CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
A bola e a bomba
O futuro em suspenso de um país e de um goleiro brasileiro
Pedro Tavares | Edição 235, Abril 2026
IRÃ
Na noite de 26 de fevereiro passado, os torcedores grudaram os olhos na partida entre o Gol Gohar e o Tractor FC pelo campeonato iraniano, dois times no topo da tabela. Muita gente esperava uma vitória confortável do Tractor, já que na rodada anterior o Gol Gohar tinha sido goleado por 5 a 1 pelo Chador Malu Yazd, quinto colocado da liga. Não foi o que aconteceu. O Gol Gohar chegou ao fim do jogo sem marcar, mas conseguiu segurar o vice-líder do campeonato, deixando passar apenas uma bola. A derrota por 1 a 0 teve, no caso, um inesperado gosto de vitória para os seus torcedores.
“Acho que minha atuação gerou boa impressão. O técnico veio me parabenizar no fim do jogo”, disse à piauí, alguns dias depois do jogo, o goleiro baiano Marcos Venicius Santos Miranda, o único brasileiro da equipe do Gol Gohar. A partida daquela noite foi a primeira em que ele atuou como titular na liga nacional desde que foi contratado, em agosto do ano passado, pelo time de Sirjan, cidade a 900 km da capital Teerã.
Depois do jogo, Marcão, como é mais conhecido o goleiro, viajou com sua mulher para Teerã, onde o clube mantém quartos de hotel para todos os jogadores. Na sexta-feira à noite, o casal foi jantar com amigos no Rodizio Brazilian Restaurant, uma churrascaria em estilo brasileiro, e lhes contou que no dia seguinte planejava fazer um passeio pelo Grand Bazaar, mercado histórico em Teerã.
No sábado, dia 28 de fevereiro, um estrondo acordou Marcão às nove da manhã. Ainda sonolento, ele achou que o barulho tinha sido provocado pela batida forte de alguma porta. Mas, incomodado com a proporção do ruído, achou melhor consultar o celular. Não era uma porta. Os Estados Unidos e Israel estavam bombardeando o Irã.
Marcão logo pensou em seus pais e no pânico que eles sentiriam ao saber dos ataques. Resolveu lhes enviar imediatamente uma mensagem, antes que o governo iraniano cortasse a internet, como costuma fazer quando ocorrem conflitos ou protestos no país. “Caiu uma bomba aqui, vamos ficar sem internet, mas estamos bem. Não fiquem nervosos”, ele escreveu. Aquela bomba, por sorte, tinha caído longe do hotel.
Os bombardeios continuaram. Com a tensão crescente, o goleiro e sua mulher acharam melhor fazer correndo as malas e aguardar orientações do clube. Desde o início de fevereiro, com as crescentes ameaças do governo americano contra o Irã, o Gol Gohar já havia preparado seus jogadores. “Eles falaram pra gente que, se acontecesse algum ataque, iriam providenciar nossa fuga pra fronteira”, contou Marcão. “Mas a gente nunca espera que de fato vai acontecer, né?”
Durante o sábado, ele e sua mulher permaneceram dentro do hotel. Da janela do quarto, observavam Teerã deserta. “O hotel fica em uma das principais avenidas da região, e a gente não via nenhum carro passando.” A única loja aberta era uma lanchonete de sanduíches kebab.
O casal passou o dia assistindo às notícias sobre os ataques na tevê local, mesmo sem entender a língua do país, o farsi. “É algo que nem passa pela cabeça da gente vivenciar. Ainda mais em outro país. Era um sentimento de estar perdido, vulnerável”, descreveu Marcão.
À noite, ele recebeu uma ligação do seu empresário brasileiro, que estava em contato com o clube: o casal iria na manhã seguinte para a fronteira com a Turquia.
