CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
Cidade do medo
Um israelense e um palestino resistem ao desalento
Talita Fernandes | Edição 235, Abril 2026
JERUSALÉM
É um domingo atipicamente frio em Jerusalém. O termômetro marca 11ºC com sensação térmica de 6ºC. A guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã entra em seu 16º dia, mas, na manhã daquele 15 de março, as sirenes que anunciam bombardeios estão silenciosas. A rotina de Mikael Berkowitsch continua inabalada: em sua caminhada diária pela floresta de Ein Karem, no Oeste da cidade, ele faz e recebe ligações, lê mensagens e organiza seu trabalho.
Menos de 24 horas depois, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu gravou um vídeo para desmentir rumores de que fora morto no conflito. Aproveitou para recomendar que os cidadãos israelenses saíssem ao ar livre, mas ficassem perto de abrigos antibomba.
Berkowitsch pretendia seguir apenas a primeira parte do conselho. Ainda que tenha um abrigo a 300 metros de casa, prefere não usá-lo. “Não é uma questão política, eu apenas não vou”, diz ele à piauí. Nos primeiros dias da guerra, quando as sirenes chegavam a soar cinco vezes em um só dia, ele se sentiu exausto de tanto ver o medo no rosto de seus compatriotas. Crítico do governo, Berkowitsch acredita que esse medo é usado como “arma de destruição em massa”.
Três dias mais tarde, a 10 km da floresta de Ein Karem, Izzeldin Bukhari toma seu café no Austrian Hospice, hospedaria que mantém um simpático restaurante com uma área externa. Em dias de guerra, é dos poucos lugares que ainda abre suas portas na Cidade Velha de Jerusalém, onde Bukhari mora. A sirene soa, mas ele não se mexe. Mesmo que quisesse, não teria para onde ir: há poucos abrigos naquela parte da cidade.
O israelense Berkowitsch, de 45 anos, e o palestino Bukhari, de 40, se conhecem e partilham um território comum de ideias. Ambos criaram projetos culturais que procuram fugir da busca exclusiva pelo lucro. E se esforçam para escapar do pânico que afeta boa parte da população quando soam as sirenes. Apesar dessa convergência, eles experimentam Jerusalém de modos muito distintos. Bukhari vem sentindo se apertarem ainda mais as restrições sobre a vida dos palestinos desde a Segunda Intifada, em 2000, quando foi limitada a circulação em torno da Mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do Islã.
Embora nascido em Jerusalém, Izzeldin Bukhari não é formalmente um cidadão hierosolimita (natural dessa cidade). O documento que Israel lhe concede é uma mera permissão de residência, revogável em várias circunstâncias, como no caso de ele permanecer mais de sete anos fora da cidade. Ele também não pode votar em eleições nacionais.
No século XVII, ancestrais de Bukhari foram do Uzbequistão para a Palestina, onde fundaram um centro sufista, corrente mística do Islã que prega o contato direto com Deus. Inspirado pela religiosidade familiar, ele fundou em 2015 o Sacred Cuisine, projeto que promove eventos ligados à culinária palestina.
Também oferece passeios guiados pela Cidade Velha, para que os turistas provem delícias da cozinha local nessa área histórica de Jerusalém, atividade que em março estava suspensa, por causa da guerra.
No lado oposto da cidade, Berkowitsch vive os privilégios da cidadania israelense – como poder votar –, mas também seus deveres. Nascido em Jerusalém, ele se mudou com a família para a Suíça quando tinha 3 anos. Passou a infância ali e na França, até que seus pais decidiram voltar para Israel. Foram atraídos pelo que o filho define como “uma visão bastante ingênua” do sionismo. Aos 17 anos, Berkowitsch largou a escola. Mudou-se para o interior e tornou-se pastor de ovelhas. Aprendeu a experimentar e a criar: produz pequenos móveis, sabe fazer instalações elétricas e é músico.
Há doze anos, criou o bar e espaço cultural Mazkeka, palavra hebraica que significa “destilaria”. A ambição do lugar é ser uma “ilha de sanidade num ambiente tóxico”, para “destilar cultura”, nas palavras de Berkowitsch. O bar fica numa rua sem saída a 10 minutos de caminhada do Portão de Jafa, conexão entre os bairros judeu e cristão, e um dos principais acessos à Cidade Velha. Nas noites de sexta-feira, quando coincidem o início do shabat, dia em que os judeus praticantes se recolhem, e o fim da jumu’ah, o equivalente muçulmano, o Mazkeka mostra por que é uma ilha: é um dos poucos estabelecimentos abertos na cidade.
Por mais que busque não se contagiar pelo medo, Berkowitsch vem se interrogando sobre a continuidade do Mazkeka. Ao longo desta década, sucessivos baques vêm atrapalhando o projeto: a pandemia, o ataque do Hamas a Israel, seguido pela longa ofensiva militar que devastou Gaza e, agora, a guerra com o Irã. “Eu queria poder pensar melhor no que vamos promover, planejar os eventos culturais, mas essa situação insana faz com que cada vez mais eu tenha que me ocupar apenas dos problemas”, ele se queixa.
Um desalento parecido afeta Izzeldin Bukhari. Ele se volta para o trabalho toda vez que uma nova crise o assola, mas sente que isso já não é suficiente. Bukhari observa uma Jerusalém que está se tornando cada vez menos palestina. “Não me sinto mais em casa”, diz.
Na culinária de seu povo, que ele busca valorizar e divulgar, percebe marcas de uma história atribulada: o acesso limitado a certos ingredientes influenciou a cozinha palestina e a distingue da praticada em outros países do Levante.
Bukhari observa que, ao longo do tempo, os pequenos comerciantes e produtores rurais que ocupavam o mais exuberante dos oito portões da Cidade Velha foram perdendo espaço para grades de metal, torres de monitoramento do Exército, câmeras de vigilância e soldados portando fuzis. No entanto, mesmo com uma guerra após a outra, eles continuam lá.
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