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As políticas de diversidade na berlinda

    Manifestante empunha o cartaz com a frase "Can we breathe now?" (Nós podemos respirar agora?) durante protestos pela morte do jovem negro Eric Garner, em 2014 Foto: Lorie Shaul

questões antirracistas

As políticas de diversidade na berlinda

Opor-se à ideia da justiça social em nome do empreendedorismo coloca em risco avanços democráticos

Fernando Baldraia, especial para piauí | 04 nov 2025_09h20
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Em fevereiro de 2025, poucos meses após assumir o cargo, Catia Porto, vice-presidente de Recursos Humanos da Vale, causou burburinho nas redes ao publicar o seguinte post no Instagram: “A cultura woke está perdendo espaço. Ao contrário do DEI [Diversidade, Equidade e Inclusão], que foca a diversidade como elemento-chave, tem um novo movimento chamado MEI [Mérito, Excelência e Inteligência], que enfatiza mérito, desempenho e capacidade intelectual.”

Porto respondia à pergunta de um seguidor sobre a razão de as empresas estarem retomando o modelo presencial de trabalho. Não ficou claro por que a volta aos escritórios e o foco em performance se contraporiam às políticas de diversidade, mas a executiva ressuscitava ali a velha alegação de incompatibilidade entre programas de inclusão e equidade e contratações baseadas em mérito e competência.

A Vale reagiu publicando uma nota em que afirmava não haver “mudanças em suas políticas e diretrizes para a agenda de diversidade e inclusão” e que a empresa seguia trabalhando para garantir que sua equipe refletisse “a pluralidade da sociedade brasileira”.

O comunicado amainou o temor de que a empresa brasileira pudesse engatar no que ocorria nos Estados Unidos, onde gigantes como Amazon, Meta, Google, McDonald’s, Walmart, Microsoft e Disney anunciaram o fim ou a redução de seus programas de diversidade e inclusão, e tiravam o combate ao racismo de suas agendas estratégicas. A ação dessas companhias demonstrava um rápido alinhamento ao governo Trump 2, eleito pouco tempo depois com a promessa de adotar uma linha dura contra a chamada “agenda woke”.

O alarme soado pela executiva deu ensejo a que certas perguntas incômodas, mas que estavam na ponta da língua, viessem à tona. As políticas de diversidade configuraram uma onda efêmera, que produziu seus efeitos, mas já dava sinais de esgotamento? Ou, ao contrário, estaríamos testemunhando a emergência de uma transformação social profunda e de fôlego maior, do qual os últimos anos são apenas demonstrações mais evidentes?

 

Puxados pela visibilidade global do Black Lives Matter, movimentos antirracistas vêm se rearticulando mundo afora desde meados dos anos 2010, e têm se mostrado bem-sucedidos em expor o papel central do racismo e da xenofobia na perpetuação das desigualdades globais. No rastro do caso George Floyd, grupos sociais diversos se uniram, gerando uma imensa onda de protestos antirracistas em todo o planeta. O profundo debate que esse movimento gerou parece ter se beneficiado de uma espécie de grande exame de consciência em curso naquele momento, poucos meses após a eclosão da pandemia.

Ao ter de escolher entre as alternativas que se apresentavam no mar de incertezas de então, éramos compelidos a refletir de maneira radicalmente coletiva e considerar nossas ações em um contexto cuja escala planetária era apreensível de forma inaudita. Um gesto tão simples como usar (ou não usar) máscara – e toda a controvérsia que gerou – expunha as consequências concretas e, naquele contexto, funestas, dos atos individuais sobre a existência não apenas de nosso entorno, mas da humanidade. Nunca foi tão fácil sentir e entender o entrelaçamento entre o individual e o coletivo, e quanto a ação e o comportamento de cada pessoa são vitais para o bem comum.

Começamos a nos perguntar não apenas como viver o presente e superar a ameaça imediata, mas também a levantar questões substantivas sobre o tipo de mundo que gostaríamos de habitar quando tudo passasse. A ameaça existencial do coronavírus à espécie encontrava paralelo na ameaça do racismo a uma sociedade saudável.

