O horror da guerra
A Voz de Hind Rajab dramatiza sofrimento palestino ao narrar resgate de uma criança
Um atendente do Crescente Vermelho, o braço da Cruz Vermelha na Palestina, recebe uma ligação. Do outro lado da linha, uma mulher na cidade de Gaza pede socorro durante a invasão israelense. Ao fundo, gritos, tiros e bombas – até a ligação cair. Quem atende o celular logo em seguida é Hind Rajab, uma criança de 5 anos que estava no carro com os tios e quatro primos, todos eles assassinados pelo exército de Israel. O veículo foi alvejado 355 vezes.
O filme A Voz de Hind Rajab, dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, é uma dramatização de eventos reais e utiliza gravações verídicas da tentativa de resgate da criança. Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza, o longa-metragem concorre ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
A brutalidade da situação contrasta com a inocência de Rajab. “Vem me buscar”, ela repete. Ela está escondida debaixo do banco, sozinha, sem água ou comida. Enquanto os voluntários se revezam para manter a menina na linha e tentar acalmá-la, a equipe do Crescente organiza o envio de uma ambulância ao local ocupado pelos israelenses. A missão é complexa e envolve negociações com o exército, a Cruz Vermelha, na Suíça, e autoridades palestinas. A autorização é necessária para que as ambulâncias não virem alvos militares – o que já custou a vida de dezenas de socorristas.
Conforme as horas passam, Rajab ganha consciência de sua situação. O barulho de tiros não cessa. Em nenhum momento o filme exibe cenas da criança no carro, apenas sua voz. Na ligação, ela diz que seus parentes estão mortos e que o exército irá matá-la também. Ela narra a aproximação de tanques israelenses. “Estou com medo. Vou morrer. Por favor, vem me buscar”, ela pede novamente. A certa altura, já sem saber o que dizer à criança, a voluntária Rana Faqih começa a recitar o Alcorão Sagrado, enquanto Rajab repete os versos. É, talvez, a cena mais emocionante do filme. “Você recita muito bem”, a menina diz, ao final da oração. Rajab suportou o terror por cerca de três horas, até parar de responder.
O genocídio perpetrado por Israel está fartamente documentado na imprensa e nas redes sociais, produzindo imagens apavorantes. Este filme, porém, prova que sempre há espaço para mais sofrimento. Escutar uma criança de 5 anos narrando a iminência da morte dá a real dimensão da crueldade imposta ao povo palestino.
