalista María Teresa Ronderos em artigo publicado na piauí (O impasse colombiano, piauí_178, julho de 2021), problemas sociais em torno de temas como saúde, educação e emprego se somaram aos retrocessos promovidos pelo governo de direita de Iván Duque no processo de paz que estava em curso. Tudo isso conformou o estado de coisas contra o qual a população se insurgiu.

O rol de insatisfações teve o tamanho e a intensidade necessários para formar um incêndio na pradaria – rápido e impossível de conter. O governo fez o que governos fazem nessa hora: mandou a polícia descer a lenha nos manifestantes, mas a repressão aumentava a indignação popular, o que levava mais gente aos protestos. Rapidamente, as ruas do país estavam em chamas. Foram mais de cinquenta dias de revolta popular combatida com muita violência policial, e um saldo de dezenas de mortos e centenas de feridos. Pesquisas apontaram que a maioria dos jovens do país estiveram nos protestos, endossados por boa parte da sociedade.

 

O estallido de 2021 teve similaridade com o ciclo de protestos ocorrido no início da década passada em diversos países do mundo – no Brasil teve lugar em junho de 2013. Mas a distância no tempo e a diferença no contexto político acabaram levando a resultados distintos. Ao contrário do que ocorreu no Brasil, a revolta colombiana se deu quando um governo de direita estava no poder. Além disso, a década de 2020 já assistia, em diversos países, à emergência de novas lideranças de esquerda, que podiam expressar a renovação demandada pelas ruas. Os protestos colombianos de 2021 tiveram mais proximidade com outro estallido – aquele ocorrido no Chile em 2019, cujos desdobramentos levaram à realização de uma Assembleia Nacional Constituinte e à eleição de Gabriel Boric, novo líder de esquerda, à Presidência do país em 2021.

No caso da Colômbia, a renovação na esquerda foi representada por Francia Márquez, que ficara conhecida por liderar mobilizações contra grandes empreendimentos com impactos ambientais na região de Cauca. Mulher negra e ativista por direitos humanos, aos 39 anos Márquez apresentou-se como pré-candidata à Presidência nas primárias do Pacto Histórico (uma coalizão de partidos de esquerda) para as eleições de 2022. Teve a segunda maior votação nas prévias, e foi indicada como vice na chapa que seria liderada por Gustavo Petro.

Enquanto Márquez iniciou sua vida pública nas lutas sociais, Petro o fez, vinte anos antes, na luta armada. Aos 18 anos, aderiu ao Movimento 19 de Abril, o M-19, um grupo guerrilheiro de esquerda. O M-19 chegou a ser a segunda maior guerrilha da Colômbia, atrás das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O grupo organizou a tomada do Palácio de Justiça em 1985, cujos desdobramentos levaram a um massacre promovido pelo Exército colombiano, que matou uma centena de pessoas – entre elas, doze ministros da Corte Suprema de Justiça. Na série Narcos, da Netflix, conta-se que a ação do M-19 fora contratada pelo megatraficante Pablo Escobar, para que os processos judiciais contra ele fossem extintos, tese que foi validada por uma comissão de ex-presidentes da Suprema Corte anos depois, mas nunca foi aceita pelos desmobilizados do M-19. Embora tenha sido acusado de participar da ação, Petro estava na prisão à época. Quase um ano e meio depois, quando foi libertado, participou das negociações de paz que transformaram o M-19 em um partido político, a Aliança Democrática M-19.

Nas eleições de 1990, o partido de Petro apresentou-se aos eleitores pela primeira vez. Seu candidato à Presidência seria Carlos Pizarro, maior liderança do grupo desde a época da guerrilha. Mas seu nome não chegou às urnas. Durante a campanha, enquanto viajava a bordo de um avião, Pizarro foi morto a tiros. Naquele pleito, também foram assassinados os candidatos Luis Carlos Galán, do Partido Liberal, que era favorito no pleito, e Bernardo Jaramillo, do União Patriótica, partido de esquerda que teve diversas lideranças abatidas na época. Por trás das execuções estavam o Cartel de Medellín, liderado por Escobar, e um grupo paramilitar de extrema direita.

