CRÉDITO: LOREDANO_2026
A utopia levada a sério
O passado e o futuro do socialismo no novo livro de Fernando Haddad
Celso Rocha de Barros | Edição 233, Fevereiro 2026
Em Capitalismo superindustrial, livro que lança neste mês pela editora Zahar, Fernando Haddad tenta fazer três coisas: a) demonstrar que há vários caminhos possíveis para a modernidade capitalista, e que a trajetória de entrada de cada país no capitalismo tem consequências para seu desenvolvimento posterior; b) com base nessa ideia, oferecer uma caracterização do que foram as experiências socialistas do século XX na União Soviética e nos países que nela se inspiraram; c) oferecer uma explicação do capitalismo contemporâneo (o “superindustrial”) que revisa pontos da teoria marxista tradicional e ajuda a explicar os novos conflitos que hoje nos desafiam.
É importante sair da leitura da introdução tendo clareza sobre esses objetivos. Haddad aprofunda muitas discussões em passos intermediários de seu argumento central. Sem alguma clareza sobre o plano geral da obra, é fácil se pegar pensando: “O.k., mas o que isso tem a ver com o que eu vinha lendo até agora?” Não é sempre um problema estilístico, mas um traço comum em estudos acadêmicos, em que cada ponto do argumento precisa ser exaustivamente embasado. E boa parte do livro foi extraída de trabalhos acadêmicos: suas teses de mestrado, em que discutiu a natureza das sociedades de tipo soviético, e seu doutorado, em que propôs um debate entre as teorias de Karl Marx e Jürgen Habermas (dando mais razão para o alemão mais velho). Há também capítulos que o ministro da Fazenda escreveu especialmente para o livro, que ajudam a atualizar a discussão e amarrar melhor os argumentos.
Alguns trechos curtos retirados da tese de filosofia são bastante desafiadores para o leitor. Toda discussão da dialética marxista pelo filósofo brasileiro Ruy Fausto, por exemplo, é interessante, mostra como Fausto merece que Haddad o chame de “mestre”, mas é completamente inalcançável pelo leitor comum.
Se o leitor pensar em desistir nessa hora, sugiro que não o faça: a dialética está ali, se entendi corretamente, para Haddad refinar distinções conceituais sobre as classes sociais. As conclusões desse trabalho de refino são apresentadas mais adiante. Siga em frente e, se um dia tiver curiosidade, leia Ruy Fausto.
Idealmente, Haddad deveria ter reescrito essas mesmas ideias de forma mais acessível ao grande público. Meu conselho aos amigos acadêmicos sempre é esse: se você espera que sua tese tenha repercussões políticas, não a publique. Em vez disso, publique um livro com as ideias da sua tese.
Entretanto, pelo que tenho acompanhado do noticiário, o autor esteve razoavelmente ocupado nos últimos anos.
O primeiro conceito fundamental discutido em Capitalismo superindustrial é o de acumulação primitiva de capital. Ele é importante porque, mais adiante, Haddad vai propor a tese de que os experimentos socialistas do século XX, como o soviético ou o chinês, foram casos particulares de acumulação primitiva de capital. Uma tese análoga foi proposta, recentemente, pelo economista Branko Milanović no livro Capitalismo sem rivais (Todavia, 2020).
O conceito de acumulação primitiva de capital foi criado por Marx para descrever o processo pelo qual, na transição para o capitalismo, a coerção estatal, e não o mercado, funciona para criar as condições de funcionamento do novo sistema econômico. Durante a acumulação primitiva, o Estado expulsa os trabalhadores das terras que cultivavam tradicionalmente e priva-os de acesso aos meios de produção. Ao mesmo tempo, o capital é acumulado por meio do trabalho forçado de escravizados, colonizados e, em algumas sociedades, servos. Em todos esses casos, as condições para a emergência do capitalismo – capital acumulado, proletários que só têm a força de trabalho para vender – são criadas pela violência, não pelo mercado.
Durante esse processo, a coexistência de mercado e coerção pode tornar a exploração bem pior, comparada tanto com a que havia nas sociedades pré-capitalistas, quanto com a que haverá no capitalismo plenamente instalado. No caso da escravidão colonial, por exemplo, Marx argumenta que aos horrores da escravidão tradicional se somou a pressão por máxima eficiência do capitalismo (inclusive a extração do máximo de trabalho possível de cada escravizado).
