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Um presente para o Centrão

    Policiais militares do Choque guardam documentos apreendidos durante a Operação Carbono Oculto, contra a atuação do PCC nos combustíveis e no setor financeiro, em agosto de 2025 Imagem: Rubens Cavallari/ Folhapress

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Um presente para o Centrão

A decisão judicial que pode esfriar uma delação na Carbono Oculto

Breno Pires, de Brasília | 18 mar 2026_08h52
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Os empresários Roberto Leme, o Beto Louco, e Mohamad Mourad, o Primo, investigados por uma cascata de crimes no setor de combustíveis com uso de fintechs e suspeita de ligação comercial com o PCC, estão foragidos desde 28 de agosto de 2025. Naquela data, três operações policiais foram deflagradas, tendo os dois como alvos: a Carbono Oculto, conduzida por autoridades paulistas, e a Quasar e a Tank, conduzidas por autoridades federais. Os mandados de prisão contra a dupla, até hoje não cumpridos, partiram da Justiça Federal no estado do Paraná, na Operação Tank, na qual hoje são réus.

Donos da formuladora de combustíveis Copape e da distribuidora Aster Petróleo, eles vinham sofrendo revezes na busca por acordos de colaboração premiada e, principalmente, na tentativa de revogar a ordem de prisão. As tensões se intensificaram com os ataques ao Irã determinados pelo presidente americano, Donald Trump, que respingaram em bombardeios no Líbano – o país onde Mohamad e Beto Louco estão escondidos, de acordo com informações de inteligência da Polícia Federal.

Um fato novo pode levar à reavaliação da ordem de prisão dos dois e, assim, afastar a necessidade de eles negociarem uma delação com a polícia – o que é uma notícia extraordinária para próceres do Centrão, a começar pelo presidente do União Brasil, Antonio Rueda, que eles querem entregar.

O juiz federal Marcus Holz, da 14ª Vara Federal de Curitiba, que conduz a ação penal da Operação Tank, decidiu que os principais crimes apontados na denúncia – lavagem de dinheiro e organização criminosa – não devem ser julgados pela Justiça Federal. Ele determinou que essa parte da acusação seja enviada à Justiça Estadual, o que, na prática, retira da Polícia Federal e do Ministério Público Federal a condução da maior parte do caso. O MPF já recorreu. Se o juiz mantiver a decisão, o recurso será julgado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

A decisão também determinou que os bens e valores apreendidos na operação acompanhem o processo que será remetido à Justiça Estadual. Ou seja, o eixo inteiro da operação sai da órbita federal.

A fragmentação do processo atende a um pedido da defesa de Mohamad, representado pelo advogado Conrado Almeida Prado. Os advogados sustentaram que os crimes antecedentes à lavagem de dinheiro – fraudes no mercado de combustíveis e manipulações fiscais – são de competência da Justiça Estadual, já que investigações semelhantes tramitam em São Paulo. O juiz concordou em parte com o argumento. Na avaliação do magistrado, o Ministério Público Federal não demonstrou de forma concreta que os valores supostamente lavados na Operação Tank tinham origem no tráfico internacional de drogas, circunstância que justificaria a competência federal.

A decisão aponta que a denúncia se baseou principalmente em condenações antigas de alguns investigados por tráfico internacional, ocorridas há mais de cinco anos, o que, para o juiz, é insuficiente para estabelecer uma conexão direta entre essas atividades e o esquema investigado atualmente.

Isso contraria o discurso do governo Lula, que associa os investigados ao PCC, e abriu espaço para que a defesa dos acusados sustente que o juiz reconheceu que não há ligação entre eles e a facção. O MPF discorda dessa interpretação e diz que o magistrado não descarta a relação, mas apenas concluiu que os elementos não foram suficientes, naquele momento, para manter a competência da Justiça Federal. Os procuradores avaliam ainda que a decisão ignorou ou subestimou indícios relevantes que apontam justamente para essa conexão.

Apesar de reconhecer a incompetência da Justiça Federal para julgar os crimes centrais do caso, o juiz decidiu manter as prisões preventivas, decretadas na operação pelo Juízo de Garantias da 13ª Vara Federal de Curitiba. Segundo o magistrado, a medida continua necessária para garantir a ordem pública, interromper a atuação do grupo criminoso e assegurar a aplicação da lei penal.

O envio do caso à Justiça Estadual, no entanto, abre uma zona de incerteza processual que será explorada pelas defesas. Celso Vilardi, advogado de Beto Louco, disse à piauí que pedirá a revisão da ordem de prisão.

