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A crise no Supremo e os horrores de Trump

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A crise no Supremo e os horrores de Trump

| 23 jan 2026_09h49
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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

 

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:

 

Sonora: Rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista piauí.

Sonora: Nunca tivemos tanta oportunidade e tanta chance de chegar no andar de cima da corrupção e do crime organizado nesse país como agora.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi pessoal!

Sonora: All the United States is asking for is a place called Greenland.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter?

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Sem mais delongas, aos assuntos da semana. O escândalo do Banco Master nem precisa de prólogo mais. Um emaranhado de ativos inflados e operações que se sustentavam na própria mentira. O tamanho do buraco está dado: 81 bilhões de reais, dos quais quase 47 bilhões vão ser cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito, que começou a ressarcir nessa semana os clientes lesados. O conglomerado de Daniel Vorcaro continua caindo por partes. Na quarta-feira, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank, instituição financeira que se vendeu como sendo destinada ao povão, com linguagem simples e promessa de crédito acessível. A fintech estava sob administração temporária desde a liquidação do Master e ainda era tratada como operação a ser salva do grupo. Havia interesses grandes em jogo. Luciano Huck, no seu domingão, foi provavelmente o maior garoto propaganda do Will. A tentativa de salvar a perna digital não vingou e a ruína do banco, que não é propriamente um banco, vai custar mais 6 bilhões ao FGC, além de deixar mais gente lesada. Ao mesmo tempo, passou a circular na praça a possibilidade de uma delação premiada de Vorcaro. Seu advogado, Walfrido Warde, deixou o caso, mas seria precipitado dizer que é por ser contrário ao uso desse mecanismo, versão que está sendo mais difundida por aí. A perspectiva de que o pirata da Faria Lima resolva falar assombra os meios políticos, o Judiciário e muita gente — ou nem tanta gente — que frequenta resorts por aí. E aí vem Dias Toffoli empilhando decisões que ficarão para a história dos contraexemplos de como deve se comportar um juiz, ainda mais um ministro da Suprema Corte. Eu nem vou voltar a carona no jatinho ao lado do advogado dos investigados e a acareação com o diretor do Banco Central antes de qualquer depoimento. Depois da segunda fase da operação conduzida pela PF, Toffoli tentou manter o material apreendido guardado no Supremo. Recuou com a intervenção da Procuradoria, mas seguiu puxando o inquérito para dentro do próprio gabinete. Escolher os peritos que teriam acesso ao conteúdo recolhido, como se isso fosse questão de nomeação. Agora, entre outras, determinou que os depoimentos dos investigados sejam comprimidos em dois dias, 26 e 27 de janeiro, para ouvir oito sujeitos que estavam distribuídos no cronograma mais amplo. As artes do ministro e o mal-estar dentro do Supremo viraram assunto de toda a imprensa. Nos bastidores, há gente tentando achar uma saída honrosa — ou menos desonrosa —do atoleiro, como devolver o caso à primeira instância da Justiça. A fraude do Master é gigantesca e o desgaste institucional do Supremo também. No segundo bloco, a gente vai falar de Donald Trump que parece jogar War e não governar os Estados Unidos. A Groenlândia é o objetivo da vez. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, ele insistiu na ideia de que os Estados Unidos precisam ter a ilha, mas recuou da intenção de uma ação militar, ao menos por ora. A palavra de Trump não vale nada, como se sabe. Ele blefa, se desdiz, mente e às vezes até diz a verdade quando lhe é conveniente. Na véspera do discurso de Trump, o Primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um pronunciamento histórico. “Serei direto”, disse ele. “Estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, não de uma transição. O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal em que a geopolítica das grandes potências não está sujeita a nenhuma restrição”. Carney nem precisou nomear Trump. A reação europeia ao norte-americano foi além do discurso. Na quarta, dia 21, o Parlamento Europeu suspendeu a análise do acordo comercial com os Estados Unidos depois que Trump ameaçou impor tarifas pesadas ao continente caso a Groenlândia não passasse ao controle americano. Trump recuou das tarifas e disse que está bem encaminhado um acordo com a OTAN sobre o controle da Groenlândia. Este acordo seria fixado sobre a cessão formal de áreas da ilha onde os Estados Unidos mantêm bases militares. Veremos. No terceiro bloco, a gente vai fazer um balanço do primeiro ano desse segundo mandato de Trump, ano completado no último dia 20, com saldo muito sombrio e sem muita perspectiva de que possa melhorar. Erosão da democracia americana, desmonte da ordem internacional, ataques e ameaças a antigos aliados. Perseguição às universidades e às minorias. Extinção de programas humanitários. Aparelhamento da burocracia de Estado, tentando transformá-lo em peça da engrenagem da extrema direita. A batalha pelo controle do Fed, o Banco Central americano se inscreve nesse contexto. Um conjunto de horrores funcionando em sequência ou simultaneamente: é isso o governo Trump. Nas últimas semanas, os métodos da Polícia Federal de Imigração dos Estados Unidos, o ICE, ganharam destaque e foram comparados, com razão, a polícia política dos primórdios do nazismo. Invasão de residências, prisões arbitrárias, operações ultra-agressivas são marcas dessa polícia que matou a tiros recentemente uma cidadã americana dentro do carro em Minnesota, provocando grande reação da sociedade americana. Há sinais de guerra civil espalhados pelo país. A cereja do bolo desse desastre civilizacional é a roubalheira em escala astronômica praticada por Trump e por alguns aliados. O Celso vai mostrar isso em detalhes. É isso. Vem com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem! Ana Clara, você que está aí, afiada, esfregando as mãos. Vamos começar com você. Podemos começar pelo mal-estar instalado no Supremo.

Ana Clara Costa: Exato, Fernando. A gente sabe que o assunto da semana é ainda o mesmo da semana passada. O ministro Dias Toffoli, o resort da família dele, que é uma família de classe média de Marília, com renda incompatível com a posse de um resort, como mostrou o Estadão numa reportagem publicada essa semana. A gente sabe que o ministro Fachin, que é presidente do Supremo, voltou antecipadamente do recesso para tentar estancar essa crise. E aí tem uma divisão na Corte em relação a isso, porque tem uma parte da corte que acha que o Toffoli tem que se declarar impedido. E essa é inclusive a visão ali do gabinete do próprio Fachin, né? E outra parte que, enfim, digamos que tem entre os seus entusiastas o ministro Alexandre de Moraes, acha que o ministro sair da relatoria em razão de uma pressão pública. ..Detalhe que não é pressão pública. São evidências inegáveis de conflito de interesse. Mas que ele sair de uma relatoria em razão de pressão, abre brecha para que isso aconteça sempre e no momento em que o Supremo tem ali, nos últimos anos, sido alvo de muita coisa e, enfim, esse conhecido espírito de corpo dos ministros que prefere que o Toffoli fique, mesmo que ele seja moralmente inadequado para a relatoria do caso.

Fernando de Barros e Silva: Alexandre de Moraes tem 130 milhões de razões para querer que o Toffoli fique na relatoria.

Ana Clara Costa: E também tem uma coisa: lá dentro eles acham que isso vai passar, que daqui a pouco outra coisa vai acontecer. Ou o próprio Master vai dar origem a outro escândalo e que eles vão esquecer o Supremo. Vão esquecer o Toffoli.