O conceito de acumulação primitiva é especialmente importante na caixa de ferramentas marxista porque abre a possibilidade de discutir histórias nacionais do capitalismo que divergem do modelo da Europa Ocidental. O tipo de sociedade que existia antes do capitalismo, bem como o equilíbrio específico entre mercado e coerção no ponto de entrada para esse regime econômico, será muito importante para determinar o modelo capitalista de cada país ao fim do processo.
Em sua extensa discussão sobre exemplos de trajetórias históricas divergentes até o capitalismo, Haddad gasta mais tempo com duas.
Primeiro, com a escravidão colonial, cujo interesse para o leitor brasileiro é óbvio. A discussão, em especial no que tange à crítica da tese do “modo de produção escravista”, é boa. No fundo, saber se na definição geral do escravismo colonial devem prevalecer mais as relações de trabalho escravistas ou a subordinação à economia capitalista europeia é um daqueles debates que não vão acabar nunca. Como o conceito de acumulação primitiva é praticamente desenhado para esse tipo de situação contraditória, o argumento de Haddad funciona.
Depois, o autor analisa a chamada “segunda servidão” na Europa Oriental. A servidão se instaurou no Leste da Europa muito mais tarde do que no Oeste; na verdade, só se consolidou definitivamente por lá quando começava a desaparecer na Europa Ocidental. Essa circunstância, aliada à vizinhança com o núcleo dinâmico do capitalismo global – para o qual exportavam e contra o qual frequentemente guerreavam –, deu às sociedades do Leste Europeu características muito próprias, entre elas um Estado muito mais envolvido na vida social do que o da Europa Ocidental, com seu liberalismo clássico.
A discussão sobre o Leste Europeu é importante porque, como eu disse antes, prepara o terreno para uma das principais teses do livro de Haddad: as sociedades socialistas do século XX foram, em si mesmas, processos de acumulação primitiva de capital. A União Soviética transformou o trabalho, em todo território do antigo Império Russo, em trabalho assalariado. A coletivização da terra produzida pelo stalinismo foi um processo extremamente brutal de separação entre trabalhador e meios de produção (a terra em que os camponeses trabalhavam, mas também seus instrumentos de trabalho, seus pequenos rebanhos etc.). E a industrialização stalinista, combinando a superexploração do trabalho fabril com um importante enclave de trabalho escravo nos gulags, gerou uma enorme quantidade de riqueza que, com o fim da União Soviética, foi privatizada pelas elites surgidas depois da derrocada do regime.
Mas Haddad discorda de quem vê no sistema soviético uma continuidade linear com o velho despotismo “semiasiático” do czarismo. O sistema soviético era incrivelmente mais dinâmico do que o velho despotismo reacionário. As tentativas de industrialização autoritária do czarismo tardio já se parecem mais com o stalinismo, mas mesmo aí Haddad enxerga diferenças: não se pode deixar de levar em conta que a identidade do sistema bolchevique era anticapitalista e anti-imperialista. Aqui podemos lembrar, por exemplo, como a luta por independência tecnológica diferenciou a sociedade soviética do que ocorreu no capitalismo periférico. Ou como o isolamento internacional (tanto o autoimposto quanto o imposto pelos países capitalistas) prejudicou o desenvolvimento econômico da União Soviética.
Com essa interpretação na mão, Haddad vai discutir com a tradição marxista dedicada à reflexão crítica sobre a União Soviética.
Boa parte de Capitalismo superindustrial, talvez sua melhor parte, é dedicada à história da discussão marxista sobre que tipo de sociedade existia na União Soviética e nas sociedades que nela se inspiraram.
Sempre foi difícil reconhecer na União Soviética a realização do ideal utópico marxista. Como lembra Haddad, Marx tinha em mente um modelo de controle operário da produção por meio de cooperativas e um Estado radicalmente democrático, com eleição dos administradores, mandatos revogáveis a qualquer momento, enfim, o exato oposto da máquina centralizada e autoritária construída pelos bolcheviques.
Em defesa de Lênin e sua turma, deve-se lembrar que Marx nunca explicou como esse Estado semianarquista, com tão pouca autonomia em relação à sociedade, planejaria a gestão da economia como um todo. Ninguém obrigou os bolcheviques a preencherem com autoritarismo as lacunas do projeto marxista, mas as lacunas sempre estiveram lá.
Na teoria marxista clássica, o socialismo era um estágio pós-capitalista, a ser construído quando o capitalismo já tivesse realizado suas tarefas históricas: quem já leu O manifesto comunista sabe que Marx tinha enorme admiração por essas realizações. Esperava-se, portanto, que as revoluções socialistas acontecessem nos países capitalistas desenvolvidos.
Isso não ocorreu. A primeira revolução socialista aconteceu na Rússia – ainda marcadamente rural e pouco industrializada –, e daí em diante a revolução foi se deslocando para países cada vez mais pobres: China e antigas colônias na África e na Ásia que lutavam por sua independência. Acompanhando esse movimento, a reflexão marxista revolucionária, a partir de Lênin, foi se deslocando da discussão sobre o capitalismo desenvolvido para a crítica do imperialismo.
Por que a revolução não aconteceu nos países ricos? A explicação marxista clássica envolve a formação de uma “aristocracia operária” – um setor grande da classe trabalhadora que conquistou direitos importantes no capitalismo e, por isso, se acomodou dentro dele. Mas há outra explicação possível, que Haddad poderia ter explorado mais: o exemplo soviético era muito pouco atraente para os operários que já haviam conquistado direitos democráticos e sociais. Os operários – não por acomodação ao capitalismo, mas por consciência de classe – demandavam liberdade de sindicalização, de opinião, de participação política. Se o critério de medição de quão socialista é uma sociedade for o grau de poder que tem a classe trabalhadora, a Suécia social-democrata sempre foi muito mais socialista do que a União Soviética. A resistência do operariado dos países desenvolvidos ao modelo de revolução de tipo soviético foi, também, resistência a entregar a um partido leninista o poder que haviam conquistado em suas lutas.
Para países muito pobres, envolvidos em guerra de libertação nacional, o modelo soviético era muito mais sedutor. Se o desafio era construir um Estado nacional depois da expulsão do colonizador, o partido leninista podia ser uma boa solução: do ponto de vista histórico, Estados raramente foram fundados como democracias. Quase todas as revoluções comunistas aconteceram ou depois que uma das guerras mundiais destruiu o poder do Estado em dado país (como na Rússia em 1917), ou em decorrência de guerras de descolonização. Se você quer mesmo combater o comunismo, seja pacifista.
Se pudessem escolher, os chineses provavelmente teriam enforcado Mao Tsé-Tung pelo desastre do Grande Salto para a Frente, a tentativa de industrialização desastrada em que, segundo diferentes estimativas, entre 15 e 45 milhões de pessoas morreram de fome. Teriam toda razão. Mas muitos deles também reconheceriam que Mao e os comunistas tiveram um papel importante na unificação da China e na criação de um Estado livre do controle das potências europeias que dilaceravam o país. Também teriam razão, embora os comunistas chineses tenham desperdiçado a possibilidade de fazer essa reconstrução com uma frente política mais ampla: até hoje existem resquícios de outros partidos na China, herança de movimentos que participaram da revolução de 1949, mas foram esvaziados pela ditadura maoista.
Mas, se a União Soviética não era a realização do ideal marxista, então era o quê?
O ponto de partida da discussão crítica sobre o modelo soviético sempre foi a obra de Leon Trótski. Ele e Lênin foram os grandes líderes da revolução de 1917. Mas Trótski demorou para perceber que, na ditadura que ajudara a construir, suas habilidades de líder popular e intelectual valiam menos que a excepcional capacidade de Stálin para fazer política de bastidores. Foi assassinado pela KGB no exílio, em 1940.
Para Trótski, a revolução soviética foi sequestrada pela burocracia. O velho revolucionário sempre considerou esse estado de coisas como transitório: ou os trabalhadores soviéticos se insurgiriam contra a burocracia e retomariam o controle do processo, ou o capitalismo seria, em algum momento, restaurado.
Quando o Muro de Berlim caiu em 1989, tendências trotskistas dentro do PT se entusiasmaram com o levante popular no Leste Europeu contra a burocracia, que, entretanto, acabou resultando na restauração do capitalismo. Em defesa dos trotskistas, isso não parecia inevitável em 1989: muitos dissidentes do Leste, inclusive lideranças da época (como Václav Havel, da antiga Tchecoslováquia) eram também críticos do capitalismo. Mas a mudança de clima ideológico que já estava em curso no mundo todo, a necessidade de obter ajuda dos países capitalistas para reconstruir a economia, bem como a desmoralização do ideal socialista pelas ditaduras leninistas, acabou matando essa alternativa.
