A reação ao tarifaço, o rescaldo do motim e o algoritmo da pedofilia
Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“EUA perdem vendas de soja para a China enquanto o Brasil preenche período-chave de abastecimento”, reportagem de Naveen Thukral e Ella Cao para a Reuters.
“Haddad, Bessent e a inversão do ônus da prova”, coluna de Maria Cristina Tavares no Valor Econômico.
“A resposta econômica à agressão americana”, coluna de Miriam Leitão no Globo.
“O dossiê que Eduardo Bolsonaro vai entregar à Casa Branca”, coluna de Malu Gaspar no Globo.
“Deputados da oposição envolvidos em motim na Câmara têm baixa apresentação de projetos”, reportagem de Caio Sartori para o Globo.
Momento Cabeção:
No “Momento Cabeção”, quadro em que os apresentadores indicam livros, filmes, podcasts e documentários aos ouvintes, eles fizeram as seguintes recomendações:
Celso: ‘A chamada’, livro da jornalista argentina Leila Guerrero
Ana: ‘Romance em 12 linhas e outros poemas’, livro de Bruna Beber.
Fernando: ‘Piracema’, novo ballet do Grupo Corpo.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:
Sonora: Rádio Piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista Piauí.
Sonora: E ninguém está desrespeitando regras de direitos humanos como estão tentando apresentar ao mundo.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Celso Rocha de Barros e Ana Clara Costa, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi pessoal!
Sonora: O que eu sinto aqui dentro do ambiente que eu converso que há uma certa dificuldade com a anistia ampla, geral e irrestrita.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando. Estamos aí mais uma sexta-feira.
Sonora: Você sabe o significado da palavra adultização?
Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta feira e antes dos assuntos da semana, eu quero lembrar a vocês que vamos estar no Festival Piauí de Jornalismo, que acontece nos dias 6 e 7 de setembro, sábado e domingo, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Assinantes da Piauí têm desconto. Estudantes e professores pagam meia. Corre lá que ainda tem ingresso. A gente vai estar lá nos dois dias e vai se apresentar no domingo. Então é isso. Recado dado, esperamos vocês por lá. Vamos agora sim, sem mais delongas aos assuntos da semana.
Fernando de Barros e Silva: A gente abre o programa pela economia, misturando política com economia. É esse embaralhamento entre as duas coisas, feito por motivações absurdas que vêm ocupando o centro do noticiário brasileiro. Lula anunciou nesta quarta o Plano Brasil Soberano, uma medida provisória de reação ao tarifaço imposto ao país pelo governo Trump. Ao lado de Haddad, do vice Geraldo Alckmin, dos presidentes das duas casas do Congresso, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, o presidente elencou as medidas que devem ser submetidas à aprovação do Parlamento, entre elas um crédito emergencial de 30 bilhões destinado aos setores mais afetados pela guerra comercial, o adiamento do pagamento de tributos por pelo menos dois meses para esses mesmos setores e a inclusão de produtos cuja venda aos Estados Unidos se inviabilizou nas listas de compras públicas da União, dos Estados e municípios, o que deve valer sobretudo para produtos perecíveis que iriam ser exportados e terão mercado interno como destino. É um paliativo que não exclui a necessidade de buscar outros mercados e continuar negociando com o que resta de gente racional do lado de lá. O governo, aliás, levou o bolo dos americanos no front das negociações. Articulada por mais de duas semanas, a conversa por videoconferência que Fernando Haddad teria com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, estava marcada para acontecer na quarta feira, dia 13, mas foi cancelada, sem mais, horas depois de uma entrevista de Eduardo Bolsonaro ao jornal O Globo. E tudo indica que as declarações do Bananinha, não sei se a gente ainda pode chamar aquilo de deputado, as declarações foram decisivas para a mudança de rumo na conversa. Essa semana também foi marcada pela ofensiva de Lula na direção de outros países estratégicos para a economia brasileira. Na segunda feira, Lula conversou por mais de uma hora com o presidente chinês, XI Jinping. A gente vai falar disso tudo, do pacote interno de salvação, das negociações ao redor do mundo e dos reveses nas relações com os Estados Unidos. Revés que inclui a recente cassação do visto americano de dois funcionários brasileiros que ajudaram a implementar o programa Mais Médicos no país. Os Estados Unidos acusam os dois e a Organização Pan-Americana de Saúde de terem cumplicidade na exploração de médicos pelo governo de Cuba. É mais um capítulo da delinquência e do obscurantismo patrocinados pela Casa Branca. No segundo bloco, a gente volta para Brasília, onde o sequestro do Legislativo pela bancada bolsonarista na semana passada, virou assunto da Corregedoria da Câmara e tende a acabar em pizza. O presidente da Casa, Hugo Motta, voltou a dizer nesta quinta, em entrevista ao Globo News, que a punição sumária dos parlamentares que participaram do motim para obstruir fisicamente os trabalhos da casa seria uma medida incorreta. Correto para ele, é empurrar o problema com a barriga, apostando que os 45 dias de que dispõe o corregedor para emitir o seu parecer sejam suficientes para diluir a gravidade dos delitos ou a gravidade do delito nas brumas do tempo. E no terceiro bloco, a gente vai tratar da repercussão política do vídeo do youtuber Felipe Bressanim Pereira, famoso Felca, que eu não conhecia. Ele viralizou ao criticar a exposição e a sexualização de crianças nas redes sociais. A denúncia levou à suspensão de perfis investigados e mobilizou dezenas de projetos de lei no Congresso, além de jogar luz sobre a exploração de crianças por adultos, Felca abriu a tampa do alçapão dos algoritmos, que reconhecem quem persegue imagens de crianças e indicam conteúdos semelhantes, facilitando e alimentando a perversão dos pedófilos. O assunto não é novo. Basta lembrar que nos anos 90 havia concursos de crianças dançando na boquinha da garrafa no Domingo Legal de Gugu Liberato. Mas a dinâmica das redes sociais agrava muito esse problema, que precisa sim, ser enfrentado. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, Ana Clara, vamos começar com você. Temos uma cesta básica de problemas aí no front comercial. Eu citei a conversa que não houve entre o secretário do Tesouro americano e o Haddad, o pacote que o governo lançou essa semana… Como você organizou aí? Por onde vamos começar?