No Brasil, a Coalizão Negra por Direitos, criada em 2019, escreveu um manifesto cujo título ia ao cerne do problema e, naquele momento, fez soar como obviedade uma mensagem que gerações e gerações de ativistas do movimento negro trabalharam duro – mas sem grande êxito – para transmitir: Enquanto houver racismo não haverá democracia.

O fato conjuntural novo foi o processo rápido de tomada de decisões. Um sem-número de empresas – no Brasil e no exterior – anunciou a criação de medidas voltadas à diversidade e inclusão com ênfase no combate ao racismo. Nesse momento, a sigla DEI começou a se tornar top trend corporativo.

Foi salutar o movimento de deslocar para o mercado de trabalho o centro dinâmico do debate sobre equidade racial. Para a população negra, a igualdade formal de direitos sempre foi para lá de insuficiente ao exercício mínimo da cidadania. Sem igualdade de oportunidades, essa conta não fecha. E, como boa parte do que chamamos genericamente de “oportunidades” consiste em postos de trabalho, o engajamento decidido do setor privado é aqui fundamental.

O impacto redistributivo de políticas de diversidade na iniciativa privada, todavia, não deve ser superestimado. “A desigualdade brasileira é colossal”, como aponta o economista e sociólogo Marcelo Medeiros. Um quinto de toda a renda nacional é apropriada pelo 0,5% mais rico da população ou, numa medida menos abstrata, “a metade mais pobre, mesmo reunida, mal alcança a renda do 0,1% mais rico”, como ele escreve em seu livro Os ricos e os pobres (Companhia das Letras).

Essa disparidade faz com que uma correção significativa da desigualdade por meio da renda do trabalho tenha um alcance bastante limitado. O grosso da tarefa a ser feita nessa seara, como demonstra Medeiros, precisa se dirigir ao topo do topo da pirâmide – o que não vai ocorrer sem disputa política, como mostraram os embates em torno da reforma tributária. O projeto de lei que reduz a regressividade de nossa forma de arrecadação, aumentando a taxação dos “super ricos” e ampliando a faixa de isenção na parte de baixo da pirâmide de renda (para quem ganha até 5 mil reais) foi aprovado por unanimidade na Câmara, mas não sem primeiro enfrentar resistência de maioria absoluta da Casa, que tentou aproveitar a pauta para emplacar a “PEC da Blindagem”.

De todo modo, não devemos também subestimar os efeitos redistributivos em jogo. Para além do aumento potencial da renda média, a maior presença da população negra em campos de atuação dos quais esteve sistematicamente excluída tem ensejado transformações capazes de reconfigurar nossa percepção da vida social. São mudanças que nos permitem projetar (no duplo sentido do termo) o que seria o mundo se regido por um pacto social no qual a defesa do antirracismo tivesse força vinculante e normativa comparável, digamos, à da defesa da liberdade.

O processo em curso no universo literário brasileiro é um bom exemplo disso.

 

Nos últimos anos, obras de autoria negra têm atraído um interesse crescente do público e da crítica. Conceição Evaristo se consolidou como uma das autoras mais importantes da ficção literária contemporânea, Torto arado (Todavia), de Itamar Vieira Júnior, se tornou um fenômeno editorial, vendendo mais de 1 milhão de exemplares e sendo traduzido para vários idiomas. Nomes como os de Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz, Carlos Eduardo Pereira, Edimilson Pereira de Almeida e Luciany Aparecida frequentam agora as listas dos grandes prêmios literários.

Não foi de todo surpreendente que numa pesquisa feita pelo jornal Folha de S.Paulo para eleger, na opinião da crítica, os 25 melhores livros de literatura deste quarto de século, figurem sete títulos de autoria negra. E é sintomático que Um defeito de cor (Record), de Ana Maria Gonçalves, tenha sido a obra vencedora: o livro é um mergulho no cotidiano da escravidão na pele de Kehinde, uma escravizada de origem nigeriana.