A grave situação política levou a uma mobilização social, articulada por estudantes, que reivindicava a criação de uma Assembleia Nacional Constituinte para reescrever a Constituição. O movimento propôs que, no dia da eleição, as pessoas levassem uma sétima “papeleta”, que seria inserida na urna depois dos seis votos protocolares. No papelzinho extra, responderiam se aprovavam ou não a proposta da constituinte. A Constituição então vigente, promulgada em 1886, ancorava-se em valores arcaicos (proibia o divórcio, por exemplo) e promovia a concentração de poder nas elites (o direito ao voto era restrito) e no presidente (que escolhia governadores e juízes).

A mobilização social deu resultado. O presidente eleito, César Gaviria, do Partido Liberal, convocou eleições para a Assembleia Nacional Constituinte poucos meses depois de sua posse. Seu partido elegeu 25 constituintes, enquanto a Aliança Democrática fez 19, em um total de 70. Juntos, liberais e esquerda tiveram a maioria dos assentos, e a nova Carta foi escrita com tintas democráticas e progressistas. Promulgada em 4 de julho de 1991, a Constituição revogou o Congresso e chamou novas eleições parlamentares para dali a quatro meses. No pleito, o Partido Liberal conquistou sozinho maioria na Câmara e no Senado. A Aliança Democrática ficou em terceiro nas duas Casas, com menos de 10% dos assentos. No departamento de Cundinamarca, o partido fez um representante: Gustavo Petro, que, com pouco mais de 12 mil votos, entrava no Congresso com a segunda menor votação dentre os eleitos de sua região.

Naquela altura, Petro tinha 31 anos. Mais 31 se passariam até que ele chegasse à Presidência. A caminhada não seria em linha reta. Seu partido ficou isolado no Congresso e seu primeiro mandato parlamentar foi pouco expressivo. No pleito de 1994, ele não se reelegeu. Sem função pública e sofrendo ameaças de morte, deixou o país. Conseguiu do governo colombiano um cargo de baixo escalão na embaixada de Bruxelas. Ficou na Europa por três anos, aprendeu francês e cursou uma especialização em meio ambiente e desenvolvimento populacional na Universidade Católica de Louvain. Como conta em seu livro de memórias, ali ele passou a formular a crítica da relação entre neoliberalismo e degradação da natureza – e a partir de então a agenda ambiental se tornou uma de suas principais pautas.

Em 1997, de volta à Colômbia, Petro candidatou-se à Prefeitura de Bogotá. Ficou em oitavo lugar, com 0,5% dos votos. No ano seguinte, concorreu à Câmara de Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil. Integrou a lista liderada por Antonio Navarro Wolff, que fora seu companheiro no M-19 e candidato à Presidência em pleitos anteriores. A lista foi a segunda mais votada da região de Bogotá, e Petro retornou ao Congresso. Ali teve início de fato “a carreira daquele que é considerado um dos mais brilhantes parlamentares que já atuaram no Congresso”, avaliam Laura Ardila Arrieta e Carlos Hernández Osorio, em um perfil do presidente publicado no La Silla Vacía, um veículo geralmente crítico ao governo.

Os doze anos seguintes seriam de presidentes de direita, e Petro soube se construir como uma das principais figuras de oposição no Parlamento. Denunciou escândalos de corrupção e conluios entre políticos, paramilitares e narcotraficantes. Vocalizou a indignação contra problemas que afetavam a maioria da população. Tornou-­se um político popular. Em 2002, foi reeleito com 79 mil votos, a terceira maior votação para a Câmara. Em 2006, os leitores do jornal El Tiempo, o de maior circulação no país, escolheram Petro como personagem do ano – à frente da cantora Shakira e do então presidente Álvaro Uribe. No mesmo ano, ele foi eleito senador com 143 mil votos, a maior votação de seu partido. No Senado, teve uma atuação aguerrida de oposição ao presidente Álvaro Uribe, a quem denunciou por relações com narcotraficantes.

Então veio a primeira candidatura à Presidência, em 2010. Com mais de 1,3 milhão de votos, Petro ficou em quarto lugar. O liberal Juan Manuel Santos acabou vencendo o pleito e, involuntariamente, foi o responsável por criar as condições para que a esquerda se tornasse uma força eleitoralmente viável para comandar o país. O acordo de paz firmado com as Farc em 2016, que desmobilizou a guerrilha, contribuiu para reduzir os índices de violência e pa­ra enfraquecer a associação entre a esquerda e grupos criminosos. A partir do momento em que o principal te­ma do país deixou de ser a violência, a esquerda pôde levar as questões social e econômica para o centro do debate.