Ana Clara Costa: Bom, Fernando, eu acho que o que aconteceu entre o Haddad, o secretário do Tesouro é a prova mais contundente, talvez a sinalização também mais contundente de que o governo americano não quer sentar para negociar nada. Acho que continua um pouco essa cantilena de que o Lula precisa ligar para o Trump e tal. Mas assim, todos os sinais são de que não há intenção de conversa. O Lula tinha pedido para o Haddad procurar o Scott Bessent, que é o secretário do Tesouro, justamente numa tentativa de iniciar um diálogo. A gente tem que lembrar que o Mauro Vieira teve aquela agenda com o Marco Rubio, então o Lula pedir para o Haddad falar com o Bessent, é uma forma de tentar cercar os cargos de confiança para conseguir chegar eventualmente na Casa Branca, porque quando acontece uma conversa presidencial, em geral, outras já aconteceram. Isso num contexto normal e não num contexto caótico como esse. Então, assim, primeiro você tem todo um preparo da burocracia de um país com a burocracia de outro para chegar ao ponto das duas lideranças conversarem. E a gente não está conseguindo passar nem desse ponto do acerto entre as burocracias para ter a conversa lá em cima. O Bessent inicialmente topou e os assessores chegaram a mandar link para o Ministério da Fazenda e tal. Mas houve essa subida de temperatura no Brasil, com a prisão domiciliar do Bolsonaro e a entrevista que o Eduardo Bolsonaro deu para a Bela Megale, que acabou atrapalhando tudo, como você bem falou na escalada, porque nessa entrevista o Eduardo disse que ele ia levar a prisão domiciliar e as outras coisas que estavam supostamente acontecendo de errado ao conhecimento das autoridades americanas e que ele ia pedir uma reação. Então, poucas horas depois da publicação dessa entrevista, a conversa foi cancelada. E o que o Ministério da Fazenda apurou, segundo duas fontes com quem eu conversei, não é que o Eduardo tem alguma influência sobre o Bessent, mas que pelo perfil do secretário do Tesouro, ele tenha visto a temperatura subir e decidido não entrar nessa, entendeu? Porque embora o Brasil seja um parceiro super importante, não é importante o suficiente para valer o risco de você se indispor com o núcleo mais aloprado da Casa Branca. Quando os assessores do Bessent cancelaram a conversa sem dar nenhuma justificativa, o pessoal do Haddad ligou para lá para tentar entender se tinha espaço para insistir, para reagendar e não. A sinalização que eles tiveram era de que não tinha, por ora, clima para remarcar. Então, basicamente era um canal de diálogo que se apagava ali. E de novo, para a gente ter a dimensão do nível de mal que o Eduardo Bolsonaro está sendo capaz de fazer. E aí eu queria pular para o anúncio do pacote de auxílio para os setores afetados pelo tarifaço, porque eu acho que tem tudo a ver com o nível de mal que o Eduardo Bolsonaro está sendo capaz de fazer. Bom, o governo anunciou essa medida provisória que prevê, entre outras coisas, enfim, compras de produtos de setores afetados, uma linha de crédito de 30 bilhões de reais para esses setores. E o Haddad, inclusive, já disse que quer que pelo menos 9,5 bi fique fora da meta fiscal do cálculo da meta. Mas vejam só como são as coisas… A gente está aqui falando de uma medida de expansão, de gasto, algo que costuma ser muito criticado pelo mercado, pelos economistas, sobretudo nessa administração. E o que eu achei curioso é que a gente vai ter que achar um espaço no orçamento ou aumentar a dívida, não sei como é que eles vão arrumar esse dinheiro para esse pacote num momento fiscal pouco favorável para o Brasil, por culpa do Eduardo Bolsonaro e do Jair Bolsonaro. A peripécia que eles fizeram está custando muitos bilhões para o Brasil. 30 bilhões só de linhas de crédito. Fora o resto. Eu não vi o mercado criticando essa turma por isso. O que eu vi foi o Tarcísio dizendo num evento do BTG, no mesmo dia do anúncio do pacote, que o PT tem que sair porque o Brasil não aguenta mais gastança e foi amplamente aplaudido. Mas ninguém disse que a assinatura dessa gastança é Eduardo Bolsonaro, é Jair Bolsonaro. Não é novidade que a Faria Lima usa dois pesos e duas medidas para esse assunto, mas eu acho bom reforçar que há dois meses o mundo estava caindo porque haveria um aumento de IOF, porque sem isso a meta do arcabouço fiscal não seria cumprida. E eu não vi o mesmo mundo caindo porque a família Bolsonaro impingiu ao Brasil esse gasto, rntendeu? Não tem. Assim, você não vê a bolsa operando nesse fluxo e até depois do anúncio do pacote, a repercussão do pacote… “É, pois é. Não, porque o governo não tem espaço fiscal, porque o governo não está economizando, porque o governo está”… Ainda no campo econômico, eu queria trazer esse assunto que você falou no início, da China, que aconteceram fatos novos nesses últimos dias que são importantes. O Trump, quando ele posterga em 90 dias as novas tarifas para a China, que foi no último domingo, ele diz que a China deveria aumentar em quatro vezes as importações de soja dos Estados Unidos, o que significaria automaticamente reduzir as importações do Brasil, porque o Brasil responde por 75% do mercado que a China compra. Então, basicamente, ele quer ferrar o Brasil nesse produto, que é tão fundamental para as nossas exportações. E o que a China fez? A China foi lá e comprou loucamente do Brasil agora, nessas últimas semanas. É uma reportagem da Reuters que saiu na quarta-feira mostrando isso, que conversou com traders e tal. O que eles explicam que geralmente as compras que a China faz da soja americana são mais ou menos nessa época do ano, que é uma entressafra brasileira. Então, quando eles mais compram dos Estados Unidos, porque quando chega janeiro pós safra no Brasil, etc, é só do Brasil que eles compram. Então, na época que eles deveriam estar comprando dos Estados Unidos, eles estão comprando do Brasil e fechando os contratos com o Brasil, ou seja, comprando um nível muito além do que eles comprariam do Brasil nessa época. Basicamente, é o XI Jinping ignorando solenemente uma determinação e um pedido ou o que quer que seja Donald Trump. Então, essa relação bilateral do Brasil com a China nesse momento é muito fundamental para a gente garantir a sobrevivência desse setor. Porque eu não sei se, se a relação fosse menos azeitada do que é hoje, isso estaria acontecendo? Assim, eu não sei. Pode ser que sim, mas…
Celso Rocha de Barros: No mínimo seria mais lento, né?
Fernando de Barros e Silva: Celso, vamos com você.
Celso Rocha de Barros: Então, antes de falar das medidas do governo, eu queria fazer um negócio aqui, que é o seguinte: a Maria Cristina Fernandes, que talvez seja a melhor colunista de política do Brasil, fez uma coluna essa semana e ela conta quem são os caras, quem é a turma do Eduardo na administração Trump, quem são os caras que conversam com ele. E eu queria dar uma ideia para os ouvintes de que seres humanos maravilhosos são esses. Então, vamos começar com o Darren Beattie que é um desses dessas autoridades americanas que tweetou contra o Xandão, que falou, que fez aqueles tweets mal educados sobre Alexandre Moraes. O Beattie, ele fez parte do primeiro mandato do Trump, mas ele foi demitido por participar de um debate com supremacistas brancos, com destaque para um sujeito chamado Richard Spencer, que é creditado por muitos como o inventor da alt-right.
Ana Clara Costa: Mas ele era supremacista ou não?
Celso Rocha de Barros: Vamos chegar nesse ponto. Que é um dos caras, inclusive atribuindo a invenção desse termo alt-right. Aí eu lembro que eu fui num debate com aquele historiador americano Jason Stanley, que escreveu “Como o fascismo funciona”… Eu e Fernando participamos de um debate com ele…
Fernando de Barros e Silva: Eu mediei só o debate.
Sonora: Que é alt-right é uma puta ideia de nome, porque faz o fascismo parecer uma banda de Seattle, parecer um negócio assim, meio cool, né? O Spencer é um cara que defende um exit no Estado, defende uma pátria branca. Então ele diz, por exemplo, a Declaração de Independência está errada, esse negócio de todos os homens nascem iguais perante Deus… Não, tem que ser: “os homens nascem desiguais”. Assim, é um cara violento.
Fernando de Barros e Silva: Esse é o chapa do banana.
Celso Rocha de Barros: Esse é o cara com quem o Darren Beattie foi debater. E no primeiro mandato do Trump, em que ele foi bem mais contido do que está sendo no segundo, ele achou que isso era motivo para demitir o cara, mas no segundo mandato isso foi motivo para contratar o cara de novo, entendeu? Esse segundo mandato realmente está um negócio muito mais radical. E você vai perguntar: “pô, mas às vezes o cara foi lá debater, mas não quer dizer que ele concorde com isso”. Enfim, em 4 de outubro de 2024, o MIT tuitou o seguinte “Homens brancos competentes têm que estar no comando se você quiser que as coisas funcione. Desafortunadamente, nossa ideologia nacional se baseia em mimar os sentimentos das mulheres e das minorias, desmoralizando os homens brancos competentes”. Esse é o cara que é o cara que tweetou contra Alexandre de Moraes e que é o chapa do Bananinha. Ele diz claramente que o governo tem que ser realizado por homens brancos competentes. Eu, se fosse ele, não botava esse competentes aqui não, porque para ele isso vai dar merda, mas enfim.
Ana Clara Costa: É, porque é difícil né?
Fernando de Barros e Silva: Impressionante.
Celso Rocha de Barros: E ele apoiou inteiramente o golpe de 6 de janeiro, o 6 de janeiro americano. Enquanto estava acontecendo, ele tweetou que o FBI deveria se ajoelhar diante do MAGA, diante do Make American Great Again e depois ele saiu apagando isso tudo. “Opa! Eu nunca falei nada disso. Que é isso? Tá doido? Foi mal, tava doidão”. E para você ter uma ideia, o quanto vale ele dizer que o Brasil não é uma democracia ou coisa que o valha. Em agosto do ano passado, ele disse que o Reino Unido não é mais uma democracia. Ele disse que o regime atual do Reino Unido, que, só para deixar claro, é o mesmo, é a mesma democracia dos últimos 100 anos. Só que no momento, é o Partido Trabalhista que está no poder. Ele disse que o novo regime britânico é muito menos legítimo que o do Saddam Hussein e muito menos legítimo do que o do Maduro na Venezuela.
Fernando de Barros e Silva: Espantoso isso. E esse é o nível de gente que.