Ao ler Um defeito de cor, percebemos que uma coisa é tomar a escravidão colonial como um estágio já superado de nosso desenvolvimento econômico. Assim enfocada, ela vai parar no arquivo mental mais ou menos empoeirado dos “conhecimentos gerais”. Coisas banais e sem grande serventia, que sabemos com indiferença, como decoramos o nome de quem “descobriu” o Brasil. Outra coisa é ver Kehinde ouvindo do “sinhô José Carlos” que “a virgindade das pretas que ele comprava pertencia a ele, e que não seria um preto sujo qualquer metido a valentão que iria privá-lo disso”. O “preto sujo” ao qual ele se refere é Lourenço, jovem escravizado com quem Kehinde mantinha um relacionamento.

Assistimos assim, linha a linha, em silêncio e no recanto mais íntimo de nossa imaginação, como o “sinhô José Carlos” estupra Kehinde na frente de Lourenço. Na sequência, ele estupra também Lourenço. Ordena então que um capataz chame o castrador de porcos que, com a ajuda de dois outros homens, corta fora o membro do rapaz. Tudo diante de Kehinde. O ato é ao mesmo tempo vingança e punição. De um lado, prática disciplinar. De outro, dado que Kehinde engravida e os filhos de mães escravizadas herdavam o status legal da mãe, o estupro se perfaz numa modalidade institucionalizada de investimento. Reprodução de patrimônio.

Ao fim dessa cena, Kehinde nos conta que “a última coisa que ouvi antes de sumir de mim foi o sinhô comentando que aquilo não era nada, que Lourenço ia sobreviver…”. Emasculado, mas vivo. Ela também é uma sobrevivente. Ela não viu, ela não assistiu, ela viveu – junto com os seus – o drama da escravidão. E não apenas passou pelo que passou, mas se mostra capaz (ou se oferece ao sacrifício) de passar por tudo de novo, rememorando a experiência, que de tão atroz parece inenarrável.

Aqui, estamos diante do que Hannah Arendt mais tarde chamaria de “banalidade do mal”. Gostaríamos de enxergar o castrador de porcos e seus ajudantes (gente anônima, comum, dos quais sequer sabemos os nomes) como pessoas “normais”, no gozo de perfeita consciência da natureza de seus atos e, assim, inteiramente capazes de distinguir o certo do errado.

No entanto, parafraseando Arendt, naquele momento só se podia esperar que as “exceções” agissem “normalmente”, já que o mundo da escravidão colonial era um circuito fechado de grandes e pequenas atrocidades físicas e psíquicas desenhadas para mutilar as formas de vida trazidas de África ou as aqui desenvolvidas por pessoas escravizadas. O objetivo era garantir que não se constituíssem condições mínimas para a liberdade e autonomia do povo negro nem naquele momento nem no futuro. O preço da vida deveria ser a subserviência perpétua. Se isso não é um “mal” superlativo para uma vida decente em comunidade, não sei o que é.

Quando, hoje, concluímos não apenas que queremos, mas que devemos, como sociedade, ler Um defeito de cor, praticamos o gesto moral elementar de escutar Kehinde, consumando seu relato como testemunho que nos coloca diante do dilema ético de como lidar com os eventos que ela faz chegar até nós.

Confrontar o escravismo colonial como “banalidade do mal” avant la lettre – e sonhado para ser ad aeternum – mobiliza afetos complexos e revolve camadas muito bem assentadas de nossa forma de estar no mundo. Chamo de dilema, pois não há aqui garantias de que esse processo culmine no antirracismo como senso de dever ético. Mas é certo que sociedade nenhuma passa incólume por isso. O que está aqui em jogo é desenvolver a sensibilidade para compreender o sentido da história numa perspectiva capaz de discernir os elementos e as origens de nossos problemas sociais mais prementes e profundos.

Se memórias compartilhadas desempenham um papel crucial na complexa rede de relações que garantem a coesão social, firmar um pacto entre memória e cuidado é nossa melhor aposta num sentimento de pertencimento coletivo com potencial de minar as bases da indiferença que alimenta a banalidade do mal. Com alguma sorte, ao longo desse percurso de elaboração crítica da memória da escravidão colonial, mais do que dever ético, o impulso antirracista se torne, como a ideia de liberdade, objeto de desejo ético.