O grande mérito de Haddad em sua leitura de Trótski é a ênfase nesse caráter transitório do domínio da burocracia. Para o líder revolucionário, a burocracia foi capaz de realizar, com imensa brutalidade e selvageria, a tarefa da industrialização da União Soviética. A industrialização consistiu, sobretudo, em reproduzir em solo soviético as fábricas e outras unidades produtivas que existiam no capitalismo ocidental (em alguns casos, em escala muito maior). Mas a burocracia se mostraria cada vez mais inapta para gerir uma economia que, rapidamente, se tornava mais complexa e desenvolvida. Foi exatamente isso que aconteceu: as propostas de descentralização do regime começaram poucos anos depois da morte de Stálin.[1] Na Hungria, especialmente, o mercado já era admitido em várias áreas da economia antes do fim do comunismo. Na Iugoslávia, já nos anos 1950 desenvolveu-se um interessante experimento de autogestão das fábricas associado à economia de mercado.
O insight de Trótski é mais esclarecedor ainda. Se a burocracia se provou adequada para o período de “assimilação”, de “enxerto” de uma indústria de tipo ocidental, restava o problema da inovação. Durante a história da União Soviética, a ciência desenvolveu-se gloriosamente, mas isso teve muito menos impacto na produção própria do que nos países capitalistas. Os únicos setores em que os soviéticos inovaram – com grande destreza, diga-se – foram o espacial e o militar, os mesmos em que não podia evitar a concorrência internacional.
Isso talvez explique por que a economia soviética, que atingiu níveis de crescimento muito altos, chegou no começo dos anos 1970 com sinais evidentes de esgotamento. Naquele mesmo momento, os países do capitalismo desenvolvido começavam a desmontar o paradigma tecnológico fordista que a industrialização stalinista havia “assimilado”. A tolerância com o que o economista Joseph Schumpeter chamou de “destruição criativa” deu ao capitalismo a vantagem que precisava para vencer a Guerra Fria.
Mas, enquanto o regime soviético durou, os marxistas críticos precisaram explicá-lo. Alguns autores caracterizaram a burocracia como uma nova classe dominante, gestora de um novo tipo de sociedade, que alguns autores definiram como uma tecnocracia radical, e outros como uma nova forma de escravidão. Trotskistas dissidentes e maoistas identificaram na União Soviética um tipo de capitalismo de Estado, com algum segmento do aparato administrativo (a burocracia como um todo ou os administradores de empresas) atuando como burguesia de Estado. Outros autores, ainda, viram na industrialização stalinista uma continuidade evidente dos projetos de industrialização autoritários do czarismo. Alguns dissidentes do Leste Europeu enxergaram a possibilidade de emergência dos intelectuais como uma nova classe.
Esse debate foi muito rico, e Haddad o reconstrói com competência. Sua escolha de autores, como toda escolha de autores, pode ser discutida: por exemplo, senti falta dos trabalhos da chamada Escola de Budapeste, que incluiu intelectuais como Ágnes Heller, Ferenc Fehér e György Márkus, todos muito melhores analistas do socialismo do que seu mestre György Lukács. O livro também seria enriquecido com uma discussão sobre a obra do economista húngaro János Kornai, o grande analista das economias de tipo soviético. Isso ajudaria Haddad a evitar um dos problemas de sua análise: na maioria das vezes, sua descrição do que era uma economia planificada corresponde muito proximamente à autoimagem dos regimes socialistas, mesmo que ele denuncie sua ineficiência, seu autoritarismo.
Historicamente, o planejamento nunca foi sinônimo de controle total do processo produtivo: o operariado soviético, por exemplo, não deixava de mudar de emprego, em busca de condições melhores, a despeito do planejamento central. E nisso era ajudado pelo fato de que os administradores de empresas tinham uma demanda sempre crescente por força de trabalho (e por tudo o mais, diria Kornai): afinal, não estavam limitados pela necessidade de vender com lucro. Kornai também ajuda a entender o motivo pelo qual – ao contrário do que Trótski imaginava – a burocracia não dominava apenas porque alguém tem que organizar a fila da comida em um país pobre. Na verdade, a burocracia produzia suas próprias filas, seja por causa da “disparada de demanda” das empresas, seja porque os salários eram mais altos do que a oferta de produtos. Essas filas sobreviveram mesmo quando a União Soviética passou a ter uma renda bem maior.
Haddad produziu uma crítica desse debate melhor do que qualquer outra que eu conheça na literatura internacional. Pode-se discordar de seus argumentos, mas dá trabalho.
No geral, as críticas de Haddad à tradição marxista são bem formuladas. Isso não quer dizer que sua própria interpretação do socialismo real não tenha pontas soltas e aspectos que poderiam ter sido mais bem desenvolvidos.