Enquanto esse processo se dava, Petro foi eleito prefeito de Bogotá em 2011, com uma votação cem vezes maior do que a que obtivera catorze anos antes. Dois anos depois, foi afastado do cargo por uma decisão judicial, mas conseguiu retornar ao posto e concluir seu mandato. Em 2018 candidatou-se novamente à Presidência da República e, desta vez, chegou ao segundo turno, em confronto com Iván Duque, o candidato da direita. Perdeu a disputa, mas foi beneficiado por uma lei que estabelece que o segundo colocado no pleito presidencial tem direito a uma vaga no Senado, enquanto seu candidato a vice ganha um assento na Câmara. Assim, Petro pôde seguir com uma atuação parlamentar de oposição durante o governo de Duque.

Em 2022, elegeu-se presidente no segundo turno, com 50,4% dos votos, tornando-se o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia. Quando indagados sobre as condições que permitiram a vitória da esquerda, analistas costumam elencar quatro fatores: o acordo de paz com as Farc, que reduziu a importância da criminalidade no debate público; o crescimento da relevância das pautas sociais e econômicas; o estallido de 2021; e os tropeços do governo Duque. Esse último elemento não foi trivial. Eleito presidente aos 42 anos, o mais jovem da história do país, e com pouca experiência administrativa, Duque foi um líder fraco, atuando à sombra de seu padrinho, o ex-presidente Álvaro Uribe. Buscou recuar no acordo de paz, enquanto o país assistia ao aumento da pobreza e do desemprego. Já no segundo ano de seu mandato, alcançava a marca histórica de 70% de reprovação. Diante do fracasso da direita e do sentimento de mudança que acompanhou o estallido de 2021, Petro e Francia tornaram-se alternativas reais nas eleições do ano seguinte.

Mas houve um outro fator, fundamental, para que a esquerda chegasse ao poder: seus candidatos não foram assassinados, como ocorrera com tantos postulantes que tiveram chances em pleitos anteriores.

 

Em vez de anúncios publicitários ou imagens de produtos, uma das lojas Camiseria Europea, no bairro de Santa Fé, em Bogotá, exibe na parte superior de sua fachada uma fotografia antiga. Nela vê-se uma rua bogotana nos anos 1940, quando a loja foi fundada, com elegantes edifícios em estilos art déco e neoclássico, apinhada de homens de chapéu e mulheres de sobretudo. A cidade retratada na imagem desmanchou-se no ar em razão de uma fatalidade ocorrida logo em frente. Ali, na esquina da Carrera 7 com Avenida Jiménez, em 9 de abril de 1948, foi assassinado com três tiros Jorge Eliécer Gaitán, um dos políticos mais populares da história da Colômbia. A sublevação popular que se seguiu virou a cidade e o país do avesso.

Gaitán estava no auge de sua carreira política. Fora deputado federal (1931), prefeito de Bogotá (1936), ministro da Educação (1940) e ministro do Trabalho (1945). Naquele momento, era senador e pré-candidato à Presidência da República. Principal líder da oposição, vinha eletrizando a população contra o governo do conservador Mariano Ospina Pérez. Seus comícios mobilizavam multidões. Embora integrasse o Partido Liberal, não reproduzia a linha hegemônica da legenda. Seu discurso populista opunha o povo às elites que sempre governaram o país, inclusive a elite de seu partido – o que era sintetizado em frases marcantes como “a fome não é liberal ou conservadora”. Com uma oratória magnética, ele vinha denunciando os assassinatos e detenções políticas realizadas pelo governo.

Em fevereiro daquele ano, o então estudante de direito Gabriel García Márquez, que começava a publicar seus primeiros contos em jornais, acompanhou uma manifestação liderada por Gaitán. Ficou impressionado com o que viu, do discurso do líder ao formato da passeata, em que milhares de pessoas marchavam em silêncio absoluto pelas ruas da cidade. Nas palavras do escritor, “a impressão que ficou daquela tarde histórica foi que a eleição de Gaitán era um fato consumado que ninguém conseguiria impedir”.

