minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
Verdade tardia

    Além de sua foto, a ficha de Cledoaldo no Serviço de Identificação de Menores traz apenas a cor "preta", o nome da mãe Maria Helena RIbeiro e um genérico "treze meses" no campo "data de nascimento" Reprodução

questões individuais e coletivas

Verdade tardia

Perto dos 50 anos, Cledoaldo descobriu que não foi colocado no orfanato pela mãe, mas arrancado dos braços dela no governo militar

Rogério Gentile, de São Paulo | 16 dez 2025_08h11
A+ A- A

Cledoaldo Ribeiro da Silva é um homem que não tem certeza nem do próprio nome – em diferentes documentos, é chamado também de Cledoaldo Ribeiro, Clodoaldo Ribeiro ou Clodoaldo Ribeiro Silva. Não sabe com precisão sua idade, desconhece onde nasceu e tem pouquíssimas referências sobre os pais. Passou a vida acreditando ter sido abandonado pela mãe em um orfanato em 1973, e que tinha cinco irmãos espalhados em outras instituições de amparo. Mas isso não era verdade.

O pouco que sabe sobre si mesmo ele descobriu quase meio século depois, em 2022, quando um advogado que conheceu em uma clínica de recuperação para dependentes químicos se interessou por sua história e desenterrou seu prontuário do arquivo do Estado de São Paulo, com documentos de instituições que acolhiam crianças e adolescentes desamparadas ou em conflito com a lei — a Fundação Pró-Menor e a sua sucessora, a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), que daria origem à Fundação Casa.

Os papéis, de um período em que o país vivia sob a ditadura militar, revelam uma história de descaso, arbitrariedade e negligência estatal contra uma família negra e pobre que somente agora começou a ser passada a limpo.

No final de setembro deste ano, a Justiça condenou em primeira instância o Estado de São Paulo a pagar uma indenização de 2,34 milhões de reais a Cledoaldo em reparação pelo que sofreu. Um dano moral que, segundo palavras do juiz Danilo Pinheiro Spessotto, é “profundo e irreparável”.

O prontuário, um compilado de documentos e relatórios de mais de 180 páginas datilografadas, quase sempre amareladas pelo tempo, narra uma história diferente daquela que Cledoaldo conhecia.

Ele foi separado da mãe no dia 17 de novembro de 1973, após eles terem desembarcado de ônibus* em São Paulo. Maria Helena Ribeiro, uma adolescente de 16 anos, carregava o filho bebê no colo quando foi abordada por policiais após descer do ônibus. Analfabeta, vinha de Bauru e pretendia, como diz o documento, achar o “amásio”, Manoel Ribeiro da Silva, de 27 anos. Como ela não possuía documentos nem dinheiro, os policiais resolveram encaminhá-la para o juizado de menores.

Ao passar pela triagem, a jovem disse que desejava retornar para sua cidade, e que ficaria sob os cuidados de uma tia. No entanto, por motivos desconhecidos, mãe e filho foram apartados e encaminhados para instituições sociais diferentes, com a promessa de que, em breve, seriam enviados de volta para o interior. Maria Helena foi conduzida para o educandário Nossa Senhora Maria Auxiliadora. Cledoaldo, para o berçário do Instituto Sampaio Viana. Eles nunca mais se viram.

A documentação obtida no arquivo público aponta que, dias depois da internação, Maria Helena foi enviada de volta para a cidade de Bauru, mas que a perua que a levou até a estação de trem não passou no berçário para apanhar o filho. Os funcionários que fizeram o translado não anotaram o motivo, assim como não registraram o endereço de destino, impossibilitando o reencontro. “Por problema de ordem administrativa, o menor permaneceu internado, e a mãe foi recambiada. Foram pesquisadas todas as fontes com o intuito de se saber o endereço da mãe, com resultados infrutíferos. O menor se encontra em abandono”, escreveu uma assistente social em um relatório de julho de 1975.