Entre os exemplos citados pelo MPF, está o caso de Ygor Daniel Zago, conhecido como Hulk, condenado por tráfico internacional e posteriormente investigado por lavagem de dinheiro. O órgão informou ter identificado transações financeiras entre empresas comandadas por Zago e pessoas jurídicas controladas pelos investigados na Operação Tank.

Os procuradores também mencionam conexões indiretas com outras estruturas do narcotráfico. A investigação apurou que Zago mantinha relações com Marcos José de Oliveira, investigado nas operações Narcobroker e Narcolaundry por tráfico internacional de drogas via porto de Paranaguá, e com Willian Barile Agati, preso na Operação Mafiusi por tráfico internacional e lavagem de dinheiro envolvendo integrantes do PCC e mafiosos italianos.

O principal argumento do MPF é que o esquema investigado não se limitava a fraudes fiscais no setor de combustíveis. Segundo o órgão, a organização criminosa utiliza empresas do setor e estruturas financeiras para lavar recursos provenientes de crimes ligados ao narcotráfico internacional, o que atrairia a competência da Justiça Federal. Outro argumento do Ministério Público é que a empresa Tycoon Technology funcionou como um “banco paralelo” do grupo, recebendo grandes quantias em dinheiro e inserindo esses valores no sistema financeiro formal por meio de contas coletivas e operações que ocultaram a origem dos recursos. Na visão do MPF, essa estrutura é justamente o mecanismo que conecta os crimes financeiros às atividades de lavagem de dinheiro e à organização criminosa.

Procurado pela piauí, o advogado responsável pelo processo de colaboração, Guilherme San Juan, não se manifestou.

 

A Operação Tank faz parte de um conjunto mais amplo de investigações sobre fraudes bilionárias no mercado brasileiro de combustíveis. Entre os investigados estão justamente Beto Louco e Mohamad Mourad, apontados como controladores de fato da formuladora de combustíveis Copape e da distribuidora Aster Petróleo. Investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo acusam o grupo de ter estruturado um esquema de sonegação fiscal bilionária por meio de manipulação de preços e geração artificial de créditos de ICMS.

Em busca de um acordo de colaboração premiada, os dois propuseram delatar o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, como revelou a piauí na reportagem O corredor da propina, ou da muçarela. Uma empresa ligada ao grupo da Copape se beneficiou de um regime tributário criado pelo governo do Amapá que permitia importar grandes volumes de combustível com adiamento do pagamento de ICMS por sessenta dias – e para isso teria pago propina de 5 a 10 centavos por litro de combustível.

Na prática, navios carregados de combustível – muitos deles provenientes da Rússia – realizavam o desembaraço aduaneiro em portos do Nordeste e seguiam diretamente para descarregar no Sudeste e no Sul. A mercadoria nunca passava fisicamente pelo Amapá, estado que sequer possui infraestrutura portuária para suportar esse volume de carga. Além disso, o imposto era cobrado em patamar muito inferior ao previsto na legislação nacional. Enquanto a alíquota fixa do diesel chegava a mais de mil reais por metro cúbico, o regime especial aplicado no estado reduzia a cobrança para cerca de 4% do valor da mercadoria. Só o estado de São Paulo estima ter perdido cerca de 1,1 bilhão de reais em impostos não recolhidos em razão desse mecanismo.

A proposta de delação da dupla da Copape também citava o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que segundo eles pediu 2,5 milhões de reais em pagamento por um show do cantor Roberto Carlos no Réveillon de Macapá 2025, como também foi revelado pela piauí. A PGR, porém, não quis negociar a colaboração com Mohamad Primo e Beto Louco, o que indica pouca disposição em investigar a cúpula do Centrão.

Ao todo, segundo relatado às autoridades, Beto Louco e Mohamad pagaram dezenas de milhões de reais a políticos sobretudo de partidos do chamado Centrão.

As chances de que uma delação seja ainda formalizada não são das maiores. A proposta já rodou Brasília e foi analisada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, órgãos que têm atribuição para investigar suspeitos com foro privilegiado, como parlamentares. A posição do PGR de não negociar a delação mostra pouca disposição em investigar a cúpula do Centrão. O Ministério Público Estadual de São Paulo, porém, ainda negocia com os advogados da dupla.

Caso caia a ordem de prisão, Beto Louco e Mohamad terão menos motivos para colaborar com as investigações. No fim do ano, a Procuradoria-Geral da República fechou a porta para uma delação envolvendo autoridades com foro privilegiado, mas a defesa tem mantido tratativas com o MP de São Paulo, que conduz a Operação Carbono Oculto.

Tudo que o Centrão quer é que nenhuma delação aconteça.