O impedimento veio à bala, dois meses depois. No dia 9 de abril, a agenda de Gaitán marcava um compromisso para depois do almoço: encontro com Fidel Castro. O cubano, então um líder estudantil, estava em Bogotá para uma mobilização de entidades. Mas o encontro vespertino não ocorreu. Gaitán foi abatido na calçada quando caminhava para o restaurante em que iria almoçar. A notícia da morte se espalhou imediatamente. A turba revoltosa espancou, matou e espalhou partes do corpo do suposto assassino pelas ruas. Saquearam lojas, incendiaram edifícios, destruíram bondes. Atacaram e botaram fogo nas sedes dos principais jornais da cidade. Invadiram parte do Palácio do Governo, e o presidente só não caiu porque o Exército se manteve leal e a fúria das ruas carecia de organização.

O Bogotazo, como aquele dia ficou conhecido, foi um dos protestos mais sangrentos da história da Colômbia. A violência se espalhou país afora, de forma descontrolada. Gaitán certa vez dissera que “a oligarquia não me mata porque sabe que, se o fizer, o país entra em erupção e levará cinquenta anos para que as coisas voltem ao normal”. A afirmação foi premonitória, mas fato é que a Colômbia nunca retornou à normalidade. É comum a avaliação de que o evento “alterou a história do país, sendo, para a historiografia colombiana, o ponto de partida de um vasto conflito que dura até os dias de hoje”, resume José Antonio Conde Moreno em Poder y violencia. Historia del conflicto armado en Colombia (1948-2016).

Não era a primeira vez que o país entrava numa guerra civil pela disputa política. Na segunda metade do século XIX, ocorreram quatro guerras civis de alcance nacional entre liberais e conservadores. A maior delas, a Guerra dos Mil Dias, iniciada em 1899, entrou no século XX e matou, estima-se, cerca de 3% da população. Mas a diferença é que a morte de Gaitán e a década que se seguiu (não por acaso, o período é chamado de “La Violencia”) produziram uma espiral sem retorno que dão razão ao coronel Aureliano Buendía quando notou que “é mais fácil iniciar uma guerra do que terminá-la”.

As motivações do assassinato de Gaitán nunca foram confirmadas. Para o grosso da população e os partidários do líder, ele foi morto pelos conservadores para impedir sua vitória eleitoral certa. Ainda que isso não tenha sido comprovado, o fato de um candidato popular ser abatido em plena campanha deixou sua base à flor da pele. Já do lado conservador, espalhou-se a versão de que uma conspiração de esquerda estaria por trás do assassinato, para, em meio ao caos, implantar uma revolução comunista no país. A tese não tem cabimento, mas a ausência de uma explicação contribuiu para colocar água na fervura – cada lado acreditava que o outro fora responsável pela violência que se instalou. “E isso ajuda a explicar muito do comportamento irracional, quase patológico, que os colombianos exibiriam nos anos seguintes”, resume David Bushnell (1930-2010), pesquisador americano conhecido por seus estudos da Colômbia.

Com um país conflagrado, o governo conservador se manteve à custa de repressão e autoritarismo. Espalharam-se os ataques a cidades e vilas de maioria liberal. Em resposta, vieram as guerrilhas dos liberais e da esquerda, que reuniam milhares de pessoas nas zonas rurais e promoviam ofensivas principalmente contra o Exército. O governo passou a formar grupos paramilitares com nomes pitorescos como Los Chulavitas e Los Pájaros, responsáveis por incontáveis massacres. A matança tornou-se o modus operandi da política, com números impossíveis de precisar. Estimativas apontam de 2 a 4 mil mortos somente nas 24 horas que se sucederam ao assassinato de Gaitán. Durante os dez anos de violência descontrolada, Bush­nell aponta ter havido entre 100 mil e 200 mil assassinatos no país.

Em 1958, liberais e conservadores chegaram a um acordo de revezamento no poder, inaugurando o período conhecido como Frente Nacional. Mas a essa altura grupos de guerrilha já estavam consolidados, formando aquilo que o Partido Comunista chamava de “estruturas de autodefesa”. O governo via esses grupos como ameaças e continuou a atacá-los. Em 1964, uma investida do Exército contra a “República de Marquetalia”, um grupo de camponeses liberais e comunistas no departamento de Tolima, acabou sendo malsucedida. Os guerrilheiros não só venceram a batalha, como apresentaram uma série de demandas ao governo e criaram uma organização cuja luta mudaria profundamente o país.