Sem saber o paradeiro da mãe adolescente, e aparentemente sem fazer muito esforço para procurá-la, o Estado resolveu, naquele ano, internar a criança “definitivamente”. Um exame na arcada dentária apontou sua “idade provável” (2 anos em 1975) e, a partir daí, ele passou a ter uma data de nascimento oficial: 13 de fevereiro de 1973. Uma avaliação de comportamento feita em 28 de fevereiro de 1975 registrou sua evolução: “A criança já possui marcha estabelecida, anda depressa e corre quando quer (…) Possui em seu vocabulário várias palavras como papá, neném, perua, oba. Começa a juntar duas palavras. Atende quando o chamam (…) Gosta de jogar bola e dar pontapés (…) Está preocupado em descobrir o que é e o que pode fazer”, escreveu a assistente social. 

A capa do prontuário o identifica com quatro nomes diferentes, que estão presentes em diferentes documentos

 

Descobrir “o que é e o que pode fazer” continua sendo até hoje uma questão central para Cledoaldo, que cresceu circulando por várias instituições, em cidades diferentes, tendo ainda de conviver com a ideia que a mãe o rejeitara. Ele foi cadastrado no sistema de adoção, mas um relatório social da Febem de 1981 apontou que não houve interessados “talvez devido às suas características físicas”, sem explicar a quais se referia. 

No começo de 1990, Cledoaldo se sentiu descartado mais uma vez. Ele tinha 17 anos e trabalhava como office boy em um banco, quando chegou no internato mantido por uma entidade católica, onde estava abrigado, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. Vinha do trabalho e notou: “Estava tudo estranho, as crianças corriam. Nessa hora, normalmente, estava tudo quietinho, todo mundo jantando. Tinham ido todas as irmãs embora. Todas. Não sobrou nenhuma.”

O internato fechou e ele foi deixado, junto de outros colegas, em uma casa da instituição, que passou a funcionar como república, administrada pelos internos. Os garotos ficaram encarregados de pagar as contas de luz e água, cozinhar e cuidar da limpeza. 

Nessa época, foi detido durante uma madrugada, tentando furtar uma oficina autoelétrica. Foi flagrado no telhado do imóvel, ao lado de um parceiro no crime, e levado para a Cadeia Pública de Águas da Prata, onde apenas menores eram recolhidos. À polícia, disse na ocasião que não havia levado nada do local e que não havia arrombado a porta. “Estava aberta.” A investigação apontou que, com sua detenção, foi possível esclarecer outros três furtos ocorridos em São João da Boa Vista, nas casas de duas mulheres — em um deles, os registros dizem que os “meliantes furtaram peças de roupas para seu uso”; em outro, que levaram um carrinho de kart. 

Solto depois de 23 dias, acabou encaminhado para uma pensão, onde, segundo um relatório da assistente social, “foi muito elogiado pela dona por sua educação e bom relacionamento”. Em dois meses, assumiu os custos do lugar. Trabalhou em diferentes empregos, como uma fábrica de giz. Os registros dizem ainda que, “durante esse período, envolveu-se por duas vezes em briga de rua, durante fins de semana em que se alcoolizou”.

Quando completou 18 anos, ele acabou desligado do sistema de atendimento social. “Dentro do possível, Cledoaldo foi preparado para seu desligamento. Está empregado, cuida de sua própria manutenção, mas tem problemas de comportamento que poderão ou não comprometê-lo futuramente”, escreveu, em seu prontuário, uma supervisora da Secretaria de Estado de Promoção Social.

Na vida adulta, tentou o sonho de ser jogador de futebol (conta que chegou a treinar na equipe de base do Guarani, de Campinas, mas vivia isolado e não se adaptou). Acabou mergulhando no vício em álcool e, posteriormente, em drogas ilícitas.