Muito depende do que se faz com o conceito de “acumulação primitiva de capital”. Caso o termo seja aplicado retrospectivamente, depois que já sabemos que um determinado tipo de sociedade serviu para acumular capital para o desenvolvimento posterior do capitalismo, então a tese de Haddad é trivialmente verdadeira. Qualquer que seja sua opinião sobre o que era a União Soviética, não resta dúvida de que a riqueza que ela produziu foi apropriada como capital pelos capitalistas que emergiram na Rússia na época do governo de Boris Iéltsin (1991-99), primeiro presidente depois do fim do período soviético. Nesse sentido, é indiscutivelmente certo que a União Soviética realizou acumulação primitiva de capital. Mas isso, por si só, não diz muito sobre que tipo de sociedade houve ali.
Haddad aponta uma similaridade evidente, indiscutível, entre casos anteriores de acumulação primitiva e o caso soviético: a industrialização stalinista separou os trabalhadores dos meios de produção de que dispunham desde o tempo da velha comuna agrícola russa, como a terra e os instrumentos de trabalho, ou que adquiriram desde a grotescamente tardia abolição da servidão na Rússia em 1861. Devemos falar de expropriação, inclusive, do controle operário sobre fábricas durante o breve experimento dos conselhos (soviets) de fábrica, nos primeiros anos da revolução.
A instabilidade estrutural da dominação burocrática, um dos argumentos centrais do livro, também reforça o caráter transitório da experiência socialista. Poderia ter sido uma transição para outra coisa que não o capitalismo? Nunca saberemos, mas possibilidades jamais realizadas talvez tenham existido também em outros processos de acumulação primitiva, que, como o caso soviético, foram arranjos instáveis e contraditórios.
Mas há outra similaridade, não explorada em Capitalismo superindustrial, entre a experiência socialista e outros processos de acumulação primitiva de capital. Nas sociedades pós-socialistas (China incluída), por exemplo, as elites que conduziram a acumulação tornaram-se, elas mesmas, parte importante da nova classe capitalista. Não obtiveram essas vantagens apenas porque o velho regime acabou, mas como decorrência direta dos lugares privilegiados que ocupavam no antigo sistema.
Isso claramente aconteceu no pós-socialismo: muitos dos novos capitalistas eram antigos administradores de empresas ou, em muitos casos, membros do Partido Comunista. Ocorreu, inclusive, durante o processo de “privatização espontânea” (a transferência legal ou ilegal de recursos das empresas soviéticas para as novas empresas criadas pelos membros da antiga elite) – processo que precedeu a privatização oficial. Foi o que se passou, em maior ou menor grau, em todas as sociedades pós-socialistas, independentemente da estratégia de transição adotada.
Trata-se de consequência direta da estrutura social dos países socialistas, onde a divisão do trabalho na produção dava poder aos administradores de empresas e a ditadura concentrava enorme poder nas mãos dos dirigentes do Partido Comunista. Esse padrão, a emergência de uma classe capitalista com a genética do processo de acumulação primitiva de capital, é historicamente comum.
A tese de Haddad sobre acumulação primitiva no socialismo real, em termos gerais, resiste bem ao confronto com a historiografia sobre o regime soviético. Mas lamento que esse conflito não seja uma parte maior de Capitalismo superindustrial. Algumas pontas soltas do argumento poderiam ser facilmente amarradas recorrendo a estudos empíricos (e não a outros modelos teóricos).
Finalmente, resta a questão da China e da diferença assustadora entre o milagre chinês e o colapso soviético.
Como vimos, o sistema soviético dava sinais claros de esgotamento já nos anos 1970. Comunistas sinceros como Mikhail Gorbachev tentaram reformar o sistema de acordo com a teoria marxista original, descentralizando-o e eliminando o seu caráter autoritário, mas sem reintroduzir o mercado em larga escala. Sem contar nem com a disciplina autoritária nem com a disciplina do mercado, a economia soviética tornou-se uma corrida caótica de lobbies e de privatização espontânea.
O primeiro passo para as reformas capitalistas na União Soviética deveria ter sido uma retomada de controle dos recursos pelo Estado, que só então os venderia ordenada e criteriosamente. Os reformistas de Iéltsin, com cínica cumplicidade ocidental, privatizaram em meio ao caos. Sobrepuseram aos problemas da perestroika (as reformas econômicas de Gorbachev) as possibilidades de lucro fácil e falcatrua de um capitalismo nascente. O resultado foi um absoluto desastre, que não aconteceu, por exemplo, nos outros países pós-socialistas do Leste Europeu, como Polônia e República Tcheca. Muito menos na China.