Fundada por 350 guerrilheiros em Tolima, as Farc chegaram a 20 mil membros em todo o território nacional no início dos anos 2000. De início, financiadas por taxas cobradas dos moradores das regiões em que operavam, as Farc tornaram-se uma organização multimilionária quando passaram a atuar no narcotráfico. Seu patrimônio declarado em 2016 foi de 324 milhões de dólares, o que incluía mais de 240 mil hectares de terra, 20 mil cabeças de gado, veículos, ouro, armas e 3 753 km de estradas em selvas e montanhas. Desmobilizadas com o acordo de paz, foram o maior grupo guerrilheiro do continente.

 

Afora artigos, conjunções e preposições, e o próprio nome do país, paz é a palavra mais repetida no discurso de posse de Gustavo Petro em agosto de 2022. Aparece 20 vezes, muito à frente de trabalho (8), saúde (6) e educação (6). Em uma sociedade traumatizada pela forma com que a violência prevaleceu nos últimos setenta anos, o novo presidente chegava ao governo buscando retomar os caminhos estabelecidos pelo acordo de paz de Juan Manuel Santos, em que cerca de 13 mil combatentes e simpatizantes das Farc trocaram a luta armada por anistia e proteção estatal.

Ex-guerrilheiro, Petro acreditava que seria possível negociar a desmobilização de todos os grupos ilegais. A política já nascia com um nome ambicioso: Paz Total – curiosamente, o oposto da “guerra total” com a qual o coronel Aureliano Buendía sonhava libertar o país de “um regime de corrupção e de escândalo sustentado pelo invasor estrangeiro”. No caso de Petro, a política apostava nas mesas de diálogos com os grupos ilegais mirando em acordos para que seus membros recebessem o perdão do Estado em troca de deixarem as armas e aderirem a atividades legalizadas. Já em novembro de 2022, o governo aprovou um projeto no Congresso que dava sustentação à proposta.

A tarefa, claro, não seria fácil. A presença de guerrilhas, narcotraficantes e demais agrupamentos ilegais na sociedade colombiana chegou a um nível de penetração muito profundo. O país é de longe o maior produtor de cocaína do mundo, respondendo, em 2023, por 70% da produção global. São cerca de 260 mil hectares destinados ao plantio de folha de coca. Há ainda a extração ilegal de ouro e de madeira na Floresta Amazônica, além da atuação dos grupos em mercados legais. As características geográficas do país (relevo montanhoso em meio à Floresta Amazônica) e a concentração política (as ações do Estado estão sobretudo em Bogotá e em alguns centros urbanos) criaram as condições para que o crime dominasse vastas porções do território.

Já no primeiro ano de governo, iniciou-se a negociação com o Exército de Libertação Nacional (ELN), guerrilha de esquerda criada à mesma época das Farc. Em seguida, vieram os diálogos com os demais grupos, e chegaram a ocorrer nove mesas em paralelo. A aposta era de que negociar com diversas forças ao mesmo tempo evitaria vazios de poder que são rapidamente ocupados quando uma delas se desmobiliza. Houve alguns avanços em territórios específicos, mas a promessa de desmobilização total passou longe de se realizar. As forças mais relevantes “se aproveitaram da retórica de paz para ganhar tempo, reduzir a pressão das forças de segurança e tratar de se fortalecer”, alertou já em 2023 Catalina Niño Guarnizo, coordenadora de projetos da Fundação Friedrich Ebert na Colômbia.

Para a especialista em segurança pública, “o problema é que o governo não parece ter uma política de segurança aliada à sua política de paz”, já que “a extrema generosidade com os grupos não foi acompanhada do desenho e da execução de uma necessária estratégia de dissuasão”. O Estado reduziu os ataques aos grupos ilegais, mas no mesmo período cresceram os conflitos entre eles – cada um buscando aproveitar o momento para aumentar seu poder. Com pouca demonstração de força do governo, faltaram incentivos para que a desmobilização ocorresse de fato. Não demorou e os acordos de cessar-fogo foram rompidos, e os ataques à população voltaram à baila.

A política de Paz Total foi um fracasso total? Fiz essa pergunta a Guarnizo em uma conversa por telefone em janeiro de 2026. Sua avaliação é que a política promoveu alguns avanços que podem ser medidos em números – como a redução de assassinatos de lideranças sociais no país –, mas que a promessa original obviamente não se cumpriu. Para ela, uma política do tipo deveria passar por um enfoque territorial, fazendo negociações em regiões específicas que seriam acompanhadas de ações do Estado em várias frentes, como segurança pública e desenvolvimento econômico. Seria necessário, de um lado, ser linha dura com quem não cumprisse acordos, e, de outro, oferecer alternativas de trabalho para quem se dispusesse a deixar o crime.