Há sinais alvissareiros. Ana Maria Gonçalves assumiu mês passado a cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras, na vaga antes ocupada pelo linguista Evanildo Bechara. Em seu site, a ABL se autointitula como “tradicionalíssima” e, consoante, ostenta certo orgulho em se mostrar alheia aos debates políticos de seu tempo, avessa à mudança e impermeável ao ambiente externo. Parece uma receita para a obsolescência; e é a fórmula mágica de salvaguarda do cânone. E eis que uma mulher negra, a primeira, entra na ABL. Um exemplo bastante didático de como o cânone se reconfigura como resposta ao novo, e de como uma instituição que parecia ultrapassada se ressincroniza com o tempo presente expressando o que lhe falta, o que deseja ser.

Podemos – e devemos – nos perguntar se nosso desejo deveria estar prioritariamente orientado a ocupar esses espaços. Se instituições como a ABL estão à altura e aptas a servir aos ideais que sonhamos. Se não nos falta ainda, como certa vez me disse o músico e professor Tiganá Santana, o gesto soberano da recusa.

Em todo caso, esse processo em curso no universo literário aponta para um certo rearranjo libidinal de nossa relação com o mundo. Variando em forma e intensidade, esse movimento está ocorrendo também em outros campos onde a comunidade negra, após séculos de exclusão sistemática, aumenta agora sua presença, trazendo novos elementos, novos termos, novos ângulos de visão.

Coisa similar acontece em espaços regulados por códigos masculinistas e heteronormativos quando pessoas de gênero e orientação sexual diferentes começam a atuar ali em igualdade de condições. Os afetos e os recursos materiais e simbólicos mobilizados na interação cotidiana produzem uma renegociação de posições, oferecendo novos termos para a relação. Como resultado, dão ensejo a uma reconfiguração do espaço social em redor.

Há aí uma ação de conjunto, não muito fácil de apreender, mas que, mesmo operando contra uma força de inércia descomunal, consegue produzir deslocamentos. Esse movimento aspira todo nosso cuidado, pois tem sido fonte da imaginação crítica capaz de, já agora, abrir horizontes futuros, criando ferramentas para um radical e gradativo reordenamento do mundo.

A imaginação literária que educa nossos sentidos para o antirracismo ao capturar o dilema ético colocado pela reatualização incessante da “banalidade [escravagista] do mal” é uma dessas ferramentas. Há outras, vindas de outros quadrantes, como o dos estudos de gênero. Uma delas é entender que o cuidado com as crianças é responsabilidade de toda a sociedade – inclusive de quem não tem filhos – e, portanto, uma tarefa que não pode ser inteiramente delegada às mulheres, reduzidas à condição de mães, como argumenta Vera Iaconelli em seu Manifesto antimaternalista (Zahar).

Ideias deste tipo são fundamentais porque criam novos lugares para realocarmos o senso de bem comum. Não é fácil perceber esse giro. Como lidam com termos que, para o senso comum, representam “pares de contrários” (negro e branco, homem e mulher) o rearranjo de relações que propõem é facilmente lido como uma disputa de interesses entre contraentes antagônicos. Um jogo de soma zero, em que qualquer ganho em um campo significa perda para o outro. Nesse enquadramento, as reivindicações de parte a parte tendem a ser lidas como exercício de polarização e da fragmentação política, com cada grupo olhando para o próprio umbigo e aumentando assim a falta de terreno comum para o diálogo.

Há outra forma de enxergar esse cenário e o acirrado debate sobre a história, que oferece subsídios para ambos os lados defenderem seus pontos de vista, e é um bom campo de prova para testar esse argumento. Durante muito tempo, a importância de acontecimentos decisivos protagonizados pela população negra – como a Revolta dos Malês ou a Revolução do Haiti – foram negligenciados e seus desdobramentos subestimados. Na mesma toada, personalidades negras de relevo foram ou embranquecidas ou apagadas do registro histórico.