Celso Rocha de Barros: Esse é o nível de gente. E isso é bom para você você ver que, atualmente, quando a administração Trump diz que um país é uma ditadura, você pode apostar que é uma democracia mais sólida que os Estados Unidos. O outro cara que é da turma do Eduardo é um ser humano maravilhoso chamado Sebastian Gorka. O Sebastian Gorka assina o nome dele com um V minúsculo no meio. Ele é britânico, mas de família húngara, e ele fez uma carreira política na Hungria antes de ir para os Estados Unidos. Na Hungria, quem faz esse negócio de botar um “vêzinho” no meio são os membros do Vitézi Rend, um grupo político com um passado bem sombrio. Ele era o partido do almirante Horthy, o ditador da Hungria durante a Segunda Guerra Mundial, que colaborou com Hitler, deportou centenas de milhares de judeus para campos de concentração e que dividiu a propriedade confiscada dos judeus que foram para campos de concentração entre os membros desse partido. O Sebastian Gorka anda com o botton do Vitézi Rend, e aí tem uma questão que não é só assim “meu Deus, como esse sujeito é abjeto”. É o seguinte, eu não sei se alguém aqui já tentou entrar nos Estados Unidos… No questionário dos EUA tem umas perguntas que parecem completamente absurdas, tipo: “você ou alguém que você conhece prestou serviço para a Alemanha nazista?” Então, isso está ali para o caso do Sebastian Gorka. Ele quando entrou nos Estados Unidos e quando ele pediu cidadania, ele tinha que ter informado que tinha proximidade com o grupo que o Departamento de Estado americano classifica como colaborador do nazismo, e ele se recusa a dizer em entrevista se ele informou isso ou não. Ele diz que não é membro, mas que usa o V no nome, e às vezes a medalhinha do partido fascista, para honrar a luta de seu pai contra o totalitarismo comunista. Cara, você lutar contra o totalitarismo comunista é muito legal se você não estiver fazendo isso para implementar o nazismo, certo? Entendeu? Essa é uma das condições em que realmente não vale a pena lutar contra o totalitarismo comunista. E se você achar que não, isso aí é só porque você tinha uma família maluca. Em 2007, ele declarou apoio à Magyar Gárda que é a milícia armada do Jobbik, um partido de extrema-direita da Hungria, que não é o partido de extrema-direita no poder, é um partido muito mais extremo do que o que está no poder, que inclusive teve já membros jogados na ilegalidade pelo Orbán, pelo ditador lá que o Bolsonaro gosta. E em 2007 ele apoiou a Magyar Gárda que é “guarda húngara”. Eu não vou nem dizer o que é isso. Eu só sugiro que o ouvinte jogue no Google o que é a Magyar Gárda, guarda húngara e eu quero ver, quero que você me diga que aquilo ali não é fascista. São os caras de uniforme militar marchando pela rua com braçadeira vermelha. Então, quer dizer, pô, menor intenção de disfarçar. Outro cara que é da turma do Bolsonaro, é um cara chamado Ricardo Bittar. Esse cara é o seguinte, ele é um venezuelano que faz oposição ao Maduro e que tem todo direito de fazer oposição ao Maduro. Já criticamos muito a ditadura do Maduro, mas o que ele faz no governo Trump é basicamente o maior favor que o Maduro podia receber na vida, porque basicamente ele está emprestando para o Maduro o argumento de que as sanções americanas contra o Maduro são da mesma natureza que as sanções contra o governo democrático brasileiro. Que o governo Maduro é mais legítimo do que o governo democrático do Reino Unido. Então, se esse cara for bem intencionado no seu oposicionismo ao Maduro, o que eu sinceramente duvido, mas acho que enfim, vou dar esse benefício da dúvida para ele. Ele é um desastre para a luta pela democracia na Venezuela, porque eles estão desmoralizando todas as coisas que os EUA já usou alguma vez na vida, de maneira mais inconsistente possível, mas já usou alguma vez na vida para promover a democracia. Essas sanções Magnistky, o relatório sobre a situação de direitos humanos no mundo que saiu uma versão completamente piada semana passada. Enfim, esse é o pessoal com que o Brasil tem que lidar. Esse é o pessoal para quem o Eduardo liga e os caras vão encher o saco do Scott Bessent para o cara não ir em reunião com o Haddad. E até o que um cara do governo me disse é o seguinte se o Brasil fosse a China ou a União Europeia, o Bessent provavelmente ia virar para esses malucos e falar “cara, desculpa, eu tenho que falar com ele de qualquer jeito”, mas o Brasil não é. Então, simplesmente o Brasil não quer comprar briga com os malucos do Trump por causa do Brasil.
Fernando de Barros e Silva: Sim, é bom você puxar a ficha corrida desses caras que estão no governo. Tem cargos relevantes para a gente ver o grau de degradação do negócio. Como é preocupante mesmo. Isso explica porque o Bananinha tem acesso a essa gente.
Celso Rocha de Barros: Isso, ele tá em casa. Exatamente. Porque ele é um cara desses.
Fernando de Barros e Silva: Ele tá em casa. Exato.
Celso Rocha de Barros: Eles são os caras mais radicais na extrema-direita mundial.
Fernando de Barros e Silva: Se esses caras viessem aqui iam fazer um churrasco com o Escritório do Crime.
Fernando de Barros e Silva: Pois é, exatamente. Bom, então vamos lá. O que o governo está fazendo? Duas coisas que são importantes. Primeiro, isso que a Ana já adiantou nesse pacote de 30 bilhões de medidas para ajudar as empresas mais afetadas. Então, você tem essas compras governamentais, por exemplo, no caso do pescado que não vai vender para lá. Então o governo compra para fazer merenda escolar, umas coisas assim, que é uma boa ideia. E entre as medidas de incentivo à exportação, teve umas coisas legais que o governo aproveitou para fazer para reformar o sistema de incentivo à exportação para incluir as empresas menores. Na coluna da Miriam Leitão, ela deu, por exemplo, a informação que as micro e pequenas empresas no Brasil respondem por apenas 1% do acesso ao crédito à exportação. Na Índia, na Coreia chega a 40%. Então, era uma distorção grande do sistema brasileiro.
Ana Clara Costa: Agora, só uma coisa que tem uma questão que não ficou clara é o tipo de garantia que vai ser exigido das empresas para ajustar.
Celso Rocha de Barros: É, tem várias características dos empréstimos, inclusive a taxa de juros, dependendo da categoria que eles vão fazer aqui, que ainda estão sendo, estão sendo discutidas.
Ana Clara Costa: A preocupação deles é isso, porque geralmente empresa pequena e média não tem como dar garantias tão vultosas como a JBS, por exemplo. Sei lá, Susano.
Sonora: É, exatamente. É o colateral, eles não tem como dar colateral. Nessas últimas semanas, conversei com alguns economistas sobre. Será que isso não poderia ser uma boa oportunidade para a gente abrir mais a economia brasileira? Em alguns setores pelo menos? E eles disseram, pelo menos de dois economistas importantes, eu ouvi que para a indústria é melhor esperar a reforma tributária entrar em pleno vigor, porque o sistema tributário que existia no Brasil da ditadura, até o governo do terceiro governo Lula foi muito contrário à indústria. Era muito ruim. A gente falou isso aqui na época da discussão da reforma tributária. Então eles acham que precisa, pelo menos, dar para a indústria brasileira uma igualdade de condições na hora de pagar imposto. Eles não têm que pagar no Brasil um imposto especialmente punitivo aqui para poder competir lá fora. Mas tem vários outros produtos que isso pode acontecer. E essa é a segunda frente de atuação do governo para lidar com o tarifaço, de abrir novos mercados e abrir mais a economia brasileira inclusive. Porque, naturalmente, se você faz um acordo com outro país, você também vai ter que abrir sua economia para os produtos do cara. Então o governo está trabalhando com a ideia que dá para fechar logo esse acordo com a União Europeia, no Mercosul, com a União Europeia, que é um negócio grande, é um negócio importante, que deve fechar um acordo com os Emirados Árabes e já está praticamente fechado um com aquela área econômica de países europeus que não fazem parte da zona do euro, Noruega, Suíça, umas coisas assim, que são poucos países e países, às vezes pequenos. Mas é um PIB bizarro e um pessoal com dinheiro para cacete. Então é um mercado bom. Agora, os grandes prêmios são realmente a União Europeia, que deve sair logo. E o Lula vai agora na reunião da ASEAN, que é aquela associação de países do Sudeste Asiático, que é onde boa parte da ação na economia mundial vem acontecendo nas últimas décadas. Assim, se ele conseguir fechar um acordo com essa turma, com a Malásia, com a Indonésia, com esses caras todos aí, é um puta salto de integração brasileira na economia global. Mas isso não é iminente. Não é um troço que vai sair daqui a pouco tempo, não. Mas as negociações estão abertas. Então é isso que eu acho que é o caminho de longo prazo para lidar com isso. Você abrir outros mercados, né? Olha só o Thomas Traumann, que é um cara muito bom disse que esses 30 bilhões são o custo do Eduardo Bolsonaro, é que o Eduardo Bolsonaro está custando a economia brasileira. O Traumann tem razão de chamar a atenção para isso, a Ana também falou aqui, mas o custo é bem maior que isso, porque, além disso, tem as perdas que o governo não vai conseguir cobrir, porque esse pacote não vai resolver tudo, que o Brasil vai perder por causa do tarifaço.