Ainda assim, seria possível alcançar um resultado relevante sem tratar da legalização do mercado de drogas? Como resposta, ouvi um sonoro “não”. O consumo de cocaína no mundo está crescendo. Com a demanda em alta, e considerando a dificuldade de controle estatal do território colombiano, a tendência é que a desmobilização de uma força derive no crescimento de outras. Não por acaso, os maiores grupos ilegais deram um salto de crescimento depois da extinção das Farc: passaram de 6 519 membros em 2017 para 25 278 membros em 2025. Somente o Clan del Golfo, hoje a maior agremiação criminosa do país, chegou a quase 9 mil integrantes. “Estamos fadados por muito tempo a ter uma situação de violência na Colômbia”, resume Guarnizo.

No cômputo geral, o governo Petro teve dificuldade de entregar resultados. Com minoria parlamentar e pouca experiência administrativa de sua equipe, muito do plano ousado de mudança, baseado em reformas estruturais, ficou no papel. A reforma da saúde não foi aprovada pelo Congresso. A reforma agrária avançou pouco. Outras propostas de campanha nem chegaram a ganhar forma. No aspecto positivo, o governo aprovou uma reforma da previdência que estendeu o direito à aposentadoria a segmentos que estavam excluídos. E, depois de uma forte batalha travada no ano passado, conseguiu aprovar uma reforma trabalhista que reduziu a carga horária máxima semanal e estabeleceu o direito a horas extras em fins de semana e feriados. Houve ainda redução do desmatamento na Amazônia colombiana e a economia do país vai bem, com controle de inflação e bons níveis de emprego. No fim do ano passado, Petro anunciou um aumento de 23,7% do salário mínimo para 2026, o maior índice já aplicado no país neste século.

No plano internacional, Petro tem se colocado de forma contundente em temas cruciais. Tem sido um dos principais defensores da transição energética e do fim da exploração dos combustíveis fósseis – em agosto de 2023, durante a Cúpula da Amazônia, chegou a chamar parte da esquerda de negacionista climática, criando um climão com o governo Lula e seu projeto de exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas. Petro é também um crítico ferrenho do genocídio que vem sendo promovido pelo Estado de Israel em Gaza.

 

No último ano, a avaliação de Gustavo Petro cresceu modestamente. Passou de 33% em dezembro de 2024 para 37% em janeiro de 2025, segundo o agregador de pesquisas do La Silla Vacía. O período coincide com a polarização com Trump, além de algumas vitórias do governo, como a aprovação da reforma trabalhista. O cálculo de Petro parece ser de que a disputa retórica com o presidente americano cria um sentimento nacionalista que o favorece – a conhecida ideia de que o enfrentamento a um inimigo externo une o país e reduz espaço dos adversários internos.

Depois da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, o movimento de Petro ganhou escala, mas também complexidade. De início, Petro elevou o tom contra Trump, com longos tuítes em seu singular estilo inspirado no Realismo Mágico. Não deixa de ser interessante que, para fazer frente a uma extrema direita cuja retórica é baseada em elementos fantasiosos, o presidente colombiano lance mão da literatura e da simbologia nacional para construir o imaginário de seu polo político. Mas é evidente que o país não tem forças para enfrentar o poderio militar americano, de modo que a disputa verbal precisa ser mediada por esforços diplomáticos.

Poucos dias depois de trocarem ofensas pelas redes, em 8 de janeiro, Petro e Trump falaram ao telefone por uma hora. O presidente dos Estados Unidos mudou de tom. Disse que “foi uma grande honra” falar com o colombiano e que os dois marcariam um encontro em breve para tratar da situação do narcotráfico. Petro citou essa fala em um comício em praça pública, construindo a sensação de vitória política ao ter feito o adversário recuar – e levando o público a aplausos entusiasmados. Na semana seguinte, anunciou que se encontraria com Trump na Casa Branca no início de fevereiro.