Depois da morte de Mao em 1976, a China estava completamente exaurida com o surto de fanatismo ideológico da Revolução Cultural (1966-76). Aproveitando a aproximação que Mao iniciou com os Estados Unidos, a liderança chinesa adotou uma estratégia muito diferente da soviética, bem mais pragmática. Foi muito além de Gorbachev nas reformas de mercado, mas implementando-as de maneira mais gradual do que fez Iéltsin.
A ditadura de Deng Xiaoping (1978-92), incomparavelmente menos brutal que a de Mao, pode ter sido funcional para acomodar o setor estatal à transição e assegurar uma inserção disciplinada no mercado mundial. Os números do milagre chinês das últimas décadas são inegáveis: trata-se de um dos principais eventos da história mundial. Se a ditadura chinesa ainda é útil para a China, ou se continuará sendo para sempre, é uma questão completamente diferente. Caberá aos chineses resolvê-la.
Tanto Haddad como Branko Milanović propõem, corretamente, que o sucesso econômico chinês traz problemas para as hipóteses dos economistas Daron Acemoğlu e James Robinson, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, que argumentam que o segredo do crescimento consistente (para além de “milagres”) está nas instituições inclusivas (mercado e democracia). Ora, a China cresceu com mercado, mas sem democracia.
Aqui cabe a dúvida: o erro está em não admitir que ditaduras podem promover crescimento sustentado? Ou em não reconhecer a possibilidade de especialização funcional das instituições de cada país em um sistema global?
A ditadura chinesa prosperou por fornecer mão de obra, só inicialmente barata, mas sempre disciplinada e de qualificação profissional rapidamente crescente, para empresas cada vez mais globalizadas. Essas mesmas empresas, muitas vezes, preferiram manter suas finanças em Londres e seus setores de pesquisa na Califórnia, onde instituições inclusivas protegem sua propriedade e favorecem a inovação. Nesse caso, a China pode ter problemas, não por ser uma ditadura, mas porque a globalização está recuando.
Haddad, enfim, discorda de Milanović sobre o caráter irremediavelmente capitalista da China. Os dados de Milanović são indiscutíveis: a economia chinesa é essencialmente uma economia de mercado, e o setor privado é responsável pelo dinamismo das últimas décadas. Quando Xi Jinping aumentou o imposto sobre os ricos chineses, me lembro de fazer esta piada: “Maoismo faz virada para a esquerda e se torna social-democrata.”
Entretanto, pergunta Haddad, o modelo chinês é irreversivelmente capitalista? Talvez não seja. Autores marxistas, como Domenico Losurdo, acreditam que a China vive uma espécie de NEP – a sigla da nova política econômica soviética adotada nos anos 1920, que restaurou mecanismos de mercado para reconstruir o país depois da guerra civil. Para esses autores, o socialismo na China nem ganhou nem perdeu: está em suspenso, e não se deve descartar a possibilidade de que a evolução futura do sistema gere algo que possa ser chamado de socialista (aqui já enfraquecendo muito a necessidade de se adequar ao projeto marxista original).
Haddad concorda que o futuro do sistema chinês ainda está em aberto. Ele deveria ter desenvolvido mais esse argumento. Em um sentido trivial, o futuro de qualquer coisa é incerto. A China pode, um dia, se tornar socialista, mas isso também pode acontecer no Brasil, no Senegal ou na Dinamarca.
A questão é se há traços específicos na China que tornariam esse desenvolvimento mais provável. O suspeito óbvio, claro, é o regime político, que mantém, ao menos nominalmente, sua fidelidade ao ideário marxista-leninista. Mas o que isso quer dizer? Tanto Haddad como Milanović mostram que esse ideário foi, no século XX, a ideologia de projetos brutais de acumulação primitiva de capital na periferia capitalista. Ele pode ser reciclado como inspiração para algo genuinamente democrático, como na proposta marxista original?
Descartemos, já de início, qualquer tentativa de racionalizar a experiência chinesa atual como democrática: isso é mudar o sentido das palavras, não descrever a realidade.