Ana Clara Costa: Oi pessoal! Depois que a gente já tinha terminado de gravar, algumas coisas aconteceram. O Metrópoles publicou uma reportagem revelando que o STF gastou meio milhão de reais com viagens de seguranças de ministros ao resort Tayayá, que pertencia à família do ministro Dias Toffoli. Esses seguranças estiveram por lá por mais de 150 dias nos últimos três anos. O que sugere que Toffoli seja um frequentador assíduo do local. Já o Estadão, publicou um vídeo do Toffoli recebendo o banqueiro André Esteves no resort, a quem ele recepcionou com um drink nas mãos. Depois dessas revelações, o Tóffoli passou a considerar nos bastidores a possibilidade de remeter o caso do Master para a primeira instância. Dessa forma, o STF se livraria do problema. E o Toffoli também. Por último, embora nos bastidores o ministro Fachin tenha sido crítico à conduta do Toffoli, ele divulgou uma nota referendando o ministro e dizendo que o STF não se curva a ameaças. Ou seja, o Fachin deu o seu respaldo. Dito tudo isso que falamos do Supremo, eu queria trazer aqui, na verdade, um outro assunto ligado ao Banco Master, que não tem a ver com o Supremo, já que o Banco Master está expondo tantos figurões, tantos atores da nossa república. Eu acho que tá passando batido um nome que teve uma participação muito mal explicada em toda essa história, que é o do Roberto Campos Neto.

Fernando de Barros e Silva: Ah, mas agora sou eu que estou esfregando as mãozinhas. Não é você mais.

Ana Clara Costa: Agora, já que há uma investigação, a Polícia Federal está apurando. O Supremo tá cuidando do caso., o Ministério Público, a PGR e tem depoimentos sendo colhidos, pessoas sendo ouvidas… Não seria inoportuno ouvir o que o Roberto Campos Neto tem para dizer sobre o período em que ele foi presidente do Banco Central, que coincidentemente foi o período em que o Banco Master prosperou, né? Coincidentemente, também nesse período que ele prosperou, já havia muitas suspeitas e denúncias de irregularidades do Master ao Banco Central e que foram ignoradas pelo próprio Banco Central. Bom, quando a Consuelo publicou a segunda reportagem dela sobre o Master, que foi em maio do ano passado, nessa reportagem ela relata uma reunião do Roberto Campos Neto com o Daniel Vorcaro, logo no final da gestão do Roberto Campos Neto.

Fernando de Barros e Silva: Estamos falando da nossa colega amiga Consuelo Dieguez, reportagem na piauí.

Ana Clara Costa: Exato. E aí ela relata uma reunião do Banco Central com o Vorcaro, em que o Banco Central dava uma dura no Vorcaro sobre ele precisar aumentar o capital do banco, porque qual era a informação que todo mundo sabia naquele momento? Que o banco tinha captado mais de 50 bilhões em CDBs com investidores. Ou seja, um dinheiro que foi captado pelo banco para investir em ativos. E esses ativos no qual esse dinheiro teria sido investido não valiam 50 bilhões. Então tinha uma conta que não fechava. Como você capta 50 bilhões para investir num negócio que vale dez? E o cara lá que comprou tá achando que vale 50? Essa reunião do Banco Central com o Vorcaro aconteceu ali no apagar das luzes da presidência do Roberto Campos Neto e o que a gente não entende é porque só no final, sendo que nesse momento, até nesse momento que essa reunião acontece, a Consuelo já tinha publicado a primeira reportagem dela sobre o Master, que ela publicou em outubro de 2024, contando tudo o que estava acontecendo ali. Uma outra coisa que a Consuelo relata nessa segunda reportagem que ela fez é que um escritório de advocacia… É claro que o Banco Central já sabia, ou pelo menos suspeitava que alguma coisa estivesse errada no Master, porque o Master tinha 2,5 bilhões de reais em CDBs em 2019, em 2024, 50 bilhões. Então você crescer de um patrimônio de 2,5 bilhões para 50 bilhões em cinco anos ou menos de cinco anos é bastante, mas enfim. Um escritório de advocacia tinha feito um relatório descrevendo os problemas do Master e apresentado esse relatório para o Banco Central na gestão do Roberto Campos Neto. E falava justamente isso que o banco indicava ter problema de solvência e de liquidez, que foi o que de fato aconteceu. Foi a razão da liquidação do banco. E isso foi apresentado para o Banco Central em 2023. Em 5 de março esse relatório foi apresentado e o Banco Central concluiu que não havia necessidade de procedimento de supervisão específico em relação ao Banco Master. Essa foi a resposta que o Banco Central deu para o escritório que denunciou o Master. Bom, tudo isso aconteceu. O Roberto Campos saiu do Banco Central, cumpriu a quarentena dele. Ele tinha recebido um convite para ser executivo do Nubank depois da quarentena. Vamos dizer que talvez o Roberto Campos Neto tenha sido negligente nessa atuação em relação ao Master. Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Teve uma operação que passou meio batida porque era período de eleição em 2022, que foi a Operação Colossus, da Polícia Federal, que detectou uma quadrilha que lavava dinheiro para PCC, para grupos terroristas, até para o Hezbollah, no Brasil, usando criptomoedas usando contas em bancos brasileiros. Essas contas eram em Banco Master, Banco Santander, no período em que o Roberto Campos estava no Santander e era responsável pela área. Genial Investimentos… Master e Genial vieram aparecer depois na Operação Carbono Oculto, que foi a operação que pegou os fundos que lavavam dinheiro para o PCC na Faria Lima. Mas antes da Carbono Oculto, o Master e a Genial já tinha aparecido nessa Operação Colossus, que falava do uso de criptomoedas para lavar dinheiro para o tráfico por meio dessas operações de câmbio com criptomoedas. Bom, o Roberto Campos Neto era responsável pela área de câmbio do Santander e o Santander foi um dos bancos que hospedou essas contas. E o banco, ele tem obrigação de saber se o cliente dele que está operando no banco tem renda para fazer o tipo de operação que ele faz. Então, um cara que ganha um salário mínimo e tá operando 1 milhão tá fazendo trade com 2 milhões, 3 milhões, o banco é obrigado a saber como que ele está conseguindo fazer esse trade. Tanto é obrigado a saber que essa quadrilha tentou abrir conta em outros bancos e os outros bancos não deixaram e denunciaram essas contas para as autoridades. Então você teve banco que denunciou, que fez a sua obrigação e você teve banco que deixou que foi o Santander, que foi o Master, que foi a Genial e outros. O Roberto Campos vai para o Banco Central e essa investigação da Polícia Federal está correndo, né? Pois bem, também está tramitando no Congresso um projeto de lei para disciplinar operações de câmbio. E durante essa investigação da PF, o Banco Central do Roberto Campos pede para o relator do projeto de lei para os bancos, de uma forma geral, serem isentos de responsabilização nesse caso de infração. Então, se um crime financeiro é cometido por meio de uma conta num banco, até então ele dividia a responsabilidade com o criminoso. Ele também era responsável por essa conta que foi aberta e que estava sendo usada para um crime. A partir dessa mudança na legislação, que foi pedida pelo Banco Central, segundo o próprio relator do projeto disse ao Estadão, foi pedida pelo Banco Central da gestão do Campos Neto, sendo que o Câmpus Neto estava conduzindo essa área do Banco Santander quando essas coisas estavam acontecendo no Santander. O que a gente precisava saber, e eu acho que essa investigação pode ajudar a gente é se a coisa ficou muito solta deliberadamente ou por incompetência. Só isso.

Fernando de Barros e Silva: É muito bom se trazer esse personagem que realmente está subfaturado na cobertura em geral. Celso, quero te ouvir.

Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, a Ana já fez a autópsia do caso todo, né? Mas eu queria novamente dizer uma coisa que eu já falei aqui nos outros episódios. Pode parecer chatice, mas é o seguinte: tá faltando direita nas manchetes sobre Banco Master. Vai passando o tempo, vão aparecendo novos envolvidos e é cada vez mais claro que o braço político dessa operação era um partido de direita. E assim, para vocês não acharem que, enfim, é achismo e tal, vamos pegar só as pessoas que estão indiscutivelmente ligadas à operação do banco Master de algum jeito, os políticos. Então, por exemplo, tem uma matéria na Folha da Idiana Tomazelli e do Marcos Hermanson, em 19 de novembro 2025, que mostra que entes federativos, estados e municípios, pegaram grana da Previdência dos seus funcionários e aplicaram no Banco Master. Olha só que ideia sensacional! São 18 entes federativos e se você pegar a lista que saiu na Folha e for na internet, procurar o partido de cada governante desses lugares, que foi o que eu fiz, 17 são de direita. Tem um cara do PSB perdido aqui e tem um cara do PDT aqui, mas aí eu acho sacanagem botar ele porque ele assumiu agora no final de 2025, porque o prefeito foi cassado. O prefeito anterior era do Podemos, partido de direita. Então, assim, entre os caras que botaram a previdência para jogar a favor do Master, quase todo mundo é de direita: 17 em 18. A Malu Gaspar publicou no Globo ano passado que boa parte disso é influência do União Brasil, partido do Rueda, que é um dos sócios do maior agrupamento partidário do Brasil. No momento que a tal da Federação Progressista que junto da União Brasil e PP. Segundo a Malu, boa parte dos responsáveis pela previdência desses estados e que foram responsáveis por esse investimento no Master é o pessoal ligado a União Brasil. De longe, o cara que mais botou dinheiro no banco Master foi o Cláudio Castro, governador do PL do Rio de Janeiro, que, em termos de valor absoluto, mais da metade do dinheiro que foi colocado por todo mundo junto, foi colocado pelo governo do Rio de Janeiro. Agora, se você pegar nas cidades menores, você vê umas coisas que inclusive são mais absurdas, porque é um pedaço maior da grana que os aposentados tem como proporção do que o dinheiro que os aposentados têm em Itaguaí, no Rio de Janeiro, que por acaso essa cidade onde o cara do PDT assumiu porque o cara anterior foi cassado, esse cara que foi cassado foi cassado por uma questão completamente diferente, mas 19,9% da grana da previdência o cara botou no banco Master, eu acho que tem um limite legal de 20%, então ele foi até onde dava para botar. Por exemplo, São Roque a cidade de São Paulo botou muita coisa. Fátima do Sul, de Mato Grosso do Sul botou muita coisa.

Fernando de Barros e Silva: Itaguaí é o nome da cidade do alienista, de Machado de Assis.

Celso Rocha de Barros: A cidade de O alienista. Exatamente. É lá mesmo. E é uma cidade legal de se passar. Agora pronto, tirando esses lugares, esses caras que botaram o dinheiro da Previdência no Master. Qual foi o governador de Estado que tentou comprar o Master para abafar esse negócio de salvar o Master? Foi o Ibaneis Rocha que é do PMDB. É um governador bolsonarista. E não é interpretação minha dizer que ele é bolsonarista. Ele indicou o ex-ministro da Justiça do Bolsonaro, o Anderson Torres, que está preso para ser o responsável pela segurança pública durante o 8de Janeiro.

Ana Clara Costa: E ele se diz bolsonarista também.

Celso Rocha de Barros: E ele se diz bolsonarista abertamente E por aí vai. Se você pegar quem foi o cara que apresentou a emenda Master, a emenda que aumentaria o tamanho do investimento que o FGC cobriria? Ciro Nogueira, do PP. Tem muitos casos assim, de influência difusa do Master, que aí é mais difícil de falar de alguém. Mas se você pegar os caras que tiveram envolvimento comprovado é maciçamente predominante os políticos de direita, o que, na minha opinião, inclusive aumenta a possibilidade de ter uma pizza porque o congresso é deles, né?

Fernando de Barros e Silva: O Alcolumbre também está envolvido.

Celso Rocha de Barros: O Alcolumbre está envolvido para caramba, que aliás, é do União Brasil, né?

Ana Clara Costa: O fundo de Pensão do Amapá, que o irmão dele é um dos responsáveis pelo fundo, investiu.

Celso Rocha de Barros: Além do Cláudio Castro, o Amapá, que o governador é do Solidariedade. Já foi até de esquerda na época, mas rompeu para apoiar o Alcolumbre. E o Amazonas, onde o governador é do União Brasil, entendeu? Então assim, União Brasil é meio que um denominador comum de vários desses operações. Sinceramente, quando apareceu a história do Alexandre Moraes, um monte de gente diz, com razão, que assim a gente não deve deixar o risco do bolsonarismo instrumentalizar isso, nos impedir de criticar o Alexandre de Moraes. E está certíssimo. Mas muito menos, nós devemos deixar as chances da direita ganhar a eleição presidencial desse ano, prejudicar a investigação.

Ana Clara Costa: Bom, sobre a defesa do Vorcaro, tem hoje toda essa expectativa de que ele faça uma delação. Foi uma notícia dada primeiro pelo Lauro Jardim, no Globo, e ao longo da semana teve a saída do Walfrido Warde, que era o principal advogado da turma que estava cuidando do Master e do Daniel Vorcaro. Ficou meio solto assim na cobertura da imprensa que o Warde teria saído…

Fernando de Barros e Silva: Por ser contra o instituto da delação.

Ana Clara Costa: Exato. Não tem nenhuma aspa dele falando isso, mas ficou uma coisa meio implícita. Eu só queria dizer aqui primeiro, que ele não é criminalista. Quem é criminalista, que é o cara que cuida da delação caso ele venha a fazer uma. O Warde não é criminalista. O escritório dele não é um escritório de Direito Penal. Ele atende o Master, ele atendia o Daniel Vorcaro, muito mais em questões regulatórias de Banco Central e CVM. Ele tem advogados no escritório dele, oriundos da CVM, do Banco Central. Dois ex-procuradores do Banco Central já passaram pelo escritório dele. O primeiro que foi o Isaac Sidnei, que hoje é presidente da Febraban. É uma passagem que ele gosta de não lembrar, mas ele passou pelo escritório do Warde antes de ir para a Febraban. Hoje tem outro ex-procurador trabalhando lá, o Warde inclusive tem um dos principais clientes dele, senão o principal cliente dele é o Bradesco, que justamente é um banco, um grande banco. E que, só para quem não sabe né, é um grande banco. Então assim ,deve ter ficado complicado para o Warde conduzir uma estratégia de descredibilização do Banco Central em relação à liquidação do Banco Master, dizendo que talvez não precisasse liquidar, que o Banco Central extrapolou. Foi além e tal. Deve ter ficado complicado para ele explicar para o Bradesco por que ele estava atacando o Banco Central e depois ia ter que voltar no Banco Central ali para advogar para o Bradesco no Banco Central. Como que ele ia fazer, né? Como que você toca uma estratégia de tentar minar uma instituição e depois ter que ir lá pedir arrego na instituição porque você está defendendo teu cliente? Então, eu acho que essas coisas têm que ser consideradas também. Não estou dizendo que o Vorcaro não vá fazer uma delação. É possível que faça. Enfim. Tem muita gente interessada em que ele faça, mas assim não dá para a gente colocar a saída do Warde e a delação no mesmo pacote. Acho que é muito prematuro isso.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, a gente em grande estilo, com essa apuração e reflexão da Ana Clara, encerramos o primeiro bloco do programa. Vamos para um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar de Donald Trump e Groenlândia. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. Você jogava War também? Você tem idade já para jogar War.

Celso Rocha de Barros: Claro, pô!

Fernando de Barros e Silva: Europa, Groenlândia e mais um continente à sua escolha, não é isso?

Celso Rocha de Barros: Exatamente.