O movimento do colombiano tem seu sentido. Ao polarizar com Trump, acende o orgulho nacional e se aproxima de setores de centro avessos ao imperialismo. Ao demonstrar capacidade de diálogo, isola a extrema direita, cuja referência é o presidente dos Estados Unidos. Parece fazer parte do cálculo a percepção de que o custo para uma intervenção na Colômbia, ao menos no curto prazo, seria alto para Trump – ainda mais considerando que o modelo experimentado na Venezuela, de demonstrar força e usar da coerção para extrair vantagens sem precisar entrar numa guerra, ainda não foi provado. Além disso, o governo de Petro se encerra em poucos meses. Caso queira mesmo intervir na Colômbia, faz mais sentido para Trump meter o bedelho, de forma mais ou menos transparente, depois das eleições de maio.

As pesquisas mais recentes indicam que os favoritos no pleito presidencial são Iván Cepeda, candidato da esquerda, e Abelardo de la Espriella, da extrema direita. Há ainda alguns candidatos de centro com chances de crescer, como Sergio Fajardo, ex-prefeito de Medellín e ex-governador da Antioquia, e Claudia López, ex-prefeita de Bogotá. No cenário atual, no entanto, nenhum dos dois centristas parece ser capaz de criar uma terceira via competitiva. Em março, ocorrerá, junto com as eleições legislativas, a rodada final de prévias, em que os partidos negociarão as coalizões a partir da votação obtida pelos candidatos. Em maio, os colombianos elegerão seu novo presidente.

Iván Cepeda tem 63 anos e está em seu terceiro mandato como senador – atualmente filiado ao Pacto Histórico, o partido de Petro. É filho do ex-­senador Manuel Cepeda, do União Patriótica, que foi assassinado em 1994 por paramilitares com participação de oficiais do Exército. Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos decidiu que o Estado colombiano violou convenções internacionais no julgamento do assassinato de Manuel Cepeda. Depois da morte do pai, Iván passou a atuar em organizações sociais em torno da violência política e fundou o Movimento Nacional pelas Vítimas de Crimes do Estado, que reunia dezessete organizações que buscavam esclarecer crimes ocorridos no país. Formado em filosofia, viveu um período de exílio na França. De volta à Colômbia, entrou para a política institucional.

Aos 47 anos, Abelardo de la Espriella nunca ocupou um cargo público. Advogado atuante na Colômbia e na Itália, é dono ou sócio de empresas nas áreas de direito, comércio de alimentos e bebidas, produção de vinho, obras de engenharia e atividades imobiliárias. Prestou serviços como consultor para as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), um grupo paramilitar e narcotraficante de extrema direita ativo nos anos 1980 e 1990. De la Espriella fez fortuna, da qual se gaba rotineiramente em seu perfil nas redes sociais. Em 2025, decidiu se candidatar à Presidência da Colômbia. Ele se autodenomina El Tigre e, eventualmente, posta vídeos feitos com inteligência artificial com um tigre de terno liderando uma multidão. Diante da renitente presença do crime organizado no país, promete ações no estilo linha-dura de Nayib Bukele, o presidente de El Salvador. Com uma estratégia bem montada de redes sociais, De la Espriella escalou nas pesquisas. Em dezembro do ano passado figurava em segundo lugar com 16,2% das intenções de votos, enquanto Cepeda alcançava 30,7%. Em janeiro passado, em uma pesquisa da AtlasIntel com internautas, De la Espriella alcançou 28% de intenções de votos, enquanto Cepeda teve 26,5%.

O que está em jogo pode parecer familiar para brasileiros. De um lado uma figura reconhecida do campo da esquerda, com um histórico político consistente, um jeitão de professor universitário e pouca força nas redes sociais. Iván Cepeda é um político à moda antiga. De outro, uma figura que demonstra poucos escrúpulos, com um histórico controverso, pinta de milionário e muita capacidade de pautar o debate no mundo digital. Se eleger seu sucessor, Petro terá feito uma conquista notável. Se De la Espriella vencer, Trump terá mais um aliado no continente.


A pesquisa inicial para este texto foi realizada a partir de uma visita organizada pela Rede de Inovação Política na América Latina (RINP) a Bogotá, em janeiro de 2025, em que ativistas de oito países do continente se encontraram com lideranças sociais, analistas e políticos colombianos.

Roberto Andrés
Roberto Andrés

Urbanista e professor da UFMG. É diretor da Rede Nossas Cidades e autor de A Razão dos Centavos (Zahar).

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