Ana Clara Costa: 30 bi é só o crédito.
Celso Rocha de Barros: 30 bi é só o crédito. E você tem o que a gente vai deixar de ganhar se a gente gastasse esses 30 bi com alguma coisa que nos interessa, seja para poupar os 30 bi e diminuir a dívida pública, o Banco Central pode baixar os juros.
Fernando de Barros e Silva: Exato. Muito bem colocado.
Celso Rocha de Barros: Seja para gastar com saúde pública, para comprar equipamento para as filas que você está esperando lá no SUS, adiantar o seu exame, a operação da sua mãe, entendeu? Então o Bolsonaro, o Eduardo Bolsonaro, não só deixou todos os brasileiros mais pobres. Ele atrasou a fila do SUS para cirurgia da sua mãe. Ele atrasou a queda dos juros do no Brasil. Só para ter uma ideia do tamanho da imbecilidade que esse vagabundo fez.
Ana Clara Costa: Mas tem um pessoal. A turma do ajuste fiscal parece que não coloca isso na conta.
Celso Rocha de Barros: Cara, eu até acho que os economistas mais que são atentos a isso até falam mas do mercado, né? Mas também por que a gente pergunta a opinião deles, né?
Fernando de Barros e Silva: E esses governadores que querem ser candidatos a presidente que estão amarrados no Bolsonaro, né? Fora as mortes que o Bolsonaro provocou com a omissão criminosa no combate a pandemia, que são dezenas de milhares.
Celso Rocha de Barros: Na estimativa que foi publicada pela Folha em 31 de maio de 2021, usando dados da CPI do Congresso das ofertas de vacina que ele não comprou, jogando no modelo epidemiológico dá 95 mil pessoas mortas entre janeiro e 31 de maio de 2021.
Fernando de Barros e Silva: Por baixo. Então, ele matou 95 mil pessoas.
Celso Rocha de Barros: Matou 100 mil pessoas. É duas vezes o número de pessoas que morreram na Guerra do Paraguai, de brasileiros.
Fernando de Barros e Silva: Bom, encerramos o primeiro bloco do programa. Vamos fazer um rápido intervalo. Na volta, vamos falar do Congresso dos golpistas de Hugo Motta. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, Estamos de volta. Ana Clara, vamos começar com você que andou conversando com os nossos amigos do centrão para saber como é que foram as movimentações desde o dia do golpe, da reunião dos golpistas, como o Celso bem resumiu na semana passada. Reunião de veteranos dos golpistas. De lá para cá, essa sensação de que a coisa vai acabar em pizza procede?
Ana Clara Costa: Olha, até o momento sim, Fernando, lembrando o que aconteceu, o PL disse que só sairia dali se o Lira se comprometesse em ajudar a pautar o fim do Foro e o PL da Anistia, ambos com o objetivo de beneficiar o Bolsonaro, né? O Lira topou ajudar. Obviamente pensando no fim do foro.
Fernando de Barros e Silva: O fim do foro, para que os ouvintes não fiquem preocupados, não é o fim do nosso Foro.
Celso Rocha de Barros: É, os caras estão conspirando contra a gente.
Ana Clara Costa: O Lira topou ajudar. Obviamente pensando nele, porque com o fim do foro privilegiado as coisas ficam melhores para ele, que é um cara que tem ali alguns probleminhas tramitando no Supremo. Se bem que ele não tem muito do que reclamar do STF, porque nada contra ele ali prosperou muito. A gente lembra bem do processo do kit robótica, que estava muito bem documentado e o Gilmar Mendes achou que era melhor arquivar. A questão das emendas, até agora não tem nada que o deixe amedrontado. Bom, a questão é que o Lira ele pode achar que é mais vantajoso ir para a Justiça comum ou para o TRF, que também é uma coisa que está sendo discutida. Só que tem um pequeno detalhe: o Lira não é presidente da Câmara, embora a oposição goste de tratá-lo como tal. Hugo Motta, quando retoma a mesa lá atrás, diz nos bastidores que não vai pautar nada disso. Mas qual era a ideia da oposição naquele momento? Era pressionar o Hugo Motta com o apoio de todos os líderes do centrão a essa ideia, porque naquela conversa com o Lira, os líderes do centrão tinham topado essa história. Eles tinham dado aval para fazer porque era, enfim, foi um dia de muita, de uma temperatura muito alta ali, né? Se isso de fato prosperasse, o Motta ficaria encurralado. O caso da exploração infantil na internet que a gente vai falar no terceiro bloco acabou monopolizando a pauta ao mesmo tempo, a partir do último final de semana e acabou atropelando essa estratégia e empurrando tudo para semana seguinte. E aí, o que aconteceu? Os líderes de dois partidos importantes do centrão, que é o PSD do Kassab e União Brasil voltaram atrás e disseram que não fecharam acordo nenhum. E embora o líder do PL, que é o Sóstenes Cavalcanti, tenha dito publicamente que esse acordo tinha sido fechado, ou seja, ele falou em on e citou o nome dos líderes. Todo o contexto fez com que eles voltassem atrás. E eu até falei com Sóstenes na terça-feira e ele ainda na terça-feira dessa semana, ele me jurou que o acordo estava fechado, que ia acontecer, que ia rolar. A questão é que poderia de fato rolar, porque se houvesse um apoio da ampla maioria para tratorar e aprovar esses dois absurdos essa semana agora que a gente está, esses líderes provavelmente iriam estar dentro. Porque tem, sabe aquele negócio do passar boiada que a gente tanto fala, que ficou um clássico da política depois do Ricardo Salles? Tem umas noites no Congresso que acontece umas coisas assim, que você vai dormir quando se acorda no dia seguinte os caras acabaram com o Brasil. Enfim, eles pegam uma brecha no regimento ali e passam tudo. Acontece isso. Já aconteceu outras vezes.
Fernando de Barros e Silva: Então você vai dormir uma noite, e os caras acabam com o Brasil. Exatamente isso. Licenciamento ambiental é isso.
Ana Clara Costa: Exato. Então assim, se a gente tivesse num contexto dessa pressão tão forte e esses caras do centrão não tivessem como e não quisessem também recuar, a gente podia ter tido essas duas votações. Assim, é possível fazer. Dá para você fazer isso. Só que, como veio essa questão da exploração infantil, tudo perdeu a temperatura. E aí eles desembarcaram e deixaram o Sóstenes lá, sozinho, com o PP do Lira apoiando essa ideia. O PP não desembarcou ainda. E o Sóstenes, em que pese o fato de ele ser um deputado que fala com a imprensa, que atende a imprensa e que é muito transparente com a imprensa, ele às vezes choca. Ele choca por várias coisas, mas às vezes ele choca pela transparência, porque ele reconheceu publicamente que ele estava chantageando o Congresso. Ele disse que só aprovando o fim do foro privilegiado e a anistia é que eles, oposição, iriam tirar a corda do pescoço dos parlamentares. Ele falou isso em on ali para todo mundo.
Celso Rocha de Barros: Que bonito.