Por volta das nove da manhã de domingo, eles entraram no ônibus que os esperava na porta do hotel. Além de Marcão, havia outros cinco jogadores estrangeiros do Gol Gohar e alguns membros do Persepolis, dentre eles o gaúcho Osmar Loss, atual treinador do time, e sua comissão técnica, com três brasileiros. A viagem de cerca de doze horas até a fronteira com a Turquia transcorreu com tranquilidade, apesar da situação alarmante. “Teerã estava toda fechada. Não tinha um carro na rua. Era um clima de guerra, mas não cheguei a ver lugares bombardeados.”
Quando o ônibus chegou à fronteira, todos seguiram a pé até a alfândega para a fiscalização, que demorou cerca de quinze minutos. Depois, pegaram um táxi até a cidade de Van, onde existe um aeroporto. Marcão e sua mulher decidiram voltar para o Brasil diretamente de lá, fazendo escala em Istambul. “Foi um grande alívio estar em outro lugar, mas continuei preocupado, sem saber como será meu futuro”, disse o goleiro.
Enquanto o campeonato nacional estava paralisado, em meados de março, a Federação de Futebol do Irã precisava tomar uma decisão urgente. A dois meses e meio da Copa do Mundo, ainda não se sabia como será a participação iraniana no torneio, que terá jogos nos Estados Unidos, Canadá e México.
Numa entrevista à tevê estatal iraniana, em 11 de março, Ahmad Donyamali, ministro dos Esportes, declarou que o seu país não disputaria a Copa, pois as três partidas que jogaria na fase de grupos estão previstas para ocorrer nos Estados Unidos. Um dia depois da declaração de Donyamali, o presidente Donald Trump recomendou que os iranianos se ausentem da Copa do Mundo. Por questões de segurança, ele disse, não é recomendável que a seleção jogue nos Estados Unidos.
O jornalista Marcos Uchôa, que já esteve três vezes no Irã para fazer reportagens de esporte e política, acredita que a declaração de Trump mexeu com os arraigados sentimentos nacionalistas. “Os iranianos têm um orgulho muito grande de sua história”, diz ele.
A resposta ao desconvite de Trump veio no mesmo dia. A página oficial da seleção iraniana publicou uma nota em que diz que, “certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo”. Uchôa está apostando que o país vai entrar em campo: “Eles estão disputando um espaço midiático também. Imagina quanta gente havia que não estava nem aí para o Irã, mas que agora vai prestar atenção.” Um executivo internacional do futebol que conhece os meandros da Fifa disse à piauí que tudo seguia “no campo da especulação”: “Ainda não tem nada oficial sendo analisado ou negociado direto com a Fifa.”
Os dias 20 e 21 de março marcaram o ano-novo no calendário persa, com feriado no Irã. Se não estivesse suspenso por causa dos bombardeios, o campeonato de futebol teria então um recesso de cinco dias. Nesse período, Marcão planejava viajar à Itália com sua mulher.
Em vez disso, ele aguarda o fim da guerra e o seu próprio futuro em Itabuna, no interior da Bahia. O goleiro está ansioso para vestir a camisa do Gol Gohar outra vez. “A gente só queria terminar a temporada lá em paz, era reta final de campeonato. O que aconteceu nos deixou totalmente desestabilizados.”
Ele se angustia com a possibilidade de a federação iraniana desistir da Copa, pois essa decisão afetará bastante a carreira de seus companheiros. “Tenho dois amigos iranianos do Gol Gohar que estão na pré-lista de convocados pra seleção”, disse. “É uma decisão muito difícil participar ou não da Copa do Mundo, porque mexe com sonhos. Todo jogador de futebol tem o sonho de jogar uma Copa.”
Por ora, a recomendação do dirigente do Gol Gohar é que ele permaneça no Brasil. “Vão me informar quando for a hora de voltar”, contou Marcão. Ele guarda boas lembranças de sua estadia no Irã, país cujo futuro está crivado mais ainda de incertezas. “O Irã foi o lugar que melhor me acolheu”, contou o goleiro. “Eu adoro morar lá.”