Se for possível partir do marxismo oficial chinês e chegar em uma democracia com mais preocupação social, uma economia eficiente e menos poder político para os ricos do que na democracia ocidental, será uma maravilha. Torço para que esse novo regime, além de se tornar democrático, avance na desmercantilização de setores cruciais da vida com serviços públicos (o Estado de bem-estar social chinês é pouco desenvolvido) e renda básica. Se ainda houver mercado, e for uma democracia, eu vou chamar de social-democracia. Mas, se outros quiserem chamar de socialismo, talvez tenham razão.
Também é possível que as reformas de mercado sejam revertidas, e o sistema chinês se torne, novamente, parecido com uma sociedade de tipo soviético (ou maoista). Nesse caso, baseado nas reflexões de Haddad, poderíamos nos perguntar: qual seria a funcionalidade dessa regressão, agora que a China já se tornou, com enorme sucesso, capitalista? Haverá uma forma social mais adequada ao período de desglobalização, acelerado por Donald Trump? Se o sistema chinês deixar de promover crescimento consistente, a contradição emergente entre forças produtivas e relações de produção dará início a uma era de revolução social, como previa o velho Marx?
Nos últimos capítulos do livro, Haddad deixa de lado os países socialistas e dirige sua atenção às novas formas do capitalismo moderno. Seu interesse é descobrir o que, nessas novas configurações, favorece ou dificulta alguma forma de horizonte utópico.
Se a discussão sobre o socialismo real se baseou em atualizações de sua tese de mestrado, aqui somos apresentados a ideias que Haddad produziu em seu doutorado, quando contrastou o pensamento de Karl Marx com o de Jürgen Habermas. Quase tudo que entrou no livro é sobre Marx, o que (digo isso sem ter lido a tese) pode ter sido uma pena: Habermas é um autor importante para pensar a política democrática, e o déficit de democracia política no marxismo ortodoxo é evidente.
Haddad chama o capitalismo contemporâneo de capitalismo superindustrial. O nome soa estranho, porque o consenso acadêmico é que a indústria vem perdendo centralidade na economia moderna. Ele rejeita essa premissa: o número de pessoas empregada na indústria vem caindo, é verdade. Ao mesmo tempo, porém, nossa sociedade vai se tornando cada vez mais gerida pelos princípios da sociedade industrial: no setor de serviços mais modernos, por exemplo, há coisas muito próximas de uma linha de montagem, ou da disciplina fabril. A cultura se organiza como indústria cultural, e mesmo a administração das igrejas vai se tornando cada vez mais racionalizada, como em uma indústria.
O ponto central do supercapitalismo é a incorporação da ciência como fator de produção, como núcleo dinâmico da produção. Essa ideia já estava presente nos Grundrisse de Marx, manuscritos publicados postumamente com caminhos que os argumentos de O capital poderiam ter seguido se seu autor não tivesse morrido antes mesmo da publicação do segundo volume.
A incorporação da ciência produz, para as empresas de ponta, “superlucros” (o “super” de “capitalismo superindustrial”) por meio de fenômenos bem conhecidos dos estudiosos. Por exemplo, a inovação, até que seja copiada, é um monopólio. Desenvolvem-se então novos conflitos pela apropriação dessa renda do saber, como antes se lutou pela renda da terra. O debate sobre propriedade intelectual se torna central.
Para Haddad, a incorporação da ciência no cerne do processo produtivo gera um novo segmento social, o dos inovadores, que o filósofo italiano Franco Berardi vai chamar de cognitariado. O trabalho dessa elite nem é trabalho, conforme a definição tradicional, mas atividade criativa, e tem como contraparte um “exército de reserva intelectual” nas universidades. As empresas de software são o caso clássico de atuação do cognitariado, que vive da renda que extrai de um saber de ponta exclusivo.
Ao mesmo tempo, um segmento do proletariado vai sendo excluído pelo progresso tecnológico, dando origem ao que o economista britânico Guy Standing chamou de precariado. O precariado tem uma posição econômica bem mais incerta e frágil do que o proletariado tradicional.
Em uma boa paráfrase de Tolstói, Haddad afirma que enquanto “todas as classes proprietárias se parecem em sua felicidade, cada classe não proprietária é infeliz à sua maneira”. Isto é: não há nada, no funcionamento automático da economia, que levará à convergência dos interesses do cognitariado, do proletariado e do precariado. Os interesses do cognitariado podem convergir com o dos proprietários, por exemplo, na defesa da mudança tecnológica – o que pode ameaçar proletários e precários. Mas também pode convergir, em outras dimensões, com os do proletariado, com quem o cognitariado compartilha a submissão aos proprietários.