Ana Clara Costa: Hugo Motta, que ainda está cambaleando na presidência da Câmara querendo retomar a liderança, publicou essa semana uma lista de pautas prioritárias do próximo semestre. E nenhuma delas é a anistia ou o fim do foro. Então tá tudo meio que em aberto. O fim do foro privilegiado tem maior adesão do que a anistia, porque ele pode beneficiar a gregos e troianos. Mas é uma pauta muito impopular nesse momento, nesse exato momento, porque ela está muito atrelada ao Bolsonaro. A questão é que, o que a direita espera, que na semana que vem vote-se o projeto de lei sobre a exploração infantil e na outra eles retomem essa pauta, sobretudo a pauta do foro que eles acham que tem mais chance de prosperar. É isso que eles estão esperando. Mais do que a anistia num primeiro momento. E aí existe uma lei, uma PEC sobre o fim do foro privilegiado, que já foi aprovada pelo Senado em 2017 e precisaria ir para a Câmara, mas os bolsonaristas eles não querem essa PEC, porque essa PEC prevê que os presidentes da República e da Câmara e do Senado continuem sendo julgados pelo STF. E como o Bolsonaro é acusado de cometer crimes durante a sua presidência, o processo permaneceria na corte, então eles ainda teriam que costurar um acordo. Olha como está difícil para eles, além de fazer com que o Hugo Motta, que não quer pautar isso, paute isso daqui duas semanas, eles teriam que costurar um acordo para mudar essa PEC que já existe para beneficiar diretamente o Bolsonaro, porque na forma como ela está escrita, ela não o beneficia. Então, assim, o preço está caro para a oposição conseguir emplacar isso agora. Eles precisariam, assim, que o Trump fizesse muito mais coisa para conseguir pressionar o Congresso e tal. Ao contrário do que a família Bolsonaro tenta fazer parecer, não há um país inteiro querendo salvar o Bolsonaro. É o contrário disso. Agora, dentro dessa lambança, eu queria destacar uma reportagem da Malu Gaspar sobre o dossiê que o Eduardo Bolsonaro teria levado à Casa Branca essa semana, no encontro que ele teve com esses malucos que você citou, Celso. E dentro desse dossiê está justamente o avanço dessas duas pautas no Congresso como demonstração de que o Trump está dando força para eles conseguirem ajudar o Bolsonaro. Então, basicamente, a mensagem para a Casa Branca é: continue fazendo porque está dando certo, você está ajudando a gente. E quando o Congresso aceita esse tipo de coisa, e quando o STF diminui o consenso, em especial os ministros que andaram falando publicamente e nos bastidores sobre isso, isso também está sendo colocado para a Casa Branca. Ou seja, o Alexandre de Moraes não tem todo esse, não é essa unanimidade dentro da corte, não tem todo esse respaldo. Então, assim, tá vendo como que a gente está fazendo um bom trabalho? E até sobre esse assunto, eu queria fazer uma errata aqui em relação ao que eu falei na semana passada, quando eu falei do ministro Barroso sobre a possibilidade de ele deixar o Supremo antes do prazo. Em tese, eu disse que os ministros têm que sair até os 70 anos e, na verdade, 75 anos e vários ouvintes muito atenciosos, me escreveram para dizer que eu tinha falado a idade errada. Então tá aqui a correção. E apesar de tudo isso que aconteceu, só voltando um pouco ao que você falou, Fernando, no início do programa não existe perspectiva de punição. E aí eu queria sugerir outra coisa para vocês, que é assistir a entrevista que o Gilberto Kassab deu para o Canal Livre da Band essa semana. Basicamente, o Kassab diz que não tem, não houve nada que justificasse uma punição mais dura dos parlamentares. Assim que o pior que deveria acontecer com ele seria uma advertência. É uma entrevista super educativa sobre o estado de coisas no Congresso. Porque ele fala que a gente vive um momento grave, mas ele não atribui nem 0,1% dessa gravidade a extrema-direita ou ao Bolsonaro. Ele diz que o Tarcísio é o candidato perfeito, o homem perfeito, o político perfeito. É um negócio assim… Deveria ser coroado imperador. Ele diz que não se pode desprezar os votos do Bolsonaro e que, se isso inclui uma aliança com Bolsonaro, não tem problema algum. Então, assim, eu acho que todo mundo devia assistir essa entrevista.
Fernando de Barros e Silva: E quando ele disse isso, Maquiavel enrubesceu no túmulo.
Celso Rocha de Barros: Coitado do Maquiavel. Maquiavel era maneiro.
Fernando de Barros e Silva: Assim também não.
Ana Clara Costa: E ele fala isso assim, praticamente no mesmo dia em que o Eduardo dá uma entrevista ameaçando o Davi Alcolumbre, Hugo Motta e dizendo que o nome deles também está na mesa do Trump, ou seja, para o Magnistkyda vida.
Fernando de Barros e Silva: Impressionante isso tudo porque o Kassab herdou o espólio do PSDB e não é a mesma coisa, evidentemente, do que foi o PSDB. É pior.
Celso Rocha de Barros: Pois é. Muito pior.
Fernando de Barros e Silva: Vamos lá, Celso, põe a sua colher aí para arrematar esse segundo bloco.
Celso Rocha de Barros: Bom, antes só fazer uma coisa. Eu tenho uma certa sensação, que eu não sei se eu sei explicar muito bem, que o Kassab tá jogando errado. Eu tenho a impressão que ele talvez esteja dando um passo maior que a perna ou um drible a mais. Acho que ele está saindo da área de expertise dele, que é ser aquele cara que negocia apoio qualquer um. Sei não. Ô Gilberto, fica esperto aí. Não diga que eu não avisei depois.
Fernando de Barros e Silva: A vinheta momento dica boa. Dica boa.
Celso Rocha de Barros: Enfim, o que a gente tem visto essas semanas no Congresso, é mais uma edição disso que a gente já falou várias vezes em vários programas. Que essa aliança entre os políticos golpistas, os políticos ladrões que muitas vezes é costurada pelo contingente grande de políticos golpistas e ladrões.
Fernando de Barros e Silva: A intersecção dos dois conjuntos.
Celso Rocha de Barros: Exatamente, é bem grande essa intersecção. Tem bastante ladrão golpista, golpista ladrão. Em geral é uma questão de ênfase. Se o cara é mais ladrão que o golpista, mais golpista que ladrão. E nesse caso específico dessa semana, o que que tá acontecendo? O bolsonarismo percebeu que a maneira mais provável deles conseguirem aprovar uma anistia é uma raiz em alguma coisa que também daria anistia para o pessoal ladrão. Se a gente fechar de novo essa aliança entre ladrão e golpista, a gente é maioria no Congresso, então a gente consegue aprovar tudo. Então eles embrulharam junto com a anistia esse negócio de acabar com o foro privilegiado, porque a verdade é o seguinte: o foro privilegiado, desde o julgamento do mensalão, não é mais privilegiado. O foro privilegiado era o seguinte, era uma mamata pelo qual o político nunca ia preso porque você ia ser julgado pelo STF e o STF não julgava ninguém até o julgamento do mensalão.
Ana Clara Costa: E a PGR não denunciava ninguém. Tinha o engavetador geral da República.
Celso Rocha de Barros: Era privilegiado por causa disso. E quando estava fazendo meu livro sobre o PT, eu conversei com um cara que foi do Ministério da Justiça no primeiro governo Lula. Eu perguntei para ele o seguinte: até na sentença do Moro contra o Lula tá reconhecido que o governo do PT fez um monte de medida a favor do combate à corrupção. Qual o sentido de você fazer isso enquanto você está comprando voto no Congresso? Entendeu? São duas estratégias conflitantes. E ele disse “cara, quando a gente ia escolher ministros para o Supremo, no começo do governo, a gente nem perguntava para o cara ‘você prenderia alguém do governo?’, porque isso nunca tinha acontecido”. O Supremo nunca tinha prendido ninguém. Então assim, não era nenhuma questão a ser avaliada ali na hora, porque os caras falaram “cara, isso não existe. Ninguém vai, o Supremo não vai prender ninguém”. Desde 2005 passou a prender e prendeu bastante gente. Então, o que os políticos resolveram fazer? Não, não, não. Já que vai prender lá em cima, então não quero não, porque lá em cima não tem mais recurso. Não dá para você ficar atrasando o processo eternamente com um monte de recurso. Então a gente quer que volte lá para baixo. Então, o que eles estão querendo tirar lá do Supremo? Porque no Supremo eles podem ser preso. Então eles querem jogar para a primeira instância, onde eles conhecem o governador, que pode botar pressão, eles conhecem as autoridades dali, pode botar pressão e aí os caras vão ser condenados nunca. Então, basicamente, se você apoiar esse projeto para livrar o Bolsonaro, está aprovando um projeto pelo qual o político não vai ser preso nunca mais, porque na versão mais moderada desse projeto, que é o que eles acham que agora talvez emplaque, o Congresso vai ter que aprovar para o Supremo abrir processo contra os políticos. Você acha que vai aprovar quando, cara? Entendeu? Imagina eu perguntar para você e aí eu posso processar você pelo crime que você cometeu? Qual você acha que vai ser a resposta disso? Pelo amor de Deus! Assim, é provável que uma vez ou outra processem lá um desses Glauber aí que chutou o cara do MBL um negócio desses. Mas ninguém vai processar corrupção grande, ninguém vai processar nada sério. Então assim, é uma aliança bem sinistra mesmo, que tá amarrando os interesses do cara que não querem ser pegos pelo Xandão por ter tentado um golpe de estado com os caras que não querem ser pegos pelo Flávio Dino, que está investigando as emendas do Orçamento Secreto.
Ana Clara Costa: E tem uma questão política também. O Flávio Dino é um político muito competente, embora agora esteja como ministro do Supremo. Então tem todo um temor do centrão de que ele seja um nome para concorrer ao Palácio do Planalto.
Celso Rocha de Barros: Olha só!
