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Celebrando documentários

    Sem título # 11: Um analecto à mula, de Carlos Adriano, é um cinepoema com uma surpreendente e fascinante antologia de cenas de mulas Crédito: Divulgação

questões cinematográficas

Celebrando documentários

Susana de Sousa Dias e Carlos Adriano no 31º Festival É Tudo Verdade

Eduardo Escorel | 08 abr 2026_08h51
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De 9 de abril, em São Paulo, e 10 de abril, no Rio de Janeiro, até dia 19, o 31º Festival É Tudo Verdade (ÉTV) exibirá 75 documentários de 25 países. Assistir a todos seria ideal, mas quem terá tempo disponível para tanto? Por outro lado, como escolher entre dezenas de títulos atraentes, dilema a enfrentar em todo grande festival?

Dos poucos filmes do Festival que tive a oportunidade de ver, destaco Fordlândia Panacea, de Susana de Sousa Dias, coprodução entre Portugal e Brasil a ser exibida na Competição Internacional, após ter participado, em 2025, da mostra competitiva do Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA). Os outros dois filmes que a meu ver sobressaem, ambos de Carlos Adriano, são Proust Palimpsesto: Pastiches e misturas e Sem título # 11: Um analecto à mula, o primeiro um longa-metragem incluído na Competição Brasileira e o segundo um média-metragem programado na mostra Foco Latino-Americano.

Entre o filme de Sousa Dias e os dois de Adriano há, é claro, diferenças abissais, mas o esforço de ir além das aparências os aproxima. Ao contrário da tendência que vem se tornando dominante no Brasil, nenhum dos três filmes toma a imagem documental como irretorquível. Procuram, ao contrário, revelar o significado além da aparência, mais profundo do que o mero reflexo da realidade em um espelho.

O primeiro plano de Fordlândia Panacea é um tronco fino e isolado, sem vegetação ao redor. O rangido que lembra o do carro de boi de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, acompanha fusões de fotogramas em preto e branco que se sucedem e terminam na copa da árvore. Seguem-se mais duas fusões de fotogramas nos quais dois lenhadores cortam outro tronco a machadadas. A árvore tomba e é içada para ser removida, completando o minuto inicial do documentário.

Fica claro que, para Sousa Dias, é necessário periciar as imagens de modo a conseguir revelar seus verdadeiros significados, não sendo suficiente mostrar apenas suas superfícies visíveis.

Uma das cenas de Fordlândia Panacea — Crédito: Divulgação

 

Um detalhe curioso sublinha o anacronismo de Fordlândia, nome dado ao distrito fundado por Henry Ford na Amazônia, onde o americano criou um complexo de produção de borracha com a qual pretendia alimentar suas indústrias. Como se pode ver em Fordlândia Panacea, no município de Aveiro, no Pará, onde o projeto se instalou entre 1927 e 1945, além de galpões industriais e casas em ruínas, permanecem hidrantes vermelhos de ferro para combater incêndios, típicos até hoje das calçadas em cidades dos Estados Unidos.

Fordlândia Panacea é a história “do sonho utópico de Henry Ford, abandonado no meio da floresta amazônica” às margens do Rio Tapajós, no Oeste do Pará, que foi um “fracasso total e abjeto”, assim definido em inglês por duas vozes não identificadas, em off, nos minutos iniciais do próprio documentário de Sousa Dias.

Os dois filmes de Adriano, por sua vez, integram a vasta obra ensaística que o autor, erudito de vanguarda e artesão personalíssimo filiado à poesia concreta, vem elaborando de modo intenso há cerca de três décadas.

Um analecto à mula, conforme o título completo indica, é o 11º da série Sem título, iniciada com Dança de Leitfossil, em 2014. Inspirado na Rapsodia para el mulo, do cubano José Lezama Lima, Adriano constrói seu cinepoema a partir da exaltação ao vermelho. A cor dá nome a uma música de Chico da Silva e Julinho Teixeira, que é apresentada no filme na voz esfuziante de Fafá de Belém, com versos e palavras da letra reproduzidas em rubro sobre fundo preto. Lezama Lima conta a origem do poema – “esse passo seguro, essa obediência, essa secreta paciência” da mula ao se aproximar do abismo. Além de citações e documentos, uma surpreendente e fascinante antologia de cenas de mulas em filmes os mais diversos compõe a seleta audiovisual que termina com imagens de Gaza destruída, a última das quais, em parte desfocada, parece ser a cabeça de uma mula espetada nas pontas de ferro de uma grade – um uivo silencioso contra a barbárie, antes dos créditos finais, seguidos do flagrante de comédia pastelão colhido em O Palhaço e sua Mula, de 1910, curta-metragem de animação de Charles Armstrong.

Proust Palimpsesto: Pastiches e misturas, conforme a legenda de abertura esclarece, pretende tratar da “im/possibilidade de adaptar” Em busca do tempo perdido para o cinema. A linguagem do documentário é semelhante à dos filmes anteriores de Adriano – seleta de múltiplas citações, neste caso de Jorge Luis Borges a Theodor W. Adorno, incluindo Walter Benjamin e Gilles Deleuze, entre outros; trechos de cartas, páginas manuscritas rabiscadas ou impressas com correções, recortadas e coladas como se tivessem sido reordenadas; campanários, relógios e vitrais; vasta e esplêndida antologia de cenas filmadas, de Um corpo que cai (1958) a A Batalha de Alger (1966), incluindo O Decameron (1971), Em tempo de Nava (1974) e Sem Sol (1983), entre muitos outros; múltiplas trucagens visuais etc. Um feérico cortejo de saída de um casamento, filmado em 1904, no qual casais engalanados descem uma escadaria atapetada, é incluído mais de uma vez, com tratamentos visuais diversificados, ao longo do documentário.

Marcel Proust (1871-1922) — Crédito: Divulgação

 

Destaco ainda dois momentos da gigantesca variedade de materiais incluídos em Proust Palimpsesto: Pastiches e misturas: o depoimento muito interessante de Jean Cocteau sobre Proust, a partir de 16min32s; e a citação editada por Adriano de O tempo redescoberto, volume 7 de Em busca do tempo perdido, aos 46min55s:

Alguns gostariam que o romance fosse uma espécie de desfile cinematográfico das coisas. Essa concepção seria absurda. Nada se afasta mais daquilo que percebemos na realidade do que uma visão cinematográfica. A realidade a traduzir dependia não da aparência do assunto, mas do grau de penetração dessa impressão nas profundezas em que essa aparência pouco importa; nada se afasta mais daquilo que de fato percebemos do que a visão cinematográfica das coisas.

Nessas linhas está contida toda a sabedoria necessária para evitar os males do cinema documentário baseado na mera observação. Devemos refletir a respeito.