Fernando de Barros e Silva: Jogamos muito isso daí.

Celso Rocha de Barros: E para esclarecer para a juventude não era videogame não. Era um jogo de tabuleiro.

Fernando de Barros e Silva: Era um jogo com pecinhas. Vamos lá.

Celso Rocha de Barros: Bom, queria começar perguntando o seguinte quem aí tinha na sua cartela de bingo para 2026 uma campanha de solidariedade ao povo dinamarquês contra o imperialismo? Essa ninguém adivinhou que ia acontecer, né? Fala a verdade. E o que me leva novamente a encher o saco dos caras de esquerda, subanalista, subinfluencer aí de rede social, que passaram a última eleição americana dizendo que tanto fazia para o mundo se ganhasse o Trump ou a Câmara. Fizeram bonito, hein, meus filhos? Fizeram bonito.

Fernando de Barros e Silva: É verdade.

Celso Rocha de Barros: Bom, a primeira coisa sobre a agressão do Trump contra a Groenlândia é que ela mostra que a direita sabe que o aquecimento global é verdade. Eles podem negar o aquecimento global para conseguir voto de otário, mas eles sabem perfeitamente que o aquecimento global é verdade. E é por isso que a Groenlândia é geopoliticamente relevante. Por que ninguém prestou atenção na Groenlândia esse tempo todo e deixaram com a Dinamarca, inclusive? Porque era mais uma coisa que alguém tinha que ir lá tomar conta. Não era um ativo grande. Por exemplo, o mar lá no oceano próximo do Pólo Norte, ficava congelado grande parte do ano. Não era muito utilizado para navegação comparado ao resto dos oceanos. A Rússia, por exemplo, desde o Império Russo, sempre teve como objetivo tentar conseguir um porto quente.

Fernando de Barros e Silva: Só Tamara Klink, que é para…

Celso Rocha de Barros: Não, a Tamara Klink, já pegou com mais água ali.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Sonora: Mas enfim. A Rússia, por exemplo, teve que desenvolver tecnologia de navio quebra-gelo, teve que fazer um monte de coisa para usar ali do jeito que dava. E uma das obsessões da diplomacia russa, tanto no czarismo quanto na época soviética, era invadir algum lugar que tivesse uma saída para o mar quente, para um porto que fosse aberto o ano inteiro. E agora o tempo que aquilo ali permanece aberto aumentou muito. Segundo a CNN, desde o final dos anos 2000 que durante o pico de verão, a passagem noroeste que margeia a costa norte da América do Norte, tem estado praticamente livre de gelo. Então ela passou a ser muito mais navegável. E ainda segundo a CNN, a rota do Mar do Norte reduz o tempo de navegação entre Ásia e Europa para cerca de duas semanas, aproximadamente metade do tempo necessário pela tradicional rota do Canal de Suez. Então aquilo ali se tornou relevante, porque o gelo está derretendo, basicamente, e o Trump está querendo invadir esse negócio, mas continua mentindo que não sabe que o gelo está derretendo. A primeira consequência prática é que se houver a invasão da Groenlândia, a OTAN acabou. Porque não é só uma questão que a Europa teria obrigado por tratado a defender a Dinamarca. Os Estados Unidos estariam obrigado por tratado a defender a Dinamarca. Então assim, evidentemente, o tratado perderia completamente o sentido. A gente não sabe se vai ter invasão, se é só uma tentativa de extorsão, se os Estados Unidos vai conseguir que a Dinamarca proíba empresas chinesas de atuar na Groenlândia ou alguma coisa assim. Mas assim, claramente é um nível de agressão aos aliados americanos. Assim que eu não vou nem dizer se não se vê desde não sei quanto, porque, tanto quanto eu sei, nunca se viu. E a gente tem que levar em conta que tem muito rico querendo ganhar dinheiro com esse negócio de Groenlândia. Segundo John Bolton, que foi secretário do Trump no primeiro mandato e depois brigou com ele e tal, quem botou na cabeça do Trump essa ideia de Groenlândia foi o Ronald Lauder, o herdeiro da Estée Lauder, que é aquela magnata de produtos de beleza. E o Lauder recentemente comprou uma empresa na Groenlândia, mas ele não é nenhum dos grandes que está lá não. A Cantor Fitzgerald, uma imensa empresa financeira que era dirigida pelo Secretário de Comércio Howard Lutnick, e que agora é controlado pelos seus filhos. Ele teve que passar para os filhos o controle quando virou secretário de Comércio. Tem uma participação acionária muito importante em uma empresa chamada Critical Metals Corp. Uma empresa de mineração que já está operando na na Groenlândia e quer começar a operar na extração de minério de terras raras. Agora, esse ano. Uma outra empresa de mineração que está também na Groenlândia ou que tem interesse na Groenlândia é a Kobold Metals, que tem entre seus investidores um monte de gente do Vale do Silício. Segundo o Guardian, você tem lá investindo nessa Kobold Metals, o Mark Zuckerberg, o Jeff Bezos, o Sam Altman da Open AI, esse pessoal todo. Aí começa o lance meio bizarro da história toda. A Groenlândia estava na mira do Vale do Silício antes, por um outro aspecto. A gente falou isso no começo do governo Trump, que tem todo um grupo de investidores do Vale do Silício que, por ser rico, é levado a sério como teórico político e que tem diversas teorias que dizem que a democracia não serve para mais nada e que agora você tem que buscar alternativas, como por exemplo, cidades libertárias autogovernadas que você vai num pedaço de terra que não é de ninguém e monta uma cidade lá sem regulação nenhuma, enfim, com total liberdade econômica, essas coisas assim. O principal cara dessa onda é o tal do Peter Thiel, que enfim, é um dos grandes investidores do PayPal. Enfim, ele tem investimento em todas as grandes big techs, né?

Ana Clara Costa: É que, na verdade, ele não quer nenhuma regra para ele.

Celso Rocha de Barros: Exatamente.

Ana Clara Costa: Ele quer criar uma cidade onde ele não tenha que cumprir nenhuma regra.

Celso Rocha de Barros: Esses caras sempre cogitaram a Groenlândia como um possível lugar para ser colonizado nesses termos.

Ana Clara Costa: Essa terra sem lei.

Celso Rocha de Barros: Como uma terra sem lei, entendeu? E aqui é bom chamar a atenção, porque até agora, pelo menos, eu não vi ninguém dizendo nem o Trump, nem ninguém do governo dele dizendo que a Groelândia se tornaria um estado americano ou que a Groenlândia estaria seria totalmente integrada aos Estados Unidos como um país que daria a todo mundo os mesmos direitos de todo mundo, etc. Entendeu? Então é uma perspectiva real que eles tentem roubar a Groenlândia para transformar num faroeste desse de saque generalizado de minério e especulação financeira e é escândalos financeiros que vão fazer o Banco Master parecer nada. Enfim, então isso é um risco real. E não é à toa que o pessoal da população da Groenlândia não quer nem saber. Cara, os caras são dinamarqueses. Eles têm acesso a um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo. Eles olham pro Estados Unidos e falam “esses selvagens não tem nem sistema de saúde”, entendeu? A gente que devia invadir aquilo ali, colonizar esses caras. E, mas aparentemente a turma do Trump quer ir lá fazer.

Ana Clara Costa: Fora que é estético e estético, né? Imagina um dinamarquês olhar para produto arquitetônico de uma Groenlândia do Trump, assim, você olha para aquilo lá…

Celso Rocha de Barros: O Trump já chegou a fazer um vídeo de uma imagem de inteligência artificial dizendo “Podem ficar tranquilos que eu não vou fazer uma Trump Tower no meio da Groenlândia”, botando aquele prédio dourado feio pra cacete do Trump.