Ana Clara Costa: Quando o Lula de fato se aposentar, caso ele venha a ganhar na reeleição e caso o Lula não queira a reeleição, por alguma razão. O Flávio Dino é visto como uma sucessão dentro da esquerda.
Celso Rocha de Barros: Interessante.
Ana Clara Costa: Por todo mundo do meio político, dada a alta capacidade política dele. E ele tem as emendas. O centrão vê isso como a pauta política do Flávio Dino.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Muito bem lembrado. Contra o Flávio Dino existe o fato de que ele não é do PT, né? É difícil o PT abrir mão da cabeça de chapa. Enfim, teria que ter uma intervenção do Lula. O Celso e você mesmo, entendem muito mais do que eu desse assunto. Mas o Flávio Dino tem várias credenciais, mas tem esse ônus de não ser do PT. Bom, a gente encerra o segundo bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, vamos falar do Felca, de abuso contra as crianças nas redes sociais. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vamos começar com você que aposto como eu também não conhecia o Felca. Mas o que interessa é que ele tocou em pontos bem importantes. Enfim, fenômenos de rede social, né?
Ana Clara Costa: Eu só quero dizer que eu também não conhecia, tá? Em minha defesa, eu quero dizer que eu também não conhecia.
Fernando de Barros e Silva: Não conhecia. Ninguém conhecia o Felca.
Celso Rocha de Barros: Não, eu não conhecia o Felca, mas eu tenho certeza que ele não se importa com isso, porque ele é imensamente mais popular, entendeu? Então assim, eu dizer que não conheço ele, mas ele vai dizer “dane se, velho”.
Fernando de Barros e Silva: Exato.
Ana Clara Costa: Isso é um demérito pra gente.
Sonora: Enfim. Agora, o vídeo dele de fato teve um impacto que furou várias bolhas e chegou em Brasília e chegou em todos os veículos de mídia e tal. Porque realmente é um vídeo muito bem feito e muito chocante. Inclusive, eu já devo advertir se você ainda não viu e quiser ver, tem vários alertas de gatilho ao longo do vídeo. Leve a sério os alertas de gatilho, porque as coisas são muito pesadas e vão ficando mais pesadas ao longo do vídeo que ele fez. Agora, o vídeo dele chamou a atenção para duas coisas diferentes e que receberam ênfases diferentes na esquerda e na direita no debate no Congresso. A primeira coisa que ele chama a atenção é que há todo um segmento de adultos que exploram a sexualidade de crianças na internet para monetizar vídeos. Isso não é necessariamente explorar crianças fazendo sexo, mas é coisas que, inclusive para uma pessoa não pedófila, pode não parecer, sei lá, uma jovem de biquíni, uma coisa assim, mas que para um pedófilo é sexualizante, sei lá. Enfim, é, mas é feito sabendo que vai ter uns caras que vão gostar por causa disso. E os exemplos que ele mostra são bastante chocantes,. Assim, eu não vou repetir aqui. Mas tem uma menina que passa a adolescência inteira exposta nas redes e o cara que faz os vídeos dela vai fazendo os vídeos dela cada vez mais sexualizados à medida que ela vai envelhecendo. E aí quando ela, com 17 anos, ela fazia implante de silicone e o cara filma o pós operatório da menina ainda meio dopada. Então, o negócio isso não é a pior coisa que tem no vídeo, então você vai imaginando. E então foi a que chamou a atenção para o fato que isso existe. Tem uns caras ganhando dinheiro com isso. E aí é como o Fernando disse na abertura, a sexualização de crianças já existia programa de auditório dos anos 90 e tal. Mas tem algumas diferenças aqui. A primeira é que, em geral, a criança que via o programa do Gugu, por exemplo, estava numa sala com seus pais. Os pais assistiam aquilo, os pais sabiam que aquilo existia. Então, assim é um troço que o pai, por exemplo, poderia dizer para a criança não ver. Poderia tirar ela dali. E a outra coisa que muito pouca gente tinha acesso a ter um programa de auditório em TV aberta. Se você queria ser um empreendedor de pedofilia, você tinha menos oportunidade. Com as redes sociais, essas oportunidades se multiplicaram exponencialmente. Então, esse cara, por exemplo, faz um reality show de adolescentes se pegando no lugar lá, não sei o quê, que é um negócio horroroso. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Aposto que a maioria dos pais não tinha ouvido falar dele também. Mas é possível que seus filhos estejam vendo isso. E ao passo que se ele estivesse vendo o Gugu na televisão, você provavelmente saberia disso. Mas você não sabe o que seus filhos estão vendo. Então, essa possibilidade de fazer essa exploração da imagem infantil que sempre existiu, agora é um negócio infinitamente maior e que está sendo levado a cabo por gente cada vez mais inescrupulosa. Inclusive, o que é absolutamente aberrante pelos pais de algumas dessas crianças. Tem várias dessas, abre aspas, influencers juvenis, fecha aspas, que fazem aquilo ali por ordem dos pais. Os pais botam a criança ali para monetizar e aí bota a menina dançando, fazendo uma coisa dessa… Na cabeça da menina, provavelmente ela não está fazendo nada demais, mas o pai sabe quem tá querendo ver aquilo. Essa parte do vídeo do Felca virou uma unanimidade, porque, pelo amor de Deus, se isso aqui não gerasse uma unanimidade, eu não imagino o que geraria uma unanimidade, né cara? Então, a esquerda, direita, o centro, todo mundo concordou que tem que ter maiores punições para os caras que fazem isso. Então, assim, até aqui todo mundo de acordo. Tem que ter pena maior para esses caras, para os pais que fazem isso, o Conselho Tutelar entra em ação. Tem que ter limite. A coisa começa a ficar mais complicad na segunda questão que o Felca descobriu, o que eu acho inclusive mais importante, que por exemplo, era uma coisa que eu não tinha a menor ideia. Se você me dissesse tem adultos explorando criança sexualmente, eu sei que isso existe em algum lugar deve ter. Sempre teve aquelas histórias horríveis de prostituição infantil, enfim. Agora, a história que ele descobriu sobre os algoritmos das redes sociais eu não sabia, não tinha ideia. E o que ele faz no vídeo? Ele pega, começa uma conta do zero numa rede social e começa a dar like em fotos de crianças não necessariamente sexualizadas no sentido mais estrito, mas de crianças de roupa de banho, crianças, enfim, dançando alguma coisa assim, conforme ele vai dando like naquilo, o algoritmo da rede social começa a jogar para ele cada vez mais conteúdo do mesmo tipo. Então o algoritmo percebe que você gosta de crianças sexualizadas e imagens cada vez piores. E aí, nas caixas de comentários desses posts, os pedófilos se concentram lá. E aí tem uns códigos lá que Felca mostra, uns gifs, imagens animadas que parece que são mais difíceis de detectar do que textos e algumas algumas palavras código, como por exemplo trade, que é trocar em inglês, para pedófilos que querem. Olha, se você gosta disso aqui, entra nesse meu canal do Telegram aqui pra gente trocar imagens de pornografia infantil. Então isso eu realmente não tinha a menor ideia que existia. Tenho certeza que a maioria do público não tinha.
Fernando de Barros e Silva: Sim, é chocante mesmo.
Celso Rocha de Barros: Muito chocante. E aí isso levanta a questão que a esquerda que já vinha batendo nisso e o STF naquela decisão dele que é a necessidade das redes fazerem alguma coisa antes de pegarem, antes do Felca fazer um vídeo. Então teria que ter um monitoramento, uma política robusta de prevenção disso. Então assim, já tinha que ter tido gente da rede social que teria que ter descoberto isso. Teria que ter visto quais são esses códigos, barrado isso. Por exemplo, a caixa de comentários, o cara que faz um comentário desses já bota ele sob investigação. E são essas políticas de prevenção que o STF quer obrigar as big techs a fazerem. E elas não querem fazer de jeito nenhum. Então, contra essa parte, a direita está totalmente contra. Então vamos esclarecer o que tá acontecendo. A direita tá topando o risco de crianças sofrerem ataques de pedófilos para evitar que os caras que tentaram o golpe do Bolsonaro sejam pegos. Porque se você pode fazer medidas preventivas contra pedofilia, você poderia ser contra golpismo também.
Fernando de Barros e Silva: Vou batizar isso aí de “o paradoxo de Damares”.