Aos 27 anos, chegou à comunidade terapêutica Projeto Fênix, entidade criada por iniciativa da Loja Maçônica Templários da Justiça, de São João da Boa Vista, no interior paulista. Ele ficou seis meses em tratamento e logo passou a auxiliar nas atividades do dia a dia. Fez um treinamento e, desde então, trabalha como monitor, com a incumbência de coordenar grupos, controlar os horários das atividades e a disciplina e acompanhar seus apadrinhados no programa dos doze passos, um método de apoio mútuo de recuperação desenvolvido nos Estados Unidos por Bill Wilson e Robert Smith, fundadores do Alcoólicos Anônimos, que tem como um dos seus pilares o compartilhamento de experiências por indivíduos que enfrentam problemas semelhantes.

Casou-se com uma mulher que trabalha como caixa de supermercado e tem uma filha de 7 anos. “Hoje finalmente sei o que é ter uma família. Minha esposa e minha filha estão me ensinando. É uma sensação realmente muito boa.”

Lá, conheceu o advogado Yuri Biasoli, que chegou em tratamento contra o vício, do qual mais tarde conseguiu se afastar. “Eu fiquei muito próximo do Credô, porque ele sempre me ajudou muito em relação a esse problema, de como a gente lidava com isso”, conta. As conversas sobre a história de vida de Cledoaldo despertaram sua curiosidade. “As únicas informações que tinha do passado são as que as freiras contaram para ele: que a mãe dele o tinha abandonado, assim como aos irmãos. Ele me disse que nunca conseguiu achá-los e eu me propus a ajudar a procurar. O que a gente precisava saber? Onde é que ele ficou? Como é que foi o começo? Então, eu pedi o prontuário dele em janeiro de 2022 para Fundação Casa. E depois que a gente recebeu alguns documentos, em fevereiro, eu pedi o prontuário da mãe dele, que demorou até mais para chegar.”

Com o colega Bruno Figueiredo, Biasoli levou o caso à Justiça, em busca de uma reparação. “O Estado, com sua negligência, provocou danos irreparáveis a Cledoaldo”, diz o defensor. Figueiredo argumenta que “era responsabilidade das instituições manter Cledoaldo e sua genitora juntos ou, na pior das hipóteses, coletar e armazenar dados precisos a fim de que, tão logo quanto possível, pudessem reuni-los”.

Ao condenar o Estado, o juiz Spessotto disse que, apenas em 1987, catorze anos após ter sido separado da mãe, houve diligências para se tentar descobrir o paradeiro de Maria Helena, uma informação tirada do conjunto de documentos. Anúncios foram publicados em jornais e rádios de Bauru, mas não houve sucesso – e Cledoaldo, diz, nunca soube de nada disso. “A negligência na gestão dos casos de Maria Helena e Cledoaldo resultou na separação permanente de mãe e filho, levando Cledoaldo a uma vida inteira de institucionalização”, citou o magistrado. 

Segundo o juiz, “o depoimento pessoal do autor do processo é um relato comovente e doloroso da experiência de uma vida marcada pela ausência materna e pelo sentimento de abandono, equivocadamente atribuído à sua genitora”. Ele tratou ainda na decisão da “preocupante questão do desaparecimento” de Maria Helena. Mencionou que os registros oficiais não comprovam o destino que lhe foi dado, “especialmente considerando o contexto da ditadura militar em 1973 e a condição da jovem como menor de idade e preta, grupo social historicamente mais vulnerável”. 

Vinte e nove anos depois do fim do regime autoritário, em 2014, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, lançou o livro Infância Roubada, reunindo relatos de indivíduos que foram separados de seus pais na ditadura militar (1964-85). Eram filhos de pessoas que contestavam o regime e que sumiram de uma hora para outra por razões políticas, alvos da repressão. Cledoaldo insere-se em uma categoria distinta, a das pessoas que foram vítimas do abuso do poder, do desprezo e do racismo. Sua história evidencia que as injustiças do período não se limitaram à perseguição ideológica, atingindo também aqueles que viviam à margem dos direitos básicos. 