Fernando de Barros e Silva: Nossa, que pesadelo!

Celso Rocha de Barros: Mas assim, essa história da Groenlândia, evidentemente tem um lado de que o presidente dos Estados Unidos é completamente sociopata, mas também tem muito sem-vergonha querendo ganhar dinheiro com esse negócio. No próximo bloco, inclusive, pretendo falar bastante de gente sem-vergonha ganhar dinheiro no governo Trump.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom! Ana Clara, suas apurações em Davos.

Ana Clara Costa: Olha só! Esse ano não rolou, Fernando Não me quiseram em Davos.

Fernando de Barros e Silva: Não rolou.

Celso Rocha de Barros: É a única de nós que pode… Quando você puxa o assunto de Davos, ela pode dizer esse ano não rolou, né cara?

Ana Clara Costa: Bom, pelo que se tem visto sobre a Groenlândia e o que se viu sobre Venezuela e o que se vê sobre Gaza, esse projeto deplorável tanto no sentido humano quanto no sentido estético, quanto no sentido geopolítico que é essa nova Gaza. É muito inacreditável que o Trump queira genuinamente emplacar esse Conselho da Paz. Quando você quer fazer sua ideia prosperar na arquitetura global, ali entre os líderes globais, você tem que oferecer alguma coisa atrativa para seduzir. Imagino, né? Seduzir essas pessoas a aderirem a sua ideia. E ele só oferece absurdos, né? E aí você vê que realmente o mundo está num descompasso sobre o que ele acredita que pode ser um atrativo e sobre o que o resto do mundo olha com repulsa, né? E eu acho que essa questão do Conselho da Paz é muito emblemática, porque ela é o retrato desse descompasso. Então ele quer que os países convidados por ele, não são todos, não são todos que importam, os países convidados por ele, façam parte. Eles poderão pagar 1 bilhão para fazer parte. Nesse Conselho da Paz, só os Estados Unidos teriam poder de veto. Ou seja, o poder não é dividido de forma equânime. Não que no Conselho de Segurança da ONU seja dividido de forma equânime.

Celso Rocha de Barros: Mas aí a divergência entre superpotências abre umas brechas.

Ana Clara Costa: Exato. Então você pode negociar. Eu não vou te vetar ali você não me veta aqui, entendeu? Então, tem sido difícil acontecer acontecesse tipo de negociação, mas é uma possibilidade. Exato. Aí o que ele tá te oferecendo é: “vem para esse clube e quem manda sou eu. Você ainda paga e quem manda sou eu”. Qual é a vantagem? Numa situação comum, isso provocaria a piada. Riso. Teatro do absurdo, né? Só que o que ele tem demonstrado ter vontade de fazer, é tão assustador no âmbito global que os países estão pisando em ovos para negar participar desse conselho. Então a França, que não pisou em ovos, falou na lata: “não vou”. Ele já começou anunciando retaliação, tarifa e enfim. De imediato, a própria George Meloni, primeira ministra da Itália que é de um partido de extrema-direita, não teve coragem de negar na lata e disse “Não acho que poderemos porque tem um entrave constitucional aqui e tal”. Então assim, deu uma desculpa ali que ela gostaria, teria o maior prazer, porém, talvez a Constituição não permita. O Brasil está um pouco nessa mesma linha. A orientação do Itamaraty é para dar uma protelada ali na resposta, pedir informação, pedir dado, pedir documento e com isso ganhar tempo para ver como que o mundo se acomoda diante desse convite recusado. E tem uma questão também que se o assunto durar muito mais tempo e o Brasil não se resolver antes, um dos entraves que o Brasil poderia alegar é o seguinte a doação de 1 bilhão de dólares do governo brasileiro para um Conselho de Paz, por exemplo, seria uma contribuição voluntária a um organismo internacional, na prática. Pela Constituição, uma doação, nesse montante, para um organismo internacional teria que passar pelo Congresso. Então o Congresso poderia não aprovar e o Brasil teria a desculpa de que, infelizmente, como Giorgia Meloni, a gente não conseguiu, teríamos o maior prazer em fazer parte. E o clube é maravilhoso. Vocês viram os países que toparam, né? Bahrein, Marrocos, Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bulgária, Hungria, Indonésia, Jordânia, Cazaquistão, Kosovo, Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes, Uzbequistão e Mongólia. É um time de peso.

Fernando de Barros e Silva: Tá parecendo a Copa do Mundo de futebol.

Celso Rocha de Barros: Agora foi Curaçao.

Fernando de Barros e Silva: Né?

Sonora: Todo apoio a seleção de Curaçao.

Ana Clara Costa: Enfim. Então claro que há divergências, né gente? Que no governo que gostaria que o Brasil tivesse uma posição mais contundente logo de cara, assim, que não ficasse protelando muito, que resolvesse e dissesse porque que não concorda. Mas a estratégia do Itamaraty até este momento é essa de tentar não criar problemas por causa disso. Agora mesmo, porque ainda a gente não resolveu o problema do tarifaço. Ainda tem 20% de exportações que estão sobre tarifas para os Estados Unidos. Tem visto de ministro do Supremo ainda cassado pelos Estados Unidos. Tem muita coisa ainda que o Brasil está negociando.

Celso Rocha de Barros: Não é hora para fazer um grande pronunciamento, uma coisa dessa.

Ana Clara Costa: Exato. Considerando também o ano eleitoral e toda a situação.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Encerramos o segundo bloco do programa. Vamos fazer um rápido intervalo. Na volta, vamos continuar falando de Donald Trump. Vamos fazer o balanço deste primeiro tenebroso ano de mandato. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. Um ano de mandato. Enfim, parece que faz muito mais tempo quando a coisa é tenebrosa parece que faz muito mais tempo. Se a gente pensar que se o mundo existir daqui a três anos ainda vai estar Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. O que será do mundo daqui a três anos com esse ensandecido?

Celso Rocha de Barros: Tá difícil, Tá difícil.

Fernando de Barros e Silva: Tem os ataques da democracia, os ataques às minorias, os problemas na economia, que também não são poucos. Mais recentemente, essa história do ICE, essa polícia de imigração, agora que isso, isso ganhou um novo contorno, uma nova gravidade, enfim. Eu sei que você preparou aí um pout-pourri. Te passo a bola.

Celso Rocha de Barros: Pois é, Fernando, aconteceu muito mais coisa do que nós gostaríamos e nós não gostamos de quase nada que aconteceu, certo?

Fernando de Barros e Silva: Coisas boas e coisas novas, né?

Sonora: Exatamente. Mas nenhuma das coisas novas era boa.

Fernando de Barros e Silva: E nenhuma das coisas boas era nova. Não teve coisa boa.

Celso Rocha de Barros: Não teve coisa boa. Pois é. Mas enfim, como a gente antecipou isso lá no começo do mandato do Trump, o Trump tá seguindo aquele projeto 2025 feito pelo think tank conservador Heritage Foundation, que saiu até um livro esse ano aqui do David Graham sobre o projeto 2025.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom livro.

Celso Rocha de Barros: Que é um projeto de controle completo do Executivo pelo presidente.

Fernando de Barros e Silva: A gente já falou, você fez o prefácio,

Fernando de Barros e Silva: Fiz o prefácio.