Celso Rocha de Barros: É sempre bom lembrar o Trump, que aliás, era chapa e frequentador de festa do pedófilo Jeffrey Epstein, entre outros motivos, porque o Brasil quer obrigar os militares a combater esse tipo de pedofilia na internet. Uma das coisas que o Brasil quer fazer é obrigar as big techs a combater a pedofilia ativamente, não só quando alguém denuncia. Então, assim, isso deu início a uma série de projetos no Congresso. Vamos ver o que vai acontecer. Agora é bom alertar para um risco que quando tem uma história muito chamativa como essa, aparece um monte de deputado com um projeto pronto, mas que depois que passa deixa de ser notícia, o projeto morre. Então vamos ficar esperto para ver se não acontece dessa vez.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana, quero te ouvir sobre isso.
Ana Clara Costa: Queria primeiro falar, complementando o que o Celso disse sobre esse tipo de conteúdo, que o New York Times fez uma reportagem grande sobre isso esse ano, um pouco parecida com o que o Felca fez. Eles receberam uma denúncia de uma dona de uma loja virtual de joias infantis que essa dona estava denunciando, que eles estavam recebendo muitos seguidores homens e que estavam interagindo com a foto das crianças com as joias. Venda de joia infantil de uma forma completamente ilegal. E o New York Times fez o que o Felca fez. Ele criou uma conta, mesma estratégia para mostrar e justamente comprovar a denúncia da dona da joalheria. E eles procuraram, obviamente, a Meta e enfim. Ou seja, esse problema não está acontecendo no Brasil. Ele acontece no mundo. E as redes sociais, as plataformas que acabam viabilizando esse tipo de absurdo até agora não fizeram nada.
Fernando de Barros e Silva: Sim, é óbvio que no centro dessa discussão toda está a necessidade urgente de regulamentar essas plataformas. Outras medidas podem ser tomadas no âmbito educacional, familiar, política pública, aumento de pena. Tudo isso é discutível e, em tese, válido. Se não regulamentar o funcionamento das redes, o resto vai ser residual. Na minha avaliação, é isso que está em jogo e é contra isso que a direita está mobilizada.
Ana Clara Costa: Exato. A gente chegou nesse ponto agora com esse projeto, porque quando o vídeo do Felca viraliza, o Hugo Motta agradece a Deus primeiro, com certeza. E aí ele no fim de semana assim, coisa muito rara, entendeu? Ele se manifestar sobre qualquer coisa no fim de semana. No fim de semana ele se manifesta dizendo que vai matar essa questão no peito. Chama isso de pauta de pacificação porque, obviamente, a oposição não tinha como ser contra isso, porque a agenda deles é proteger as nossas criancinhas. Tô falando que eles usam essa agenda de uma forma muito hipócrita, né? Não estou dizendo que não devemos proteger as crianças, mas a direita costuma usar isso de uma forma deturpada. Tem o projeto do Sóstenes, que a gente já discutiu aqui no fórum no ano passado, que criminalizava o aborto legal, né? Que, enfim, aquele absurdo! Bom, o fato é que Hugo Motta agradeceu às divindades existentes por isso e disse que essa pauta ia ser a pauta de pacificação, né? Então, foi um presentaço que o Felca deu para o Hugo Motta. E não tem como a direita chegar e falar não. Eu acho melhor a gente não tratar do assunto da exploração infantil online agora e tratar da anistia e do foro privilegiado, porque isso pega mal para eles nas redes. Então eles se viram ali, encurralados nessa agenda. E Hugo Motta soube aproveitar bem esse, isso que aconteceu. Aí, olha só o que acontece. Existe um projeto já aprovado no Senado, de autoria do senador Alessandro Vieira, que trata desse assunto da exploração infantil nas redes e que, de certa forma, disciplina o controle parental sobre conteúdos e a proteção de dados das crianças. E esse projeto tem inclusive o apoio da senadora Damares. Ela faz lobby por esse projeto no Senado, ela ajudou a aprovar o projeto no Senado e enfim, esse projeto foi votado no Senado e está na Câmara tramitando. Mas a direita não quer votar esse projeto na Câmara, ela quer apresentar outro projeto. E quando acontece um assunto desse, de ampla repercussão, é normal que apareça um monte de projeto de lei ali do dia para a noite sobre esse assunto. Então a direita quer apresentar outros projetos. Ela quer esquecer esse projeto do Alessandro Vieira e que a Damares apoia. E aí Hugo Motta até foi meio que pressionado a criar um grupo de trabalho para debater esse assunto por 30 dias. Foi pressionado pela direita um pouco também, porque a direita quer que esse assunto morra no fim das contas. E aí, olha só que coincidência o Nikolas Ferreira, que não apresenta projeto nenhum no Congresso. Tem uma reportagem do Globo publicada inclusive hoje, dia que a gente grava o Foro falando que 96% da atividade legislativa do Nicolas não envolve apresentação de nenhum projeto de lei ou PEC. Ou seja, basicamente tudo o que ele faz na Câmara é obstrução, é.
Celso Rocha de Barros: Vídeo para a internet.
Ana Clara Costa: Vídeo para a internet, etc. Não é apresentação de projeto de lei e PEC. Curiosamente, o Nicolas, essa figura que não apresenta nada, chegou com um projeto de lei prontinho essa semana sobre esse assunto. Olha que coisa né, que na manga ele tinha. E esse projeto tem um dispositivo muito interessante que é o seguinte ele prevê que, entre muitas outras coisas, que esse conteúdo que é considerado abusivo contra crianças, seja retirado das plataformas mediante uma notificação do Ministério Público. E o que é isso, né? A gente falou no programa, creio que há cerca de um mês, que quando o STF revisou o artigo 19 do Marco Civil da Internet, justamente a remoção de conteúdo é um dos pontos principais e um dos pontos que mais desagrada as big techs. Porque a partir dessa revisão do artigo 19, ela tem que ser pró-ativa. Essa remoção não precisa mais de ordem judicial nem nada do gênero. O que o Nikolas está propondo é que a decisão do STF, na verdade, seja invalidada pelo Congresso. Vamos supor, na hipótese desse projeto de lei ser aprovado, precisaria sim, de uma notificação do Ministério Público para retirar conteúdo. Ou seja, ele está propondo um projeto de lei que deixa as crianças menos protegidas. Se você partir do pressuposto que alguém, alguma autoridade, precisa chancelar que aquilo é abuso, então o projeto que ele propõe é um projeto que coincidentemente agrada às big techs e que deixa as crianças mais vulneráveis do que elas estão na configuração atual da lei. Esse é o projeto do Nikolas. E aí, o que acontece? Hugo Motta colocou esse grupo de trabalho, mas eles estão tentando fazer esse projeto, que já foi aprovado no Senado, ser votado na semana que vem. Então a coisa tá meio embolada. A gente não sabe bem o que vai acontecer, se é o projeto do Alessandro Vieira que vai ser votado ou se vai ter um trabalho ali, enfim, se eles vão chegar num consenso. O governo que não é bobo nem nada, o Lula até anunciou que o governo vai mandar um projeto de lei sobre esse assunto e tudo mais. Só que daí o governo pegou e falou assim “olha, a gente não vai mandar agora, a gente vai mandar daqui duas semanas, a gente vai esperar um pouco”. Por que? Porque o governo viu que se o projeto de lei do governo fosse enviado agora, qualquer medida que seja restritiva às plataformas nesse projeto vai ser acusada de censura pela oposição. Enfim, de fim a liberdade de expressão, etc. Então eles não querem que esse discurso ecoe neste momento diante de tudo que estamos vivendo. Então eles não vão mandar agora e o que eles estão trabalhando para fazer é com que o projeto do Alessandro Vieira, que a Damares inclusive apoia, ou seja muito difícil para a direita chegar e falar que a Damares está errada, que esse projeto de fato seja votado na semana que vem. Essa briga que está acontecendo ali nesse momento.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito.
Fernando de Barros e Silva: Então encerramos o terceiro bloco do programa, fazemos um rápido intervalo. Kinder Ovo na volta. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Mari, aperta o botão da maldade. Vou sofrer.
Sonora: Eu quero encerrar pedindo perdão ao PT. Quero também pedir perdão à ministra Gleisi, ao deputado Jean Wyllys, ao Senador Randolfe. Nós não acreditamos em vocês naquele momento e hoje nós estamos pagando o preço.
Fernando de Barros e Silva: É a Damares. Damares. Acertei!
Ana Clara Costa: Eu pensei Damares, mas eu falei “ela jamais pediria perdão”.
Fernando de Barros e Silva: Pensou Damares, mas falou “Fernando, coitado”.
Celso Rocha de Barros: Eu achei a voz parecida mas não…
Ana Clara Costa: A Mari fez de propósito.
Celso Rocha de Barros: Eu ia achar que era algum tipo de terceira via, sabe? Um cara que.
Fernando de Barros e Silva: Cada ano bissexto, Fernando, ganha um.