Quando a crítica a essa história culmina na implementação da lei 10.639, que obriga o ensino da história afro-brasileira em escolas, o que temos não é a satisfação de um interesse particular da população negra, mas restabelecimento de seu direito à memória e, com ela, as condições de possibilidade para um profundo processo de reconstrução de si. A fruição desse direito não fere a liberdade de ninguém, e à medida que seu exercício se consolida como parte de nossa vida intelectual, o que ocorre é, evidentemente, uma ampliação – não uma redução – do terreno comum para o diálogo historiográfico.

Se, por um lado, é algo vexatório que precisemos de uma lei para que figuras como Luiz Gama ganhem espaço nos livros e nas salas de aula, por outro lado, o caminho pelo qual a demanda por essa história renovada conquistou legitimidade social revela o que é necessário para que uma reivindicação (que poderia ser admitida no debate como mero interesse) possa ser postulada como um direito: a qualidade fundamental de ser justa.

O percurso que leva à criação dessas novas superfícies de projeção do que é justo – e justifica a existência de novos direitos – é o que produz o aprendizado coletivo precioso que, sem enunciá-la diretamente, se assenta na ideia de bem comum.

 

Os Estados Unidos vivem uma conjuntura de franco retrocesso das políticas de diversidade e inclusão iniciadas mais de meio século atrás. O trumpismo fez delas um novo comunismo, pintando-as como a quintessência de forças que tentam tomar o Estado e degeneram o tecido social.

O bolsonarismo repete a receita nas bandas de cá, e nisso se beneficia da crítica progressista que urdiu o “identitarismo” como categoria de acusação para depois surfar a onda do anti-identitarismo. Nessa perspectiva, reivindicações que visam incrementar a igualdade de oportunidades corrigindo distorções com base em critérios de raça – e também de gênero e orientação sexual – são vistas como expedientes propensos a trazer mais problemas e nenhuma solução.

O mundo corporativo é ágil. Assim como reagiu prontamente em 2020, aderindo às políticas de diversidade no pós-George Floyd, pode repetir o gesto agora, só que em sentido contrário. Diante desse cenário, repetir o mantra de que diversidade se traduz automaticamente em lucro e inovação é feitiço pronto para se virar contra o feiticeiro. Por esse caminho, a empresa que investe num programa de equidade racial e não percebe o retorno financeiro ou operacional esperado terá toda razão em usar esse insucesso como justificativa para restringir ou abandonar a iniciativa.

As razões da existência dessas políticas vão muito além da inovação e rentabilidade. É preciso perceber onde, sem enunciá-lo diretamente, tocam o bem comum.

No Brasil, uma dessas razões – e talvez a mais concreta – é completar um círculo virtuoso iniciado mais de duas décadas atrás, com a implementação de ações afirmativas no ensino superior. Ao absorver a mão de obra que se beneficiou das cotas, proporcionando a ela acesso a postos de trabalho mais bem remunerados, alimentamos um ciclo intergeracional de ascensão social da população negra.

O impacto disso na redução geral da desigualdade, repito, é pequeno. Reitero esse ponto para que tratemos com um grão de sal outro mantra repetido com frequência, qual seja, o de que a educação é a grande solução para nossa profunda desigualdade social. Volto a Marcelo Medeiros. Ele aponta que o mercado de trabalho costuma absorver bem aumentos de qualificação em pequena escala, como é o caso do oriundo das ações afirmativas. Mas em um cenário quimérico em que toda a força de trabalho ganhasse um salário médio de nível superior, ainda assim a desigualdade de renda seria reduzida em apenas 10%.

Ao passo que são insuficientes para produzir mudanças substantivas nos atuais mecanismos de regulação global do capitalismo – cada vez mais eficientes em produzir concentração de riqueza e aumento da desigualdade –, ações afirmativas nos oferecem oportunidades para reconfigurar a ideia de democracia.