Fernando de Barros e Silva: É muito…

Celso Rocha de Barros: O livro é muito bom. Meio assustador, né? E até agora foi o que aconteceu mesmo. A principal proposta é liquidar qualquer abre aspas para o que eles, mesmo trumpistas, dizem ilhas de independência, fecha aspas, dentro da burocracia. Por exemplo, Trump usa o Departamento de Justiça para perseguir os seus adversários abertamente. Não é nenhum segredo que ele faça isso. Ele diz mesmo que vai fazer. “Quando eu ganhar, eu vou botar o Departamento de Justiça para ir atrás desses caras”. E fez. E foi atrás, inclusive de escritórios de advocacia que questionaram medidas do primeiro governo dele na Justiça. E vários desses caras foram muito prejudicados. Estão sendo muito prejudicados. A burocracia americana perdeu qualquer independência. Assim, é bastante claro para um funcionário público americano atualmente que ele tem que fazer o que o Trump mandar e pronto, entendeu? Ele não pode, em nenhum momento, fazer com que a regra prevaleça sobre o que o Trump mandou. E em parte isso foi obtido graças ao Dodge, aquela palhaçada do Elon Musk que eu não sei se vocês lembram, disse que ia poupar dois trilhões de dólares cortando na ineficiência do governo. Depois caiu para um trilhão, depois caiu para meio trilhão. Depois chegou uma estimativa de 260 bilhões. E os recibos que eles mostram até agora são 68 bilhões. E a maior parte dessas coisas não é ineficiência. É cortar coisa que eles não querem fazer, por exemplo, ajuda internacional. Aí tem um negócio muito sério que é assim: muita gente morreu esse ano porque o governo Trump cortou a ajuda internacional, por exemplo, a programas de combate ao HIV ao redor do mundo, especialmente na África. O George W. Bush, que invadiu o Iraque, fez aquela merda toda. Ele teve isso de bom no legado dele. Ele fez uma política de ajuda aos países mais pobres no combate ao HIV, que foi bastante bem feita. O Trump acabou com todas essas coisas. Acabou com todas aquelas coisas de igualdade de gênero. Então, nada disso é coisa de ineficiência. Foi corte de coisas que eles são contra, entendeu? Incentivos à cultura, incentivos às universidades, financiamento das universidades. Então, assim, o corte de ineficiência no Estado americano foi zero. O Elon Musk fracassou absolutamente. Não conseguiu fazer absolutamente nada, mas matou um monte de gente na África e instaurou o caos no governo americano, porque ficou claríssimo que quem não obedecer cegamente ao que o presidente manda vai ser demitido. Um número muito grande de funcionários públicos americanos foi demitido, mas não por qualquer coisa relacionada a aumento de eficiência. Por punição por o cara não fazer o que os trumpistas querem ou por eles atuarem nessas áreas. Como, enfim, ajudar pobre. Coisas assim que causam imensa repulsa no Partido Republicano atualmente. Paralelamente a isso, o Trump começou uma guerra aos seus adversários internamente, que envolve envio de tropas federais às cidades governadas pela oposição, uma demonstração de autoritarismo brutal e inédita na história americana moderna, pelo menos, e fundou sua própria Gestapo, o ICE, que é uma polícia dele, que recebeu um financiamento gigantesco, contrata mais gente a cada dia que passa. É muito grande e caso o Trump tente um outro 6 de janeiro daquele, certamente vai brigar pelo golpe através dos Estados Unidos inteiro. Há sérias suspeitas de que aqueles grupos radicais que a gente via, por exemplo, em Charlottesville, teve aquela passeata famosa de uns caras com umas tochas, uns neonazistas, os grupos de extrema-direita que foram lá apoiar o Trump não sei o quê. Os grupos indiscutivelmente fascistas, inclusive alguns oficialmente fascistas. E o pessoal perguntou “Onde é que estão esses caras que a gente nunca mais ouviu falar?”. Estão no Ice. Quem é o cara que se oferece para ser voluntário lá? Para se registrar lá no ICE, para trabalhar nesse negócio? Esses caras são mascarados. Eles não se identificam publicamente. Eles não estão sujeitos a nenhuma regra de transparência. Estão matando gente sem precisar prestar conta de nada. E com essas medidas, o Trump vai consolidando seu projeto autoritário nos Estados Unidos, o que talvez dificulte o seu propósito é que ele é muito ruim. O Trump é muito incompetente como governante e, bem ou mal, ao menos na transição para o autoritarismo, ele tinha que entregar resultado para ele ganhar a eleição dos midterms agora, por exemplo, a eleição de meio do mandato, onde boa parte do Congresso vai ser vai estar em disputa e inclusive para se reeleger, porque, enfim, é um processo de longo prazo. E, por exemplo, as tarifas. No momento, boa parte do diagnóstico das tarifas é que elas não prejudicaram tanto quanto se esperava a economia americana. Mas o Trump não fez aquilo dizendo que não ia prejudicar tanto assim. Ele fez aquilo dizendo que ia aumentar o crescimento americano significativamente, dizendo que as indústrias iam voltar para os Estados Unidos, as indústrias que tinham ido para os outros países. Isso não aconteceu em nenhum grau. Isso não existe.

Ana Clara Costa: Promessas, tem só a promessas.

Celso Rocha de Barros: Papo furado por completo. Nada disso aconteceu. Em boa parte, mesmo as tarifas viraram um negócio caótico, que ele aumenta ou diminui conforme o xinguem ele no Twitter, entendeu? Então, assim, instaurou-se um clima de imprevisibilidade que chegou ao aug, do ponto de vista econômico, no processo criminal que os trumpistas estão movendo contra o presidente do Banco Central americano. Se você achava que a briga do Lula com o Roberto Campos Neto era animada. Os caras estão metendo processo criminal em cima do do presidente do Federal Reserve, Banco Central americano, porque ele não quer baixar juros tanto quanto os trumpistas queriam. O Fed é um exemplo clássico de ilha de independência que o projeto 2025 quer matar. Então, assim, para os Estados Unidos, a gente já falou bastante dos danos que o Trump causou à ordem internacional, mas para a ordem constitucional americana os danos também foram muito consideráveis. E eu não posso deixar de mencionar que o primeiro ano do governo Trump também foi marcado por uma roubalheira miserável. Foi um negócio que se você soltar o Daniel Vorcaro lá, ele vai ficar escandalizado com aquilo, entendeu? O New York Times estimou que em um ano de mandato, o Trump ganhou 1 bilhão e meio de dólares com mutretas variadas. Por exemplo, o Trump claramente usou essas coisas de tarifa para ganhar dinheiro com os negócios dele. Então, segundo o New York Times, o Trump baixou as tarifas que ele estava impondo ao Vietnã um mês depois das organizações Trump conseguirem autorização para fazer um projeto de 1 bilhão de dólares fora de Hanói, na periferia da capital do Vietnã. O projeto é ilegal pela lei vietnamita, mas o Vietnã fala “dane-se, aprova esse troço aí para o cara baixar as tarifas”. Então, o Trump usou a tarifa para ganhar dinheiro para ele. O Trump recebeu vários subornos abertos, assim, que ninguém nem disfarçou direito que foi suborno. Por exemplo, os 28 milhões de dólares da Amazon pelo documentário sobre a vida da primeira dama Melania Trump. Alguém viu o documentário sobre a vida da Melania Trump?

Ana Clara Costa: O Joesley não ia patrocinar também? Não saiu essa notícia?

Celso Rocha de Barros: Não duvido. Mas pelo menos não apareceu aqui no New York Times. Isso é suborno. Basicamente, a Amazon deu 28 milhões de dólares pro Trump, para o Trump fazer as coisas que a Amazon quer. Inúmeras empresas de mídia aceitaram pagar dinheiro na Justiça para o Trump pelos motivos mais absurdos. Assim, então teve uma uma empresa dessas que o Trump disse : “a edição que você fez aqui dessa fala da Kamala Harris foi muito favorável” e processou o cara. E o cara aceitou, reconheceu os como culpado e deu o dinheiro para o Trump. Isso não é uma, obviamente, um processo jurídico legal. Isso é dinheiro. Extorsão de dinheiro, né? Chegando nos grandões, o Qatar deu o Trump um avião de 400 milhões de dólares que não vai ser o Air Force One para qualquer presidente que se veja de agora em diante, que vai embora com ele quando ele sair da presidência. Então não é que o Catar deu um presente para os Estados Unidos. “De agora em diante, os presidentes americanos vão poder usar esse avião aqui”. Não. O avião é do Trump e custa 400 milhões de dólares. Você imagina que o Qatar não fez isso em troca de nada…

Fernando de Barros e Silva: É incrível como isso possa ser possível, né?

Celso Rocha de Barros: É inacreditável. Não. Mas se você achou isso… Nada de que eu falei até agora é nada comparado ao seguinte o Trump já ganhou pelo menos 867 milhões de dólares com aquelas picaretagens criptomoeda dele. Como bem notou um parlamentar democrata na época, o Trump bolou essa criptomoeda para ele divulgar para o público: “a minha conta na Suíça é essa aqui, bota dinheiro”. Então ele bota aquele negócio, você vai lá e compra a criptomoeda. Você tem o recibo que comprou, mas ninguém mais sabe o que você comprou. Então você pode ir no Trump e dizer: “bicho, botei 200 milhões lá na sua conta, faz o que eu quero e ninguém vai saber”, entendeu? Tá escondido lá dentro da criptomoeda dele. E nessa ele já arrecadou, segundo a estimativa do 867 milhões. Uma empresa de investimento dos Emirados Árabes Unidos anunciaram um plano para depositar 2 bilhões numa empresa do Trump, duas semanas antes do Trump dar autorização para o país ter acesso a chips mais avançados, chips de primeira linha. Então Trump está roubando o dinheiro, que está uma beleza.

Ana Clara Costa: E a Nova Gaza então? Que foi o genro dele que apresentou o projeto em Davos.

Celso Rocha de Barros: Ah, e esse conselho de paz do Trump é meio que o cartel das empreiteiras, né cara? Vamos juntar todo mundo aqui e sacar e roubar dinheiro das obras lá da construção de Nova Gaza, né? Então, enfim, o saldo até agora de um ano, meu amigo, é o desmonte da ordem internacional. Uma campanha agressiva para desmontar a democracia americana e uma roubalheira miserável.

Fernando de Barros e Silva: É isso. A gente estava até em dúvida de fazer dois blocos sobre Trump, né? Mas acho que a gente estava coberto de razão, porque realmente é assustador. Tem resistência dentro dos Estados Unidos, tem resistência da sociedade civil ao ICE, tem resistência política, mas ela ela parece muito débil diante da avalanche.

Celso Rocha de Barros: É débil. Agora, merece registro que é bonito essa coisa dos vizinhos que avisam ao pessoal: “O pessoal do ICE está chegando”. Americanos nativos, cidadãos que avisam os imigrantes. “Gente, o ICE está vindo”. É bonito isso. Isso é um negócio de sociedade civil que não deixa de dar uma certa esperança.

Fernando de Barros e Silva: Todo mundo armado porque lá pode dar arma. É bonito e horripilante ao mesmo tempo. Eu entendo quando você fala que é bonito, mas é. É uma sociedade patologizada. Muito, muito… Todo mundo armado. Não deixa de ser utopia bolsonarista isso, que era cada cidadão uma arma para se defender do Estado.

Sonora: Eu acho que na utopia bolsonarista só eles tem arma, né?

Fernando de Barros e Silva: E é isso, é isso. Ana Clara. Depois dessa…

Celso Rocha de Barros: Esse quadro animador, né?

Ana Clara Costa: Eu vou só me ater a uma parte, uma parte importante desse quadro que que fez a gente chegar até aqui. Vocês mencionaram a resistência da sociedade civil, mas considerando que tudo aconteceu de fato e continua acontecendo, a resistência é pouca ainda, né?

Celso Rocha de Barros: Perdeu a resistência.

Ana Clara Costa: Resistência. E por que a capacidade de reação é reduzida? Porque você tem uma colaboração ou um certo, uma certa acomodação das elites americanas a isso que está acontecendo, que é um sintoma clássico dos governos autocratas. Eles só conseguem florescer porque as elites acabam encontrando conforto em alguma posição dentro daquilo. E foi o que aconteceu nos Estados Unidos, em vários setores. Eu não estou falando só da elite econômica, a elite política também, a elite intelectual também, e até a imprensa em certo aspecto também. Por que eu estou dizendo isso? No caso da elite política, você tinha, como Celso bem lembrou, pessoas no governo passado, na gestão passada do Trump, que eram republicanos, mas eram pessoas racionais. Enfim, não eram pessoas completamente desconectadas, descoladas da realidade e que representavam um certo freio para o ímpeto dele, que era o mesmo que é hoje. Só que hoje não tem freio. E essas pessoas foram aniquiladas. O Mike Pence, que era o vice dele, o John Bolton que o Celso citou, é um cara que hoje tá, ele perdeu até a segurança a qual ele tinha direito por ter sido conselheiro de segurança nacional. Ou seja, é um cara que o Irã procura que um monte de gente quer pegar e o cara perdeu a segurança porque a Casa Branca tirou em janeiro de 2025 assim que o Trump assume. Uma das primeiras medidas dele foi tirar a segurança do John Bolton. E aí, o que que fica de elite política? Ficam políticos republicanos que são alvo, na verdade, de coerção. Por que o que o Trump faz? “Se você não me defender, defender os meus ideais, defender as minhas ideias e defender o que eu estou fazendo e defender isso publicamente. Eu vou te derrubar do seu cargo político”. E o que é derrubar do cargo político? É apoiar um outro candidato republicano para as eleições legislativas. Ele chama de “I will primary you”. Que é “eu vou…”

Celso Rocha de Barros: Te matar nas primárias.

Ana Clara Costa: Eu vou te matar nas primárias. É isso que ele faz. Então, eu não sei se vocês se lembram, no Festival piauí ano passado que a Ruth Marcos, que era uma jornalista que trabalhou no Washington Post e que agora está na New Yorker, ela conta de uma conversa que ela teve com um republicano, fonte dela, que ela achava que ele era uma pessoa razoável. E ela perguntou: “Por que você está chancelando determinada ideia, determinada fala do Trump, por que você está chancelando isso publicamente?”. Ele falou: “porque se eu não chancelar ele, eu não tenho mandato na próxima eleição”. Então você tem uma elite política muito submissa a isso, uma elite política que não está disposta a se colocar em risco pela democracia ou pelos seus ideais, ou pelo que acredita estar certo. É uma elite política que está confortável no seu cargo e vai fazer o que for possível para manter. No caso da elite empresarial, a gente já viu isso aqui. A gente falou mil vezes aqui no Foro da atuação das big techs e dos escritórios grandes escritórios de advocacia. Até no Brasil, né? Escritório de advocacia em períodos de ameaça democrática, eles se insurgiram contra a ameaça democrática até aqui e lá eles capitularam completamente. Bancos. Liberais… Então, assim, todo um arcabouço liberal da economia que defendia valores liberais, de repente passaram a concordar com as tarifas e achar que isso pode ser uma coisa positiva. Então você tem toda um grupo de pessoas ultra poderosas que ou passam a concordar mesmo com o Trump ou achar que ele está certo, como é o caso de muita gente no Vale do Silício. Ou então achar que é mais conveniente você concordar do que arrumar uma briga com esse cara. E isso não é a primeira vez que acontece no mundo. É um comportamento padrão das elites de países que acabam virando autocracias ou enfim.

Fernando de Barros e Silva: Gente, isso aconteceu na Alemanha nazista.

Ana Clara Costa: Na Segunda Guerra. Exato.

Fernando de Barros e Silva: Exato. Aconteceu na Alemanha nazista. Tem um filme que chama Os Deuses Malditos. Eu já, já mencionei esse filme aqui é do Visconti, que é um filme justamente sobre a capitulação de uma família de industriais alemã ao regime nazista. E daí não se sabe quem come quem daí. Metaforicamente falando.

Ana Clara Costa: E eles acabam na verdade, normalizando tudo, porque, como o Trump, ele é muito, digamos, aberto a essa relação direta com o capital. O capital não encontra um muro institucional, ele acessa diretamente o Trump. Você acaba ficando com medo de perder esse acesso. Então, aí o que acontece? Você normaliza tudo, você normaliza o 6 de janeiro, você normaliza os ataques às universidades, sempre tão priorizadas por essas elites. Inclusive você normaliza o ICE matar uma pessoa à queima roupa, você normaliza a anexação da Groenlândia. Isso fica assim, a sociedade fica apática. Ou pelo menos uma parte relevante da sociedade fica apática. E aí eu queria falar da imprensa nesse aspecto. Eu acho que a imprensa americana tem feito um bom trabalho, um ótimo trabalho, furos sensacionais que o New York Times deu, que a New Yorker, o Washington Post. Nessa questão da Venezuela, eles conseguiram antecipar muitas das coisas que vieram a acontecer. Mas ao mesmo tempo você vê uma certa sedução que esse governo está exercendo sobre eles quando o New York Times faz uma matéria sobre ter sentado quatro horas com Trump para fazer uma entrevista, então você tem a entrevista, ou seja, o que ele falou, e você tem uma matéria contando que eles se sentaram com o Trump para fazer uma entrevista como se isso não fosse a obrigação do jornalista do New York Times. The Atlantic quando consegue falar com o Trump ao telefone depois da invasão da Venezuela, publica uma reportagem “Atlantic conseguiu falar com o Trump”. Então, assim, a impressão que dá é que essa elite não quer perder esse acesso a ele. Ele confrontou muita gente no primeiro mandato, mas agora, se você está com ele, mesmo você sendo da imprensa, inclusive, ninguém quer perder esse acesso. É isso que está acontecendo hoje lá. O empresário não quer, banqueiro não quer, a imprensa não quer.

Fernando de Barros e Silva: Uma normalização. Sim.

Ana Clara Costa: Então tem todo um ambiente de colaboracionismo ao que está acontecendo. Bom, além de tudo isso, teve uma outra situação bem complicada que foi revelada pelo site Semafor, de que tanto o New York Times como o Washington Post souberam antes da operação dos EUA na Venezuela e decidiram não publicar. Eles tiveram acesso a informações privilegiadas de que a operação aconteceria e tomaram a decisão editorial de não publicar. O site diz que a decisão editorial era para não expor as tropas americanas ao risco nessa operação. Mas assim, diante de todo esse contexto que a gente vem falando, eu acho emblemático que isso tenha acontecido.

Fernando de Barros e Silva: Bom, a gente encerra o terceiro bloco do programa por aqui. Fazemos um rápido intervalo na volta Kinder Ovo by Maria Júlia. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Maria Júlia, solta aí o que você reservou para a imprensa.

Sonora: Não existe passar dos limites por uma boa causa. Em uma democracia verdadeira, o nome disso é tirania, ou ainda, ditadura. Nós não vamos aceitar essa narrativa canalha que quer normalizar o abuso e o descumprimento das leis.

Fernando de Barros e Silva: Caraca.

Celso Rocha de Barros: Esse é muito trash.

Fernando de Barros e Silva: É trash.

Ana Clara Costa: Renan? Marcel Vam Hatten?

Fernando de Barros e Silva: Onyx Lorenzoni, ex-Ministro, ex-deputado federal. Nossa! Mas também você quer que a gente acerte o Onyx Lorenzoni, que tá… Saiu das catacumbas. Caramba!

Fernando de Barros e Silva: Ah! Mas essa eu sabia.

Fernando de Barros e Silva: Para os anais, Onyx Lorenzoni em seu canal do YouTube. Maria Júlia, você fuçando nas profundezas das redes. Nossa Senhora.

Celso Rocha de Barros: Rapaz, esse era burro, né cara? Impressionante! Esse mesmo naquele ministério do Bolsonaro era capaz de ser o mais burro de todos, cara.

Fernando de Barros e Silva: Bom, vamos então para o melhor momento do programa. Momento das cartinhas. Vamos para o correio. Elegante momento de vocês. Eu vou começar então aqui com um recado do Rafael Cavalcanti: “Pela primeira vez eu acertei um Kinder Ovo antes de todo mundo aí do Foro. Acho horrível que vocês coloquem os ouvintes na área de expertise do Celso, falando das maldades que esses sujeitos e sujeitos aprontam no cenário político. Mas obrigado de verdade por me atualizarem. Me sinto muito intelectual citando o que vocês falam nas minhas redes de conversa. Meus colegas até acham que eu sou inteligente”. Rafael, a gente agradece.

Ana Clara Costa: Rafael, obrigado.

Celso Rocha de Barros: Rafael, obrigadão pela generosidade.

Fernando de Barros e Silva: Eu vou te passar meu zap aqui para você me passar em tempo real o Kinder Ovo. Eu vou por você na linha você me ajudar aqui. Tá um desastre esse negócio.

Ana Clara Costa: O @controlecrítico é um dos nossos ouvintes com sonhos peculiares e por isso deixou um conselho: “Há algumas semanas eu acordei verdadeiramente estressado de um pesadelo com o coração acelerado. Acontece que nesse meu pesadelo, alguém me enganou para que eu assinasse um documento e esse documento fazia com que o Bolsonaro cumprisse prisão domiciliar na minha casa. “Meu Deus, que hóspede!

Celso Rocha de Barros: Rapaz, e eu achando que já tive um pesadelo na vida.

Ana Clara Costa: “Isso me irritou a ponto de me acordar”. Claro! “Não ouçam o Foro de Teresina antes de irem dormir. Vocês podem ter pesadelos horríveis”.

Celso Rocha de Barros: Bom Conselho. Bom Conselho.

Ana Clara Costa: Caraca, que que isso.

Celso Rocha de Barros: Faz qualquer pesadelo que eu tive até hoje…

Ana Clara Costa: Já pensou?

Fernando de Barros e Silva: Para dormir tem que por aquele sonzinho da chuva…

Sonora: Barulho de baleia, né? A @gisa.amorim está com medo de entrar no time do controle crítico do correio lido pela Ana: “Não sei se eu serei capaz de me recuperar da informação do Girão como criador do teatro transcendental. Terei pesadelos com isso? Com certeza. Emoji de susto”.

Fernando de Barros e Silva: Exato.

Celso Rocha de Barros: Estamos juntos nessa gente.

Fernando de Barros e Silva: Exato, Girão no Teatro Transcendental foi foda.

Celso Rocha de Barros: Aquele Kinder Ovo foi foda.

Fernando de Barros e Silva: Esses arranjos brasileiros, essas improbabilidades brasileiras. Bom, a gente encerra o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir, dar five Stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da piauí. Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Carolina Moraes. A direção é da Maria Júlia Vieira, que também é responsável pela produção e distribuição dos episódios. A checagem do programa é do Gilberto Porcidônio. A edição é da Carolina Moraes e da Mari Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound Jabace e Rodrigues que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisola. O programa de hoje foi gravado aqui na minha choupana, em São Paulo, e no estúdio do Dani, no Rio de Janeiro. Eu me despeço dos meus amigos. Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau pessoal.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até semana que vem.

Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem.

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