Celso Rocha de Barros: Foi só o cara falar no último correio elegante que o Fernando não ganhava.
Ana Clara Costa: Eu preferia que você tivesse colocado o Kassab.
Fernando de Barros e Silva: Nunca critiquei minha amiga, minha chapa Damares Alves em entrevista coletiva no Congresso. Bom, momento glorioso, Damares Alves. Eu estou brigando com Celso agora. Quanto pior o personagem, maior a chance.
Celso Rocha de Barros: Pois é, estou meio fora de forma.
Fernando de Barros e Silva: Mas é isso. Então encerramos assim o nosso Kinder Ovo. Temos um momento cabeção, vamos para um rápido momento cabeção, com as dicas de filmes, livros, etc.
Sonora: Cabeção.
Fernando de Barros e Silva: Eu vou começar com quem? Começa com o Celso. Vai você.
Celso Rocha de Barros: Bora! A minha dica é o livro ‘A chamada’, da jornalista argentina Leila Guerrero. É um livro pesado e uma história dura sobre a Silvia Labayru, que era uma militante de uma organização guerrilheira argentina que foi presa durante a ditadura argentina, que foi a ditadura mais sanguinária de todos aqui na América do Sul. E ela deu à luz na cadeia. Ela foi torturada, ela foi violentada. E aí que a coisa vai ficando mais complicada e terrível. Os torturadores dela, os militares lá da prisão, começam a ter um caso com ela. Começa a levar ela para sair, por exemplo, e voltar para a cadeia depois. É uma coisa completamente terrível, desesperadora e que chega no ápice quando ela é forçada a ir como se fosse a namorada de um deles e se infiltrar no movimento das mães da Praça de Maio, o que resultou em três mortes. Três pessoas do movimento foram assassinadas por causa da operação de infiltração e aí ela passa a ser discriminada pelos sobreviventes do regime, pela militância de esquerda que acha que ela entregou gente, que acha… Porque a matança na ditadura foi tão violenta que o pessoal que sobreviveu às vezes teve que se deparar com a questão o que você fez para sobreviver, que é uma das coisas mais cruéis que você pode fazer. Uma pessoa que naturalmente estava numa situação que nenhum de nós jamais sonhou. O que você faria? Então, é uma história muito difícil, mas excepcionalmente bem escrita e que realmente gerou um puta livro.
Fernando de Barros e Silva: É da Todavia, Celso?
Celso Rocha de Barros: Da Todavia.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara.
Ana Clara Costa: Bom, gente, eu sou meio coração gelado e meio estou dizendo isso para justificar o que eu vou falar em seguida. Eu não costumo ler poesia. Sabe, tenho esse problema e é a única coisa que eu tinha lido da Bruna Beber até hoje. Era a tradução do livro de quatro da Miranda July, que a Bruna também é tradutora e eu não gostei do livro, não da tradução, não gostei do livro, era a única coisa que eu tinha lido dela, então eu tinha essa falha. Nunca tinha lido nada dela e até que eu comecei a ler o último livro de poemas dela pela Companhia das Letras, o ‘Romance em 12 linhas e outros poemas’, que é na verdade um apanhado dos principais livros de poemas dela, com exceção do último livro que ela lançou em 2023 que chama ‘Veludo rouco’, também pela Companhia das Letras, e eu estou adorando. Contra todas as minhas expectativas de ler poesia, porque eu sempre me frustro.
Fernando de Barros e Silva: Pois viva a poesia, a Bruna Beber é excelente.
Ana Clara Costa: O livro dela é maravilhoso.
Fernando de Barros e Silva: Ela é excelente, uma das grandes poetas brasileiras, eu acho.
Ana Clara Costa: Pois é. Pois é, não, estou gostando muito de ler. Enfim, estou me divertindo e ao mesmo tempo me arrebatando algumas vezes, então recomendo para vocês. Ainda não terminei, mas acho que antes de terminar eu já posso recomendar ouvintes.
Fernando de Barros e Silva: Ouvintes, ela vai terminar no sul da Itália de ler, porque a semana que vem ela está de folga. Já estou antecipando aqui para vocês com inveja.
Celso Rocha de Barros: Foda né?
Fernando de Barros e Silva: Bom, a minha dica é o novo balé do Grupo Corpo, que eu fui ver ontem à noite em São Paulo. Estreou ontem, quarta-feira, anteontem para vocês que estão nos ouvindo. Balé que chama Piracema, com música da Clarice Assad, que é uma compositora brilhante de uma família de músicos. A família Assad é famosa na música e o grupo está completando 50 anos. Piracema é o, eu sou ignorante nisso, Celso, você vai me… É o período de desova dos peixes que eles nadam rio acima. E é um balé e uma música difícil e um balé extraordinário. O Grupo Corpo é uma coisa assim, difícil até de descrever, porque é uma junção de rigor com liberdade. Assim, se você pegar as duas coordenadas rigor, exatidão e liberdade, pois lá na ponta eles estão no. Eles estão na intersecção desses dois vetores. Eu coloco o grupo corpo um pouco na altura do, sei lá, Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Drummond. Eu acho que o corpo está nesse patamar e eles começaram a turnê por várias cidades do Brasil. Não é fácil conseguir ingresso, mas eu acho que vale a menção e a homenagem. É isso.
Fernando de Barros e Silva: Encerramos então o nosso Momento Cabeção. Vamos agora para o melhor momento do programa, o momento de vocês, ouvintes. O correio elegante. Eu vou abrir então o correio elegante com a mensagem da Paty. Paty com Y, só Paty mesmo. “Olá, vim apenas agradecer e parabenizar toda a equipe do Foro pelo respiro, as vezes ácido, as vezes cômico, em meio a tanto caos e deselegância nesse nosso tão vasto suco de Brasil. Deixo aqui as palavras de Galeano que para mim refletem lindamente na Ana Clara, Celso e claro, nosso amado Fernando: ‘um teimoso ato de fé na palavra solidária e criativa, aquela que não é nem finge ser neutra. A voz humana que não é eco nem soa só por soar’. Um grande beijo da Patrícia de Campinas”. Obrigado, Paty. Um grande beijo.
Celso Rocha de Barros: Beijo, Patrícia” Um abraço para todo mundo de Campinas. Morei aí 11 anos. Gostei muito.
Fernando de Barros e Silva: Celso é um campineiro de coração bom. Carioca, campineiro.
Celso Rocha de Barros: É isso aí.
Ana Clara Costa: O Aristóteles Pinheiro está usando nosso espaço para mandar uma mensagem. “Quero deixar um correio para minha amada Bruna Girão. Meu amor, esse terror está acabando, até porque ninguém vai reeleger esse parvo como senador. Sim, meus amigos, minha esposa é da família do senador Eduardo Girão”.
Celso Rocha de Barros: Sensacional.
Ana Clara Costa: “O preferido do Celso. Morre de vergonha de ter esse lunático na família. Somos do Ceará e ela não aguenta mais as pessoas perguntarem se eles são parentes. E o pior, ela ter que dizer que sim. Força, Bruna, ele vai já cair no esquecimento”. Aristóteles, você é demais!
Celso Rocha de Barros: Grande Aristóteles! Força Bruna e solidariedade aqui.
Fernando de Barros e Silva: Bruna, você já ganhou a gente. Bruna, isso acontece. Parente a gente não escolhe. Deixa que o Celso cuida do seu parente aqui.
Celso Rocha de Barros: Meu grande chapa. Andressa Gonçalves postou: “Queridos, acabei de comprar meu ingresso para o Festival de Jornalismo da Piauí para o domingo. Ansiosíssima para vê los pessoalmente. O único grupo que merece um real momento tiete. Obrigada por serem tão incríveis”. Andressa, obrigado a você, cara. Vejo você lá no festival.
Ana Clara Costa: A gente te espera lá.
Fernando de Barros e Silva: Vai sábado também! Tá muito legal a programação.
Celso Rocha de Barros: É, com certeza isso que eu ia falar.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Bem, a gente encerra então o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de dar start para a gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da Piauí. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista Piauí. A coordenação geral é da Paula Scarpin. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é do Gilberto Porcidônio. A edição é da Carolina Moraes, da Mari Leão e da Paula Scarpin. A identidade visual é da Amanda Lopez. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisola. O programa de hoje foi gravado aqui na minha choupana, em São Paulo, e no estúdio do grande Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço de todos os meus amigos. Tchau, Celso.
Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Ana e até daqui a 15 dias, porque você vai se divertir um pouco que ninguém é de ferro. Tem que mandar foto.
Ana Clara Costa: Mas eu volto, prometo.
Fernando de Barros e Silva: Volte logo.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal!
Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até a semana que vem.