Uma vez que direitos civis e políticos estão assegurados (ao menos como ficção jurídica), é na garantia de oportunidades dentro da ordem de mercado vigente que nossa “democracia de baixa intensidade”, como a denomina a filósofa Sueli Carneiro, pode subir alguns níveis. Pragmatismo é aqui indispensável porque, até onde o olhar alcança, o neoliberalismo venceu. É ele que, como explica Marcos Nobre no texto O que vem depois do neoliberalismo? (piauí_213, junho de 2024), a despeito de qualquer boa intenção, “estabelece as margens de ação disponíveis […] em um quadro geral pouco elástico” e nos coloca hoje diante da difícil pergunta sobre o que vem depois dele.

A vitória do capitalismo neoliberal se mostra em seu enraizamento social e na forma como foi capaz de desmontar não só os mecanismos institucionais de implementação de direitos sociais, mas também a própria crença no bem comum. Se houve um tempo em que, ao menos no âmbito retórico, a redução das desigualdades era um consenso tácito e caía sempre bem defender a justiça social, esse tempo passou. Chegamos a um ponto em que se opor orgulhosamente à ideia da justiça social, apresentando-a como a verdadeira razão dos desajustes da sociedade, virou uma plataforma política de sucesso, que opera por meio de palavras-chave como meritocracia e empreendedorismo.

O senso de dever ético ao qual me referi acima atua no sentido de recompor o nexo entre comunidade e justiça, que o neoliberalismo esgarça, e ampliar as margens de imaginação disponíveis, a despeito da rigidez do quadro geral.

Não deveria haver grande dificuldade em imaginar um Brasil no qual enxergaríamos como justo e direito termos um número substantivo – quiçá majoritário – de pessoas negras em todos os campos de atuação nos quais hoje essa população é ausente ou minoria absoluta: na magistratura, no Parlamento e no Executivo, no exercício da medicina (ocupando inclusive os conselhos da classe), como docentes nas universidades de ponta, no alto oficialato das forças militares e policiais, no circuito hegemônico das artes, das letras, da tecnologia, das comunicações e das finanças.

Me parece particularmente equivocada a ideia de que nada mudaria, e teríamos um mais do mesmo, mas agora com “representatividade negra”, que, nessa acepção, significa uma elite negra reproduzindo ipsis literis as dinâmicas e comportamentos sociais perpetuadores da exclusão. Por outro lado, não se trata também de pressupor que a comunidade negra seria virtuosa por natureza, psiquicamente equipada para ter uma relação menos perniciosa com o poder e o dinheiro, ou dotada de qualquer inclinação atávica a construir um mundo menos injusto.

O que ocorre é que a cultura política negra foi forjada na luta contra a escravidão e seu legado. Quando se vive por séculos trabalhando à força, sem remuneração e com a finalidade única de gerar riqueza para outrem, como pensar depois o valor do trabalho e a forma de distribuir a riqueza? Quando se vive por séculos na condição de sub-humano, como pensar depois a hierarquização racial entre os humanos e a relação destes com os demais seres viventes, não humanos, com os quais compartilhamos o planeta? Quando se vive por séculos na condição mesma de mercadoria, como pensar depois o mundo da mercadoria?

Questões como essas, radicadas na experiência histórica singular dos povos negros escravizados no “Novo Mundo”, ensejam noções de igualdade, liberdade e dignidade humana originais e que retêm uma importância filosófica ampla. Quando inquietações, ângulos de visão, abordagens, comportamentos e valores enraizados nessa ontologia histórica são compartilhados em espaços hegemônicos, eles amadurecem, se espraiam e se lapidam na lida com as demandas concretas daquele fazer, e passam a compor o mosaico de argumentos à disposição para modular o exercício do poder.

Essa transformação não viraria nossa sociedade de ponta cabeça. Ao mesmo tempo, viveríamos em um mundo virtualmente diferente do que é hoje, pois uma distintiva cultura da liberdade – presente que os escravizados e seus descendentes legaram à posteridade – poderia enfim encontrar caminhos para ganhar espaço no sistema político e escuta na esfera pública, contribuindo para qualificar o debate que orienta os destinos de nossa sociedade.