Cledoaldo na semana passada, na fazenda onde funciona o projeto social que o tirou das drogas, para o qual trabalha hoje

 

Cledoaldo conversou com a piauí no início de novembro sobre os tempos em que viveu internado, a ausência da mãe e a crença de que ela o havia abandonado, transmitida ao longo dos anos pelas freiras das instituições em que morou. “Guardei muita coisa dentro de mim. Falava para as pessoas: ‘Está tudo bem.’ Mas, por dentro, estava gritando. Queria entrar em um buraco e não sair mais.”

Lembrou que, por ser criado entre as freiras e outras crianças no orfanato, “não sabia o que era pai e mãe” até certa idade. “Achei que o mundo era assim”, diz. Aos 7 anos, a professora de uma escola pediu que a turma fizesse desenhos para o Dia das Mães. Ao ouvir dele que era órfão, sugeriu que escrevesse um recado para uma das freiras. Angustiado, não saiu para o recreio — e esta é uma das primeiras lembranças de reflexão mais profunda sobre a própria história.  “Comecei a descobrir que estava faltando algo.” 

Na infância e na adolescência, se sentia deslocado e pouco amado. “A gente precisa de carinho, mas as irmãs não podiam dar para todo mundo, eram muitas crianças. Quando eu era jovem, tinha medo de falar com as pessoas e ser desprezado.” E se incomodava com questões cotidianas. “Quando vou ao médico e ele me pergunta se a minha família tem isso ou aquilo, respondo ‘não sei’, pô, como vou saber?”

Até hoje, ele não tem nenhuma pista do paradeiro da mãe. No prontuário, nem mesmo a fotografia dela foi arquivada. Não há número de CPF ou RG, nem a data do seu nascimento. Consta apenas que era empregada doméstica, filha de João Ribeiro, um “corta-lenha”, e Nair Ribeiro, “empregada doméstica”, e que tinha três irmãos: Antonio, 10 anos, João Batista, 7 anos, e Marcos Afonso, 5 anos. Há ainda a anotação da data em que, segundo o registro, foi enviada de volta para Bauru: 05/12/1973.

Cledoaldo afirma ter convicção de que vai descobrir onde a mãe está. “Tem os meus tios também, né? Então, uma hora a luta vai chegar nisso. Eu sinto. Acredito que eles estão me procurando também. Estou louco para achar minha mãe, para conhecê-la, para poder abraçá-la.”

A sentença que determinou o pagamento da indenização pelo Estado não é definitiva. A Procuradoria-Geral já recorreu, alegando ausência da responsabilidade civil do Estado. Disse que os documentos anexados nos autos não são suficientes para presumir a falha estatal, pois não se sabe se o autor do processo foi abandonado ou se houve alguma razão para não ter sido levado de volta a Bauru com a mãe. Declarou ainda que nunca houve procura por parte da mãe ou de familiares. “Sob a perspectiva da legislação vigente à época, foram tomadas as providências necessárias para tutela dos interesses do autor [do processo], não se vislumbrando qualquer falha estatal”, declarou a Procuradoria no recurso. 

Enquanto aguarda o novo julgamento, Cledoaldo afirma que mudou a sua relação com o passado. “Antigamente, se eu pensava na minha mãe, já murmurava: ‘Ela me abandonou, ela me deixou.’” Agora, diz que, sendo pai e sabendo mais sobre seu passado, vê as coisas de forma diferente: “Eu penso como foi difícil para ela, sabe…”

_________________________________________________________

Informações sobre familiares de Cledoaldo podem ser enviadas para o e-mail redacaopiaui@revistapiaui.com.br

_________________________________________________________

*A primeira versão do texto dizia incorretamente que o desembarque aconteceu no Terminal Tietê, que não existia naquela época. O desembarque provavelmente aconteceu no Terminal Rodoviário da Luz, mas não existe registro de que isso tenha acontecido

Assine nossa newsletter

Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí