Ilustração: João Zangrandi
Um caso de bullying com ponto final
Nove alunos foram expulsos do colégio Vera Cruz, em São Paulo, acusados de agredir um colega de 14 anos em viagem de férias
Era para ser uma excursão de férias com celebração dupla: não apenas o fim do ano letivo, com alunos aprovados e entusiasmados para o início das férias escolares, mas o encerramento do Ensino Fundamental e o início do Ensino Médio. Sob a organização de pais e alunos do último ano do Fundamental da Escola Vera Cruz, de São Paulo, cerca de sessenta estudantes na casa dos 14 anos participaram de um acampamento em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, nos dias 5, 6 e 7 de dezembro. A viagem não contou com apoio logístico nem presença de professores ou orientadores do Vera Cruz, mas o colégio tinha ciência do encontro, que se deu em um lugar ao estilo de colônia de férias, com múltiplas atividades esportivas e quartos compartilhados.
No segundo dia de acampamento, porém, aconteceu um episódio de violência física e importunação sexual. Um adolescente de 14 anos teve a sua camiseta retirada à força por colegas, foi segurado por outros meninos enquanto um colega de sala “sarrava” por suas costas. O caso aconteceu ao ar livre, em um labirinto feito de arbustos, estilo inglês. Na volta da viagem, o garoto relatou o caso aos seus pais. Logo o episódio chegou aos ouvidos da direção da escola. Deu-se início a uma investigação interna na semana seguinte ao acampamento – que os alunos chamavam de “viagem de formatura”.
Vítima, acusados e colegas de viagem começaram a ser chamados separadamente. À medida que a escola os ouvia, o assunto passou a ser discutido entre alunos e pais de alunos. Os familiares de toda a turma ficaram em alerta. “Quando não existe um retrato certo do que aconteceu, ficamos em dúvida se o nosso filho pode ter causado algo, se viu algo e não falou… Foram dias de muita tensão”, contou um pai de aluno sem envolvimento com o caso, que não será identificado para preservar a identidade do menor.
Ao ouvir os adolescentes, a escola descobriu que aquele não foi um caso isolado de violência — mas sim de bullying, prática definida por ataques continuados. O adolescente vítima da “sarrada” era alvo de bullying fazia algum tempo. No ano de 2025, os colegas relataram à direção durante as conversas internas pelo menos outros dois casos, como em uma viagem organizada pela escola à cidade de Porto Alegre, quando foi alvo de xingamentos e piadas no quarto do hotel, e no banheiro masculino dentro da escola, quando colegas de sala arremessaram papel higiênico molhado. Diferente de outros casos em que o alvo era um aluno bolsista, a vítima é branca e pagante (a mensalidade do Vera Cruz custa 6.184 reais nos últimos anos do Fundamental).
A escola deu o caso por esclarecido em 48 horas, já na semana seguinte ao acampamento, e marcou uma reunião com pais de alunos que estiveram na viagem. Sem dar nome de vítima e agressores, embora muitos ali tivessem ciência de quem são e do que aconteceu, o colégio explicou que achou melhor promover uma “transferência compulsória”. Ao todo, nove estudantes precisaram procurar um novo colégio para iniciar o Ensino Médio.
Procurado pela piauí, o Vera Cruz não confirmou o número de envolvidos, ou qualquer um dos fatos apurados pela reportagem. Por meio de nota, disse apenas: “A Escola Vera Cruz informa que não comenta publicamente situações envolvendo seus estudantes, em respeito aos seus princípios educacionais e aos preceitos de proteção integral à criança e ao adolescente observados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).”
Os adolescentes convidados a se retirar tiveram tipos de participação diferentes nos episódios de bullying. Na investigação interna, ficou nítido para a direção da escola que os alunos que participaram ou testemunharam os atos tinham dificuldade de nomear os fatos. Para parte deles, tudo não passava de uma “zoeira” ou “brincadeira”.
O processo de enfrentamento do bullying passa pelo acolhimento, escuta, entendimento da situação e medidas educativas, como o caso da própria expulsão. Mais de 40% dos estudantes adolescentes declararam ao IBGE ter sofrido algo que entendem como bullying, de provocação ou de intimidação, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense).
De acordo com o psicólogo Rinaldo Voltolini, especializado em Infância, Juventude e Escolaridade e professor de Psicanálise e Psicologia da Educação na Universidade de São Paulo, existe uma diferença clara entre ser descoberto e ser visto. O agressor se realiza com a circulação de sua fama de bad boy entre os colegas. Se o reconhecimento por ser fortão e valentão não existir, o bullying perde o seu sentido. Para o bully, os ataques têm de ser calculados: ao passo que os colegas devem e precisam saber que ele impõe medo e agride, os adultos não podem ter ciência de nada.
Conseguir encontrar esse equilíbrio é parte do que move o agressor. “O agressor pode ser qualquer um, o bom filho, o bom aluno…”, diz Voltolini. “Já a vítima tem um perfil comum do agredido, com traço forte de passividade e submissão.”
Voltolini, que presta consultoria para diversos colégios particulares de São Paulo, conta que toda saída para enfrentar o bullying tem de passar pelo caráter socioeducativo. Isso vale para a medida da expulsão coletiva, a mais drástica delas, o caminho adotado pelo Vera Cruz. “Às vezes, chega ao ponto do inevitável: quando o bully é reincidente e não reconhece a gravidade do que fez. Então a expulsão transmite a mensagem de que não se trata de “brincadeira”, o outro está aterrorizado e implica consequências. A expulsão precisa ter uma perspectiva educativa. Se ela for uma medida para atender pais e comunidade, acaba sendo um clientelismo que vemos nas escolas onde os ‘pais pagantes’ ditam as regras”, diz Voltolini.
Escolas particulares voltadas para um público rico estão longe de ser homogêneas. Elas diferem quanto aos métodos de ensino e linhas pedagógicas — e os alunos que atraem. Algumas são progressistas, outras têm disciplinas humanistas e ligadas às artes, outras com foco em avaliações e marcadores de sucesso típicas do mercado financeiro. Os pais escolhem os colégios de acordo com a sua visão de mundo. Todos eles — sejam do mercado financeiro, artistas, com ideias de direita ou de esquerda — querem que os filhos criem e estabeleçam uma rede de contatos que seja importante ao longo da vida. “A escola não consegue escapar da lógica de competitividade do mercado, que valoriza o que conhece como networking. Isso é uma violência geral, contra a infância, contra as crianças – jogá-las cedo demais no mundo do cotovelaço”, diz Voltolini. Para muitos alunos, performar sucesso e carisma dentro de determinado grupo social desde muito cedo pode ser um desafio.
Com doutorado sobre bullying pela Universidade de Brasília e coautora do livro Bullying: Escola e Família Enfrentando a Questão, a psicóloga Raquel Gomes Manzini diz receber muitos alunos em seu consultório para tratar do tema. “Não apenas as vítimas, mas agressores também. Em muitos casos, faço sessões individuais com os seus pais”, diz ela. Quando a criança ou o adolescente não compreende que a ‘zoeira’ é uma agressão, a terapeuta quer investigar como determinados termos e práticas são recorrentes dentro de casa. “Tem pais que são incentivadores de bullying. Então o tratamento precisa ser familiar.” Manzini conta que, nas consultorias que presta para colégios, alguns deles têm adotado a medida de criar um canal online anônimo de denúncia. Para ela, muitos espectadores de violência não fazem denúncia por medo de se tornarem alvo e de perderem os amigos.
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