Para que haja um renascimento das esperanças utópicas, portanto, dependeríamos de conciliações políticas e da criatividade para pensar novos projetos de futuro que contemplem essas alianças. Os debates atuais sobre os efeitos da inteligência artificial na produção mostram como é difícil pensar a política em meio à exclusão de multidões inteiras do processo produtivo, à acumulação de superlucros e aos monopólios de produção de saber.
O centro da reflexão de Haddad foi extraído de uma tese produzida antes de muitos dos debates políticos mais recentes. Há capítulos novos, feitos especialmente para o livro, que se debruçam sobre as teses a respeito do capitalismo contemporâneo, como as do capitalismo cognitivo e do tecnofeudalismo. A discussão é ótima, como no caso das teorias sobre o sistema soviético, mas não avança muito sobre os projetos de futuro possíveis na atual conjuntura.
Se o livro de Haddad tem uma fraqueza substantiva, é essa: nem no debate sobre o socialismo real, nem no debate sobre o supercapitalismo, ele discute o que seria exatamente uma visão do socialismo, ou alguma alternativa democrática pela qual valha a pena lutar. Seu trabalho é tirar da mesa ideias que já falharam e apresentar os desafios presentes. Já é muito, sem dúvida. Mas é impossível não ficar com a impressão de que mais discussão sobre “o que fazer” – como dizia a velha esquerda – ajudaria o livro.
Fernando Haddad faz parte de uma geração de marxistas que estava amadurecendo intelectualmente quando o socialismo real desmoronou. Para muita gente dessa turma, a reflexão sobre a experiência soviética era a questão mais urgente. O que se podia salvar da herança socialista? Qual era o socialismo possível? Quanto da bagagem do marxismo soviético deveria ser simplesmente abandonado? O marxismo, como teoria, ainda merecia ser levado a sério, depois da queda de regimes autoritários que o utilizavam como ideologia de Estado?
Os anos 1990 foram uma época muito ruim para movimentos políticos marxistas, mas excelentes para quem quisesse pensar com o marxismo. Não havia mais burocracias partidárias prendendo ninguém às ortodoxias do passado. O ambiente entre os marxistas era mais caótico, mas era também mais livre. Haddad parece ter sido um dos intelectuais que souberam aproveitar essa brecha.
Esse ambiente não durou muito tempo: com a desilusão generalizada diante da experiência socialista, os intelectuais de esquerda se concentraram em uma tarefa mais promissora politicamente, a crítica do neoliberalismo. A discussão ambiental abriu possibilidades muito ricas para o pensamento progressista. No meio dos anos 1990, os debates sobre o sistema soviético já pareciam antiquados, um pouco como os debates sobre o Império Austro-Húngaro.
Isso teve um preço. Quando a extrema direita ressuscitou a bandeira do anticomunismo, a ignorância histórica já era tão grande que no balaio dos “comunistas” entrou todo mundo que não fosse fascista. Eu sinceramente gostaria de ver a cara de Lênin ouvindo que “ideologia de gênero” é comunismo. Imagino que ele responderia: “Camarada, calma, eu só quero estatizar os meios de produção!”
Por outro lado, a rica história da reflexão marxista crítica do regime soviético não foi transmitida às gerações posteriores de militantes de esquerda. Hoje temos jovens esquerdistas obviamente inteligentes e valorosos repetindo coisas sobre a experiência comunista que, sem exagero, nenhum militante do PCB teria coragem de dizer depois dos anos 1960. A primeira vez que vi alguém sem problemas mentais óbvios defender o regime da Coreia do Norte faz cerca de cinco anos.
O trabalho teórico realizado em Capitalismo superindustrial é, portanto, valioso. Pode-se, é claro, discordar de suas teses – como fiz algumas vezes neste texto. Mas o debate sobre o socialismo depende do resgate dessa herança crítica. E, mesmo se você não acredita – como tem todo o direito de não acreditar – na viabilidade da alternativa socialista, um fato é inegável: a aspiração socialista é um traço recorrente nas sociedades capitalistas, e é parte importante da identidade ideológica da esquerda. A conversa sobre socialismo talvez migre agora de planejamento centralizado para algo como renda básica, superação da sociedade do trabalho ou para ideias que ainda não nos ocorreram. Mas ela é claramente importante para muita gente que tenta melhorar o mundo de maneira democrática e corajosa.
[1] Para quem tiver interesse neste assunto, recomendo a leitura do livro de ficção histórica Red plenty (Abundância vermelha), de Francis Spufford (Faber & Faber, 2010).
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