 

A posição que aqui esboço é particularmente talhada para atuar contra a polarização, fenômeno que domina a paisagem política interna de países como o Brasil e os Estados Unidos. Uma pesquisa do jornal The New York Times, de setembro de 2025, mostra que a polarização política é apontada como o maior problema da sociedade americana hoje. Para 64% dos entrevistados, a sociedade está tão politicamente dividida que se tornou incapaz de enfrentar seus problemas. O cenário brasileiro mostra indicadores semelhantes. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em julho deste ano – encomendada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – aponta que 72% dos brasileiros percebem o país como polarizado.

Há quem aposte que a democracia pode ser a vítima final desse processo deliberado de polarização. Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de Como salvar a democracia (Zahar), são categóricos: “Estamos numa encruzilhada: ou os Estados Unidos se tornam uma democracia multirracial ou não serão uma democracia em nenhum sentido.” Em O projeto – como a extrema-direita está transformando os Estados Unidos (Zahar), livro que analisa um documento chamado Projeto 2025, que propõe criar uma “presidência imperial” nos Estados Unidos, David Graham explica que a abordagem dos conservadores radicais americanos foi concebida de forma “conscientemente radical e baseada na convicção de que não havia mais ordem constitucional a ser salva”. Lá e aqui, para chegar ao fim último de corroer internamente a democracia, o alvo primeiro tem sido não apenas a Suprema Corte e o sistema eleitoral (como reza o manual do autocrata contemporâneo), mas também as políticas de diversidade e equidade racial.

A função precípua da democracia é conter o excesso de poder. A arquitetura do estado democrático de direito – com sua divisão republicana de poderes, o lugar da imprensa e da sociedade civil – foi desenhada para conter a concentração e o excesso de poder do Estado (na figura dos governos eleitos), bem como de qualquer ente que ameace o corpo da sociedade.

O que o antirracismo faz – assim como o feminismo – é remodelar a linguagem da democracia de forma a abarcar dimensões fundamentais do poder, as quais frequentemente escapam ao enquadramento republicano e se expressam em patentes excessos no exercício da política. Não há forma mais conspícua de excesso, por exemplo, do que produzir a falta severa: a exclusão maciça e sistemática de negros de esferas fundamentais da vida pública e de exercício do poder político é um excesso evidente. O número de 35.531 pessoas negras assassinadas em um único ano no Brasil (76,5% do total de homicídios em 2022, segundo os dados do Atlas da violência) é também um excesso evidente. E é obsceno.

Foi na gradativa restrição desses excessos que o antirracismo sempre se mostrou um elemento indispensável na constituição da democracia no Ocidente. Não é de hoje que movimentos negros desempenham essa tarefa. Para ficamos no “curto século XX”, o papel decisivo do Movimento pelos Direitos Civis na conformação da democracia americana ou do Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela, na desintegração do Apartheid na África do Sul – e as reverberações desses eventos emblemáticos mundo afora – são exemplos bem conhecidos.

No Brasil, vivemos uma conjuntura em que a sociedade civil e a iniciativa privada estão numa posição delicada e de enorme responsabilidade. A capacidade de continuarmos oferecendo postos de trabalho bem remunerados, espaços de poder e influência à população negra é diretamente proporcional à nossa capacidade de oferecer novos “freios e contrapesos” para o exercício da democracia num momento em que o Estado está nas cordas (mas, espero, não ainda na lona) e a economia segue o curso produtivista, rentista e concentracionista próprios do capitalismo quando entregue a seus mecanismos de autorregulação.

O antirracismo abre possibilidades de aprimoramento de nossas teorias sobre liberdade e igualdade, e o faz com base em um repertório político concreto, forjado pela população negra em séculos de luta por autonomia e emancipação. Mais do que tudo, nas severas condições atuais, que combinam normalização do negacionismo, o elogio de regimes autoritários (à esquerda e à direita) e a falência de capacidade de reação do Estado ante as ruínas do neoliberalismo, estar à altura do tipo de transformação social pressuposta pelo antirracismo é a prova de fogo da perfectibilidade da democracia liberal neste primeiro quarto do século XXI.

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