minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
questões literárias

A ascensão social num país racista

Emily Almeida recomenda um dos destaques literários do ano

| 08 jan 2026_17h03
A+ A- A

INDICAÇÃO DE EMILY ALMEIDA

 

Aascensão social cobra um preço – e, para uma família negra, ele tende a ser mais cruel. Esse é o mote que guia Meridiana, quinto livro da escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz. O livro é dividido em seis capítulos – um para cada personagem narrar sua perspectiva sobre os acontecimentos que moldam a vida dessa família ao longo dos anos.

Aurora e Ernesto moravam na Favela Matadouro, onde o casal se conheceu. Quando começam a ganhar mais dinheiro, mudam-se para um condomínio de classe média chamado Bougainville. É já nesse cenário que acompanhamos também a vida de seus três filhos: os gêmeos César e Augusto e a caçula, Meridiana, que dá título à obra. A mudança traz consigo o plano de replicar o modo de vida das pessoas que vivem no “centro da cidade” – comprar os mesmos móveis, frequentar os mesmos clubes e escolas, vestir as mesmas roupas, se passar por um deles. Apesar da tentativa, e da proximidade, o racismo se encarrega de lembrá-los, a quase todo momento, de que isso não é plenamente possível.

Meridiana é um livro sobre o que chega – e o que fica para trás – com a mudança de classe social. Destaca-se a maneira com que Alves Cruz expõe as tensões que surgem pelo caminho. Um ponto alto da narrativa é a relação da família com uma empregada doméstica negra e as dores que atravessam esse vínculo, de ambos os lados. Os conflitos geracionais também ocupam espaço relevante na trama, incluindo o conservadorismo dos mais velhos.

Alves Cruz descreve com clareza e sensibilidade a angústia de se viver em um não lugar: o novo, que por tanto tempo foi objeto de desejo, revela aos poucos sua hostilidade. A primeira casa – o lugar onde tudo se constituiu, mesmo distante da ideia de sucesso e sem oferecer conforto – carrega um simbolismo nostálgico. A obra remonta à ideia de que as origens nunca nos abandonam por completo, até que, como descrevem alguns personagens, essa familiaridade também se desfaz. Um dos filhos afirma: “Eu estava percebendo que a minha gente também havia se tornado estrangeira para mim.” Não há exatamente para onde voltar, e onde se está também não parece um espaço totalmente seu. Logo nas primeiras páginas, Meridiana pergunta ao pai, Ernesto, se “é mais fácil ir ou voltar”. Ao fim da leitura, essa mesma reflexão nos acompanha.

Outros quatorze jornalistas da piauí indicam obras lançadas no ano que termina. Veja a lista completa aqui.

Assine nossa newsletter

Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí